(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Historia da litteratura portugueza .."

Google 



This is a digitai copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as pari of a project 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subjcct 

to copyright or whose legai copyright terni has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, culture and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the originai volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with librarìes to digitize public domain materials and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commercial parties, including placing lechnical restrictions on automated querying. 
We also ask that you: 

+ Make non-C ommercial use ofthefiles We designed Google Book Search for use by individuals, and we request that you use these files for 
personal, non-commerci al purposes. 

+ Refrain fivm automated querying Do noi send aulomated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machine 
translation, optical character recognition or other areas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materials for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attributionTht GoogX'S "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this project and helping them lind 
additional materials through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legai Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legai. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countiies. Whether a book is stili in copyright varies from country to country, and we cani offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search means it can be used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite severe. 

About Google Book Search 

Google's mission is to organize the world's information and to make it universally accessible and useful. Google Book Search helps rcaders 
discover the world's books while helping authors and publishers reach new audiences. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http: //books. google .com/l 



HISTORIA 



DA 



LITTERATURA PORTUGUEZA 



THEATRO NACIONAL NO SECOLO XVI 



HISTORIA 



DA 



LITTERATURA PORTUGUEZA 

Tomo i — ^Introduc^So à Historia da Litteratura portugue 

PRIMEIRA EPOCA 
(1114-1516) 

Trovadores a Cancioneiros 

Tomo ii — ^Historia da Poesia prò ventai portugueza. 
Tomo ih — Historia da Forma9ào do Amadis de Gaula. 
Tomo iv — Historia da Poesia portugueza no secalo xv. 

SEGUNDA EPOCA 

(1516-1578) 

Os Quinhentistas 

Tomo v — ^Historia do Theatro portuguez no secalo xvi. 
Tomo vi — Vida de Sa de Miranda e sua Eschola. 
Tomo vii — Vida de Camoes e sua Eschola. 

TERCEIRA EPOCA 

(1578-1820) 

Academias Litterarias 

Tomo viii — Historia do theatro portuguez nos seculos xvii e 
Tomo ix — Historia dos Seiscentistas. 
Tomo x — ^Historia da Arcadia portugueza. 

QUAETA EPOCA 

(1833-1864) 

Romantismo 

Tomo xi — ^Historia do Theatro moderno. 
Tomo xii — ^Historia da Arte em Portugal. 
Tomo xui — ^Historia da Lingua portugueza. 



HISTORIA 



DO THEATRO 



PORTUGUEZ 



POB 



THEOPHILO BRAGA 



VIDA DE GIL VICENTE e SUA ESCHOLA 



8ECUL0 XYI 



■^oOc^^ 



PORTO 

IMPBBirSA POBTUGUBZA — BDITOBA 
1870 







HISTOmil 00 THEUIO POBTOGUEZ 



NO SECULO XVI 



TAé, 

ADVERTBNCIA VII 

P^iodo hieratico-popolar 

OapituIìO I — Orìgens do Theatro portuguez 

(1193-1481) 4 

OiPiTULO n — Vida intima de Gii Vioente 

(1470-1536) 26 

Capitulo m — Do scenarìo e caracterisa^Oes 

deGil Vicente 60 

— Quadro synoptico da representa" 
fdo do8 Autos de Gii Vicente^ e 
prospecto chronologicopam a re- 
compo8Ìfào da ma vida (1502- 

1536) 163 

Capitui*o IV — Typos e costumes portuguezes 

dos Antos de Gii Vicente. . . • 168 
Capitui-o V — Gii Vioente conheeido fora de 

Portugal (1514-32, 1604-60) 190 



VI INDEX 

Eschola de Gii Vicente 

PAQ 

Capitulo I — Infante Dom Luiz (1506- 

1556) 201 

Capitolo ii — Affonso Alvares (1522) 208 

Capitulo ih — Antonio Ribeiro Chiado ( 1 542- 

1591) 226 

Capitulo IV — Jeronymo Ribeiro (1544)... 233 

Capitulo v —Luiz de CamOes (1539-1555) . 240 

Capitulo vi — Antonio Prestes (1530) 257 

Capitulo vii — Jorge Finto (1516-1522).. . . 268 

Capitulo viii — Anrique Lopes (1539-1587). . 274 
Capitulo ix — Manoel Machado de Azevedo 

(1536) 277 

Capitulo x — Baltbazar Dias (1578) 281 

Capitulo xi — Simào Machado 293 

Capitulo xii — Os Poetas anonymos 303 

Capitulo xiii — Os Pateos das Comedias (1588- 

1595) 314 



A. contar do seculo xvi, Com o predominio da so- 
ciedade burgueza, as creagOes artisticas receberam urna 
altera9ào profunda na sua ordem de concepQào ; o des- 
dobramento naturai: epopea, lyrisrìio e drama, inver- 
te-se de ora em diante por ìnflnencìa da renova^ào so- 
cial. A poesia dramaticaj que até aqui tinha side urna 
forma accidental da arte, toma-se a principal manifes- 
ta^ào do genio popular; a Inglaterra, a Hespanha e a 
Italia levantam o admiravel e riquissimo theatro euro- 
peu. A poesia epica, que fora a principio a obra em 
que trabalhava uma na^ào inteira, perdeu o seu cara- 
cter de generalidade anonyma, desnaturou-se, ficou 
privativa das Academias. A poesia lyrica, coni os sen- 
timentos e paixOes de uma sociedade nova, tornou-se 
mais ampia e individuai. E por isso que entrando no 
periodo da historia da Litteratura portugueza no secu- 
lo xvi, come^amos pelo theatro nacional, que bem po- 
deramofs ìntitular Vida de Gii Vicente, e sìia Eschola, 



vili 



Apoz este volume seguir-se-ha o estudo da poesìa lyri- 
ca, tornando corno centro da nova elabora^ào poeti- 
ca Sa de Miranda; n'esse livro trataremos particular- 
mente do theairo classico^ nào so comò um resultado 
da ìnfluencia italiana, mas porque sendo um trabalho 
de erudÌ9ào academica e sem condÌ90es scenicas, em 
nada revela a vida nacional. 



HISTORIA 



DO THEATRO 



PORTUGUEZ 



XjT\rTlO I 



PERIODO HIERATICO-POPDLAR 



Às crea^Oes dramaticas sào a expressào do caracter 
de um povo e da sua liberdade; eJlas téin por criterio a 
natureza e a simplicidade, e tornain-se ])or isso, corno 
flisse Shakspeare, </t« /or w and pressure o/the tirnes. A 
verdadeira originalidade està no genio da ra9a, que se 
mostra, apezar de todas as influencias da civilisa^ao. 
theatro hespanhol e o inglez apresentam na sua ri- 
queza genial a integridade de duas racas, nao confun- 
didas nein amalgamadas nas commo(^Oes politicas; as 
8Ua8 creacjOes sào as legendas e os sentimentos nacio- 
iiaes, em toda a siraples e naturai efflorescencia. De- 
poìs de reunidos os factos que constituem a Ustoria do 
1 



2 HISTOBIA DO THEATBO PORTUGUEZ 

tbeatro portuguez, tornou-se por si evidente urna bem 
triste conclusfto : que a arte dramatica entro nós nada 
tem de nacional, porque circumstancias invenciveis nào 
deixaram que o povo portugiiez conhecesse o theatro. 
povo portuguez é formado por està grande e fecun- 
da raga mo^arabe^ atrophiada na cren9a religiosa pelo 
catholicismo, na autonomia juridica pelo civilismo dos 
romanistas, na independencia politica pelo cesarismo 
monarchico, e nas crea9óes poeticas pela imita^ào da 
lingua e dos modellos classicos. 

Barraram-lhe todos os melos de manifesta^ào in- 
tellectual: com a reforma dos Foraes, no tempo de 
Dom Manoel, ficou o povo reduzido até hoje à condi- 
9ào de colono; com a inquisigào, do governo de Dom 
Joào III, perdeu a alegria e ficou um povo soturno, 
acostumado a espectaculos de morte. N*este lamenta- 
vel estado, corno tori a o povo portuguez esse riso ex- 
pansivo da burguezia do seculo xvi, que inventou por 
toda a parte o tbeatro? 

elemento aristocratico ou leonez, que predomina 
na racja portugueza, vivia na ociosidade da córte, dila- 
pidando o que o moffarahe arrancava do sólo com tra- 
balbo; para esse a Arte nada tinba de vital, era um pas- 
satempo dado por occasiào das festas reaes, e uma 
moda seguida nas cortes da Europa, que os nossos mo- 
narcbas imitaram tambem. Pela sua parte opovo, ve- 
xado pelo fisco, pela empbyteose manoelina, pelos di- 
zimos, pelos exercitos permanentes, pelas ordens men- 
dicantes, pela desigualdade das classes, pelo fanatismo 



NO SECULO XVI 3 

religioso, cahiu em um tal cretinismo, que é Portngal 
o paiz unico aonde nao existem festas nacionaes. Sem 
tradi^Oes nào ha theatro; as tradi^Oes da historia por- 
tagneza estào nas paginas das chronicas monasticas, 
que o povo nào conhece. mosarahe ficou triste e des- 
confìado, incapaz de se apaixonar: a revohi^àode 1640 
foi feita pela aristocracia, e a revolucjao de 1832 nas- 
ceu da classe media, producto hybrido de colonos e ne- 
gociantes estrangeiros com a aristocracia. Anullado 
insensivelmente o elemento organico d'està ra^a, a 
nossa nacionalidade é uma fìc<;'ào pura. povo portu- 
giiez conheceu o theatro hieratico da edade media, a 
qae ainda hoje pelas aldeias se chama Anto, mas esse 
inesmo fraco rudimento, que o seu genio poetico po- 
deria desenvolver, foi-lhe prohibido com excommu- 
nhoes nas Co^ìstituifOes dos Bùpados. Alguns poetas, 
corno Gii Vicente, tentaram a funda^ào do theatro na- 
cional; deu-se eate phenomeno no «eculo xvi, justa- 
mente quando se consolidava o cesarismo, e o elemen- 
to mosarahe caia no ultimo grào de atrophia. Por isso 
forambnldadostodos os esfor(^os; a obra de Gii Vicen- 
te morreu com elle. A historia do nosso theatro é a 
narraijào d'este esforc^o sublime, mas infelizmente ar- 
tificial e nao continuado. 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



O.A^I>ITTJXjO I 



Origens do Theatro portuguez 



Da tradisse dramatica na edade media da Europa. — Os Nataea^ 
conio dranias liturgicos. — Vestigios do drama religioso, ci- 
tados e prohibidos nas Conslituigóes dos Bispados. — Os Mó- 
mo8, Entremezes e Autos conhecidos na corte de Aifonso v e 
Dom Joao li. — Festas pelo casamento da Infante Dona 
Leonor. — Enlremcz do Anjo, pelo Conde de Vimioso. — 
Festas pelo casamento do Principe Doni Affonso. — Gii Vi- 
cente frequenta a córte de Dom Joao ii, aonde recebe as 
suas primeiras ideias dramaticas. — Deve admittir-se a in- 
fluencia hespanhola das eclogas de Juan de la Bucina sobre 
o gonio de Gii Vicente ? Preferencia que se deve dar à in- 
fluencia franceza. 



theatro ininca desapparoceu totalmente da Eu- 
ropa; jà em 452, o Concilio de Arles excommungava 
08 que se entregassem aos jogos scenicos; o Concilio 
de Africa notava-os de infamia. Tambem o Concilio de 
Chalons em 813, o segundo Concilio de Reims, e o 
terceiro de Tours, condemnaram os jocos dos histrioes, 
próhibindo aos bispos o assistirem a elles. (1) Do 
mesmo seculo da fundac^ào do reino de Portugal, en- 
contramos um documento, que nos descobre o fio da 
tradi^ào dramatica; é a palavra Arremedilho^ que o 
erudito Santa Rosa de Viterbo interpreta comò urna 



(1) Nao tem conta as authoridades que comprovam està 
verdade ; podeni vér-se nas : Mem. de l'Acadeinie des Inscri- 
ptions et Belles-Lettres, t. xxvii, p. 219 a 226 : — Memoires sur 
les jeux sceniques des romains et sur ceux qui ont precede en 
France la naissance dupoeme dramatique, par Duclos. 



NO. SECULO XVI 6 

especie de far^a mimica. Notavel coincidencial Come- 
9aria o theatro portugiiez pelas pantomimas rudes, e 
nào conheceria nunca o nesso povo outra forma, por 
isso que a unica designa9ào dramatica inventada por 
elle foi a palavra bonifrateì (1) Eis o que diz Viterbo 
àcerca da palavra Arremedilho : «No anno de 1193, 
El-rei Dom Sancho i, com sua mulher e filhos, fizeram 
doagào de um Casal dos quatto, que a coróa tinha em 
Canellas de Poyares do Douro, ao farsante ou bobe, 
chamado Bonamis, e a seu irmào Acompaniado, para 
elles e seus descendentes. E por confirmagào ou re- 
hora^ se diz: Nos mimi supranominati debemus Domi- 
no nostro Regi prò roboratione unum arremedillum.» (2) 
Assim corno a influencia da lingua d'Oil vulgarisou 
em Portugal as tradigOes epicas da edade media, por 
a mesma via nos vieram as ideias dramaticas ; o nome 
de Bon Amis^ a quem Dom Sancho fez a doa^ào, assim 
leva a crér; foi pela exigencia de um servilo feudal 
grotesco que appareceu em Portugal a primeira ideia 
do theatro. Tambem pelo symbolismo juridico dos 
nossos foraes, o espirito communal francez nos fez 
imitar os grandes dramas ou cerimonias da penalida- 
de? (3) Ainda que o genio provengal nào conhecesse a 
forma dramatica, foi egualmente pela influencia da 
lingua d'Oc na aristocracia portugueza, que nos pri- 

(1) Nome puramente portuguez dos espectaculos a que os 
heBpanhocB chamam titeres, e os francezes marionettes, 

(2) Dog. da Torre do Tombo, apud. Elucidarlo^ v.° cit. 

(3) Bistorta do Direito portuguez, p. 56. 



6 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

meiros secuIo8 da monarchia se conheceram as Cortes 
de AmoTj qae teni vagas analogias com os espectacu- 
lo8 scenicos. No Cancioneiro da Ajuda vem estes ver- 
808, que nos fazem presentir a existencia d'essas Cor- 
tes, em que se debatia entro damas e cavalleiros urna 
intrincada casuistica sentimentai: 



E vej'a muitos aqui razoar: 
Que a mais grave coita de soffrer 
Veela ome, e ren non Ile dizer, etc. • 



povo, que desconhecia està poesia subtil, can- 
tava as suas prosas e hymuos farsis na liturgia christà, 
até que a pressào do catholicismo Ihe impoz silencio. 
As Constituigóes dos Bispados de 1534 a 1589, reve- 
lam-nos na sua probi bigào urna poesia dramatica bas- 
tante arreigada nos costumes populares : ellas nào per- 
mittem que se fagam representagóeSj ainda que sejam da 
Paixào de nosso setikor J, C. ou da sua ressurreigdo ou 
nascenga.ì> (1) 

Se advertirmos, que o povo nào admitte de repente 
costumes novos, nem os abandona com facilidade, te- 
mos por està prohibicào canonica deterniinada a exi- 
stencia de um theatro hieratico em Portugal nos tres 
ultimos seculos da edade media. A adversativa aindu 
que^ mostra que nào eram semente espectaculos reli- 
giosos OS que se usavam. espirito aristocratico do 
Concilio de Trento procurava banir o costume simples 

(1) Const, de Evora, const. x, tit. 15, anno de 1534. 



NO SECULO XVI 7 

e naturai do povo; mnitos Autos de Gii Vicente ainda 
foram representados Das Egrejas. Às formas liturgicas 
do christianismo erarn eminentemente dramaticas e o 
povo tornava parte nas cerimonias do culto; quando 
Gii Yìcente escreveu, a sua primeira forma foi a das 
VigUias do NataL 

A inedida que o poder real se consoli da va, a vida 
daDa(^ào ia-se concentrando na córte; é por isso que 
antes de terminar a edade media, vemos obliterarem- 
86 OS signaes da vida d'este povo. theatro tomou-se 
apanagio das festas do pa^o. Aonde reinava o despo- 
tismo, ai se extinguia a espontaneidade da expressào: 
a forma mais usada nos divertimentos scenicos da cór- 
te de D. Affonso v e Dom Joào ii era a mimica. No ca- 
samento da Infanta Dona Leonor, irmà de el-rei Dom 
Affonso V, com o Imperador Frederico ili da AUema- 
nta, representaram-se varios MómoSj a que um poeta 
do Candoneiro geral^ tambem chama Autos: 

Eram vossos tempos Autos, 
Nas festas da Imperatriz, 
Mas agora calar chyz, 
Nem é tempo de crisautos. (1) 

Estes versos sào de Duarte de Brito, a Joào Go- 
Diesda Uba; em Ruy de Pina achamos refendo este 
mesmo facto, narrando, que representaram nos Mòmos 
el-rei D. Affonso v e os infantes seus tios, talvez o in- 

(1) Ckmc, ger. fl. 47, v., col. 2. 



8 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

fante D. Henrique. (1) Aragào Morato, na sua bella 
Memoria sobre o Theatro portuguez, diz, que: «Os Mómos 
nào passa vana ordinariamente de representa90es mimi' 
casy acornpanhadas de dan9a, que precediam quasi sem- 
pre as justas e torneios, e Ihes serviam de desafio.» (2) 
E em outro logar accrescenta : ccÉ verdado, que estes 
mómos e entremezes nem sempre eram mudos; muitos 
d'elles diziam palavras apropriadas ao caracter das 
pessoas, que representavam», etc. Dom Alfonso v visi- 
tou a corte franceza, aonde eram muito usados ps di- 
vertimentos dramaticos, e comprehendeu a pritneira 
Ilenascen9a da Italia, mandando ali estudar os artistas 
portuguezes. Foi pela influencia da Italia no seculo xv, 
que entrou em Portugal e em Franca a designagào de 
uma forma dramatica Entremez, Em uns versos de Al- 
varo de Brito, Qucontramol-o com essa origem : 

Por Framengos, Genovezes 
Frorentyns e Castelhanos 
mal DOS vindo 
com seus novos entremezes, 
dam-no8 trinta mìl avanos, 
vam-serindo. (3) 

E tambem estes versos de Duarte de Besende: 

Nom ha hy mais antremezee 
no mundo unyversal, 
do que ha em Portugal 
noe Portuguezes. (4) 

(1) Chron.de D, Affoneo F, cap. 131. 

(2) Mem. cit.^ pag. 45 e 46. 

(3) Cane, geral. io\. 25, col. 2. 

(4) Id. fol. 135, col. 1, etc. 



NO SECULO XVI 9 

Dom Jo&o II tambem seguia a norma de seu pae; 
mandava os artistas portaguezes aperfei^oarem-se à 
Italia, e elle proprio teve relacòes directas com Angelo 
Poliziano, qne foi um dos primeiros que no seculo XY 
come^ou na Italia a imitag&o de theatro classico ; o seu 
Orféo^ foi tambem escripto para uma festa palaciana. 
Nada mais naturai do que terem, ainda no seculo xv, 
chegado a Portugal as noticias d'estes primeiros si- 
gnaes de \ada do theatro na Italia. Besta-nos apresen- 
tar um exemplo d'esses Mómos^ e Entremezes. 

Nos divertimentos dos serOes da corte de Dom 
Joào II, encontramos uma representa^ào scenica, in- 
ventada pelo Conde de Vimioso: ^Mómo que fez deia- 
vyndoj no quali levava por antremes huum anjo e um 
diabo, e ho anjo deu eHa cantigua a sua dama: 
«Mujto alta e ey9elente e poderosa senhoral 
«Por m'apartar da fée em que vivo, muytas ve- 
zes fuy tentando d'este diabo, e de todas mynha fyrme- 
za pode mays que sua sabedoria, porque tam verda- 
deiro amor de tam falssas tantagOes nam podya ser 
^en^ido. E conhegendo em seus esperimentos a gran- 
deza de mynha fee, me tentou na esperanga, pon- 
do dianté inym a perda de mynha vida e de minha H- 
oerdade, avendo por empossyvell e remedyo de mais 
males. E com todas estas cousas nào me venderà, se 
niays nam poderam os desenguanos alheos que o seu 
enguano, com as quaes desesperey e fuy posto em seu 
poder. Mas esté anjo qne me guarda, vendo que my- 
nha desesperauQa nam hera por myngoa de fé^ nem 



10 HISTORIA DO THEATRO PORTUQUEZ 

mynha pena por mynha culpa, se quys lembrar de my 
e de quem me fez perder, em me trazer aquy, porque 
com sua vista o diabo me soltasse, e elle vendo meus 
danos, da parte que n'elles tem se podesse arrepender. 
nCantiffa que deu (recitou) o Anjo: 

ttSenhora, no quìere dios 
que seays vos ome^yda. 
em ser elh' alma perdida 
de quem se perdio por yós 

Ordenó vuestra crueza, 
qu^este triste se matasse 
en dexar vos, y neguasse 
vuestra fee, qu'es su fìrmeza. 
Mas ha permitido dios, 
que por my fosse valida 
su alma, y que su vyda 
se toma perder por vos.» (1) 

Eis o quo era um mómo ou entremez usado no 
corte de Dom Joao ii. Muito antes do monologo da 
Vaqueiro de Gii Vicente, representado era 1502, ve- 
mos nos poetas do seculo xv allusòes a entremezesj e 
este do Conde de Vimioso é um excellente modello con- 
servado por Garcia de Resende. Podemos chamar-lhe 
o Entremez do Anjo; aqui apparecem quatro persona- 
gens: 

1 A ALMA. (Representada talvez pelo proprio Con- 
de de Vimioso, que recita a allocu^ào em prosa, tendo 
a seu lado o Anjo da guarda, que o protege e o Diabo, 
que o tenta.) 

(1) Canciotieiro geral, fl. 86, col 1. 



NO SECULO XVI 11 

2 Aì^JO (Que recita a cantiga em hespanhol, di- 
rigìndo-se à dama desavinda de amores.) 

3 DiABO (Personagem mudo, e que occupa o se- 
gundo plano.) 

4 A DAMA (Tambem personagem muda, occupan- 
do primeiro plano, por isso que para ella se dirigem 
as falas dos dois primeiros actores. 

Entre as poesias do Conde de Yimioso existem 
algumas com allusOes a factos de 1471, e por aqui se 
póde fazer ideia da antiguidade dos ensaios dramati- 
C08 em Portugal. 

Em vista de todos estes factos que allegamos, de- 
ve-se passar um tra^o sobre essa assergào que por ai 
corre: «E so do principio do seculo xvi que data entre 
nós a introducQào das representa^Oes dramaticas com 
08 primeiros ensaios de Gii Vicente, Debalde remon- 
taremos nós até aos mais remotos tempos da monarchia 
em procura de alguma cousa, que nos de urna ideia do 
conhecimento d'està arte entre nós-antes d'aquella 
^poca.» (1) Pela occasiào do casamento do Principe 
Dom Affonso, filhode Dom Joào ii, os artistas que 
voltaram de Italia, acharam occasiào de inventarem 
curiosos macbinismos para os divertimentos dramati- 
cos. Nos Mómosj representados em Evora por està oc- 
casiào, Dom Joào II entrou tambem em scena; (2) na 
porta de Avis, na mesraa cidade, se representou o pa* 

(1) Ohras de Gii Vicente, edigflo de Hamburgo, no Prolo- 
go, calcado sobre a Memoria de Aragào Morato. 

(2) Vida de D, Jo&o 11^ por Garda do Resende, cap. 126. 



i 



12 HISTORIA PO THE ATRO PORTUGUEZ 

raiso. (1) Na sala da céa, entrou urna represeiita9ào 
do Rei de Guiné, acompanhado de tres gigantes de 
mais de quarenta palmos, e de urna mourisca em que 
iam duzentos homens, extremados balarinos; (2)n'esta 
mesma sala se representou o entremez, em que os acto- 
res vinham metidos em urna fortaleza. 

Jà em 1481 encontràmos na córte de Dom Joào ii 
estas festas scenicas, descriptas em Ruy de Pina: «E 
à tercja feira logo seguinte, houve na salla de madeira 
excellentes e ricos mómos, antre os quaes El-Rei, pera 
desafiar a justa que havia de manteer, veio primeiro 
momo. envencionado cavalleiro do cime ( Cavalleiro do 
Cyme) com muita riqueza, graga e gentileza, porque 
entrou pelas portas da salla com bua grande frota de 
grandes naaos, mettidas em pannos pintados de bra- 
vas e naturaes ondas do mar, com grande estrondo 
d'artilherias que jogavam, e trombetas e atabales e mi- 
nistrées que tangiam, com desvairados gritos e alvo- 
ro9os d'apitos, de fingidos Mestres, Pilotos e Marcan- 
tes vestidos de brocados e sedas, e verdadeiros e ricos 
trajos Allemàes.)) (3) Ayres Telles de Menezes, des- 
crevendo as festas que se fìzeram pelo casamento do 
principe Dom Affonso, filho de Dom Joào ii, diz : 



(1) Idem, ib. cap. 122. 

(2) Id. cap. 123. 

(3) loeditos da Historia portugucza, Chron, de D. Joào 
Ily de Ruy de Pina. pag. 126. 



NO SECULO XVI 13 

Depois ledoB langedores, 

A a vinda da prìnceza, 
Fizeram fortes rumores, 

Espanto da natureza; 
Barcas e locu fizeram, 

E outraa representa^es^ 
Que a todos gram f azer deram, 

Conforme suasten^òes. 

Gii Vicente nào tinha que impiantar; eram da eti- 
queta da córte estas representagóes a que alludern os 
versos de Ayres Telles, muito antes de se representa- 
rem as Cortes de Jupiter, na partida da Infanta Dona 
Beatriz para Saboya. Um outro erro que vulgarinen- 
te corre, é julgar-se que Gii Vicente deveu a ideia dos 
Autos pastoris ao castelhano Juan de La Encina. (1) 
SeÌ8 das Eclogas de Encina, sào dialogos represen- 
tadospelas festas do Natal, da Pasehoa, e do Carnaval, 



(1) Diz J. V. Barreto Feio, no prologo da edi^fto das Obras 
de Gii Vicente : «é necessario convir em que o castelhano Juan 
<Je la Encina, e nfto os Francezes. foi o modelo sobre que Gii 
Vicente compdz as suas primeiras produc95e8 dramaticas. Em- 
^rase diga que as coinposÌ90es de Encina nfto passam de sim- 
ples eclogas ; o assuiiipto, a dÌ8posÌ9ào, o estyllo, enifiin scenas 
inteiras iinitadas, mostram que estas eclogas sao a mesma cou- 
^que OS -4w/o« pastoris de Gii Vicente coni diverso nome.)) 
Ha aqui manifesto erro ; as scenas de que fa/.em paradigma 
(p»g. xxxviii-ix) nao encerram plagiario ; tanto pertencem 
a Encina, conio aosNatacs francezes. Emfira, as litteraturas do 
Melo Dia da Europa, na edade media, formam uni todo simi- 
'[>«nte, proveniente mais da unidade das ra9as e civilÌ8a9ào la- 
tina, do que da imita9ao particular. Ticknor tambem appre- 
8euta Juan de la Encina, corno f undador do theatro portuguez. 
(Cap. XIV, pag. 296 da Historia de la Literatura hespanola,) 
i um erro que nao custa a propagar, mas que se tira difficile 
inente da tradÌ9ao. 



U HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

na Capella do Duque d'Alba. Eram os mesmos usos da 
Egreja e do povo hespanhol; Gii Vicente seguili os 
costumes de Portugal, comò Encina obedecia aos da 
sua patria, aonde as Consti tuigOes dos Bispados prohi- 
biram tambem esses divertimentos. 

Gii Vicente freqnenton a corte de Dom Joào ii, 
comò mostraremos adiante citando uns versos seus a 
rainha Dona Leonor, mulher do Principe perfeito^ e 
que se acham no Cancioneiro de Resende. Em urna 
nota do Auto Pasforil Castelhano^ feito a pedido da 
rainha, viuva de Dom Joào ii, diz a proposito do ver- 
so: «Conociste a Juan Domado» — «Juan Domado di- 
zia por El-Réi Dom Joào ìi.» auctor do prologo 
da edigào de Hamburgo nào tendo algum documento 
para affirmar a presenta de Gii Vicente na córte de 
Dom Joào II, teve logicamente de acceitar a influen- 
eia de Juan de la Encina, sobre a manifestac^ào de seu 
genio dramatico. • Os versos muito citados de Garcia 
de Resende, em que diz de Gii Vicente: 



Foi elle que inventou 

Isto cà, e o U80U 

Coni mais gra^a e mais doutrìna, 

Postoque Juan del Encina 

Pastori! come^on. 



nào tem auctoridade historica ; Resende era um poeta 
satyrico, centra quem todos os poetas palacianos seus 
contemporaneos atiravam engra^ados motejos, a que 
elle respondia com rauito cbiste. Pela sua obesidade 



NO SECULO XVI 15 

Gii Vicente Ihe chamava peixe tamhoril; Besende vin- 
gon-se, negando-lhe a originalidade dos seus Autos. 

que faria suppór que Gii Vicente devera a in- 
spiraQào dramatica a Juan de la Encina seria a noticia 
que deixou o chronista Mendez da Silva: «Alio de 
1492 commengaron en Castilla las compafiias à repre^ 
sentnr publicamente comedias por Jnan del Enzioa.» (1) 
termo comediafty que emprega Mendez da Silva é im- 
proprio; e o representar puhlicamentey refere-se confor- 
me entende Ticknor, simplesmente às casas particn- 
lares para onde era chamado, ou que o protegiam. Gii 
Vicente so o poderia conhecer pela leitura das suas 
obras publicadas em 1496, que principiam por para- 
phrases das eclogas de Virgilio; e por conseguinte 
tinha forra as menos vagas e mais determinadas que 
imitar. Na Ecloga v, Juan de la Encina refere-se à 
morte do principe Dom Affonso em 1491; é naturai 
qne està fosse conhecida na córte de Dom Manoel em 
1496, por isso que essa catastrophe inspirou bastantes 
elegias aos poetas contemporaneos^ 

Aragào Morato é de opiniào, na sua erudita Memo- 
'•ia iobre o iheatro portuguez, que Gii Vicente nào 
imitara o theatro hespanhol : a:Mais possivel é que os 
Francezes dessem a Gii Vicente a primeira ideia de 
composi^òes dramaticas, segundo o ponto de vista em 



(1) Rodrigo Mendes da Silva, Catalogo da geneologia Real 
à^Henpanha, fol. 200 verso ; em Ticknor, t. i, pag. 291 da 
BitU da Lit, ffesp. 



16 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

que elle as tomou: pois é certo que depois de passada 
a primeira metade.do secalo xv tinha adquirido em 
Franca grande celebridade a representa^ào da Historia 
da vida de Christo, por Joào Michel, e a da Farga do 
Advogado Pathelin, Gii Vicente podia ter seguido os 
authores d'estes dramas, ou encontrar-se casualmente 
com elles na escolha dos assumptos, e no caracter que 
deu às suas composi^Oes : quem preferir a primeira 
opiniào, poderà talvez achar alguma similhan^a entro 
a vida de Jesu Ghristo representada pelo author fran- 
cez e o Breve Summarìo da Historia de Deos desde o 
principio do mundo até a Resaurrei^ào de Christo, repre- 
sentado pelo portuguez ; e reflectir que as trovas e en- 
seladas de Pranza, cantadas no firn d'algumas pegas de 
Gii Vicente, mostram o conhecimento que este tinha 
da poesia franceza, e o apre9o que fazia d'ella.» (1) 

Em 1331 jà OS jograes, e menestreis tbrmavam um 
bairro à parte; pouco faltava para constituirem urna 
gerarchia social parodiando as existentes; tinham o 
nome de Prince des saults ou des SotSj d'onde veiu a 
designacjào às suas narrativas dialogadas de Soties ou 
Sotises, Em 1339, no tempo de Carlos vi, alguns bur- 
guezes emprehenderam um theatro no bairro de Sam 
Mauro, a fini de representarem por figuras os myste- 
rios da Paixào de Christo. Era um meio de nào incor- 
rer no anathema permanente dos Conci! ios. Carlos vi 



(1) Idem, Mem. cìt. p. 48 da Historia e Mem, d^Acad., 
t. V, p. u. 



NO SECULO XVI 17 

permittìu qae o theatro se mudasse para Paris, e por 
cartas patentes de 4 de Dezembro de 1402 deu-lhe o 
privilegio exclusivo d'essas representa^Oes, e o titulo 
de Confrades da Paixào. Os jograes e os escreventes 
jndiciaes nào se tiveram que nào inventassem um ge- 
nero novo de representa^ào, para illudir o privilegio de 
Carlos VI. A edade media estava farta de chorar os 
soffrimentos de Christo. Tinha vindo a reac^ào do ri- 
so; o povo conhecera que era do riso que nascia a 
sua salva^ào. Os histriOes e escreventes judiciaes, 
qne formavam a classe da Bazoche, tratavam de porto 
povo para conhecerem bem, os seus instinctos. Os 
Enfans sana souci^ subditos do PHnce des Sots^ eleva- 
ram os seus dialogos informes a urna maior perfei<;:ào. 
A Sotie a principio devota, tornou-se em breve mor- 
dente, condemnando todos os preconceitos do tempo, 
e todos OS abusos do poder. Os Bazochianos nào po- 
(iiam invadir o privilegio da Con/varia d>a Paixdo; 
oostnmados a verem continuamente as far^as juridicas 
que se representavam no fóro, observando continua- 
mente OS symbolos da penalidade grotesca que entao ti- 
nham um valor legai, sabendo profundamente da vida 
do povo, porque elle a manifestava nas pe^as judi- 
ciaes, de que os Bazochianoa extrahiam copia authen- 
tìca, era-lhes facil inventar uma nova fórma dramati- 
ca. Comegaram por allegorias moraes e devotas, comò 
apresenta^ào para serem acceitos pelo seu tempo; fa- 
cil Ihes foi dominar e dirigir o gesto. publico nào 
sentin a passagem naturai que elles fìzeram das Mo" 



18 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

ralidades vagas e sera realidade para a far^a juridica 
da vida do povo, em que misturavam o divino com 
o profano, satyrisando ludo, tornando as gerarchias 
sociaes eguaes perante a gargalhada. Póde-se dizer, 
que foram os Clercs de la Bazoche que inyentaram a 
moderna comedia de caracter. Assim a Confraria da 
Paixàù^ vendo cerceados os seus interesses, alargou o 
seu repertorio, e fez MysteAos de tudo. Os mysterios 
da Paixào jà pouco deixavam; tornaram-se insensivel- 
mente profanos. publico impunha estas exigencias. 
A moderna comedia foi tirada dos symbolos juridicos; 
crearam-na os Bazochianos. A celebre far^a do Advo- 
godo Pathelin é o monumento do genero ; Pierre Blan- 
chot, o seu auctor, era Bazochiado. Entro nós Gii Vi- 
cente nfto imita os Mysterios; pelo menos nào se encon- 
tra entre as suas obras nenhum Auto da Paixào ; os 
Antos do Natal sào villancicos, que jà existiam nos 
, U808 da poesia do povo. que mais apparece nas 
suas obras sào Moralidades hazocManas, Elle mesmo o 
era. As noticias da sua vida nos dizeni que estudara 
direito na Universidade. que é a far^a do Juiz da 
Beira senào urna remihiscencia de alguma anedocta 
juridica? Antonio Prestes, seu imitador, é tambem 
um bazochiano; foi enqueredor do civel era Santarera, 
e o Auto do Procurador é composto das anedoctas do 
officio. Antonio Ribeiro Ghiado era frade francisca- 
no; deixando a cugula monastica pela palheta de far- 
gante, mostra os Mysterios da Paùcdo a converterem-se 



NO SECULO XVI 19 

nas Sotiea, qne o genio comico da burguezia da èdade 
media estava pedindo. 

Os personagens que figuravam uas representa^òes 
dramaticas, eram ociosos de bom gesto, levando urna 
vidaairada^as mais das vezes comprommettida em amo- 
res aventurosos, defendendo-se com chistes, pondo sem- 
pre do seu lado o povo com o gracejo repentino e allu- 
sivo. Eram da classe judicial, advogados de cauaasper- 
didasj soubz Vorme, comò diz a velha phrase symbolica 
de Pathelin. A renascen^a do Direito romano, o mix- 
tiforìo do direito canonico, os costumes locaes, e òs ca- 
808 julgados segundo a Biblia, tinham tornado nm la- 
bjrintho a justi^a. Crescia de dia para dia o numero 
dog procuradores ; jà nào podiam por si dar aviamen- 
to a tantos processos ; come^aram a ter serventuarios 
que soubessem lèr e escrever, ou os clerc8, e escholares. 

À grande tendencia da di\àsào das classes na eda- 
de media, fez dos clercs uma corpora^ào distincta, — a 
Bazoche, a que Philippe o Bello concedeu privilegios de 
umajarisdi^ào particularem 1303. A bazoche tornou- 
wuma especie de parodia doestado social, consti tuin- 
do-se em reino, com uma córte formada dos pinndpea 
da bazoche. Eram rapazes, com a veia comica acerada, 
ridiciilarisando tudo, os preconceitos do seu tempo e 
avenalidade dos magistrados; simulavam causas que 
poblicamente defendiam; assim ia nascendo uma figu- 
ra9§o dramatica, tomando um acto da vida, que apre- 
sentava todos os incidentes de uma ac^ào, pelo seu lado 
comico. Foram elles, segundo o abbade d' Aubignac, os 



2» HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

primeiros comediantes. No secalo xv, jà o reino da 
Bazoclie era urna confraria dramatica, qua a facul- 
dade de theologia de Paris censorava^ pelas insolen- 
oias das suas Moì^alidades. Os bons doutores encomi 
inodavam-se com as allusOes que Ihes passavam pela 
porta. A Bazoche^ no meio das suas representa90es, 
niiikca perdeu o caracter de tribunal judicial ; era, conio 
diz Victor Fournel, um tribunal comico diante do qual 
oompareciam, em certos tempos, os altos tribunaes en- 
carregados da sanc^ào das leis. Na linguagem verna- 
cvila de Jorge Ferreira encontramos a palavra bajou" 
fftiice, que lembra està designa^ào franceza. 

Os bazochiano» caracterisavam^se de modo que Ihes 
conhecessem na expressào a physionomia das suas vi- 
ctimas. £m 1511, representaram no dia de entrudo o 
Papa Jnlio ii, feito Prince de Sots, instigando os se- 
nhores a atrai^oarem o rei, os sacerdotes a abandona- 
rem a egreja, e a correrem todos à pilhagem. 

£ oste mesmo genio de censura mordente que ap 
parece sempre nos Autos de Gii Yicente : 

Pastores das almas, Papas adormidos 
Feirae o car&o que trazeis dourado. 

No seu Auto da Feira, principalmente, Roma ^ 
comprar paz, e se nào achar o que busca promett 
vir a falar mourisco. Depois o Diabo oflFerece-lhe 
o que vende: 



NO SBCULO XVI il 



Mentiras pera senhoret, 
Mentiras pera senhoras, 
MetìtiraB, que a todas horas 
Yos nas^am d*ellas favores. (1) 



Roma porém conta que levare o qne quizer a trooo 
deìndulgencias, que é o thesouro conoedido, para ulna 
T6mÌ88&o qualquer. A cada verso transpiram as ideias 
profandas da Reforma, que os altos espiritos entro nós 
tiaham comprehendido, comò S4 de Miranda, Antonio 
Pereira Marramaque, Gii Yicente e Dami&o de Gk^es. 
Como bazochiano^ Gii V ioente era actor e auctor» A 
hajouguice entro nós era composta principalmente dos 
estudantes da Universidade, que Gii Yicente tambem 
cursara; eram elles que representa vam» Na dedicato- 
ria da Comedia de BrUto^ diz o Dr. Antonio Ferreira, 
que tornava a sua obra comò milagre : cPorque seti- 
dò a primeira cousa de homem t&o mancebo^ feita por 
8Ó seu desenfadamento em certos dias de ferias, e ain- 
da esses furtados ao estudo, quem orerà, que comò cou- 
sa para isso de dias ordenada, e de Author grave com- 
posta, fosse por seu servilo nesta Universidade recebi- 
da, e publicada onde pouco antes se viram outras, que a 
^odas as do8 antiffoa ou levam^ ou nào dam vantagem.i^ 
Muitas das obras de Gii Vicente resentem-se da fór- 
ma jndicial, comò é por exemplo a Romagena de Ag- 
gf^vadosy em que entra Frei Pa90, o typo da clerezia 
tonsurada que se metterà no animo de D. Jofto iil; e a 

(1) 0bra8, t. I, p. 163. 



22 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Far^ do jaiz da Beira^ em que apresenta utn juiz de 
provincia, bo^al, estupido, obsecado, mas com al^um 
senso. Gii Vicente conhecia a Farfa do Advogado Pa- 
thelin, a obra prima da Basoche; as suas fargas vdo-se 
tornando de cavacter^ e tomam fundamento às vezes 
Bobre urna anedocta judicial. Sobretudo o Testamene 
to de Maria Barda ^ (1) condemnado pelo Index Ex- 
purgatorio de 1624, nos confirma n'esta opiniào. A 
far^a de Bathelin terminava pelo Testamento do advo- 
gado, imita^ào do celebre Testamento do bazoohiano 
Francois Villon. Era uma especie de gracejo, comò 
diz Génin, que dava no gòto d'aquelles bons maires 
da edade media. Testamento de Maria Barda é uma 
imitayào dos Testamentos de Blanchet, se é que se póde 
attribuir està composi^ào ao auctor do Bathelin, Ma- 
ria Parda morreu de sède, por nào encontrar vinho 
nas tavernas de Lisboa: 

E a sede que me matou 
Veuha pela clereaia. 

No Testamento de Pathelin, diz elle : 

Se je mouroye tout inaintenant, 
Je mourroye de la mort Kolant. 

A morte de Roland nas velhas epopéas era de sède, 

que para a estancar, bebia q sangue de suas feridas. (2) 

« 

ri) Obras, t. iii, p. 373. 

(2) Biblìophile Jacob, Maistre Pierre Pathelin^ p. 189. 



NO 8ECUL0 XVI 23 

Na nossa linguagem popular encontra-se a palavra 
pia^ por embriagar-se, tal, oomo se usa no velho fran- 
C5ez do citado Testamento: tJe vons pry quej'ayeà 
joyer,» do grego piein. (1) companfaeiro da bazoche 
Jean Bouchet, no epitaphio que compòz para o seu 
amigo Pierre Blanehet, dìz que no seu Testamento dei- 
xou tresentas missas, sem dinheiro para ellas: 



Après sa mort, dee messes bien troia cene, 
Et les paier de uostre bouree 



No Testamento de Maria Parda deixa ella o mestno 
numero de missas : 



Item dirfto per dò meu 
Quatro ou ciuco, ou dez trintairos, 
Oantados per taes vigairos, 
Que nfio bebfto menos qu*eu. 



Os dez trintairos sào as trezentas missas ditas, ou 
cantadas por do d'ella; ha tambem a ciroumstancia de 
nào dar dinheiro: 

Venha todo o sacerdote 
A este meu enterramento, 



Me venham cà sem dinheiro 
Até cento e vinte sete. 



(1) Opinifto do Bibliophile Jacob, loc. cìt., edì^. de 1859. 



24 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

As dìsposÌ90es testamentarias d^ifaria Pardaapro- 
ximam-se das de Patholin : 



Item inondo vestir logo 
frade allemào vermelho 
D^aquelle raeu manto veiho 
Que tem buracos de fogo. 



E Pathelin deixa: 



Et, à THostel Dìeu de Roiien 
Laisse et donne, de frane vouloir, 
Ma robe grise que j'eu ouen (naguère) 
Et mon meschant ckaperon noir. 



Gii Vicente representa entre nós o theatro da eda- 
de media, no estado a que o elevou a derida da ba- 
zoche; elle é um resultado dos costiimes da bur^^uezia, 
e por isso acompanha, ainda que um pouco extem- 
poraneamente, a vereda do theatro francez, italiano, 
inglez e hespanhol. 

O Papa Leào X abrira a sua córte a todos os artis- 
tas; cerca va-se de festas esplendidas com todo o orgu- 
Iho de um Medicis. Juan de la Encina foi ali acolhi- 
do; Bartholomeu Torres de Naharro, nascido na fron- 
teira de Portugal, cativo em Argel, veiu tambem para 
Roma e lan^ou-se a compòr comedias: «Viendo assi 
mismo todo el mundo en fiestas de comedias y destas 
cosas. » El-rei Doni Manuel queria imitar em grande- 
za e elegancia a córte de Roma ; tornaram-se celebres 
OS serOes de Portugal; discreteava-se em verso, repe-' 



NO SECULO XVI 25 

tìam-se os ditos jocosos, os chistes. Era urna eschola 
de primor e bora gosto. Gii Vicente ficou o poeta dra- 
matico da córte; vinha sempre com a sua comitiva de 
anjos e diabos e deoses da mythologia, e allegorias mo- 
raes fazer o elogio dos jovens que eram armados caval- 
leiros, ou das prìncezas que tinham de partir para lon- 
ges terras com seus soberanos esposos, que se dàvam 
por ditosos em levarem urna infanta portugueza. En- 
tào erara Autos apparatosos, tinha elle com qné, e via- 
se estimado. Na tragicomedia Exhartafdo de Guerra^ 
procura Gii Vicente exaltar os animos dos nobres don- 
zeis que partiam para Azamor; foi representada dian- 
te de Dom Manuel na despedida do Duque de Bragan- 
^a e de Gnimaràes. Era o dramaturgo cesareo; ne- 
nham dos seus Autos era para o povo; seriam vistos 
por elle talvez quando se representavam no convento 
de Enxobregas on de Thomar nas festas religiosas. 

As grandezas do seculo de Dom Manuel tornaram 
a sua córte a mais celebrada da Europa. Bartholomeu 
Torres de Naharro Tepresentava a comedia Trofea em 
honra d'el-rei Dom Manuel pela descoberta da India, 
uà córte de Boma, diante do Embaixador portuguez 
Tristào da Cuiiha. 

Visitemos a córte d'este monarcha faustoso, que 
esquecia no meio das suas venturas a existencia do 
povo portuguez, e falemos primeiro que tudo de Gii 
Vicente, do unico homem que teve coragem para Ihe 
dizer que o povo ainda vivia, e sofFria. 



26 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

OAJ»I1' UX jO II 

Vida intima de Gii Vicente 

A córte de Dom Joao ii frequentada por Gii Vicente. — Causas 
fataes que impediram ali o desenvolvimento do seu genio 
dramatico. — theatro portuguez ligado à historia de Portu- 
gal. — Protec9ao da rainha Dona Leonor, viuva de D. Jofio 
II, a Gii Vicente. — Vida intima de Gii Vicente e documen- 
toR sobre seus fìlhos. — Suas luctas com o partido clerical, e 
com 08 cultistas italianos. — Hypothese sobre o motivo das 
suas de8gra9as. — Determina9do da epoca da sua morte. — 
Caracter numanitario de Gii Vicente. — Sua protec9fto pelos 
judeus. — Gii Vicente foi o primeiro qne annunciou a Re- 
forma em Portugal. 



No meio das grandes tristezas, desastres e fana- 
tismo religioso, que eniutaram Portugal, so um homeirft. 
soube. compréhender que o rimedio para este languosr 
immenso era a risada franca, jà aconselhada no Pan,— 
taffnielde Rabelais. Gii Vicente é a alma da nacionali— 
dado portugueza, violentamente abafada por um exage— 
rado respeito pelo classicismo e pela censura repressi- 
va do catholicismo; lucton para nos restituir a alegris., 
mas foi afinal vencido pela for^a da inercia; triumphou 
o partido clerical, e ficàmos uma na^ào esterelisadst e 
sombria, vacillante «ntre a realidade das cousas e o 
pezadello da outra vida. 

Pouco ou nada se sabe de Gii Vicente, se nào r©- 
colhermos todos os fracos vestigios que deixou da sa^ 
personalidade nos Autos que representou na corte d^ 
dois reis prepotentes, fanaticamente selvagens. Nasceva 



NO SECULO XVI 27 

Gii Yiceate em Lisboa; (1) era de illustre linhagem, 
por isso quo o vemos em 1493 frequentar a córte de 
Dom Joào 11^ achando-se em Almada ao tempo em 
que nos serOes do pa^o corri a o processo amoroso de 
Vasco Abul; Gii Vicente tambem tomou parte no fei- 
to, corno poeta-jurista^ appresentando o seu parecer à 
rainha Dona Leonor. 

Por este tempo contaria vinte e tres annos de 
edìide, por isso que por deduc9óes se tem concluido ser 
anno de 1470 o do seu nascimento ; Gii Vicente cur- 
soa a Universidade de Lisboa, seguindo a faculdade 
deleis; conta-se por tradi^ào, e confirma-se pelo: Pa- 
re^ de Gii Vygente rideste professo de Vasco Abul a 
Traynka dona Lianor, (2) A rainha conhecendo-o jà 
corno engra^ado, quiz ouvir os arrasoados de Gii Vi- 
cente; elle cometa: 

VoB8*alteza me perdoe, 
eu acho muyto danado 
este feyto pro9088ado 
em que manda que rrazóe. 



Quem mete Bartolo aquy, 
nem os doutores legistas 
nem os quatro avangelistas, 
mas OS iiamorados ssy. 
matide, mande voss'alteza 
este processo a Arrelhano ; 



(1) Na tragicomedia Triumpho do Inverno^ f eìta nas f estas 
spela cidade de Lisboa ao parto da rainha D, Catharìna, 

' «À nossa Julia modesta.» 

(2) Cane. Geral, fi. 210, col. 6. 



28 HISTORIA DO THBATRO PORTUGUEZ 

vereys oom quanta graueza 
busca loys de eentyleza 
no lyndo estylTo Rroraano. 

Em urna rubrica do Cancioneiro tìhama-se-Ihé Mèè- 
tré Grily circnmstancia que leva a crèr, que jà a este 
tempo estaria graduado na Universidade. (1) 

A estima da rainha Dona Leonor, mulher de Dom 
Joào II, manifestou-se em muitas ontras oocasioes, ani- 
mandolo principalmente na composi<;&o dos sena An- 
toSy e fazendo-o lembrado de sen irmào el-rei Dom Ma*- 
noel) quando o poeta andava por algum tempo esque^ 
tjido da córte. Por estes versos de Gii Vicente, acha- 
dos dentro do Cancioneiro gefal de Garcia de Resende, 
80 ve que frequentara os serOes poeticos do tempo de 
Dom Jog,o II, e que a referencia a Juan Domadò no 
Auto Past<yi*il Caatelhano allude a este monarcha. A ra- 
sào porque os seus talentos dramaticos so appareceram 
no reinado de Dom Manoel torna-se agora evidente 
pela sua naturalidade; nas festas do casamento do 
Principe Dom Affonso em Evora, tinha Gii Vicente 
apenas vinte annos; no anno seguinte, em 1491, foi o 
desastre em que o principe, unico herdeiro, morreu, 
caindo de um cavallo abaixo em Santarem. Os poe- 
tas da córte celebraram a grande catastrophe, e a emo- 
Qào produzida no povo foi tal, que ainda hoje ee en- 



(1) Cane, geral. fl. 209, col. 6. 



SECULO X\n 29 

contram romances, comò o da Ma Mova^ e C<i8amento 

maUogrado^ em qne se conta esse tragico successo. (1) 

De facto a prìnceza Dona Isabel volton para Cas-' 

iella. Grande foì a impressào que està catastrophe do 

principe causou, que ainda dopois de quatro secalo» o 

povo lamenta nos seus cantos! Os seróes poeticos na 

córte de Dom Joào ii, redobraram, e todos os lìdalgos 

trabalhavam com os seus chistes e motes para distra- 

hirem a afflicta rainha Dona Leonor. È naturai que 

por este tempo o genio comico e folgasào de Gii Vicen- 

te o tornasse indi spensa vel para os seróes do pac^o, e 

qne a essas gra9as de vesso a constante amisade da 

rainha. 



(1) Aqui reprodiizimos a ultima versào, recolhida na iiha 
de Sam Jorge, que nfio póde entrar nos Canlos populares do 
Archipelago :, 

CASAMENTO MALLOGRADO 

Casa da de oito dias 
A janella foi chegar, 
Vira vir um cavalleiro 
Com um lencinho a abanar. 

— Novas V08 trago, senhora, 
Mui custosas de vos dar ; 
Vesso marido é morto 
Na praia do areial. 
Cahiu do seu cavallo 
Andando a passear ; 
Rebentou-lhe o fel no corpo, 
Està em rieco de escapar. 
Se vós o querele vèr, senhora, 
Tratae jà de caminhar. - 



30 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

Usavam rauito os trovadores palacianos tecerem 
processos amorosos, e por certo Gii Vicente inaugura- 
ria OS festejos theatraes, se a corte nào estivesse tao en- 
tristecida, e nào sobreviesse pouco depois a morte de 
el-rei Dom Joào ii, em 1495. Da corte de D. Joào ii 
data tambem o conhecimento com Garcia de Re- 
sonde, que colligi u os poucos-versos seus que andsun 
no procèsso de Vasco Abul ; no seu A.uto das Cortes de 
Jupitevj cita-o alludindo às muitas prendas com que 
se fazia valer diante de Dora Joào ii, comò poeta, comò 



Vestiu vestido preto, 
Por mais vagar Ihe nfto dar, 
Tres criados atraz duella 
Sem a podcr a]can9ar. 
O pranto que ella fazia 
Pedras f aziam chorar. 
Chegou à praìa do area] 
Seu mari do vira estar : 



— «Calae, condcasa, calae-vos, 
Nào me dobreìs o meu mal, 
Que o ver vosso desamparo 
A minha alma faz penar. 
Ide-vos para Castella, 
Onde tendes padre e madre ; 
Que sondes menina nova 
Que vos tornem a casar. 
((Esse conselho, marìdo 
Eu nfto no quero tornar, 
Heide-me ir pVa minha casa, 
Hei-me sentar a resar. 
Morte que levaes o conde 
Condessa vinde buscar. 



SECULO XVI 31 

o, corno desenhador, chronista, architecto, e pela 
Jìclade da gordura, que os outros poeta» chasquea* 

E Garcìa de Resende 
Teìto peixe tamhoril; 
E inda que ludo enfende 
Ira dìzendo por ende : 
Quem me dera uin arrabìl. (1) 

arcia de Resende pagou-lhe o reinoque, ferindo-o 
em na originalidade dos seus Autos, na Miscella- 
ionde descreve os successos do tempo: 

E vimos singularmente v 

Fazer r^)re8enta^M^ 

D'eBtyllo mui eloquente, 

De mui novas inven95e8 

E feitas por Gii Vicente. 

Elle foi que inventou 

Isto cój e o U80U 

Coni mais gra9a e mais doutrìna, 

Posto que Juan del Enzina 

pastoril comegou, 

^a, Ecloora v de Juan de la Enzina se allude à 

CI 

:e do principe Dom Affonso, o que leva a crér que 
j conhecida em Portugal, poréra nada havia ai que 
ar. A allusào de Garcia de Besende é malèvola, 
^imos as condi^Oes precari as em que o genio dra- 
co de Gii Vicente se achou no reinado de Dom 
► II; entreraos agora no seculo de Dora Manoel. 

1) Ohras. t. li, pag. 406. 



32 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

A origem do theatro portaguez està ligada a bis- 
toria de Portugal de moda, que se quìzermos indagar o 
seu principio, temos de lembrar os priraeiros episodios 
do reinado de D. Manoel. Pela morte desastrosa do prin- 
cipe D. Affonso unico filho e herdeiro de D. Joào ii, 
veiu a coróa a ser cedida pelo Principe Perfetto a seu 
primo Dom Manoel, tendo-o principalmente movido a 
està resoluQào sua mulher a rainha Dona Leonor, ir- 
mà do futuro monarcha venturoso; cora um grande 
sentimento de justi^a, e para restabelecer as esperan- 
9as primitivas, Dom Manoel casou com a viuva do 
principe Dom AfFonso, a princeza D. Isabel; d*este con- 
sorcio nasceu o principe D. Miguel, chamado o da Paz, 
morrendo a màe de parto, e succumbido em seguida o 
filbo passado mezes. N'este tempo alliava-se a felici- 
dade de Portugal e do povo aos destinos da corte! Foi 
um lucto geral. Para consolar el-rei Dom Manoel da 
immensa perda que acabava de soffrer, os conselheiros 
lembraram-lhe que pedisse a Fernando e Isabel monar- 
chas catholicos de Eespanha urna segunda fìlba e sua 
cunhada. De facto D. Maria, irmà da fallecida rainha, 
entrou em Portugal pelos fins do anno de 1500. po- 
vo depositava n'ella as suas esperan^as para a succes- 
sào do reino. A 6 de Junho, de 1502, em uma segunda 
feira, duas horas depois da meia noite, deu a luz o 
principe que veiu a ser el-rei Dom Joào ili. Assim 
comò Damiào de Goes, diz que D. Manoel admittia 
na sua corte os chocarreiros castelhanos, e Jorge Fer- 
reira se queixava de sq n^o cantarelli trovas senào em 



NO SEOULO XVI 33 

castelhano, é facil de explicar corno das quarenta e duas 
pe^as qne escreveu Gii Yicente, trinta e cinoo foram 
em parte ou totalmente esoriptas n'essa lingua. mo- 
narcha queria comprazer oom sua mulher, dando -Ihe 
08 folguedos da sua terra ; abrandava-lhe as saudades 
fazendo-a ouvir a sua lingua natal nas cantigas, nos 
romauces e nos Autos. Tal foi tarnbem a origem do 
theatro em Portugal, corno verémos pela representa^ào 
do Monologo do VaqueirOy que Gii Vicente representou 
Queste parto da Rainha. Quando se soube que a rainba 
ostava com as dòres de parto, o povo, com o clero e 
a fidalguia, foram de noite em procissào ao mosteiro 
de Barn Domingos, pedir misericordia a capella de 
Jesus; era uma commogào geral; logo às duas horas 
depois da meia noite se soube do nascimento do princi- 
pe DomJoào, e <a cidade, corno diz Frei Luiz de Scusa, 
e reino todo trocoù a tristeza em alvoro9o e conten- 
tamento; OS receyos em festas, que se affirma foram as 
maiores e mais custosas, que em muito tempo se nd.o 
tinhani visto em nascimento de principe, competindo 
entro si^todos os estados de gente, a quem darla maio- 
ressignaes de que cada um estimava aquelle bem.» (1) 
Foi n'esta conjunctura, que el-rei Dom Manoel con- 
sentiu divertirem a rainha com um passatempo usa- 
do na córte de seu pàe ; Gii Vicente jà conhecido nos 
saràos da córtp de IX Joào li comò poeta comico, veiu 

(1) Frei Lui» de Sousa^ Annaes de D. Jodo ii, p. 2, 
3 



34 HISTORIA DO THEATRO PORTDGUEZ 

aos Pagos do Castello aonde nascerà o principe, visitai 
a rainha, e n'essa noite 8 de Junho em uina quarts 
feira, representou o Monologo do Vaqueiro com graiM 
apraziniento da rainJia velha^ Dona Leonor, viuva d.< 
D. Joào II, e de Dona Beatriz, duqueza de Bragangss 
mae d'el-rei. Moìwlogo é escripto ein hespanhol, < 
que revela mais a inten^ao do folguedo. 

Assim ficaram lan^ados os fundamentos do noss< 
theatro nos pa^os do Castello, em a noite de urna quarti 
feira 8 de Junho de 1502. (1) 

Como vimos. Gii Vi cento, frequentou a corte di 
D. Joào II, e n'ella se deu a conhecer corno poeta jo- 
coso. Temos a prova d'isso no Cancioneiro de Besencle, 
aonde o encontramos tomando parte nos certàmes poe- 
ticos que entào se armavam nos serOes do passo. E na- 

(1) No Emaio sobre a Vida e escriptos de Gii Vicente^ fi- 
lando Barreto Feio da origem do theatro.portuguez, diz: «A rai- 
nha Dona Bcatrìz, laulher de DoM Manoel, lendo fìcado mas 
agradnda do Monologo que Gii Vicente, no caracter de pastar, 
foi recitar na sua camera, onde ainda se achava de caina, de par- 
to do principe D. JoAo, depois D. JoSlo in...» periodo estàcheio 
de erros historicos: D. Manoelnfto foi casado com nenhuma D-. 
Beatriz; casou com Dona Izabel, viuva do principe D. AffoDSO, 
qùe devera herdar o throno de D. Joflo ii ; por morte d^esta ca- 
sou com a cunhada, Dona Maria, tambein fìlha dos catbolicof» 
Fernando e Izabel, e por morte d'està, com Dona Leonor, filha 
de Philippe i de Castella. Em 1602, quando Gii Vicente foi a 
corte representar o Monologo do Vaqueiro^ estava Dom Manoel 
casado com Dona Maria, n'esse tempo doente de parto; esta- 
vam presentes a mSe do monnrcha Dona Beatriz, e a filha d'està, 
irma de Dom Manoel, a Rninha Dona Leonor, viuva de Dom 
Joào II. Foi a rainha velha Dona Leonor, que pediu a Gii Vi- 
cente que continuasse n'aquella senda, e a seu pedido fez o poeta 
em soguida o Auto pastoril, e o Auto dos Reis Magos. 



NO SECULO XVI 35 

turai que a primeira ideia das representu^Oesdramati- 
cas Ihe fosse suscitada por esses processos amorosos e 
engra(^dos, em que as damas da corte davam sentenza. 
Correu de urna vez està anedocta, que Vasco Abul ven- 
do ballar urna mocetona em Alemquerj Ihe dera brin- 
caodo nma cadeia de ouro, que ella nào quiz depois 
restituir. Anrryque da Motta, poeta satyrico, nào dei- 
xoa escapar a occasiào e fez lego do feito urna especie 
de processo, corno anteriormente se fizera com o Guidar 
6 nispirar. Mestre Gii, corno diz a rubrica, entrou na 
polemica, e escreveu cito estrophes bastante comicas, 
que Garcia de Resende recolheu sobre a rubrica: pa- 
recer de Gii Vyt^ente neate progeano de Vasco Abul a rray^ 
lihadona Lianor. (1) A rainha aqui citada era a mu- 
IW de Dom Joào ii, porque so em 1517 é que Dom 
Manoel viuvou da rainba Dona Maria, e o Cancioneiro 
foi publicado em 1516. Quando em 1502, Gii Vicente 
appareceu com o seu Monologo do Vaqiieiro na corte de 
I Dom Manoel, tambem assistiu a viuva de D. Joào ii, 
bem comò sua màe Dona Beatriz, màe d'el-Rei Dom 
Manoel, e foi ella que Ihe pediu que tornasse a repre- 
sentar aquelle Auto nas matiuas do Natal: «E por ser 
cousa nova em Portngal, gostou tanto a rainha velha 
d'està representaQào, que pediu ao auctor que isto mes- 
nio 8e representasse às matinas do Natal, etc.» (2) 
Dona Leonor, mulher de D. Joao ii, foi, podemos as- 



(1) Foi. 210, col. 5. 

(2) Obras, t. i, pag. 5. 

4s 



36 HISTORIA DO THEATRO POUTUGUEZ 

several-Q, a primeira pessoa que reconheceii o merito 
de Gii Yicente e que o anitnou nos seiis ensaios dra- 
maticos ; ella o conhecia do tempo do processo gracioso 
de Vasco Abul, e animando-o, queria matar saudades 
do passado com os jocos poeticos usado& na corte de 
seu marido. (1) Gii Vicente escrevendo o Auto pas- 
toril Caatelhano a pedido de Doiia Leonor, nào podia 
deixar com a sua sensibilidade de poeta de alludir tk 
Dom Joào II, .com gratidào e respeitp. Diz o Pastor 

Gii : 

Conociste à Juan Doniado. 
Que era pastor de pastores ? 
Yo lo vi elitre estas flores 
Con gran hato do ganndo, 
Con su cajado real, 
Repastando en la frescura, 
Con f avV de la ventura : 
Di zagaL 
Que se hizo en su curral ? 

Estes versos, seriam para a velha rainha comò o tu 
Marcellua erÌ8 ^àQWvgìWoi lembravarn-lhe a morte de um 
filho unico, o principe Dom Affonso, por cuja fatalida- 
de se extinguira a realeza do marido, Como Ihe pagon 
Doua Leonor està delicadissima lisonja? Pedindo-lhe 
logo o Auto dos Reis Magos^ represontado em 1503, e 
fazendo-o valer na corte centra todas as intrigas dos 
seus iuimigos; 

Formado em Direito, Gii Vicenta seguia o genio 



(1) Està .pe9a de Gii Vicento nào foi recolbida pelea edi- 
tore» de Uambm'go. 



NO SECULO XVI 37 

da Eenascen^a, formulado n'aquelle verso de Ferreira : 
«Naofazem damno às musas os doutores.» Em algu- 
masdesnas coinedias ridìcuiarisa a profìssào judicial, 
corno na far9a do Jniz da Beiroy e na Floresta de En- 
gams appresenta o Doìitor Ju8tÌ9a Maior seduzido por 
urna moi^a. Elle continuava a tradi^ào do velho thea- 
tro francez, em que oà Clercs de la Bazùche firmavam 
assuas comedias na vida judiciaria. Em Portugal a 
composÌ9ào das comedias era um ensaio na Universi- 
dade e CoUegios, e durante as ferias do estudo juridico 
escreveu Jorge Ferreira de Vasconcellos a sua Eufro- 
^^ Antonio Ferreira a comedia de BristOj CamOes o 
Auto dos Ampkytriòes, Sa de Miranda era legista, e 
Antonio Prestes enqueredor do civel em Santarem. Pou- 
cas vezes teve Gii Vicente liberdade na composigào das 
suas pegas, porque quasi todas Ihe eram pedidas para 
circumstancias determinadas. Como podia ter brigina- 
lidade quem se via for^ado pela decima vez a fazer um 
Auto de Natal, ou a celebrar o nascimento de um prin- 
cipe cu o casamento de uma infanta? Em alguns Au- 
to8 se ve que Gii Vicente conhecia a existencia do 
mundo moral, e que estava no caminho de ser um Mo- 
lière; mas OS themas obrigados faziam-lhe por de parte 
estudo das paixOes humanas, e servir-se das allego- 
rias frias e vàs, para comprazer com a corte que pre- 
tendia cousa adequada a natureza da solemnidade. 
N*este meio impossivel, Gii Vicente vinga-se com a 
mordacidade crua e aberta que salga os elogios conven- 
cionaes, e mais ainda, mostra-se ura inimitavel poeta ly- 



38 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

rico, até boje aiùda nào excedido. N'este tempo aìnda 
a arte dramatica nào descera a urna profissào infaman- 
te; OS padres representavam nas cerimonias do cnlto, 
e um sacerdote, Bartholoraeu Torres de Naharro, abri- 
Ihantnva com os seas Autos a corte do Papa Leào x. 
Posteriormente, os comicos ambulantes e belfurinheiros 
tomaram a comedia desprezivel, e d'està circumstan- 
cia se formou a tradi^ào de que Gii Vicente nào era no- 
bre, que era filho de urna parteira e neto de nm tara- 
borileiro, fundada nos versos, em que dà um persona- 
gem das suas far^as comò naturai da Pedemeira. 

Em 1840, o snr. Joaquim Heliodoro da Cunha Ri- 
vara, cuidou desfazer as duvidas acerca da naturalida- 
de de Gii Vicente, que se atrìbuia a Lisboa, a Barcellos 
e a Gnimaràes segnndo Barbosa, applicando ao poeta 
OS versos que poz na bocca do Licenciado que serve de 
Arguìnentador no Auto da Ltisitania: (1) 

Gii Vicente o Autor 
Me fez seu embaixador, 
Mas eu tenho na memoria 
Que para tao alta historia 
Naceo mui baixo doutor. 
Creio que he da Pedemeira 
Neto de um tamborileiro; 
Sua mde era parteira, 
E seu pae era albardeiro. 
E per rasSo 
Elle jà foi tecellao 
D^estas mantas do Alemtejo; 
E sempre o vi e vejo 
Sem ter arte nem feÌ9ao. 

(1) Obras, t. in p. 274. 



NO SECULO XVI 39 

E quer-se o demo metter, 
tecellfto das aranhas, 
A trovar e escrever 
Ab portuguezas fa9anha8 
Que 8Ó Deus sabe entender. 

O snr Rivara tomou à letraestes versocf, e diz: «A 
nós porém parece-nos que elje proprio tira todas as du- 
vidas. . • » (1) A interpreta^ào d'estes versos, està n'elles 
mesmos ; o Licenciado diz Creio que Ae, e em outros ver- 
sos que se seguem, acrescenta: 



D*outro cabo, 

Dizem que achou o diabo 

Em figura de donzella, 

E elle namorou-se duella, etc. 



concluindo qu^ era o diabo que o levava a urna caver- 
na onde durante sete annos aprendera o que sabia. 
Auto da Luzitania foi representado em 1532, depois de 
se terem declarado abertamente os seus inimigos, que o 
guerreavam; por tanto o dito do Licenciado étodo ironi- 
co. Por o poeta ser de illustre extr4C9ào é que se faz fi- 
Iho de um albardeùv, que figuradamente significa tra- 
vesso, arreliador, e toma por officio o de tecelào, corno o 
que tece mantas para envolver ridiculamente os seus 
detractores. Temos uma prova positiva da sua natura- 
]idade, quando elle no Triumpho do Inverno^ para os 
festejos da cidade de Lisboa, a Felicitas Julia^ ali Ihe 
chama a nossa Julia. 

(1) Panorama, t. iv, p. 275. 



40 RISTORI A DO THEATRO^PORTUGUEZ 



Quando n^o estava na córte, Gii Vicente residia 
em Santaretn, corno vemos pela qiieixa centra os Almo- 
creves, e pela Cartifìescripta era 1531 de Santarem para 
el-rei Dom loào in, que estava em Palmella. 

Gii Vioftnte nào proseguiu na carreira juridica; pela 
chronologia da sua vida, que se recompOe pelas datas 
no principio de cada Auto, se ve que desde 1502 até 
ao anno de 1536 andou occupado em dfvertir as dua& 
cortes de Dom Manoel e Dom Joào in. Deve portante^ 
julgar-se este o seu modo de vida. Em uns versos de 
André de Resende, contemporaneo de Gii Vicente, se 
ve, que elle era tambem actor, (1) comò no prologo 
de alguns Autos em que fala em seu proprio nome, corno 
no Tìnumpho de Inverno^ e Tempio de Apollo. Gii Vi- 
cente acompanhava a cx)rte de Lisboa para Almeirim, 
para Abrantes, Almada,*Evora, Thomar, Coimbra, & 
Alvito; quando rebentava alguma glande" peste, en|.* 
elle que distrahia os animos com a jovialidade faceta 
das suas far9as, comò conta Boccacio que se usavaiiitio 
Jardim de Pampinea na grande peste de Fiorenza. lì^oa 
casamentos de et^-rei Dom Manoel e Dom Joào iii, 
ao nascimento dos principes, a partida das infantas, 
accudiu sempre com um Auto para abrilhantar os fes- 
tejos. Durante os trinta e quatro annos que representon 
nas duas cortes, nào deu espectaculo ou fìcou esquecido 
dos reis nos annos de 1507, 1509, 1511, 1515, 1516, 

(1) Cunctorum bine acta èst comoedìa plausu, 
Quam lusitana Gillo aucior et actor in aula 
Egerat ante, dicax atque intervera facetus: etc. 



NO SECULO XVI 41 

1520, 1522, 1524, 1528, e 1535; procurada a causa 

do silencio, é sempre algnm grande desastre das armas 

portnguezas na India, ou na Africa, algiima fome ge- 

ral, carnificina provocada pelos dominicanfos centra os 

jndeus, morte de algam principe, ou doenf a do proprio 

poeta, corno elle conta na Tragi-comedia do Tempio de 

Apollo qne escreveu e representou estando doente de 

grandes febres. Sustentava-se Gii Vicente com os ho- 

liorarios que recebia dos reis portuguezes ; porém em 

vess de medrar n'este mister que pareceria rendoso. 

Bielle gastou alguraa fortuna que herdara de seus paes. 

No Jm/o Pastoril Portugnez^ representado em Evora 

diatite de Dom Jo&o iii, declara que nao tem ceitil 

apezar de fazer Autos para el-rei, e que os Autos que 

68creye nào sfto jà comò os que inventava quando tinha 

C(m qué. Uns almocreves caistelhanos, tendo privilegio 

dado pela' rainha Dona Catherina de n^o fazerem car- 

rétoa por taxa, levaram cfe aluguer na volta de Coimbra 

para Santarem ao pobre pdeta tudo quanto trazia^ tal- 

vez o dinbeiro que recebera pelo Anto que representara 

em 1526 n^essa cidade; em outro. legar queixa-se ao 

Conde de Vimioso, que se o medrar estiverà em traba- 

Ihar, bem teria que comer, e que dar e que deixar. (1) 

Gii -Vicente era casado com Dona Branca Becerra, 

corno se ve pelo epitaphio que se achtf .no Mosteiro de 

Sam Francisco de Evora com éstes versos, talvez escri- 

(1) Obras. t. in. p. 182. 



42 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

ptos por seu marido, que tambem escreveu outro egual 
parasi: 

Aqui jaz a mui prudente 
Senhora Branca Becerra, 
Mulher de Gii Vìcente 
Feita terra. (1) 

Na sepnltura de Gii Yicente està corno epitaphio 
ontra estrophe perfeitamente egual, que vem accrescen- 
tada com mais oito versos no livro das Obrcia meudas^ 
publicadopor seufiiho Luiz Yicente; està circumstan- 
cia prova que fora elle o auctor do epitaphio dei sua 
mulher. Teve do seu casamento tres filhos ; um chamado 
tambem Gii Vicente, outro Luiz Vicente, e Paula Vi- 
cente. Do primeiro, diz Barreto Feio, no Ensaio aoùre a 
vida de Gii Vicente: «0 certo porém, é, que a existencia 
d'este pretendido filho nào é attestada por documento 
algum. . .» (2) Nos Commentarioa de Affonso de AUiu^ 
qtierque^ (3) cita-se corno por uma especie de antono- 
masia filho de Gii Vicente^ talvez para nào estar a di- 
zer filho de outro, sendo esse outro o mais illustre. No 
proprio Gii Yicente se acha uma referencia a seu filho 
Gii, que o ajudava a representar os Autos, n'estes ver- 
sos do Tempio de Apollo : 

Ora BUS, alto Grilete, 
Tu qeràs acjui porterò ; 
No dejes entrar romero 
Aunque te quite el barete 
Ni te de mucho dinero...» 

(1) J. H. da Cunha Ri vara, Epitaph. ante Pan. t. nr, p. 275. 

(2) Obras, 1. 1, p. xvi, not. 3. 

(3) Corom. Parte ii, cap. 62. 



NO SECULO XVI 43 

Na eanTimera9ào das figuras quo entram naTragì- 
comedia nào se fala n'este nome de Gilete, mas sim- 
plesmente no Parteiro do Tempio^ e o mesmo em todo o 
decurso da pe^, o que leva a crér que o poeta se refe- 
ria aqni a Gii mo^o, seu filho. Portanto jd em 1526 
existia este filho, que tomava parte nos Autos de Gii 
Yicente; na tragi-comedia do Tempio de Apollo j as 
falas que cabem ao Porteiro sào muito breves e comò 
que adequadas para serem ditas por nma crian9a. Fa- 
ria e Sonsa, que no seculo xvii vulgarisou nos seus 
Commentarios dos Lusiadas bastantes anedoctas litte- 
rarias colhidas da tradi^ào orai, conta que este Gii 
Yicente o mo^o despertara tal inveja em seu pae, por 
causa dos seus talentob poeticos, e principalmente por 
nma comedia intitulada os Cativos, que o veldo dra- 
maturgo o desterrara para a India, onde achon em bre- 
ve a morte no campo da batalha. A alma profunda- 
mente humana de Gii Yicente, que livrou osjudeusde 
Santarem de uma mortandade susci tada pelos frades, 
qae lactou sempre centra a prepotencia clerical, n&ò 
podia sentir este odio pelo talento do filho, quando ve- 
mos que ja velho se ajudava na composÌ9d.o do genio 
comico da sua Paula. Gii Yicente bateu-se durante a 
Vida centra o poder monachal, que invadira a cor- 
te de Dom Joào iii; foi elle o unico homem em Portu- 
gal que trabalhou para a secularisa^ào do povo portu- 
guez. Os frades nào se vingaram so nas obras do poe- 
ta, negando-Ihe a originalidade da inven^ào, deram o 
golpe no que ha de mais doloroso, nos sentimentos de 



44 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

pae, no caracter, serviado-se da arma mais terrivel, 
e centra a qual nào ha escudo, nem defeza — a lenda. 
Propagaram a lenda da atrocidade paterna!, qua ainda - 
vogava no seculo xvii até ser recolhida por Faria e 
Sousa, repetida por Diogo Barbosa Machado, e Joao 
Baptista de Castro. No Index Expurgatorio d^ i624y o 
Auto dos Cativoa vem attribuido ao Infante Dom Luiz, 
discipulo e amigo de Gii Vicente. Isto ajuda a provar 
a falsidade da lenda monachal. (1) 

Do tegundo filho de Gii Vicente terilos documen- 
tos mais positi vos; em 1562 foi Luiz Vicente o editor 
das obras de bcu pae, e escreveu i^dedicatoria a el-rei 
Dom Sebastiào, enderanQando-lhe a Epistola dedica- 
toria de Gii Vicente a Dom Joao iii, que nào ehegara 
a ser offerecida. Lui^ Vicente escreveu esse prologo 
em tempo em (fne a eschola italiana dominava na poe- 
sia portugueza e banira o theatro nacional, e é por isso 
que elle diz : <tE ainda que as obras de tneu pay nào te- 
nham tamanho merecimento comò tiveram as d'outros 
poetas antigos e modernos, tao celebrados em todo o 
mundo ; todavia, ainda que as d'este livro fìquem mui- 
to abaixo d'estas ; por serem cousas algumas d'ellas fai- 
tas por servilo de Deos e todoB eni servigo de vossoa avós^ 
e de que elles muito gostaram^ era rasào que se impri- 
raissem.D Luiz Vicente nào se cegava pela admira^ào 
de seu pae, talvez porque se nào atrevia a ir d'encon- 

(1) Vid. adiante o livro : Eschola de Gii Vicente^ 



SECULOXVI 45 

troi eschola classica que prevalecia, e contra quem 
Gii Vicente lactara. 

terceiro filho do poeta é Paula Vicente, figura 

Bympathica, aureolada de amor, puro e do disvello com 

que trabalhava e ajudava seu pae na invengào dos seus 

Autos. Prova-se a sua existeneia pelo Privilegio passa- 

do pela rainha Dona Catherina na nienoridade de Dom 

Sebastiào, no qual tambem se ve que fora inoga da 

Camara da Infante Dona Maria: «Paula Vicente, ino- 

9ft da Camara da muito minha amada e prezàda tia^ 

me disse que ella queria fazer emprimir bum livro e 

cancioneiro de todàs as obras de Gii Vicente seu 

pay. . . » Bem se ve qu« ella assistira ao trabalbo de 

seu pae, e o amava corno parte da sua alma ; primeiro 

do que ninguem Ihe conbeceu o valor, e a necessidade 

de salvar pela imprensa esses gritos de um cora^ào se- 

quioso de justi^a. Muito differente é o juizo . que ella 

fazia, comparado com o de seu irmào Luiz Vicente. Era 

Paula Vicente versada em linguas, chegando a es* 

crever urna grammatica ingleza, o que nos leva & 

conjectura de que talvez nào desconbecesse os ve- 

Ihos Mysterios inglezes, que no tempo de Dom Joào l 

seriam trazidos para Portugal. No livro das Moradias 

da Casa da Rainha Dona Catberina, Paula Vicente 

lem assentamento com o titulo de tangedoi^a, talvez 

mestra das donzellas (1), e comò tal pertencendo à 

Academia de mulberes da Infanta Dona Maria, que 

(1) ObruH do GumOe» (£dÌ9ào Juromenha) t. i, p. 22. 



46 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

estiidara latim para melhor perceber os Evangelhos^ 
tendo em volta de si outra^ senhoras ÌDstruida$, corno 
Luìza e Angela Sigéa, Joanna Yaz, e Dona Leonor 
de Noronha. Paula Yicente tambein cultivàra a ].K)esia 
comica, da qual se perdeu, na opiniào de Barbosa, o 
volume que escreveu; este facto bastava para sobre 
isso formar-se a lenda de ella collaborar com seu pae, 
quando os desgostos e a edade Ihe apoucàram a ima- 
ginagào. P.® Antonio dos Reis, no Enthuslasrnus poe- 
ticusy n.*® 66 e 67, conservou està mimosa e sentida tra- 
dÌQào, que em parte consola e fortalece a alma contra 
a negra sombra lan^ada pelos que imputavam a Gii Vi- 
cente a emula^ào por seu fìlho. 

Grande^ foram as intrigas que Gii Vicente atra- 
vessou na corte de Dom Manoel, que poderiam ter 
causado a sua completa mina. 

principe Dom Joào amava a infanta Dona Leo- 
nor, irmà do imperador Carlos v, e pedira licenza a 
seu pae para tratar-se o casamento. 

Ha via poucos mezes que el-rei D. Manoel viuvara 
da rainha D. Maria; Alvaro da Costa parte logo para 
Hespanha com o pretexto de cumprimentar o Impera- 
dor, e de em segredo Ihe pedir a mào de sua irmà Dona 
Leonor para o rei. Diz Frei Luiz de Scusa: «e foram os 
poderes que Ihe deu tao largos e sem limites, que pri- 
meiro se soube em Portugal estar concluido que co- 
me^ado.» (1) Quando o principe Dom Joào soube que 

(1) Annaea de D, Jo&o III^ p. 16. 



NO SBCULO XVI 47 

seu pae, j& bastante velho e de cabellos brancos, casara 
com aquella que pretendia para sua esposa, moderou os 
impetos da sua furia, consolado pela censura de todo 
reino para este procedimento de el-rei Dom Ma- 
Doel. Seu pae, nào contente com raptar-lhe a noìva, 
afastou do pé do principe aquelles que mais Ihe aggra- 
vavam o pezar, chegaudo a desterrar um certo Luiz 
da Silveira. Dom Joao ili foi inflexivel para os fidal- 
gos que seguiram ou approvavam o procedimento do 
pae. N'este tempo Gii Yicente representou diante da 
rainha Dona Leonor, terceira mulher de Dom Manoel, 
Auto da India, em Almada, em 1519. Poderemos 
accrescentar està circumstancia corno urna das causas 
qne contrìbuiram para a sua desgra<^a no reinado de 
Dom Joào III, depois que morreu a sua protectora a 
velha rainha Dona Leonor, vi uva de Dom Joào il, em 
1525. 

Antes da morte de Dom Manoel, achava-se Gii Vi- 
cente em Evora, aonde em 1521, representou a farga 
do8 Ciganosy a entrada do Principe Dom Joào ni. 
«este tempo florescia em Evora um poeta dramatico, 
criado do Bispo Dom Affonso de Portugal, e que era 
^timado pelas suas boas letras, fazendo-se notar pelos 
Autos que escrevìa com aprazi mento da classe mona- 
chal; era este poeta AflPonso Alvares, auctor do Auto 
^ Santa Barbara, ainda hoje popular no Minho, dis- 
^pulo da eschola nacional fundada por Gii Vicente. 
Escrevendo quasi sempre os seus Autos a pedido dos 
"■^des, dando-Ihe elles mesmos o thema, e indicando- 



48 HISTORIA DÒ THEATRO PORTUGUBZ 

Ihe a Legenda Aurea de Voragine corno thesouro inex- 
gotavel para a sua imagina^ào fornigea^ & vontade, 
tudo leva a crér que os frades preparavam em AfFonso 
Alvarea um rivai para desthronar Gii Vicente. Nos 
Autos de Gii Vicente representados em Evora, taes 
corno a Comedia de Ruberia^ o Auto Pastoril porfuffiieZy 
a Fragoade Amory a Romagem de Aggravados^ as Tra- 
gicomedias de Dom Duardos e de Amadiz de Gaula^ 
Auto da Mofina Mend^es^ e a Floreata de Enganos^ eo- 
nhece^se que o velbo mostre luctava centra alguem, 
pelo primor de lyrismo, da versifica9ào, pela variedade 
das peripecias, e principalmente pela parte espectacu- 
losa e arranjo de scena. Com a morte do Bispo Dom 
Affbnso de Portugàl, o> poeta Alfonso Alvares veiu pa- 
ra Lisboa, aonde andou tambem em lucta com o Ghiado, 
mas Gii Vicente ficou sempre amando Evora, nào pe- 
los seus dolorosos triumphos, mas porque ai perderà a 
sua prudente mulher e companbeira da vida Branca 
Becerra, que Ibe ficou sepultada no convento de Sam 
Francisco. 

No principio de reinado de D. Joào iir deu-se o 
caso extraordinario da queixa do velbo Conde de Ma- 
rialva, centra o Marquez de Torres Novas, pedindo ao 
rei que Ibe desse campo, segundo o Foro vel/io de Cas- 
tella, para ter um duello de morte com o marquez que 
declarara o casamento clandestino com sua filba Dona 
Guiomar, promettida no testamento d'el-rei Dom Ma- 
noel ao Infante Dom Fernando. Por este successo 



f 



NO 8ECUL0 XVI 49 

deixon S& de Miranda a córte, e foi viver para sua 
Commenda das Duas Egrejas. 

Gii Vicente atravessou a crise diffidi, e a falta de 
urna representa^ào em 1522 deve attribuir-se a edse 
gntnde escandalo. Depois o monarcba, para distrahir 
a corte) ou para seguir o velho costume portuguez do 
Natal, mandou-lhe representar em Dezembro de 1523 
Auto Pastoril portuguez, onde o poeta diz os oelebres 
versos, que mostram o estado da sua muita pobreza: 

E bum Gii . . . um Gii . . . um Gii . . . 
(Quo ina retentiva hei !J 
Um Gii. . . jÀ nfio direi ; 
Um que ndo tem nem ceitil, 
Que faz os aitos a el-rei. 



Aito ciiido que dezia. 
Aito assi cuido que he ; 
Mas jà nfio aito, bofe, 
Como 08 aitos que fazia 
Quando elle tinha com que ? 



Aqueixa de Gii Vicente encontra-se por outra fór- 
ma em Sa de Miranda, que lamenta* a mudan^a dos 
tempos, e se lembra com saudade dos seròes de Portu- 
gdf tao afamados e tao decabidos pela influencia e tris- 
tezt monacbai que se apossara do rei. Oom a morte de 
sea pae, os grandes do reino e o povo pediram instane 
temente a Dom Joào m que casasse com sua madras- 
ta, protestando as grandes sommas que levaria comsi- 
go a rainba Dona Leonor, que Ibe pertenciam por con- 
tracto dotai, e as novas despezas que sobrecarregariam 

o reino com a dota^ào da nova rainba. Com uma rigi- 

4 



50 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUBZ 

dez fanatica, Dom Joào ili resistiu à seducQào dos seus 
primeiros amores, avivando-Ihe este pedido da na9ào a 
ferida fundà e o odio que conservava con tra os conse- 
Iheiros de seu pae. Gii Vicente atravessou està nova 
borrasca, e em todas as suas obras nào se acbam vesti- 
gios nem a minima allusào a assumptos tao perigosos« 
Centra o poeta levantava-se uma nova onda; era a in- 
trodac9ào do go8to italiano^ que se retemperara na 
imitagào dos exemplares da antiguidade: Nada era bel- 
lo se nào fosse moldado nas obras primas dos classi- 
cos gregos ou romanos; Gii Vicente, filho da edade 
media, completamente desb'gado da tradigào da arte 
antiga, originai e atrevido na composi^ào, seguindo as 
regras que descobria a sua audacia inventiva, devia 
ser rudemente atacado por aquelles que seguiam a es- 
chola classica-italiana. Poeta dramatico, todas as ten- 
tativas de imita9ào de Plauto ou Terencio eram um es- 
for^o para derrubal-o do seu pedestal. A primeira co- 
media ao gesto antigo, moldada sobre o theatro ro- 
mano, escripta em prosa, foi a Eufrosina de Jorge Fer- 
reira de Vasconcellos, composta segundo seguras induo- 
(jOes em 1527. Na Tragicomedia das Cortes de Jupiter^ 
Gii Vicente allude a Jorge Ferreira de Vasconcellos, 
nos versos: 

Jorge Vasco Goncellos 
Num esquife de cortÌ9a, 
Irà alfenando os cabellos, 
Por divisa deus novellos, 
A letra dir« ; Ou Ì9a ! 



NO SECULO XVI 61 

Os partidarios da eschola italiana, chamavam aos 
que nào abandonavam o verso de redondilfaa nacional, 
poetasda eschola velha, A lucia foi renhida, comò se ve 
pelos versos de Sa de Miranda, Bernardes e Ferreira, 
qae alludem a grandes difHcuIdades que a nova escho- 
la encontrara na sua introducgào. (1) Gii Vicente de- 
via de ter contra si todos os sequazes do cultismo ita- 
liano. Na Epistola dedicatoria endere9ada a D. Joào ili, 
diz Gii Vic«nte, defendendo-se contra os imitadores 
do estyllo classico : a:pera passar seguro da pena . • • 
me fòra formosa guarida nào dizer senào o que elles 
disseram, ainda que eu fosse corno ecco nos valles, que 
falla eque dizem, sem saber o que diz.» Na mesma 
Epistola conta Gii Vicente que para evitar . batalhas 
tencionava deixar ineditas todas as suas obras. Coad- 
juvado pelos poetas e cultistas da eschola italiana, o 
partido monachal, ligado pelo respeito auctoritario das 
tradi§Oes latinas, comeQou tambem a arremetter con- 
tra Gii Vicente; d'està vez nao era urna lenda de bar- 
baridade paternal, era nada menos do que negar-lhe a 
paternidade das suas obras. Fòra em 1523; certos ho" 
mens de hom saber ^ diziam que Gii Vicente /urtava de 
oiitros aucfores as suas obras. Estas palavras textuaes, 
corno nào feriam a sua alma de artista! Pobre, e ne- 
gando-lhe tambem a sua riqueza intellectual, a unica 
que as desgra^as do tempo Ihe nào podiam levar! 

(1) Cancioneiro e Romanceiro g tirai por tuguez, t. v, p. xx ; 
e Introducqào à Historia da Litteratura Portugueza, p. 319. 



52 HISTORIA DO THBATRO PORTUGUEZ 

poeta pediu ^ue Ihe dessem iberna sobre que phanta- 
siftsee ama far^a de folgar. Era corno um duello, a qu( 
Dom J'oSlo III assistiu em ama sala do convento de Tbo- 
mar. 

Apezar do iberna ser obrigado, sobre o anexim po- 
pnlar : Màis quetv asno que me levej do que cavallo que mt 
deM^ube^ Gii Vioenie sentiu-se livre da imposta alle- 
gorìa das festas palacianas, e fez urna oomedia de ca- 
racter, ainda hoje perfeita, intiiulada a farga de Inei 
Peretta* (1) Gii Vioenie calou completamente os sena 
inimigos e deiraciores. Quanto està far^a foi esiimada, 
e qual a impressào que causara no animo de Dom 
Jo&o III, pode*8e inferir da circumstancia de vermos 
logo em seguida represeniada em Almeirim uma con- 
tinua^ao, intiiulada o Juiz da Beira. Era o iriumpho 
da comedta nacionaL rei quiz dar-lhe nova occasiào 
para um Auto, oom as festas do seu casamento com 
Dona Caiherina em 1525 ; na Fragoa de Amory repre- 
seniada n'este anno em Evora, dà Gii Yicenié um 
golpe profundo na classe sacerdotaK Porém, n*este 
mesmo anno morre a sua disvellada protectora, a que 
animou a nascenQa do theatro portuguez, avelha rainha 
Dona Leonor, a pedido de quem compuzera uma boa 
parte dos seus Autos. iriumpho com a far^a de Inez 
Pereira^ e Juiz da Beira^ foi continuado com a engra- 
Radissima far^a do Clerigo da Beira, no anno seguinte. 



(1) Sobre a composÌ9ao d'està far9a, vero men drama em 
tres actos Um Auto por desaffronta. nas Torrentta^ pag. 147. 



SBCULO XVI 53 

Ontra oircnmstancia fortuita vein fazer com qne oi 
seus Autos se tornassem precisos na córte — a peste 
de 1527. Velho e pobre, o poeta n'este anno terrivel, 
ainda convallescente das febres, de que a custo se le- 
vantara para fazer o Auto da partida da Infanta Dona 
Isabel que casou com Carlos v, acompanhon a córte 
qne iìigira de Lisboa para Almeirim, de Almeirim para 
Coimbra, representando durante este anno de immensa 
fadiga tres Autos, duas Tragicomedias, urna Comedia e 
luna Far^a, ao todo seis pe9as originaes. A este gran- 
de esforgo seguiram-se tres annos de silencio; o poeta 
n^ era chamado para os serOes do pa^o; o partido 
clerìcifl, cujos planos para estabelecer em Portugal o 
Santo Officio elle conhecia, tratava de o afastar con- 
stantemente da córte. So o nascimento de um principe 
^ qne podia fazer com que fosse chamado para algum 
86rio; assim aconteceu com o nascimento da infanta 
Dona Isabel, em 1530. Durante a peste de 1527, Gii 
Vicente voltara para Santarém, comò se ve pelos ver- 
808 a Dom Joào ili centra o roubo que Ihe fizeram os 
aJmocreves; (1) o monarcha remetteu o poeta, para 
qne Ihe desse o devido despacho, ao Conde de Yi- 
mioso; o Conde, ou por descuidado ou por inimigo do 
poeta, nada fez, até que Gii Yicente Ihe escreveu por 
sea turno outra peti^ào em verso, em cuja rubrica se 
le: 9.F0Ì iato em tempo de peate^ e o primeiro rebate 

(1) Obras, t. m, pag« a83. 



64 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

duella deu por sua casa; etc.» (1) E nos versos diz o 

poeta : 

Vejo minba morte em casa, 
£ minha casa em perigo. 

Se saa mulher nào tivesse sido enterrada em Evora, 
julgar-se-hia que fora victima da peste em Santarem; 
seus filhos Luiz e Paula Vicente sobreviveram pelo 
menos até 1561, e por tanto podemos coDJecturar que 
foi o proprio Gii Vicente o atacado da peste, comò se 
yé nos versos citados, e no seguinte : 

Minha vida està em balan^a, etc. 

As trovas a AfFonso Lopes Qapaio tambem foram 
escriptas em Santarem, e todas estas circumstancias 
fazem crér, que Gii Vicente ali residia, corno abaixc 
comprovaremos. Fora do bulicio da corte, na sua mo 
rada em Santarem ia escrevendo o poeta os Autos qu 
se Ihe encommendavam ; n'estes mesmos versos ao Cor 
de de Vimioso, diz: 

Agora trago aiitre os dedos 

Urna far^a mui fennosa ; 

Chamo-a : A Caga doa Segredoa, 

De que ficareis mui ledos 

E minha dita ouciosa. 

Que o medrar, 

Se estiverà em trabalhar, 

E valera o merecer, 

Eu tivera que comer, 

E que dar e que deixar. 

(i; Obras, t. m, p. 381. 



NO SECULO XVI 65 

A causa da pobreza do poeta explica-8e tambem 
pelo verso : 

Para mim fui sempre mudo. 

Em 1531 continuava Gii Vicente em Santarem, 
quando a 25 de Janeiro succedeu um grande terramo- 
to; a córte achava-se em Palmella. Foi entào que Gii 
Yicente se mostrou profnndamente humanitario, e de 
urna coragem inaudita salvando osjudeuR e christàos 
noYos de Santarem das prédicas f anaticas, que annun- 
ciavam entro terremoto provocado pela pertinacia dos 
impios centra a ira de Deos. Gii Yicente estava bem 
leinbrado do effeito da pregaQ&o dos dois frades de Sam 
Domingos, que dora causa & cruenta e medonha mor- 
tandade dosjudeus e christàos novos de Lisboa em 
1506. A nuvem negra do fanatismo popular formava- 
mo, cheiro do sangue provocava à furia centra os 
uiermes judeus e christàos novos, quando Gii Yicente, 
levado pela audacia do senso commum que reage con- 
^ a bestìalidade, ajuntou os Frades no claustro do 
Convento de Sam Francisco de Santarem, e Ihes fez um 
loQgo sermào, mostrando-lhes por textos biblicos que 
^Ues mentiam ao povo, jdando-se- por prophetas, e ex- 
plicoa«lhes por causas naturaes o terremoto. 

Assim ficou parte da popula^ào livre de ser assassi- 
Q&da pela outra ametade. Dando conta d'este successo 
* el-rei Dom Joào ni, diz Gii Yicente : «E porém sa- 
Wà V. A. que este auto foi de tanto seu servi<jo, que 
Qunca cuidei que se offiareoesse caso em que t&o bem 



} 



à 



66 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

empi^gasse o desejo que tenho de o servir, assi visinho 
da morte corno estou: porqae a primeira prega^ào', os 
christàos novos desappareoeram e andavam morrendo 
de temer da gente, e eu fiz està diligeneia e logo ao 
sabbado seguinte seguiram todolos os pregadores està 
minha ten^&o.» (l) A este tempo contava o poeta ses- 
senta e am annos, mas o achar-se visinho da morte 
deve attribuir-se & 'doen^a das f^bres e da peste que 
soffiren em 1526 e 1527. Assim alqnebrudo pelos aniios, 
pela pobreza, pelas doen^s e desastres domesticos, 
Gii Yioente acompanhon a córte para Evora em 1533, 
representando ai cince das snas mais bellas composi- 
9des; entro ellas distingue-se a farga intitalada Flores^ 
ta de Enffanosj representada em 1536, diante dei-rei; 
na rubrica com que termina se léem estas palavrases^ 
criptas por seu filho Lniz Yicente : «^he a derradeÌTa que 
fez Gii Vicente em seus dias, » Circumstanoia notavel I 
N'este anno do silencio où talvez da morte de Gii Vi- 
cente, estabeleoeu-se em Portógal a Inquiai^ào, na ci- 
dade de Evora, sondo o primeiro inquisidor Dom Die- 
go da Silva, confessor de Dom Jo3,o ni e Bispo de 
Oeuta. Se nào foi este o anno da morte de Gii Yicen- 
te, pouco poderia sobreviver ao triumpbo completo do 
obscurantismo, e ao terrivol flagello que eniuctou para 
sempre a alma portugueza. Gii Yicente por vezes faz 
referenciasà sua edade; na Carta a Dom Joào ni para 
Palmella, e nos versos ao conde Yimioso, cita èlle a 

(1) Ohras^ toro, ni, p. 885. 



NO 8ECUL0 XVI 67 

mk avan^ada edade, e o seu oan8a90 e esgotamenio. 
EitiB fiictos fazem-1108 crér, qne Gii Vicente se refe- 
rìra t si proprio, quando na 8ua ultima far^ a pOe na 
boooado Doutor Justiga Maion 



Ya hice aeaaenla y seis, 
Ya mi iiemtx) es passado. 



A oste proposito diz Barreto Feio: cPóde bem ser 

qoe foBse o mesmo Gii Vicente que desempenhasse este 

papel e que realmente aqni designasse a sua edade. 

Bendo assim teria elle nasoido em 1470.» (1) Estahjr- 

potbese toma-se bastante verdadeira, depois de ter- 

Boa encontrado a prova de que Gii Vicente frequen- 

ton na sua mooidade a córte de Dom Joào ii. Gii Vi- 

oento morreu em Evora, onde estava sepultada sua mu- 

Aer, e ahi foi tambem sepultado, com o epìtaphi<f que 

para si escreveu: 



grfio juizo esperando, 
Jazo aqui n'esta morada, 
Deata vida tfto cansada 
De8oan9ando. (2) 



fV\ Ohras de Gii Vicente, t. i, p. xxi. 
2) Beoolhido em urna sepultara de Evora pelo anr. Riva- 
ra; este epitaphio vem mais completo nas obras do poeta, Obras^ 
t. iif, pag. 339. No Panorama de 1840 (t. ir, pag. 275,) escre- 
ve o sor. Rivara : aPerdeu-se a iioticia do legar da sua sepultu- 
ra ; mas vamos fazer todaa as dilìgencias pela deacobrir.» re- 
saltado da ìnve8tìga9fto do erudito bibliotnecario de Evora ain- 
da é desconheoido. 



68 HISTORIA DO THBATBO POBTUGUEZ 

Urna prova temos para conduir ter sido o anno (L^ 
1536 o do seu tallecimentoj por mandado de Doaci. 
Joào IH, estava coUeccionando todas as suas obras paira 
as dar & estampa, quando Ihe sobreveiu a morte. Sa- 
be-se iste pelo que diz Luiz Vicente: «escreveu por 
sua mào e ajuntou em um livro multo grande parta 
d'ellas (obras) e ajuntara todas se a morte o nào con- 
summira. » Dom Joào iii morreu a 6 de Juoho de 1556, 
e comò o prologo ou Epìstola Dedicatoria de Gii Vi- 
cente 7200 houve effetto j corno diz seu filho, por causa da 
morte de seu pae, concluiu Barbosa Machado com gran- 
de verdade, que morrera antes de 1556. Porém a mol- 
ta distancia entro 1536 e 1556 demonstra-se pela per- 
da e extravio de alguns Autos, corno o A Caga dot 
SegredoSy e a maior parte das obras meudas. Quando 
Luiz Vicente em 1562 deu as obras de seu pae à es- 
tampa, escreveu : «Fim do quinto livro, o qual vae tfio 
carecido d'estas obras meudas, porque as mais que o 
Autor fez desta calidade se perderam.D D'aqui se con- 
cine que p poeta morreu antes de ter realisado o pedi- 
do de Dom Joào iii, que nào querìa que as suaa óbrcu 
se perdessem. (1) Uma vez morto,» nunca mais teve o 
poeta quem o lembrasse ao monarcba fanatico, e so de- 
pois que seu filho Luiz Vicente chegou a comprehen- 
der o valor dos trabalhos de seu pae, em 1561, é que o 
seu livro foi impresso, e dedlcado a Dom Sebasti&o, 



% 



(1) Epistola Dedicatoria, t. ii, pag. 390. 



k 



NO SECULO XVI 69 



quo ainda em tenra edade gostava multo d'esses velhos 



'i Autos. (1) 



an 



ri 



EÌ8 indo o que hoje se póde saber do homem verda- 
^1 deiramente grande e humanitario, o que mais compre- 
F[ Iiendea a alma portugueza, o que mais trabalhou para 
a secolarisa^ao da nossa àociedade no seculo xvi, o que 
presentiu as ideias da Beforma, o maior escriptor dra- 
matico portuguez, apesar de terem passado trez seou- 
los e urna mais vasta civiiisa^ào sobre a sua obra gi- 
jante. Hoje ninguem estuda Gii Yicente; mas teda a 
gente, sem saber porque, sente ao pronunciar o seu 
nome urna tristeza indizivel. 



(1) Obras, no Prologo, t. i, pag. xzxvu. 



60 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



ajLIBXTXJZjO XXX 



Do scenario e caracterisagdes de Gii Vicente 



thegtro do Gii Vigente é hiercUico, aristocratico epopular. -^ 
Necessidade de seguir a ordem chronologica para observar o 
descnvolvtmento progressivo do seu theatro. — As Egrejas é 
oa Pa90B dos reis^ logar das repreeentgQdea de Gii ViceQ- 
te. — Seriam alguns de seus Autos representados diante do 
povo? — A Par9a de Quem tem farellosf — Como era a ca- 
raeterisa^^o do Diabo, e de outras figuras ou entidades mo- 
raes, corno a Egreja, a Alma, o Inverno. — > Annaes do thea- 
tro desde 1502 a 1636. — A historia politica de Portugal no 
seculo XVI é Q melhor commentario para a intelligencia do 
trabalho de Gii Vicente. — Quadro synoptico das representa- 
90e8 de Gii Vicente, e prospecto chronologico para a recom- 
posÌ9fio da sua vida. 



Àcerca dos recursos scenicos de que podiam dispór 
OS nossos primeiros poetas dramaticos, nada se sabe, 
nenhiima memoria do tempo allndiu a elles; temos por- 
tanto de ir pelas eangencias dos seus Autos e comedias, 
deduzindo o grau de perfeÌ9ào de arte a que tinham 
chegado, As vezes urna simples rubrica revela-nos um 
complicado machinismo, o qual, tendo tambem sido 
aproveitado jà nas velhas comedias francezas, nos ley& 
por um paradigma facil a vèr o estado da arte decora- 
tiva e scenographica em Portugal, com relagào ao thea- 
tro europeu. As Obras de Gii Vicente, classificada» 
pelo proprio auctor em uma certa disposi^ào por gè-' 
neros, estào divididas segundo o gesto da edade media^ 
em hieraticas (Obras de devofdOy) em <m9t<>cratica${Tra'^ 



NO SBOULO XVI 61 

gv-eomedias^) e em paptdareè (^F/irgaui). A olassificagào 
do velho dramaturgo é excellente^ e mostra a sua scien* 
eia do asnombroBO theatro medieval ; foi tambem a que 
modernamente usoa Magnia nas suas Origens do Tliea-- 
tro moderno^ ou Historia do genio dramatioo, desde o 
Mcalo I até ao seculo xyi. N'esta classifioagfto iùter- 
pcdlou Gii Yicente a ordem chronologica da represen- 
ta;&o doB Autos, e é essa a que interessa principal- 
mente kistoriador, nào so para descobrir o desenvol- 
nmento progressivo do seu genio, corno para deduzir 
gran de importancia que a sua obra merecia em urna 
3f oòrte exageradamente catholica. 

Por uma feliz casualidade, Gii Yicente, ou talvez 

sm, filho, ajuntou & coUec^ào dos Autos do venerando 

poeta uma mirica inicial, declarando o tempo em que 

86 representou a pega, diante de que principes, e às ve- 

zes motivo por que foi o espectaculo. Estas rubricas 

nmples e prosaicas, extractadas pela ordem chronolo- 

poa, formam os mais perfeitos e inoontestaveis annaes 

dos primeiros trinta e quatro annos do theatro portu- 

gaez; ellas encerram uma historia completa. Abando- 

nemoB a classifioaQào litteraria, e uma luz immensa nos 

abriri o camìnho. 

1. Reinado de Dom Manoel 

A primeira pe^a dramatica representada em Por- 
tngal, ou melhor, na córte de Dom Manoel, foi em 
urna quarta feira, 8 de julho de 1502 ; o logar da eoe- 



62 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

na foì nos pa908 do Castello, na camera aonde a ra 
nha Dona Maria dera a luz o principe Dora Joào, q\ 
veiu a ser o terceiro de nome. Estavam juntos na di 
sala el-rei Dom Manoel, sua màe D. Beatriz, duqn 
za de Braganga, e a vinva de Dom Joào ii, a ex-ra 
nha Dona Leonor. Estas datas e facies tao preciosoi 
estào inclusos na seguinte rubrica : aPorquanto a óbf 
de devagào seguinte procedeu de hua visita f do , qué o ai 
top fez ao parto da muito esclaredda Rainha Dona Ma 
ria^ e nascimento do mui alto e excellente Pinncipe Dai 
JoàOj o terceiro em Portugal d^este nome; sepòe aquipr 
meir amente a dita Visitando ^ por ser a primeira colse 
qìie autor fez ^ e que em Portugal se representouj estai 
do mui poderoso Rei Dom Manoel, e a Rainha Don 
Beatriz sua mde^ e a Senhora Duqueza de Braganga, su 
flhaj na segunda noite do nascimento do dito Senhor. . 
estando està companhia assilli jiinta^ eiitrou hnm Vaque 
ro, eie. » Este primeiro Auto é conhecido pelo titulo d 
Mofwlogo do Vaqueiro^ ou a Visitando; vera collocaci 
entro as obras dovotas, por que foi escripto com esj 
espirito religioso com que o povo antes do parto d 
rainha fora com preces ardentes à egreja de Sam De 
mingos orar pelo successo feliz. facto de Gii Vicei 
te entrar na camara da rainha, revela tambem o se 
alto nascimento; entrou vestido de Vaqueiro, talvi 
imitando os trajos da Serra da Estrella, comò usou i 
ivmpho do Inverno; come^ou o monologo em hesp 
1, na linguagem da filha de Fernando e Isabel, pa 
era a distrac^ào festiva. A fórma e ideia do m 




SECULO XVI 63 

Dologo é a das loas e vilhancicos de presepio, ensoados 
ao divino. Iato prova que Gii Vicente tirou dos costu- 
mes nacionaes da edade media portngiieza a sua pri- 
meira ideia dramatica. Gii Vicente finge que se encon- 
tracasnalmente na camara da rainha, e pasma de tudo, 
tndolhe parece um paraiso terrea); em seguida louva 
a rainha doente por ter realisado as esperan<^.as de Por- 
tugal e Hespanha, e remata, dizendo : 



Quederan-me alli dctraz 
Unos trinta compafleroB, 



osqnaes trazem varios presentes para ofiertarem ao 
recem-nascido. Està é tambem a fei^ào das lóa8 do 
pmepioj cujo caracter nào escapou & atten^ào da ex- 
rainha Dona Leonor, que logo pediu a Gii Vicente? 
que na vespera do Natal d'esse anno de 1502, Ihe reci- 
tasse mesmo monologo ao nascimento do RedjBmptor. 
Indo nos contam as rubricas: «J5J por ser cousa nova 
m Poritiffal, gostou tanto a rainha velha (Testa repre^ 
sentofàOj que pediu ao autor isto mesmo Ihe representas- 
se és matinas do natal^ enderegando ao nascimento do Re- 
demptor.Ti Por este mesmo monologo se ve, que entra- 
ram muitas outras figuras, nào em numero de trinta, 
comò diz hos versos, nào com leite, ovos, queijo e mei, 
mas com presentes para.ofFertarem ao principe recem- 
nascido. E de suppòr que estas figuras fossem os fi- 
dalgos da córte, os engra^ados poetas do Ganci oneiro, 



64 HISTOBIA DO THBATBO POBTUGUEZ 

qod ianio se illafltraratn nos m6mos e fterOes do pa^D^ 
de qae fala com saudade Sa de Miranda. 

A novidade do monologo do Vaqueiro prodnzia gran- 
de sensato na córte; a viava de Dom Joào il peditt a 
Gii Yicente qne o repetisse nas matinas do Natal^ po- 
rém urna vez despertado o getiio dramatico do poeta^ 
ndo se contentou com recìtat novamente a pe^a da Vi- 
sitafdOy (iporque a mibstancia era mui desmada^iìi e aprovei- 
tou-se do convito para fazer o Auto PastofH Castelha- 
no. Dorante o adno de 1502 teve a córte portugneza 
duas vezes a distrac^&o dramatica, entào em moda nas 
cortes principaes da Europa, Auto Pastoni Caste' 
Ihano^ é ainda da mesnia natnreza dos Antos nas vigì- 
lias dos santos, dos nossos costumes nacionaes, proliibi- 
dos pelas Constiluifóes dos Bispados; na rubrica d'este 
Auto ù&o declara Gii Yicente o legar onde foi repre- 
séntado; é possivel que a rainha D. Maria permaneoes- 
se depois do primeiro parto mais cince mezes nos Pa- 
Qos do Castello, e por tanto foi representado ai, na sala 
do presepio, que segundo os usos portuguezes se arma 
na vigilia do Natal. Na córte portugneza jà era costu- 
me antigo a consoada^ a qual o rei tornava em nma 
mesa sobre um estrado com dois degraus, estando os 
outros fidalgos a pé. (1) E provavel que depois de 
urna ceremonia d'estas, se seguisse o Auto PastorU; a 
pe<;!a é composta de seis figuras, foi Gii Yicente o pri« 
meiro que entrou em scena, com o nome de um pastor 

« 
(1) Frei Luiz de Sousa, Annaes de D, JoGjo III, pag. i4. 



NO SECULO XVI 66 

(}il, inclinado a vida contemplativa. Bem se recordava 
poeta, de que este Auto Ihe fora pedido pela rainba 
viuva de Dom Joào ii, e ali Ihe lembra que n'aquella 
sala vira a elle, pastor de pastores, com seu cajado 
real. Gii Vicente convivera na córte de Dom Joào ii, 
e por ventura assistira a alguma d^essas consoadas do 
Natal, que Frei Luiz de Scusa, jà considerava antigas 
na corte portugueza. Os pastores cantam em scena, 
umas vezes musicas directamente populares, outras 
compostas por Gii Vicente, comò elle confessa em mui-' 
tas rubricas. Apparece n'este Auto um Anjo^ que vem 
acordar os pastores, dizendo-lhes que nasceu o Redem- 
ptor, que jà denota um certo arranjo de caracterisa- 
<jao; acordados os pastores, par^éfm-5^ para o presepio 
cantando, e sem abandonarem a scena, chegam ao pre- 
sepio, signal de que ali fora armado, ou que a repre- 
senta^&o era na sala desti nada a essa devo^ào. Ante 
presepio trazem os pastores as suas ofFerendas, e eom 
tangerés e bailes offerecem, e a despedida cantam urna 
I eanpneta, coUigida por Gii Vicente da tradigào po- 
/ palar. Terminado o Auto, sàem as figuras cantando, 
' corno se usava em todas as comedias da meia edade, 
que em geral terminavam por um Te Deum ou rondel, 
executado em um orgào portatil, e entremeadas de 
can^Oes acompanhadas de sistros e do^ainas. (1) Isto 
ajnda a comprehender a ìnise en scene dos primitivos 
Autos portuguezes. 



(1) Victor Fournel, Curiosités theatralea, pag. 9. 
5 



66 HISTORTA DO THEATRO PORTUGUEZ 

O Auto pastorilj fatando das maravilhas do nasc 
mento do Redemptor, termina com o verso : 

Qiie en esso despues se hablarà, 

corno urna especie de annuncio de que o Mi/stetno had 
ser continuado. Cabe toda a gloria da fiinda^ào d 
theatro portuguez à rainha Dona Leonor, viuva d 
Dom Joào II. acostumada na corte de seu marido 
estes passatempos poetico»; foi ella que francament 
manifestou o seu agrado pelo monologo do Vaqueirc 
foi ella que .pediu a Gii V^icente um Auto para a vigi 
Ha do Natal, e a pedido de quem o poeta escreveu 
Auto Pastoril: «A dita Senhora Rainha, satisfeita d'e 
ta póbre cousa, pediu ao auctor, que para dia de Re 
lego seguinte Ihe fizesse outra obra», conio conta o po< 
ta nas riquissimas rubri cas que acompanham os sei 
Autos. Em doze dias escreveu o Auto clos Reis Magot 
composto de quatro figuras, e n'este tempo o decora 
ram para ser.representado na mesma sala dos Pa(^osd( 
Castello, onde estava armado o presepio. Gii Vicentx 
nào declara o legar da scena, o que tudo indnz a crér 
que desde o Monologo, os dois Autos que se Ihe segui 
ram tiveram o mesmo palco. pensamento do Aut 
dos Reis Magos é'siniples mas draiiiatico; é um pasto 
Gregorio, que indo para Belem se perdeu no caminh 
e ali veni dar desgarrado ; encontra-o um outro paste 
Valerio, que o leva a um Evìnitào^ para que Ihes dig 
algunia nova do nascimento do Redemptor. E a pri 



NO SECULO XVI 67 

meira vez que Gii Yicente traz à scena os habitos de 
irade, e jà bastante ridicularisados na parte que Ihes 
distribue ; apparece depois um Cavalleiro, que vena en- 
sinar o caininho dos ReU Magoa^ os quaes apparecem 
no firn do Auto cantando a trez vozes um vilancete : 
^cantaTìdo assi todos j untamente^ offerecem os Meis seus 
presentes; e assi mui alegremente cantando se vdo.)) No 
firn d'asta rubrìca, Gii Yicente nào se esquece de se 
descalpar coni a circumstancia de ter escripto e feito 
decorar o Auto em doze dias: aE acaba em breve^ por-' 
quendo Iwuve espago para inais.ì> Auto, com os innu- 
meros tregeitos que acotnpanham a linguagem dos pas- 
tores, levaria urna bora a representar ; Gii Vicente en- 
curton a parte dos personagens, que tinbam pouco 
tempo para decorar, deixando o papel de Valerio e o 
de Ermitdo, mais extensos, sendo d'estes cora certeza 
r^ um desempenhado por si, e outro. por algum actor que 
come^ara a fazer d'isso prefissilo por gosto. 

Desde Janeiro até Dezembro do 1503 nào torno u 
Gii Vicente a representar mais nenhum outro Auto 
na corte; durante este anno grassara uma grande pes- 
te ein Portugal. Quando tornou outra vez a pizar o 
tablado, aonde encontrara as glorias e os mais vivos 
prazeres da sua vida, foi ainda a rainba Dona Leonor 
que Ihe pedira um Mystorio, um Auto para celebrar 
as Matinas do Natal. Em uiim nota que acompanha a 
rabrica historica d'este Auto, sedìz : ccrainha Dopa Bea- 
triz», o que nos parece equivoco, por que a phrase Rai- 
nha velkùy que vem no firn do Monologo do Vaqueiro^ 




^ HISTORIA DO THEATHO PORTUGUEZ 

se refere a raìnha viuva de Dom Joao ii, a cujo pedi- 
do fizera o poeta o Auto Pastoril, onde vein a delicada 
allasào a Dom Joào il. Auto da Sybilla Cassandra 
foi representado na noi te de 24 de Dezembro de 1503; 
é curiosissimo nào so pelo legar da ac^ào, senao peloa 
personagens, que exigiriam certa riqueza de vestidu- 
ras que so um rei ou urna egreja poderiam forne- 
cer. Auto foi representado no Mosteiro de Enxohre- 
ffos; durante o seculo xv eram usuaes na Europa as 
representa^Oes da Paixào, da Fugìda para o Egypto, 
e do Nascimento do Salvador, nas egrejas; (1) Gii Vi- 
cente, segundo o costume geral, mistura aqui o sagrado 
com o profano, as Sybillas com os prophetas, comò no 
velho Auto das Virgcns loucas. Este Auto da Sybilla 
Cassandra^ representado no Mosteiro de Enxobregas, 
fazia por assim dizer parte do officio, comò acontecia, 
segundo Magnin, aos dramas liturgicos da edade me* 
dia ; o officio divino, conforme o costume era celebrado 
antes da representac/ào do Milagreow do Mt/sterio; aqui 
o legar da scena, tendo de assistir a corte portugueza, 
parece que devia de ser o còro, ao pé do altar-mór. A 
vestimenta das trez Sybillas era em trajos de pastoras, 
comò se ve na rubrica: <i Entra Cassandra em figura di 
pastora j"» — Entra Erutea, Persica e Cimeria em cha 
cota, ellas a maneh*a de lavradoras,.,^ Segundo o costu 
me da edade media, os papeis de mulher eram feitos poi 
homons, até para a represenla^ào da Virgem Ma 

(1) Martone. Piété au moyen age, p. 92. 



NO SECULO XVI <Q 

ria;(l) os patriarchas, vinham vestidos de dalmatica o 
de vestes ecclesiasticas ; IsaiaSj MoyRés e Abrafido^ que 
dan9am no Anto em chacota ^cantando todos quatto de 
fotta a cantiga seguintei^ sào pastores vestidos de sur- 
rào. Nilo come^ando o Auto eom symphonia, e abrin* 
do corti um monologo, a atten^ao dos expectadores ti-* 
uba de ser chamada e apasiguado o ruido com urna viti' 
da f ira de todos os actores; em geral, os actores esta- 
vam sempre visiveis, voltando depois de dizerem a sua 
parte para o posto onde, de convenQaOjSe jnlgavam des- 
apparecidos. legar da scena nào tinha panno corri- 
de^ mas lé-se no fim do Auto da Sybilla Cassandra : 
iAbrem-se a^ cortinas onde està todo o apparato do 
Nascimento^ e cantam quatro anjo8j> Apenas no Mysi- 
terio da Crea<jao, -é que se usava correr a cortina, con- 
ferme 08 dias que se fam revelando. Depois de terem 
cantado os quatro anjos, os outros actores : « Vào can- 
tando em chacota e chegando ao presepio. ,.it e acabada 
I adoraQào, cantam urna cantiga feita e ensoada por 
^fìl Vicente, tambem aiictor da musica dog seus Autos. 
) auto termina com um « bailado de terreiro de trez 
or trez e por despedida um vilancete.i> 

A chacota e bailado de terreiro, as . fìguras de pas* 

►res, sao circumstancias que provrfm a origem legiti- 

amente popular do nesso theatro ; era do povo que 

il Vicente tirava a linguagem, as pragas, os anexins, 

cantigas e os romances. (2) 

(1) Victor Fournel, Curiosités ihéairales. p. 9. 

(2) Cancioneiro e Romanceiro geral portuguez, t. i e v. 



70 HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ 

Durante o anno de 1503, grassara urna grande pes- 
te em Portugal ; os divertimentos scenicos, postoque 
revestidos de um caraeter religioso, nào poderam to- 
rnar desenvolvimento ; so passado um anno, estando a 
corte em Almeirim, talvez ali refugiada da peste, é que 
Gii Vicente representou a 24 de Dezembro de 1504, o 
seu Auto da Fé^ composto de quatro figuras, diante 
de el-rei Dom Manoel; a rubrica historica nao de- 
clara o anno da representa^ào, mas é facil de deduzir, 
que tendo o poeta representado um Natal em Enxo- 
bregas em 1503, representando outro Natal em Almei- 
rim, so poderia ser em 1504. Por està rubrica se ve 
que o Auto fora escripto a pedido de el-rei Dom Ma- 
noel ; o pensamento é engra^ado e verdadeiramente poe- 
tico ; dois pastores Braz e Benito entrando na capella 
onde se celebravam as matinas do Natal, ficam mara- 
vilhados com as ricas alfaias e ceremonias, e entào ap- 
parece a Fé, que Ihes dà a significa^ao de todas aquel- 
las cousas. Aqui ha verdadeira invengào e originalida- 
de, legar da scena, comò se deduz da rubrica, foi na 
Capella real de Almeirim, naturalmente depois dos of- 
ficios divinos ; apparece uma figura allegorica, a Fé, a 
qual se faria conhecer por algum distico latino, corno 
acontecia nos dramas da edade media; a innocencia e 
a candura representava-se com trajos alvejantes. Nos 
costumes da edade media, pelo tempo de Natal, o povo 
fazia nas egrejas um jogo chamado da Pilota^ acompa- 
nhado dedansas; (1) as dangas com que Gii Vicente 

flj Martone, Piété, p. 74. 



NO SECULO XVI 71 

remata estes Autos de Natal, onde representa sempre a 
ingenuidade popular, levam a crér que o povo portugaess 
conheceu està institui^ào da Libertas Decembrica; a 
rudeza dos pastores entrando na capella, os versos acom- 
panhados de farsiture, ou entremeados do latim dos 
hymnos ecclesiasticos, usados desde o secalo x, mos- 
tram nos Autos de Gii Vicente urna tradi^ào dramatica, 
que come^ou a receber forma artistica no principio 
do seculo XVI. N'este Auto da Fé, os pastores falam 
hespanhol, a Fé dà as suas explica^Oes em portuguez, 
o que comraumente explicam pela preferencia que Gii 
Vicente dava a lingua hespanhola para os personagens 
comicos, e a lingua portugueza para a expressào sèria. 
Tal é pelo ménos a opiniào de Rapp, que considera o 
hespanhol comò a lingua rustica das figuras mais gro- 
tescas de Gii Vicente. Quasi no firn do Auto, a Fé con- 
vida OS pastores para cantarem algum dos seus estri - 
bilhos: 

VÓ8 outros tambem cantae 
Por V09B0 uso coatumado, 
Como làcautaes co*o gado... 

Jà no fim apparece Sylvestre, e juntos com a Fé : 
« Cantam a quatro vozes hua enselada que veiu de 
Franga.. . » A noticia que éncerra està rubrica é im- 
portantissima ; Aragào Morato, na sua excellente Me- 
moria sobre o Theatro portuguez, é de opiniào que Gii 
Vicente imitàra o theatro francez e nào o hespanhol : 
< as trovas e enseladas cantadas no fim de alguma^ 



72 HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ 

pe^as de Gii Yicente, mostram o conhecimento qae 
este tinha da poesia franceza, e o apre<^ qne fazia 
d'ella. > Na Rutena, cita Gii Yìcente a can^ao de Ca- 
roli Calbi^ qae encontramos em orna collec^ào franee- 
za servindo de estrìbìlho ao Compère GuUleri: 

Il était an petit homme 
Qui 8*app'lait Gnillerì, 

Carabi ; 
Il s'en fot à la chasse 
A la chasae aux predrix, 

Carabi, 

Tifi, earabi, etc. (1) 

Em muitos outros Autos cita Gii Yicente caii<^es 
fì'ancezas. No Anto da Mofina Mendes, dà a conbecer 
qne tinha noticia da designagào iranceza de Mt/stetno: 



A qnal obra é chamada 

Os Mysterios da Virgem, (2) 



Està circumstancia explica o final das pe^as dra- 
matieas, quasi sempre terminadas por musica. A imi- 
ta^ào franceza é evidente uà ideia do Auto de Sam 
Mariinho^ representado na Igreja das Caldas, diante da 
Bainba Dona Leonor, viuva de Dom Joào ii, na pro- 
cissào de Corpus Christi. Em Franca chamavam-se 
MartinaUa os feiios e jogos em louvor de Sam Marti- 

(1) Saint Malo, Chansons d'Auirefois, p. 376. — Clef du 
Caveau, n.* 561. 

(2) Obras, t. i, p. 103. 



NO SECULO XVI 73 

nho. (1) Auto de Gii Vicent© feito sobre a caridade 
(le Sam Marti nho, que parti u a sua capa para dar rae- 
tade ao pobre, representado a 11 de Junho de 1504, 
seria ao recolher da procissào de Corpus; a mais po- 
pular de todas as procissOes, onde concorriam os mes- 
teiraes com as insignias dos seus ofBcios, foi abrilhan- 
tada com um Auto dos que o poeta fazia para a corte. 
Na rubrica final, diz : aNào foi mais porque foi pedi- 
do multo tarde, ì> Aqui a palavra pedido, dà a en tender 
que OS habitantes das Caldas quizeram engrandecer a 
sua festa com uma composigào de Mestre Gii Vicente, 
e que està foi a primeira expressamente escripta para 
o povo, nào obstante ter assistido à representagào a 
rainha Dona Leonor, que sempre tinha animado o 
poeta. A parte mais extensa n'este Auto é a do Pobre, 
a qual caberia a Gii Vicente para desempenhar ; Sam 
Martinho entra vestido de cavalleiro, com trez pagens, 
e : « Emquanto Sam Martinho com sua espada parte a 
capa, cantam mui devotamente uma prosa. ì> A pala- 
vra prosa j acha-se tomada no sentido de hymno eccle- 
siastico : (2) 

Tu anima €m gloria sera recebida 
Com diilccs cantares diciendo assi... 

Aqui, provavelmente, ao recolher da procissào, ter- 
minado o Auto comò cerimonia final, o clero entoava 
algum dos hymnos da liturgia, a que se dava o nome 

(1) Martone, Op. c^7., p. 75. 

(2) HUtoria da Poesia popular poriugueza^ p, 73, 



74 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

de prosa, Este Auto de Sam Martinho é tambem no- 
tavel pelo metro popular de romance em endeclias, 
nauca usado pelos poetas cultos, visivel imita^ào fran- 
ceza. Auto està incompleto, por ter sido pedido 
muito tarde, senào o poeta eontinuaria o milagre, até 
ehegar à grande situa^ào dramatica em que o Pobre 
apparecia no resplendor divino de Jesus, o que servia 
admiravelmente o pensamento devoto da procissào de 
Corpus Christi, Segundo urna tradigào, e pelo titulo 
de Mestre, que se Ihe dà no Cancioneiro geral. Gii 
Vicente era ourives de profissào, o que o faria tornar 
parte na festa do Corpo de Deos. Porém, o conheci- 
mento de que o primeiro poeta dramatico de Hespa- 
nlia, Lope de Rueda, foi ourives em Sevilha, talvez 
desse origem a està lenda infundada sobre o fundador 
do nesso theatro. 

Em 1505, vèmos a primeira comedia de Gii Vicen- 
te, que sàe fora do quadro dos Mysterios e Moralida- 
dee ; é uma far9a que versa sobre os amores de um 
escudeiro de fraca moradia, que andava sempre apai- 
xonado. E no genero das pe9a8 dramaticas da Com- 
pagnie de la Mère folle^ que se aproveitava dos ridi- 
culos e escandalos locaes; a este genero chamaram 
OS francezes soties^ representadas ordinariamente nas 
ruas, pelos filhos de familia. Na rubrica da far9a de 
Gii Vicente, declara-se que ella foi conhecida do vul- 
go, e tanta predilec9ào gosava, que o vulgo Ihe dea o 
nome por onde é conhecida : « Este nome da /arpa se- 
guinte : — Quem tem farellos ? — poz-lKo o vulgo, » 



NO SECULO XVI 75 

Sendo està far^a desempenhada em Lisboa, dìante de 
el-rei Dom Manoel, nos pa^os da Ribeira, o povo nào 
podia assisti r a representa^ào : a natureza do scenario 
e logar da ac^ào, que é urna rua, aonde um namorado 
espera hora propicia para falar aos seiis amores, davam 
a està far^a a possibilidade de ser representada em 
qnalqiier parte, ao ar livre. Por isso se tornou da pre- 
dilecQào do vulgo, corno Gii Vicente dà a entender. 
Comega pelo dialogo de AparÌ9o e Ordonho, rnogos de 
€spo7*a8y que se eiicontram andando a buscar favello : 
€ Anda Ayre» Rosado so passeando pola casa lepido no seu 
cancioneiro » de trovas que fizera à sua dama. N'esta 
far^a apparecem pragas e cantigas populares, que ex- 
plicam o porque o vulgo a estimava. Aqui se encon- 
tram jà os d partesy de bastante effeito comico ; e tal- 
vez se desse uma muta^ào de scena, por que Ayres 
Rosado « Tange e canta na rua a porta de sua dama 
Isabely e em com^gando a cantar : 

Si domiis, doD cella, 

ladram os càes* » Nào obstante o latido, Ayres conti- 
nua o descante : a Aqui Ihe /ala a moga da janella tao 
passo que ninguem a ouve, e pelas palavras que elle res' 
ponde se póde conjecturar o que Ihe ella diz. » Està ru- 
brica denuncia jà um grande progresso no scenario, 
principalmente lembrando-nos de que foi representada 
nas salas dos pa^os da Ribeira. Os càes continuam a 
ladrar^ até que o creado os corre às pedradas e sàem 



76 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

ganindo : depoìs come^am a miar os gatos de Isabel ; 
quando Ayres estava enthusiasmado contando as suas 
muitas riqiiezas, come^am a cantarolar os galos. N'iató 
apparece de repente a Velha, niàe de Isabel, ralha 
com Ayres, que se vae, e regoiigando com a filha se 
recolhem « e fenece està primeira farga » , a primeira 
que Gii Vicente compoz, comò o confessa. A far^a de 
Quem tem farellos ? deve-se considerar conio o primei- 
ro passo para a secularisa^ào do theatro, e corno a 
primeira que o nesso povo conheceu. Dom Francisco 
Manoel de Hello, escrevendo o Fidalgo Apréndiz, imita 
a scena da serenada escripta por Gii Vicente, o que 
denota que conhecia a velha farga, ou que alguma vez 
a vira representar. N'esta pe^a nao declara Gii Vi- 
cente o motivo da representa^ào, ma^ bem se descobr» 
que fora para passatempo de um serào do pa<jo, pars^ 
substituir OS mómos da córte de Dom Joào li. A far^e^ 
de Qìiem temfarellos? agradou bastante na córte, prin- 
cipalmente a rainha Dona Leonor, viuva de D. Joào rx 
e irmà de Dom Manoel, por isso que, mezes depois , 
em 24 de Dezembro d'este mesmo anno de 1505, re- 
presentou Gii Vicente um mysterio ou Auto intitulado 
dos Quatro Tempos : ^foi representado ao mui nobre e 
'prospero rei D. Manoel na cidade de Lisboa^ nos papos 
de Alcaceva^ na capella de Sam Miguel y por mandado da 
sóbredita Senlun^a sua irmdj nas Matinas do NataLi^ 
N'esta rubrica nào vem a data, porém a palavra w- 
bredita, prende este Auto aos outros do Natal ante- 
riormente encommendados por Dona Leonor; no Auto 



NO SECOLO XVI 77 

dos Quatro Tempos segue Gii Vicente a rigor os pre- 
ceitos de um Mysterio, iutroduzindo nove figuras; en- 
tra primeiro no tablado da capella de Sam Miguel um 
Seraphim, fatando coni um Archanjo e dois Anjos que 
vem com elle; nas antigas pe^as eram os Anjos repre- 
sentados com azas e os Apostolos com tochas accezas 
na mào; aqui vào todas estas quatro figuras eelestiaes 
ayan9ando até chegarem ao presepio, diante do qual 
param, cantando a quatro vozes um vilancete farsi. 
€ E depois da adorando dos Seraphins^ vem os quatro 
Tempos^ e pAmeiraniente vem um pastor^ que significa o 
Inverno^ e vem cantando. » Gii Vicente indica-nos o 
modo de caracterisar a allegoria do Inverno, nào des- 
creve o Verào, que come9a cantando, até que : ^ Entra 
Esito y huma figura muito long a e multo enferma^ muito 
magra com humxi capella de palha.i^ Estio e Outono 
vem sem cantares. Aqui apparece Jupiter, com David 
em figura de pastor ; vào juntos ao presepio inda can- 
tando uma cantiga franceza, que explica a origem dos 
ensaios dramatices de Gii Vicente : ce Até chegarem ao 
presepio vdo cantando uma cantiga franceza^ que diz : 

Ay de la noble 
Villa de Paris,» etc. 

Desde o tempo de D. Joào i que se cantava em Por- 
tugal a velha canQào de Du Guesclin ; é porém mais 
naturai que està aqui indicada fosse encontrada em al- 
gum velho mysterio francez conhecido pelo poeta. Diz 
Victor Fournel> nas Oriffena do theatro mod&mo : ^ k& 



78 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

representa^Oes come9avam por urna symphonia e aca- 
bavam quasi sempre por um Te Deum.» (1) A rubrica 
do Auto dos Quatro Tempos segue este costume francez : 
« E todos assi juntamente com Te Deum laudamus se 
despediram e deram firn a està represenfagdo.)^ Repre- 
sentado o Auto na capella de Sam Miguel, seria, comò 
muitos outros Autos, acabado com acompanhamento de 
canto de orgào. Até aqui temos so visto o genio me- 
diévico, que se revelava no drama liturgico, nos trez 
mysterios do anno, o Natal, a Adora^ào dos Reis Ma- 
gos e Endoengas, desenvolvido por Gii Vicente no 
principio e fi m do anno. As grandes pestes que asso- 
lavara a Europa, entraram em Portugal, e durante 
trez aunos esteve Gir Vicente calado por causa da 
tristeza geral. Comtudo nào esteve longe da corte, 
onde era entào bem acolhido, porque em 1506, o vè- 
mos acompanbar a córte para Abrantes, para onde se 
refugiàra por causa da peste, e ai, em um serào real, 
prégou o Sermào em verso, pelo nascimento do Infante 
Dom Luiz, que mais tarde veiu a ser seu amigo, e 
imitador, comò se julga, pela comedia que Ihe é attri- 
buida de Los Tnrcos. Postoque este Sermào de Gii 
Vicente nào perten^a ao genero dramatico, andava 
comtudo ligado aos Mysterios da edade media; um 
Milagre francez, no qual nossa Senhora livrou urna 
Abbadessa que estava gravida do seu confessor, come- 
ta por um sermào, que se intitulava colando* «Os Ser- 

(1) YìctoT Fournel, Ouriosités theatrales» 



NO SECULO XVI 79 

mOes, comò diz Martone, andavarti jnntos aos exerci- 
cios das Confrarias lìtterarìas e dramaticas, do seculo 
XIV ao seculo xvi. Um prégador vinha, antes da re- 
preserita^ào dos grandes Mysterios, exaltar o zelo dos 
espectadores por urna pi edosa allocu^ào relativa a so- 
lemnidade do dia.» (1) Sermào de Gii Vicente é um 
documento precioso, onde o poeta pela primeira vez 
revela o grande odio e os tramas que Ihe urdia o par- 
tido clerical; de facto n'este anno aconteceu em Lisboa 
a mortandade dos judeus por causa das instigacjOes fa- 
nnticas de dois frades dominicanos; sobretudo é n'este 
Sermào, que por modo inexplicavel apparecem as pri- 
meiras ideias da Reforma, muito antes de ser prégada 
por Luthero e de as trazer para Portugal o infeliz Da- 
miào de Goes. Diz no titulo, Gii Vicente : « Sermào 
feito a christianissìma Rainha D, Leonor, e prégado 
em Abrantes ao muito nobre Rei Dom Manoel, primei- 
ra do nome, na notte do nascimento do Illustrissimo 
Infante Dom Luiz, Era do Senhor de 1506. — E por 
que alguns foram em contrario parecer que se nào pre- 
gasse sermào de homsm leigo, comsgou primeiro dizen- 
do, antes de entrar no sermào : 

Aiiter? de aqueste muy breve sermon, 
Placiendo à la sacra scieimia divina, 
Muy receloso de gente malina, 
A mÌ8 detractores demando perdon^ 
Los quales diran con justa rasoii : 
Piisose el pf* rro on brngas de acoro ; 
. Daran niil razouus, dicieudo que es ycrro 
Pasar los liinites de mi jurdicion. 

(IJ Martone, Pieté au May engagé, p. 95. 



■■«■RVI 



fl 



80 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



A guerra entre Gii Vicente e o partido clerical, 
que procurava introduzir em Portugal o Que modero 
de Hespanha, estava declarada; o poeta tem de ora em 
diaute de se vèr de freute corri a calumnia, com as in- 
trigas monasticas, com delata^Oes infames que procu- 
ram constantemente fazel-o cahir do favor real. So em 
1523 é que o veremos de fronte com os seus inimigos, 
no Convento de Thomar, confundindo-os com a cele- 
bre far^a de Inez Pereira. partido sacerdotal oppóz- 
se a que pregasse sermfiohomem leigo; o poeta queria 
celebrar o naiscimento do Infante Dom Luiz com um 
joco da sua musa, comò fizera, havia quatro annos, 
polo nascimento de el-rei Dom Joào ili, e por certo nào 
poderia vencer os escrupulos e difficuldades, se nào en- 
contrassemos a Rainha Dona Leonor, que se deleitava 
com esses passatempos poeticos, accudindo ao guerrea- 
do Gii Vicente. thema do Sermào foram estas pala- 
vras latinas : N^on volo, volo, et defìcior, escriptas a car- 
vào em uma parede de uma sala do pa^o em Abrantes. 



Quieren aquestas palavras decir, 
No quiero, quieroy es pordemas. 



Està Sermào dividido em trespartes; na priniei- 
ra, onde trata do Nào quero, expOe um grande nume- 
ro de questOes da theologia da edade media, rodando 
pelas ideias que deram origem à Reforma : 



1 



NO SECULO XVI 81 



No quieto disputas en predicaciones, 
No quiero deciros las opiniones 

No alegar texto antigo ó moderno, 
Si el Papa si puede dar tantosperdones. 
Ni el precito que està condenado 
Nel saber divino, si tiene alvedrio, 

No quiero estas dudas. porque es escusado 
Sabellas ninguno al predicatorio ; 
Ni disputar si el Romano Papado 
Tiene Poderio en el Purgatorio, 



Eis aqui francamente revelada a origem de Refor- 
ma, antes de ella ser prégacfa na AUemanha ! Como o 
senso commum do pobre poeta comico pòde tocar està 
these! O Sermào é enorenhosissimo e do uma ingenui- 
dade que encanta; as allusOes aos costumes do seculo 
XVI pullulam; é elle o primeiro que fala centra a intol- 
lerancìa que se usava com os Judeus, obrigando-os a 
converterem-se a for^a. Na terceira parte do Sermào 
Es por demas, diz : 



Es por demas pedir al judio 

Que sea Christiane en su corazon, 

Tambien està llano 

Que es por demas al que es mal cristiano 

Doctrina de Christo por fuerza ni ruego ; 



Demoramo-nos falando d'este unico trabalho de 
Gii Vicente em 1506, porque d'aqui data a lucta com 
o partido clerical que procurava banir do nesso Co- 
digo civil a justa tolerancia que até ao reinado de D. 
Joào II se teve em Portugal para com os inowto^ ^ ^\x- 



82 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

deus. D'aqni em diante urna satyra penetrante e viva 
anima os Autos de Gii Vicente, pobre e inorrendo na 
indigencia, mas sempre amigo e martyr da liberdade. 
Daraute o anno de 1507 nào apparece Auto algum, 
nào que fallasse occasiào, corno no nascimento do In- 
fante Dom Fernando, mas porque a carni fi eina de Lis- 
boa centra os judeus deixara urna tristeza commum e 
um terror de incerteza. 

Auto da Alma, foi o primeiro Mysterio da Pai- 
xào, escripto por Gii Vicente; com elle rompeu o si- 
lencio de dois annos em que ficara; mais urna vez a 
Rainha Dona Leonor, a verdadeiramente protectora 
do theatro portuguez nascente, mandou que Gii Vi- 
cente compuzesse um Auto para a noite de Sexta feira 
de Endoen^as. Nos Pa^os da Ribeira, em a noite da 
soledade de 1508, representou Gii Vicente diante 
de el-rei Dom Manoel, por mandado de sua irmà, 
o Auto da Alma, o primeiro completamente escripto 
em portuguez. Os porsonagens do Auto sào de urna 
caracterisa9ào difficil ; apparecem a Alma e o Anjo 
Custodie, a Egreja, Santo Agostinho, Santo Ambro- 
sio, Sam Jeronymo e Sam Thomaz, e pela primeira 
vez entram em scena dois Diabos. No velho drama 
anterior aos Mysterios, o Ludus Paschalis, represen- 
tado no seculo xii, a Egreja apparecia em trajos A& 
ninlher de urna figura iniponente; (1) e naturai qa.^ 



(1) Bernard Pez, Thesaurus Anecdotorum^ t. il. P. iX^^ 
p. 187, traz està pe^a achada uà Abbadia de Tangarnese. 



NO SECULO XVI 83 

Gii Vicente seguisse a tradi^ào liturgica. Elle mesmo 
DOS dà a en tender que a representou com habitos de 
mulher: dAssi corno foi cousa mnito necessaria haver nos 
eaminhos estalagens^ para repouso e refeigdo dos cansados 
eaminhantesy assi foi cousa conveniente que nesta carni- 
nhante vida houvesse rima estalajadeira^ pera refecgào e 
descanfo das almas que vdo caminhantes pera a eternai 
mrada de Deos. Està estalajadeira das almas he a Ma' 
ire Sancta Igreja. . .» Como no Ludus Paschalis, da-se 
aqni o triumpho da Egreja, nào contra a Synagoga, 
porque Gii Vicente procurava evitar o tornar mais vio- 
lento fanatismo dos nossos reis contra essa ra<ja at- 
tribolada, mas contra os Diabos da Theologia. Os Dou- 
toresque entrara deviara apparecer de capa de asper- 
ges, corno se representavam os patriarcbas. legar 
da scena foi mais urna vez na sala dos Pai^^os da Ri- 
beira em Lisboa, apparecendo um aitar, que servia de 
naeza da estalagem, e sobre elle duas u mas contendo 
08 cravos, e a corèa de espinhos, que serviam de igua- 
nas: fa mesa he o aitar, os manjares as insignias dapai- 
xào.t IL Està posta urna meza com hua cadeira. Verna 
Madre Santa Igreja com os seuff quatro doctores, » Pouco 
depois entra o Anjo Custodio com a Alma, a qual o 
Diabo vem tentar. Como introduziria Gii Vicente o 
Diabo em scena? 

Rabelais, no livro iv, cap. 13 do Pantagruel, des- 
5reve a caracterisa^ào dos Diabos em um Mj'-sterio da 
^u'xao feito em Poictou por Francisco Villon : tSes 
[jibleR estoit touts carapassonn^s de peaulx de loups, 



84 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

de veaux et de beliers, passeraentées de testes de mou- 
ton, de cornes de boeufs et de grands havets de cuisi- 
ne; ceincts de grosses courrois, esquelles pendoient 
grosses cymbales de vaches, et sonnetes de mulets à 
bruit horrifiqiie. Tenoient en main aulcuns bastons 
noirs pleins de fusées; aultres portoient longs tisons 
allamés, sus lesquels à chascun carrofour jectoient plei- 
nes poignéos de parasine en poudre, dont sortoit fea et 
fumèe terrible.» A parte que os Diabos faziam nos Mys- 
terios era chamada diahlerie; é naturai que Gii Vicente 
eonhecendo o theatro francez do seculo XV, adoptasse 
està caracterisa^ào do Diabo inventarla por Villon. Os 
Diabos do Mysterio, antes da representaQào, corriam a 
cidade. Os documentos d'este uso, encontrain-se entre 
nós em varias locugOes da lingua portugueza. Teraos: 
« Viu'se Diabo de botas, €07*reu a cidade toda.i> Temos 
o : Fazer diabruras, e Fazer Diabos a quatrOj que se de- 
•rivam dos velhos Mysterios; em Rabelais se le: la gran- 
de diablerie a quatre personages, (1) porque de ordina- 
rio as pe9as eram tanto mais dispendiosas e gostadas 
do publico, conforme o numero de diabos introdu- 
zidos em scenai Diabo nos Mvsterios da edade media 
foi o percursor de Pathelin^ da Celestina^ de Arlequino, 
de Sganarello e de Figaro; Gii Vicente comprehendeu 
os grandes recursos comicos que podia tirar d'este per- 
sonagem. Na lingua portugueza a locu^ào: Anda o 
Diabo ds soltas^ faz lembrar o privilegio que em Ghau- 

(1) Pantagruel, cap. iv, p. 52. 



NO SEOULO XVI 86 

montsedava aos que representavam de Diabo, poclen- 
do viver à discripQào durante oito dias; (1) temoson* 
tros adagios em que o Diabo entra sempre comicamen- 
te, conio: iLOnde quer^ o Diabo dispara urna tranca,* 
^oAiUo da Alma, o Diabo vem tentar a Alma, que en- 
tri para a estalagem com o Anjo Custodio, appresenta- 
Ihe ura bìial e ajuda-lh'o a vestir, cal9a-lhe uns chapins 
di Valenga^ por que a Alma està em trajos de mulher; 
di-Ihe depois um colar esmaltado de curo, dez aneisy 
vm espelhoj e dois pendentes para cada orelha. 

Està tenta9ào é feita durante a caminhada para a 
estalagem da Egreja, o que dà ideia de um acto. Logo 
que a Alma entrou com o Anjo para a estalagem o 
Diabo fica fora fazendo grandes tropelias: dEm quanto 
ffku cousa8 paf^sam, Satanaz passeia, fazendo grandes 
^easj e vem outro Diabo. ^ <kEstas cousas, estando a 
•Alma assentada a mesa, e o Anjo junto com ella em péj 
•«» 08 Doutores com quatro bacias de cosinha cobertas, 
^fintando Yexilla regis prodeuntD, e as pòe na mesa, a 
iQal bonze Santo Agostinho. A Egreja lava as màos 
limpa-se a uma toalha: a Està ioalha de que aqui se 
ìUa^ he a Veronica, a qual Santo Agostinho tira d^an. 
*e OS bacioSj e amostra a Alma; e a Madide Igreja, com 
r Doutores, llie fazem adora f do de joelhos cantando: 
alve^ sancta Facies.» A Egreja lego apresentou as 



Ìl) Charles Luandre, Hist. du Diohle, Rev. des Deux 
68, 1842, 15 de Agosto. 



80 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

iguarias da sua meza; mostra a primeira: dEsta igua- 
ria era que aqui se falla, sào os Agoutes; e em este pas- 
so se tiram os hacios e os presentam a alma e todos de 
joelhos adoram, cantando : Ave flagelli! m.» oiEsta se- 
gunda iguaria de que aqui se falla, he a Corda de es- 
pinhois; e em este passo a tiram dos bacios e de joelhos 
08 Santos Doutores cantam: Ave Corona spinanim.» 
A terceira iguaria é a[)resentada por Santo Agostinho : 
«£ a este passo tira Santo Agostinho os CravoSj e to- 
dos de joelhos, os adoram, cantando: Dulce lignum, 
dulcia clavus.» Depois de urna fala do Anjo: tiDespe 
a Alma o vestido e joias que Iho inimigo deu.i^ É eii- 
tào que Sam Jeronymo »ppresenta a quarta iguaria: 
aApresenta Sam Jeronymo a Almu hum Crucifixo, que 
tira d'antre os pratos; e os Doutores, o adoram, can- 
tando: Domine Jesu Christe.» ^E todos juntos, can- 
tando Te Deum laudamus, /oram adorar omoimstito.^» 
Este Auto é de uma crenga poetica profunda. 

A parte exterior da decoragào é de uma riqueza que 
so se poderia encontrar no palacio dos reis. Em guerra 
com o clero, era impossivel para Gii Vicente o obter 
as dalmaticas para os doutores e as insignias da pai- 
xào, se o nào protegesse o grande gosto que por estas 
representacjOes tinha a Rainha Dona Leonor, por quem 
fora mandado compòr. Dom Manoel estimava mais as 
far<jas de folgiir, corno vimos na de Quem iein farellosì 
Auto da Alma é um grande progresso na scena por- 
tugueza, no curto espa^o de seis annos. A frequencia 
das repvesentai^òes nào é tal, (\ue ^ossàmos iaduzir 



NO SECULO XVI 87 

a eiisteocia de urna companhia de actores de que se 
servisse Gii Vicente; comtudo os diverti mentOB eseho- 
lasticos, sempre em forma dra malica nas Universidades 
e CoUegios, levara a crér que Gii Vicente, tambera es- 
tadante nos seus principios, se servisse de escholares, 
que a pretexto de gosarem urna noite no passo, se da- 
riam ao traballio de estudar nm papel. No anno de 1509 
Gii Yicente nào representoa ; a Rainha Dona Maria 
dera d luz o Infante Dom Àffonso ; n^esse mesmo anno 
venerando Dom Francisco de Almeida, Vice- Rei da 
India, fora morto às màos dos Cafres no Cabo da Boa 
E8peran9al Nào era propicia a occasiào para ama festa 
dramatica. Em 1510 representoa Gii Vicente di/o* v^- 
ies Auto da Fama, a primeira diante da rainha Dona 
LeoQor, que sempre tomara a peito defeuder estas 
[ composi(?Oes do poeta, a segunda diante de el-rei Dom 
Manuel, na cidade de Lisboa, em Santos o Velho. N'es- 
te Auto se cqnhece a ilhistra9ào nào vulgar de Gii Vi- 
cente, fazendo falar aos seus personagens francez, ita- 
liano e hespanhol, comò nos velhos descorts da edade 
media. No firn do Auto apparecia em scena um carro 
trìamphal, em que a Fama portugueza é coroada pelas 
virtudes. Està pega é propriamente uma farga, a que 
se deu o nome jà vulgar de Auto, signal de que foi 
muito conhecida; isto se ve pelo titulo Farga chamada 
Auto da Fama. intento do poeta é mostrar comò 
Portngal se engrandeceu sobre todas as nagòert com a 
descoberta do Oriente e com as grandes navegagOes. 
No argumento nos explica a didposÌ9àp do scenario; 



88 HISTORLA DO THEATRO PORTUGUEZ 

<iE porque antigamente a fairm d'està nossa provincia era 
em prego de pequena estima ^ significando isto, sera a pri- 
meira figura huma mocinha chamada Portugueza Fama^ 
guardando patas^ a guai sera requerida por Franga^ por 
Italia j por Castella, e de todas se escusar d, porque cadcL, 
hum a quererd levar; e provare por evidentes rasòea qu^ 
eate reino a merece mais de que outro nenhum. Pelo qua^ 
sera posta no firn, do Auto em cai^o triumplial per dua^ 
virtudes, s. Fé e Forialeza.t> — a Entra logo a Fanuz^ 
com uni Parvo per notne Joane comsigOj careando suols 
patassìi (n Dettasse Joane a dormir e entra o Francez.n JÉ 
n'esta parto que Gii Vicente dirige os requebros à Fa- 
ma segando a genio de cada povo ; b Fama excusa-os 
alludindo ao estado politico de cada um, mostrando 
a superioridade das conquistas portuguezas; baldadoB 
todos OS esforQOS do Francez, Italiano e Castelhano, 
«a Fé e a F&rtaleza vem laurear a Fama com urna co- 
róa de louro . . . e a pòe em seu carro irimnphal com mur 
sica^ e assy a levam e se acaha està susodita farga^fy Este 
recurso scenico introduzido pela primeira vez por Gii 
Vicente, era jà empregado nas festas da córte de Dom 
Joào II. Por està farga se ve, que foi Gii Vicente o 
poeta popular que primeiro sentiu a grandeza dos fei- 
tos portuguezes no Oriente, e nào custa a acreditar 
que Luiz de CamOes recebesse os primeiros estimnlos 
para a composi^ào dos Lusiadas d'està far^a muito co- 
nhecida, muito antes de se inspirar da leitara das Z>^- 
cadas de Joào de Barros. motivo da composi^ào do 



NO SECULO XVI 89 

Auto da Fama^ acha-se nos successos militares porta- 
gueses de 1510 ai citados: 



E chegareis 
A Goa e perguntareis 
Se he ainda subjugHda 
Por peita, rogo ou espada ? 
Veremos se pasmareìs. 



N'erte anno de 1510, Affonso de Albuquerqne, Vice 
Hei da India, para se dosafrontar da derrota de Cale- 
cut no anno antecedente, foi còntra a iiha e cidade de 
Gòa, emquanto os naturaes andavam distrahidos com 
^nerra centra o rei de Morsinga; entrou sem grande 
resistencia, abrindo-lhe depois as portas. Lan^ados fó'- 
ra 08 portuguezes pelo Hidalcào, AfFonso de Albuquer^ 
que arreineteu de uovo com urna grande armada, e to- 
mada outra vee a cidade, foi tamanha a carnificina e a 
crueldade, que os habitantes vencidos entregaram-se 
aterrados pedindo-lhe piedade. A entro. successo das 
armas portugneses n'este anno, se referem estes versos : 



Sabei em Àfrica, a maior 
Fhr do8 mouros em batalha, 
Se se tornaram de palha 
Quando foi na de Azamor. 

E, sem combate 
A trinta leguas d&o resgate, 
Comprando cada mez a vida ; 
E a atrevìda Almedina 
£ Ceita se tomou parte. 



90 HISTORIA DO THE ATRO PORTDGUEZ 

Refere-se aqui o poeta a liga que os Mouròs de Aza- 
mor e de Almedina fizerain para reconqùistar Safi, 
d'onde era governador Fernando de Athayde; era 
grande o exercito dos mouros aliados, mas a disciplina 
dos soldados portuguezes os poz em fugida. Tristes glo- 
rias estas da devastagào expoliadora, mas taes eram 
OS senti mentos nacionaes no seculo xvi, e nào ha povo 
que se nào exaltasse cora feitos que sao hoje de ver- 
gonha. Auto de Gii Vicente seria talvez escripto 
para alguma festa que celebrava éstes triumphos; a 
ideia é engra9ada e originai, e nenhum talento poderia 
tirar mais resultado de frias allegorias no theatro, a 
nào ser da crenga arrebatada dos mysterios religiosos. 
A prinieira representagào diante da rainha Dona Leo- 
nor, seria por ventura por uma delicada lisonja allusiva 
aos esforQos de seu defuncto m arido para a descoberta 
da India, que elle nào chegou a ver realisada. Por to- 
das estas conjecturas se recompOe a vida moral do poe- 
ta e da sociedade portugueza, mostrando que condÌ9òes 
de existencia davam para o desenvolvimento do theatro. 
No anno de 1511 nào houve representa^ào drama- 
tica na córte; corno em 1509, a posse de Gòa causara 
serios desastres. Hidalcào pertenderareconquistal-a; 
morreu o governador da cidade no meio do assalto ; nào 
faltavam trai^Oes de Rosaleau, e conspiraijào dos nego— 
ciantes ricos de Malaca para nos tirarem essa rica pre^^ 
do Oriente. Todos estes successos explicam a ausenci^ 
dos divertimentos scenicos na corte durante este ann 
Bm 1512^ as armas portuguezas alcan9aram grand- 



NO SECULO XVI 91 

triiimphos na India e na Africa ; n'este tnesmo anno a 
rainlia Dona Maria dora a luz o Infante Dom Henri- 
que, que veiu a ser o Cardeal rei. Eram tudo cir- 
cumstancias que pediam um Auto do engra^ado poeta. 
N'este anno representou Gii Vicente a far9a do Velho 
da Horta, em que apparece o typo de urna alcoviteira 
perfeitamente caracterisada, que por vezes faz lembrar 
o velho typo da Celestina^ de Rojas, eujo nome anda 
na tradicào orai portugueza na allusào à Madre Celes- 
tina encantadora. Està farga do Velho da Horta, cha- 
mado Femandianes, é do genero das far^as dos clercs 
de la Bazoche, que deram mais ampli tude aos Mysterios 
da Conf varia da Paixào^ creando as Moralidades^ per- 
sonifìcagào allegorica e satyrica dos vicios, com refe- 
rencias a persona lidades. As Moralidades exigiam um 
scenario pouco complicado, por que a acgiió era tirada da 
vida burgueza ; os personagens nào passavam de dez. 
Os clercs de la Bazoche eram aprendizes de Direito e 
[ officiaes de justÌ9a; n'esta mesma far^a Gii Vicente nào 
se esqnece de citar a pena infamante da carocha, e dos 
a5oute8 dados na Alcoviteira. Estas circumstancias 
Jiiostram que a farga fora representada em Lisboa, ape- 
^ar de se nào declarar na rubrica historica. Como em 
i^ttia far9a bazochiana, Gii Vicente allude na ladainlia 
^c Branca Gii aos fidalgos da córte de Dom Manoel e 
^8 Datnas, que provavelmente assistiam a representa- 
9ào ; ahi dirige uma strophe a Joào Fogac^a, poeta da 
corte (l)j a Tristào da Cunha, e Simào de Scusa, poetas 

C^^ Gmctoneirn peraly fol. SS, v. col, 3, 



92 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

do Cancioneiro (1), a Martim AfFonso de Mello, (2) a 
D. Joào de Menezes afaniado nos serOes do passo pelos 
seus versos, (3) a Dotn Anrrique (4) e ao Barào de 
Alvito tambem trovadores palacianos (5), a Garcia Mo- 
niz, a Gon^allo da Silva e Commendador Mór de Avis, 
cujas aventuras amorosas e chistes engracjados se en- 
contratn nos versos do Cancioneiro Oeral de Garcia de 
Resende. Gii Viceate allude a todas essas intriffas na- 
moradas com as damas da córte, o que prova que todos 
elles assistiratn a representaijào da far9a do Velho da 
Horta; na ladainha de Branca Gii, cita os amores das 
damas da corte que alli estavam tambem presentes, 
Dona Maria Anriques, D. Joanna Mendon9a (6), D. 
Joanna Manoel, Dona Oatherina de Figueiredo namo- 
rada de Simào Scusa que tantas poesias Ine dedi<^ava; 
nomeia Dona Maria de Calataud, e Dona Beatriz de 
Sa a quem os poetas do Cancioneiro tanto exaltaram 
cantando a sua esquivanga. (7) 

D. Beatriz da Silva, D. Margarida de Scusa, D. 
Violante de Lima, D. Isabel de Abreu, D. Maria de 
Athaide, ornavam o serào do paco n'essa noite do Auto ; 
Gii Vicente distribuia as gragas e as allusOes aos amo- 
res escondidos e aos versos que eiies moti va vara : devia 

(1) Cane, geral^ fol. 193, v. col. 1, e folha 111, col. 1. 

(2) Ibid. fol. 106, V. col. 1. 

(3) Ibid. fol. 16, col. 2. 

(4) Ibid. fol. 180, V. col. 3. 

(5) Ibid. fol. 166, col. 3. 

(6) Ibid. fol. 160, col. 1. 

(7) Jbid. fol. 152, col. 1, 



NO 8ECUL0 XVI 98 

de ser um divertimento intimo, corno nenhuma córte 
da Earopa entà.o gosava. Tiuha rasào Sa de Miranda, 
tjuando no reinado de Dom Joào ili, se queixava da 
decadencia dos celebrados seroes de Portugal, 

logar da scena era em urna sala do pago; fingia 
ama horta com flóres, dentro da qual passeava um 
velho casado, que se apaixonou por urna rapariga que 
illimu; uma aicoviteira vem offerecer-se para sedu- 
sil-a, e assim tira de uma vez ao velho trinta cruzados 
para um brial e uns toucados, de outra mais cem cru- 
zados para uma vasquinha, tres on^as de retroz e um 
irmal com rubis, e mais dez cruzados pela sua agen- 
zia. Nào ad mira que este assumpto nào chocasse as da- 
nas da córte, porque nas trovas do Cancionciro se 
)neontram scena» decameronicas que se versejavam cu- 
re 08 pannos de raz ao serào, com uma frescura de 
)alavras egual à dos contos do jardim de Pampinea. 
Por efFeito das muitas pestes que desvastaram Portu- 
;al no seculo xvi, nào admira que na córte se adoptas- 
^ a receita que Boccacio diz se usara na grande pes- 
te de Fiorenza de 1348. melhor, que tudo, é que 
Gii Vicente, insensivelmente, no pensamento da far^a, 
lue se resumé n'estes versosi 



Se 08 jovens namoradores 
Os mais tem fins desastradas 
Que farfto as cans lan^adas 
Na córte dos ninadores? 



*^zia urna satyra futura contra El-Rei Dom Ma- 
noeljà velho, que tornou a casar pela terceira vez 



94 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

com a Infanta Dona Leonor, namorada de seu filho 
Dom Joào II r. Pelo menos o tempo tornon o Velho da 
Horta urna verdade da nossa historia. O gosto goral 
que produziu na corte està moralidade de Grii Vicen- 
te, descobre-se porque o vemos apparecer successiva- 
mente nos dois annos -seguintes ; os seus Autos torna- 
vam-se urna necessidade para o fausto aristocratico. 

D'està vez Gii Vicente adopta urna nova designa- 
9ào para as suas composigóes theatraea; a sua primei- 
ra Tragicomedia j foi represeutada em Lisboa em 1513, 
diante de El-Rei Dom Manoel, na partida de Dom 
Jaime, Duqne de Bragan9a e de Guimaràes, que, era 
castigo ou recompensa de ter assassinado barbaramen- 
te sua mulher por suspeitas de aleivosia com ò seu pa- 
gem nobre Aritonio Alcoforado, foi mandado tornar 
Azamor, com mandando uma frota de dezeseis mil in- 
fantes e dois mil cavallos. A Traoricomedia intitula-se 
Exortaqào de gìierra ; ai apparecem os heroes dos poe- 
mas novellescos do Cyclo greco-romano da edade me- 
dia, Aciìilles, Anibal, Heitor, Scipiào, Policena e Pan- 
tasiléa, misturados com dois Diabos e um Clerigo, nove 
fignras, tornadas tal vez jà cpnvencionaes comò as da 
commedia sostenuta italiana. Cleri «jo é dado a Ni- 
gromancia, e faz as suas pràticas em scena para es- 
conjurar dois Diabos, que apparecem de repente; aqui 
o poeta allude ao Infante Dom Luiz, que a este tempo 
tinha sete annos de edade, e por certo gostaria mais do 
que ninguem d'estes seròes dr;unatìcos; allude tambem 
ao principe Dom Joào: 



NO SECULO XVI . 95 



E vós Principe excel! ente, 
Dae-me alvÌ9ar88 liberaes 
Que vossas niostras sao taes 
Que todo o niundo é contente. 



D'estas mostras, diz Frei Luiz de Sousa: «crecia o 
Prìncipe e descobria multo entendimento, e para tudo 
habilidade e engenho.»^ (1) 

A este tempo escrcvia Joào de Barros a sua novel- 
a cavalheiresca de Clartmundo^ e o prìncipe ia lendo 
OS cadernos corno saiam da mào do venerando histo- 
riador. Esperan9as de Nero, que o rei-inquizidor fez 
tao cedo mentirem. N'esta Traoricomedia cita Gii Vi- 
cente a Infanta Dona Isabel, que casou com Carlos v : 



Por vóe nini fonnosa fior 
Infanta Dona Isabel, 
Foram juntos em tropel, 
Por maudado do Senhor 
céo e sua companha, 
E julgou Jupiter Juiz 
Que f ossela lui pera triz 
De Castella e Allemanha. 



O casamento foi em 1526, celebrado tambem pelo 
poeta na Tragicomedla do Tempio de Apollo. Na Ex- 
ortagào de Guerra cita *o Infante Dom Fernando; mas 
a prophecia da tranquilldade e prosperidade saiu ao 
contrario. A sua desgraga explicarà a ecloga Aleixo^ 



(1) Annaes de D. Joào III, p. 7. 



96 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

de Sa de Miranda; (1) tambem cita Gii Vicente a In- 
fanta D. Beatriz, que casou com o Duque de Saboya, 
apesar da prophecia: 



Que haveis de ser casada 
Nas partes de fior de lis. 



Aqui se dirige Gii Vicente aos Fidalgos da córte, 
que, por influenoia da architectura italiana, come9ada 
a introduzir eni Portugal no tempo de AfFonso v, edi- 
fica vam grandes e suniptuosos palacios: 



Oh dcixae de edificar 
Tuntas camarns dobradas, 
Muì pìntadas e douradas 
Que he gastar sem prestar. 



NAo queìraes ser genovezes, 
Seufio muito portuguezca, 
E inorar em ca^as pardas. 




Depois se dirige às damas, para que dèem os seus 
aderegos para ajudar està guerra santa ; e nào se es- 
quece de atirar ao alto clero, que frequentava a córte, 
està estocada de frente: 

E V08 priores honrados, 
Reparti os Priorados 
A SUÌ908 e Boldados, 
Et centum prò uno habetis. 

A renda que apanìiacs 
melhor que vós puJeis, 

(1) Tratado na Historia dos QuinherUistas, inedita. 



NO SEOULO XVI fi 



Nas igrejas nSo gastae», 
Aos felizes pouco daes, 
£ nSiO sei que Ihe fazeìs. 
Dae a ter^a do que houverdes 
Para Africa conquistar 



D'està Traglcotnedia se deduz, que assistiram àre- 
presenta^ao alguns dos soldados expedìcionarios, corno 
86 ve n'esta alIocu<^ào : 



E a gente popular 
Avante ! nfto refusar, 
Fonde a vida e a fazenda, 
Por que para tal contenda 
Ninguein deve rcceiar. 



poeta em urna rubrica, descreve o modo corno 
terminou o Auto : « Todas estas Jiguras se ordenaram 
em caracol e a vozes cantaram e repreaentaram • • . » 
Cantando urna soiqa, talvez um rufo com a boca imi- 
tando tambores, sahiram da scena. que aqui nào ap- 
parece de novidade scenographica, vemol-o na audacia 
oom que o poeta verbéra alguns vicios da córte. Cresce 
partido centra elle; por emquanto protege-o com a 
admiragào pelas suas obras a velha rainha Dona Leo- 
nor. Ai d'elle quando se Ihe acabar este valimento, 
qae a historia nào conta, mas que se encontra nas con- 
tinuas instancias para que o poeta componesse Autos . 
engragados para as festase serOes da córte. A Tragico- 
niedia Extortagào de Guerra^ seria representada a 14 
de Agosto de 1513, porque a 15 d'eate uie'i. \ì^x\.\v3l ^ 

7 



98 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Duque para a expedi^ào de Azamor, conio se ve pelas 
trovas de Luiz Anrriques : 

A quinze d'Agosto ds treze e quinhentos 



duque ey9elente, nosso guyador, 
dom James, da casa d'antigua Bragan9a, 
de jente levando inuy grande pujan9a 
gerall capitani ^artóo vencedor. (1) 



Como se deduz, Luiz Anrriques tambem foi na ex- 
pedigdo; e por certo estes e outros poetas da córte to- 
mariam parte corno actores e comparsas na tragicome- 
dia de Gii Vicente. 

Eram quatrocentas as velas d'armada 
sobre 9Ìnquoenta, sem buina faltar. . . 

A descrip^ào de Luiz Anrriques é minuciosa e im- 
portante para a historia; tiramos apenas o bastante 
para mostrar quanto influiria para a pompa da festa 
celebrada por Gii Vicente. 

No anno seguinte, jde 1514, representa Gii Vicen- 
te a comedia do Viuvo ; na rubrica historica nào de— 
Clara diante de quem e em que logar a representara ^ 
circumstancia que levaria a acreditar ser talvez esta^ 
a primeira comedia que se representou fora do pa^o ^ 
diante do povo. Nào é assim; em uma scena em que 
o poeta se dirige a Dom Joàoiii, ainda principe, q«.« 

(l) Cane, geralj fol. 136, col. 1. 



NO SECULO XVI 99 

estava no serào, se ve que foi representada a farga do 
Viuvo diante de Dom Manoel. 

A scena passa-se em Burgos; é um viuvo que tem 
duas fìlhas, e o principe Dom Rosvel para namoral-as 
finge-se criado broma; aSegue-se corno D, Rosvel, 
principe de Ruxonia, se namorou df estas filhas do Viu- 
vo; e porqite nào tinka entrada, nem maneirapera Ihes 
falar^ se fez comò trabalhador ignorante, e fingiu que 
o arrepelaram na rua e entrou acolhendo-se em sua 
cosa.» E bello ver comò Gii Vicente adiyinhou oste 
typo de Almaviva, que se apaixona pelas duas inno- 
centes Rosinas. Dom Rosvel, conhecido com o nome 
de Juan de las Brozas, anda acarretando e cantando; 
amor pelas duas irmàs encantadoras alegra-lhe a vi- 
da. N'isto Dom Rosvel despe as roupas de trabalha- 
dor, e mostra-se um verdadeiro principe. 

Qual das namoradas escolherà? Aqui o genio in- 
ventivo de Gii Vicente descobre uma situa^ào origi- 
iial; assistia ao serào o principe Dom Joào iii, entào 
de edade de doze annos, no periodo em que a imagina- 
9ào nào deixava perder nenhuma d'aquellas gra^as da 
*cena portugueza. As duas noivas da comedia dirigi- 
^ani-se para o principe real, pedindo que sentenceasse 
qual d'ellas deveria casar com D. Rosvel; com grande 
^P^^asimento da corte, Dom Joào iii decidiu pela irmà 
^^ia velha. Eram estes os symptomas de entendimen- 
^^ <Jiie dava, de que fala Frei Luiz de Sousa, D'està 
^^Ua se concine, que o theatro estava à mesma plana 
^108 espectadores^ que oa acÉores representavam n^io evsv 



100 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tablado levantado, mas sobre o sobrado, e quo os ou- 
vìntes estavam assentados em volta da sala onde se col- 
locava o estrado real. 

Eis corno Gii Vicente indica a disposi^ào da scena : 
nTìrou D. Rosvel o chapeirào, e ficou vestido corno 
quem era; e foram-se as mogas a el-Rei Dom Joao III 
sendo principe^ (que no serào estava) e Ihe pergunta- 
ram, dizendo : 

Principe, que Dios prospere 
Em grandeza prìncìpal, 
Juzgad vos : 

La una Dios cazar quiere, 
Dicid ora, sefior Real 
Guai de uos. 

Julgou dito Senhor que a mais velha cassasse pri- 
meiro ...» <l Andando D, Gilberto^ irmào de D. Ros- 
vel^ correndo o mundo em busca de seu irmaOy por in- 
culcas veiu ter com elle . . . TomoiL D, Rosvel a Paula 
pela mào, e D. Gilberto a Melicia, E aveste passo veiu 
pae d^ellasj e cuidando que era d'o^tra maneira, se 
queixa...i> N'istoo Viuvo conhecea gerarchia e inten- 
9ào dos namorados. «FSo-se as mogas vestir de festa j 
e vem quatro cantores, que preènchem a scena até que 
vem as mogas vestidas de gala, e entra o Clerigo cova o 
Viuvo j e casa-os, terminando a comedia com .a morali- 
dade do crescite et multiplicaminor, A estructura da co- 
media de yiuvo è perfeita; Gii Vicente comprehendeu 
bem cedo comò se podia transportar para a scena a vi- 
da da sociedade burgueza do seculo xvi ; corno artista 



NO SEOULO XVT 101 

draraatico sabe crear o caracter e seguii -o na sua lo- 
gica inflexivel. Para bem definir està composi^ào, pa- 
rece um veavdevtlle de Scribe, representado em uni 
theatro moderno. 

motivo da* representagào d'està coinedia eoin- 
cidiri, pelo facto de ser no anno de 1514, com as fes- 
tas que precederam a grande embaixada que mandou 
el-rei Dora Manoel ao papa Leào x n'este anno. la 
na embaixada Tristào da Cunha, que assistira dois an- 
no8 antes à representa^ào do Velho da Horta. N'esta 
embaixada, em que o monarcha. de Portugal mandava 
para Roma as pàreas do Oriente, foi uma panthera e 
um grandioso elephante, que assembrava o povo pas- 
seando pelas ruas da cidade eterna. A contar d'este 
tempo OS discipulos da eschola de Raphael introduzi- 
ram a fórma grotesea do elephante nos seus ornatos 
e arabescos. 

genio democratico de Gii Vicente nào aceitava 
estas bajulagOes a Roma; assim a comedia, em yez de 
8er uma insipida allegoria a homenagem de Dom Ma- 
noel, foi uma engra9ada e bem urdida pe^a de costu- 
nies em que o ppeta se elevou ao conhecimento do thea- 
tro moderno ; nào acontecia assim quando a festa era 
legitimamente nacional, entào as allegorias e personi- 
ficaijOes tornavam-se realidades eloquentes. A Leào x, 
orgulhoso de appresentar na sua corte as comedias de 
fiartholomeu Torres de Naharro, contaria Tristào da 
Canha os bons serOes de Portugal, comò se passavam 
entro os chistes e coplas dos trovadores guerreiros e os 



102 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Autos malìciosos de Gii Vicente. A contar d'este tem- 
po é que a sua grande fama de auctor dramatico se es- 
palhou pela Europa, chegando a representar-se-lhe 
mais tarde o Auto da Lusitania em Bruxellas, e a ser 
conhecido por Erasmo na Hollanda, asylo unico da li- 
berdade da consciencia e da intelliorencia no secnlo xvi. 

No anno de 1515, nào representou Gii Vicente Au- 
to algum ou comedia na córte; esteanno viu a morte 
de AfFonso de Albuquerque, deposto do legar de Vice- 
Bei da India por intrigas politicas e suspeitas de trai- 
^ào; OS desastres da expedigào de Africa, e os trium- 
phos dos reis de Fez e Maquinés nào permitiam a festa 
de um Auto, que era por assim dizer publica. 

Bem vontade teria Gii Vicente de celebrar o nas- 
cimento do Infante Dom Duarte. 

Grande tristeza reinaria na córte de Dom Manoel, 
e principalmente no reino em 1516, por isso que este 
anno nào teve Gii Vicente occasiào de representar al- 
gum Auto. Foram tamanhas as desgra9as dos nossos 
guerreiros nà Africa, tao grande a mortandade e a per- 
da das conquistas, que Dom Manoel estere a ponto de 
abandonar aquellas emprezas; a revolta dos Mourosde 
Vleidambran, commandados por Rah-Beuxamut, que 
queria rehaver a sua formosa mulher Hoté^ que Ihe fora 
roubada, deu causa a um dos destrogos mais atrozes 
da nossa historia. lueto e descontentamento geral 
era profundo. Como poderia Gii Vicente continuar na 
sonda engra^ada da far9a de Quem temfarellos? do Ve- 
Iho da Horta, do Viuvoì 



NO SECULO XVI 103 

Auto das Fadas nào traz data na rubrica histo- 
ricaqueo dà corno representado; por urna situac^ào 
que ali appresenta, em que nma Fada vae offerecer 
sortes ao Rei, à Bainha, ao Principe, & Infanta Dona 
Isabel e à Infanta Dona Beatriz, se deduz que foi re- 
presentada està farcia no reinado de Dom Manoel, es- 
taodo ainda viva a rainha Dona Maria, e pertanto an- 
tes de 1517; de facto no anno de 1515 e 1516 nào ap- 
parecem Autos de Gii Yicente apontados comò tendo 
sido representados na córte, e em um ou outro d'estes 
annos é provavel que fosse representada, accrescentan- 
do qtie, durante o tempo que Gii Vicente representou 
na córte de Dom Manoel, nunca se passaram dois an- 
nos consecutivos que n&o produzisse algum Auto. 

A córte portugueza era fanatica, estimava mais as 
repre8enta90es devotas, os assumptos da liturgia. As- 
sira vemos Gii Vicente retrogradar à sua primeira ma- 
neira e representar um My sterzo em 1517. 

No Auto da Barca do Inferno^ continuado em 
1518 e 1519 no restante da assombrosa trilogia dan- 
tesca, vèmos impresso o caracter maritimo d'este po- 
vo. Auto da Barca do Inferno é urna allegoria 
do paganismo tornada mais uma vez christà pela au- 
dacia de Gii Vicente. Ali a Dansa dos MortoSj que foi 
corno um mal de San Guy das imagina^Oes da edade 
nedia, ali apparece no alvoroto de uma viagem. Sobre 
ado para o conhecimento dos recursos dramaticoa de 
uè Gii Vicente dispunha, é que se torna importantis- 
mo oste Auto. A scena representa um golpho ou 



104 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

bra9o de mar com duas barcas; jà nas festas feitaa 
por Dom Joào il em 1481, appareceram na sala mui- 
tas naus, que Gii Vicente, que frequentou a córte 
d^aquelle monarcha, talvez vìsse ou òuvisse falar d'el- 
las; Ruy de Pitia descreve esse momo, era que Donn 
Joào II: «entrou polas po]:tas da sala com hua grande 
frota de grandes navios, mettidos em pannos pintados 
de bravas e naturaes ondas do mar, com graiide es- 
trondo de artilherias que jogavam, e trombetas e ata- 
bales e ministrees que tangiam, com desvairados gri- 
tos e alvoro^os d'apitos, de fingidos Mestres, Pillotoa 
e Mareantes vestidos de brocados e sedas, e verdadei" 
ros ericos trajos alemàes.» (1) Em uma na^ao qne 
possuia o domìnio dos mares, todos os folguedos res- 
sentem-se da preoccupagào que a animava* N'este 
Auto representado em 1517, Gii Vicente aproveitava- 
se talvez do que restava da frota da festa de 1481 ; 
em um Auto representado em 1527^ a Nau de Amoresp 
apparece outra vez em scena um navio do tamanbo do 
um batel. Gii Vicente em uma rubrìca descreve o 
scenario da Barca do Inferno : «t E por tratar d'està 
materia pde a Autor por figura que no dito momento 
(da morte) ellas (as almas) chegào a hum profundo 
orango de mar, onde estào dois bateis : um d'elles passa 
pera a Gloria, outro pera o Purgatorio. i^ Como se 
fingirìa o mar na scena portugueza em 1517, jà o vi- 
mos pela descrip^ào de Ruy de Pina. Gii Vicente dà o 

Chron. de D. Jofio il, p. 126, — nos Ineditos da Aca- 




NO SBCULO XVI 106 

nome ié soena^ ao que nós hoje chamamos acto. Fa- 
lando d'està trilogia ou perfigura^ao diz : «£fe repar- 
tida em trez partes, s, de cada embarca^ào huma sce- 
^** Tambem na rubrica da Comedia de Rvhena, diz ; 
•4 uguinte comedia e repartida em trez scenas. » Es- 
tas scenas s&o partes ou continua^Oes, que às vesses se 
representa vam com intervallo de annos. Quando o 
theatro portuguez inaugurado pol^ Gii Vieente, se en- 
tregon 4 imitac^iào da comedia hespanhola, fundaram- 
86 estas denominagOes ; as comedias comegaram a &er 
divididas em jornadas, a E tambem os poetas, nas suas 
comedias, que sào mai; proprias para recrea^ào e pas- 
satempo, dividiram a obra em actos, a qvs agora se 
('hmamjornadasy e essas repartiram em scenas; e por 
divertida gravidade e decoro das pessoas introduzidas 
inventaram os comicos modernos Entremezes e bay- 
les.» (1) Auto da Barca do Inferno^ pela natureza 
da composÌ9d,o era destinado para ser representado na 
capella do palacio ; comò a segunda mulher de Dom 
Manoel, a rainha Dona Maria, estava doente, foi re- 
presentado na camera, para distrail-a : «/oi represen- 
Mk de camara, pera consolagào da multo catholica e 
fancta rainha D» Maria, estando enferma do mal de 
jue falleceu, na era do Senhor, de 1517 .i^ Para uma 
orlatura fanatica e doente, oste Auto seria um peza- 
iello para os ultimos momentos da vida ; a rainha 
norreu de trìnta e ciuco annos de edade, a 7 de 

(1) Francisco Rodrigues Lobo, Córte na Aldeia, p. 232, 




106 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Mar^o; pertanto o Auto foi representado aìnda eoa 
Fevereiro de 1517. Nos Mysterios francezes, corno 
no da Reaurreigàoy o Inferno era fechado, ao contrario 
do Purgatorio e Paraiso ; abria-se em fórma de urna 
grande bocca de dragào que lancava fogo pelos olhos 
e narinas. (1) Na scena de Gii Vicente, um Anjo està 
dentro de urna barca, servindo de arraes do céo, e nin- 
guem entra para a sua barca ; na do diabo, entratn 
fidalgos, onzeneiros, um irade, urna alcovitéira, um 
judeu, um corregedor, um procurador, um enforcado 
e quatro cavalleiros, ao todo dezesete personagens ; o 
fidalgo entra acompanhado do mogo que Ihe traz urna 
cadeira; o sapateiro entra carregado de fòrmas, signal 
allusivo, com que Gii Vicente dava a conhecer o offi- 
cio ; o frade traz urna mo^a pela mào, e joga a espada 
com o Diabo. frade, pelo que se deduz, era de Sam 
Domingos, dos que introduziram em Portugal a In» 
quisi^ao, centra os planos dos quaes tanto trabalhoiL 
Gii Vicente. A scena daesgrima é completa; o frad^ 
dà um golpe cantra sus, um fendente, espada rasgada^ 
anteparada, talho largo, um revés, córte na segundcL 
guarda, uma guia, um revés da primeira, a quinta da 
primeira guarda, etc. Todos estes recursos ainda s&o 
empregados na scena moderna. As diversas figurai 
entra vam para a barca por uma prancha; o judeu trai 
um bode ds costas ; o corregedor annuncia a sua ge- 
rarchia chamando o da barca. Com o mesmo genio 

(1) Fournel, op. cit., p. 6. 



NO SECULO XVI 107 

sarcastico de Babelaìs, Gii Yicente apoda os juriscon- 
sultos cesarisias, que firmaram o poder real. Sobre 
indo, o genio inventivo do poeta revela-se no sublime 
final da Barca do Inferno ; quando ella jà està cheia, 
prestes a largar: « Vem quatro cavalleiros da ordem de 
Christo, qae morreram nas partes. de Africa e vem 
cantando a quatro vozes urna tetra.., i^ Sào os unicos 
que entram para a Barca da Gloria. Està scena devia 
produzir na córte urna emogào profonda, porque no 
anno antecedente, 1516, fora o grande desastre da 
Africa, morrendo n'essa gigante catastrophe, preludio 
de Alcacer-Kibir, a fior da cavalleria portugueza. Os 
anjos chamam os cavalleiros : 

Oh cavalleiros de Deos 
A VÓ8 estou esperando ; 
Que morrestes pelejando 
Por Christo, senhor dos ceos, 
Sois livres de todo o mal, 
Sanctos por certo, sera f alha ; 
Que quem morre em tal batalha 
Merece paz eternai. 

Estas palavras do popular Gii Yicente ainda hoje 
lidas, conhecida a situagào em que foram declamadas, 
depois de se vèr a grandeza da mortandade de 1516, 
arrancam lagrimas e fazem estremecer. Por iste o 
poeta era amado da córte, porque sabia tirar vibra- 
Qòes immensas da alma portugueza. .0 melhor com- 
mentario das pe9as d'este bomem de genio é a bisto- 
ria de Portugal no seculo xvi. 

A Barca do Purgatorio é do numero das re^ie^eu- 




108 HISTOBIA DO THEATBO PORTUGUEZ 

tagOes de capella; foi representada nas matinas do N a- 
tal de 1518, no Hospital de Todos os Santos em Lis- 
boa, que te ve o privilegio dos pateos das comediasj desd^ 
1588 até 1743. Os personagens sào lavradores; a està 
tempo jà D. Manoel estava casado com a sua terceiim 
mulher D. Leonor; o auto principia com ama sjmpho* 
nia ou barcarola-romance, cantada a trez vozes pelos 
anjo^ que entram em scena remando ; o lavrador vem 
com seu arado ds costai, com um largo chapeirào. À 
representagào do Auto foi a noite, para o effeito da Im 
fgudar a illusào da scena: 

Este serSo glorioso 
Nào he de jueti^a nSo, 
Mas todo moi piedoso... 

N'este Auto introduz Gii Vicente pela primeira 
vez uma crianga; logo que os diabos puderam arrepa- 
nhar um tafnl, saem cantando nma cantiga muito de- 
safinada; os Anjos cantando levam o menino. 

O Auto da Barca da Gloria foi representado em Al- 
mada, diante de el-rei Dom Manoel em 1519; a de- 
mora da representado das trez partes da trilogia de* 
pendia da espera das trez epocas do anno em que se j 
costumava representar Mysterios, o Natal, os Beis, e 
a Paschoa. Pela natnreza d'està ultima parte das Bar- 
ca^^ e pelo apparecimento de Jesus no fim do Auto, 
se ve que seria representado em sabbado da allelaia 
ou domingo da ressurreigào. Os personagens da Barca 

Gloria demandam urna caracterisa9ào riqoissima; 



i 



NO SECULO XVI 109 

Papa, Cardeal, Aroebispo, Bispo, Imperador, Rei, 

Duque, Conde, ^pparecem vestidos segando as suas 

gerarchias. N'este cortejo a Morte é o personagem 

principal, que anda na vertigeiii da sua ronda arreba- 

tàndo estas vidas. que todos os outros povos fizeram 

pela Pintura e em poemas populares, Portugal deu-lhe 

a forma dramatioa, imprimi u-lhe o sentimento mariti- 

mo de que estava possuido. Nos velhos Mysterios, os 

mortos que os Diabos arrebatavara, eram levados para 

fora da scena em carretas e padiólas. Como represen- 

taria Gii Vicente o typo tremendo da edade media — 

a Morte! A scena representa ainda o mesmo bra^o de 

mar: tPrimeir amente entram ciuco Anjos cantando , e 

if^zem ciuco remos, com as ciuco chagas, e entram no 

*^tó hatel.ìi Auto, a maneìra dos Mysterios, abrecom 

^costumada syarphonia ou rondel; entra em scena o 

^iabo, sempre comico, depois a Morte, e altercam entra 

• 

^^' a Morte vem trazendo para a scena o Conde, o 
^•^que, o Rei e todos os outros altos dignatarios; tudo 
ista leva a crér que Gii Vicente conhecia os assombro- 
80S poemas da Dausa da Morte, da velha poesia fran- 
^^9., que se imitaram em todas as linguas da Europa; 
lio aeu Auto segue a mesnia cathegoria dos personagens, 
corno se seguia em todos os poemas em geral. A Barca 
^ Gloria completa o quadro da edade media portu- 
g«eza, Ugando a nossa litteratura às tradi^Oes poeti - 
cas dos povos latinos; no tlioatro assembrava mais as 
imaginaQòes, do que na simples leitura de truncados 
poemas de foiba volante. Logo que a Morte tro^x^^Vci' 



Ilo HISTORl A DO THEATRO PORTUGUEZ 

dos OS personagens, uNota que neste passo os Anjos à&S" 
ferem a vela em que està o crucifixo pintado^ e toòEos 
assentados dejoelhosy Ihe dizem cada um sua oragào,» 
Os Anjos coiiie9am fazendo a manobra sem atten- 
derem às differentes supplicasi inNào fazendo os Anj(m 
mengào d'estas preces, comegaram a botar o hotel és 
varas, e as Almas fizeram em roda hua musica a rtwàp 
depranto, com grandes admiragdes de dor; e veiu Chris- 
to da ressurreigaOj e repartiu por ella^ os remos das 
chagaSj e as levoucom^igo.^ Està rubrica confirma quo 
o Auto fora representado no sabbado da Alleluia ; o 
apparecimento de Christo revela grande progresso no. 
macbinismo scenico. No Mysterio da Assumpgaoj do 
velho theatro francez, tambem Jesus Christo apparece 
em scena ao som de canto de orgào e de flammas bri- : 
Ihantes, para levar sua màe; nos Mysterios nào er» 
a parte de Christo das mais faceis, que o que a repre- 
sentasse nào fosse obrigado por um juramento; por quo 
tendo de elevar-se para o ar, ou de desapparecer de re- 
pente, a imperfei^ào do machinismo scenico mnitas 
vezes compremetteu a vida do pobre actor que piedo- 
samente violava as leis naturaes. 

A Trilogia das Trez Barcas, é a Divina Comedii 
popular portugueza ; Dante reduziria o seu poema a 
està forma quando o representou diante do povo sobre 
o Arno. 

Nos Exemplos da edade media portugueza jà se 
encontra a allusào às harcas^ comò a representa^&o da 
passagem da vida. 



NO SECULO XVI 111 

Vem no Leal Conselheiroj de El-ReiDom Diiarte: 
«tam grande sandyce he con atrevimento da boa voon- 
tade de Deus desprezar o estado das virtudes, e esco- 
Iher o estado dos pecados, corno seria se algun quizesse 
passar algan ryo perigoso e tormentoso e achasse ditas 
barcas. Ima forte e segura e muy bem aparelhada, e 
em que raramente algun se perde, e por a mayor par- 
te todos em ella se salvam, e a outra, velba, iraca, po- 
dre, rota, em que todos se perdem, ou alguns poucos 
se salvam. A barca firme, e segura, e forte, e bem 
aparelhada o estado das virtudes he, e de boo e sancto 
viver, honesto e sem querella de Deos e do proximo, 
em que muy poucos parecem, e a maior parte se salva 
em tal estado, assy era a barca segura, (1) podem na- 
vegar seguramente, e passar sem perigo por as ondas 
da tormenta d'este mundo a» porto seguro e de prazer 
que he a gloria. A barca fraca, pobre, rota, o estado 
dos pecados he, e da maa, corrupta e dessoluta vyda 
em tal estado assy comò em barca podre nom pode com 
8egaran9a e sem perygo os tormentos da presente vida 
passar, nem a porto de folganga e desejado aportar, e 
que alguns se salvem esto he de veentuira, ou por al- 
gun segredo juyzo de Deo^, acerca d'algua singullar 
pessoa. . . » (2) pensamento da trilogia de Gii Vi- 
cente estava no gosto da sociedade portugueza; o ca- 
pitulo do Exemplo de Dom Duarte, mostra-nos que 

(1) Gii Vicente : A barca, à barca segura ! 

Guardar da barca perdìda. 

(2) EdÌ9ao de Paris, p. 447. 



112 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

muitas vezes seria està comparaQào langada do pulpì 
para um povo crente o entristecido por consiantes prò 
voca^Oes ao fanatismo. 

Urna vez entrado na comedia burgueza, dos cleircs 
de la Bazoohe, Gii Vicente nào estava à sua vontada 
jios Mysterios, que escrevia mais para comprazer com o 
humor sombrio da córte portugueza. A contar do anno 
de 1513, o poeta raras vezes tornou a representar uix& 
mysterìo ou moralidade; a sua musa queria seonlari'^ 
sar-se, em vez de allegorias devotas queria intrigas ^ 
peripecias das paixOes da vida usuai. Que immenso 
campo Ihe nào offereciam os novos eostumes, os novoiB 
interesses e situagOes do commercio, navega^ào e guerra 
da India. Sa de Miranda, dizia que tinha mais medo 
a essas perfumariaa, do que de todos os planos ambi*- 
ciosos de Castella ; e na perturba^ào dos costumes po- 
pulares, vira correr o dinheiro indiano ehamado par 
dau8^ por Cabeceiiusde Basto! Symptomas em que o 
genio comico profundo do Gii Vicente acharìa largo 
assumpto para jocosas moralidades. Satisfeito o empe- 
nho da córte portugueza com o mysterio das tred 
Barcas, Gii Vicente lan9ou-se para explorar o cam-« 
pò que a vida social Ihe ostava indicando. 

A Farga dQs Physicos nào traz data nem logar dt 
representagào; pela leitura d'ella se deduzem factos tal- 
vez sufficientes para Ihe determinar a epoca, O Phy- 
sico Torres comecja assim um discurso : 

Bissexto é o anno agora, 

Ein Piscis e&tava Jupiter, etc. 



NO SECULO XVI 113 



e no firn da far^a diz o Clerigo: 



Vay me a la huerta de amores 
Y tracre ama ensalada 
Por Gii Vicente guisada, 
E diz qiie otra de suas flores 
Para Pascoa tien sembrada. 



Percorrendo os annos que foram bissextos desde 
o principio do seculo xvi, sómente no anno de 1508, 
terceiro bissexto, é que Gii Vicente representou nas 
!Endoen9as o Auto da Alma, nos Pa^os da Ribeira, por 
mandado de D. Manoel, diante da rainha D. Leonor, 
sua irmà. N'este mesmo anno de 1508 foi a tentativa 
da tomada de Malaca^ e na Hlr^a se diz: 

E elle fallou-me eni Malaca. 
/ 

Todas estas circumstancias fariam crèr que a Far(^a 
do8 Physicos fora representada antes do Auto da Alimi, 
no anno de 1508. Um outro facto nos faz attri- 
buir està far^a ao anno de 1519, se é que na fala do 
Physico Torres se refere a celebre anedocta da arte de 
Leste e Oeste: 



Topei alli com Mestre Gii 
E com Luiz Meudes, assi 
Que praticamos alli 
Leste e a Oeste e o Brazil, 
E là Ihe dei rasao de mi. 

s 



1 14 HISTORI A DO THEATRO PORTUGUEZ 

Era umas trovas a Felippe Guilhem, conta Gii Vi- 
cente urna anedocta que parece explicar estes versos' 
ffO anno de 1519, veiii a està córte de Portugal bum 
Felipe Guilbem, Castelhano, que se dizia que fora bo- 
ticario nel Porto de Santa Maria; o qual era grande 
logico, e muito eloquente de muito boa pratica, que an- 
tro muitos babedores o folgavam de ouvir: tinha algu- 
ma cousa de mathematico ; disse a El-Rei que Ihe que- 
ria dar a arte de Leste a Oeste, que tinha achada. Para 
demostra d'està arte fez muitos instrumentos, antro os 
quaes foi um astrolabio de tomar o sol a toda bora. . . » 
Cbamaram-se os sabios doreino, principalmente Fran- 
cisco de Mollo, que sahia sciencia avondo, e pela excel- 
lente informa9ào que deram, deu o monarcha ao belfu- 
rinheiro urna grande ten9a ; vìndo a córte um matbe- 
matico do Algarve, conheceu logo o embuste e antes 
que o re velasse, Felipe Guilhem fugiu, sondo por de- 
nuncias prezo em Aldeia Gallega. Este facto concorda 
com o verso da Farga dos Physicos; a promessa do 
Auto para a Paschoa seria realisada no Auto da Bar- 
ca da Gloria; porém para valer a hypothese é neces- 
sario que o verso : 

Bissexto é o anno agora 

se en tenda comò futuro : hissexto vae ser agora, porque 
o anno de 1520 o foi. Aqui ficam indicadas as dua^ 
conjecturas, sendo està ultima a mais prova vel; no anno 
de 1519, representou trez Autos e uma Tragicomedi a- 



NOSECULOXVI 115 

ao iiodo cinco pe^as, se attribuirmos a este anno a Far- 
9<t dos PhysicoSy o que ainda assim nào chega a fecun- 
didade do poeta no anno de 1527. 

No anno de 1519, encontramol-o em Almada re- 
proaentando o Auto da India^ far^a assim chamada 
vu-lgarmente: ^A farqa seguinte chamamAuto da /n- 
dicTc^n qiie denota nào ser o poeta quem a intitulou, 
m^.^ aqiieilas pessoas que se deliei aram com ella. 

enredo é urna formosa anedoeta, tirada dos no- 
vo s costumes portuguezes: ^Foi fundada sobre que 
htM>ct> mulher^ estando jd embarcado para a India seu 
^'^ce'^irfo^ Ihe vieram dizer que estava desviado, e que jd 
^*^o ia; e ella de pezar està chorando.it Camóes tam- 
*^On escreveu uns versos a favor de urna rapariga pre- 
8* ino Limoeiro, por nào ter sabido guardar fidelidade 
a- s^u marido que estava na India. (1) 

Gii Vicente pressentia largo assumpto para risa- 
da.^ ; a comedia fci representada diante da Bainha 
l^^^^a Leonor, nào iVesta vez jà a viuva de Dom 
Jc>^o II. Aqui se abre um precipicio para Gii Vicente; 
^^^Tia na córte urna fbrmidavel intriga entre el-rei Dom 
^^ruoel e seu filho, o herdeiro da corèa, Dom Joào. 
Ist-o explicarà talvez em parte as desgra^as futuras do 
poeta. 



(1) PetÌ9om feita ao Regedor. de bua nobre mo9a, presa 
"^ Ximoeiro da Cidade de Lisboa, por se dizer que fizera 
adulterio a seu marido que era na India. Obras de CamOes, 
l^art. 11^ p^ 47^ odÌ9. de Franco Barreto, de 1669. 



116 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

A 7 de Margo de 1517 morrera a rainha Dona 
Maria do luhorioso parto do Infante Dom Antonio; 
n'esse mesmo anno, em Septembro, mandou Alvaro da 
Costa propòr secretamente a Carlos v o casar com sua 
irmà Dona Leonor. A este proposito conta Frei Luiz 
de Sousa: «Espantou-se o reino, sentiu-se o Principe. 
Extranhava o povo vèr uin Rei por muito prudente 
reputado, sem dar mais tempo ao nojo e memoria de 
lima Rainha de tanto merecimento, comò era a de- 
functa, (cousa que até entro gente popular causa es- 
candalo) por em obra casar-se; e em idade crocida, 
com a casa chela de herdeiros: e sobretudo com bar- 
bas branoas, buscar mulher muito moga e com fama 
de formosa para madastra do cito filhos: obrigar-se a 
si e aos seus a gastos superfluos e desnecessarios. » (1) 
desgosto do principe herdeiro, Dom Joào ili, era: 
«tomar-se-lhe a dama que ja em espirito era sua, e 
querer seu pae para si era segredo, e comò a furto a 
mesma molher, que para elle tinha muitas vezes pu- 
blicamente pedido.» (2) 

Em Novembro de 1518 entrou a rainha Dona 
Leonor em Castello de Vide, recebendo-se Dom Manoel 
no Crato; neste mesmo anno, nas Matinas do Natal, 
representou Gii Vicente diante da nova soberana o 
Auto da Barca do Purgatorio ^ na capella do Hospital 
de Todos os Santos. Dom Joào in, veria por certo em 



(1) Amiaea d€ D, JocUt III^ cap. 4, p. 16. 
{2) Ibid. p. 17. 



NO SECULO XVI 117 

Gril Vicente um partidario de seu pae ; pelo menos os 
frades que elle combatia nRo se esqueceriam de fazer 
notar qualquer dito do poeta, qualquer vontade cum- 
prida. Auto da India foi escripto, e representado 
dìante da Rainha Dona Leonor, em Almada; a este 
tempo andava na córte urna mania geral de falar hes- 
panhol, de cantar trovas hespanholas e de vestir ao 
gosto da córte visinha; o principe Doni Joao ili fa- 
zia-se distinguir pela sua constancia em trajar sempre 
à portugueza. No Avio da India, representado a pe- 
dido de Dom Manoel, diante da nova rainha, Gii Vi- 
cente tratou de lisongear a parcialidade do principe 
esorevendo a farga em portuguez. 

A ac9ào da farca passa-se em Maio, quando partia 
a Nau de Viagem, da carreira da India ; ali cita a nau 
Garga, tao celebre na Historia dos Naufragios. 

As festas que se fizeram pelo casamento da Infanta 
Dona Beatriz com o Duque de Saboya, cotitrastaram 
em grandeza e apparato com a miseria e fome publica 
de Portugal em 1521. Os ricos festejos da partida 
aoham-se descriptos pelo chronista Garcia de Resen- 
de, no opusculo da Hida da Infanta. As grandes fes- 
tas que se fizeram a 8 de Agosto de 1521 realc^aram 
immenso com a Tragi-comedia de Gii Vicente intitu- 
lada as Cortes de Jupiter, na qual vinha a Providen- 
cia mandada por Deos para que Jupiter* celebrasse 
cortes a fim das divindades se mostrarem propicias du- 
rante a viagem da Infanta. A este facto està ligada a 
encantadora tradi^ào dos amores de Bernardlm Ei- 



118 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

beiro, e à tragi-coinedia de Gii Vicente està unida i 
historia da restaura9ào do theatro portuguez poi 
Garrett. 

Foi a tragi-comedia das Cortes de Jupiter a ulti- 
ma a que assistìu Dom Manoel, que morreu em De- 
zembro d'este mesmo anno. 

A Providencia entrou vestida de Princeza com 
esphera e sceptro na mào; Jupiter entrou vestido de 
ReijXìomo se deduz do primeiro verso que Ihe dirige a 
Providencia; os ventos Norie, Sul, Leste, e Oeste en- 
train em figura de trombeteiros ; tocam os Ventos sìias 
trombetas e vem o Mar multo furioso; vem o Sol e a 
Lua ballando ao som das trombetas, e juntos com Ve- 
nus cantam um vilancete. « Cantaram todas estas figu- 
ras em chacota a cantiga de: 

Llevadme por el rip 

e OS Ventos foram chamxir o Pianeta Mars, o guai veiu 
comseus sinos, Cancer, Leo e Capricomio.is> Os Plane- 
tas e figuras cantam um romance a quatro vozes <ij>era 
com as palavras d^elle e mugica desencantarem a Mau- 
ra Taes de seu encantamsnto a guai entra com o tet- 
rodo e annel e didal de condào, gue Mars disse que ella 
tinha em seu poder.it A moura Taes vem metter no 
dedo da Infanta o annel de condào, que Ihe dirà todot 
08 segredos que ella Ihe perguntar. D'este annel ( 
d'estes segredos tirou (Jarrett o bello pensamento d( 
drama moderno o Auto de Gii Vicente* A Tragi-come 



NO SECULO XVI 119 

dia termina com a cbacota ou musica e danga de te- 
da s as figuras, do romance Llevadme por el rio. As 
nossas rela^Oes maritimas e commerciaes com o Orien- 
te, no principio do secalo xvi, nào pouco influiriam 
para o apparecimento do theatro em Portugal, nào 
do theatro hieratico, filho directo dos costumes nacio- 
naes e dos mysterios francezes, mas do theatro aristo- 
cratico ou dos elogios dramaticos, comò Gii Vicente 
usou na Tragi-comedia das Cortes de Jupiter, No 
Oriente os elogios dramaticos eram muitos frequentes ; 
Fernào Mendes Finto descreve-nos um que vira, re- 
presentado om 1549 na cidade de Timplào, proxima 
ao reino do Pegu : 

« Acabado iste houve uma Comedia, representada 
por doze mulheres muito bem vestidas e muito formo- 
sas, na qual veiu huma filha de bum Rei atrevessada 
na bocca de bum peixe, qua depois ali em publico pe- 
rante todos foi engolida do mesmo peixe; o que vendo 
as doze, se foram com muita pressa, e muitas lagrimas 
fugindo para huma Ermida, que estava ao pé de huma 
Serra, d'onde tornaram com um Ermitào comsigo; o 
qual fazendo ao seu modo grandes ora^Oes ao Guiay 
Paturen, Deos do mar, que mandasse langar aquelle 
peixe na praia, para se dar sepultura àquella donzella 
conforme aos alfcos quilates da sua gera^ào, Ihe foi res- 
pondido pelo mesmo Guiay Paturen, que convertessem 
aquellas doze donzellas seu pranto em musica suave, 
e agradavel a seus ouvidos, e que elle mandaria ao 
mar que laudasse logo o peixe fora, e Iho entregaria 
morto em suas jnMos» E vindo entào seis Tneumo^ cj^tcv. 



120 HISTORTA DO THEATRO PORTUGUEZ 

coròas de ouro na cabega e azas do mesmo, da man^-. 
ra que entre nós se pintam os Anjos, porem nùs, seti 
cousa alguma sobre si, se piizeram de joelhos diant< 
das doze, e Ihes deram tres harpas, e tres vìolas coni 
outros alguns instriimentos inusicos, em que entravam 
duas doQainhas, e Ihes disserara que o Guiay Paturen 
Ihes mandava do céo da Lua aquelles Caulanges, para 
com elles adormentarem os peixes do mar, e sereni 
ellas'pela suavidade da sua musica satisfeitas em sea 
desejo. — As doze tomaram com grande cerimonia de 
cortezia os instrumentos das maos dos seus meninos, 
e tocaram e cantaram a elles com huma harmonia Uo 
triste, e com tantas lagrimas, que alguns senhores doe 
que estavam na casa as derramaram tambem, e conti- 
nuando em sua musica por espacjo de quasi meio quar- 
to de bora, vi rara sabir de baixo do mar o peixe qu€ 
cornerà a filba do Bei, e assim corno arvoado ponce s 
pouco, veiu morto dar em secco na praia, aonde as 
doze da musica estavam; e tudo isto tao proprio, € 
tanto ao naturai, que ninguem o julgou por cousa 
contrafeito, senào por verdadeira, e afora isto, era feito 
com grandissimo fausto, aparato de muita riqueza e pe^ 
fei^ao. Huma das doze, arrancando entào buma adar- 
ga de pedraria, que tinba na cinta, escalou com ella o 
peixe, por bua ilbarga, e Ibe tirou de dentro a filba do 
Rey; a qual ao som d'aquella mesma musica foy beijai 
a mào ao Calaminbà, (1) que com grande bonra a 



(1) CalamiuhS era o rei diante do quem se estava repre 
sentando, depois da recep9Ao de um Embaixador, 



NO 8E0UL0 XVI 121 

aswoton comsigo. E està moga se dizia que era sobri- 
oha filha de hum irmào ; e todas as outras eram filhas 
de Principes e grandes Senhores, cujos paeB e ìrm&os 
e8ta?ain ali presentes. Houve tambem outras tres ou 
quatro comedias ao modo d'està, representadas por 
tnoiberea mo9a8 maito nobres, com tanto apparato, 
primor, riqueza, e com tanta perfeÌ9ao em tudo, que 
)s olhos nào desejavam ver mais.» So no tempo de 
Dom Manoel é que poderia sentir-se em Portugal a 
inflnencia d'estas narrativas contadas pelos fidalgos e 
«ivalleiros que vinham da India; a pompa- das festas 
tem certa grandeza orientai, e em muitas pe^as de Gii 
Vicente se encontram caraeteres que Ihe nào podiam 
vir do velho theatro europeu. Uma revoiu^ào se ia 
dar no Anto popular pelo renascimento da comedia la- 
tina; tarde chegou a Portugal essa influencia, que pro- 
duziu uma reac9ào centra Gii Vicente. 

2. Reinado de D. Jofio in. 

Vejaraos agora comò o poeta alegra o reinado so- 
•nmbatico de Dom Joào iii, comò continua a repre- 
entar o espirito secular na sociedade portugueza, e 
omofoi o primeiro quedescobriu os tramas fradescos. 
No anno de 1521 representou Gii Vicente uma 
r^a no reinado de Dom Joào ni, em E vera. aN'este 
mpo, diz Prei Luiz de Sbusa, deixou el Rey a mora- 
i dos Pa^os da Eibeira, ou por se aliviar do nojo a 
e a Raynha com a differenza do sitio: ou porque j& 



122 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

deviam comeQar a sentir na cidade as mortes apressadsi^ 
e principios de peste, que poiico depois se declarara/o 
demasiadamente.» (1) 

El-Rei morou primeiro era Enxobregas, nas casa« 
de D. Francisco d'E^a, depois em Santos o Velho, e 
em seguida achamol-o em Evora, distrahindo-se do 
terror com a Comedia dos Ciganos, ali representada por 
Gii Vicente, que acoinpanhara a córte. A Comedia do9 
Ciganos, pela disposicjào e numero das suas figuras, pà- 
rece ter sido representada na entrada de Dom Joào ili 
em Evora. 

N'este mesmo anno de 1521 foi representada a Co- 
media de Ruhena diànte de Dom Joào ni, sendo prinei" 
pe, isto é antes de 19 de Dezembro d'este anno, em que 
foi a acclama9ào, comò se ve pelo romance popular com 
que Gii Vicente a celebrou ; por tanto é de suppór que 
a Ruberia fosse representada ainda em Evora, apesar 
da rubrica nào o declarar. A Ruberia é dividida em tres 
scenas ou actos, que pelos finaes se conhecem terem si- 
do representados successivamente e nào no intervallo 
de annos, comò os Autos das Barcas. A comedia co- ' 
mcQa com um prologo, em que um Licenciado vem ex- 
pór o enredo da pega; Gii Vicente mostra jà mais lar- , 
gueza de composiQào, conhece a comedia classica, mas* 
detesta a linguagem da prosa* Ali apparece urna Feiti- 
ceira, que por esconjuraQOes faz surgir quatro Dia- 
bos para arrebatarem Rubena, que tem de dar a luz 

(1) Annaes de Dom Joào IH, cap. 6, p, 27, 



NO SECULO XVI 123 

uiria. crian9a, sem que o saibam em casa; levam-na 
¥^>^a fora da scena em um audor ; e torna outra vez 
fot'a Licenciado do prologo, a fazer um epilogo, di- 
cendo que vae succeder a Rvhena, e assim prepara 
^s expectadores para o segundo acto. Este Licenciado, 
representa aqui a acgào do còro antigo, que nas couie- 
dias da edade medja, estava substituido, segundo os ir- 
iBàos Parfaict, pelo meneur dujeu, actor que tinha por 
officio comprimentar o publico, annunciar e recapitu- 
Jar a pe9a, e explicar o machinismo scenico, que pre- 
cisava de explicagào. (1) No segundo acto, os Espiri- 
tos trazem um borgo para embaiar a crianga, entra 
um còro de Fadas cantando, até que torna outra vez 
a apparecor a Figura do Licenciado a explicar a mu- 
tagào da scena em que se ve um prado com Cisme- 
na guardando cabritos: 

Hagamos agora mencion y querena, 
En està seguo da cena en que estamos, 
De corno envìaban los vìllanos amos 
Guardar el ganado la nìfia Cismena, etc. 

A scena denunciada é toda entro criangas que vi- 
giam gado, o que seria difficìi de representar pelo gran- 
de numero de versos; no acto terceiro apparecem umas 
lavrandeiras cantando, um criado parvo entra com um 
césto de magàs, e ^com o prazer da f meta cantam as 
lavrandeiras, » 

(1) Fouruel, OiHgines du iheatre moderne^ p. 12. 



124 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

TJm novo efFeito dramatico inventou Gii Vicent 
na scena que se passa em una deserto, em que a Felie/o^ 
queixando-se, Ihe respondia um ecco. Este genero da 
poesia era conhecido dos gregos e romanos, corno 99 
ve por um epigramma de Marciai e pela Anthologia;é 
naturai que Gii Vicente conhecesse està forma, empre-^ 
gada pela primeira vez na edade media por Giles da 
Vimiers, poeta do seculo xni, emumacan^ao. (l)Eiii 
Rabelais, quando Panurgio consulta Pantagruel par» 
saber se deve casar-se, as respostas fazera sempre ecca 
com a ultima palavra do consulente. Todas estas pe- 
quenas circumstancias provam que Gii Vicente co- 
nheceu o theatro e a litteratura franoeza, e a elles de- 
veu o seu progresso. *A scena do Ecco, em Gii Vicen- 
te, é de um lyrisrao inimitavel ; a sua extensào nào dei-* 
xa aqui reproduzil-a. A Comedia da Ruberia foi repre- 
sentada em Evora; n'este tempo ali vi via um fàmulo 
do Bispo Dom Affonso de Portugal, chamado Affonso 
Alvares, tambem poeta, e auctor de Autos. A sua mul- 
ta parcialidade pelos frades ao mando de quem escre- 
via OS seus Autos, fazem suppòr que os mesmos frades 
satyrisados por Gii Vicente, quizessem crear em Affon- 
so Alvares um rivai para derrocar o poeta ohistoso d» 
corte de Dom Manoel. 

De 1521 ao fim do anno de 1523 nào representou 
Gii Vicente Auto algum na córte; desgragas e gran- 
des intrigas palacianas occupavam o animo do monar- 

(1) Lalannc, Ouriosités Litteraires^ p. 33. 



NO SECULO XVI 125 

cha recentemente acolamado. No principio do reinado 
de Dom Joào iii, é qae se dea a extranha anedocta da 
qneixa do Conde de Marialva, Dom Francisco Couti- 
nlio, contra o Marqaez de Torres Novas que dizia ter 
oasado clandestinamente com Dona Guiomar, filha do 
Conde, a qual estava promettida ao Infante Dom Fer- 
nando, no testamento de el-rei Dom Manoei. armi- 
do d'està polemica fai immenso. A este tempo tambem 
frequentava a corte o poeta philosopho Sa de Miran- 
da, e parece que na sua ecloga Aleixo, se encerram 
allasòes profundas a està catastrophe, alliisòes que vie- 
ram a produzir o seu ostracismo voluntario. (1) 

D'aqui se infere que Gii Vicente conviveu tambem 
na córte com Sa de Miranda, e adiante verémos que as 
snas relacOes litterarias nào foram amiguveis. Come- 
9ava-se a introduzir o espirito italiano, ou da renas- 
cen^a, que se ria dos velhos mysterios do nesso poeta, 
B que condemnava a comedia em verso. Negando a in- 
ven^ao dos Autos a Gii Vicente, nào Ihe tiraram a ori- 
ginalidade da contestura, mas reconheciam a priori- 
iade do theatro francez. Emfim, comodava entào a 
rrsLude lucta da eschola italiana, contra a chamada es- 
kola velha ou hespanhola. 

Jà em 1523 encontramos Gii Vicente a braijos com 
miseria, e atacado pelas mais injuriosas calumnias 
'oi n'este anno de 1523, que elle escreveu a celebre 



(1) Desenvolvemos està investiga9ao na Vida de Sa de 
'iranda. 



126 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

farina de Inez Pereira, representada no Convento ^^ 
Thomar, diante dei-rei Dom Joao iii. «0 seu argu- 
mento he que, porquanto duvidavam certos homens (fe 
bom saber, se o Autor f azza de sì mesmo estas ohras, ovt 
se as f urtava de outros autores, Ihe deram este them» 
sobre que fizesse: s, hum exemplo commum, que dizm: 
Mais quero asno que me leve, que cavallo que me der- 
rube. E sobre este^ motivo se fez està farga.3 

Que eloquencia n'esta simples rubrica, aqui tnwja- 
da pelo poeta; é urna delata^ào d posteridade, um raio 
de luz para dentro de urna alma, que ria, mas que san- 
grava e su ava no seu horto, comò Molière! Depois da- 
morte de Dom Manoel, o partido clerical tomou uirm. 
grande ascendente no animo de Dom Joào ni; tantae^ 
vezes satyrisado por Gii Vicente, calumniava-o pars», 
se vingar. A l'arcade Inez Pereira foi o repto, nohr© — 
mente levantado pelo infamado dramaturgo; é umaco- 
media de caracter, moderna na perfei^ào da contextiia.— 
ra, antiga pela naturai simplicidade. rifào dado por* 
thema pelos homens de bom saber, parece um motej o I 
formula pratica da vida, o poeta soube p6r-lh*e em "■:-«- 
levo toda a sua realidade. 

Este rifào sobre o qual Gii Vicente escreveu a £str- 
9a de Inez Pereira era popular, e ainda o encontTa- 
mos repetido por Francisco Rodrigues Lobo na C&rte 
na Aldeia: «A mim me parece em rasào d' aquelle pro- 
verbio: Antes asno que me leve, que cavallo, qu© nae 
derribe.» (1) 

(1) P. 82, da edi9. 1722. 



NO SECULO XVI 127 

Na rubrica da far^a de Gii Vicente, a phrase cer- 

^08 homens de hom saber refere-se éspeci al mente aos 

adeptos da litteratura eulta da rena8cen9a, que conde- 

Douando era Gii Vicente o espirito originai e atrevido 

^a edade media, queria fazer valer em Portugal o gos- 

*^ italiano e o classicismo. Se abrirmos as Cartas de 

Sa de Miranda, companheiro de Gii Vicente nos se- 

J'^s do pa<jó e nas palestras poeticas do Cancioneiro 

9^'^ctl, percebe-se o sentido da seguinte quintilha : 

Que troca vèr là Pasquìnos 
Desta terra cento a cento, 
Quem o ve sem sentimento 
Tratar os livros divinos 
Com tal deaacalamento. 

que se nSo deve ousar 
Até, se em giolhos ndo, 
(Que gragaspara chorar) 
Torcem f azendo f alar 
Ao som da sua paix&o. (1) 

T^odas as grandes obras, foram inspiradas nos tran- 

ces d*este martyrio. Sophocles cria a tragedia sublime 

d© J^hiloctetes, quando se ve forc^ado a provar que 

Bà.o està donde, e se appresenta para lel-a aos juizes 

athenienses. que é o Prometheu de Eschylo, con- 

ca^tenado aos rochedos caucasicos, devorado pela aguia, 

q^© Ihe vae dilacerando as entranhas? E o vulto do 

glande tragico, depois de haver revelado sobre a scena 

«8 tnysterios reconditos do antropomorphismo grego, 

(1) Carta a Antonio Pereira, est. 33 etc. pag. 20^,%^ A^l'l . 



128 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

amea9ado pelos sacerdotes e hierophantes, arrastado 
pela plebe turbulenta ante o Areopago ! Eschylo defen- 
de-se; o seu triumpho é so completo sobre o palco, a 
sua arma é o terror, com que amedronta e faz gelar de 
espanto. Elle apresenta as Eamenides desgrenhadas no 
grande còro do bàrathro, e as mulheres abortam, as 
crian9as morrem enfiadas de susto inaudito. Exemplos 
d'estes encontram-se nas origens de quasi todas as 
grandes obras d'arte, que fazem lembrar aquella luta 
sublime do nesso velho Plauto, Gii Vicentej ludibria- 
do na córte de D. Joào ili. pela clerezia infrenne, cu- 
jos tramas inquisitorios e nefandos o poeta ia desmas- 
carando nas allusóes dos seus Autos. A vingan9a foi 
atroz; voltaram-se centra elle dizendo que as coraedias 
nào eram da sua invencào, negaram-lhe o talento, e 
mais que tudo os sentimentos de pae. poeta genero- 
so quiz desaggravar-se, e do thema ridiculo que Ihe 
deram, tirou armas centra a calumnia, apresentando 
a primeira comedia de caracter, a far^a de Inez Pe- 
reira. N'este draraa sente-se mais do que em nenhum 
outro o auctor; o excesso de rigor, com que ver- 
bera a calumnia, é porque elle é a primeira victima, e 
transfigura-se, esconde-se nos typos que phantasia, 
comò Eschylo na audacia do Prometheu; mas essas 
cria90es, que elle traz ao festini do proscenio, soflfrem 
com o seu espirito, é a grande ceia em que dà a comer 
a sua carne e a beber o seu sangue, comò disseram jà 
de Shakespeare. Deixal-o suar no seu horto de agonia, 
porque as bagas, que agora Ihe escorrem da fronte, sao 



NO SECOLO XVI 129 

DO fbtnro as pérolas do seu diadema. Deìxal-o experi- 

mentar as dóres do passamento, porque a cada morte 

vem um novo canto do cysne. Elle prosegue ìmpellido 

pela f&talìdade irresistivel do genio creador, Ma^eppa, 

qne 86 precipita a voz que Ihe brada — Away! e ba- 

qaeia em terra para se levantar um dia rei, cuja so- 

berania é reconheoida quando està jà no tumulo da 

sua djnastia, a quem se alevantam cipos, estatuas, 

moitas vezes depois de o deixarem morrer de fome. E 

porque o genio precisa ser visto a distancia, comò um 

foco de muìta luz; o homem, que andu entre nós, que 

nos aperta a mào nas ruas, que se ri tambem comnos- 

co e 86 dóe das nossas dóres nào é digno da apotheose. 

A desgra^a do poeta, apesar do seu completo trium* 

pio, por isso que achamos a Far^a de Inez Pereira 

oontinuada em Almeiriu^ com o titulo de Juiz da Bei- 

% com o intervallo de um anno, a desgra^a, no reina- 

do dos frades e da hypocrizia, era inevitavel. A 24 de 

Dezembro d^este mesmo anno de 1523, acompanhou a 

corte para Evora, representando ali na capella o Auto 

Pastoril portugìieZé Gii Vicente entrou em scena ves- 

ido com trajos de lavrador, expOe qual ha de ser o en- 

rexo da pe^a, enumera as fìguras, e diz: 



E bum Gii... bum Gii... bum Gii 

(Que ma retentiva bei !) 

Hum Gii... jà nao direi : 

Um que nfto tem nem ceitil, etc. 



Palavras desoladoras e de morte, no anno em que 



130 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

triumphou dos seus inimigos e detractores com a far- 
Qa de Inez Pereira. Opedido de una Autopastoril para 
a noite do Natal, seria talvez mais para aperrear o poe- 
ta, que tinha jà bastante esgotado o assumpto. poe- 
ta bein conhece que nào é a admira^ào pelo seu talen- 
to, e queixa-se n'esses versos do pròlogo. scenario 
representa um bosqne; urna pastora entra em scena 
com o seu gado; no meio dos varios dialogos de pasto- 
res vera Margarida, pastora, que achou hua imagemde 
Nassa Senhora, e tral-a escondida n*um feixe de Ze- 
nha, . .D N'isto entram quatro Clerigos, e resam a ima- 
gem o hymno gloriosa Domina, reduzido. a farsitv^ 
re por Gii Vi cento, e os pastores sàem cantando era 
chacota urna deliciosa cantiga. 

triumpho da FarQa de Inez Pereira nào esque- 
cera; durante o anno de 1524 esteve Gii Vicente afas- 
tado da corte. Desenfadando-se dos trabalhos da ad- 
ministraciio publica em Almeirim, no sitio onde Dora 
Joào III na mais tenra edade levantara um convento 
para os frades de Sam Domingos, ali quiz o monarcha 
distrnir-se com mais urna far^a de Gii Vicente. Foi 
em 1525, que o poeta representou a continuacao da 
farga de Inez Pereira; intitula-se o Juiz da Beira^ e 
representa uma audiencia de um juiz imbecil, que nào 
percebe os factos e direitos que se allegam. Aqui ap- 
parece o espirito sarcastico de Rabelais quando accu- 
sava de falta de pliilosophia os jurisconsultos antigos. 
Seria talvez a fiirga de Juiz da Beira uma satyra cen- 
tra a alhiviào de processos e incorteza de direitos, que 



NO SECULO XVI 131 

resiiltaraiii da reforma dos Foraes, por Dom Manoel? 
Gii Vicente quer a secularisa^ào da sociedade, mas 
ainda nào comprehende a democracia. 

Os Autos de Gii Vicente, segundo a velha usanza, 
tornavam-se parte integrante das festas nacionaes e do 
regosijo publico. Frei Luiz de Soiisa descreve o gosto 
com que a fidalguia portugueza se preparava para o 
casamento de Dom Joào iii ; doscobrindo a grande sen- 
sualidade do monarcha, diz corno fora aconselhado por 
todos 08 poderes para que escolhesse esposa; Dom 
J^^o III dilatava a realisa<jào do pedido allegando que 
*6U pae Ihe impuzerà, primeiro que tudo, casar a In- 
fanta Dona Isabel; desposou-aoimperador Carlos v, e 
a irrnà d'este, a infanta Dona Catherina, casou com 
I^om Joào III. A escriptura do casamento, conservada 
po^ Dom Antonio Gaetano de Scusa, mostra quanto a 
n^tieza nacional era delapidada pelo fausto real explo- 
rado pelas outras cortes. A infanta Dona Catherina, 
contava dezoito annos de edade; a 14 de Fevereiro de 
1^25 partiu para Portugal, Dom Joào iii espera va-a 
110 Orato, indo passados dias juntos para Almeirim. 
N este anno, e eni Almeirim representou Gii Vicente 
a farca do Juiz da Beira, mas nenhuma allusào ahi dà 
a intender que fosse jà diante da nova rainha ; pelo 
contrario encontramol-o tòmando parte nos festejos 
que se fizefram em Evora pelo desposorio de Dom 
Joào III. Na rubrica da Fragoa de Amdr^ dà a en ten- 
der que nào representara està tragicomedia dianfce do 
monarcha: arepresentada na festa do despoaoxVo do 



* 



132 HISTORIA DO THEATRO PORTUGDEZ 

muito poderoso e ccUholico Rei de gloriosa memoria^ 
Dom Joào ierceiro d^este nome, com a Serenissima^ 
Rainha D, Catherina^ nassa senhora^ em saa ausencia^ 
na cidade ds Evora^ na era de Christo nosso Senhor ds 
i 526. li Nos festejos pelo desposorio do rei, Evoraquias 
ter um Auto de Gii Vicente; era entào urna dasraaio- 
res poinpas; costumada a estes divertiraentos scenico»^ 
se é que o seu poeta AflFonso Alvares ahi representara 
OS Autos que escreveu, qìiiz honrar-se» com ama coni- 
posi^ào do velho poeta palaciauo, que deliciara jà duaa 
cortes. A Fragóa de Amór^ foi escripta para estes fes- 
tejos, e representada na auseucia do monarcha; e por 
tanto està a primeira tragicomedia representada dian- 
te do publico. A pobreza em que Gii Vicente estava, 
corno vimos na sua queixa em Evoraem 1523, levaril] 
aquella cidade a convidal-o para a composi^ào da tra- \ 
gicomedia. A Fragoa de Amor abre com a entrada de 
um Peregrino, que procura um Castello afamado: •-£' 
Castello que aqui se falla he por metaphora, por qM \ 
se toma Castello por Catherina,t Fassadas algun(ias 
scenas, apparece este quadro bastante espectaculosO) 
qùe Gii Vicente indica em uma rubrica: ^Em este pas- 
so foi posto um multo formoso Castello^ e ahriu-se a 
porta d'elle e sahiram de dentro guatro Galantes éwi 
trajo de caldeireiros, com, cada hum, sua serrarla mul- 
to lougan pela moto, e elles mui rlcamente ataviadoSj 
cuhertos de estrellaSj porque jiguram quatro Planetas, 
e ellas os Gosos do Amor; e cada hum delles traz un 
martello muito faganhosOj e todos dourados e pratea- 



NO SECULO XVI 133 

do8, e huma muito grande e formosa fragoa (bigorna) 
t Deo8 Cupido por Capitào d'elles: e estas Serranas 
trazem cada hua sua tenaz do teor dos martelloSj para 
servirem quando lavrar a Fragoa d'Amar, E assi sàhi- 
ràm do dito Castello com sua musicaj e acahando fa- 
zm razoamento seguinte para declaraqào do signifi- 
cado das ditas figuras, e cada. Pianeta falò, com sua 
Serrana^^ A figura de uni Negro que viera de Torde- 
sillas, onde se assiguaram as escripturas do casamento 
do Rei : Entra .., na Fragoa, e andam os m^artellos to- 
do8 quatro em seu compasso, e cantam as Serranas qua- 
tro vezes ao compasso dos murtellos està cantinga . . . 
f^itapelo Autor ao proposito. ì> Era Gii Vicente, comò 
bastantes vezes o dà a entender, o que ensoava, ou pu- 
^^a em musica as chacotas dos seus Autos. Està tra- 
gicomedia é umaespecie de magica; o Negro na Fra- 
gra, tornou-se lèpido: «^Sae o Negro da Fragoa mui 
g^til hom^em branco, porém a fola de negro nào se pd- 
d^ tirar na Fragoa. .. «Aqui faz Gii Vicente uma sa- 
^yra profunda a justiea do reino ; « Vem a Justiqa em 
figura de hua velha corcovada, torta, muito rrud feita, 
com sua vara quehrada, » Vem pedir que a endireitem, 
® que Ibe fa9am as màos menores para nào acceitar as 
dadivas d'esses Senhores que a entortam. n Andam os 
''^Hellos forjando a Justiqa com a dita musicaci ... e 
^T^ornam os Planetas a dar outra calda, e a Serrana 
P'f'imeiro-gosO'de Amdr^ tira da fragoa com um/is tena- 
^^^humpar de gallinhas.yt a Andam segunda vez os 
^^rtellos, e a Serrana Segundo-goso-de amdr, tira da 



134 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

fragoa um par de passaros. » — « Tornam outra vez ^ 
dar outra calda e tiram as Serranas Terceiro e Q^tar- 
ito-goso-de-amor^ duas grandes bolsas de dinheiro i^ 
fragoa,ì> tiSae a justiga da fragoa mui foimosa e ài- 
reità, ì> Aqui vem urna satyra pungente centra os fra-* 
des. Indo-se a Justiga, vem um Frade pedir para ser 
refundido e desfradar-se : 



S6mo8 mais frades que a terra 
Sem conto na Ghrietandade, 
Sem servirraos nunca em guerra, 
E havìam mister refundidos 
Ao meuos tres partes d'elles, . 
Em leigos, e arnezes n'elles, 
E mui bem apcrcebidos, 
E entSo a Mouros com elles. 



Indo-se o Frade, passadas duas scenas, entra no- 
vamente com um saco de carvào, para ser refundido^ 
com a licenza do seu Superior, para elle e mais sete 
mil. Gii Vicente termina a tragicomedia com urna 
aria final, e dà a entender, que sera continuada. A 
Fragoa de Amor, é importantissima para o conlieci- 
mento dos recursos da scena de que o poeta dispunba; 
ali nos descobre comò caracterisava os Planetas, que 
tantas vezes entram nos seus Autos. N'ella se revela 
o genio que b fez sempre triste; em um festejo de 
consorcio real, a veia sarcastica diffunde-se a larga; 
teca o assumpto apenas por allegoria. 

Depois da chegada da rainha Dona Catherina ao 
Orato, Dom Joào iii partiu com ella para Almeirim, 



NO SECULO XVI 136 



t': 



logar da sua predilec9ào ; ali foi representar Gii Vi- 
*^| cente a farga do Clerigo da Beira em 1526, provavel- 
meote, uà vespera do Natal, corno da mesma far9a se 
deprehende; e pertanto foi ali primeiramente repre- 
sentada a tragiconiedia do Tempio de Apollo^ na par- 
tida da Infanta D. Isabel, irmà de Dom Joào iii, qiie 
casou com Carlos v. casamento da Infanta cele- 
brara-se a 17 de Outubro de 1525 ; um grande sarau 
real, comò conta Frei Luiz de Scusa commemorou o 
do desposorio ; estava prestes tudo para a jornada 
nova imperatriz na sua ida para Castella ; e: mas 
Bendo visto o Breve por pessoas curiaes e dontas, as- 
sentaram que convinba passar-se em mais ampia fór- 
ma, vistos OS muytos vinculos de parentesco que entro 
08 contrahentes avia.» (1) A impetra9ào e vinda de 
outro Breve dilatou-se ao anno de 1526 ; n'este meio 
tempo soffreu Gii Vicente um duro golpe, nada menos 
do que a morte da sua unica e disvelada protectora, a 
rainha Dona Leonor, viuva de Dom Joào ii, e tia de 
el-rei Dom Joào ili. D'aqui em diante veremos ago- 
nisarem todas as esperan^as do poeta. Quando no 
principio do anno de 1526 foi a partida para Castella, 
8 córte estava de luto ; nào se fizeram as festas com a 
pompa que se projectava. Apenas o desgra^ado Gii 
Vicente, que estava doente de febres malignas, foi con- 
vidado para compór uma tragiconiedia para ser repre- 
sentada na partida da imperatriz Dona Isabel, filha de 

(1) Frei Luiz de Sonsa, Annaes de D, Joào III, p. 137. 



1S6 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

el-rei Dom Mauoel; as febres de que esteve doente 
eratn de calenturas ou sezOes. A tragicomedia intitu- 
lada Tempio de Apolloy abre com um prologo em que 
Gii Yicente fala e se desculpa da iraperfei^ào da obra : 
^ Entra primeiramente o Autor. É pof* quanto os dias 
em qxM està obra fabricou esteve enfermo de grandes fé- 
bresy vem desculpando-se da imperfeigdo da obra para 
tao alta festa^ e diz : 

Autor 

Teiiiendo fiebre contiDua 
Aqueetos dias passados, 
La rouerte posta a mia lados 
Diciendo-me — aina, aina 
Que tu8 dias son llegadoa ! 
Y tornado ansi enti'c puertoa, 
Me parecìó que morrìa... 



Dice todo em Castellano, 
El sprito mio ausente ; 
Y pues la obra es doliente, 
Valgame el deseo sano 
Que estuvo siempre presente. 



Admittida a deducQào do anno em que nasceu Gii 
Vieente, em 1470, n'esta doen^a contava jà cincoenta 
e seis de sua edade ; cada vez se Ibe toldava mais o 
horisonte e se Ihe tornava mais diiEciI a lucia. Nik) 
se podendo fazer devidamente as festas na partida de 
Dona Isabel pelo luto da córte com a morte da rainha 
Dona Leonor, convidaram o poeta para urna tragico- 
media com que entreter o serào ; jà havia passado o 
enthusiasmo por estes divertimentos dramaticos. No 
argumento da pcQa, diz Gii Yicente : 



NO 8ECUL0 XVI 137 

Este palacio enealzado 
Para eete Auto es tornado 
Miiy ferinosissimo tempio 
De Apollo, dìos adorado 
Y aquelle es su aitar, etc. 

Por estes versos se descobre a decora^ào da sala e 
a disposi^fto do scenario. poeta, no san argumento, 
escnsa-se de explicar ò entrecho da pe^a, fiando-se na 
illustra^ao dos cavalleiros que o escutam : 

T pues la presente obra 
Hade ser representada 
En està corte sagrada, 
Donde sé que el saber sobra, 
No declaro duella nada... 

N*esta tragicomedia, representou um filho de Gii 
Vioente o papel de Porteifo do Tempio, corno se deduz 
dos versos de Apollo : 

Ora BUS, alto, Oilete, etc. 

E està parte, no meio das allegorias de Vencimen- 
tOy Cetro Omnipotentej Tempo glorioso^ Fior da Genti- 
leza^ Fatnay Gravidade^ Sabedoria^ é que espalha o sai 
comico, que tomaria a festa do pa90 jovial. Foi a 10 
de MarQO de 1526, que o Imperador Carlos v e a in- 
fanta Dona Isabel receberam em Sevilfaa a beuQào nu- 
pcial dada pelo arcebispo de Toledo. D'està allian^a 
das dnas cortes, resultou para Portugal urna paz se- 
gara, que durou até 1534. (1) N*este mesmo anno um 

(1) Schmfoi) jffis^. de Fort., p. 696. 




138 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

grande terremoto deixou em ruinas as cercanias ( 
Lisboa ; a corte fugiu para Coimbra ; Gii Vicenl 
acompanhou a corte, e ali a distraiu com a sua Far^ 
dos Almocreves, representada era 1526. « fundamet 
to d^esta farga he^ qxie hum fidalgo de muito pouca rena 
usava muito estadOj e tinha capelldo seu e ourives seri, 
outros afflciaesj aos quaes nunca pagava. » Com està far<; 
indicaria Gii Vicente urna lei snmptuaria? D'aqui ei 
diante é qne come^aram a ser decretadas. typo d 
Fidalgo caloteiro, perseguido pelo Capellào, pelo Oi 
rives, pelos Almocreves e outro fidalgo, e respondenc 
sempre com boas palavras, pagandp com grandes pr 
messas, é o primeiro esbogo da crea9ào do Mercadet i 
Balzac. Gii Vicente comprehendeu que o probjema i 
arte dramatica é o caracter. Falta-lhe a liberdade pa: 
eompòr livremente ; se alguma cousa avanza é prot 
gido pela faccela e pela condi^ào infamante da vie 
de actor, que a este pretexto se tornarla entào coni 
irresponsavel. N'este anno de 1526 procurava entra 
a Inquisitilo em Portugal ! No mez de Dezembr 
d'este anno jà a corte se encontrava outra vez em AI 
meirim ; o papa Clemente vii enviava a Dom Joào il 
o presente com que a curia romana brindava os Bfii 
benemeritos da egreja, a Rosa sagrada, com jubilei 
para o monarcha e indulgencias para mais de cei 
pessoas que nomeasse. As festas com que foi recebid 
este mensageiro do Papa, que trazia a Rosa, talvc 
^ dessem origem ao Auto que Gii Vicente representc 
m 1526 em Almeirim. A far^a do Clerigo da Beir* 



NO SECULO XVI 139 

é urna satyra aos clerigos que vìviam em maacebia, e 
que se entregavara ao prazer da ca^a, esquecendo os 
ojBScios divinos. Em scena, o Clerigo resa o Breviario, 
gritando ao mesmo tempo aos càos, que buscam os 
coelbos ; as oragOes de um Preto ladrào parodi adas 
em giria mostram a audacia do poeta, estando jà em 
vigor a Inquisi^ào. Aqui cita os nomes dos varios per- 
sonagens, que estavam presentes a representafào da 
Far^a, o Embaixador de Carlos v, Monsieur de la 
Xaus, Carlos Popet, que recebera por procuragào a 
Lifanta Dona Isabel ; cita tambem o velbo Conde de 
Marialva, cavalleiro da corte de Affonso v, de Dom 
Joào II e Dom Manoel; o poeta allude a sua avan9ada 
edade: 

Com todas suasferidaB, 
E muito enfenua canseira, 
Contratou-se de man eira , 
Que Deos Ihe deve troz vidas, 
E està he inda a primeira. 

A far^a do Clerigo da Beira ^ a primeira que ter- 
'^^tta sem a chacota do estylo. De repente interrom- 
pa^ GilVicento a direcQào secular que levava a sua 
^us^ dramatica, e volta outra vez aos Autos religio- 
^® eia edade media, Eram as exigencias de uma córte 
^ttic>lica e fanatica que o obrigavam a està decaden- 
^^ft- lEm 1527, estando ainda a córte em Almeirim, 
^^ ^^epresentou diante de Doni Joào in e da rainba 
-'-'otx^ Catberina sua hiulher, o Auto intitulado Breve 
^^vrè.^nario da Hùtoina de Deos^ pe^a importaate ^ar«» 



140 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

se oonhecer os recursos de scenographia de que jà po- 
dia dispór Gii Vicente, e que descobre a origem fran* 
ceza d'onde o poeta tirou a primeira ideia dos seus 
Autos. Aragào Morato, na Memoria sohre o tlieatro 
portvffU€€, foi o primeiro que aventou està opiniào hoje 
sómente compro vada. Aragào Morato reconhece que 
a Historia da Vida de ChristOj de Jean Michel, tem 
suas analogias com o Auto da Historia de Deosj de 
Gii Vicente. 

A oste proposito cumpre transcrever aqui as pala- 
vras de Barreto Feio, no prologo da edi^ào de Ham- 
burgo, em completa contradicQào com a sua hypothese 
sobre a origem faespanhola dos Autos de Gii Vicente: 

«E possivel que Gii Vicente, urna vez empenliado 
na carreira dramatica, por suas proprias diligeneias cu 
por interven9ào da. córte, viesse a deparar com as com- 
posigOes francezas. Com effejto, quem comparar qual- 
quer d'estas pecjas, particularmente a Historia de Deos, 
com OS Mysterios representados em Franca, poderà 
achar algum fundamento para està conjectura. Assim 
estes titulos e dignidades de que o poeta reveste os dif- 
ferentes Diabos que pOe em scena, mais parecem for- 
mar uma especie de systema adoptadoppr todos aquel- 
les que trataram similfaante assumpto, do que casual 
inven9ao do poeta portuguez. Se nos Mysterios fran- 
cezes Lucifer é sempre o Principe dos Demonios, em 
Gii Vicente é o Maioral do Inferno; na pe^a portu- 
gueza Belial é chamado o Meirinho da Córte infornai, 
nos Mysterios o vemos designado por Procureur des 



NO 8ECUL0 XVI 141 

Enferà, e em ambas as partes mostra um caracter 
ìgaalmente violento, em opposi^ào a astucia de Sata-* 
nazj que, assim no Auto portuguez comò nos Myste* 
rios francezes é encarregado por Lucifer de tentar tan- 
to OS homens comò a Christo. E tambem dìgno de se 
notar de que na po^a de que estamos fatando, deixa 
Gii Vicente a versificagào nacional e se aproxima da 
franceza.» (1) De facto o Auto da Historia de Deos é 
quasi todo escripto em endeixas, ou verso alexandrino. 
Pela leitura do Auto se deprehende que a scena nào pò- 
dia ter a disposigào ordinaria de um tablado unico, 
mudando-se os logares da ac^ào com a mudan^a da de- 
cora^ào; a maneira dos Mysterios francezes, em que 
bavia tantos palcos sobrepóstos qiiantos os incidentes 
da acQào, sondo geralmente divìdido em tres andares, 
o de cima para as scenas do céo, o do meio para a ter- 
ra, e o debaixo para o inferno, na Historia de Deos 
encontra-se este mesmo arranjo, Um Anjo vem fora 
fazer o prologo da pega, pedindo que os ouvintes se nào 
enfadem; naturalmente o Anjo fez a sua alIocu9ào no 
tablado superior; Lucifer, o maioral do inferno. Bo- 
llai, meirinho da sua córte, e Satanaz, fidalgo do seu 
conselho, entram em scena para o tablado inferior; Lu- 
cifer senta-se, e queixa-se de Deos ter dado a Adào e 
Eva as prerogativas que Ihetirara; manda Satanaz ao 
Paraiso para tentar Eva, por meio de astucia; Belial 



(1) Obras de Gii Viceute, edÌ9ào de Hamburgo de 1834, 

t. I, p. XXIV. 



142 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

fica-se queixando por nào ter sido enviado, porque os 
havia de fazer peccar a for9a. Passado ponco tempo 
entra Satanaz com a sua obra consummada. Ponco de- 
pois entra um Anjo com um Relogio na mào, apoz elle 
vem o Mundo vestido comò Rei, e o Tempo adìante, 
corno seu Veador; em seguida entram Eva e Adào ba-, 
nidos do Paraiso. A Morte tambem apparece em scena 
e com ella sàem do Auto Adào e Eva; seu filho Abel 
entra cantando um mimosissimo vilancete, porém o 
Tempo pouco depois o manda sair da scena, por ter os 
seus dias acabados: a Entra Abel na escuridude do lim- 
bo e diz: 

Depois de viver vida tfabalhada 
Depoìs de passada tS.o misera morte, 
Este é o abrigo, està he a pousada.» 

Como se ve por està rubrica, Abel saiu de um ta- 
blado, o do mundo, e entrou n'outro escureeido, qua 
representava o limbo. Por seu turno, Adào e Eva, qua 
se tinham apartado do Auto^ sàem por mandado do 
Tempo, e a^ Entrando na casa de sua prisao^ e achando 
Abely seu filho^ preso naquella infernal estancia, fize- 
ram todos um pranto, cantando a tres vozes, etc,i> De- 
pois que acabaram de 'cantar e cliorar, entra no tabla- 
do da terra Job, onde e tentado por Satanaz, que o 
toca e fica coberto de lepra. 

Està rubrica re vela algum recurso artificioso, 
comò se usava nos mysterios francezes: por exemplo, 
no Mysterio dos Apostolos, vinlia uma serpente enro- 



NO SECULO XVI 143 

lar-se a um carvalho, e ali se desfazia era sangue. A 
Morte, charaa Job para fora da scena ; nos mysterios 
OS que morriam eram levados para fora da scena em 
caiT09a8ou às cavalleiras; saindo da terra, torna aap- 
parecer no limbo, que Ihe fica inferior. Entram os 
grandes patriarchas Abrahào, Moyses, David, e pro- 
phetisam a vinda do Messias; prova velmente vinham 
vestidos de dalmaticas, segundo os velhos mysterios. 
Por seu turno descem para o limbo. Aqui principia a 
seganda parte do Auto, em que trata da Lei da gra^a; 
do sitio em que o Precursor representa, via-se o limbo : 



Leva-nie morte ; quero-ine ir d^aquì, 
Que jà mostreì Òhristo a todolos vivos ; 
Irei dar a uova dquelles captivos 
Ciijo cativeiro terà cedo firn. 



^^Entrando Sam Joào ri aquella prisào, com admira- 
9^ de grande alegria cantaram os presoìi o romance. . . 
T^ ofaz mesmo aitctor ao mesmo proposito,"» 

Depois de Lucifer estar com receio d'aquelles que 
tem a sua guarda: a Entra a figura do nosso Redemptor; 
^ Mundo^ Tempo e a Morte assentam-se de joelhos, 
«fc.» Lucifer dà a Satanaz um habito de Monge para 
^^ tentar a Christo^ em urna rubrica em que Christo se 
^^l'ige ao povo, dà Gii Vicente a entender, que o Auto 
iiào foi representado so diante da corte. Christo sàe 
P^J^a ir sofFrer os tormentos da paixào. Consummado o 
^^crificio tEm este pa^so vem os cantores, e trazem Ima 
^'^ onde vem hua devota imagem de C/iristo morto ^y* 



U4 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

em quanto darà a procissào, os Diabos queixam-se da 
perda do seu poderio. fiAqui tocam aa tromòetas e eha- , 
ramellds, e apparece ima figura de Christo na ressurreù 
gaOj e entra no Limbo e soltard aqùelles presos bem 
aventurados, E assiacaha o presente Auto."» Todas ea- 
tas representa90e8 sìmultaneas nào podiam ser feitas 
em am mesmo tablado. Aqui a figura de Christo ni^ 
resurreig&o eleva-se para entrar no Limbo ; tambem no 
velho Mysterio da Creagàoj Lucifer e os seus aiyo* 
eram elevados por meio de urna roda impellida debai- 
xo para cima, corno indigita a rubrica. 

Dialogo da Bessurreiqao, nao indica ter sido re- 
presentado, nem a època da sua composi^ào ; pareoe 
urna continuaQào do Auto da HUtoria de Deus, e corno j 
tal seria talvez representado em Àlmeirim, em 1527. 

N'este mesmo anno de 1527 fugiu a córte pan 
Coìmbra com modo da peste ;.estava a este tempo n es- 
tà cidade Sa de Miranda, jà da sua volta de Italia ;foi 
elle que fez o discurso em nome da Cidade a D. Joào ili. 
Em urna satyra verbera os fidalgos da corte que 8a&- 
piravam por Almeirim; para supprir a fulta de diver- 
timentos, foi encarregado Gii Vicente de compòr ama 
comedia; n'este anno ali representou a Comedia Sabre 
a Divisa da Cidade de Coimbra: «iVa qucd se trota o 
que deve significar aquella Princeza, Ledo e Serpente e 
Calia; ou fonte, que tem por divisa; e assi este nome de 
Coimbra donde procede, e assi o nome do rio, e outras o«- 
tiguidades de que ndo Ite sabido verdadeiramente sua ori- 
gem. Tudo composte em louvor e honra da sobredita ci- 



NO SECULO XVI 146 

dade.ìf Selvagem Mondrigon vinha tmuito desfigvr 
rado cvherto de cabello e com htta braga de ferraio. Fora 
da scena toca-se urna musica em surdìna «Atta doce 
ifiusica de longevi. 9.0 selvagem Mondrigon com as suas 
arrms arremette a CeUponcio, Toca Celiponcio pela 
ffvabodnaj pela guai a Serpe e o Leao conhecia sua ne- 
cundade; os guaes acodem mui apressadamente, e ma- 
tow selvage Mondrigon: e logo se vào ao seu castello 
e tiramaprinceza Celimena e suas donzellas e irmaos.i^ 
Sàem todos da scena, e em quanto nào voltam, um Pe- 
regrino, que fez o argumento da pe9a, vera explicar os 
successos, e encaminhar as atten90es do auditorio, até 
que — ik Entra Celimena e suas Damas com sev^ irmaos, 
com grande apparato de musica e a Serpe e o Leao 
f^^^ompanhando aditaprinceza,!» Nos Mysterios franco- 
^^ a entrada dos monstros em scena, comò LeOes ou 
■^■^gres, chamava-se (ipparigoes; està apparigào era vul- 
gftr no nesso povo, acostumado a acompanhar na pro- 
cissào (le Qorpus a Serpe e o Drago. No fim do Auto 
laz Gii Vicente honrosas allusOes a nobreza dos arre- 
dores de Coirabra, aos Silvas e Silveiras, aos Sousas, 
^08 Pereiras, Mellos, e Menezes. 

Em urna terga feira, 15 de Outubro de 1527, deu a 
^^ a rainha Dona Catharina, raulher de Dom Joào ili 
* Infanta Dona Maria; ao foliz successo d'este parto 
*^i chamado Gii Vicente para tornar parte nos feste- 
jos da corte ; diante do monarcha representou a tragi- 
^Daedia pastoril da Serra da Estrella, a qual terminou 
com nma chacota cantada de canto de orgào, ao gesto 

10 



146 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

1 

dos Mysterios francezes. N'este mesmo anno de 1527 
voltoa a córte para Lisboa, depois de aplacada a peste; 
a Tragicomedia Nau de Amores foi representada dian- 
te de Dora Joào III, a entrada da rainha Dona Catha- 
rina ; a pe^a é bastante espectaculosa : « Entra a Cidade 
de Lisboa, vestida de Princeza com grande apparato 
de musica, fatando com suas altezas.i» £m outra ra- 
brica diz Gii Vicente : <tFoi posta no serào onde està 
ohra se representou hua ndu de grandesa de hum ha* 
tei, apa/relhada de todo o necessario para navegar,e o$ 
fdalgos do Principe tiraram suas capas e giÒdes, efi- 
caram èm calgoes e giliòes de brocadoy corno càrafates; 
OS quaes comegaram a carafetar a nau com escopares $i 
maganeta^ douradas, que para isso levavam oo som:] 
d'està cantiga.ii Na corte de Dora Joào il, nas cele- 
bradas festas pelo casamento do principe Dom Affondo, 
vira Gii Vicente entrar nos momos do serào urna nau 
mui bem equipada; aqui repetiu o raesmo apparelho, 
talvez bastante apreciado pela córte portugueza oc- 
cupada de expedi^Oes maritimas. Auto acaba com 
urna d'aquellas sentidissimas cantigas dos mareantes 
portuguezes : t Comegam a cantar a prosa, que com- 
mummente cantam nas ndos a salve, que diz: 



Boni Jesu Nosso Senhor 

tem por bem de dos salvar^ etc. 



velho cantava corno velho, o negro apoz elle comò 
negro, e respondiam-lhe os passageiros a quatro va- 



NO SECULÒ XVI 147 

« 

2^ de canto de orgào; e com iato se vào oom a nau, e 
f^^ce està tragicomedia. » Barreto Feio disse, que dos 
-^^tos de Gii .Vicente pouco se tirava para a historia 
"^ theatro portuguez; as rubricas disseminadas por 
s^as obras, encerram factos authenticos por onde ella 
l'^teiramente se recompOe. 

N'este mesmo anno de 1527, tomou pela sexta vez 
* scena com um Auto religioso, representado em Lis- 
W nas matinas do Natal, o heroico poeta Gii Vicen- 
te. Nào sondo por vezes cfaamado senào com o inter- 
vaUo de annos, parece que Dom Joào iii quiz desmen- 
tir a sua animosidade centra Gii Yicente, encommen- 
dando-lhe em um mesmo anno seis Autos, representa- 
dos ora em Almeirim, ora em Ooimbra e Lisboa. 
poeta resente-se d'està violencia, e a sua musa toma- 
se cada vez mais sarcastica; o Auto da Feira, repre- 
sentado nas matinas do Natal de 1527, é ìnteiramente 
em portuguez, e de tal fórma independente e repassa- 
do de ironias contra o partido clerical, que bem se 
póde considerar Gii Vicente comò um dos propugna- 
res da Reforma em Portugal. Mercurio, em vespera 
do Natal vem abrir urna feira: 

E por quanto nunca vi 
Na córte de Portugal 
Feira em dia de Natal 
Ordeno urna feira aqui 
Para todos em geral. 

Acabado o prologo ^ Entra o Tempo ^ e arma huma 
tenda com multai coìisas, . . » Como jà vimos em outro 



148 HISTORIA DO THEATRO POBTUGUEZ 

legar, oa Astros eram sempre caracterisados com 
pas pretas semeadas de estrellas; o Tempo corno ali 
rioo, trazia os aymbolos da ampulheta e da folce, 
da que no prologo jà estava prevenido o espects 

Fa9o Mercador mór 

Ao Tempo que aqui vera. 

auto devera ohamar-se, segando a intenda 
Autor, a Feira das gra^as; nunea Rabelais asse 
golpea mais bem dadofi e fundos na gente clerica 
que Gii Vioente n'este Auto. Seraphim que 
mandado por Deos a feira, verbera os pastores al 
OS Papas adormidos. Como ninguem faz caso das 
meroadorias fn Entra hum Diabo covi huma tene 
diante de si, corno bufarinheiro.i» Logo que Roms 
à feira, diz o Diabo: 

Quero-me eu concertar, 
Porque Ihe sei a maneira 
Do seu vender e comprar. 

poeta refere-8e aqui à venda das Indulgen< 
da independencia da egreja franceza. 

E inacreditavel, comò na córte de Dom* Jof 
no reinado da Inquisi^ao, tivesse Gii Vicente tan 
audacia. E sublime a linguagem do senso com 
quando Mercurio diz a Roma: 

Oh Roma, sempre vi là 
Que matas peccadòs cà, 
E leixar viver os teus. 



NO BECULO XVI 149 

Por tado isto, e talvez por grandes resentìmentos 

da classe sacerdotale nào representou Gii Vicente nos 

annos 1528 e 1529 Auto algum nos serOes do Pacjo. 

A in^aencìa da InquisÌ99.o espalhara nos animos urna 

trìsteza geral; o desenvolvimento do fanatismo no ge- 

flio bondoso do povo, o odio contra a ra^a jadaica, ti-* 

t&rum a alegria franca « puramente nacional. Na Tra- 

gicomedia Triumpho do Inverno^ queixa-se Gii Vicente. 

No prologo d'està tragicomedia, em que Gii Vi- 

oente fala ein seu proprio nome, descreve a alterasse 

profiinda que se dera no caracter portuguez desde o 

rainado de Dom Manoel; està exprobagào geral é oomo 

um resultado da sua mudez de dois annos. 

Depois do Natal de 1527, so em Fevereiro de 1530 
é que tornou a ser convidado para representar na cór- 
te, pela OGcasiào do nascimento da infanta Dona Bri- 
tes, filba de Dom Joào ili e de sua inulher Dona Ca- 
therina. Nasceu a infanta em Lisboa em uma ter9a 
feira 15 de Fevereiro, e fòra o seu nascimento comò 
que uma consola9ào para, a rainha para compensal-a 
da perda da infanta Dona Isabel em 1529; foi por 
està rasào que Gii Vicente intitulou està far^a Triuni'^ 
pho de Inverno, Fatando .dos antigos tempos de ale** 
gria, talvez os da córte de Dom Joào li, diz: 

Se neste tempo de gloria 
Nascerà a Infanta sagrada 
Como fora festepada, 
Semente pela vitoria 
Da Rainha alumiada. 
Jà tudo leizam passar, 



160 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



Tudo leixaru por f azcr, 
Sem pessoa perguntar, 
A este mesmo pesar 
Que foi d'aquelle prazer. 



A sorte do theatro, a que Gii Yicente dera origem, 
n&o poderà medrar n^esta esterilidade da córte. Por 
este tempo tarabem Sa de Miranda perguntava pelos 
bons tempos dos serOes de Portugal, quando figurava 
Dom Joào de Menezes com as suas engra^adas coplas. 
A poesia fora banida da córte pela severidade monas* 
tica; o Anto de Gii Yicente ao nascimento da infanta, 
appareceu comò para festejo dado pela cidade de Lis- 
boa: 

Porem co*a ajuda dos céos 

Imagìnei urna festa 

A nossa Julia modesta etc. 



Quando vi de tal feÌ9fio 
Tdofrio tempo moderno 
Fiz um triumpho de Inverno 
Depois sera o do Yerfto. 



N^este mesmo argumento nos explica o poeta a ra- 
zào porqne tantas vezes fez falar aos seus personagens 
em lingua hespanhola: 

E porquo melhor se sinta 
Inverno vera selvagem, 
Castellano en su decir; 
Porque quem quìzer fingir, 
Na Castelhana Hnguagem 
Achard quanto pedir. 



NO SECULO XVI 151 



Jà no Clerigo da Beira, referindo-se ao Embaixa- 
dor de Carlos v, Monsìeur de Xaus, diz: 



. . . tSo sabio e h umano 
De condÌ99o tara gracìosa, 
Que D&o lem em nada grosa 
Sen&o em ser CasUlhano. 



Como Jorge Ferreira, Gii Vicente nào qaereria 
qae o ouvìdo portuguez andasse aforado a trovas cas- 
telhanas, mas tendo de representar diante de rainhas e 
embaixadores de Castella, a forga das circumstancias 
obrìgava-o a abandouar a sua lingua. Na tragicomedia 
Trìumpho do Inverno, aparece no segundo acto urna 
tempestade em scena e um navio para naufragar. 
Inverno, que faz o argumento, diz : 



Verna un piloto bozal 
T un raarinero aosados 
Buen maestro especial: 
Y tres grumetes bobazos, 
Todos cince navegando, 
El piloto ifiorando, 
El marinerò carpazos 
Oireis que le va dando. 



Logo que cometa a tempestade ouve-se um apito 
qne assobia, para acudirem a manobra. So trànscreven- 
do està scena inteira é que se póde fazer uma ideia de 
grandeza do espectaculo apresentado por Gii Vicente; 
deram-se fuziladas vermelhas, e trovoada aolonge fin- 
gindo uma noite escurissima; ouve-se o mar b&\ieiT n^di 



i 



162 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

costa, com a for^a de vento vé-se a naa so9obrar; f> 
marìnheìros sobem pelos mastros a colher a mezena, 
amainar o papa-figo, em quanto outros invocam o céo^ 
rasgam-se as velas, quebra a tranea do garupez. 0^ 
Marinheiros fazem promessas a Senhora do Loreto, » 
Sam Fedro Goncjalves ; outros come^am a dar & bomba, 
e alijar o que sàe no convez, e a deitar as arcas ao mar» 
No meio do temporal estala um mastro, e os marinhei- 
ros gritam centra o Piloto que os nào sabe dìrigir. 

È bastante longa està scena, e deverà ser surpro* , 
hendentel So na córte de um rei opulento,, corno era 
entào o de Portugal, se poderiam fazer representa^Oei 
tao dispendiosas. N'este acto da tempestade de mar, 
Gii Vicente inspirou-se das medonhas relagOes do nau- 
fragio dos galeOes da India, que andavam entSto em 
foiba volante de mào em mào; aqui faz elle uma satjra 
e accusa9ào pungente, corno indicando ao monarcba 
portuguez que a grande perda dos galeOes da India é 
devida aos pilotos ignorantes : 



Està é huraa errada 
Que mil erros traz comsigo, 
Officio de tanto p'rigo 
Dar-se a quem nSo sabe nada. 



Depois d'està grande tempestade, appareoem trez 
Sereias à tona de agua, cantando todàs tres um vilan- 
cete. Gii Vicente, fazia de Inverno, n'este Auto, e quasi 
no fim d'elle se dirige a Dom Joào iii, dizendo : 



NO SECULO XVI 153 



Y por que va enflaqueciendo 
Mi fnerza del ante vos, 
Para decir lo que entiendo 
Sefiora, diga le Dios, 
Que yo ya voy pereciendo. 



N'isto manda as tres Sereias cantarem diante de 
^om Joào III um Romance que é comò urna recapitu- 
la^ào da historia de Portugal. A segunda parte d'està 
tj'agicomedia trata do Triumpho de Verào corno o poe- 
^ prometterà no prologo ; a parte principal e verdadei- 
^naente admiravel para o tempo é apresentar em scena 
^^ jardira encantado, representando symbolicamente 
as virludes do Monarcha. 

fO Verào vae apresentar o Jardim a El-Reii»; e pa- 
rece que Dom Joào in entrou na folia com que remata o 
Auto, comò se ve pela rubrica : « Os Cintràos em folia 
oom Principe se vào cantando ì). No argumento do 
-^^to, Grii Vi cento diz: arepresentada ao excellente 
^'^incipe El-Rei Dom Joào IIIi^^ o que dà a entender 
lue a rubrica final se referia ao Rei. 

Tambem nas festas do casamento do principe Dom 
^ffonso, El-Rei Dom Joào ii tomou parte nos festejos, 
^^stido de Cavalleiro do Cysne; por certo Dom Joào 
^^l nào era de caracter mais severo e taciturno. No 
*Jxuo de 1531 achava-se Gii Vicente em Santarem, 
*"i^a da córte, comò se ve pela Carta que escreveu a 
^oin Joào in àcerca do terremoto de 26 de Janeiro 
^ ©8te anno. Està Carta mostra a grandeza de cora- 
no do poeta, que pela energia do seu caracter, «al- 



154 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUKZ 

vou de urna horrivel carnificina os christàos nov 
Santarem. Por està Carta se ve tambeiu o grau e 
timidade que o poeta tinha com o monarcha. A 
corno no Triumpho de Inverno do anno anteced 
fala agora de estar muito visinho da morte; cor 
por certo sessenta e um annos, corno por dedugC 
descobriu. Estào acabados os bons serOes de Fort 
so o nascimento de algum Infante, prestarà extrs 
nariamente occàsiào para Gii Vicente compòr a 
Auto. Em urna quarta feira, 1 de Novembre de '. 
nasceu o Principe Dom Manoel, em Alvito; em 
representou Gii Vicente, para festejar o nascimei 
far9a intitulada Auto da Luzitania: 



Para que co.Tpridamente 
Aito novo inventemoB, 
Vejamos um exceliente 
Que presenta Gii Vicente 
E por hi nos regeremos. 
Elle o f az em louvor 
Do Princepe nosso senhor, 
Porque nfto póde em Alvito, 
Logo vira o relator, 
Veremos com que primor 
Argumenta bem seu dito. 



Por estes versos se ve onde foi o legar da i 
senta^ào; e principalmente dà a entender que oi 
Autos come^avam a ser imitados. Referir-se-hi 
ventura aos Autos de Affonso Alvares, protegido 
honrados conegos de Sam Vicente ? No argume: 



NO SECULO XVI 166 

Licenciado fala de Gii Vicente, de um modo que se are- 
na serem dados biographicos se nào fosse repassado 
de ironia o que ali se descreve. D'està vez o relator da 
P^a termina o argumento em prosa. 

A 26 de Maio, de 1532, em ama ter^a feira, foi o 
Nascimento do principe Dom Philippe; para festejar 
este successo, representou o poeta dìante de D. Joào iii 

* tragicomedia intitulada Eomagem de Aggravados, 
em Evora, onde fora o parto da rainha Dona Cathe" 
rina. 

A indole da tragicomedia està caracterisada por 
Gril Vicente n'estas palavras da rubrica historica: 
*-B«te tragicomedia seguiiUe he aatyrai*. retrato de 
Frei Pa^o, que ^eìUra com seu liahito é capello^ e gorra 
^ veludOy e luvas e espada dourada^ fazendo meneios de 
^uito doce cortezdoiiy é completo e inimitavel; em si 
desume toda essa especie neutra ou hybrida que encbia 

* córte de Dom Joào iii. É sublime a coragem com 

l^Q Gii Vicente escalpeliza a sua hediondez moral; 

^ ^^ì Passo faz o prologo do Auto, e fica sentado em 

scena para ouvir os aggravos dos que entram. A rai- 

'^ha Dona Catherina tambem assistira à representagào, 

^Qio se ve pelos versos finaes. N'este mesmo anno, es- 

^do a córte ainda em Evora, representou diante de 

^^tti Joào III a tragicomedia cavalbeiresca Amadis de 

^^ula. Depois da morte da rainha Dona Leonor, viu- 

^* de Dom Joào ii, Gii Vicente so encontraria protéc- 

5*o centra o partido monachal no Infante Dom Luiz, 

^^^o de Dom Joào iii, apaixonado pela atte Axwxiar 



156 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tica, e ìmitador dos Autos que vira na corte; nSo é so 
por se Ihe attribuir a coraedia de Los Turcos, que leva 
a està inducQào, mas o julgar-se que é de lavra sua a- 
Tragicoraedia de Dom Duardos. Na escolha do assum- 
pto, mostra GriI Vicente o querer lisongear o gesto do. 
monarcha, que na sua infancia recolhia das màos dd 
Joào de Barros os cadernos do Clarimundo para ir se^ 
guindo a aventura cavalheiresca ; na escolha do Arno^ 
dis de Gaula, seguo o gesto do theatro francez, quf 
tambem punha em scena a historia dos Quatro fili 
de Aymon. Quasi todas as obras mais perfeitas de Gì 
Vicente foram representadas em E vera, o que d&aen-j 
tender, que ali a eschola dramatica come^ada por Af« 
fonso Alvares precisava de ser convencida da superi( 
dado do mostre. No Amadis, a parte espectaoulosa 
brilhante, apparece a córte do Bei Lisuarte com suas 
damas; Oriana e Mabilia sentam-se na borda de niii 
tanque, e a scena representa um pomar no qual se pas- 
sam as aventuras do mais lealamor. Pelaprimeiravetj 
apparece em scena um Anào ; ali Amadis veste os ha- 
bitos de Ermitao para fazer penitencia. Pelos nom( 
dos personagens se ve que Gii Vicente n&o conhecia 
poema francez de Amadas y Ydoine; a versào hespa* 
nhola de Amadis de Garci Ordonhes de Montalvo fòok 
feita entro 1492 e 1504; nos versos dos poetas da cor- 
te de Dom Joào ii muitas vezes se allude a Amadis^ 6 
& continuaQào de Montalvo intitulada La^ Sergas de 
Splandian; tendo frequentado essa córte, é naturai qiid 
Gii Vicente seguisse para a composi^ào da tragioome- 



NO SECULO XVI 167 

a a versào hespanhola, bastante conhecida e viilgari- 
ia em 1519 e em menos de um secalo traduzida em 
iiano, firancezy inglez e allemào. arruido causado 
tao por essa novella, e o gesto do monarcha, faria 
r certo com que o poeta a escolhesse, corno um as- 
mpto de occasiào. A lìnguagem teda castelhana em 
e està edcripta a tragicomedia, mostra a sua deriva- 
0. A versào originai portugueza, corno manuscripta, 
,o se podia vulgarisar tanto, e talvez que andasse j a 
)rdida, por isso que so em 1589 é que o filho de An- 
nio Ferreira fala da existencia do Manuscripto n\ 
tsa de Aveiro, jà comò urna preciosidade unica. 
* Na tragicomedia de Amadù de Gaula^ seguiu Gii 
''icente pela primeira vez o processo de extrahir as si- 
oa^óes dramaticas de urna composÌ9ào novellesca. Se- 
fuia instinoti vamente o mesmo progresso que levou os 
ragicos gregos a tirarem as suas composigOes da Ilia- 
a. Barbosa Macbado e Manoel de Faria e Scusa attri- 
nem ao Infante Dom Luiz a tragicomedia intitulada 
Oom JDuardos'y o auctor da Vida do Infante seguiu està 
Lsser^ao. As obras de Gii Vicente foram por elle clas- 
ìficadas para a impressào, e apezar de se dar a este tra- 
ballio jà cansado da velhice, nao podia incluir comò 
ma ama obra extranha n'essa collecQào* Dom Duardos 
bi representado diante de Dom Joào ixi, corno se ve 
)ela rubrica; porém nào se declara ai o legar nem o 
inno. Depois do apparecimento do Amadis^ a grande 
nfluencia litteraria que produzira deu origem a outras 
lovellas do mesmo genero, e d'ahi data o cyclo dos 



158 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Palmeirins. E naturai* que Gii Vicente representasse 
o Dom Duardos ainda em Evora ; n'este mesmo anno 
de 1533, se ìrnprimiraih as aventuras de Prìmaleào, se- 
guìdas das de Piatir, neto de Palmeirim. As novellas 
de cavalleria estavam agora em moda na córte portu- 
gueza, e a este tempo jà o livro das Saudades de Ber- 
nardim Ribeiro andava por màos que o tomaram em 
parte apocrypho. Representando em ama corte opu- 
lenta, paradistraccjao de raonarcha faustoso, Gii Vi- 
cente dava a estas composic^Oes cavalheirescas nm es- 
pectaculo esplendido, n Entra primeiro a corte de Pai- 
meirim com estas figuras, s. Imperador, Imperatriz/4 
Flerida, Artada, Artrandria, Primaliào, Dom Ro'\ 
busto; e depois d'estes assentados entra Dom Duardos 
apedir campo ao Imperador com Primaliào, seujilho, l 
sobre o aggravo de Gridonia,-» Dà-se o combate em 
scena; separados os cavalleiros por Flerida, entra Mai- 
monda «a mais f eia creatura que nunca se vim^; isto no« 
indica o em prego da caracterisa^ào usada no velho thea- 
tro portuguez. Na scena abre-se urna porta que di 
para um jardim onde Dom Duardos entra vestido de 
hortelào; na fonte do jardim enche-se uma cópa encan- 
tada para Flerida beber, as damaà tocam seus arrabi- 
les e cantam; conhecido o principe Dom Duardos, Fle- 
rida segue-o, ao som de um romance que se tornou po- 
pular no seoulo xvi, chegando a entrar no celebre Can- 
donerò de Romances de Anvers. E impossi vel fazer sen- 
tir as bellezas litterarias d'estas composi^Oea èm um 
capitulo destinado a mostrar os recursos materiaes de 
que dispunha o Theatro portuguez. 



NO SECULO XVI 159 

Por docuifientos legaes datados de 1534, se ve que 
a oorte estava ainda em Evora n'este tempo; ali, às 
inatin^s do Natal representou Gii Vicente o Auto da 
i^ojina Mendes; descobre-se alguraa cousa àcerca da 
disposi^&o do scenario, nos versosi 

Mandaram-me aquì subir 
Neste sancto amphitheatro , 
Para aqui introduzir 
Ab figuras que hSio de vir 
Cora lodo seu apparato. 

N'este prologo, feito por um Frade, a modo de pre- 
ff^c^ào, dà Grii Vicente a este Auto a denomina^ào fran- 
^^^a de Mt/sterio. 

Depois de acabado o prologo: 9iEm este passo en- 
^tM, nassa Senhora^ vestida corno rainha^ com as ditas don- 
^^llm (Pobreza, Humildade, Fé, e Prudencia) e dian- 
^ quatro Anjos com musica: e depois de assentadoSy co~ 
^^^"^^^am cada hua a estudarper seu livro.i> Prudencia tem 
^^ mào as prophecias da Sybilla Cimeria, a Pobreza 
*^ as prophecias da Sibylla Erithrea, a Humildade le 
ttos vaticinios de Isaias e o Cantico dos Canticos. 
^J^ este passo entra o anjo Gabriel ;r> vem annunciar à 
^irgem que n'ella se realisarào as prophecias que aca- 
oa de ouvir; feita a sanda^ào, vae-se «o anjo Gabriel ^ e 
09 anjos d sua partida tocam seus instrumentos, e cerra- 
«« a cortina, rt Està rubrica nos mostra aqui o meio em- 
PJ'egado para dividir as jornadas. A scena abre-se no- 
tamente Cora lima pastoral, em que os zagaes sejuntam 
V^T^a tempo do nascimento. Aqui introduziu Gii Vi- 



160 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



cente a fabula orientai da bilha de azeite, tao imitada 
na poesìa da edade media. E naturai que Gii Yicente 
a conhecesse da tradi^ào orai, ou entào do Conde de 
LucuTìor de Dom Joào Manoel. 

Os pastores deitani-se a dormir, «e loffo se segue • 
segundu parte, qiie he hua breve contemplagào sobre o Nas" 
cimentosi. Apparece outra vez a Virgem fazendo sua 
ora^ào; «5. José e a Fé vdo accènder a candela, e a Vir* 
gem com a fi Virtiides, de joelhos^ a ver non resam psalmosi^» 
A Fé voltou com a vela sem lume, porque nenhum visi-.j 
nho acordou ou a quiz accender; a scena està algui 
tanto escureeida, e a Virgem està com as dòres do] 
parto. Nos velhos mysterios francezes nào se usai 
cortina, a nào ser em certas passagens escabrosas, coi 
por exemplo no leito em que Santa Anna dava à luz 
Virgem. Gii Vicente nào indica o ter-se servido 
cortina para resguardar o parto de Nossa Senhora: 
«£m este passo cliora o Menhw, posto em hum berpo, at 
Virtudes cantando o embalamn . Anjo vae acordar a» 
Pastores, os outros Anjos tocam seus instrumentos, 89 
Virtudes cantam, e os pastores bailam, saindo todosaa 
raesmo tempo. N'este mesmo anno de 1534 represen-^j 
tou Gii Vicente pela primeira vez. fora da córte; esta- 
va em moda pedirem as corpora^Oes religiosas alga* 
mas composi^Oes dramaticas aos poetas do tempo; os 
Cenegos de Sam Vicente pediram a AfFonso Alvares o 
Auto do Apostolo Sam Thiago; tambem a Abbade»- 
sa de Odivellas pediu a Gii Vicente que escreresse um 
Auto sobre o Evangeiho da Cananea: «Este Auto qut 



NO SECULO XVI 161 

diante 80 seffuefez o Autor por rogo^ da muito virtuosa é 

nobre Senhora Dona Violante, Dona Abbadeasa do mui" 

to louvado e Santo convento do mosteiro de Odivella^^ a 

qua! Senhoi'a Ihe pediu que por sua devogdo Ihe fizesse 

hum Auto sobre o Evangelho da Cananea,"» E m scena 

apparece Jesus Christo, e com elle seis Apostolos; nos 

[ Autos francezes os Apostolos apparecendo vestidos de 

dalmaticas, é provavel que Gii Vicente se servisse do 

niesmo guarda roupa liturgico ; o hymno Clamavat au^ 

'^»n, mostra que o Auto fora intercalado com as cere- 

^onias do culto. 

No anno de 1535 nào representou Gii Vicente ; urna 

gJ'aiide desgraga acontecera na córte, a morte rayste- 

^08a do Infante Dom Fernando e de sua mulher Dona 

^Qioinar, condessa de Marialva. lucto da córte e as 

differentes versòes d'este caso, a interpreta^ào do so- 

^ho das tres tumbas, tudo fazia com que as atten^Oes 

^ afastassem de um seruo dramatico. Tambem n'este 

^^ììo partiu o Infante Dom Luiz, poeta e imitador de 

^il Vicente, para a conquista da Goleta. 

Na rubrica final da comediii Floresta de Enganos^ 

^©presentada em Evora a Dom Joào ili, em 1536, se 

^> é fta derràdeira que fez Gii Vicente em seus dias."» 

"^^Ui vemos terminada a sua carreira dramatica desde 

"''^02, exercida corajosamente durante trinta quatro 

^'^iios, D'aqui em diante o theatro deixou de ser ani- 

'^^^do pela córte portngueza, e so por tradi(jào se diz 

9^^ o Auto de Antonio Eibeiro Ghiado, da Naturai 

^^^engào, fora representado diaute de Dom Joào ili. 
11 



162 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



N'esta comedia Floresta de EnganoSy vem os versos 
que diz Justi^a Major: 



Ya hìce èesenta y seta, 

Ya ini tieinpo és passado, etc. 



d'onde inferiu Barreto Feio, que a referir-se està pas- 
sagoni ao poeta, nascerà elle em 1470; o que é plausi- 
vel, porque frequentando a córte de Dom Joào li ei 
1493 e tornando parte nos galanteios poeticos dos 
rOes do pa^o, tinha entào vinte trez annos. Eis 
estào ìndicados os primeiros annos e os mais brilha: 
tes da Vida dramatica do tlieatro portuguez, ven 
deiramente popular nos assuraptos, e aristocratico 
intcn^ào. Um terrivel inimigo se levanta centra elle, 
Theatro classico; fundado na imita^ào de Plauto eT( 
rendo, por influencia da Italia, sào fracas as condii! 
9008 de vitalidade que apresenta. Adiante faremos t 
historia da tradi^ào dramatica ou eschola de Qil Vi 
conte. 



k 



NO SECULO XVI 



163 




o 






1 

co 

o 

a. 




08 




co 

■è 

08 








24 de 
iduas 
ftoco- 
1604 
rica.) 




O 

t 
H 
O 

s 


'S 2 08 €> 

'TC :s "5 -j *« 

2 ^ ^3 -S • 




'08 

^^ 

«e E 




OD 

2 


• 




• 

2 
S 


llloi 




t 


•S s2 2 

OD »^ U « 
? O 5 Ctf 

o o o e 




• 

Hi 


> 03 




004 

-00 


# 


Q 

- ^3 


« S-CcS 






'■^^'O VTS 


•M 


«s-^J 




t* 


A 




C4 


* 




Oi 






J25 




< 






< 


525 






-T ' O ^^ 


1 


_^ 


• • 














•§ 




OS O ié8 ^ 


08 


o 


QQ 
















■1 


qOpq 


S 


d 

c8 



















Il 

li 


0? 

H 
O 

H 
H 

-< 


O "^ -* «T^ 

s§s_- 

. OD e M 


CS 


"O O ci . 

OS " e a> o 
o © .2 t-^ •"» 


«5 






9 


ce 

• 

2 
1 

'<3 


1 « 




Q 






Q 












<J 


1^ 
1 4 


o 

o 

-< 








1 • ^-' 
'5 2 co 


VI eq 

S CS 

08^o 




E 

00 


S 


• 


^ § 


as Ss 


c8 -r « .S 

§-2 -Ss 






-^ 2 


1— • 08 
'^ 08 
> "^ 




OC 

.fi 


s 



u 



s. 

00 


08 e 

s Ja ^ 

■a g-H e 


^ 
^ « 

S ^ 


o 


Sz; 






P 




^ 






oi 


^ 










• 

1 




• 










<5) e 











•>»* 




00 






5> 




^ A. 


o 


o o 






•?: 












S 1 


-«5 


e© >No <w 






li 




Cd 


1 







l'I 




^ 






^ 




^ 






^ 


^ 




























S 


















co 

s 


i 


^ 


-< 


^— 1 


P— H 




y^ 


■« 


^^ 


^^^ 


^ 


n-t 


tH 



164 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



o 

Hi 
o 

H 
P 

§ 



O 

Hi 



3 

M 



o 
«•< 

H 

OD 

fa 
t6 
CU 
» 

P 



O 

g 



s 



tr ri .» 
O g > 

® «■> S 

« * * 

2; 6 



•2 






ce 
«S o 

o * 
O co 



a; 
> 



c 
55 



OÙ'Z 

o -^ 



= 5 o 

■ ^ t; o s 

H ^ O 

* ^^ - ce 



I 

u 

00 
K 

o 

O 

> 

•4J 

o 

e 



13 

o 
a 

O 






00 
O 
00 

o 
o 



O'S 






■5 SS 



e N rt 









Se 

c3 . e? 

C Q 

tii ^ 

cS « O 

wo £ 
s -« * 

O 05 ft^ 

O * 

'O oc P- 



ce 

.a 
a 

•1-4 

00 

08 



O 

è 3 



o oe 



I 

c^ o 

o "^^ 

«P Q 



Q <1 



6 oi^ 

q;5Q 



O 
C 

c 
a» 



ce 
e 

u 



Ti 



u 

O 



O 



o 
-e 

l.o 

e «^ 2 
o e ^ 



o 

a 

08 



O 

a 

OS 



00 

O 

00 

et 



ce 

00 
o 

I"- 



I 

oe 

Ou 

ce 

o 

ci 
C 

00 









s 



oe 

o 
a 
oe 
o 

< 

00 

o 

O 



OC «W 



- u 

« ce 



< 



OS 
cf 

00 

S 

oe 
o 

b. 
o 



« a 






a 

o 



00 



•n 0) 

QO (Hi 



03 

00 
o 

* et 



o 



00 

N 
C 



00 

O 



00 
O 



00 

05 

S 

« . 
ce 5 



e»- 

ri 
O 

00 

s 







o 



o 



<:0 

o 






00 

o 









»o 



•I 









WUWHfa 



rt** 



o 



o 

oS o 

^ 00 
o 

<1 



eS 

O 

Xì 
co 

C 

i3 






co 



NO SECULO XVI 



165 













i 




08 
O 



a 
o 

o O 
o > 



«5 3 g 
0,000 

e 5 « 
a 
o 



... o 

^ a 
08 08 



o 



ne g o 
c8 o* " • 



08 

ce 

5 ic8 
C 08 

* c <,; 

e a 
«. o « 






ce 



c8 



O 
»c8 






e3 

a 

cb 
- M 

08 

T? . 
08 

"S OC 

Q 



08 3 

o 



o 

OQ 



H 



s 







co i> 

1-1 T-i 



08 
125 




08 
O 

Jz; 



e: e 






O 
06 



c8 

a 






M a> 



'^ S ^ 

q> X p 

« ^ 06 O 
.^j ^ r-1 



è Ci 

08 
. O «H 

bM >-« M 



e 

ICS 

o 

»-3 



a 

08 
00 

C8 

o 



08 
«8 






^ OQ 
08 

* a ^ 

08 .^ k^ 

Q^ O • 

r7«c8 O O 

pS«"&cì 



00 

O 



W o 

Co .4^ 

O.T= 00 

e- 0,0 

125 



«e 

08 

C 



B 

fi 



ce 

o 
> 

1^ 



» 



08 

OD 

O 

o» 

08 
PU. 



2 

o 
> 

a 

0) 
N 

> 

H 



g 

o 
> 

a 






•j. 









60 , • 

OS 

•O «3 



•1 

I 







00 









Oa T-< 1— I 



»o 






1-1 eo 



mm 



■n 



166 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



2 c fl g 

£ 3 « "5 
S " 5 « 



o 

IH 

s 

H 

P 



« I 

e o g 

^ OS -. 

g:§>.sl 

o ^ o ^ 



9 

O 

■— o 

cu 



^ o 

5 S>S 



« o 



a 

«H 

S 



a> 



0) 
00 

o 



T3 



o e 



36 






O e o 
t9 



<u 



-^ a 



a> 



0) 






cS 

o 

a 

a 

o 

co 



2L, 



co. 



a: 

Ih 

a 

o 
Q 



C3 
etf 







*S i 2 «• SS 
Sa a "3 .Si? 



C8 S f ^ cS ^ 

X <o >- o _2 Q 
Jzjcu 



o 



o 

O 



<t3 



08 

3 
ts 

SS 



O 08 o 

• 2 • 



OS 

03 
O 



« fi 



o 

O 

• 



OS 
C 



C6 

O 





NO SECULO XVI 



167 



C 



1 





H 
OQ 



Si 



I 




^ ,-1 o, ;r S 



O 2 1-1 TS 

-o— ' -e 

o^ »-• cu 

a p g g 



•J3 oS 4) 



j; C3 






co 



o 
Q 

> o 

e 3 



■0*9 



08 

o 



>. o > o 



O 
Oh 



o 
o 

•-3 



> 
B 



I 

•sa 



04 

co 



o 

a 
s 

c8 



s 

o 

00 

co 
125 



• 1-4 00 

<H 00 a 

m ' «S 



< 



I 






08 
.2 



ili 

sii 

••• w 

tt <^ o 

^ s 






• I o a 

S ^ o o ~ 

08^ _r.s 

QQ ?« Ih .S 

> 








a 

08 



o8 ^ 



p o 



i^is-^»^ 



rt o 



OD 



■tt> 5 



•> Q) 



^ <» ICS B o P 



08 

08 

c8 08 •-• 

T3,P O 
O 'C «8 

oc -M . 

<t3 <3 



I 

o 



OQ IQS 

V O 

08 . 

:§5 a 



08 

O 
> 

•S 



08 

c8 08 

o p 

> > 



73 



OQ 
08 

a> 
>• 

n3 

O 

B 



ce 

o 

> 

a 




I 

•sa 



CO 

co 



e*- CoS 









168 



HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUBZ 



OwAjpitxjxjO tv 



Typos e costumes portuguezes dos Autos de Gii Vicente 



A verdade nas crea^óes dramaticas. — genio comico e o seari 
tiineuto da ju8tÌ9a. — Os escravos das couquistas de Africa^ 
no seculo xvi, citados noe romances populares. — A Carta di 
Nicolau Clenardo, confirma os retratos de Gii Vicente.— Q| 
t3rpo do Fidalgo pobre, na far^a dos A Imocreves e na de QttéMJ 
tem farellos. — Os amóres das escravas. — Miseria dos 
deus. — A f ar^a dos Physicos lembra o Malade imagit 
de Molière. — Gii Viceute conlieceu a Celestina^ nos typos 
Leonor Vaz e Branca Gii. — Frade palaciano. — Gii * 
cente propaga as ideias da Reforma. 



A ÌQtuÌ9ào metaphysioa da Shakespeare fizera-l 
comprehender as crea^òes dramaticas corno o espel 
da natureza, the mirrar up to nature, tao bem definidat! 
na scena ii do acto terceiro de Hamlet. Gii Yicentenfté 
teve tradigOes no theatro portuguez, comò teve Sha- 
kespeare, por isso nào pòde attingir a perfei9ào na 
chitectura dos seiis Autos ; mas a parte phiIosophi( 
a lincruaffem da natureza e da verdade foi-lhes comi 
mum pela ubiquidadedo genio. Shakespeare depois i 
leitura dos Ensaios de Montaigne, é que se immergìi 
na profundidade das situu^Oes dramaticas; Gii Vicen" 
te pertencia à mesma familia de pensadores, dos qi 
arvoram o senso commum e a naturalidade em crìterid 
supremo. A influencia exterior a que obedeceu Sha- 
kespeare, em Gii Vicente foi ingènita, e a elle poderia^j 
mos com rasào chamar o nesso Montaigne. 



NO SECULO XVI 169 

Assim corno, durante as luctas da edade media, o 

povo se defendeu sempre contra todos os abusos da au- 

ctoridade com o espirito da parodia e do grotesco, a 

Diesma corrente se repete no seculo xvi, na véspera da 

B^forma, nào parcialmente, mas em individualidades 

uistinctas. A Rabelais em Franca, a Skelton na Ingla- 

terra, ao Cavalheiro do Hutten na Allemanha, aos Va- 

ftes Obscuros da Italia, corresponde em Portugal Gii 

''io^nte. Elle entra n'este còro da grande gargalhada 

^o^Xierica, pela for^a das circumstaneias ; comò mosa" 

^fl&« é sentimental e apàixonado, lyrico e sonhador; 

^^^£1 OS symbolos.religiosos, repete todas as lendas, e é 

* ^He que Ihe cabe o inaugurar a edade da prosa, o fa- 

**^ ^ linguagem da burguezia e do senso commum. 

Eira preciso que se desse em Portugal urna grande 

F^>?'ersào do senso moral, um grande desenfreamento 

J** typocrisia monastica, uma degeneracào no sangue 

® ^^aracter nacional, para que elle rompesse com furia, 

conio Juvenal: nunquamné rcponanij vexatus totiesì 

Fui este o sentimento que levou Grii Vicente a sair 
^^ apathia da nobreza, a que pertencia, para retempe- 
^^r a alma portugueza secularisando-a; os seus Autos 
sào espelho da sociedade do seculo xvi, n'elles se ve 
Oestado dos espiritos, dos costumes, da lingua, dalitte- 
^atura. e da historia politica. Alguns factos nos bastam 
para por isto em evidencia. 

Escolheremos de preferencia aquelles de tal fór- 
^a caracteristicos, que foram notados pelos estrangei- 
l:os que vieram a Portugal. Admira comò, teviAft nv 



\ 



170 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

vido sempre em contacto com os habitos e tencleia- 
cias nacionaes, teve este senso critico para apodar o 
lado mau das cousas e iinpressionar-se dos seus ridicc'* 
los, que so a um extranho se tornani mais reparan^ 
veis. Em 1534 veiu a Portugal um estrangeiro nota-^t 
vel, representante da eriidiQào dos Paizes Baixos; ew 
o celebre Nicolau Clenardo. Em urna Carta ao seu* 
amigo Latomus, descreve os costumes portugaezes^rj 
mas tudo quanto encontra de insolito que o impre»-<! 
siona, vom notado jà nos Autos de Gii Vicente. N'< 
Carta escripta de Evora, a 26 de Margo de 1535, fai 
da grande quantidade de escravos, que ha via em Eyo*Ì 
ra e Lisboa: «Os escravos pullulam por todas os lado8«^ 
Todo o 8ervÌ90 é feito por negros, e mouros captivos. 
Ha em Lisboa uma tal quantidade d'essa fazenda, que 
se acreditaria que excede em numero os portaguezes 
livres. Encontrareis difficilmente uma casa onde nao 
haja ao menos uma criada d'està especie. E ella que 
vae comprar as cousas necessarias, que lava a roupa, 
limpa as casas, acarreta a agua (1) e despeja a certas 



(1) No8 romanceR popularcs da Beira Baìxa, ainda se allude 
a estes costumes : 

Deu sete voltas à cérca 
Sem u*ella poder entrar ; 
Vìu là entrar uma preta 
Que se estava a pentear. 

Rom, geral, n.® 17, p. 43. 



NO SEOULO XVI 171 

hons as immnndìcies de todo o genero ; em urna pala- 
^f Fra, è escrava, e so se distingue pelo vulto, de urna bea- 
te de carga. Os mais ricos tem escravos de dois sexos. 
Hb individuos que nào tirain pequeno lucro da venda 
de jorens escravos, que criam corno ponibos para levar 
no mercado. Lonore de se escandalisarem com as tra- 
ressnras dos seus escravos, vel-os-hiam com alegria 
tomarem-se animaes de lan9amento, porque o fructo 
segue o ventre, etc.» Mais adiante fala Clenardo da 
«dada de Evora, que Gii Vicente visitava com frequen- 
da acompanhando a córte: «mas apenas puz pé em 
Evora, jnlguei-me transportado a urna cidade do in- 
ferno: por toda a parte via negros, ra^a que me inspi- 
ra urna tal aversao, que isso bastaria para me fazer aba- 
ÌMt.9 Na far^a do Clerigo da Beira, introduz Gii Vi- 
oente um proto, grande ladrào; é de notar, que nos ro- 
Dances populares da Beira, aiuda se allude ao costu- 
ae de ter criados pretos. Havia a mania de forgar essa 
iga, escrava e estupida a professar a religiao catholi- 
iy cfaeia de abstragOes e sophismas; Gii Yioente co- 
lecia o contrasenso, o mette na bocca do proto um 
idre no880 e uma salve-rainha^ estropiados em uma 

Quem me dera aquì meuspreios, 
Ou meus velozes cavallos, etc. 

Ibid. n.» 25, p. 62. 

A uro pretinho que tinha 
Uma lan9a Ihe ha dado. 

Ib. p. 63. 



\ 



172 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

girla de quem nada percebe : a Paio nosso santo Pacétoy^ 
etc. » E : (uSabe a regina Matho misecoroda nutra d'hum 
cego savel até gue vamosj etc. » 

Està immensa quantidade de escravos, espalhada 
pelo reino, veiu a produzir nos costumes nma grande; 
inercia, e comò consequencia, urna certa indigencìt 
acobertada com pompas exteriores. Gril Vicente foi 
primeiro que notou o typo do Fidalgo pobre na s 
Far^a dos Almocreves; mas para comprebender melb 
a grande verdade do typo, vejamos o retrato feito 
celebre Nicoiau Clenardo: «Se quizesse condescendi 
com OS costumes do paiz, cometaria por sustentar u 
mula e quatro lacaios. Mas corno seria? jejuando 
casa, em quanto brilbava fora, e teria o pesar de 
ver mais do que aquillo que poderia pagar. Iste faz- 
lembrar um individuo pelo qual julgarei os outr(Mk. .; 
Aqiielle de quem quero esbogar o retrato, andava de 
rixa com um estrangeiro, croio que francez, que vier 
para Portugal no tempo de el-rei Dom Manoel, fazen- 
do parte da corte da rainha Leonor. portuguez 
vava-lbe a palma pelo fausto exterior, o francez ti 
melhor meza. Conbecendo os babitos locaes, e impelrp 
lido pela curiosidade, procurou destramente obter o li- 
vro onde o seu antagonista registava as suas despezas 
diarias. Deu com os olhos em cousas bastantes comicas, 
e totalmente portuguezas. Encontrara para cada dia: 

«Quatro ceitis para agua, 

«Dois reaes para pào, 

«Um real e meio de rabanetes. 



No SECULO XVI 173 

«E corno durante toda a semana continunvam es- 

tas sumptuosidades, imaojiuou qne o dorningo seria 

desiinado a algum banquete menos sobrio ; mas n'essa 

dia que viu elle ? Hoje nada, por nào haver rabane- 

tee na praga. Chovem aqui, meu caro Latomus, esses 

l'O'phanophagoSy e todavia a maior parte conduz pela 

rna, apoz si, maior numero de escravos do que gastam 

em casas reaes. Ha muitos que nào sào mais ricos do 

que eu, e que andam acompanbados de outo creados 

que sustentam, nào direi a custa de um abundante 

alimento, mas pela fome e outros melos, que sou de- 

n^asiadamente estupido para aprender nunca em dias 

"6 nainha vida. Afinal, nào é custoso recrutar uma 

turba inutil de servidores, porque està gente tudo pre- 

lere a fadiga de tornar qualquer profissào. Mas para 

V^^ serve um tal respeito ? Vou-me explicar : se os 

tratantes sào de uma formai prigui^a, qualquer d'elles 

6^^prega-se om algnma cousa: dois caminham adiante, 

^ tierceiro traz o chapeo, o quarto o capote, se por 

a^^so chove, o quinto pega na rédea da vossa caval- 

gadura, o sexto apodera-se dos vossos sapatos de seda, 

septimo de uma escova, o citavo mune-se de um 

panno de linho para limpar o suor do cavallo, em- 

qnanto o seu amo ouve missa, ou conversa com um 

amigo. nono ofFerecer-vos-ba um pente para alisar 

OS cabellos, se tendes de cumprimentar alguem de im- 

portancia. Nada digo que nào^ tenha visto por mena 

proprios olbos. Com similhantes costumes pensaes 

acaso, que alguem, gerado de paes livres, se decida a 

dedicar-se a qualquer genero de trabalho? i> 



174 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

No argumento da Far^a dos Almocreves^ diz Cl3il 
Vicente : « fundamenfo dJeatafarga he^ que hum Fi^^^^U 
go de muito pouca renda usava muitO/ estado^ e tinha c?^- 
pellào seu, e ourives seuj e outros oficiaes^ cios qu^x^s 
nunca pagava^ etc.» Està farcia é de 1526, e a Carta de 
Clenardo de 1535. Primeiramente vem o Capellào pe- 
dir OS seus ordenados ao Fidalgo, que o embala co 
boas promessas de o arranjar para Capellào do rei 
da rainha. Jà desilludido, o faminto Capellào diz-lhe 

E V08 fazeis foliadas 
E nfio pagaes ó gaitero ? 
Isso sd,o bai carri ad as. 
Se vossas mercés ndo haò 
Cordel para tantos nós, 
Vivei VÓ8 àquein de vós, 
E nao comprcis gaviSo 
Pois que nSo tendes piós. 
Trazeis seis ino9as de pé 
E accrecentai'l-os a capa, 
Conico rei, e por mercé 
Nfto tendo as terras do Papa,, 
Neni 08 tratos de Guiné, 
Antes vossa renda encurta 
Como OS pannos de Alcoba^a. 

Responde o Fidalgo : 

Todo o fidalgo de ra9a 
Em qne a renda seja curta 
He por for9a quo isso fa9a. 

Apoz o Capellào vem o Ourives pedir o pagamento 
de um saleiro que fez ; chega tambem um Almocreve, 
um Pagem, e todos vào pagos cera vento. A far^a dos 



NO SBCULO XVI 176 

4 

Almocreves foi representada em Coimbra, em 1526. 

Està critica aos fidaigos pobres, que apresentavam um 

grande estado, nào esoapou ao douto S& de Miranda 

na sna Epistola a Pero Carvalho, escripta por este 

tempo tambem em Coimbra. (1) No Fidalgo Apreri" 

dizj de D. Francisco Manoel de Mello, Gii Cogominho 

é ainda o mesmo typo do raphanophago portuguez, 

corno vimos descripto na Carta de Clenardo. fidalgo 

pobre, de Gii Vicente, é aquelle que Sa de Miranda 

na citada Epistola descreve vivendo à custa dos habi- 

tantes de Coimbra, mas dizendo mal da terra e suspi- 

rando sempre pela córte de Almeirim ; este mesmo 

typo, no reinado de Dom Joào iv, quer comprazer 

com OS nsos italianos e francezes da córte, e sobre a 

sua grande indigencia enfatuada dà-se ao ridiculo de 

^uerer aprender a dannar a pavana e a galharda^ que 

andavam na moda. Em um seculo os costumes portu- 

g'uezes nao variaram ; & por isso que o theatro tam- 

l)em apresenta certa pobreza de typos. E que ficàmos 

1Ó8 sendo até hoje, no meio das transformagOes sociaes 

la Europa, sem industria o sem aspira^óes, senao o 

nesmo Fidalgo pobre ? 

Apezar da rigidez do seu catholicismo, a mocidade 
»ortugiieza, no seculo xvi, levava uma vida dissipada. 
la sua Carta, escripta em 1535, dizia Clenardo: «Ve- 
lus, ein toda a Hespanha, parece-me merecer o nome 
e Publica, exactamente comò outr'bra em Thebas ; e 

(1) Desi'nvolvido na Vida de Sa de Miranda, cap. ii. 



\ 



176 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

isto é inórmente eni Portugal, onde é urna raridade 
vèr um mancebo contrahir urna liga9ào legitima. Em 
vista d'està revelagào do observador estrangeiro, com- 
prehende-se o typo do Escudeiro da far^a de Quem 
tem farellosì que auda sempre namorando por becos 
e esqiiinas, especie de Dom Joào esfaimado. O escn- 
cleiro apaixonado e cantador de tfovas de caucioneiro,* 
é urna segunda fei^ào do typo do Fidalgo pobre. Abre 
a Boena, com o dialogo de dois 1110908 de esporas, qtté 
andam a comprar farellos : 



Ordonho : 


Como te và8, compaiiero ? 


APARigo : 


S'eu moro c'hum Escudeiro, 




Como me pode a mi ir bem ? 


Ord. : 


Quien es tu nmo ? di, hermano ! 


Ap. : 


E' demo que me tome : 




Morremos amboR de forno 




E de lazeira todo anno. 


Ord.: 


Con quien vive ? 


Ap. : 


Que sei eu ? 




Vive assi per hi pellado, 




Como podengo escaldado. 


Ord. : 


De que sirve ? 


Ap. V 


De sandeu. 




Pentear e jejuar, 




Todo dia sem comer, 




Cantar e sempre tanger, » 




Suspirar e bocejar. 




Sempre anda falando so, 




Faz umas trovas tao frias. 



Tres annos ha que sou seu 
E nunca Ihe vi cruzado ; 
Mas segundo nós gastamos 
Um tostao nos dura um mez. 



Bastantes Vezes se aproveita Gii Vicente das su- 



NO SECULO XVI 177 

rsti^^òes populares, ora recitando em scena os eusal- 
)S5 ora pedindo benevolencia para as feiticeiras, que 
tao eram qiieimadas em Hespanha, ora retratando 
typo A^ alcoviteira, corno na Comedia do Viuvo; està 
dem de observa90es foi aprendida por Gii Vicente da 
ìlebre comedia da Celestina^ bantante conhecida em 
ortugal, citada por Joilo de Barros, por Jorge Fer- 
3Ìra de Vasconcellos e por CamOes. Gii Vicente em- 
ora nào a ci te, conheceria a Celestina por ^ualquer 
ias edÌ90es de Salamanca, de 1500, ou de Sevilha, de 
^501. Durante a vida de Gii Vicente, fizeram-se nove 
5dÌ90e8 d'està protentosa comedia, fonte d'onde se de- 
rivou todo o theatro nacional da Peninsula. 

A Far9a chamada Auto da India ^ mostra as peri- 
pécias quo se davam na classe baixa; que recursos co- 
a/cos nào tira da partida dos galeOes para o Oriente ! 
(f'esta far9a resumé elle o argumento : « Foi fundada 
obre qiie urna mulher, esitando jà embarcado para a 
odia sou in arido, Ihe vieram dizor qne estava des- 
•iado, e que jà nào ia; e ella de pezar està chorando.» 
uè nialic'ia no dialqgo da ama com a mo9a : 



Ama : Qiiem se ve mo^a e formosa 
Esperar pola ir.i ma. 
Hi se vai elle a pescar 
M(iia Icgoa pelo mar, 
Tsto bem o snbpR tu ; 
Quante mais a Caleeut ! 
Quem ha tanto d'esperar ? 



Partem em Maio d'aqui, 

Quando o sangue novo atica 
12 



178 EEiaTORIA DO THEATHO POBTUQUKZ 

^o emtxnto està a Ama com mn rsseSoy diams 
Lemo», e mamfa a mora fiSra comprsr de corner. 
re|Miite acode a nux^a esbaibrida^ eoatauMio que Tir 
marvb) da Ama, qne era ciiegado da India ; està i 
enfrireeida e tem. lo^ rema ideia luminosa : 

Qn^bra-me aqncUas ti^Oas 
K trez fm qTiatro p&Df'Uas^ 
Qne nilo aehe que corner. 
• Qne che|f*A%, ^ qae pnizer! 

Fecha-me j&qaellas jandUs. 
Deità essa carne a es8e« gatoe, 
Desfaze toda essa cama. 

Entra pouoo depois o mando, e ella diz : 

E ea oh qnanto chorei, 
Quando a annada foi de cà ! 
E quando vi desferìr, 
Que coDie9a8te de partir, 
Jesu ! cu fiqnei fìnuda ; 
Tres dias nfto comi nada, 
A alma se me queria sair. 

N'esta far^a, Gii Vicente nào incita a jocosidi 
coni painvras desenvoltas; é iim perfeito Molière, co 
preliende profuudamente o coraoào humano, e segue 
mais desencontradas paixOes com urna logica fai 
Tanibem na far^a de Inez Pereira^ um marido rn 
morre a sete leguas de Arzilla, e a mulher, que rec€ 
va tornar-lhe a cafr nas mìlos, casa com um lòrpa, 
bre quein se vinga da vida passada. 

A grande quantidade de pretas escravas qne 
Biam do criadas eni todas as casas do reino, além 



NO SECULO XVI ' 179 

desenvoltnra notada por Clenardo, tarabem dava causa 
a lima grande perversào nos costnmes e decadencia da 
rac^a. Antes de Camòes celebrar uns amores com a 
Barbara escrava^ ]k conta Gii Vieente na farca do Jniz 
da Seira estes amores de um escudeiro : 



Eu andava namorado 
De urna mo^a. pretesinha, 
• Multo galante Mourinba, 
Uir» ferrotinlio delgado, 
Oh quanta gra^a que tìnha I 
Entao amores de Moura, 
Jà sabcis o fogo vivo, 
Ella captiva, eu captivo : 
Ora que ma morte moura, 
Se ha hi mal tao csqnivo. 



No prologo do Auto da Luzitania, representado em 

1532, descreve Gii Vieente a vida intima dos Judeus 

em PorLugal ; e um quadro de interior, mas defuraado 

e triste, com um certo vasio do morte. N'esse prologo 

refere-se ao costume das dancas judengas, exigidas 

dos Judeus comò servico feudal. E por occasiào do 

nascimento do principe Dom Manoel ; os judeus ajun- 

tam-se para convencionarem os festejos que hàode 

t'azer : 

Falleiuos tu e eu sós. 
Quo inA'on9Jlo faromos nós, 
N'iim Aito bem acordado, 
Que teiihn nvc o piós ? 
Que /alias, jà sào frias, 
E nspellaSy uh mais d'ella», 
E 08 touros 
M.itarào um mata-njoiros, 



180 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



E a u«8a ja nSo se usa, 
E a festa nfto se escusa, 
l*ois audainos nos peloiros. 



Ik 



Tambeni na farca de Inez Pereira^ a rica e com^ 
merciante classe dos judeiis, està rednzida a uin esl 
do misera vel ; ai apparecem dois judeus, Latào e Vi- 
da I, que vivem do officio de casainenteiros. No entanl 
a Hollanda ia prosperando com as consequencias 
estuj)idez de Doni Manoel. 

De proposito, Gii Vicente, quando mette em s< 
OS Jiidous, é sempre sem iraportancia, para nào exall 
mais odios centra a sua crenc;a e invejas contra os 
capitaes. Pelo contrario, Jofio de Barros, na Ropù 
pneuma, descreve o Judeu corno um explorador àvic 
de todos OS imperios, corno pianta parasita que dei 
de sor queimada : a Depois que Tito e Vespasiano 
talmente destruiram sua cidade, aconteceu-lhes coi 
aos Troianos, que a causa da sua destrui^ào foy 
maior sua gloria e imperio, porque estando em Troj 
eram senhores do seu, e depois foram senhores 
muudo : assy estes derramados per elle, nam coi 
povo desprezado, mas comò pianta digna de ser pi 
tada em toda a terra, foram recolhidos em popnlos 
cidades e os j)rincipes d'ellas os plantaram na pai 
mais segura de perigos, por serem arvores que 
saborosos fructos de rendimentos. D'onde vera sei 
mui guardados e favorecidos de leis e armas, porqi 
OS povos travessos nào Ihe comam algum pomo debom^ 
sabor. E posto que do todos sejam zombados, possnem 



' NO SECULO XVI 181. 

a grossura da terra, onde viveni, mais folgadamente 
que 08 naturaes ; porque nam lavram, nem plantam, 
nem edificam, nem pelejam, nem aceptam officio sein 
engano. E com està ociosidade corporal n'elles se acha 
mando, honra, favor e dinheiro : sem perigo das vidas, 
Sem quebra de suas honras, sem traballio de raembros, 
sómente com um andar meudo e^apressado, que ganha 
OS froctos de todolos trabalhos alheos. » (1) Qual ve- 
na Judeu com mais philosophia, o historiador ou o 
poeta ? Zombado de todos, comò diz Joào de Bari*os, 
so Gii Vicente, que zombou de tudo, nào tem alma 
para ferir o inerme e perseguido Judeu. 

A representaijào da tragicomedia das Cortes de 
J^fiter, na partida da infanta Dona Beatriz para 
Saboya, deu à festa do pa9o um colorido de saudade, 
angmentajdo pelas doces lendas do amor de Bernardi m 
Kbeiro. Conhecemos a infanta por estas tradÌ90es 
poeticas; 08 historiadores estrangeiros fazem d'ella 
^m retrato muito diflFerehte, de uma hombridade ta- 
citurna que so as pessoas estupidas sustentam. Trans- 
creveraos esse retrato, para que se veja em que meio 
e para quem, Gii Vicente despendeu as mais bellas 
flóres da sua alma. Spon, na Historia de Genova, de- 
screve-nos assim a recep^ào da Duqueza de Saboya, a 
infanta Dona Beatriz : « A mocidade da cidade estava 
lepidamente vestida de damasco e de tela de prata, ar- 
mados cada um de uma lan^a na mào. que se achou 

(1) Ropica, edip. de 1869, p. 181. 



182 HISTORTA DO THEATRO POBTUGUEZ 

de mais galante ibi uina companhia de amazouàs, que 
eram mulheres soberbamente vestidas, arregagadas até 
ao joelho, tendo uà direita uni dardo, e na esquerda 
um pequeno escudo prateado. A que as commandava 
era urna hespanhola, niulher de Francisco de S. Mi- 
guel, senhor de Avoully, a qual devia fazer o cuuipri- 
meuto, em sua lingua, à duqueza. A porta-bandeira 

w 

era urna grande e bella mulber, filha de um boticario 
cbamado o Grain Jacques, a qual floreava a bandeira 
tao galhardamente corno um alferes. 

a A entrada fbi da seguinte maneira : A Duqueza 
passou àquem da ponte d'Arve sobre um carro de 
triumpho, puchado a quatro cavallos cobertos de ouro 
e de pedrarias que deslumbravam os olhos. Duque, 
seu marido, seguia, montado em urna mula, com o 
Abbade de Boumonte e um de seus escudeiros, todos 
trez egualmente vestidos, com mantos cinzentos e ca— 
puzes. A duqueza tendo passado a ponte, encontroix 
primeiramente as amazonas, cuja capi tanca Ihe apre — 
sentou um soneto em hespanhol com elogios, titulo^ 
soberbos e ofFertas por parte da cidade; a Duqueza 
nào agradeceu, e nem se dignou mesmo olhar para» 
as amazonas. Os homens vieram depois recebel-a, ^ 
tambem nào Ihes fez melhor acolhimento, com que o^ 
burguezes ficaram multo indignados, dizendo que n*^ 
faziam estas honras por dever, corno subditos, mas pox* 
affeigào, comò amigos. Pelo contrario, a Duqueza jtx^ 
era Portugueza, mostrava que os nào tinha a elles so 
j>or subditoSj nias por escravos^ d maneira dos portw 



NO SECULO XVI 183 

gtiezes. Houve alguns que aconselharam de ir escan- 
galhar os theatros e palanqiies que se Ihe tinha prepa* 
rados, comò se ella nào gostasse d'elles. Fazia-se me- 
Ihor, diziam oiitros, empregar o dinheiro que se. des- 
pendo em honrnr o Duque e a sua nova esposa em 
fortificar a cidade e a fazel-os ficar da parte de fora, e 
Doo attrahil-os ali, para serem feridos com as suas 
proprias arinas. 

« Apesar de tudo a festa prosegui u, acompanha- 

ram-os nas ruas cfaeias de gente, com concertos e ou- 

tros signaes de alegria. Desculpavam a soberba da 

Duqueza dizendo : Que eram os costumes de Portugal. 

Ella deu um apparatoso festim às damas, seguido de 

bailes, de mascaradas e de comedias; de sorte que des- 

de tempo do duque Philìbert, nào se tinham diver- 

tido tanto. Fizeram torneìos e cs mancebos da cidade 

mostraram-se tao apdstos corno os palacianos. Emfim, 

durante este anno nào se tratou mais do que divertir 

duque e a duqueza, ministrando-lhes a elles e ao 

seu séquito viveres e moveis para o necessario e para 

recreio. Póde-se mesmo dizer, que eram mais obe- 

decidos em Genova por cortezia, de que em Chambery 

por obriga^ào.» (1) Foi a està duqueza, e em urna 

^rte aonde prevaleoiam os costumes que a tornavam 

odiosa no estrangeiro, que Gii Vicente escreveu, e deu 

^ida ao theatro portugucz. 

Para se vèr os typos que Gii Vicente retratou na 

(1) Spou, Risi, de Genève^ t. i, p. 352. 




184 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

sua farcia dos Physicos, basta notar qne a Medicina 
portugueza do seculo xvi, ainda influenciada pela es- 
chola arabe que jà estava banida da Europa, prevale- 
va em Portugal, nào limitada jà ao empirismo, mas 
às praticas supersticiosas da astrologia judiciaria. N» 
farga dos Physicos, Gii Vicente antecede Molière; a 
verdade dos seus retratos compro va-se com està de- 
scripeào do seu contemporaneo Joào de Barros, na R(h 
pica pneuma : a Sómente por causa da Medicina ouvi 
alguns livros de Aristoteles com a primeira e segunda 
parte do Avicena : e lego me dei àa pratica, tomand 
primeiro està. Se me achava antre medicos de lingua* 
gem falava latira, e outre latinos em grego huns ver 
808 de Homero, que trazia decorados : com que nani 
ousavam de me responder ; Guidando «erem autorida* 
des originaes de Galeno ou Diescorides. E com est» 
sagacidade, quando nos ajuntavamos vinte e trinta em 
conselho de huma effimera d'algum principe, todos a 
huma voz se hiam com a minha : porque tambem an- 
dava eu para isso autori sado com a minha beca de ve- 
ludo, e par de aneis com suas torquezas às quedas da 
mula : e a qualquer proposito a legava com os apho- 
rismos de Ipocras e Trezentas de Joào de Mena. Iste 
sómente bastava para ser medico de um rei, quanto 
mais de huma cidade populosa, onde se acham muitas 
vidas pera fazer experiencias e ser boni pratico.» (1) 
Joào de Barros tra^àra este retrato dos medicos do 

(1) Op. cit., p. 87, cdi9. de 1869. 



ri\ 



NO SEOULO XVI 185 

seculo XVI no tempo da peste era 1531. Gii Vicente, 
que divertia a córte quando as grandes pestes da Eu- 
xopa invadiam Portugal, teve bastante rasào para co- 
trir de ridicalo este typo do Physico, na sua inimita- 
te! far^a ; elle nào inventava, copiava o naturai. Com 

que empatìa o Physico Torres diz a cabeceira do Cle- 

rigo doente de amores : 

Mas hade saber quem curar 
Os passoB que dà urna estrella, 
E bade sangrar por ella 
E hade saber julgar 
As aguas n'uma panella. 
E bade saber propor9(5e8 
No pulso se é ternario, 
Se altera, se he biuario, 
E saber quanta» Ii90e8 
Deu Plòtomeu a el-rei Dario. 
E quem isto nSo souber 
Va-se beber d^isso mesmo : 
, E mestre Nicolau quer, 
E outros curar a esmo ! 

Outro Physico, Mestre Fernando, fala assim ao 



Dìzem 08 nosses doutores 

OuvJl-o ? ouvis que vos digo ? 

Non est bona purgatio , amigo, 

Illa qui incipit cura dohres, 

Porque traz flema comsigo. 

E illa qui incipit cum tarantran, 

Quia tranlarum est. 

Ouvil-o ? De physico sou eu mestre, 

Mais que de sulurgiAo, etc. 



De todas as fórmas da arte da litteratnra porta- 



186 HISTORIA DO THBATR04>0RTUGUEZ 

gueza, é o theatro a unica que se inspira do grande 
movimento iutellectual e moral do seculo xvi. Hom^<^>^ 
de genio, Gii Vicente nào escrevia sómente para di — 
vertir reis fanaticos, quando proclamava em scena s^^ 
fecundas ideias da Refbrma. Assistìndo à renovac^ 
da &ua època, vendo à imprensa, a navega^ào, a ind 
stria e a burguezia tomarem de dia para dia um dese 
volvimento que ia transformando a organisa^&o soci 
da Europa, elle sente que em Portugal é necessari 
impiantar esse espirito da secularisa^ào e do indivi — 
dualismo, para que se nào extinga de todo a ra^a do 
Mosarabes. A primeira vez que elle proclamou o ver 
da Beforma foi em 1506, onze annos antes do primei 
ro grito de Luthero. Em 1506 recitou Gii Vicente 
celebre Sermào em verso, pelo nascimento do Infant^^ 
D. Luiz em Abrantes. Ai diz : 

No quiero deciros las opiniones 



Ni alegar texto antigo ó moderno 
Si el Papa si puede dar tantos perdones ? 
Ni el precito que està condeuinado 
Nel saber divino si tiene alvedrio, 

Ni disputar se el Romano Papado 
Tiene poderio en el Purgatorio. 

Gii Vicente deve ser considerado comò um precur- 
sor da Reforma ; em 1506, entrava Lutherp no mais 
alto gran do seu ferver reh'gioso, ainda nào tinha id^ 
a Roma vèr comò Leào x se gabava de explorar a fa 
buia de Cfaristo. Portauto estas ideias sào um ecco d; 



NO SECULO XVI 187 

doutrioas de Joào Hus, e foi Gii Vicente urna das pri- 
meiras aguias que renasceu das suas cinzas. Joào Hus 
adherira^às quarenta e ciuco proposigóes de Wiclef, e 
entre ellas ha urna sustentada por Gii Vicente, na 
tragicoinedia Exortagào de guerra, representada em 
1513, quatro aunos antes de come^ar a Refornia: 
e Sustenta que é centra a Escriptura que os ecclesias- 
ticos possuam bens corno proprios. — Nào quer que 
haja frades mendicantes. » Durante o periodo do 
maior trabalho de Gii Vicente, rebeutaram nà Alle- 
nianha e na Europa inteira as luctas da liberdade de 
consciencia, e da secularisa^^ào da sociedade. Todos os 
nossos escriptores contemporaneos maldisseram a Epe- 
forma ; o nesso Joào de Barros, em 1531, na sua Ro- 
pica pneurnuj considerava esse movimento brilhante 
ainda corno o papa Leào x, uma alterca^ào de frades. 
So Gii Vicente comprehendeu o espirito novo, mas 
bem cedo viu a intolerancia monastica- repellil-o de 
Portugal com as fogueiras da Inquisi^ào. 

Foi em 1517, que Lutbero levantou o primeiro 
grito da consciencia centra a simonia do papa que an- 
dava a negociar com os dominicanos a venda das In- 
dalgencias, para acabar com esse dinheiro a sumptuo- 
sa basilica de Sam Fedro. Quando Gii Vicente escre- 
veu o seu Auto da Feira, em 1527, jà a Reforma es- 
tava consolidada, jà se tinham passado as Dietas de 
Worms, de Nuremberg e de Shira. No Auto da Feira, 
ou a satyra da Simonia, com que ferver religioso diz 
o poeta : 



188 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



A feira, à feira, egrejas, mosteiros. 
Pastores das almas, Papas adorniìdos ; 
Comprae aqui paniios, luudae os vestidos, 
Buscae as ^airiarraB dos outros primeiroa 
Os antecessoree. 

Feirae o carSo que trazeis dourado ; 
Oh Presidentes do crucificado, etc. 



Diabo é que fala n'este auto a linguagem do 
senso commum : 



E se o que quizer bispar 
Ha mister bypocrìsìa, 
E colli ella quer ca9ar ; 
Tendo eu tanta em porfia 
Porque Iha heide negar ? 

Oh Roma, sempre vi là 
Que matas peccados cà, 
E leixns viver os teus. 
E u^o te corras de mi : 
Mas com teu poder fecundo 
Assolves a lodo o mundo, 
E n So te lembras de ti 
Ném vés que te vàs ao fundo. 



Em 1525, Luthero casou com Catherina Bore, e a 
este proposito dizia : « Segundo uns, commeti um acto 
que me deve tornar desprezivel ; comtudo tenho a se- 
guran^a de ter feito o regosijo dos anjos e o desespero 
dos demonios. Pareceu-ine conveniente confi rmar pelo 
meu exemplo a doutrina que ensinei;» etc. Na tragi- 
comedia Fragoa de Amor^ representada n'este mesmo 
anno. Gii Vicente jà allude a este facto ; é so confron- 
tando OS successos do tt^mpo, que se comprehendem es- 



NO SECULO XVI 189 

tes versos do Frade que vera & Fragoa de Amor para 
ser desfradado : 

Aborrece-me a coróa, 
capello e o cordfto, 
liabito e a fcÌ9fto, 
E a vespera e a nóa, 
. E a missa e o serniao. 



Parece-me bem jogar, 
Parece-rae bem dizer : 
— Vae cbaraar mìnha mulhcr, 
Que me faQa de jantar, 
Iato, eramà, he viver. 

Em 1526, escreveu o Clerigo da Beira, que é um 
padre que anda a caga e resa niatinas coni os fìlhos. 

Em 1532 deu-se o triampho completo e foruial da 
Refonna, triumphàra o senso communi; em 1533, re- 
presentou Gii Vicente a Rimuigem de Aggravados^ em 
que introduz Frei Pago, a personificagào do clero ambi" 
cioso que dominava o espirito do monarcha, e que im- 
pedi u por todos OS meios infames a entrada das novas 
ideias. Guerras immensas varreram a Europa em con- 
sequencia das transformagOes politicas que a* Reforma 
produziu ; so a Peninsula permaneceu estavel, hirta 
diaate das fogueiras do Santo Officio, em Hespanha, 
cc)ino traga politica para conservar a paz interna, du- 
rante a guerra dos Paizes-Baixos ; em Portugal, ape- 
nas corno um .arrast amento de um fanatismo cego. 



190 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Gii Vicente conhecido fora de Portugal 

Seria Gii Vicente conhecido em Roma em 1514, no tempo da 
embaixada de Tristào da Cunha? — Auto daLuaitania rc- 
presentado em Bruxellas diante do Embaixador D. Fedro de 
Mascarenhas, em 1532 : Assistem a elle André de Resende o 
DamiSo d« Goes. — Falaria Damifio de Goes a Erasnno àcurca 
de Gii Vicente ? — Ticknor, sustenta qiie Lopo de Vega 
imitoii Auto da Barca do Inferno^ na sua Viaje del Alma. 
— Calderou imita Gii Vicente no auto sacramentai El Litio 
y la Azuzena. 

Logo depois (la primeira inauifestaQào do seu ge- 
nio drainatico, teve Gii Vicente urna terrivel concur- 
rencia com o renasciraento do theatro classico na Eu- 
ropa; 1528, e 1535 sào an duas datas em qua Jorge 
Ferreira e Sa de Miranda tentaram introduzir a co- 
media de Terencio, adoptando a linguagem em prosa. 

Gii Vicente tinha dotes eminentemente superiores 
que o tornavam invencivel : o instincto da observa^ào, 
o sentimento lyrico, a inspiragào comica, e mais do 
que tudo'a alma do seu seculo, que, no meio do fana- 
tismo da sociedade portugueza, fazia com que insen- 
sivelmente proclamasse as ideas da Reforma. Quando 
D. Manoel mandou a sua embaixada ao Papa Leào x, 
com as pàreas da India, na corte de Roma represeotou 
Bartholomeu Torres de Naharro uma comedia allego- 
rica, Trofea, em honra do Monarcha portuguez. 

Em 1514, tempo da embaixada, tinha Gii Vicente 
representado jà entào treze comedias, autos, e far<^s. 



NO SECULO XVI 191 

Era o bastante para que citassem o seu nome em Bo- 
ma, na córte do opulento LeJlo x, qne se vangloriava 
de ter os espectaculos de Bartholomeii Torres de Nahar-» 
ro. Quatro annos antes da sua morte, isto é em 1532, o 
embaìxador Fedro de Mascarenhas, nas festas que dea 
em Bruxellas pelo nascimento do Infante D. Manoel, 
qae morreu de tenra edade, mandoa representar o 
Auto da Lusitania, n'este mesmo anno desempenhado 
em Alvito ou Lisboa por Gii Vicente. 

Das festas sumptuosissrmas de Braxellas André de 
Resende nos deixou uma longa descripQào em verso. 

De toda a descripQào a parte mais importante é 
a que trata da noticia curiosissima, que ai nos dà de 
um Auto de Gii Vicente, representado no fim dos fes- 
tqos: 



CuDctorum heinc acta e magno comoedìa plausu, 
Qiiam Lusitana Gillo auctor. et nctor, in aula 
£gerat ante, dicaY, atqne inter vera facetus, 
Gillo, jocis levibus doctus perstringere mores, 
Qui 8Ì non lingua componoret omni vulgi, 
Et potins Latia, non Graecia docta Menandmm 
Ante suum ferret, ncc tam Romana theatra, 
Plautinosve saleis, lepidi vel ecnpta Torenti 
Jactarent, tanto nani Gillo praeirot ntriusque, 
Quanto illi reliquia inter qui pulpita rore 
Oblita'Corycio, digitum meruere faventem. 



N'esta passagem, Andr^ de Eesende, que couhecia 
pessoalmente Gii Vicente, nol-o dà conio o proprio 
actor das suas comedias; o Auto representado em 
Braxellas jà havia sido representado «m Lisboa, por 



192 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

isso diz egerat ante. André de Resende elogia o poei^^> 
corno um dos poucos que n'este tempo Ihe fazia ]mt>^' 
9a, mas lamenta o nào ter elle abandonado a lingi^ * 
portagueza, para escrever em latim e vir a ser ut^ 
Tereneio, um Plauto, e por para o canto o propri 
Monandro ! Até aonde chega a intolerancia cjassica^ 
que queria per verter o genio mais nacional, que temo 
tido! Resende n'esta descrip^ào, diz-nos a bora e 
que se acabou o espectaculo: 

Tertia dcfessis lux absumenda ministris 
Extulit alma caput, cuncti revocantur in aedeis, 
At que diem imperiduuit epulis, fineinque sub ìpsum 
Legatus placido ore docens, et laetus honore 
Ingenti celebrasse diem natalis herilis 
Nobilib. fando gratea agit, omnibus acquas. (1) 

A estas festas tambem se a elio u presente Damiào 
de Goes: 



At Lusitana lesti de pube ministri 
Quinquaginta, omnes generoso sanguine creti 
Circum aderant, quorum primi Damianus. . . . 



Seria talvez por este tempo que Erasmo tomaria 
conhecimento do genio de Gii Vicente, elle que estava 
comò urna atalaya, observando com a sua critica infle- 
xivel o movimento intellcctual da Europa. Por aqui 



(1) Genethliacon Principis Luzitaui, ut in Gallia Belgica 
celebratum est, a viro clariss. D. Petro Mascaregna, regio le- 
gato, Mense Decembri, MDXXXH. Joannes Baptista Phaellus 
Bononienses Bononiae impressit Anno Incamationis Domini- 
oae, MDXXXIII.- Mense Januario. Fol. 19. v., Dftonumerada. 



\ 



NO SECULO XVI 193 

vémos que Gii Vicente, que conheceu e tratou de por- 
to com OS dois Resendes, Grarcia e André, tambem foi 
conlecido por Damiào de Goes, espirito da tempera de 
Erasmo e seu familiar. 

A fama do poeta crescia de dia para dia, corno se 
descobre pela guerra acintosa que Ihe faziam o clero e 
OS j>oetas da eschola eulta italiana. Verdadeiro homem 
de genio, nào comprehendido, as suas. fic^òes comi- 
ca s apezar de serem ideadas para divertirem urna cor- 
te decadente, encerravam o sentimento profundo de 
justi^a que ateoii na Europa a Reforma. Nem de en- 
tro modo se com prebende a anedocta contada por Bar- 
bosa Macbudo, na Bibliotheca Luzitana, onde diz que 
oelebre critico Erasmo se deliciava com a leitu- 
ra de Gii Vicente, e que para melhor o comprehender 
apprenderà a lingua portugueza. Ainda que tomasse- 
wios este facto corno uma leuda tradicional, encerrava 
para nós a homogeneidade d'aquelles dois espiritos 
V^^ trabalharam para secularisar a sociedade. Para a 
Auemanha se estendeu tambem a fama de Gii Vicente. 
^ coriheci mento que Erasmo poderia ter das obras de 
^^1 Vicente, ser-lhe-bia dado pelos Judeos portugue- 
zes q^ig baviam emigrado para a Hollanda, e que para 
^'^ Se acolhiam a cada nova persegui^ào dos irabecis 
^^iiarcbas portuguezes,ou melbor,pelas conversascom 
^^nniào de Goes, inter pocula. 

Os exemplares das obras de Gii Vicente que sairam 

^ I^ortugal em 1562, seriam tambem levados pelos 

'^^eusportuguezes que acharam n'elle sempre um hu- 



194 HISTORIA DO THÈATRO PORTUGUEZ 

mano defensor. A està circnmstancia se deve o ter-&< 
encontrado na Bibliotheca de Goethingue o unico 
exernplar conhecido da primeira edicjào, ainda nào de- 
turpada pelo Sauto Officio. Ticknor, na Historia da 
Literatura espa/hola, cita o Auto da Féj deseinpe- 
nfaado por Gii Vicente em 1504, comò tendo sido re-, 
presentado com alguraas modifica^Oes em Hespanha, 
em urna das Procissòes de Corpus Christi de Madrid, 
no tempo de Calderon. (1) 

Tendo escripto na lingua portugueza e faespanhola, 
Gii Vicente estava destinado a exercer urna infliiencia 
litteraria no theatro d'estes dois povos; a eschola de 
Gii Vicente em Portugal foi extensa, mas sempre com- 
batida, nunca apresentou um genio que o excedesse. 

Em Hespanha nào aconteceu àssim. Lope de Ve-, 
ga, o maior escriptor dramatico dos tempos modernos, 
conlieceu o theatro de Gii Vicente, e d'elle se aprovei- 
tou nas suas primeiras com posi 90es. Na novella que 
se in ti tuia Peregrino en su Patria^ traz Lope de Vega 
um auto sacramentai, no primeiro livro, a que den o 
titulo de Viaje del Alma, que é imita^ào dos Autos das 
Barcas do Inferno, do Purgatorio e do Paraìso, re- 
presentadas por Gii Vicente de 1517 a 1519. Para 
tratar com mais independencia este assumpto nacio- 
n al, preferi m OS extractar para aqui a opiniào de Jorge 
Ticknor : 

(1) Hist. cap. XIV, fine. 



i 



u;! 



NO SECULO XVI 195 

«0» tres Autos daa tres Barcas, que transportam 
«s almas pam o Inferno, Purgatorio e Paraiso, deram 
J eridentemente a Lope de Vega a ideia e os materiaes 
Jeumadas suas primeiras comedias moraes. » (1) Em 
ijota desenvolve explicitamente està asserQdo: «A co- 
media moral de Lope de Vega, cuja ideia parece tirada 
d'estes Aatos, tem por titulo Viaje del Alma, e se 
acha no priineiro livro do Peregrino en su Patria. 
comedo da coniedia de Gii Vicente assemelha-se sin- 
ilarmente aos preparativos da viagem que faz o De- 
monio em Lope. Alem d'isso, a ideia geral das duas fa- 
bnlas é quasi a mésina.» Lope de Vega, corno verda- 
deiramente fecundo e creador, aproveitou-se simples- 
mente <la ideia, dando-lhe urna forma originai e mais 
perfeita; os ditterentes personagens de Gii Vicente, fo- 
wm por Lope de Vega personificados na Alma, e o 
Diabo, que nas Barcas trabalha so, aqui é ajudado pela 
emoria, pelo Apetite, pelos Vicios, etc. estri bilho 
ira dar a vela leiribra a forma lyrica usada por Gii Vi- 
nte; a decoragfio étambem o que revela que Lope de 
ega conbeceu os velhos Autos portuguezes. No Auto 
■Q Barca da Gloria, traz Gii Vicente està rubrica : 
\ . .OS anjos dejferem a vela, em que està o crucifixo 
intado ...» No final do Auto de Lope de Vega o mas- 
*o <la nave da Penitencia é uma cruz, cujos aparelhos 
•ani OS cravos, a lancia, a esponja, a escada e os a^ou- 
8. Na Barca de Gii Vicente apparece um papa; no 



(1) Id. ibid. 



196 HISTOBIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Anto de Lope de Vega, vae ao timao o Papa que e 
regia a egreja. 

No Auto portuguez, vem Christo da Ressurre 
e é quem commanda a Barca, No Anto de Lope t 
bem acontece o mesmo, comò se ve por està rubi 
« Christo em pessoa, corno mestre da Nave^ com al 
anjos corno officiaes d'ella.n) (1) Finalmente o se 
mento geral da Viaje del Alma, mostra mais do 
a homogeneidade de crenga, o conbecimento de ura 
dello d*onde foi tirada a primeira impressào. 

Apezar da vastidào da intelligencia creador 
Lope de Vega, os tres Autos de GH Vi conte le 
Ihe vantagem. Ponbàmos de parte a inven^ào, pò 
OS synibolos cbristàos tirados do navio pertencen 
primeiros seculos da egreja. Tambem nas miniai 
da ed ade media a Cruz serve de mastro ao Navio 
11 m Mosaico de Giotto no Vaticano, a egreja é r( 
sentada na forma de um navio que leva Cbrist( 
Piloto. (2) Lope de Vega nào fez mais do que d( 
volver o symbolo por continuadas allegorias. En 
Vicente encontra-se mais do que a tradigào populi 
cbristianismo, transpareee o espirito critico da R< 
cenca e da Reforma, que o genio sombrio besps 
abafou em Lope de Vega. No sentimento lyrico, < 
Ibo dramaturofo nào foi excedido. Tendo recebic 



(1) Peregrino en su Patria^ pag. 97, ed. de Sevillia, 
(2j Alfred Maury, Essai sur les legendes pieuses au ; 
age, p. 103, n. 1. 



NO SECULO XVI 197 

Hespanha as primeiras inspira^Oes das Eclogas de 
Juaa de la Encina, se é que, iia falta dos factos, se 
deve repetir o que disse Garcia de Eesende que Gii 
Vicente ridicularisava, e nào da velha comedia frau- 
ceza, pagàmos bem esse primeiro impulso da arte sce- 
nica, dando elemento para a forma9ào de Lope de Ve- 
ga. O author da Dorothea e das mil e quinhentas co- 
niedias que ainda hoje sào a maravilha do theatro eu- 
ropei!, deve considerar-se corno o primeiro discipulo 
do mal compensado poeta portuguez. 

Ticknor tambem cita o fecundo e catholico Calde- 
ron, corno imitador de Gii Vicente, mas sem precisar 
OS factos: «por ultimo, o A.uto em que a Fé declara e 
explica aos pastores a origem e mysterios do Christia- 
nisnao, poderà mui bem ter servido, ligeiramente aite- 
rado, para o Auto composto por Calderou de la Barca 
P^-ra uma procissào de Corpus Christi em Madrid.» (1) 
^ Auto a que Ticknor allude, e o que se intitula E^ 
^'^no y la Azuzena, escripto para a festa de Corpus no 
^nuo de 1660, em que tomava corno motivo o tratado 
^e paz e casamento da iufauta D. Maria Thereza. (2) 
Na Loa é aonde Calderon se aproxima bastante da 
ideia de Gii Vicente; ali se trata da exposi^ào dos 
Mysterios da tran8ubstancia9ào, mas sem o lyrismo 
^ystico do uosso poeta; no Auto do Lirio e a Agtice- 
^^^ tambem apparere em scena uma barca, viendo-se 

(1) Historia de la Literatura espanola, t. i, cap. xiv, 
P' 306. 

(2) Autos Sacramentales, Part. m, p. 115^ edi^j. de \1\1 . 



198 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

en ella la Grada y et Rey; toclas estas circumstancias 
dào graades visos de verdade a liypothese de Tickaor. 

Mas por estas duas leves imitacOes de Gii Vicente 
feitas pelos dois genios drarnaticos mais ferteis de 
Hespanha, temos de sofFrer dois seculos de esterilidade, 
extinguindo-se totalmente o theatro portuguez no se- 
culo XVII, desapparecendo completamente os actores 
portuguezes, escripturando-se sóinente actores liespa- 
nlioes para virem animar a especula<jao caritativa dos 
Pateos das Comedias, 

Depois de ter exposto corno os estrangeiros soube- 
ram admirar Gril Vicente, vejamos se os elementos na- 
cionaes que introduziu nos seus Autos chegaram a 
formar urna eschola dramatica. verso de redondilha, 
regeitado pela Eschòla classica que impoz a comedia 
em prosa, é um dos caracteres exteriores por onde se 
conhece a eschola de Gii Vicente; os typos nacionaes 
e a forma hieratica sào jà urna feÌQào mais intima- 
Sào numerosos os poetas que continuaram a tradi^ào, 
alguns d'elles, astros de primeira grandeza, comò 
Luiz de CamOes; mas nenhum até ao seculo xix foi 
mais fecundo, mais engra^ado, mais lyrico, nem teve 
ìnfluencia ou missào mais salutar; nenhum concentro u 
em si tanto tanto o genio nacional, a ponto de vérmos 
nas suas obras o espelho da sociedade portugueza do 
seculo XVI. 



IjlVirlO II 



ESGHOLA DE GIL VIGENTE 



Homem verdadeiramente de genio, tendo compre- 
"^lìdìdo o seu seculo, e as necessidades moraes da so- 
^^^dade portngiieza, servindo-se da arte para aposto- 
'^^ a sua ideia, Gii Vicente foi durante a vida eoinba- 
"do por dois principios auctoritarios e intolerantes, o 
^^tholicismo e a cultura classica. A sua obra apesar de 
"^ilhante estava destinada a morrer com elle. Assim 
*^onteceria se a impressào que deixou nào fosse pro- 
*^^da. Nas terras aonde ia, deixava orastoda sualuz; 
"Cava o gernien para fiorir de futuro. Representou 
"^'stantes vezes em Evora, a cidade da erudÌ9ào, e de 
^Vora sàem o poeta hieratico Affonso Alvares e os 
^^is irmàos Antonio Ribeiro Ghiado e Jerouymo Ri- 
^^ìto; trabalha em Santarem na compo&iq^o do^^evx^ 



200 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Autos e ai se revela o talento de Antonio Prestes, q 
là reeolhera a tradi^ào do rnestre. Acompanhando i 
córte para Coimbra, distrahindo-a ali durante o t^^^r- 
ror das grandes pestes, é em Coimbra que se exeroi ia, 
pela primeira vez o talento comico e profimdamente f^ co- 
pular de Jorge Ferreira de Vasconcellos, na sua J^^^^ 
frosina, escripta ao pé dos verdes sinceiraes em 15^ ^' 
Seria por ventura em Lisboa, antes de 1536, que LiE- ^^ 
de CamOes recebeu as primeiras impressOes dramatic^^® 
do theatro de Gii Vicente, por isso que mais tarde cu ^^^' 
sando a Universidade nunca trocou a fórma nacion^^^ 
da redondilha, pela forma das comedias classicas. 

theatro portuguez comegava a ter uma tradi^àc 
estava fundada uma eschola. mesmo systema e or- 
dem de observaijOes eucetadas por Gii Vicente erai 
seguidos pelos novos poctas. Mas os dois principioj 
auctoritarios continuavam a exercer-se duramente : 
classicismo com a imitacào for^ada de Plauto, de Te — ' 
rencio e de Seneca, e o catholicismo com o seu tre-^ 
mende hidex Expurgatorio, E por isso que todos oa^ 
poefas da eschola dramatica nacional nào foram tao fé — 
cundos, tao originaes, nem tao atrevidos corno o ini— 
ciador. 




NO SECULO XVI 201 



OA.I»ITXTIjO I 



Infante Dom Luiz 



^o«!*to dos noRSos reis e principes pelo tlieatro nascente. — Gii 
Vicente celebra o nascimento do Infante Doni Luiz. — A co- 
li icdia de Los Turcos^ ou o Auto dos Captivos sera do infante 
X>om Luiz? — Leuda que a attribuia a Gii Vicente, o mo9o. 

A Tragicomedia de Dom Duardos, de Gii Vicente, attri- 

V>iiida ao Infante Dom Luiz — £ ihe tambeui attrìbuido o 
X^ahneirim de fnglateri'a. de Francisco de Moraes. — Depois 
eia morte da raiiiha Dona Leonor, viuva de D. Jo3o ii, foi o 
Infante Dom Luiz o protector de Gii Vicente. 



A córte de Dora Manoel excedia na pompa das 
festas, e uà grac^ e poesia dos seus serOes todas as cor- 
tes da Europa. Se o papa Leào x gosava a represeu- 
ta^ào das Comedias de Bartliolomeu Torres de Nahar- 
ro, o mouarcha portuguez distrahia-se dos cuidados da 
guerra, afugeutava os terrores da peste, festejava o 
nascimento dos Infantes com os éngrac^ados Autos de 
Gii Vicente. Este gesto dramatico, manifestado pela 
rainha D. Leonor, viuva de Dom Jofto ii, que tanto 
animava Gii Vicente, seguido por Dom Manoel e Dom 
Joào III, pelo Cardeal Dom Henrique que mandou re- 
presentar as Oomedias de Si de Miranda, pelo prin- 
cipe Dom Joào que acceitava as comedias de Jorge 
Perreira de Vasconcellos, e por el-rei Dom Sebastiào 
que se deliciava com os Autos do velho Gii Vicente, 
appareceu no Infante Dom Luiz com as faculdades in* 
Ventivas. 



202 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



Nasceu o Infante Dom Luiz era Abrantes em 1506,] 
d'el-rei Dora Manoel e de sua segunda mulher a rai- 
nha Dona Maria. A este tempo tinha Gii Vicente re-j 
presentado na córte um granda numero de Autos hiH 
raticos, ao todp oito pe^^as dramaticas. Desde 1502 qne] 
elle inaugurara otheatroem Portugal. Pelo nascimene] 
to do Infante, iembrou-se Gii Vicente de inventar adi 
festejo originai, e em vez de um Auto de muitas figu-I 
ras, lembrou-se de pregar um Sermào em verso, sobre^ 
umas palavras escriptas a carvào nas paredes de urna 
sala do pa(;^o de Abrantes; Non volo, volo et dejicior} 
Sermào é de urna gra^a e originalidade surprehen-j 
dente. Os frades, que acompanhavam a córte, oppuze-J^ 
ram-se a que Gii Vicente o pregasse, apresentando tfl 
escriipulo de que homem leigo nào podia pregar. Nftè' 
valeram os obstaculos ; Gii Vicente recitou essa admi- 
ravel poesia, cheia das ideias da Keforma. Assim teve 
o Infante Dom Luiz o baptismo poetico de Gii Vicente. 
Em muitos outros Autos o poeta refere-se a elle, comò' 
quem assistia ao serào, maravilhado pelo espoctaculo. 
Infante come^*ou a mostrar gesto pela poesia, e d'el- 
le existem alguns sonetos. Até ao anno de 1536, ulti- 
mo em quo Gii Vicente representou na córte, teve oc- 
casiào de assistir aos Autos que entào completavam as 
festas pelo casamento das Infantas suas irmàs, ou pe- 
liui tres grandes festividades religiosas do Natal, Reis 
choa. E de suppór que durante os grandes des- 
que assombrearam o reinado de Dom Joào m, 
Ì8 da morte da velha rainha D. Leonor, fosse o 




NO SECOLO XVI 203 

Infante Dom Luiz, o que motivava nas represeta^Oes 
frequentes dos Autos do velho Gril Vicente, e o que 
niais o sustentou contra as rivalidades da eschola ita- 
liana e dos odios monasticos. Nào fora o lufante Doni 
Luiz aiictor dramatico, nao se poderi a inferir està 
conjectura. Por este tempo tambem a Rainha de Na- 
varra, Margarida de Augoulème, auetora de Heptame- 
l'ori escrevia co media», oomo a da Natividade, a da Ada- 
'^agcto dos Reis, a Comedia dos Innocentes^ e a Comedia 
do deserto j e muitas outras far^as. A educa9ào litteraria 
flo tempo adoptava a composigào e representacjào dra- 
ffiatica corno um meio de compreiiènder a antiguida- 
^6* Durante a vida academica é que Sa de Miranda, 
^©rreira, Vasconcellos e CamOes, escreveram ou toma- 
^^^ o couhecimento da scena para escreverem as suas 
^ttiedias. A educa9ào litteraria do Infante Dom Luiz 
Jevava-o naturalmente para osta pratica. 

Sobre as comedias do Infante, laboram grandes e 
l'^trincaveis duvidas. Attribue-se-lhe a Tragicomedia 
d^ J)am Duardos; sào d'està opiniào Manoel de Faria 
® ^ousa, que nos seus Commentos a CamOes espalhou 
"™*iìta8 tradi^Oes litterarias, Diego Barbosa Machado, 
^ CJonde de Vimioso Dom José Miguel Joào de Por- 
*^gal, na Vida do Infante Dom Luiz, o P.® Thomaz 
"^ Aquino, e todos aquelles que seguiram estas uni- 
^^ authoridades. No Index Expurgatorio da Inquisi- 
?^o de Hespanha, publicado em 1559, prohibe-se o 
^'^to de Dom Duardos, sem declarar o nome do au- 
ctoj:. No Index de 1624, quando trata das obras de Gii 



204 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Vicente que precisam ser expurgadas, vem: «A Tragi- 
comedia de Dom Duardos, da impressào mais antigA 
se prohibe, por andar entra jà correeta da impresi 
de 1586 pera cà, comega: Famosissimo senhor^ etCv 
tambem se entende ser prohibida a que andou fora 
oorpo de todas as obras, se fòr impressa confor 
aquellas antiguas, corno acima fica geralmente advei 
tido. A do anno de 1613 em Lisboa, por Vicente 
vares, é das correctas.» D'aqui se concine, que nào 
no corpo das obras de Gii Vicente, mas tambem 
uma folha volante, a Tragicomedia de Dom Duardos 
attribuida ao fundador do nesso theatro. 

As obras de Gii Vicente foram por elle mesmo 
ligidas e offerecidas a Dom Joào ni, e no livro 
ceiro das Tragicomedias traz o Dom Duardos, coi 
tendo side por elle representado diante d'este monai 
cha. Costumando indicar o anno, o legar da represei 
ta(^ào, e às vezes o motivo que a originou,na rubrica d 
Dom Daardoè nada d'i sto declara. 

estylo do Dom Dìiardos e o metro difFerem al 
gum tanto do Amadis; e, quando nào perten cesse com 
pletamente a Gii Vicente, o mais que se poderia ad 
mittir era ter o Infante Dom Luiz collaborado, para 
que tambem nào ha provas. 

Attribue-se egualmente ao Infante Dom Luiz a w 
media AqLos Ihrcos^ ou osCativos. 'No Index de 1559 
(a pag. 20, col. 2,) vem prohibido o tAuto dos Capti 
voSj chamado de Dom Luiz e dos Tìtrcos. » Da mes 
sorte e pelas mesmas palavras vem prohibido no Zi 



NO SECULO XVI 205 

de 1624, (p. 9, clas. A.) Por estas daas passageus dos 
Index Expurgatorios se infere, ser o Auto dos Cativos 
obra do Infante Dom Luiz, a que o vulgo chamou 
Dora Luiz e dos Turcos; d'asta opiniào é tarabem Bar- 
reto Feio no Ensaio sobre a vtda de Gii Vicente, (1) 
P.® Thomaz de Aquino, no quinto tomo da sua edi- 
9à<) de CamOes, reproduzindo a lenda de Faria e Soa- 
sa que attribue a Comedia dos Turcos a um filho de 
Gii Vicente, (2) diz em urna nota: «Nào faltou quem 
entendesse que este Auto de Dom Luiz e de los Turcos 
fora obra do mesmo Infante Dom Luiz, e nào de Gii 
Vicente o M090; e que elle o eouipozera para n'elle 
referir alguns dos successos que Ihe haviam aconteeido 
^a meinoravel guerra de Africa onde se achou ...» 

Nào so pelo titulo do Auto, mas por està allusào 
ao factod as guerraa de Africa, o Auto dos Captivos foi 
®8cripto depois do anno de 1535, quando foi tomada a 
Croleta, onde foram livres com a tomada de Tunis, 
^'inte doÌ3 mil christàos que ali estavam captivos. E de 
supp^r que este Auto, hoje perdi do, fosse fundado so- 
^re algum episodio da guerra de Tunis e Goleta, comò 
da grande sède dos soldados, da adoragào da Cruz, 
^^ da revolta dos renegados que entregaram Tunis a 
Wlos V. Do Auto restam estes versos, que traz o P.® 



(1) Obras, t. i, p. xvi. 

(2) Faria e Sousa attribue ho tilho Gii, e Baptista de Cas- 
^^o> a Luiz Vicente. 



206 HISTORIA DO THEATRO PORTUiplUEZ 

Thomaz de Aquino: «o tal Auto, conforme li em urna 
Memoria, principiava d'està sorte: 

Viver em iningoa, temendo 
De iiiorrer, é viver fallo : 
MoiTer eu por bem t*o alto, 
Fico tao vivo morrcudo. 
Quanto no querer me exalto. 
Arrisco-me n'um proposito 
Que me sobe a tanto bem, 
Qne arriscaf-me me convem : 
Ponha-se a vida em deposito ; 
Perca-se, pois causa tem.)) (1) 

Nas Memorias e documentos recolhidos por Frei 
Luiz de Sousa para os seus Anncies de Dom Joào HI, 
encontrou urna Informa9ào de Pero d'AlcaQOva Car- 
neiro, mandada ao Cardeal Dom Henrique em 17 de 
MarQo de 1573, do qne se deve notar quando se escre- 
ver a vida e feitos do Infante Dom Luiz. Ai se diz que 
o Imperador Carlos v confessava que a elle devia o bora 
successo da tomadada Goleta e de Tunis. (2) Foi tam- 
bem este Infante que introduziu em Portugal a Archi- 



li) É de suppòr pelo tempo em que foi escripto o Auto dm 
Captivos, tendo jà apparecido na corte as comcdias de Jorge 
Ferreira de Vasconcellos e de Sa de Miranda, imitadores do 
thaetro latino, fosse este Auto urna tradu9glo ou imita9ào dos 
Caplivos de Plauto, sc^undo o gesto que segiliu CaniOes na sua 
imitando dos AmphylrióeH de Plauto, escripta no tempo em quo 
cursava a Univorsidade do Coimbra. 

Na Vida do Infante Dom Luiz polo (^onde de Vimioso, se 
le a pag. 141 : uEscrevcu tanibem o excellente Auto de Dom 
DuardoSy que se estanipou (^ni nome de Gii Vicente, a quem 
elle o Jiavia dado para representar,)) 

(2) Anna£S^ pag. 400, 






NO SECULO XVI 207 

tectura italiana nas fortifìca9òe8 do reino. Pero de Al- 
ca9ova Carneiro nào fala dos seus meritos Htterarios, 
nem tam pouco das suas poesias e obras dramaticas, 
porque no seu tempo se julgavam inferiores a gloria 
de Principe. Como aqiii todos os poetas dramaticos, o 
Infante Dom Lniz tambem teve o desejo de metter-se 
{^frade; morreu em 15.56. 

Ao Infante D. Luiz foi tambem attribuido o PaU 
mirini de Inglaterra de Francisco de Moraes; facto in- 
sustentavel, mas qne em todo o caso depOe a favor da 
hypotbese que o dà comò auctor do Dom Duardos de 
CrilVicente; demais a tragicomedia de Dom Duardos 
nào traz data, circumstancia que revela nào ter sido re- 
colhida pelo poeta, mas por seu fìlho Luiz Vicente no 
intervallo que medeia entro 1537 e 1561. É naturai 
9^6 a tragicomedia, representada na córte, se achasse 
finire os papeis de Gii Vicente, e que seu filho igno« 
rasse a proveniencia- A tragicomedia andou em foiba 
volante, talvez em vida do poeta, e foi condemnada pe- 
lo Santo Officio, o que vae tambem de encontro a hy- 
pothese que a dà ao Infante Dom Luiz. 



208 HISTORIA DO THBATBO PORTUGUEZ 



OAJPITXJX.O II 



Os Autos de Affonso Alvares 



Evora, sède da escbola drainatica de Gii Vicentè. — Affoi 
Alvares vive os seus primeiros annos em Evora. — Vein pé| 
ra Lisboa em 1522. — Hypotliese sobre a sua rivalidftde 
Gii Vicente. — Rela90e8 intiinàs coui os CoDegos de S. VhJ 

, ceute, que Ihe e.'icoinmeDdarain os seus Autos. — AffonaòJ 
Alvares ndo tem orìgiualidade : paradigroas dos seus Autc 
com a Legenda Aurea de Voragine. — Affonso Alvares tai 
bem soffreu coro o Index Ea^rgalorto. 



Poaco se sabe da vida d'este poeta, pelo que 
Barbosa Machado, e lunocencio Francisco da Sili 
Foi creado do Bispo de Evora Doni AfFonso de Porti 
gal, cfilbo de D. Affonso Marquez de Valenza, qi 
nascen primogenito do primeiro Duque de Bragan^ 
D, Affonso.» (1) Criado dos mais estimados^ diz Bi 
bosa, attendo aos seus meritos litterarios, que nào poa^j 
co contribuiriam para guerrear o iufeliz Gii Vicent 
pelos seus detractores. Bispo D. Affonso de Poi 
tugal inorreu em 1522; em 1521, representou Gii Vi^ 
cente em Evora a Farqa dos Ciganos, e ali em 1521 
representou tambem o Auto Pastoril portuguez, oodi 
tao amargamente se queixa da sua miseria: 

E um Gii. . . um Gii. . . um Gii. 




(1) Ananas de D. Joào III^ p 28. 



NO 8BCUL0 XVI 209 

Pelo meno» o partido clerical mostra va*8e mais par- 
olai de AfFonso Alvares, do qua de Gii Vicente, cujos 
Autos eram apenas pedìdos pela viuva de D. Joào ii, a 
nìnha D* Leonor, è eucommendados para alguma tes- 
ti da córte; AfFonso Alvares compunha Autos «a|>e- 
^iimentt) dos mùy honràdo» e virtuoso» conegos de Sani 
Vicente^, corno Ihe aconteceu no Auto de Santo Anto- 
nio, e talvez no Auto de Sam Vicente Martyr. 

E indubitavei que Aftbnso Alvares encontrara Gii 
Vioente em Evora, quando em 1521 acompanhou a 
bòrte de Dom Joào iii; e parece mais, que o velho poe- 
Ut se pieasse diante do seu rivai, compondo por este 
pò a Comedia de Rubena em tres grandes scenas ou 
8, com prologo a antiga, com efFeitos sceaicos de 
e Eccos, e sobretudo pelo complicado euredo e 
lente lyrismo. A Comedia de Rubena foi repre- 
isentada em 1521 diante de D. Joào in, sendo principe, 
^'onde se oonclue que antes da volta a Lisboa, onde foi 
|luxslaniado, esti vesso ainda em Evora. N'esta cidade 
Irepreseuton Gii Vicente em 1526 a Fragoa de Amor, 
m em 1533 a Romagem de Agradados, e o Amadis de 
Oatda, e em 1536 a Floresta de Enganos, Evora hon- 
rou-se com as crea^Oes mais bellas do genio dramatico 
de Gii Vicente; a està sua permanencia ali com a 
corte se deve attribuir os trabalhos e estudos do AfFon- 
«o Alvares, talvez seu actor cm muitos seròes dopale 
Affbnso Alvares era entùo hìoqo, corno se deduz do an- 
tagonismo que tinha contra o poeta Antonio Ribeiro 

Ghiado fallecido em 151)1. Antonio Ribeiro, poeta sa- 
li 




210 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tyrico, fora frade franciscano, e por causa da sua 
airada desf radara-se ; eni um dos seus momento 
que a veia comica o impella, escreveu uma potila 
verso ao Commissario Geral dos Franciscanos, 1 
para largar o habito fradesco; Alfonso Alvares, i 
tempo, residia em Lisboa, exercendo o officio de 
tre de lér e escrever, e compòz uma resposta em 
, a dita peticjào ao Commissario geral de Sani Fra 
co, cjue andam hoje juntas nà reimpressào dos L 
ras sentenciosos do frade disidor. Ghiado perse^ 
com as suas satyras, e em umas quintilhas dà a e 
der que elle era mulato, Nada mais naturai depc 
que sabemos de Evora pela Carta de Clenardo. Af 
Alvares veiu provavelmente para Lisboa depois da 
te do Bispo de Evora em 1522; aqui escreveu por 
OS dois Autos citados, pedidos pelos conegos de 
Vicente, e talvez representados eutre elles, come 
vam OS Jesuitas. Affonso Alvares escreveu mais o 
de Sam Thiago Apostulo, e o Auto de Santa Bai 
Virgem e Martyr. No Index Expurgatorio de 162 
D. Fernando Martins Mascarenbas, vém probibic 
pag. 92, OS Autos do poeta protegido pelos Coue^ 
Sam Vicente; prohibe o imprimirem-se anao se e 
dando corno se fez no Expurgatorio'» , Este Expi 
torio refere-se ao Index de 1580, portanto todas ai 
^óes jà do seculo xvii andavam amputados pelo ^ 
Officio. Entre os livros de cordel ainda se encon 
Auto de Santa Barbara; todos os mais desnppa 
ram còmpletauiente. A rasào porque so este sobi 



NO SECULO XVi 211 

don a voragem do tempo està no mesmo Index, que 
em pouco o aniputou para pocler correr. Urna consa 
nos snrprehende! E vèr, em ura folheto de cordel, em 
qi:i6anda esse Àuto, ainda lido nas aldeias do Minho> 
iatactas aquollas partes mandadas riscar pelo Santo 
Officio. 

Diz o Index de 1624: a No Auto de Santa Barba- 
^<^ • . . . se advirta que se nào bade representar o bap- 
tisnio da Santa.» No Auto que anda na edi^ào moder- 
na està a scena disposta para o milagre de apparecer a 
i^^nte àonde a virgem se liade baptizar. Diz mais: «e 
SQ risquem as palavras seguintes: Baptisar-se-ha San- 
ta Barbara e cantarào em louvor de Deos um mote."» 
^sta pobre rubrica està tambem intacta, por onde po- 
^l^mos ter a certoza de lèr um Auto genuino de Alfon- 
so Alvares; ai veremos os recursos scenicos de que po- 
^^^ dispor, e ao mesmo tempo comò desenvolve urna ac- 
9^0 dramatica. A scena abre com urna vista de campo, 
onde estào dois pedreiros fazendo uma torre com duas 

• 

J^uellas; entra Santa Barbara acompanhada de duas 

^ouzellas e pergunta para quem é aquella morada. Os 

pedreiros respondem-lbe que seu pae a manda fazer 

para a encerrar ali. Santa Barbara despede as suas don- 

''^^Uas, e faz uma ora^ào a Deos para que Ihe fa9a ap- 

parecer ali uma fonte para se baptizar: 



Pelo teli grande poder 
Que fa^as apparecer 
Aqui urna fonte de agua. 



212 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Na rubrica se le: <iAqm apparece urna fonte, it 
mesmo tempo" apparece um Anjo que a baptiza: «j 
tizar-se-ha Santa Barbara, e cantarci em louvo 
Deo8 um motete, . . » Depois d'està can^ào ao gost 
Gii Vicente, em que apenas ìndica o sitio para o C2 
deixando a liberdade do actor o escolher a toada d 
gum romance ao divino, ou algura hymno da Eg 
entra Dioscoro, pae da santa, a tornar conta do 
balbo dos pedreiros. Dioscoro extranha encontrai 
filha sósinlia, e pergunta-lhe a rasào por que mar 
fazer trez janellas aos pedreiros? Barbara resp 
com o symbolismo do my storio da Trindade. Sair 
Virgem da scena,, entra um Embaixador do D 
Theodoro com propostas de casamento, que Dio: 
acceita, promettendo que bade mandar a respost 
Duque. ^Aqui se vae o Embaixador ^ e entram 
Pastores, um chamado Sllvino, e outro Guilan, » ì» 
segue Affonao Alvares a tradi^ào dramatica seg 
por Gii Vicente, servindo-se da lingua castelbana 
OS personagens rudes. Na Comedia Triumpho d 
verno, representada em Lisboa em 1530, diz Gii 
conte, descrevendo a figura e modo de falar do int 
cutor Inverno : 



Iiiveruo veni selvageiii 
Castellano en su decir. 



A scena dos pastores é verdadeira mente ru 
sem a gra^a dos pastores que Crii Vicente introdu 



NO SECULO XVT 218 

suas pe9a8 hieraticas; n'esta parte Affonso Alvares 

é'ìhe absolutamente inferior. Os pastores deitam-se ao 

p^ da fonte, e entra Dioscoro com a filha, propOe-lhe 

casamento com o Dnqiie Theodoro ; mas Barbara re- 

geitsi'O, dizendo que é casada com Jesus Christo. aAqui 

arranca Dioscoro a espada^ qaerendo matar a Santa 

Barbara e ella metter-se-ha pelo maio, onde estào os 

pastores, » 

Fogem OS pastores, «e vira Dioscoro com Santa 
Barbara pelos cabellosa e amea^a-a com a espada niia; 
acode o Adiantado Marciano, e argumentam am- 
bo8 com a Virgem sobre os mysterios do christianis- 
mo. QiAqui levam Santa Barbara a agoutar, e se can- 
tare Domine Jesu Christe, e em quanto cantarem, vira 
' Santa Barbara em urna vestimenta muito justa a qaal 
trard debaixo dos vestidos cheia de a^oite, vindo dian- 
te de Marciano, i> Como se ve pela rubrica, a scena fi- 
.cara deserta : o hvmno da liturgia . era cantado em 
còro, ou entrando para a scena os cantores, ou estan- 
do no legar destinado no tempio. Na presenta de Mar- 
ciano, o paede Barbara amea^a de a mandar affronto- 
samente degolar, mas a Virgem resìste com uma ener- 
gia inaudita : <LAqui levarào Santa Barbara a marty- 
fisar, e cantarào um motete que diz : In passione posi- 
la — e sahird Santa Barbara toda chagada com as te- 
tas cortadas. » Està rubrica e a antecedente nos mos- 
tram que se usava camisa de meia para està figura- 
9ao, e qua a parte de Santa Barbara era representada 
l)or uni rapaz. Pela ora^ào que faz a virgem, se ve que 
3lla està nùa : 



214 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



Cobri-ine, meu Rodemptor 
Que nào seja escarnecida, 
D'aqiiella gente descrida 
Que por vos dar gram louvor, 
Me fazem trazer despida. 



.9 



nAqui vem um Anjo com urna vestidura branc 
€ Levarci o Anjo a Santa Barbara corno que vai a. ^:^«- 
rar e meter-se-kào em urna cortina, e cantarào erè.t-^'^^- 
tanto,!^ Os intervallos em que a scena fica deserta su:»?- 
pre-os Affonso Alvares com musica ecclesiastica; a^c^a- 
bada a musica volta Santa Barbara mostrando os j>^i" 
tos que Ihe foram cortados : 



Mandaste-me cortar as tetas 
Vel-as aqui todas sana, 
As carnee, brancas de pretas, 
Tao formosae e lou9às 
Como d'antes e mais bellas. 



1- 



Apeaar de todos estes milagres. Marciano, a pe 
do do pae da virgem, dà a sen tenera em que a man ^^* 
degolar. A virgem ajóelha fazendo a sua oraQào; e?^^" 
tra um Anjo cantando , que b. vem animar para o m^^^ ^'' 
tyrio. aAcabada a oragào, degolar a o Pae a Sa'f^ 
Barbara: e mostrando a cabega ao povo, dispairC^^'"^ 
grandes trovdes ao pae, e virào os diabos por elle, i» "^^^^ 
està rubrica se ve que o Auto fora representado di^^ ^" 
te dopovO; e ao mesmo tempo dà a entender que ^^^ 
scena se passava a degola^ào, os golpes dos raios, ^ ^ 
rapto dos diabos^ o que revela jà bastante machini^' 



NO SECULO XVI 216 

mo. corpo da Santa fica truncado em scena, e vem 
una Anciào pedir ao Adiantado para o enterrar. nAqui 
se vae Marciano^ corno quem vae ouvir o qm passou; e 
virào guatro cantores, e levam a enterrar Santa Bar- 
bara cantando. E fenece està obraem louvor de Deos."» 
O Auto de Santa Barbara foi o mais popular de 
todos OS Antos de Affonso Alvares, por isso que ainda 
auda nas màos do povo e se representa pelas aldeias 
do Minho. Escriptos quasi todos a pedido dos frades, 
^ provavel, que dando o thema do Auto, indicassem a 
AflPonso Alvares as fontes d'onde podia tirar a acgào 
dramatica. Lendo-se o Auto de Santa Barbara, conhe- 
^-se immediatamente pela sua estructura e peripe- 
cias, que o auctor te ve diante dos olhos a Legenda Au- 
•'^«j de Jacob de Voragine. Extractaremos da lenda 
^^ Santa Barbara todas aqaellas partes, de que se 
^proveitou Affonso Alvares, que servilmente foi versi- 
beando, introduzindo tambem um dialogo de pastores 
®ui hespanhol para servir de expressào rustica : 

« Havia em Nicomedia, no tempo do imperador 
^aximiano, um pagiio chamado Dioscoro, de uma fa- 
villa distinctissima, que possuia grandes riquezas. 
-■^inha Dioscoro uma filha de grande formosura, que 
^ chamava Barbara. Seu pae a amava em extremo; 
^ para que ninguem a pudesse vèr, encerrou-a em uma 
^ire altissima, que mandou construir. Desde a mais 
^^Ura edade. Barbara, conhecendo o nada das cousas 
Wrestres, come90u a applicar-se à medita9ào das cou- 



216 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



sas do céo. • • (1) Ella applicoa-se mnito a leitura, 
e fez, postoque sem mestre, grande» progressos lutj 
soiencia das eousas divinas. Por causa da sua bellesai 
mnitos nobres do paiz se apaixouaram por ella, e fai 
rat» ao pae para que a resolvedse a acceitar um mai 
do. Seu pae indo ter com ella a torre, procurava de-j 
eidil*a, dizendo : — Minha filha, poderoso» personiHj 
gens se tèm iembrado de ti, e me tém dito que te reti 
ceberiam em casamento ; o qne tencionas fazer ? -^ 
Ella respondeu a seu pae, olhando-o severamente : --*] 
« Nào me foroes a obrar assim, meu pae. » pae 6At\ 
se embora e mandou vir uni grande numero de obreì 
ro9, e Ihes den ordom para construir urna casa de 
nhos, e pgrtiu lego para fora da terra. Barbara dei 
da torre para vèr o que se tinha feito, e notori que 
norte havia sómepte duas janellas, e disse aos pedrdlr 
ros : a Porque fìzestes estas duas janellas ? » Bespon* 
deram-'lbe : — Vosso pae assira o ordenou. — Barbarti 
insistiu : « Fazei*me urna outra janella. » Replicaraoj 
08 pedreiros : — Beceiamos que vosso pae se enfure^»! 
contra nós. — E ella Ihes disse: « Fazei o que eu mai-j 
do, que eu farei com que meu ]me de a sua approva^* 
9ào.» A vista d'isto abriram urna outra jaaella. . . .'. 
Quando se acabou à construc9ào, seu pae regressou d$ 
viagem, e logo que vin trez janellas, perguntou aos 
pedreiros : — Para que fìzestes trez janellas ? — Vossa 



Ìl) Seguem-se as relagòes de Barbara com Origines, que 
ou explicar-lhe o Mysterio da Trindade ; AfEonso Alva- 
res nao attendeu a està 8Ìtun9Ao, 



NO SECULO XVI 217 

fiìlia assim o mandou. — Disse eutào o pae : — Foste 
tu, que mandaste que se fìzessem as tres jauellas? — 
Ella respondeu : Ti ve fortes rasoes para maudar assim; 
porque trez janellas allumiam o botnem completamene 
t^- » Sea pae levou-a comsigo para a sala dos banhos, 
6 disse: — «Porque é que trez janellas allumiam mais 
do que duas? — Barbara respondeu: «Ha trez que al" 
luminm o mundo, e que regem o oursodas estrellas: o 
Padre, o Filho, e o Espirito Santo, que sao um em es- 
s^ncia. » Bntào o pae, cheio de furia, sacou da espada 
para a matar. Mas a santa fez ora(jào a Deos, e as pa- 
^edes se reabriram, e foi transportada para uma mon- 
**nba onde estavam dois pastores, que apascentavam 
<^8 deus rebanhos. O pae comeQou a procural-a, e per- 
ff'**ifcou aos dois pastores se tinham visto sua filha, Ura 
^^^Hes, vendo quanto o pae ora ^ncolerisado, calou- 
®® por que nào sabia onde Barbara estava ; o outro 

^Pot>ton com o dedo Seu pae, dando com ella 

* ^spancou, arrastou-a pelos cabellos, e oarregou-a de 
^Igemas. Metteu-a em um calabouQO, com guardas 4 
^^sta, e foi dar parte de tudo ao proconsul Marcia- 
^^- (1) proconsul quiz que Barbara fosse trazida à 
^^a pFesenga. Logo que a viu, ficou assombrado da sua 
^lleza, e disse^lhe: — Se te queres salvar, sacrifica aos 
^^oses immortaes, ou entào morreràa nos maiores tor- 
^^^to«. — Barbara respondeu : «Quero-me offerecer em 
Sacrificio ao meu Deos Jesus Christo, que fez o céo e 

(1) A&o«o Alv^res, dé-llie otitulp de Adiantado. 



218 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



i 



a terra e tudo o que n'elle se contem. Quanto aos de- 
monios que tu adoras, o propheta disse: Elles tém urna 
bocca e nào falam, tem olhos mas nfto véem ; os que 
Ihesprestam homenagem sào corno elles.» Oproconsul 
furioso, mandou que a despissem, e que a vergalhasseni; 
sera piedade. E logo que o seu corpo ficou todo ensan» 
guentado, ordenou que a metessem na prisào, até que 
decidisse que tormento Ihe seria infligido. Por alta noi- 
te urna grande claridade circumdou a martyr, e Jesur 
Christo appareceu e Ihe disse: «Coragem, minha filha; 
bavera grande alegria no céo e na terra na occasiào d 
teu martyrio ; nào temas as ameagas do tyranno ; sereì 
comtigo para te preservar de todos os males. «San 
Barbara senti u urna alegria extrema com as palav 
do Senhor, e de manbà tornou a ir a presenta do p 
consul, que ao vèr que nào tiuha em si o minimo ves- 
tigio dos tormentos que recebera na vespera, Ihe dis- 
se: «Ve quanto os deoses te sào favoraveis, e comete 
amam, pois que te sararam tuas chagas* «Barbara re-'^ 
plicou: «Teus deoses sào corno tu. surdos, cégos e mn--j 
dos; corno me poderiam sarar? que me sarou foi Je- 
sus Christo, filho de Deos vivo; mas tu nào o conhe- 
ces, porque o teu coragào està endurecido pelo diabo.» 
procousul estremeceu corno um leào irritado, man- 
dou que Ihe queimassem as costellas com tochas acce- 
sas, e que Ihe batessem na cabota com marteladas. A 
santa, contemplando o céo, disse: « Vós sabeis, Senhor, 
que eu soflFro pelo vesso amor; nào me abandoneis.» 
impio proconsul, mandou que Ihe cortassem os pei- 



13 



NOSECULOXVI .219 

tos; (1) e ella disse: «Nao me lanceis fora da vessa 
piresenga, Senhor, nào me tireis o Espirito Santo.» 
MCsindou mais que a levassem nùa pelas ruas da cidade, 
aQoutando-a; e ella disse: «Senhor, ms que sois ami- 
alis firmeza, e que eobris o céo de nuvens, cobri o meu 
corpo, para que nào esteja exposta aos olhares dos im- 
pios.» Desceu entào do céo um anjo que Ihe trouxe uma 
tixnica branca. proconsul raandou que Ihe cortassem 
a cabe9a; porém seu pae lan^ou mào d'ella, e levou-a 
para a montanha, e Barbara fez està ora^ào : « Senhor 
Jesus a quem todas as cousas obedecem, fazei que aquel- 
les que invocarem vesso santo nome lembrando-se do 
meu martyrio encontrem o esqnecimento de seus pec- 
cadosno dia do juizo.» E ella ouviu uma voz do céo, 
que Ihe respondia: «Vem, minha araada; repousa na 
niansào de meu Pae que està no céo; o que tu pedes 
foi concedido. » E a martyr te ve a cabe^a cortada pelas 
"^àos de seu proprio pae. E quando desceu da mon- 
tanha um raio do céo caiu sobreellee o consumraiu, e 
^^na ficou signal d'elle.» Eis a lenda de Voragine, n'a- 
^^ellas partes que segui u AfFonso Alvares no seu Au- 
^^y do qual tirando a originalidade da invengào, restam 
^Penas uns versos, sem lyrismo comò o que tem Gii Vi- 
^®^te, e setn profundidade na expressào naturai. 

Affonso Alvares, depois da morte do Bispo de Evo- 
^S Veiu para Lisboa, ondefoi mostre de lér eescrever; 
^^ dos pastores do Auto de Santa Barbara parece alu- 

(1) Scguido por Affonso Alvares. 



220 ESTORTA DO THEATRO PORTUGUEZ 

dir a està profissào, e, pelo menos, fala corno criado A 
Bispo, que anda ao facto das contas da epacta e aure< 
numero do kalendario ; 

No ay fìostfi grande ni jchìc^, 
Que yo no sepa por mi fé, 
Muy mejorqueel que predica, 
Yo sé hablar grammatica, 
Y fuy muy gran latino etc. 

Urna vez achada a origem d'este Auto de Affonsi 
Alvares, e sendo-lhe iodicados os assumptos pelos coi 
negos de Sam Vicente, ou por outras corpora^òes me 
riasticas, é facil de determinar o entreclio dos dois Anì 
to8 de Sam Thiago Apostolo, e de Sam Vigente Mod 
Pyr, hoje completamente perdidos. Abrindo-se a lÀ 
genda Aurea, af encontramos situa^Oes que fariam di 
urna ìntelligencia mediocre quasi um Shakespeare ; pà 
rem a muita orthodoxia d'este poeta tirou-lhe a liber 
dade inventiva; vejamos o que elle aproveitaria de Vo 
r agi uè para o seu Auto de Sam Thiago Apostolo : «Pré 
gando Sam Thiago na Judea, um doutor celebre entn 
OS phariseus, chamado Hermogenes, mandou-lhe o sei 
discipulo Philetus. para convencer Sam Thiago, en 
presenta clos judeus, de que a sua don trina era falsa; 
porém Sam Thiago tendo disputado coni eììe diante òé 
muitos assistentes, e tendo feito numerosos milagres, 
Philetus veiu ter com seu mestre Hermogenes, apro* 
vando a doutrina de Sam Thiago, e contando os mila- 
gres que tinha visto, dava parte da sua resoluQào dose 
fazer discipulo do Apostolo. Hermogenes, encolerisado. 



NO 8ECUL0 XVI 221 

lig-ou-o por melo de sortilegios, de modo que Ihe v^ra 
imppssivel fazer qualquer movimento; e dizia-lhe : cVe- 
remos se o teu Sara Thiagoé capaz de te desamarrar.» 
Phileinas inandou um criado avisiir o Apostolo do acon- 
teoido, e o Apostolo niandou-lhe o seu manto, dizeil- 
do z «Que pegno n'este manto e que diga: Deos levan- 
ta aquelles que baquearam, e liberta os que estào ca- 
pti ^os.» E logo que Philetus teve o manto, ficou livre 
da prisào em que o retinha a arte magica de Hermo- 
gones, e deu-se pressa em ir ter com Sam Thiago. Her- 
n^oaenes, cheio de raiva, ajuntou os deihonios, pata 
qu.e Iho trouxessem Thiago e Philetus presos pelo pes- 
coso, para se vingar n'elles a vontade. Os demonios 
voando pelos ares, vieram ter com Sam Thiago, dizetì^ 
io z «Thiago, Apostolo de Deos, tem piedade de nós, 
po^que nós ardemos antes do nosso tempo ter chegado. » 
® Ibiago perguntou-lhes : «Para que vindes ter commi- 
go?» «Hermogenes nos mandou para que te levasse- 
^os com Philetus à sua presenta ; mas quando vinha- 
^os ter comtigo, o anjo do S'^nhor nos amarrou com 
correntes de ferro, e nos tratou cruelmente.* Disse- 
^'^es Sam Thiago: «Voltae para aquelle que vos deu 
^^dem de aqui vir, e trazei-m'o pelo gasganète, sem 
^he fazeres mal. Os diabos agarraram em Hermogenes, 
^tarara-lhe os pés, e as màos atraz das oostas, e trou- 
x^ram-no a Thiago dizendo: «Para oumprir pontual- 
^^nte as suas ordens, fòmos cmelmente maltratados. » 
'^ disseram a Thiago : Dàe-nos o poder de vingarmos 
^re elle as tuas iujurias e as nossas.* Sam Tkia^o 



222 HISTORIA DO THE ATRO PORTO GUEZ 

replicou: «Està nas vossas màos; por ventura nào o 
podeis punir?» Os diabos responderam: «Nada pode* 
mos ; nem podemos sequer tocar em urna formiga qne 
està no teu quarto.» E disse Sani Thiago a Philetusr 
«Jesus Christo nos deu o preceito de restituir so b 
pelo mal: Hermogenes te agrilhoòu, livra-te.» Sol 
Herraogenes das suas algemas, ficou confundido; e 
Apostolo Ihe disse: «Tu és livre; vae paraonde quize- 
res, porque é contra a nossa doutrina tirarmos qual- 
quer vingauga.j» Hermogenes retrucou : «Eu conb 
o furor dos demonios; se me nào dàs alguma co 
que te perten^a, elles matam-me. » Sam Thiago de 
Ihe o seu bastào. Hermogenes quiz queimar todos 
seus livros de magia, e metter-se a discipulo de Sa 
Thiago. Mas o Apostolo, com receio que o cheiro 
incendio amotinasse aquelles que nào estavam prove-' 
nidos, mandou lan^ar todos os livros ao mar; Hermo- 
genes foi convertido e prègo u co in grande zelo a pala- 
vra de Deos. 

Os judeus, notando a mudaucja de Hermogenes, fo- 
ram-se ter com Sam Thiago, reprehendendo-o d'elle 
pregar de Jesus Crucificado. Po rem elle Ihes demons- 
trou pelas Escripturas, a paixào e a divindade de Jesus 
Christo, e muitos abraq-aram a fé.» 

Està lenda é bella, e nas màos de um bom poeta 
dramatico, tornava-se grandiosa comò a creagào do 
Fausto. modo corno Affonso Alvares a tratou vé-se 
pelo acanhamento do Auto de Santa Barbara; o Auto 
de Sam ITiiago Apostolo^ corno se ve pelo arguraento 



NO SECULO XVI 223 

ti rado de Voragine é mais philosophico do que popular. 
Foi por isso que se perdeu, nào achando na tradita© 
lileratica das aldeas bastante affeigfio para o salvar do 
tempo. No Index Expurgatorio de 1624 nào veni este 
A^uto entro os outros condemnados de Affonso Alvares; 
a rasào explica-se por ter sido escripto a perfimen^o dos 
multo honrados e viHuosos conegos de Sam Vicente. 

Auto de Sam Vicente tambem està perdido; as 
citacOes, que vem no Index de 1624, coincidem perfei- 
tamente com a lenda de Voragine: «Vicente, de urna 
nobre familia, mais nobre pela sua fé e piedade, foi dià- 
cono de S. Valerio, bispo; e corno Vicente se exprimia 
coni mais facilidude, o bispo confiou-lhe a direc9ào da 
sua diocese, e consagrou-se inteiramente à devo^ào e à 
contempla^ào. Por ordem do governador Daciano, (1) 
*^iceiite e Valerio foram arrastados e precipitados em 
^*^ia enxovia medonha. E quando o governador imagi- 
^^^ que estariam abatidos pela fome e pelo soffrimen- 
^^> uiandou que Ih'os trouxessem à sua presenca. Logo 
4^e OS viu sàos e alegres, enfureceu-se, come90u a per- 
^^^ u cabega, e disse: «Valerio, que discursos sào esses 
^lie propagas em nome da religiào, e corno ousas tu 
^^ol^r Qg ({(3ci.etos dos principes?» E comò o bemaven- 
^^^^udo Valerio era tartamudo, Vicente Ihe disse: «Res- 

, (1) No Auto do, Sam Vicente, diz o Index de 1624: «na li- 

, ^^ 8, onde diz Daciano rei, risquè Rey e ponha-se Presidente 

^^nperador Diocleciano.)) Nu fol. 7 e na fol. 9 veiu a niesma 

A«?*^ por onde se ve quo a censura nào deixava ao pobre 

I "otiso Alvares a liberdade de inverter a hi^toria romana da 

^'*^a de Voragine, 



224 



HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ 



^' 



peitavel padre, nào faleis assim eni voz baixa, cotno que 
se o temor vos gelasse a lingua; exprimi- vos bem alto. 
Se vós pernii ttis, irei responder ao juiz. » Valilo re- 
plicou-lhe: «Jà, querido filho, te ha via encarregado dp 
cuidado de falar, e agora te encarrego de resjwnder pe-^ 
la fé, pela qual estamos aqui. » Entao Vieente se voi 
tou para o juiz, e disse a Daeiano: ocAté ao preseti 
tens-te i*evoltado contra a iiossa te; mas sabe que é gran- 
de o crime de renegar a doutrina dos ohristàos, e d 
blasphemar contra o Senhor recusando a honra q 
Ihe é devida. :» Daeiano mandou logo que ò Bispo fos 
se desterrado, e que Vicente, comò rapaz insolente, foi 
se entregue uos algozes^ para que o estendessem no 
vallete, e que todos os seus membros fbssem quebrad 
para espantar os outros christàos. ì> Aqui seguem-se 
variadissimos tormentos, ainda usados na edade m 
dia, e eni Portugal restabelecidos pela luqiiisiQào. 

Como no Auto de Santa Barbara^ Affouso Alvar 
nào os executa em scena; pelo contrario se aproveitari 
da situa^ào em que Yicente é lan^ado em urna pri 
escura, que apparece subitamente illiitninada, em q 
os anjos deitam o Santo sobre flores cantando harmo- 
nias suavissimas, que os guardas escuta vam através da» 
grades. Depois que Vicente morreu, Daeiano, raivoso 
por nào Ihe ter arrancado um gemido no transe, disse: 
«Fui vencido por elle em vida, vetemos se o posso ao me- 
nos vencer depois de morto. E mandou deitar o cada- 
ver em um campo para ser duvorado peias f'eras e aves 
do céo. Aiuda na morte foi Vicente vencedor, porque 



W SPCULO XVI 

vein um grande corvo, <jom a^ outp^s aves carnivoras, 
e dispersou-os, ficando em guarda do corpo do martyr. 

Tivesse Affonso Alvares mais liberdade de espirito 
ou tpais genio, que supre toda a sciencia, que isso bo- 
tava para restituir a sua verdadeira poesia as grandes 
lendas do Chrìstianismo. facto de tornar a Legen- 
da Aurea corno fonte de iuven^ào dramatica, revela- 
ria urna bella intui^ào artistica, se essa escoiha Ihe nào 
tivesse sido imposta pelas ordpns monasticas. thea- 
tro de Affonso Alvj|,res està quaei todo perdidp, m^^ q 
pouco que existe bastii, para mostrj<.r que, discipulp 4© 
Crii Vic^nte, é-lhe iuoomparavelmente inferior na ii;- 
v§n95o dramatica, no lyrismo da paixào, no espirito 
Diedievico, na graga, na fecundidade, em tudo o que, 
toalmeote, separa t^rri homem de genio de uma medio- 
cridade. 

No Indeqs ^xpurgatorio de 16?4, cita-^e o Auto de 
^nto Antonio j por Affonso Alvares; tambem està pev 
^i^Q, Ppr to4ft8 es^as cousas se ve que o tjieatro nacip- 
^^Ij couie9ado por Gii Vicente, e coijtinuado por iilen- 
^s eonstanteipente inferiores a elle, tinta condigOes p^- 
^* sex originai e grande, m^s que nao podia resistir an- 
*6 o prestigio da renascen9a classica. 

15 



226 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Antonio Ribeiro Ghiado 

Influencìa de Gii Vicente em Erora. — Antonio Ribeiro deixa 
a clausura para seguir a vida dramatica. — Lucta com AiFon- 
80 Alvares. — Sua vinda para Lisboa. — Encoutro e amisade 
com Camòes. — Representa diante de Dom Joao m. — Co— 
nhecido por Soropita, n quem communica as tradÌ95es sobre 
Camòes. — Data certa da sua morte. 

Em Evora represeutava Gii Vicente os seus mais 
bellos Autos, ou a pedido da cidade ou quando para 
ali acompanhava a córte. Foi em Evora que primeiro 
se fez sentir a sua inflaencia; vimos corno em Evora 
se revelou o talento dramatico de AfFonso Alvares, 
oriado do Bispo D. Affonso de Portugal. N'esta mes- 
ma cidade, cheia de tradi^Òes romanas, habitada por 
eruditos e archeologos, o genio medie vico de Gii Vi- 
gente imprimiu a sua feÌ9ào. Antonio Ribeiro hasceu 
nos suburbios de Evora, e a circumstancia de ser 
de paes humildes faz suppór que entraria muito cedo 
comò comparsa nos Autos de Gii Vicente talvez nào 
por mera curiosidade de estudante, mas comò subsidio 
para a sua vida escholar. No seculo xvi usavam os es- 
tudiintes da Ailemanha cantar pelas portas para se 
sustentarem. E tambem naturai que ainda em Evora 
conhecesse o poeta Affonso Alvares, com quem depois 
bulhou em Lisboa por causa da sua Petigào em verso. 
Antonio Ribeiro teve um irmào eorualmente distincto 
pelo genio comico, chamado Jeronymo Ribeiro, auctor 
do Auto do Phyaico, que anda juntOj desde 1587, com 



NO SECULO XVI 227 

OS Autos de Antonio Prestes. (1) Tambem a residencia 
de Gii Vicente em Santarem influiria para o appare- 
cimenio de Antonio Prestes? facto de Evora e San- 
tarem darem os primeiros poetas comicos, comparado 
com a presenta de Gii Vicente n\estas duas cidades, 
mostra urna influencia naturai e justìficada. 

Jeronyrao Ribeiro nao foi tao distincto, comò An- 
tonio Ribeiro, que além de ter escripto muitos Autos, 
levou urna vida ai rada e a venturosa, que Ihe mereceu 
as alcunhas de Bar gante, Dizidor^ e poeta Ghiado, 
Antonio Ribeiro, com algum talento litterario e filho 
de paes pobres, para o seu desenvolvimento, entro u 
para a Ordem de Sam Francisco de Evora; os rigores 
da regra nào o deixavam seguir livremente a espon- 
taneidade da sua musa. ' 

Antonio Ribeiro dedicava-se ao theatro, comò os 
seus confrades tambem franciscanos, Frei Antonio de 
Lisboa, Frei Francisco Vaz, Frei Boaventura Macha- 
do, mais conhecido pelo nome de Sinico Machado, e 
outros muitos. E provarci que as representacjOes hiera- 
ticas e elogios dramaticos, que se nsavam rios mostei- 
ros, Ihe proporcionassem ensejo para por em actividade 
o genio despertado por Gii Vicente. A monotonia da 
vida monachal nào Ihe agradava; tratou de annullar 
OS votos, segundo Barbosa Machado, por falta de vali- 
dade, isto é, talvez por ter professado antes da edade 
canonica; segundo Cunha Ri vara, fuiidado nas obras 



(1) Defol. 102 a 312. 

* 



228 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

do poeta, diz que é mais certo ter-se desfradado por 
causa da sua vida turbulenta em contradic9ào com a 
regra seraphica. (1) A passagem das obras de Antonio 
Bibeiro, que leva a està asser9ào,é a Carta aoseu Com- 
missàrio, escripta da cadeia do aijube, aonde fora preso 
por andar fugido do convento. Em urna antiga naticia, 
vista por Cunha Ri vara, o motivo porque fugira do 
convento de S. Francisco fora para ìisar da sua eon- 
digào, talvez representar Autos por casas particulares. 
Foi a proposito d'està Carta ao seu Provincial, que 
Affonso Alvares o satyrisou, a que Antonio Bibeiro 
respondeu, entro outras amabilidades, dando a entea* 
der que elle era mvlato. Seria isto talvez ^or 1522, 
pois que n'este tempo veiu Affonso Alvares para Lis- 
boa; sondo a anullaQào dos vdtos por falta de valida- 
de a unica rasào que o mordaz Antonio Bibeiro 
poderia allegar, era a falta de edade, e por tanto 
poderia sómente ter nascido em qualquer anno depois 
de 1504. ITma das formas do talento de Antonio Bi- 
beiro era o fingir as vozes e typos de varias pessoas, 
o que o tornava uma satyra viva, e com um genio irri- 
tavel incapaz de se nào ter que nào perturbasse a paz 
e respeito dos superiores e da clausura. Os frades de 
Sani Francisco tiveram-lhe medo, e o Breve que o 
degradava veiu de Boma sem difficuldade. Pelo moti- 
vo da sua secularisa^ào se ve que elle tambem era 
actor, e que elle proprio poderia representar os seus 

(1) Fanorcma, t, ly, p. 406, 



NO SECULO XVI 229 

fnSmos^ e Àutos. Como antigo estudante de Evora^ a 
' «uà (BBchòla é a da bazoche e da mère sette^ a sua h,tq% é 
tirada da vìda bargaeza. Depois' de ter saido por urna 
veK da clausara, Antonio Bibeiro abandonon Evora, 
em cujos arrabaldes nascerà e veiu para Lisboa. Ai se 
leD contraria cotn o seu rivai AfFonso Àlvares, que exercia 
o cargo de mestre de meninos» Em Lisboa tomou co- 
nhecimento oom o principe dos poetas portugaezes 
Laìz de Camoes; o tempo^ em qne se travaram estas 
relais, seria òom certeza na occasiào da volta de 
CamOes do» estudos da Universidade de Coimbra, em 
1543. OamOes frequentou a córte de 1542 a 1546; se- 
ria talvez n'este tempo, que, passados bastantes annos 
fiobre a morte de Gii Vicente, Antonio Ribeiro, afama- 
do ji, pela sua causticidade comica, riera alegrar a 
cèrte de Dom Joào in, representando diante do mo- 
narcha o seu Auto da naturai invengào. Barbosa Ma^ 
chado conservou està tradÌ9§,o litteraria. A este tempo 
Antoniq Ribeito jà era unicamente conhecido pela al* 
ctinha do Chiado, tirada do logaf aonde morava; cir* 
camdtancia que nos leva a crér que desde a sua vinda 
de Evora morai^a sempre na rna do Ghiado, e que se 
feria notar de todos por andar constantemente vestido 
de habitos talares. No seculo xvi eram muito frequente^ 
as alcunhas, e o poeta Chiado tambem pòz a CamOes a 
ftlcunha de TVinca-Fortes talvez em faarmonia oom o 
caracter do grande poeta. Este facto foi pela pri- 
meira vez publicado na Vida de CamOes por Jurome- 
nha* CamOes respeitava a mordaòidade de Antonio 



230 HISTORlA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Bibeiró Ghiado, e na comedia de EURei Seleuco^ es- 
cripta entre 1542 e 1546 (1) se lé este importante pe- 
riodo: ttAqui me veiu às m3,os, sena piós nem nada (o 
rapaz;) e eu por gracioso o tornei; e mais tem ontra 
cousa, que huma trova, fal-a tao bem corno vós, corno 
eu, ou comò o Chiodo, t» prologo da comedia de 
El-Rei Seleuco revela-nos a existencia de theatros 
particulares, em pateos, à maneira hespanhola; é de 
crèr que Antonio Ribeiro Ghiado ai occupasse as atten- 
90eSf Està referencia de Gamòes em uma comedia es- 
cripta durante o pouco tempo que frequentara U córte, 
ajuda a hypothese ou tradi^ào de ter o Ghiado repre- 
sentado diante de Dom Joào ili. 

Outra cita^ào n§,o menos importante encontramos 
do nome de Chiodo nas obras de Fernào Rodrigues 
Lobo Soropita, que o cita comò quem o conhecia muito 
bejn. Soropita voltou da Universidade em 1589, nove 
annos depois da morte de GamOes, e a este tempo ain- 
da vivia em Lisboa o dizidor Ghiado, jà velho, teste- 
munha da vida desgra<;;ada de GamOes, que o viu par- 
tir para o Oriente e regressar desilludido, fiado unica- 
mente no manuscripto da sua epopèa. Soropita, tra- 
tando de recolher as poesias lyricas de GamOes, tinha 
formosamente de se dirigir ao poeta Ghiado. Tudo isto 
se infere à leitura d'està passagem: «Outros ha que 
por serem da carrega^ào nào entram na lenda; mas 



(1) Edi^So popular dos Luziadas, no Prospecto chranolo- 
gico da Vida de Camóes, 



NO SECULO XVI 231 

basta para elles o Ghiado, que Ihes soube assentar as 
costuras.» (1) A data da morte de Antonio Bìbeiro 
Ghiado é bem conhecida, foi em 1591; por ella somos 
levados às seguintes indac90e8, que dando Filippe il 
no Alvarà de 20 de Agosto de 1588 o privilegio exdu- 
sivo da representa^ào das comedias ao Hospital de To- 
dos OS Santos de Lisboa, o;^ Autos de Antonio Ribeiro 
Ghiado terìam side representados n'este pateo das co- 
medias. 

Antonio Ribeiro Ghiado escreveu o Auto de Goti- 
gaio Chambào, reimpresso em 1613, e o Auto da Na^ 
turai Invenqào. Na Bibliotheca Nacional, existem mais 
tres, impressos em foiba volante e sem data, que per* 
tenceram a um fidalgo que por uma riquissima biblio- 
theca comprou o titulo de conde. Sàoos seguintes: 

Pratica doyto Jiguras, Farla e Payva, mogos. 
Ambrosio da Gama, Lopo da Silveira, Gomes da Ro- 
cha, jidalgos. Negro, Capellào, Ayres Galvào, Fol. 9, 
nào numerados. 

Auto das Regateiras. Pratica de treze Jiguras: 
Velha Beatriz, Negra, Coniadre, Pero Vaz, Noyvo, 
May, Joao Duartej Affonso tome, Fema dadrade, Go- 
mes Godinho. Fol. 10. 

Auto terceiro — Pratica de Compadres. s. Fernào 
dorta, Brasia Machado, Isàbel, Vasco Lourengò, o 
Compadre Silvestre, Mogo Namorado, a Comadre, Ca- 
valeyro, Estevam. Poi. 10. Todos sem data, nem logar 
da impressào, e com privilegio real. 

(1) Poesias e Prosas, p, 109, 



282 HISTORIA ìiÒ TtìfiAl^ftO ?ORTUGUEZ 

pHiiiU^iì> rèal i-etiéla-liòd iim tìertd désenv-olTÌ- 
ittéììto nb góBtó dò pilblictt poi' està ordetil de reptfesen- 
ta^Oes, é aò m^iimo teihpó fa» dappòi" que estes ite^ 
Autób pertenceriam a algùttl pateo de tomediuÉ que 
i*òtn elle» vàf iàva o sfeu feportorio. flstes Atttòs èxls* 
tem A tffei^ ìia Bibliòtheca Nacioìial ; os ndssós livrét*^ 
fiìfA n&ò tém a ^ufficieiite iUustrai^ìlD para conliecerem 
qùe |)tiestaVaiil um grande serVi<jò dàndo-lhès ptìbliiòt* 
dade; o nosso governo manda imprimir relatoriod pà^ 
iàvròàós, e tambéM ti&o alcatl9a a necesdidàde dfy pii- 
blicat* titiia edi^&o de paiitheon, dod nòseod untìgod es- 
Drìptordfi. 



NO dfcCULÒ XVÌ sss 

dhALZ>X%<tT£iO tv 

htonytao ftibttro 

O unico Àato Ae JiBfonyttio Hibeirò é ^ Mnìéó «Ubsidid t^Hi'a a 
tecompodì^fto da sua vida. — Auto do Physico, escripto entre 
1544 e 154lf — Conbeceria Jeronymo Ribeiro db -AwtpAy- 
ifìoes^-^tdfltieDciÀda Célestine sobréò Bea gfenio. -^-'T^poé 
do sè€ulo xu — Satyra a Lisboa. — Queixas da sua pobreza. 

Se pouco sabemos da vida do celebre Antonio Bi- 
beiro Ghiado, muito menos ficou da memoria de seu 
irmào JeronjìAt) Bibeiro. Felia^raeiite ainda se conser- 
va um Auto, que se imprimiu em 1587, junto com os 
Autòs de Àùtettio Prèsteà, de Ltiifc de Oam^Mèfe, de Jor- 
ge Pihto è Anrique Lopes. É naturai qtie tt'edte tem* 
J», em qtie tantos privilegioà sustefatàvatù a pl^oprie^ 
dàde litteràfià, tJeroùymo Eibeìtt» jà tivesàe mot-^ 
trdo, pelò fttètt) dò imprimir o seu Auto AfibtìdO Lo* 
l^ò, què ò ^Juntou com od de otitrois pòet&s tàtttbém 
irtórtos. Nà PHmèira paH^ do tttrièsitìaò \UVò tìos Au^ 
ÌOÈ % CòmediìU, ptibliòttdas fidtbumenie^ è pela prinleim 
vét fem òoUec^àò, na Mh% 102 à 112 V^m o Auto tha- 
fn^jpdo dò Physico, fetta por Jeronymo Ribeiro^ em qné 
efitrùM dls Ji^ras seguintès: HufhJU ìnogd por nmné 
Ignez è UtW tfiò^ò àhcmàdo Mamedè, e otuttà mc^ cka*- 
fnada Grimofiè^a, v/m Phy'sico e ma filha t hum nafno^ 
rado da jilha. Dois matantes, hum pescador d'Alfiifnà 
e hum Estudante que vem de Coimbra, » Por està cir- 
ca mstancia do estndàtttè Vòltàt de Cbimbra se ve que 



234 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

o Auto nào podia ser escripto antes de 1544, porque 
era Coìmbra come9aram osestudos era 1539. Pelo fac- 
to de vérmos Jeronymo Bibeiro tambem auctor drama- 
tico, podemos crèr que ou acompanhou seu irmào 
quando este abaudonou Evora, ou veìu ter com elle a 
Lisboa, e, corno Slhos de paes humildes, iriam aju- 
dando-se no ofScio de actores. No Auto do Physico 
acharaos uns versos, que confirmam a nossa primeira 
data historica: 

lem brio de ser formosa 
raeu conde Pariinuples^ ' 
bem sei que a trazeis mimosa. 

Conde de Partinuples é urna novella de cavalla- 
ria, antiquissima, citada jà no seculo xii por Ànaldo 
Daniello, que em Hespanha foi traduzida e publicada 
no seculo XV. Quando na córte de Dom Joào iir, por 
influencia da renascen^a italiana, come^aram a ser 
gostadas as novellas de cavalleria, a leitura d'essas 
ficcOes tornara-se moda. Fala d'este uso Jorge Fer- 
reira de Vasconcellos na comedia Ulyssipo e ai cita o 
Conde Partinuples corno leitura favorita: ora a co- 
media Ulyssipo foi escripta em 1547, por tanto foi por 
este tempo que Jeronymo Kibeiro escreveu o Auto do 
Physico. Auto foi escripto pm Lisboa, aonde tam- 
bem se passa a acgào; o Escudeiro namorado mora no 
Lumiar: 



Todo o fìlho de Lisboa 
bade morrer com esse VÌ90. 



NO SECULO XVI 235 



Medico: Póde-me dizer a gra9a 

Para a pouzada, se eu f or ? 
EscuD. He do Luraear no termo. 



No Auto do Physico ha o typo do medico astrologo- 
empìrico, corno o descreve Gii Viconte na far^a dos 
Physicos, e Joào de Barros na Ropica pneuma; bem 
se ve que os poetas procuravam os seus typos Da vida 
social. Jeronymo Bibeiro teria por ventura rela90es 
com Luiz de CamOes, comò as tinha seu irmào; o Auto 
do8 Physicos parece urna imitagào burlesca do Avio dos 
Amphytriòes escripto por CamOes durante a sua vida 
escholar. Jeronymo Ribeiro conhecia essa fabula, e os 
lances dramaticos que Ihe suscita a situac^iao dos doi^ 
namorados, seriam lembrados por ventura pelo Auto 
de OamOes: 

Os Enfrotrióes passados 
sfto estcs doiis de urna fragoa, 
sdo galhetas germanados ; 
porém se forem cheirados 
este é galheta d'agoa. 

O Aldo do Physico tem lances perfeitamente co- 
micos, e às vezes urna certa nudeza dos Àutos de Gii 
Vicente, sem comtudo Ihe egualar o lyrismo. Notare- 
mps esses lances, exponfló a urdidura da pe9a. Mame- 
de é o typo do creado de Physico, sempre namoradp 
das moQas da sua igualha, sempre prigui^oso e illudin- 
do por todos os modos o servilo ; Ignez é a creada, ty- 
po derivado da Celestina, empiscaiìdo para Mamede, e 



2Sé HISTORIA DO TflEATIftO PORTUGUEZ 

alcovitando a filha do patrào. Àbfé a scena òOUi nm ca- 
vaco amoroso entro estes dois galantes serventuarìos, 
e quando estavam em colloquios apparece um Escu- 
deiro^ que vem apaixonadissimo pela filha do Pkjfsico, 
% Ihes pergunta Be a menina recebera a carta qué Ihe 
mandata* Mas o Escudeiro quer vèr a manina e a cria- 
da IgneK diz que se finja doente^ e a pretexto de ir 
consultar o PhjmicO) Ihe entra eiil c5asa e assim a ve de 
^rto. ^^ A segunda scena passa-se entro o Physico e 
iftaa filha^ aquelle queixando-se da demora do ctiado 
Mamede, a m^itna defendendo-o, e logo que o criado 
<[}hega4(M>ma moga cornei^ urna alteroa^ào*, que éinter^ 
rompida pela e&trada do Escudeiro namorado que {2A 
de doetlta-^E^ta terceira sceùa é bastante dramatitoa^ 
é o cavaco entro o doente por amor e o Physico iilia^* 
tuado, ainda citando Àvicena: 



Phys : Tem febre, mas é pequena, 
Senhor, a imagina9ào 
f az causa, nfto deis a mào, 
que iato é telto da Vice/ina 
De morbis do cora9ao. 



A scèna é lònga e cheia de chiste; pinta os coirtu* 
méè do sectilò XVi^ bèm merecìa »6r nqui transcrìta. 
A quarta licena é ò encoùtifo do Escudeiro com Igtiet^ 
tìtn què ihe dà conta do seu éstràtagetna e teomo Ihe 
isalu aò pitttat; Igtlfez, Vìèrdadeira discipula dà. Celeèti- 
ntt, illùdt3 ó pobte «lòudiaiyo, por quo n filhà do Physiùo 
i98t& pÀta cais^t com nm estùdatite de BàUihati^a, (Aiti* 



NO SBCULQ XYI «87 

mado Lncas de Lemos, e nio sabe das cartaa nem das 
girias do Escudeiro, que 3e chAma Lopo de Andrade : 

ìgn : {À parie) Dà tu passadas, 
rompe botas escusadas, 
anda de urna a outra parte, 
que ella, nem parte nem arte 
sabe de tantas meadas. 

A quinta scena passa-se entre os criados e dois 
MatanteSj talvez o que hoje se cbama Fadistas. Ha 
urna briga de ciumes entre Ignez e Grimaneza, por 
causa dos amores do criado Mamede, que canta aquel- 
les versos jà citados de um velho romance popular, por 
Gii Vicente: 

Sobre mim vi guerra armar, etc. 

Depois Mamede é espancado pelos Matantes e re- 
fugia-se em casa. N'esta scena Mamedo; Ignez e a fi- 
Iha do Physico, para se entreterem comegam o jogo das 
mentiras, imitado dos costumes populares: 



FiLHA : Ignez, vem-te aqui aasentar. 

quercia vós outros jogar 

as mentiras ? 
loNBZ : Senhora 9im. 

FiLHA : E* jogo para estas noutes, 

para passar o seram, 

quem perder apar' a mdo. 
Moipo : Se isso é jogo de a9oute6 

nfio jogo. 



238 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



FiLHA : D'a^outes dSo. 

Quem menos lan^ar a barra 
p no mentir, p6r-lhe-hao mascarra, 
e dar-lhe-hfto em cada mfto 
duas palmatoadas. 
Ignbz: Nao. 



Aqui yem està satyra ironica à cidade de Lisboa 



FiLHA : Eu digo que està cidade 
cheia de toda a nobreza 
tem por timbre e por fineza 
de falar sempre verdade. 



A mo9a Ignez vae buscar a cosinha um iÌ9ào para 
fazer as mascàrras, e urna palmatoria para as màos do^ 
que nào souberam mentir. Emquanto està vara n'isto, 
entra um Pescador de Alfama a consultar o Physico, 
que nào està em casa, àcerca de urna dor de sua mulher; 
Mamede veste a loba, pOe a gorra, e cometa a respon- 
der em latim ; depois nào quer acceitar o pagamento 
da consulta em dinheiro de cobre. Pescador trazia 
um bacio com a oùrina da mulher; em Gii Vicente 
tambem scansava està liberdade. Quando Mamede es- 
tava fazendo de Physico, entra o verdadeiro dono da 
casa^ estafado de andar pelo Lumear à busca da mo- 
rada do tal Escudeiro namorado. Està scena ainda ho- 
je seria de effeito. Quando o Physico fala a filha àcerca 
da demora de seu noivo Luc^s de Lemos, entra o ]Es- 
cudeiro, iìngindo que vem de Salamanca, e quando 
Ihe perguntaram se seu tio nào viera, responde: 



NO SECULO XVI • 2S9 

Senhor, meu tio fìcou 

por se oppòr a urna cadeira, 

que eni Salamanca vagou. 

Estava n'isto quando apparece o verdadeiro noivo, 
Lucas de Lomos, A sita^àò faz lembrar os Amphy- 
tt^ides, sarcastico Mamede aggrava a posi^ào falsa 
em que se acha o Escudeiro Lopo de Andrade; cresce 
o escandalo, parece que haverào mortes, e eis que fala 
em prosa a intrigante Ignez, desculpando a Menina, e 
dizendo que ella fora causa de todo aquelle engano. 
Lopo jura que irà fazer vida n'um convento, dào-se as 
maos e entra Mamede 'icom os musicos qusjicame vào- 
se todos e assi fenece a ohra.T» Pela vìda do Ghiado 
se ve que Jeronymo Ribeiro nào seria mais feliz; em 
lima scena d'este auto, descobrem-se intimas queixas 
de pobreza, aggravada pela miseria publica: 

Peso : Nào se póde jà pescar 

dinheiro por ném um modo, 

anda tam turvo est© mar, 

que é impossivel tirar 

sem lìsonjas por engodo; 

pesco urna pobre vez 

para corner és nSo es 

comò anzol d'agorazeira, 

vem o aDzol da Ribeira. 

pesca cifra, leva dez. 

EntSo casa d'alugner, 

vestir e cal9ar me daua. 

passa a receita o corner. 
Mogo : Eu que vos heide fazer, 

se sois pescador de cana. 

Foi està pobreza do3 escriptores dramaticos que 09 
conservou entre o povo e Ihes fez imprimlr &^^u»5ik 

composi^óes um cunho verdadeirarnewl^ xx^càaxiaX^ 



24Q HISTORIA DQ TH^ATBQ PORTUGUEZ 



Q^I»ITX7Xjp V 



Iiuiz d^ CamQe? 



Camdes esqrev^ os Am^hytrió^ na Unìversida^e de Coimbra. 
— Seu conhecimento de Gii Vicente. — Origem grega d^ fa- 
bula àsi Amphytrìào, -rr- Q Aut9 de fÀlRey SeleuQQ^ -r-r- Q pro- 
logo em prosa e os tlieatros particulares. — Efypothese sobre a 
origem das desgra^as de CamOes. — A Celestina, Braz Qua- 
4TÌde, r— ffo FUodemo conhece-H^e a ii)flyengia italiana. 



I)pr£^qte ^ vicjs^ epcl^ojastica., qw& decorre de 1539 
1^ 1542, Ji83Ìiiitìu QapiOes na IJnÌYer?id^de de Cpinibr^ 

4 repriQsenta^aó de v^ri^S comedian, qu^, segando o 
costume da^ Univeir^idades dsv l^uropa, o^ eatudantes 
compunham e ensaiavam na occasiào de ferias; ainda 
no tempo do Doutor Antonio Ferreira, quando a co- 
media nacional ia cedendo o terreno à comedia classi- 
ca introduzida pela Benascen^a italiana, fala elle das 
excellentes comedias que antes de si se haviam repre- 
sentado, as quaes nada deixavam a desejar às dos anti- 
gos. A allusào de Ferreira deve propriamente enten- 
der-se com referencia às tragedias de Buchanan, e 
às imitaQOes de Plauto e Terencio. CamOes, seguindo 

05 habitos escholares, e^creveu taipb^m p Av^o dos 
Amphytrioes^ comedia classica imitada livremente de 
Plauto, mas toriaada naeÌAnal \m\Bi. fórma poi^ica di re- 
dondilha piopular, 6 pela confusap dos kì^ìx\xsì^% q^q- 



NO SECULO XVI 241 

demos com os antigos. Pelo assumpto se ve qual a 
tendencia do theatro nos ensaios ucademìcos, que pen- 
diam sobre tudo para a admiragào dos exemplares da 
antiguidade. CamOes comprehendendo a belleza da Re- 
nascen^a, nào quiz sacri fica r-lhe completamente agra- 
9a da poesia nacional. 

Jorge Ferreira de Vasconcellos e Sa de Mirauda 
abandonaram a fórma poetica da coriiedia, para a tor- 
narem mais eulta, eraancipando-a do verso de redon- 
diiha usado nos Autos populares. Em OamOes, o sen- 
timento nacional venceu; o assumpto é classico, a fór- 
ma é genuinamente portugueza. Antes de CamOes jà 
no theatro hespanhol fora tratado o mesmo assumpto 
de Amphytriào, que se presta maravilhosamente para 
a far^a. A historia de Amphytriào foi pela primeira 
vez posta em scena por Epicharmo, que, corno todos 
OS poetas doricos, divertia-se a ridicularisar as divin- 
dades da mythologia grega. Na farga de Amphytriào, 
dà-se a parodia antireligiosa dosamores de Jupiter to- 
rnando a forma de Amphytriào, que està na guerra, 
para apparecer diante de sua mulher Alcmena e assim 
conseguir por trai^ào o que Ihe era impossivel a boa 
mente. Em outras composi^òes de Epicbarmo, Jupiter 
apparece na fórma de um gordo comilào. Minerva 
em belfurinheira de realejo, Castor e Pollux em panto- 
mineiros obscenos. Plauto apoderou-se da pe9a de 
Epicharmo e accomodou-a a sociedade romana, onde 
o caracter de Alcmepa se reveste da rigidez de uma 
Cornelia. Fazendo rèssurgir està obra da antiguidade, 

16 



242 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

parece querer-se, pelo riso provocado por ella mesma, 
acordar a alma da grande fascina^ào da Renascen^a. 
Caindes era mais nacional do que classico, e a nào se ter 
em vista o motivo do divertimento escholar, que o le- 
vou a fazer està imitagào de Plauto, julgar-se-hia que 
escolhera a comedia dos Amphytrioes^Qva. desaggravo da 
eschola velha de Gii Vicente, entào jà bastante ataca- 
da. A perfei^ào, com que as scenas estào entro si en- 
cadeadas, é devida ao modello que seguiu; da edade 
media, ou principalmente da comedia italiana, con he- 
ce-se a dupla acgao em que os creados fazem a parodia 
das situa^Oes^or que passam os amos, d'onde veiu de- 
pois a formar-se o imbroglio. No Auto de CamOes o 
oaracter de Alcmena é ainda bastante romano. Na sce- 
na dos Creados Feliseo e Bromia, allude a Lisboa : 

Que uào digam 08 de Alfama 
Que riSo tenho naiuorada. 

N'esta mesma scena Bromia sae cantando os pri- 
meiros versos do romance de Flerida^ com que Gii Vi- 
cente rematou a Tragicomedia de Dom Duardos^ ro- 
mance que andou natradi^ào orai do povo, que foi re- 
colhido no Cancioneiro de Anvers, e que ainda no secu- 
lo XIX se cantava nào muito abreviado nos Acóres. (1) 

Voynie a las téerras estrafias 
A dò ventura me guia. (2) 



(1) Caiwinneiro e Romanceiro geralporluguez, t. jv, 

(2) Obras de Camóes, t. in, p. 309. Ed. de Barreto Feio. 



NO SECULO XVI 243 

Os versos de Gii Vicente, vulgarisados em 1533 
em Evora, pouoos annos depois jà se afasta vain algam 
tanto d'està lì^ào originaria : 

Voyme à tierras estrangeiras 
Pues ventura alla me guia. (1) 

CamOes conhecia o theatro de Gii Vicente, e seguia 
algumas regras dramaticas adoptadas pelo veiho mes* 
tre. O uso do hespanhol, nos Autos de Gii Vicente em 
que se fala portuguez, é proveniente da necessidade de 
formar urna linguagem rude para o typo grosseiro que 
representa. Estaobserva^ào fel-aprimeiramente Rapp, 
e se prova por palavras de Gii Vicente, que explica va 
o intuito da escolha. Oamòes adoptou o mesmo syste- 
ma; quando Mercurio, que vem ajudar a Jupiter no 
fingimento de Amphytriào, fala a sua linguagem, é em 
portuguez; quando encarna em si a figura do creado 
Sósea, escolhe o hespanhol corno linguagem rude: 

Quero-uie fiugir ladrào, 

Ou pbantflsma 

£ co in ludo 86 passar, 
A fala quero mudai 
Na sua, de tal feÌQfto 
Que couces e porfiar 
Lhe fa9am hoje assentar 
Que sou Sósea e elle nào. 

E segue lego na rubrica: a Falla Castelhanoì^. 
Como Gii Vicente, CamOes tambem espalhou nos seus 

(1) Obras de Gii Vicetite, t. ii, p. 250. . : 



244 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Autos um grande lyrismo, o qiial se deve julgar um 
dos principaes caracteristicos da eschola nacional. A 
analyse da contextura dramatica seria ìndispensavel se 
o Auto nào fosse imitagàx). Auto dos Amphytrioes an- 
dou manuscripto durante a vida do poeta, e so em 1587, 
sete annos depois da sua morte, é que foi recolhido por 
Affonso Lopes, que o publicou junto cotn os Autos de 
Antonio Prestes (1) a este tempo provavelmente jà 
tambem falecido. No theatro portuguez do seeulo xviii, 
a far^a epicharmica de Amphytriào foi posta outra vez 
em scena pelo desgragado poeta Antonio José da Sil- 
va; a opera de Amphytriào ou Jupiter e Alcmena, foi 
representada no theatro do Bairro Alto, em Maio de 
1736. A fórma em prosa, entremeiada de córos, arias 
e recitativos conhece-se que é influenciada pela opera 
italiana que entào apparecera em Portugal; o mixto 
do imbroglio com o gongorismo de seiscentos realtà 
o pico comico, em que o expectador se ri a falta de in- 
tengào e pensamento de teda a peca. Amphytri.ào de 
Molière fora representado em 1668; o theatro francez, 
principalmente o tragico, foi quasi todo traduzìdo em 
portuguez ; é de suppòr que Antonio José nào conhe- 
cesse este Auto de CamOes, e que imitasse a comedi a 
franceza, ficando-lhe por isso inferior. 

segundo Auto que escreveu CamOes foi o de FA- 
Rei SeleticOy tambem de assurapto classico, ainda na 



(1) Primeira parte dos Autos e Comedias portuguezas, foi. 
86 a 101. 



NOSECULOXVI 245 

fórma nacional da redondilha ; nào foi conhecido pelo 
coHector AfFonso Lopes, por i^o nào se encoptra na 
sua publìcagàode 1587; imprimiu-sepelaprimeiravez 
na edÌ9ào de 1645, tendo sido achado nos mannscri- 
ptos do Cònde de Penaguiào, pae de Joào Rodrigues 
de Sà^ a quem as Rimas eram dedicadas. Auto deve 
julgar-se escripto entro 1542 e 1546, tempo em que 
Toltou da Universidade e freqnentou a corte de Dom 
Joào III, antes de sofFrer o desterro de Lisboa por cau- 
sa dos amòres que trazia no pa^o com Dona Catheri- 
na de Athayde. N'este tempo tinha rela^Oes de ami- 
sade com a principal nobreza ; e depois do ultimo Au- 
to de Gii Vicente em 1536, apenas o jSdalgo Jorge 
Ferreira de Vasconcellos escrevera as comedias de Eu- 
frosina e UlyssipOy e o Cardeal Dom Henrique fìzera 
representar as Comedias de Sa de Miranda. N'este 
periodo passou Camdes os annos mais felizes da sua vi- 
da; a gra^a do prologo de El-Rei Seleuco demonstra 
um certo bem estar moral. prologo do Auto é em 
prosa; por elle se conhece a existencia das representa- 
cOes particulares, e se descrevem engra^ados costumes 
do velho theatro portuguez. Como grande parte dos 
Antos de Gii Vicente, o Auto de CamOes foi escripto 
para ser representado em uma noite de Natal, segun- 
do o costume portuguez, conservado nas Ldas popula- 
res, que as Constituigdes dos Bispados prohibiram: «E 
n'isto fenecerà o Auto, com musica de chocalho e bu-^ 
zinas, que Cupido vem dar a uma alfeloeira a quem 
q.ner bem ; e ir-se-hào vossas mercés cada um ^at«L 



246 HI8T0RIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

suas pousadas, ou consoarào ed comnosco éCissù que ai 
houver, » Na abertura do Prologo, o mordomo ou dono 
da casa diz aos espectadores : « Eis, Seuhores, o autor, 
por me honrar n'esta festival noite, me quiz represen- 
tar urna far^a; e diz, que por nào se encontrar com ou- 
trasjd feitas, buscou huns novos fuudamentos para a 
quem tiver bum juizo assi arrazoado satisfazer. » Ca- 
mOes refere-se aqui com certeza aos Autos de Antonio 
Ribeiro Ghiado, por isso que em outro legar do prolo- 
go o cita corno modello da mordacidade; lembrando- 
nos do titulo dos Autos do Ghiado, o Auto das Rega-- 
teirasj a Pratica de CompadreSj parece comprehender- 
se o periodo: «E diz que quem se d'ella nào contentar, 
queréndo outros novos acontecimentos, que se va aos 
soalheiros dos Escudeiros da Gastanheira, ou de Alhos 
Vedros e Barreiro, ou convèrse na Rua Nova em casa 
do Boticario, e nào Ihe faltarà que conte.» Em uinas 
coplas, Ghiado apoda GamOes com a alcunha de Trin- 
ca-Fortes; ou por que se temesse d'elle ou pela rivali- 
dade dos sectarios e iuauguradores da comedia italia- 
na, diz o Mordomo no Prologo : « Ora quanto a obra, 
se nào parecer bem a todos, o Autor diz que entende 
d'ella menos que todos os que Ih'a puderam emendar. 
Todavia isto e para praguentos; etc. » prologo em 
prosa com que GamOes antecede o auto de El-Rei Se^ 
leucoy é urna especie de theatro por dentro; o Mordo- 
mo anda nos preparativos para a representa^ào da noi- 
te de consoada; pergunta ao mo90 se jà chegaram as 
fi^uras. Aqui dà-^se o mesmo facto que no theatro fran- 



NO SECULO XVI 247 

cez, onde às vezes a inultidào entrava a fbr^a: «Ora, 
vieram uns embui^adotes e quizeram entrar por forga; 
eil-o arrancamento na mào; deram urna pedrada na 
cabe^a ao Anjo e rasgaram urna meia calga ao Ermi- 
tào; e agora diz o Anjo que nào bade entrar, até Ihe 
nao darem urna cabe9a nova, nem o Ermitào até Ihe 
nào pòrem urna estopadanacalga.» Por està passagem 
se concine que no seculo xvi haviam representagOes 
dramaticas em fami Ha ; que os ociosos de bom gesto 
procura vam introduzir-se na festa, apesar de nào se- 
rem convidados: «vae d'aqui a casa de Martim Chin- 
chorro e dize-lhe que temos cà Auto com grande fo- 

gueira; ir-lhe-has abrir a porta do quintal, 

porque inudemos o vinte aos que cuidào de entrar por 
forga.» O Mordoino continua a arranjar a sala, e diz 
para os expectadores : «vossas mercés he necessario que 
se cheguem uns para os outros, para darem legar aos 
outros senhores que hào de vir; que de outra maneira, 
se todo o curro se^ ha de gastar em palanques, sera bom 
mandar iazer outro alvalade ; e mais, que me hàode 
fazer mercé, que se hàode desembucjar, porque eu nào 
sei quem me quer bem, nem quem me quer mal: este 
so desgosto tem um Auto, que he comò officio de Al- 
caide: ou haveis deixar entrar a todos^ ou vos hàode 
ter por villào ruim. » Por està cita^ào se ve que o le- 
gar da scena para està represénta^ào em familia, era 
um córro, ou pateo, tal corno se usava no velho thea- 
tro hespanhol. Auto era representado no Natal ; por 
isso havia casa juncada para passear, fogaeira com caa- 



248 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tanhas, mesa posta com alcatifa e cartas, e um Auta 
para desfastio da Nolte. Nisto chegoa o convidado 
Martim Chinchorro, que entrou pela porta do quintal, 
e passadas as devidas cortezias, diz: «Ora pois, Se- 
nhor, o Auto he tal que he? Porque hum Auto enfa- 
donho traz mais somno corasigo que urna prega9àa 
comprida.» Responde o Mordomo: «Por bom m'o veri" 
deram^ e en o tomei a cala de sua boa fama, » N'este 
tempo o theatro comegava a tornar-se um divertimen- 
to familiar, e por estas palavras do Mordomo se ve, que 
08 poetas especulavam com este novo uso. Aqui critica 
tambem Camóes os actores : o villdo^ que arranca a fola 
da garganta com mais sem saber que urna pera pào^ urna 
donzella j qne falla corno Apostolo, mais piedosa que urna 
lam£ntagdo, Passados todos os preparativos entra a pri- 
meira figura. Diz o Mordomo : «Mo^o, mete- te aqui 
por baixo d'està meza, e ougamos este representador, 
que vem mais amarrotado dos encontros que um capuz 
roxo de piloto...» Representador come9a a decla- 
mar em verso alexandrino, e depois interrorape-se, di- 
zendo que Ihe esqueceu o papel: «mas nào sou de cul- 
par, por que nào ha mais de trez dias, qne m'o déram.» 
O Escudeiro Ambrosio ve que aqùella figura erra os 
ditos, e por fim reconhece que foi por galanteria de 
novidade: «Mas se assi he, ella he a melhor invengào 
que eu vi; porque jà agora representaijOes, todas he da- 
rem por praguentos ; e sào tao certos, que he melhor 
erral-as, que acertal-as.» Produzido este abaio nosex* 
pectadores, entram entàp aa verdadeiras figuras* do 



NO SECULO XVI 249 

Auta. A idoia é nova, e introduzida por Camdes; so- 
brefcndo o valor d'este prologo està em elucidar-nos 
àcerca dos costumes theatraes do seculo xvi, sobre o 
legar da scena, representa^Oes em familia, compra de 
Auto, critica da declamagào, tempo em que se decora- 
vam as partes, accomoda9ào dos expectadores, e sobre 
indo àcerca dos assaltos nocturnos dos rufiOes de bec- 
cos, qne se introduziam por forca para assistirem à re- 
presenta^ào do Auto, e das rivalidades de eschola. 

themti do Auto de El-Rei Seleuco é tirado da 
historia antiga; encontra-se em Valerio Maximo, em 
Justino, Plutarco e em Polybio contado o facto de 
Antioche Soter apaixonar-se a tal ponto por Stratoni- 
ee, sua madrasta, que se sentia morrer da mais prò- 
fanda nostalgia* Seu pae El-Rei Seleuco, consultou 
todos OS medicos e um d'elles, notando que o pulso do 
principe se alterava e batia com mais forga quando en- 
trava a rainha, descobrin a caasa da sua doen^a e de- 
elarou-a ao monarcha. Seleuco, era velho; desfez o seu 
cazamento com Stratonice e deu-a ao iilho. Este 
a88umpto é bastante subjectivo para ser tratado no ve- 
lho theatro, aonde a paixào nào podia tomar realidade 
por falta de actores consummados, e sobretudo por fal- 
ta da descoberta do mundo moral, que data do tempo 
de Shakespeare. Camoes é tanto mais assim admira- 
vel, por ter sido levado pela intuigào do genio a tocar 
Ulna ordem de facto» que estavam por descobrir^ A 
Comedia de El-Rei Selevco nunca fora tratada em for- 
ila dramatica; qise cìrenm&tancia levarla C^mOes» ^^v 



260 H8T0BIA DO THEATRO PORTUGUBZ 

colber este asstimpto? Escrìpia durante o tempo qne 
frequentava a córte de Dom Joào ili, apaixonado pela 
sua dama Dona Catherìna de Athayde, é naturai qne 
tivesse onvìdo a dolorosa lenda dos amores do mo» 
narcha, quando principe, pela rainha Dona Isabel, mo- 
Iher de Dom Manoel, seu pae. Tal é a 8Ìtua9ào, descri- 
pta com um grande Ijrismo e ao mesmo tempo coni 
urna realidade viva na eomedia de EURei Seleuco, Ac- 
cresce, que està eomedia, escripta muitos annos antei 
da eomedia de Philodemo, nào foi publicada na ooUeo- 
Qào de Affonso Lopes em 1587, e se conservou desoo- 
nbecìda, entro os papeis do Conde de Penaguiào ad 
ao anno de 1645, quando jà estava perdida a memorii| 
do facto. Para maior oonfirma^ào d'està bjpotbese conij 
pre extractar para aqui algnmas palavras dos J.nnaA| 
de Dom Joào ui, de iPrei Luiz de Scusa: cSobreestad 
rasóes, que todas obrigavam ao Principe a magoarnse, 
pelle qne tocava ao povo e a reputa9ào de quem o gè* 
rara, accndiam a Ibe fazer guerra as do interesse pro- 
prio : que eram tomar-se-lhe a dama que jd em espiriio 
era sua, e querer seu pay para si em segredo e cam 
que a furto, a mesma mtdher que pera elle tinha mxy- 
tas vezes publicamente pedido. Aj untava representar* 
tar-lbe o entendimento, e a edade de dezeseis annoi 
mal soffrìda jà e ardente para similbantes material, 
que o mesmo pae confessava culpa no segredo que oom 
elle usava em tamanba resoln^ào. E todavia devemos* 
Ibe muito lonvor, porque sabendo sentir, nnnca poi 
palavra nem obra, mostrou a seu pae signal de senti 



NO SECULO XVI 251 

mento nem desgosto.» — «Entretanto vinha caminhan- 
do para Portugal a nova rainha (D. Isabel) deagosta- 
da tamhem, corno he de crer, da ir oca do esposo . . . Era 
o Principe n'este tempo entrado nos dezesete annos, 
de gentil presenta, alegre e amavel sembiante, mas 
temperado de bum certo rigor de virilidade, que cria- 
va respeito e reverencia em quem o via. — Galante e 
Gustoso, mas à portugueza, acompanhou seu pae: e 
chegando a Rainha, se humildou para Ihe beijar a mào, 
com a sinceridade e cortezia de quem a reconhecia por 
mày e senhora; que ella Ibe nào quiz dar por muyto 
queo Principe instou e perfiou'no cumprimento.» (1) 
Depois de trez annos de casado com a namorada de 
seu filbo, morreu el-rei Dom Manoel, a 5 de Dezem- 
bro de 1521. povo de Lisboa requereu a El-Rei Dom 
Joào III, que cazasse com a Rainha Dona Isabel sua 
inadrasta, nova; a nobreza, apoiada por Dom Jay- 
me Dnque de Bragan^a, pedia-lhe instantemente a 
realisa^ào d*este voto. Diz Frei Luiz de Scusa: «Nào 
havia na terra quem ti vesso por desacerto este conse- 
Iho senào so a pessoa a quem mais tocava, e melhor es- 
tava, que era o mesmo Rey. Nào Ihe sofFria o animo 
aver de chamar esposa a quem dora o nome de mày ; 
aver de tratar por egual a quem reconhecera por se- 
nhora : e emfìm nào acabava com sua honestidade aver 
de tratar amores, inda que santos e castos, com a mu- . 



(1) Annaes, cap. v, pag. 16 e 17; cap. xii, p. 60. 



262 HiaTORlA DjO THEATRO PORTUGUEZ 

Iher que o fora de seu pay.» No Auto de EURei 
Seleuco, o principe Antioche, ainda crìanga, namora- 
se de Stratonice, tambem nova, casada eom o velho mo- 
narcfaa ; a allusào ao facto siiccedido na corte portngue- 
za é evidente, e andava na memoria de todos ; porém 
EI-Rei Dom Manoel nào foi generoso comò Seleuco. A 
Comedia de CamOes seria representada em festa de fa- 
milia entre os annos de 1542 a 1546, em que foi des- 
terrado da corte. Qual o motivo d'esse desterro? Todos 
OS biographos comprazem-se em attribuil-o aos amo- 
res com Dona Catherina de Athayde, que se torna- 
ram publicos no pa^o. Este facto nào basta para ex- 
plicar a completa desgraga do poeta, que data de 1545, 
quando vemos os rauitos amorès que se davam entre os 
fidalgos e as damas do pa^o, que se acham celebrados 
nos versos chistòsos recolhìdos por Garcia de Resende 
no Cancioneiro geral^ recitados nos serOes da severa 
córte de Dom Joào ii e na de Dom Manoel. Sem que- 
rer formar uma nova lenda da désgra^a de CamOes, 
ousamos comtudo aventar que a Comedia de EUReì 
Seleuco^ que so foi impressa depois dos Philippes, se- 
ria interpretada pelos inimigos de CamOes comò allu- 
siva aos amores de Dom Joào ili, quando principe, pela 
Infanta Dona Isabel, irmà de Carlos v, que seu pae, 
el-rei Dom Manoel, tomou para sua terceira mulher às 
escondidas do filho. Por causa d'està intriga amorosa^ 
estava m nas boas gra^as do mona roba aquelles, que 
Dom Manoel perseguirà, por serem do partido do prin- 
cipe. Na Comedia de El-Rei Seleuco achar-se-hia uma 



NO SECULO XVI 263 

especie de censura por Dom Joào iii nào ter casado 
com sua madrasta corno requeria o povo de Lisboa? 
Vista a luz d'este criterio, a comedia de El-Rei Seleu- 
co é das mais curiosas do theatro portuguez. 

AìUo de Philodemo foi a terceira e ultima come- 
dia escripta por CamOes; em 1555 celebraram-se em 
G6a OS festejos pela successào de Francisco Barreto, 
que succedeua Dom Fedro de Mascarenhas. (1) Camòes 
toraou partes nas festas e escreveu o Auto de Filode- 
rao^ que andou manuscripto até 1587, tempo em que 
foi coUigido por Aflfonso Alvares. Como viria o 
Auto para Lisboa ? Seria do numero d'aquelles versos 
que roubaram a CamOes, dos quaes nuuca leve mais no- 
ticia? Auto de Filodemo resente-se jà um pouco 
do imbroglio italiano, da comedia sostenuta, comò se ve 
pela dupla ac^ào, e mais ainda por um pronunciado 
caracter idylico e pastoril. Pelas allusOes, se ve corno 
a Comedia hespanhola da Celestina era bastante lida 
em Portugal. mo^o Vilardo, descrevendo a criada 
Solina, que levava os recados de Filodemo a Dyonisa, 
compara-a a esse eterno typo inventado por Fernando 
Rojas : 



Como se faz Celestina, 
Que por nao Ihe haver inveja, 
Tambem para si deseja 
que o desejo Ihe ensina. 



(1) Juromenàa) éhras d&Cumóes, 1. 1, p.70. 



254 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Ein outro logar o mosmo Vilardo, fatando um Do- 
loroso ah: <Ja sabeis que està nossa Solinahe tao Ce- 
lestina^ que nào haquem a traga a nós.» Como ver- 
sado na leitura d'esse monumento do Theatro tespa- 
nhol, CamOes descreve ad miravel mente a scena, em que 
Bolina entrega a sua ama uma carta de Filodemo. E 
essa a parte em que apparecem verdadeiros toques que 
definem um caracter. Os outros personagens sào mais 
convencionaes : 



SOLINA : 



DlONYSA 

Sol.: 

DiON.: 

Sol.: 



DioK.: 

Sol.: 

DioN.: 

Sol.: 



Sanhora, a multa a£EeÌ9ào 
Nas Princezas d^alto estado 
NSo he milita admìra9(lo ; 
Que DO sangue delìcado 
Faz amor mais impressalo. 
Se m*ella quizer peitar, 
Prometto de Ihe mostrar 
Uma cousa multo d'arte, 
Que là dentro fui achar. 
Que cousa? 

Cousa d'esprito. 
Algum pouco de lavores ? 
Inda ella nào deu no fìto ? 
Caitiuha sem sobre- escripto, 
Que parece ser de amores. 
Essa é a boa ventura ? 
Bofé que me pareceu. 
E essa donde nasceu? 
No meu cesto de costura ; 
Nào sei quem m'alll meteu. 



dialogo prosegue vivo e chistoso até que Solina 
faz com que a ama queira ella propria ler a carta para 
saber de quem é. Auto é entremeado de prosa e ver- 
so; a prosa variada com as mais pittoresca» locu^óes 
populares da nossa lingua, com ufn tdque profiinda- 



NO SECULO XVI 266 

mente nacìonal, o verso salgado na qnintilha feliz e 
epigrammatica, de vez em quando apimentada com o . 
remate de um anexim, qae parece ter-se feito para 
aquella situa^ào. CamOes obedecia a duas influ^ncias, 
ao theatro nacional, que continuava a tradigào do ve- 
Iho Gii Vicente, e ao cultismo italiano, que às vezes 
o obrigava a converter as scenas em eclogas e pasto- 
raes. Em urna allusào engra^^ada, cita Filodemo um 
typo popular de urna farcia do theatro portuguez, hoje 
anonyma, da qual nào resta mais do que o titulo : €e 
pois o tempo nos nào vem a medida do desejo, vamp- 
nos là; e se puderdes fallar, fazei de vos mil manjares, 
porque Ihe f'a9aes crér, que sois mais esperdiQado de 
amor que um Braz Qìmdrado.i^ No primeiro Index 
Expurgatorio que se publicou em Hespanha em 1559, 
acha-se jà là prohibido «0 Auto de Braz Quadrado, 
por Vicente Alvares.» (1) Este Auto e anonymo, e 
Vicente Alvares é o nome do impressor ; quatro annos 
depois de CamOes o ter citado comò popularissimo, por 
isso que d'esse typo desperdigado de amor tira a allu- 
sào que pOe na boca do moQo Filodemo, cahia sobre 
Braz Quadrado o anathema da Inquisigào de Hespa- 
nha. No Index Expurgatorio de 1624 se prohibe tam- 
bem aO Auto de Braz Quadrado ^ nào se emendando 
corno se nota no Expurgatorio.» (2) N'este tempo a 
eschola italiana inaugurada por Sa de Miranda e con- 



fi) Ciiculo Index, pag. 20, col. 2. 
(2) Index, pag. 96, e pag. 268. • 



256 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tìnuada por Ferreira e pelos quinhentistas, faz pender 
CamOes algum tanto para o bucolismo. No Filodemo 
allude tambem a moda de petrarchismo: «Uns muito 
almofaeados, que com dois ceitfc fendem a anca pelo 
meio, e se prezam de brandos na conversagào, e de fa- 
larem pouco e sempre comsigo, dizendo que nào darào 
meia bora de triste pelo thezouro de Veneza; e gabam 
mais Garcilasso que Boscao, e ambos Ihes saeni das 
màos virgens.» «Eu vol-o direi: porque todos vós ou- 
tros OS que amaes pela passiva, dizeis que o amor fino 
corno melào, nào bade querer mais da sua dama que 
amala; e vira logo o vesso Petrarcba, e o vesso Pietro 
Bembo, atoado a trezentos PlatOes, mais safado que 
as luvas de um pagem d'arte, mostrando razOes verisi- 
meis e apparentes para nào quererdes mais de vessa 
dama que vel-a; e mais até fallar com ella.» Por estes 
factos descreve CamOes e ataca o languor dos costumes 
do tempo, propagado pelo bucolismo. Por estas trez 
comedias que restam do nesso epico se ve que elle com- 
prebendia a creaQào dramatica, que teve sempre para 
si comò accidental; sentindo a grande belleza do tbea- 
tro popular, nào pòde abandonal-o completamente pelo 
cultismo da renascen^a italiana; assim o seu genio ly- 
rico, a grande riqueza das locucòes vulgares, e a re- 
dondilbii cbistosa do tbeatro nacional foram por elle 
accommodadas às fabulas antigas e às pastoraes do 
gesto siciliano. 



NO SECULO XVI 257 

OA-FIT-OnLiO VI 

Antonio Prestes 

Iniiuencia de Gii Viceute sobre o genio do Antonio Prestes. — 
A collec^fto de Autos, feita por Affonso Lopes. — Porquo 
nfto publicou a segunda parte ? — Tempo ein que f oi escriptu 
o Auto da Ave-Maria, — Sua lucta coin a eechola italiana. 
— Auto do Procurador. — Prestes pertenco a primeira uie- 
tade do seculo xvi. 

Antonio Prestes era naturai de Torres Novas, e 
exerceu em Santarem, aonde easou, o officio de enque- 
redor do civel. Sào estas as uuicas memorias que che- 
^arani até nós, e pouco mais espera mos a^Iiantar. Na 
Historia do Theatro portuguez cabe-lhe a niesma parte 
que aos Clerca de la bazoche, do velho theatro francez; 
a sua profissào levava-o a dramatisar as anecdotas da 
vida judicial. Seria talvez em Santarem, aonde Gii 
Viceiite residia, que o ehistoso enquevedor recolhéra 
as tradÌ9òes do mestre; pelo facto de vèr ali repre- 
8enta90es particulares dos seus Autos, tudo contri- 
buiria para acordar-lhe o genio comico. Os Autos de 
Antonio Prestes que aiuda existem, sào em numero de 
sete; antes de 1587 foram escriplos, e talvez repre- 
sentados semente em theatros de provincia, jx)r isso 
que OS seus titulos nào apparecem citados nos Index 
Expurgatorios de 1580 e 1624. E de suppór que An- 
tonio Prestes tivesse morrido antes de AflRonso Lopes 
imprimi r a sua custa os sete Autos, porque na mesilia 
collec9ào vem Autos de Camòes, morto eTXvl5?>Q,^^ 

i7 



258 HISTORIA DO THE ATRO POUTUGUEZ 

Jorge Piato, morto em 1523, e de Jeronytno Ril)eiro, 
talvez jà falleoido, porque ai nào se incluein os Aiitos 
de seii irmào Antonio Ribeiro Ghiado, qiie ainda vivia, 
e so morreii em 1591. Por este tempo jà o tlieatro ti- 
nha locai fixo em Hespanha, a que se chamava pateo 
de comedias, e bem cedo entroii este uso em Portuoral, 
aonde encontràmos logo a mesma desiorna^iìo. Assim 
corno em Hespanlia o producto dos pateos das come- 
dias foi applicado para os pobres, em 1588 Philippe il 
deu o privilegio ex elusivo dos theatros portuguezes ao 
Hospital de Todos os Santos, aonde Gii Vicente em 
1518 repvesentàra. 

De Hespanha saiam bandos de comediantes, cor- 
rendo todas as- terras e representando os mais capri- 
chosos Mysterios ; Cervantes e Rojas descrevem-uos 
meùdamento està grande paixào do povo pelo theatro, 
tornando-se a vida de comediante o valhacouto de fra- 
des renegados, de vadios e soldados desertores. Anto- 
nio Ribeiro Ghiado, frade franciscano, obedeceu a este 
impulso ; sobre estes costumes escreveu Quevedo a 
enirracada novella do Gran Tacano, A vertiofem orerai 
pela representaf^ào das comedias levou o governo hes- 
panliol em 1580 a rennir uma junta de theologos, para 
decidireni se enun licitas as representac^Oes scenica» : 
logo no anno seguinte, em 1587, os Autos de Anto- 
nio Prcstes forain recolhidos, juntos com os de mais 
quatro poetas comicos portuguezes, eiri um volume 
em 4.^, com o titulo : K^Primeìra parte do,s Autos e 
Comedias pai^tugvezas feitas por Antonio Prestes e 



NO SECULO XVI 259 

por Luiz de Camòes, e outros authores portugttezesy cu- 
Jo8 nomes vào no principio de suas ohras, Agora nova- 
niente juntas e emendadas n'esta primeira impressào, 
por Affonso Lopes, mo<;o da capella de Sìul Magestad^ 
e d 8ìm custa. Impressas com licenga e privilegio real 
por André Lobato^ impressor de Livros^ Anno 1687. » 
AfiPonso Lopes, era triodo da Capella de Philippe ir, 
e talvez fillio do poeta comico Anriqne Lopes, auctor 
da Cena Policiana, que elle com amor filial reuniut 
com OS Autos de Prestes e de CamOes ; talvez pelo 
facto de ser mocjo da Capella real tivesse ingerencia na 
Capella do Hospital de Todos os Santos, aonde se da- 
vam representa^Òes a beneficio da caridade, e ai reco- 
ihesse esses Autos dispersos. Affonso Lopes tenciona- 
va continuar a collecQào, corno vémos pelo ti t alo Pri- 
meira parte^ e as circnmstancias que mais o impedi- 
riam, talvez fossem ou ainda estarem vivos t)s auctores 
dos outros Autos que recolhéra, ou entùo a Portaria 
de Philippe ii, de 20 de Agosto de 1588, que prohibia 
todas as representa90es que o Hospital de Todos os 
Santos nào auctorisasse primeiro. A decisào da junta 
dos theologos hespanhoes tambem poderia influir em 
Portugal, e no animo do collector. Sào os segui ntes, 
OS Autos que ainda existem de Antonio Prestes : 
Auto da Ave-Maria (fol. 1 a 2^)^ o Anto do Frocura- 
dor (fbl. 27 a 41), o Auto do Dezenibargador (fol. 61 
a 74), o Anto dos dois Irmàoa (fbl. 75 a 85), o Auto 
da dosa (ibi. 112 a 125), o Auto do Mouro encanta- 
do (fol, 126 a 143), e o Auto dos Cantarinho% (foV. 
163 a 179). 



260 HISTORIA DO THEATitf) PORTUGUEZ 

Auto da Ave-Maria, lembra a primeìra inanein 
de Gii Vicente, quando ainda nào ia mais aléna du 
allegorias dos Mysterios ; o seu estylo e modo de con- 
ceber urna acf;ào dramatica prova a antiguidade do 
Auto, escripto pouco depoìs do trìumpho da Reformft 
na Europa ; aqui sustenta Prestes, que a fé sem ser 
coadjuvada pela rasào é esteril e seni obras. E este o 
resultado do grande niovimeuto intollcctual do seculo 
XVI, que nào poderia ser proclamado vigorando a In* 
quisigào : 



MESTRE : Soia, Ras&o, mate for9ado 
a qae hemos de vir eiii firn. 
£ jà que a gentilidade 
tanto se regeu por vób, 
mais vem regermo-nos nós 
que ein vós pormos a verdade 
que ella em si por vós nSo pós ; 
e tanibein todo o christSo 
que escurece 

quem sois, que vos nSo conhece, 
tìcou cliristdo seui rasSo, 
fé sem obras me parece. 

N'este mesmo Auto diz urna rubrica : e Eììira 
diabo vestido a Italiana, que vem enganar, etc.» 
devassidào dos papas fizera-os no seculo xvi ser coi 
parados ao Anti-Christo. E està tambem a audacia 
Gii Vicente, o que basta para caracterisar o Auto di 
Ave-Maria conio dos mais antigos da sua eschola. 
diabo que entra vestido de Italiano apresenta-se couic 
architecto, para construir um castello; cumpre notai 
que o Infante Dom Luiz, antes de 1535, mandava vii 



NO 8ECUL0 XVI 261 

architectos de Italia para guarnecerem o reino e as 
possessOes de Àfrica, de castellos. A vista d'este facto, 
OS versos que se segaetn quasi que determinam a època 
em que teria side escripto o Auto da Ave-Maria : 



Yo sé las colunas Doricas 
y CoryDthias, y sé mas, 
las Jonicas de la paz 
de la guerra las theorìcas, 
8U8 talles, bases. compas, 
pero acà su manicordio 
BUS retoricas, etc. 



N'este Auto enconlra-se urna allnsào a um Pintòr 
e Architecto italiano, circumstancia que nos farà pre- 
cisar mais a data da sua composigào : 

muy ala suma 
la escrevi, al no presuma 
della el gran Sebastiano 
fui la tinta yo la piuma. 

Este gran Sebastiano que aqui se refere é o celebre 
Bastiano de Sangallo, nascido em 1481, e morto em 
1551: foi um grande architecto, e distinguiu-se comò 
pintor pela sua grande sciencia de perspectiva; falava 
tao bem sobre arte que Ihe chamavam o Aristotile, A 
sua fama chegaria a Portugal, no tempo em que Car- 
los Y entron em Floi^enga, aonde Bastiano se fez admi- 
rar pelos seus talentos scenographicos. A este facto se 
refere Antonio Prestes : 



262 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

pruevR mi Sebastiano 

los thealros de Marcello 

obra nltiva, 

los labré de pedra biva, 

en elles veran ini sello, 

si el tieinpo do me lo priva. 

Eis aqui temos determinado o tempo em que foi 
escripto o Auto da Ave-Marta^ quando Carlos v en- 
trou trìumphante uà Italia em 1529, dominando em 
seguida Florenca. Mesmo avanzando mais alguus an- 
nos sobre està data, se ve que Prestes poderia ter es- 
cripto o seu Auto em vida do Gril Vicente, que morreu 
em 1536, e ter tratado com elle em Santarera, aonde 
ambos residiam. 

A exposÌ9ào do Auto da Ave- Maria ^ j& foi publi- 
cada por Sousa Lobo na Revista litteraria do Porto ; 
por ella nada se fica sabendo da sciencia dramatica de 
Antonio Prestes. Extractando as ruhricas, se ve os 
grandes recursos de scenario. Auto compóe-se de : 
€ Hum .Diaboj a Sensualiàade, a Velhice, a Mocidade, 
Enganado da Vida, Pensamentos vàos todos follan- 
do, h*Jim Cavalleyro , a Razào, hum Mogo de Cavallei- 
ro, chamado Contentamento terrestre, o Mestre das 
Ohras charìfiado Bom Proposito, tres Pedreyros, hum 
Bom Trahalho, outro Bom Servilo, outro Bom Cuyda- 
do, dois PhilosophoSj hum Eraclyto, outro Democrito, 
trez Vigos, tres Potencias, o Esmoler, o Jejtim^ hum 
Ratinho chamado Ganhar para Royns, tres Salteado- 
res, trez Anjos, Miguel, Gabriel j Raphael,ì> Os perso- 
nagens que representam as paixOes mais indomaveis 



NO SECULO XVI 263 

entra va ni em scena € cantando e haylando e tangendo 
com guitarra, pandeiro e adnfe.n A folia depois de 
longos dialogos assenta-se, e fica a Sensualidade fa- 
tando com o Cavalleiro. De ordinario os novos per- 
sonagens vinham sempre cantando. Democrito entra 
€com urna tocha accesagli os pedreiros estào picando 
pedra, tambem ao som de cantigas, que eram roman- 
ces velhos, corno os usava Gii Vicente. N'este tempo 
tambem jà era conhecida a galharda, a qiial dan^am 
o Cavalleiro e a Sensualidade. Prestes procura em tudo 
fazer sentir a depravagào dos costumes italianos, que 
provocaram a Reformat A figura de Esmoler, para 
se fazer conhecer, entra € com urna bolsa na màoit, 
« Aqui entram os trez Anjos cantando Te Deum lau- 
damus, até Sanctus, Sanctus, Dominus Deus salvo, e 
ao Sanctus se repoe em giolhos, e acàbado de cantar 
erguem-se todos trez em pé...» Prestes tambem na ru- 
brica ensina o modo comò devia terminar o Auto : 
a Aqui se recolhem dando urna volta pelo theatro can^ 
tando : Laudate Dominum omnes oreùtes, etc. « en- 
queredor de Santarem, ainda estava embuido das cren- 
9as da edade media ; no Auto cita a lenda de Virgilio, 
que ficou pendurado em um césto por perfidia da sua 
amante Lanuce : (1) 

delieto tao nefando 
tao molesto, 
abominavel doesto, 
que pode estar afEronlando 
mais a Vergilio n'um césto . 

(1) Estudog da Edade Media, na parte em que trat& d«A 
Lendas de Yìrgìììo. 



264 HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ 

Contemporaneo de Gii Vicente, o pobre enqueredor 
do civel nào foi mais feliz do que o po^ta da corte ; 
elle tambem soffreu a petulancia erudita e o sobrece- 
nho de superioridade da escbola italiana, que propria- 
mente come^àra em 1527 : 



Adomou-se com o uzo 

f ala jà por tanta algalia, 

be80 ineDOS, 

que ha cà Italianos 

sem cJ^eyrarem nuncc Italia, 

seni Castella, caetelhanos. 

De modo quo nani abastados 
de o fai arem, mas perdidos 
por Italianos vestidos 
e Veneza nos toucados 
dnlce fran9ano8 ouvidos 
fìm de rasOea nnda tal 
de tal carneyro 
este Portuguez tinteyro 
que estranilo no naturai 
naturai no estran gei ro. 



Estes versos basta vani por si para determ inarem a 
eomposi^ào do Auto da Ave-Maria, pelo facto de se 
referirem às luctas da eschola italiana, se nào tives- 
semos dados mais positi\ os. Nos versos que se seguem 
queixa-se Antonio Prestes do desprezo da cbamada 
eschola velha : 

Tanto tirou isto a luz 
que obras que estrangoiras sfio 
ornas de lumina9fio, 
póe-nas de ten9a e capuz : 
as Portuguezas, no chao^ 



NO SECULO XVI 266 

e he engano I em toda a parte 

ha Athenas 

e ha Purìses e Senas 

e ha materìa e ha arte, 

mas porem faltam Mecenas. 



Sena, aqui, é urna cidade de Italia, d*0Dde era na- 
turai o celebre Lactancìo Tolomei, com qnem Sa de 
Miranda conviveu emquanto andou por Veneza e Ro- 
ma. Tambem Gii Vicente se qiieixou da eschola ita- 
liana na Carta dedicatoria a Dom Joào iii. 

Auto do Procurador pertence as far9a8 dos 
clercs de la bazoche, Tem as seguintes figuras : fiUin 
Procurador^ sua Filha, um seu mogo chamado Duarte, 
e urna sua moga chamoda Phelippa, um Escudeiro ca- 
sodo, chamado Thomaz de Lemos^ outro solteiro cha- 
mado Braz da Silva de Toar, hum AtafoneyrOy e hum 
Ratinho, hum Pagem de hum JidalgOj e outro Escudei- 
ro chamado Matheus de Sovsa, hum vilàoj e hum Rati- 
nho primos de Ambrosio Pegadoj etc. » 

Este Auto tambem parece antigo; ha entre elle e 
a Fragoa de Amor de Gii Vicente, um ponto de ana- 
logia, por se referirera àmbos ao caracter que tomou o 
easamenio com as doutrinas da Reforma da AUema- 
nha. Refere-se proverbialmente ao Conde cfe Partinu- 
ples, eitado comò novella multo lida pela sociedade 
portugueza era Jorge Ferreira, na eomedia Ulyssipo. 
O Auto do Procurador foi escripto ainda no reinado 
de Dom Joào III, comò se deduz dos versos : 



266 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 



Sentay-vo8, senhor doutor, 
nao sabeis que servidor 
tendes em mi, pois sabey, 
que sabe a Rainha e el Rey^ 
que soys meu pay, rneu senhor. 



Auto do Procurador nao foi represeiitado em 
Lisboa ; pelo contrario, o poeta nào sympathisa com 
a vida da corte : 

E T)os ymos a Lixboa, 
e de Lixboa se sòa 
que todos la sfio onrradoB, 
que de pessoa a pessoa 
80 falam desbarretados. 

No Auto dos Dovs IrmaoSy 'Antonio Prestes resu- 
mé o pensamento da pe9a no segui nte argumento : 
f Dote U^maos^ hum Cioso, outro Confiado, suas Mii- 
Iheres, o Pae d'elles, um Moqo, um Compadre do pay, 
Cantores, no cobo do qual Auto se irata corno estes 
dous filhos se casaram a furto do pay e o pay nào os 
guarendo ver, houve quem os me tesse d'amisade, de ma- 
neira que o pay Ihe deu tudo o que tinha, depois que 
Ih'o deu nào quizeram mais ver nem agasalhar, até 
qu4i pay se fez que queria raorrer, e encheu um cofre 
de arerà, e meteu dentro um rifam que diz : Quem se 
desherda antes da morte, e com isto fenece o AutOy etc. » 
tempo em que foi escripto este Auto tambein se póde 
deduzir de urna circumstancia que ai se repete bastan- 
tes vezes. Prestes cita o Palmeirim, cuja primeira edi- 
9110 de Luiz Hurtado, é de 1546. Nos versos diz : 



NO SECULO XVI 267 



Lér-lhei PalmeiHm, eto. 



Nao, é Palmeirim de Franga 
quo nada se Ihe joeira. 
He trigo francez, peneìra 
sera Palmeirim pìlhan9a, etc. 

NSo venham livros d'estorias 
livrar-vos pera raamados, 
'com Palmeirins furtorias, etc. 



A compara^ào com a novella de Palmeirim teria 
eiitào a gra^a de urna allusào coDhecidissima de todos, 
pelo grande interesse que despertàra logo na appa- 
rirà©. Estes versos parecem referir-se a edi(jao tran- 
ceza, e anonynia feita durante a estada de Francisco 
de Moraes em Franga entre 1540 e 1543 ; os versos 
allusi vos a Palmeirim de Franga, e Palmeirim pUhanfa, 
accusam o roubo de Luiz Hurtado. 

Antonio Prestes, muito inferior a Gii Vicente na 
graga e no lyrismo, é o mais distincto poeta da es- 
ehola dramatica nacional. As suas obras sào hoje ra- 
pissi mas ; por felicidade existe um exemplar na Bi- 
bliotheca Nacional, sob o n.^ 1309, de que extrahimos 
copia ; trabalhamos para a presentar uma nova edigào 
dos sete Autos, e por està circumstancia nào analysa- 
mos agora os quatro restantes. (1) 



(1) Aqui agradeceiiios ao nosbo joven e estudioso amigo 
José Oarrilho Videira, a sollicitudc com que nos facilitou o 
obter a còpia dos Autos de Antonio Prestes. 



268 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



a-A.I>ITXTXiO VII 



Jorge Finto 



Dados historicos àcerca de Jorge Finto. — Faclos que provam 
ser o Auto de Rodrigo e Mendo escripto antes de 1523. — 
Roinances caetolharjos no seii Auto. — A influencia caste- 
Ihana. — Typo nncìonal Jo Fidalgo pobre. 



Jorge Pinto é o auctor do* Auto de Rodrigo e Men- 
da^ publieado em 1587 na eollec^ào de Affonso Lopes; 
nada se sabe da sua vida, nem a Bibliotheca Luzitana^ 
nem o Diccionario hihliographico fazem d'elle men^ào 
espeeial. Temos apeuas o seu nome e o Auto para 
nos dirigirem nas investiga^Oes historicas, fios tenues 
e quasi imperceptiveis, mas ainda assim aproveitaveis. 
Pelo seu nome, poderaos suppór, que este auctor seria 
o capitào, que em 1523 foi mandado, junto com Lyo- 
nel de Lima para ataear o porto de Tidore, aonde mor- 
reu barbaramente em uma cilada imprevista. Lé-se 
nos Annaes de Doni Joào III: «Hia Jorge Finto a 
voga arraneada traz a carracoea, e jà com a pròa so- 
bre ella, quando se sente encalhar sobre o recife, e fi- 
car em secco : foy la^o mortai para elle e para seis 
portuguezes e outros quarenta remeiros, que todos fo- 
ram mortos e as cabe9as cortadas. . . » (1) Sera este 
infeliz Jorge Finto o auctor do Auto de Rodrigo e Men- 
do? È preciso attender que a este tempo, tinha Gii 

(1) Op. cit., p. 107. 



NO SECULO XVI 269 

Vicente abrilhantado com os seus serOes dramaticos 
a córte de Dom Manoel, e havia vinte é um annos que 
o theatro portuguez estava fundado ; muitos fidalgos 
portiiguezes culti va vam a scenji, corno vémos, por ex- 
empio, Manoel Machado d'Azevedo, que emquanto fre- 
quentou a córte aprendeu a apreciar essas distra^òes. 
Poderia Jorge Pioto, antes de partir para a India, 
deixar o seu Auto escripto, corno tambem CamOes dei- 
xàra escriptos em Portugal o seu Auto dos Amphytrióes 
e de El'Rei Seleuco, Pela leitura do Auto de Rodrigo 
e Mando, fortalecem-se estas induccOes; ai sedescobre 
um facto, que nos revela ter sido escripto antes de 
1523. Cita-se no auto o poema de Ariosto, o Orlando 
furioso, cuja primeira edÌ9ào é de 1516 : 

Inez : SoÌ8 uni Orlando furioso 
Mendo : E VÓ8 Angelica dama. 

Foi em 1523, que se deu a catastrophe de Tidoref 
e, a contar de 1516, havia bastante tempo para que 
Jorge Fiuto tivesse couhecimento do Orlando furioso, 
e o citasse na composi(^ào do seu auto. Jorge Finto 
era nobre, e a cita9ào do poema de Ariosto caracte- 
risa o que mais tarde se mostrou a evidencia, a gran- 
de predilec^ào da aristocracia portugueza pela eschola 
italiana. Orlando furioso foi muito cedo conhecido 
em Portugal, e achamol-o mais tarde citado nas Car- 
tas de Sa de Miranda, nas de Bernardes, e na epopea 
de Camoos. No Auto tambem apparece citada a come- 
dia da Celestina, de Rojas, publicada ^m \5>^\^\«^^- 



270 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tiiido-se as ecli^Oes todos os annos. Jorge Finto intro- 
diiz ai um personagem castelhano; ibi ainda no tempo 
de Dom Manoel que os chocarreiros de Castella tive- 
ram grande voga em Portugal ; o nesso povo ressen- 
tia-se d'isto. E por està rasào que na comedia appa- 
reeem estes remoques*: 

Mestre : . . . .iiao cuideis que é gra^a, 
vou-vos assi dando a tra^a 
comò he, sem fallar jota, 
a guerra d'Aljubarrota, 
a caldeyra d^Alcoba^a. 

A imita^ào dos Autos de Gii Vicente, usa Jorge 
Finto citar com frequencia os romances populares ; foi 
antes de 1523 que as trovas Castel hanas se haviatn 
apossado dos ouvidos portuguezes, corno se queixa Jor- 
ge Ferreira. De facto Jorge Finto ai emprega corno 
centao os seguintes versos iniciaes de romances caste - 
Ihanos : aEn el mes era de Ahrily etc. — De los mas 
lindos que yo vi, etc. — Nunca fuera cahallero, etc. 
— Las noches siempre acordadas, etc. — Helo, helo por 
de viene, etc. — Riberas del Duero arriba, etc. » Seis 
romances alludidos no pequeno espa^o de um Acto ; 
isto denota o grande interesse e a exagerada curiosi- 
dade que depois do casamento de D. Manoel com tres 
infantas de Hespanha, se ligava nos romances caste- 
Ihanos. Estes factos bastam para provar que Jorge 
Finto é talvez o infeliz capitào trucidado em 1523 no 
porto de Tidore, ou pelo menos, que o Auto do Rodri- 
ffo e Menda foi escripto aìnda no reinado dò Dom Ma- 



NO SECULO XVI 271 

noel. Na colIec9ào de comedias piiblicadas por Alfonso 
Lopes, veni a pahivra novamentey o que dà a en tender 
qiie este Auto, bem corno os ontros, talvez tivèsse sido 
publicado antes de 1587; é de suppòr que os Autos 
colligidos pelo nio^o da Capella de Philippe li, fossem 
de auctores mortos ; Camòes jà n'esse tempo nào vi- 
via, e no secalo xvi, nào impetrando privilegio, o di- 
reito de propricdade litteraria acabava com a vida do 
escriptor. 

Alito acha-se de folhas 42 a 48 da citada collec- 
9ào, com o ti tu lo : «Auto de Rodrigo e Mendo, em que 
entram as jlguras seguintes: Hum Pay com sua Filka, 
hum Mestre das ohras, dous Moqos, hum Rodrigo, outro 
Mendo, hum trabalkador Castelhano; que he namorado 
da Filha, e dous Escudeiros e huvia Moga Ines, e outro 
homem e duas molheres, que cantam, e entra logo o Pay 
e o Mestre, e a Filha, etc,i> Pela leitnra d'elle se des-. 
cobre urna peqiiena objecrtào contra o ter sido escripto 
o Auto antes de 1523, por que cita ai as poesias de 
Boscan, que foram pela primeira vez impressas em 
Lisboa em 1543 : 

HosPEDE : Qiial trova leste, Rodrigo ? 
RoDKiGO : Cuido, aenhor qii'ern Bnsc5o. 
Hosp. : E ein portngiioz ha BuscSo, ptc. 

A isto responde-se, que as trovas de Boscao, isto * 
é, a primeira mnneini d'este poeta, anterior a influen- 
ci:\ italiana, eram muito conhecidas em Portugal, e jà 
nas Cartas de Sa de Miranda, escviptas titvle^ <\^\^\^^ 



272 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

veni OS versos de Boscào citados, tendo-lhe sido offe- 
recidos por Antonio Pereira ainda em manuscripto. 
Tambem n'este Àuto se cita a fórma do soneto : 



Amo : Fizestes alguin sonelo 
quando os vistes ? 

Hosp.: Senhof, nao. 

e iato aqui em secreto 

Sabeis por que os ndo £390 
porque jàqualquer madra^o 
Ihe acliaes nas ludos um soneto. 



A fórma do soneto nào foi introduzida co^n a es- 
chola italiana em 1527 ; jà no Cancionero general de 
Hernando de Castillo, de 1491, apparecem varios so- 
netos. Portante, està refereucia nào derroga a data de 
1523, que tomamos por ponto de partida. N'este Auto 
se cita frequentes vezes a fórma dos vi7anc6^ea^ bastante 
usada nos autos de Gii Vicente ; apparece repetido 
aquelle typo do Fidalgo pobre e do creado faminto, jà 
conhecido uà farga de Quem tem farellos ? e na dos 
Almocreves. Tinha rasào Nicolau Clenardo quando re- 
tratou OS devoradores de rabanetes. Aqui apparecem 
dois versos repetidos no Auto do Physico de Jeronyrao 
Ribeiro : 

Jà se sabe, erros d^anior 
sam duros de pordoar, 

No Alito do Physico vem : 

que OS erros por aniores 
hSlo dignos de perdoar. 



NO SECULO XVI 273 

entrecho do Àuto de Jorge Finto é mal condu- 
zido; tem lances bastante comicos, mas a acgào com- 
plica-se com episodios deslocados. Versa principal- 
mente de um pae, que para fazer a vontade a sua fi- 
Iha, chama um pedreiro para abrir urna janella em 
sitio agradavel a vista ; o pedreiro mette um officiai 
castelhano, que se namora da menina ; a ad9ào inter- 
rompe-se com varias scenas de criados e de alcaiotas, 
até que os amores sào descobertos, o pedreiro caste- 
Ihano dé-se a conhecer comò fidalgo, e recebe a mào 
da namorada, terminando o espectaculo com canto. 
A imperfei^ào do arranjo dramatico revela a antigui- 
dade que ILe attribuimos, e està se confirma na lin- 
guagem e costumes pittorescos a que allude. 



§8 



274 HI&TOBIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



Anrique Lopes 



A sociedade portugueza no Auto de Anrique Lopes. — A tradi- 
9^0 dos Àutos de Gii Vicente. — Seria a Cena Policiana es- 
eripta antcs de 1538? — Parentesco provavel de Anrique 
Lopes com o seu collector Affonso Lopes. 



É este o auctor da Cena Policiana^ em que entram 
asfiguras seguintes: Hum Fidalgo por nome Policiano, 
dois mogos setiSj hum Theodosio, outro Pinarte, hum 
Estudante de casa tambem do Fidalgo^ outro pafjem 
por noms Inofre, hum mutato chamado SoUs: um musi- 
co por nome Licardo, humu damxi Felicena, huma stui 
criada Polifemxi, dois Matantes, etc.n Appareceu este 
Auto impresso na collecQào de Affonso Lopes, em 1587, 
de folha8 42 a 43. 

A. grande analogia que tem no scenario, na serena- 
da, e nas aventuras nocturnas, com a far9a de Quem 
tem farellos? de Gii Vicente, confi rma-nos na ideia, 
de quo està far^a do velho mestre foi representada em 
publico, fora dos serOes do pago, por isso que exerceu 
urna grande influencia, que se conhece tambem no 
Auto de Jorge Finto. Os costumes.que se descobrem 
na Cena Policiana, sào os mesmos que se acham de- 
scriptos na Carta de Nicolau Clenardo ; aqui o Fidal- 
go siie acompanhado de criados; apparecc um mutato 
musico, e um estudante. Se nos lembraniios de que a 
Carta de Clenardo foi escripta em 1535, a presenta do 



NOSECULOXVI 275 

Estudante, vestido de loba, leva-uos a inferir que este 
Auto seria escripto antes de 1538, tempo em qae a 
Uuiversidade se mudon para Coitnbra. Demais, a Cena 
Policiana tem utn lance, qae lembra bem de porto a 
tradii^o de Gii Vicente, no que era liberdade e desen- 
voltura. Quando o pobre Estudante se està reqnebran- 
do ein colloquios debaixo de urna janolla, ^Chega a 
maga com urna gamella de agua e molha o estudante... "» 
A rubrica explica comò se devia fazer a scena, porque 
a caldeirada era sùja : 

Theod : Fizeram-Ihe cà nm jogo 

de gamella 
Inof : De ourina 

Thbod: D^ourìna, e assi béin fina. 

Pelo modo corno o Estudante é tratado n'este Au«- 
to, se póde concluir, que Anrique Lopes nào perten- 
cia a classe escholastica. Elle cita Mancias, mas este 
nome jà se tornara desi^na9ào proverbiai de apaixo- 
nados. Em nm verso diz: «Este jà leu Celestinai^, e 
em outro logar: «Esse velhaco bade ser, por tempo en- 
tra Celestina!» ^ o que mostra a fonte d'onde se inspi- 
rara. De facto o Auto é levado todo em scenas de al- 
covitice, amores de criados, e aventuras nocturnas. 
Podemos dizer, que a Comedia da Celestina de Rojas 
exerceu urna acQào profunda na forma^ào do theatro 
portuguez. Em uma passagem da Cena Policiana vem 
uus versos com referencia aos mulatosj que, pelo tempo 



/ 



\ 



276 H ISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

em que a suppònios escripta, talvez se referisse a Affon- 
so Alvares : 



MulatoB sHo sabedores. 
de gentis abelidades, 
nos pensamentos senhores, 
quo Tìfio desfeain as coree 
quando abonam as calidades. 



E provavel que jà por esté tempo andasse a polemi- 
ca entre AfFonso Alvares e Antonio Ribeiro Ghiado. 
A hypothese da referencia é admissivel, por isso qne a 
Cena Policiana foi representada, corno se deduz d'es- 
tes versos fìnaes : 



FiD. TTiil trampas para roedores, 
vamo-nos cantando d*aqui 
buina cbacota cm scena. 

Lio. Qual diremos ? 

EsTUD. Fonde abi : 

Arrenego de ti Mafoma^ etc. 



Um facto curioso nos occorre, tirado de urna mera 
analogia de nome, e corno tal o apresentamos sem mais 
valor do que urna hypothese infundada: Em 1587, pu- 
blicou Affonso Lopes urna coliec9ao de Autos de varios 
auctoros ; sera por ventura Anrique Lopes, ai recolhido 
entre CamOes e Antonio Prestes, pae ou parente dò 
moQO da Capella de Philippe il, oujos autos imprìmiu 
a sua custaìYt insoluvel a questào, que ainda assim sa- 
tisfai o espirito mais do que ó silencio da Ustoria. 



Nò SECULO XVI à7r 

Manoel Machado de Azevedo 

Tlieatro portuguez iia provincia. — Comedia phantastica repre- 
scntada ao Infante Dom Luiz no solar de Crasto. — As Co- 
rnedias em prosa. — theatro no seculo xvi era o divertì- 
mento principal da aristocracia portugueza. 

• Na Vida de Manoel Machado de Azevedo^ ctinhadò 
de Sa de Miranda, se conta o seguinte, succedido aii*-' 
tes da sua vinda para a córte: «En una (Jccasion de là 
fiesta que todos los anos se celebra à Santa Margarita, 
Patrona de aquel mayorasgo, se ofrecio hazer-se una 

Comedia, j el papel de un Rey, un tio del preso, èra 
en prosa, comò entonces se usava, con que tuvo aca- 
sion aquel Bey de mandar a Manuel Machado, con 
mucho imperio, que luogo mandasse sacar de la prisioti 
a su sobrino. Assilohize, diziendo: Tanto és el respeto 
que a los Beys se deve, que aun a estes no parecerà 
mal obedecerlos...» (1) Manoel Machado havia man* 
dado prender no séu solar a um mancebo por um de" 
lito de amor; e sabendo o tio do rapaz quanto o fidai - 
go respeitava a realeza, serviu-se d'este meio galante 
para conseguir a liberdade do rapaz. Por està anedocta 
se ve que jà existia theatro na provincia, e em casas 
particulares, no reinado de Dom Manoel. Quando de- 
pois do seu casamento Manoel Machado de Azevedo 

(1) Vida de Machado de Azevedo^ p. 18. 



278 H ISTORIA DO THEATRO POBTUGUEZ 

voltou da córte para o seu solar, foi recebido em Ca- 
vado e Crastoconi: «Fuegos, Toro», Caflas, Comedias, 
Mascara», Musicas, Suertes, DaQ9as, Folias, y todo o 
genero de festejo y regocijo, que entre Diiero y Miho 
se usa, y se haze eoa toda perfecion ; que por no alar- 
gar el discurso doxainos de referir.» (1) Quando nas- 
ceu um filho varA^ a Manoel Machado de Azevedo, vie- 
raui a seu solar de Crasto o Infante Doin Luiz e o Car- 
deal Dom Henrique, entao Arcebispode Braga: «Hu- 
vo en aquelles tres dias que en Crastro se detuvierou 
los Infantes, fuegos, cailas, toro», comedias y todo lo 
demas que en aqella regiou se tiene por festejo.» 
Vivia Manoel Machado de Azevedo triste por nào ter 
filho varào, e quando Ihe nasceu o seu herdeiro Fran- 
cisco Machado, o Infante Dom Luiz e o Cardeal Dom 
Henrique vierain de Lisboa assistir ao baptisado. O 
Marquez de Montebello descreve-nos a esplendida co- 
media representada a chegada dos Infantes ao solar de 
Crasto: «Llegaron. pues, estes al Rio Càbado, anti- 
guamente Celando, y de una fingida gruta que estava 
en una pefla, que unas aguas cercan, salieron en un 
barquillo un viejo venerable, que representava el Rio, 
. con tres Ninfas, que traian en las manos tres salvas 
de piata muy curiosas, e ofreciendo en bubenos versos 
el Rio el transito de sus aguas, en los mismos fueron 
las tres Ninfas a cada uno de los Infantes presentando 



(1) Obra cit, p. 34. Ibid. p. 61. 



NO SECOLO XVI 27^ 

8U8 salvas, una la primeira de jacintos, la segunda do 
amatistas, y de crystales la ultima, piedras que entre 
las arenas de aquel Rio y sus margeus se cogeu^» — 
«Apenas avian los lufuntes recebtdo sus salvas, quan- 
do de eatre los arboles de la otra parte les hizierou una 
salva de mas de dosmil mosquetes, y aroabuzes, y todog 
en un tiempo tan couformes, que todos se oyeron jun- 
tos, y ninguno fue segundo. Assi lo tenia Bernardin 
Machado prevenido, y de entre los nublados de la pol- 
vora, que toldaron el Sol, el Ayre y el Rio, salieron doze 
barcos, imitando otràs tantas galeras, que divididos 
en dos partes, fingieron una batalla de Maltezes (07 
se dize assi, que entonces eran de Rodas) y Turoos. 
Estes con sus Turbantes, y essotros con sus Abitos, 
de que Bernardin Machado que en aquel dia era Gran 
Maestre, dando a mas de ochenta la misma Cruz que 
traia. Venció San Juan, paro la batalla, aclaró-se el 
ayre, vieronse las bien fingidas galeras, remos, y for- 
<^ados y eran estes voluntariosMusicos, que para aquel 
transito tenian estudiado muchos y varios tonos, que 
cantaron, divididos a coros por los peiiascos del Rio, 
mientras los Infantes y teda la Corte passo à la otra 
parte de Entre Homem y Càbado.»—«« Estava el des- 
embarcadero entre arboles, y penas, corno oy està, y 
de entre ellos salieron en figura de Sirenas las muge- 
res de mejores caras que entre aquellas labradoras se 
hallaron, con sus sonajas y otros instrumentos de que 
Qsan, cantando coplas, annque no cultas^ significati- 



280 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

vas de la voluntad con que los recebìan. Bìen cantan 
las Sirenas, dixo uno de aqiielles Prìncipes a Manoel 
Maohado. Tainbiea, respondió el, encantan a su modo, 
y mas encantaran sì no temieran las visitas que por 
aqui manda hazer el seflor Cardenal, para examen de 
su vida, y emienda de sus delitos.» (1) 

Manoel Maohado de Azevedo passara a sua moci- 
dade na córte de D. Manoel, e ali assistira por certo à 
representa^ào dos Autos de Gii Vicente. Auto phan- 
tastico representa do a chegada dos Infantes, tem o ca<- 
racter d'esses entremezes da córte de Dom Joào ii. 
Nos versos que restam d'este fidalgo se conhece que 
elle nào seguiu a eschola italiana, e é por isso que o 
filiamos na eschola nacional de Gii Vicente. 



(1) Vida de Manoel Machado de Azevedo^ pelo Marquea 
de MoDtebello, cap. vi, p. 56 a 58. 



NO SECUXiO Xyi 281 



OAJPITXJIjO 



Balthazar Dias 



0> theatro no tempo de Dom Sebastifto. — infeliz monarcha 
mandava representur iia sua meiùiiice os Autos de Gii Vi- 
ccDte. — Balthazar Dias allude aos desastres de Alca9er Eibir. 

— Auto de Santo Aleixo, representa o estado de ospirito 
do povo portuguez depois da perda de Africa. — Segue a 
Legenda Aurea de Voragine com mais liberdade do que 
AiÉonso Alvares. — Os seus Autos acabain com um euterro. 

— Influencia hespanhola e pressdo do terror religioso. — Bal- 
thazar Dias é o poeta portuguez mais popular e o menos 
originai V 



De todos OS. poetas dramaticos portagaezes, é este 
o mais oonhecido e atnado pelo povo ; tiaha o segredo 
com que fazia enteuder-se pela grande e ingenua alma 
da multidào, — era cego. Os seus Autos representam-se 
por quasi todas as aldeias aonde ha um barbeiro dado 
a leiturasou uin sapateiro versejador. Era naturai da 
ilha da Madeira; a falta de conhecimento do anno em 
que nasceu, sabe-se que floresceu no tempo de el-rei 
Dom Sebastiào. Pelo menos este versos do Marquez de 
Mantua, que ainda anda nas màos do povo, parecem 
alludir a morte do monarcha em Alcacer Kibir, em 
1578: 

Quem viu o senhor Infante 
Tarn pouco ha f azer guerra, 
E ser nella tao possante, 
E agora em um instante 
Ser tornado escura terra. 



282 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

El-rei Dotn Sebastiào tambem lierdara o gosto 
das i*i$presenta9òes de seus avós, el-reì Dom Manoel 
e Dom Joào in, de seu.s tios o Infante Dom Luiz e 
Cardeal Dom Heurique, e de seu pae o principe Dom 
Joào. Na sua meniuioe comprazia-se a mandar repre* 
sentar os Autos de Gii Vicente. Em 1562 assim o re* 
velava Luiz Vicente, no prologo da editilo dos Autos 
de sea pae, a elle dedicada: «E porque sei queji 
agora n'essa edade tenra de V. A. gosta muito d'elles, 
e OS le e folga de ouvir representados^ tomai a minhas 
costas o traballio de os apurar e fazer imprimir sem 
outro interesse senào servir V. A. com Ih'os dirigìr, 
e cumprir com està obrigagào de filho.» (1) A eate 
tempo contava el-rei Dom Sebastiào cito annos de 
edade, e os Jesuitas nào receiavam que os Autos do 
velho Gii Vicente o pervertessem. 

Index Expurgatorio de 1581, nao tendo tempo 
para indicar a muita correcgào de que precisavam os 
Autos de Gii Vicente, mandou que se riscasse in li- 
mine o prologo de Luiz Vicente, talvèz por declarar 
està predilec9ào do desejado e infeliz monarcha. 

Se Dom Sebastiào tivesse vivido, u'elle encontrarui 
Balthazar Dias um apreciador; os seus Autos sao es* 
criptos em tempo de geral calamidade; as tradi^M 
nacionaes estavam ofFuscadas para se pòrem em scena. 
Balthazar Dias, com o seu genio dramatico, fez o qoe 
faz um catholico na occasiào de um desastre, virou-se 

(1) Obras, t. i, p. xsxvu. 



NO SECULO XVI 283 

para os Santos; os gens Autos sào corno os de AfFonso 
Alvares, pertencem inteirameute ao theatro hieratico. 
Adoptoa tambem o verno da redondilha popalar, e a 
quintilha usada sempre no theatro naoional ; n&o Ihe 
eram desoonhecidos o theatro hespanhol nem os Bo. 
manceiros d'onde tiroa o assumpto da sua tragedia do 
Marquez de Mantua; tìnha a tradi^ào pura da edade 
inedia, corno se ve pela predilecQào com qne extrahiu do 
Specvlum historiale de Vicente de Beauvais a lenda 
do cyclo de Carlos Magno, a que elle chamou a Histo^ 
ria da Imperatriz Porcina e do Imperador Lodonio. 
Muitas das suas obras desappareceram ; tudo o que 
escreveu foi estropiado pelo Santo Officio; o que ainda 
resta sàlvou-se pelo grande amor que o povo portuguez 
dedica às folhas volantes d'este grande confidente dos 
pobres e miseraveis. 

Como Affonso Alvares, dirigido pelos conegos de 
Barn Vicente e frades de Sam Francisco, Balthazar 
Dias tambem foi procurar na Legenda Aurea de Vora- 
gine a origem dos seus Autos. De todas as pe^as do 
theatro hieratico, o Auto de Santo Aleixo é o mais ce- 
lebre; Balthazar Dias inspirou-se da tristeza do seu 
tempo; a perda de Dom Sebastiào^ a incerteza do povo 
que nào sabia se o seu rei deixara a purpura para ser 
peregrino e ir fazer penitencia a Jerusalem ou se real- 
mente morrera no plainos da Africa, refletem-se sen- 
timentalmente np ty^o de Aleixo j que deixa sua esposa 
na noite do seu noivado, troca as suas roupas pelos 
andrajos de um mendigo, vae adorar os logares san* 



^4 HISTORIA DO THEATRO P0RTUGUE2 

tos, voltando desconhecido e vivendo dezessete annos 
debaixo de uma escada em casa de seu pae. pavo 
portu^uez tinha rasào para estimar este Auto, onde 
en centrava symbolisado o desejado monarcha no eneo- 
berto esposo. Auto de Santo Aleixo encontra-se es- 
cripto em francez no secalo xiv, publicado por Fran- 
cisque Michel e Monmerqué; porém Balthazar Dìas 
nada tem de commum com esse originai mais antigo* 
Inspirou-se directamente A?^. Legenda Aurea e da saa 
cren9à fervorosa, que o eleva a uni perfeito lyrismo 
digno da eschola 4^ Gii Vicente. Para se conhecer o^ 
argumento do Auto, extractamos aquellas partes con- 
tadsiS por Voragine, de que Balthazar Dias se nprovei- 
tou, para que depois se véja corno soube adiniravel-' 
mente tirar de meros incidentes grandes lances dra- 
maticos: «Aleixo foi filho de Euphemiano, homem 
accrescentadissimo em dignidade, o o primeiro na cór- 
te do imperador. 

filho era instruido em todas as sciencias 

liberaes e em todas as arte» da philosophia. Logo que 
foi homem, escolheram para elle uma infanta da casa 
real, e deram-lh'a por esposa. E tanto que a noite 
veiu, deixaram os esposos sósinhos. Entào o santo ra- 
paz come9ou a instruir sua mulher no temer de Deos, 
e a recommendar^lhe a virgindade. Deu-lhe depois 
um annel de curo para guardar, dizendo: — Bece- 
bei-o e guardae-o, até quando Deof quizer, e que o Se- 
nhor seja entro nós. — Tornando entào uma parte da 
sua fortuna, foi para as bsuidasdo mar,, e embaveon- 



NO «fìCULO XVI 286 

escoudidameate, dirigindo^se para a eìdade de Laodi- 
cèa e d'ai para Edessa, cidade da Syria, aonde «e con- 
serva em ama toalha urna ìmagem de Jesus 

Nào ficava das esmolas que recebìa senào com o bas- 
tante para aquelle dia, dìstribuindo o resto pelos ou- 
tros pobres. Seu pae, lamentando o desapparecimento 
de Aleixo, mandou os seus escravos por todas as par- 
tes do mundo, que o procurassem com muito cuidado; 
e quando os escravos chegaram a Edessa, Aleixo os 
reconheceu porém elles nào o conhoceraui, e deram-Ihe 

esmola comò aos outros pobres Todo o 

povo concebeu por elle uma grande vonera^ào. Porém 
Aleixo, fugindo da vangloria se retirou para Laodicéa, 
d'onde embarcou para ir a Tarso, na Sicilia ; mas ba- 
tido pelos veutos o navio arribou a um porto porto de 
Roma. E Aleixo disse entào: aPermanecerei desco- 
nhecìdo em casa de meu pae. » Os creados da casa fa- 
ziam escarneo d'elle, muitas vezes deitavam-lhe sobre 
a cabe9a agua das panellas, dizendo-lhe muitas inju- 
rias. Soffria tudo com paciencia, e permaneceu deze- 
sete annos em casa de seu pae. Sendo-lhe revelado 
que o firn de sua existencia era chegado, pediu tinta e 
papel e escreveu a narra9ao da sua vida. 

«E no domingo, depois da missa, uma voz celeste 
se fez ouvir: «Procurae o bomem de Deus, encon- 
tral-o-heis em casa de Eupbemiano.» Perguntaram a 
Eupbemiano o que aquillo era, e nada soube respon- 
der; entào os imperadores Arcadie e Honorio, com o 
papa Innocencio foram a casa de Eupbemiano; e oste 



286 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

correndo para Aleixo o encontrou morto. Quiz tirar- 
Ihe das màos o papel e nào pòde. Preveniu os impera- 
dorea e o papa, que Ihe disseram: «Yamos, e tomeiTios 
esse papel para saber o que ai està apontado. • E o papa 
aproximsindo-ae, pegou no papel, que os dedos do mor- 
to abandonaram logo. papa o leu em presene^ de 
Euphemiano e de todo o povo. E Euphemiano ouvin- 
do isto, foi tornado pela dòr, e caiu em terra sem sen- 
tidos. .... £ a mile de Aleìxo, ouvindo iste, rasgou os 
seus vestidos. ... E a mnlher de Aleixo dizia tambem: 
tAi, viuva fiquei, com toda a esperan9a e consola^ào 
perdidas.» 

Sào. bellas as situagOes dramaticas que offerece està 
lenda agiologica ; nenhuma tal vez se prestava a um mais 
sentido lyrismo. Balthazar Dias possuia todas as condi- 
9òes para a interpretar admiravelmentercren^a firme, 
ignorancia dos modellos classicos, e a lingnagem e dic- 
^ào privativamente popnlares. Auto de Santo Aleixo 
tem Ulna barbaridàde semigothica, que o torna pittores- 
co; OS personagens com algum tanto da immobilidade 
contrafeita das imagens das illuminuras, tem comò 
ellas um colorido vivo, e o que mais admira, certa ex- 
pressdo raoral. Balthazar Dias inspirava-se da pobre- 
za, comò os poetas mendicantes do seculo xil e xiii ; 
pobre e cego, comò nao sentina està estroph(i : 

Riqueza nào hei mister. 
Porqiie eu pobro nasci, 
E pobre heide niorrer ; 
Nào quero, Senhor, de ti 
Senào poder-me soffrer. 



NO SECULO XVI 287 



Rogo a tua deniencia, 
Se pobreza me qner dar, 
Que me qaeira coDSolar 
Com alguma paciencìa 
Para n&o desesperar. 



No Auto apparece tambem o Diabo, segundo a tra- 
di<;ào conservada do tempo de Gii Vicente; entra umas 
vezea de pobre, oiitras, vestido de cortezào para ten- 
tar Àleixo. Os intervallos sào preencliidos com bym- 
no8 da egreja, corno o Te-Deum laudaimts; Anjos, Pa- 
pas e Cardeaes entram em scena, corno em um còro do 
trissagio. Aonde Baltbazar Dias se mostrou verdadei- 
ramente poeta foi na scena da carta, em que modifica o 
espirito da Legenda Aurea. Euphemiano aproximou- 
se do cadaver de Aleixo e nào pode tirar a carta; os 
quatro cardeaes, o papa, e o imperador foram jìorseu 
turno requerer o morto para que Ihes deixasse ler a 
carta, e nenhura conseguin tirar-lh'a da mào; veiu sua 
.màe Aglais, e tambem nada conseguiu. Aproxima-se 
sua esposa. Sabina, e o defuncto abre a mào e dei- 
xa-Ihe tirar a relapào contida no escripto, A scena é 
shakespireana em quanto à inven^ào; levado pelaideia 
catholica, Balthazur Dias nào deixa irromper livre o 
sentimento; aonde elle se mostrou poeta foi na predilec- 
9ào do morto pelo pedido de Sabina. Auto acaba com 
Ulna procissào de eu terrò, em que os quatro cardeaes e 
o papa vào cantando entre braudOes funereos o hym- 
no In exitu Israel de Aegypto. Medonha impressào 
deixa a pe^a, verdadeiro retrato de um seculo e de um 



i 



288 HISTORIA DO TH EATRO PORTUGUEZ 

povo entristecido pelo mais exagerado catholicismo. 
theairo assim, em vez de ser urna alegria da vida, urna 
festa, é peior do que um naufragio, é o verdadeiro pre- 
parativo para as procissOes do Qiieirnadeiro. De que ou- 
tro modo podia ser o theatro de um povo para quem 
as unicas festas nacionaes que Ihe deixaram, foram a 
mascarada do sambenito e caroclia^ os sermOes aterrado- 
res e as extorQòes dos relapsos devorados no póste das 
fogueiras do Rocio? theatro de Balthazar Dias reva- 
ia o estado da alma portugueza ; manifesta am grande 
sentimento lyrico, abafado por uma religiào desolado- 
ra, que se OQmpraz em espoctacnlos de morte. O Auto 
de Santo Aleivo ainda hoje se representa pelas aldeias^. 
o que deixa a mi a triste verdade, que explioa a canstd 
inevitavel da nossa decadencia, — um profundo obecu^*^ 
rantismo religioso que atrophiou as mais beliaa quali- 
dades moraes, e matou a alegria e as faculdades crea- 
doras na vigorosa ra^a mosarabe. 

Auto de Santa Catherina, de Balthazar Dias, vae 
para trez secuios que abrilhanta o repertorio do thea-J 
tro popular, sem ter- ainda decahido da admira9ào sin- J 
cera. povo das ilhas dos Agòres canta uma oragàoa 
Santa Catherina, (1) em que parece ter formado a sna 
lenda sobre o Auto de Balthazar Dias. Mais uma vez, 
seguiu o cego dramaturgo a lenda de Jacob de Vora- 
gine, verdadeiramente epica, cujo caracter grandioso 
Lào està perfeitamente em harmonia com a fórma dra* 

(1) Canios populares do Archipelago agoriano, pag. 155. 



NO SECULO XVI 289 

I 

matica. No Auto de Santa Catherina tambem nào ha a 
admirar o genio da inven^ào; pertence ao espirito me- 
diévico, e nào ao poeta portuguez. A fórma é em verso 
nacional da redondilha; as falas em decimas dàoì)ellos 
efFeitos para a recitagào, mas tirara ao dialogo a viva- 
cidade, tornam-o uma ligào, um disciirso. Apparecem 
em scena Jesus Christo e a Virgem, cantam-se hy- 
mnos da egreja, comò a Ave Maria ^ Laudate Dominum 
omnea gentès. A scena em que Santa Catherina argu- 
menta com os Doutores, respondendo-lhe as mais re- 
montadas subtilezas é pouco theatral, mas grandio- 
sa. Em scena é degoUada a Virgem ergotista, e dian- 
te da raultidào dà-se o milaofre de correr leite em lo- 
gar de sangue. Auto termina comò todas as pe^as do 
theatro hieratico, com um en terrò. Era este o grande 
lance que se queria trazer presente a memoria do po- 
vo ; n'este tempo a multìdào divagava pelas ruas depois 
da meia noite, resando o tercjo pelas almas dos finados, 
seguida de archotes e campainha, entro lamentos de 
embugados, e tropelias de vagabundos. Taes eram os 
costumes da sociedade portugueza no tempo de Dom 
Sebastiào, corno nol-os dqscreve Dom Francisco Ma- 
noel de Mollo, na far9a do Fidalgo Aprendiz, Auto de 
Santa Catherina em tu do re ve! a ser obra composta se- 
gundo as exigencias do um povo fanatisado; fala-lhe 
da heresia e da morte, do nada das cousas da vida, do 
castigo irremissivel, mas nenhum d'estes sentimentos 
é verdadeiramente humano; a sua falsidade manifes- 
ta-se na banalidade convenciònal das situaqOes dram^- 

19 



290 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

ticas. A grande popularidade de Balthazar Dias esta- 
va em ser perfeitamente povo, e corno elle atribulado 
por urna religiào desesperadora. Escreveu mais alguns 
outros Autos hieraticos, corno o Auto do Nascimento 
de ChristOj o Auto d^El-rei Salomdo e o Auto breve da 
Paùcào, condemnados e totalmente extinctos pelo San- 
to Officio. 

Pela traduc^ào que fez Balthazar Dias do romance 
do Conde Alarcos, Hetrahida està la Infanta, e pela dis-' 
posi^ào dramatica dada aos romances do Marquez de 
Mantuttj se ve que as siias atten90es estavam voltadas 
para a rica letteratura popular de Hespanha. Foì um 
dos que mais contribuiu, no firn do seculo xvi, para dar 
ao romance anonymo a forma erudita usada por Lope 
de Vega, la Cueva, Sepulveda e outros muitos. Ao ro- 
mance do Marquez de Mantua, que ainda hoje and a nas 
folhas volantes, (1) chamou tragedia, separando a par- 
te descriptiva para as rubricas, e deixando ficar as nar- 
ragOes notadas com o nome do personagem. Cavai hei- 
ro de Oliveira, se é que Garrett se nào serviu d'este 
nome para falsificar a poesia popular. recolheu urna es- 
pecie de introduc9ào ou prologo à tragedia. A versifi- 
ca^ào e sobretudo a linguagem pittoresca sào genui- 
namente populares e admiraveis ; porém a inven^ào fal- 
ta-lhe; pertence a Trovino ou aos romancistas anony- 
mos, que atrevidamente. chasquearam com essa negra 
peripecia o brilhante cyclo de Carlos Magno. Lope de 

(1) Romanceiro e Cancioneiro g eroi por tugucz, t. v, pag. 62. 



NO SECULO XVI 291 

Vega tratou em urna das suas admiraveis comedias o 
assumpto do Marquezde Mantua; nào seguiu corno Bal- 
thazar Dias a cantilcDa dos Roinanceiros, recompoz 
pelas situacOes tradicionaes a vida moral, a paixào, e 
seguiu a fatalidade dos factos; fez comò os tragicos 
gregos, que se inspiravam das tradi^òes homericas, im- 
primindo pela intuìgào profunda da vida, movimento 
•e paixào no vulto immòvel da grandeza epica. Baltha- 
zar Dias pressentia que o theatro tragico tinha milito 
para crear sobre as grandes lendas raedievaes; mas fal- 
tava-lhe o conhecimento do mundo moral, cojibecia a 
vida sómente pelo acanhado prisma do catholicismo 
prepotente, faltava-lhe a faculdade concepcional, nàjo 
}>oclia libertar-se das situa^òes taes comò as recebera 
na sua primeira impressào. Balthazar Dias é o prime!- 
ro poeta popular, mas aquelle em querp se nào encontra 
originalidade; n'isto mesmo representa o estado da al- 
ma d'oste pobre povo portuguez. Como vimos, os seus 
dois ^4 1/^05 de Santo Aleixo e Santa Catherina, sào tira- 
dos da Legenda Aurea de Voragine, sem aquella' auda- 
cia de recomposi^ào que se encontra nos autos hiera- 
ticos de Gii Vicente; a sua tragedia do Marquez de 
Muìituu, basèa-se sobre os romances da Floresta de 
Tortejada, a sua Ilistoria da Imperati'iz Porcina é tra- 
duzida, corno usava Sepulveda e os Romancistas cul- 
tos, do Sppcidum historiale de Vicente de Beauvais. Os 
seus Autos foram dos qne soffreram mais cortes no In- 
dex Expurgatorio de 1624; o Santo Officio julgava ain- 
da pouco negras as còres de que o poeta catholico se 



292 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

servirà. A alma portugueza ainda nào despiu o lucto 
inquisitorial, e continua, comò no tempo das foguei- 
ras, a representar ao ar livre, dentro em graneis, ou 
debaixo de toldos, os Autos do infeliz cego da Madei- 
ra, e alegrar-se-ha com esses milagres sinistros, em 
quanto alguma mào previdente nào trabalhe por ar- 
rancal-a do seu pezadello religioso. 



NO SECULO XVI 293 



oa.i»itxtijO 2s: 



SimSo Hachado 



Primeira influencia hespanhola no theatro porluguez. — Deca- 
dencìa da lingua portugueza. — Simdo Machado raramente 
se serve da lìngua nacional. — As suas comedias nSo sfio re- 
presentaveis pelas difficuldades da decorando. — A Comedia 
de Diu e a Comedia Alfèa estào incompletas. — Simào Ma- 
chado representa o ultimo esfor^o do theatro do seculo xvi 
entre a invasSo hespanhola e a Opera italiana. 



É este o ultimo poeta comico do seculo xvi. Nas- 
ceu Simào Machado na Villa de Torres Novas, do Pa- 
triarchado de Lisboa, terra nobilitada por ter sido o 
ber^o do celebre escriptor dramatico Antonio Prestes. 
Pelas poucas noticias que restam, recolhidas nos archi- 
vos monasticos por Diogo Barbosa, sabe-se que foram 
seus paes Tristào de Oliveira e Garcia Machada. Nas- 
ceu no ultimo quartel do seculo xvi, por isso que jà 
era 1601,andavam impressas as suas comedias por Pe- 
dro Craesbeeck. Os grandes desgostos nacionaes, que 
decorreram de 1578 a 1640, fizeram-no abandonar o 
seculo, indo professar a regra de S. Francisco de Cas- 
tella, em ura convento de Barcellona, com o nome de 
Boaventura Machado. Sabe-se que ainda viviaem 1631, 
pelo facto da segunda impressào das suas comedias em 
Lisboa, por Antonio Alvares. Duas sào as comedias qne 
escreveu, e ambas incompletas, a Comedia de DiUy e Os 
encantos de-^Alfia. Conhece-se n'ellas todas as influen- 
oias litterarias que se manifestaram sob a dominac^o 



294 HISTORIA DO THEATRO PORTUQUEZ 

hespanhola. A lingua portugueza estava completamen- 
te Jibandonada; era um prologo, Manoel de Galhegos 
se queixado considerarem geralmente o portuguez co- 
mò a Hnguagem sóraente falada pelo baixo povo, e o hes- 
panhol preferido para todos os escriptos; ai louvatam- 
bem Gabriel Pereira de Castro por ter tido a coragem 
de escrever a Ulyss^a em oitavas portuguezas. As duas 
comédias de Simào Machado, terao quando muito urna 
terqa parte escripta em portuguez; nào segue a tradi- 
gào de Gii Vicente, que se servia do hespanhol quando 
queria fazer falar os diabos, os villàos, ou as allegorias 
dos peccados; a linguagem nacional é falada nas co- 
médias de Diu e Aljea seciindariamente, so na scena 
de baixa comedia entro soldados bisonhos, ou entre za- 
gaes e cabreiros. No fim da segunda parte da comedia 
de AlfeUj Simào Machado descnlpa-se d'està increpa- 
^ao: 

por naturesa 

E con8tella9ao do clima, 
Està na9ao portuerueza 
iiada estran gciro estima, 
muito dos seus despreza. 

Vendo quam mal acceitaes 
As obras dos naturaes, 
Fiz està em lingua estrangeira 
Por ver se d'està maneira 
Como a elles nos trataes. 
Fio-me no castelhano, 
Fio-rae em dar novidade, 
Se n'uma e n'outra me engano, 
Vós Portugal, eu o panno, 
Cortae à vossa vontade. (1) 

(1) Comedias portugueza%^ p. \W, ^^. ^vi VlQi&. 



NO SECULO XVI 296 

Estes versos explicam o motivo da decadencla do 
theatro portuguez no secalo xvii, e a rasào por quo J^e- 
ro Salgado e Jacintho Cordeiro escreviam em hespa- 
nhol. No principio e firn de cada comedia usa Simào 
Machado trazer algumas quintilhas, em que expOe um 
conto que applica àsua situa^ào; sào verdadeiras pero- 
las do nesso decamerou; por esses pequenos contos se 
ve que o poeta era guerreado, talvez pelos que despre- 
zavam a arte nacional. Por essas quintilhas poder-se- 
hia talvez inferir que as suas comedias foram represen- 
tadas, o que apezar de tudo ficarà duvidoso. Diz Si- 
mào Machado no principio da Comedia de Diu: 



Se com seu favor me amparam, 

Minhas for9a8 se preparam 

A emprehender cousas t£lo gran dea; . . 



Que distrinsa este murganho, 
A linguagem de Castella? 
E eu cachòpo tamanho 
Que nSo sci trìncar por ella 
Por mais que a isso me amanho. 
Ja qu'estar en Pertigal 
Palrar comò pertigues, 
Que essa linguagem he bosal. 
Alfèaj p. 117. 



Este trecho mostra a confirma^ào do que diz Ma- 
noel de Galhegos, que no principio do seculo xvii a 
lingua portugueza so erafalada pelo baixo povo. N'es- 
ta scena, Thomé queixa-se de nào saber ainda falar 
castelhano; o outro diz-lhe jà que està em Portugal, 



296 HISTORIA PO THEATBO PORTUGUEZ 

qiie fale comò portuguez, que a lingua casfcelhana é 
bogal. 

^o firn da primeira parte da Comedia de Diu, véra 
outra vez as quintilhas corno epilogo, e entro ellas urna 
em que o actor defende o auctor: 



Assim de sabios se jactam. 
Sendo o de que lem mór mingua^ 
Que aquillo que nao desatam 
Co' entendimeiito, tratam 
De o cortarem com a lingua. 

auctor senti n do em si 
De faltas um la9o forte, 
Lhes manda pedir por mi, 
Que haja por elle aqui 
Quem desate, e nfto quem corte. — Fol. 44. 



No fim da Comedia de Diu^ fazendo a coraparagào 
da generosidade de Alexandre com a pobreza de Bian- 
ses, diz: 



Digno de tanto louvor 
Sois vós, illustre Senado, 
Bianses pobre o auctor 
De favor necessitado. 
Cuja filha é a Comedia 
Que com o favor, presada 
Deseia ser emparada. 
Por tanto, Alexandre vede-a 
Pois a vós veni dedicada. 
Dae-lhe o favor por amparo 
Por consorte e per marido 



Louvae sempre os Portuguezes 
Pois sSo vossos naturaes, 
Pois OS extraulios louvaes 



1?0 SEOULO XVJ 297 

E ja que voa vena servir 

O aoctor, Senado nobre, 

Dé-se-lhe o quo vos vem pedir, 

Qae elle é Bìanses o pobre, 

VÓ8 Alexandre em ouvir. — Pag. 102. 

No firn da seganda parte da Comedia de Mfta, vem 
ontras qiiintilhas, dirigidas àos que ouviram a repre- 
sentagào, tirando a allegoria dos manjares fingidos do 
banquete de Heliogabalo: 

Assi, illustre Senado, 
Todos 08 que estaes presentes 
Yejam se é bem applicado : 
O auctor — «- Bei que convida, 
Os òuvintes — convidados, 
As figuras — a comida, 
E 08 manjares pintados 
%%\.2k Comedia escolhida. 
E por ser bem recebido 
Este banquete, Ibe pe9o, 
Senado claro e subido, 
Todo o silencio devido 

• 

Por premio do que meteco. — Pag. 188. 

De todas estas cita^óes se ve, que Simào Machado 
se desculpava diante de um certo publico que ouvia, 
e a quem recommendava comò premio mais digno da 
obra, o escutal-a em silencio. Ainda assim poderiam ser 
estas quintilhas escriptas de antemào para quando as 
comedias fossem representadas, o que seria talvez mui- 
to provavel, attendendo às grandes decora90e8 e mu- 
dan9as do scenario que exigiam. 

Na Comedia de DiUj entram os Mouros e Christàos 
pelejando ; quando o rei mouro corta a cabe9a de Ro- 



298 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

ne a vista de todos, sua mulher Glaura tonia-a nas 
màos e envolve-a n'uma toalha, e para resistir a sedu- 
CQào do rei, que inandou matar-Ihe o marido para a 
desposar, « tira de um canivete^ finge que se da muitas 
feridas no rosto de modo que fica mui disforme. » De- 
pois de en tregue Diu, fuTangemcharamellaSjCorremas 
cortinas e apparece um arco d*esta mxineira: estard 
urna figura c'os bragos ahertos, sera de mulher com um 
mote ...» — a Na mRo direita do arco, entre as dv/is 
columnas estard outra figura de mulher com um vaso de 
vinho cheio de agua nas màoSj e com uma l^tra em ci- 
ma da caleva que diga Vontade ...» — a Na mao esquer- 
da entre as outras dicas columnas estard outra figura 
de mulher com um>a vara na mao, corno que a offerece, 
com letras que digam Vontade. — « Descoherto este arco, 
tocam charamellas por espago qu'é se possam ler os ma- 
tes e entram. . . soldadoSj comò que vem ver as ruas da 
cidade, » Apparece tambem a uma danga de Mouros que 
vem dangando pelo theatro a mourisca. » Quando come- 
ga a sair a guarda, Cojegofar està com um prato, e com, 
as chaves n'elle, de joelhos. Entra o governador, to- 
cam Charamellas, e por-se-ha sobre o muro o Alferes 
com uma bandeira em que estavam as armas de Portu- 
gal, e floreando-a, dizem em voz alta: Redi, real pelo 
poderoso Rey Dom Joào de Portugal ...» etc. 

A grandeza espectaculosa da comedia e o declara- 
do patriotismo com que dramatisa o primeiro cèreo de 
Diu, eram bastante para fazer com que nào fosse re- 
presentada em um tempo que a cultura litteraria e a 



NO SECULO XVI 299 

nacionalidade estavam ainortecidas. A Comedia de 
Diu é tao complicada de accjOes secimdarias, as rauta- 
Qóes de scena sào tao frequentes, que é impossivel po- 
der extrair-lhe o enredo ; teni de historieo apenas o no- 
me de um ou outro personagem das chronicas; o gover- 
nador fala em verso heroico, em outava rima, e às ve- 
zes em verso solto; o hespanhol serve de linguagem 
mourisca; o portiiguez é a expressào dos soldados que 
trabalham nas trincheiras e fazem sentinella. Inven- 
Qào dramatica, e o genio que dirige através de todos 
OS ineidentes a acgào, nào o tem Simào Machado; a 
expressào profunda da realidade da vida tambem Ine 
falta no dialogo. As diminutas scenas escriptas teme- 
rosamente em portugnez, sào as mais engra9adas, e 
aìnda assim tém um chiste moti vado por equivocos e 
rudeza dos personagens. Simào Machado era excellente 
poeta lyrico, e por esse mesmo facto um mau escriptor 
dramatico. Vindo mais tarde do que &il Vicente, e do 
que a sua brilhante eschola, tendo jéi a riqueza do thea- 
tro hespanhol e italiano para o ensinarem, pouco fez. 
Enganou-se, comò sempre, o bom Costa e Silva, quan- 
do o colloca superior a Gii Vicente, ainda hoje nào ex- 
cedido. A Comedia de Diu, està incompleta, comò se 
ve pelo final da segunda parte. Na ultima fala de Coje 
Sofar, diz o auctor: 

Aqui se acaba la segunda parte, 

Y prometo veays tambien ter cera : 

Y hechos tarabien vereis del fiero Marte, 

Y casos en historia verdadera ; 
Tambien de amor vereis raros efetoa 
Que a el eoa loB faertes mas sugetos. 



300 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

A Oomedia Alfea^ que o autor talvez intitularia 
Os encantos de Alfèa, corno se ve pelos versos do firn 
da primeira parte : 



VamoB todos al aidea , 

Porque fenecida eea 

Aqui la priiìieira parte 

De Los encantos de Alféa, — P. 141. 



é urna magica em toda a extensào da palavra, mistu- 
rada com o drama tirado da novella pastoril. Amalga- 
ma informe, com que a arte dramatica nada avan^ou. 
N'esta comedia, Simào Machado mistura hespanhol 
com o portuguez e italiano, reservando està ultima lin- 
gua para o sabio Merlim e para o Centauro. Pelas rubri- 
casi da Alfea se vera a impossibilidade de ter side repre- 
sentada. Encontram-se o Pastor e Celia: «Indo para se 
ahraqarem aparta-os um grande fogo. ì» — aQuerendo-se 
meter pelo fogo^ sae d'elle um dragàoy de cujo temor 
foge cada um per sua parte ...» Em outra scena lé-se 
a rubrica: «Aqui se rompe um monte e apparece Ce» 
lia,j> Silvio «arranca de um punhal para matar a Al- 
féa^ e se Ihe converte em pedra.ì> «Apparece a fonte de 
agua do amor, 9 «Fala Celia de dentro do louro em que 
estava convertida, Vae Alféapela serra assentada em um 
carro ^ que levam duas serpes guiado.i> «Apparecem 
muitas cabegas de feras, » Véem-se tambem uma sphin- 
ge a propòr enigmas, e um cendal que produz encan- 
tamento. Por todas estas rubricas, que nào sào metade 
das transforma90es indicadas nos versos da Comedia 



NO SECULO XVI • 301 

Alfèa^ se ve que é urna magica apparatosa, que nào pò- 

dia ser representada com os recursos da arte do secu- 

lo XVII. Ainda aqui Simào Machado continua a cha- 

mar-lhe Los encantos de Alféa, e promette urna tercei- 

ra parte, que nunca chegou a ser escripta: 

Sìgamos el estandarte 
Del que a todos san orsa, 
Porque f enecida eea ' 
Aqui la segunda parte 
De los encantos de Alféa. 
Y en /a iercera hallareis 
Quien es el nuevo zagal 
Y en el la origen vereis 
Del nombre de Portugal 
Que al presente posseeis. — P. 187. 



Dom Francisco Manoel de Mollo, que era excellen- 
conhecedor do theatro, considerava Simào Machado 
entre os insignes poetas comicos; nas situa^Oes em 
qne se serve da lingua portugueza, dialogada entre 
pastores e rusticos, é bastante chistoso pelo sem nume- 
ro de Iocu9òes e anexins usados pelo poro. 

Na Camedia de Dm traz Simào Machado a tradi- 
I 9^0 de um velho que havia em Diu, o qual, quando a 
I eidade se rendeu, foi ter com o governador Nuno da 
Cunha, e pediu-Ihe que Ihe continuasse a dar por mez 
o ducado e meio de curo que recebia de antes do rei ; 
tinha este velho, segundo os testemunhos do tempo, 
trezentos e trinta e ciuco annos de edade, tendo qua- 
tro vezes mudado os dentes e renovado os cabellos. (1) 



t 



(1) Comedia de Diu, part. ii, p. 53. 



302 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Padre Manoel Fernandes, no seu livro Alma In- 
struiday traz està anedocta do Veiho de Diu, fundan- 
do-se na audtoridade de Simào Machado: «Este mes- 
mo caso refere o Autor da Comedia de Diu, (depoìs 
Religioso e varào insigne) que introduz este velho fa- 
lando coni o Governador Nuno da Cunha.» (1) 

Simào Machado era verdadeira mente poeta; as sce- 
nas portuguezas, entremeadas nas suas duas comedias 
hespauholas, sào repassadas de lyrisnio, de gra^a e fa- 
cilidade; davani bellas eclogas no gesto do seculo xvii, 
que Ihe alcan^ariam um dos priraeiros logares entre os 
bucoIistas,inas nào sào estas qualidades sufScientes para 
suprirem a faculdade principal do poeta dramatico — 
a crea^ào. Ao contrario do dizidor Ghiado que largou o 
habito de S. Francisco, Simào Machado, coni a sua 
ahna peninsular, a exemplo de Espinel, de Lope de 
Vega, de Agostinho Pimenta, trocou o sóco pela cu- 
gula. A sua celebridade ainda hoje Ihe vera do nome 
que teve no seculo. 



(1) Obr, cit. t. Il, cap. 1, doc. 15, n.« 18.— Jorge Ferreira 
na Eufrosina taiiibeni cita a anedocta. 



NO SECULO XVI 303 



OA.I»ITTTIjO 3CII 



Os poetas anonymos 



O theatro noe Conventos franciscanos. — Auto do Dia de Jui- 
zo escripto depois de 1513. — typo de Villao e a tradÌ9ao 
do velho theatro portuguez. — Romance do Rei David. — 
Autos anonymos condemnados pelo Index Expurgatorio de 
1624 — Os Jesuitas desnaturam a tradi^ào dramatica de Gii 
Vicente. — Fim da Eschola nacional. 



Como deveria ser o theatro em uin povo que rece- 
beu com repiques e luminarias a noticia da tremen- 
da matanga de S. Bartholomeu, senào sepulchral e 
funèreo, apresentando sempre scenas de penitencia e 
de martyrios, disputas sobre dogmas religiosos susten- 
tadas a for^a de milagres para deslumbrar os sentidos, 
e recorrendo sempre a impressao violenta e brutal, ex- 
plorada comò ultimo recurso, da lembranga da morte. 
E este o theatro de AfFonso Alvares e de Balthazar 
Dias, que mataram a comedia de Gii Vicente, no que 
ella tinha de nacional e faceto, para a tornarem uma ar- 
ma auxiliadora dos obscurantistas religiosos; seguiram, 
é verdade, a eschola do velho Plauto, mas simplesmente 
na forma exterior, no uso exclusivo do verso deredon- 
dilha. Considerada a crea^ào dramatica comò uma prè- 
dica moral em acgào, immediatamente se dedicaram os 
frades a escrever para o povo; Frei Antonio de Lisboa 



304 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

escreve os Autos de Santo Antonio de Lisboa^ e dos Dois 
Ladrdes de que restain os titulos; o P.® Francisco Vaz 
de Guimaràes escreve o Auto da Paixào^ que ainda anda 
nas màos da gentalha. Mas aonde se conhece que o thea" 
tro portuguez comegava a ser verdadeiramente conside- 
rado e enriquecido, é no grande numero de comedi as 
anonymas, hoje perdidas, cujos titulos se conservam nos 
Index Expurgatorios, a maior parte das quaes andou 
impressa sem data no seculo xvi, reimprimindo-se 
muitas em 1512 e 1516, antes do fatidico anno de 1624, 
que decretou a sua total mina. Um dos Autos mais 
antigos e anonymos que nos restam é o do Dia do Jui- 
zo; jà pelo assumpto se ve qual a ordem das situagOes 
que o genio hieratico ia procurar para assembro da 
ihultidào. gosto dramatico desenvolvido por Gii 
Vicente e AfFonso Alvares, fez com que em Evora se 
reimprimissem quasi todas as comedias do seculo xvi; 
o Auto do Dia de Juizo ali appareceu em- 1616. Nào é 
sómente a linguagem, a forma da redondiiha quebrada, 
nem um lyrismo engra^ado que mostram a sua antigui- 
dade; um Villào que entra em scena para ser julgado 
vem cantando: 



Oh que novas me virao 
Da Cidade de Azamor ! 
Maldicta seja a mulher 
Que matou tal lavrador. 



Està cantiga devia andar na tradi^ào desde 1513, 
quando foi a brilbante expedÌ9ào do Duque Dom Jai- 



NO SECULO XVI »05 

me & conquista de Azamon; postoque se nào deva 
considerar està data para determinar a composigào do 
Auto, comtudo pode concluir-se que foi em tempo em 
qne o successo ainda impressionava a imagina^ào do 
povo, nào distraida pelas fomes e desastres do reinado 
de Dom Sebastiào. fTo Auto do Dia de Juizo, a scena 
do Villào, que argumenta com o Diabo; faz lembrar o 
typo do velho fabliau francez, do Villainqui conquùt le 
paradis par plait; circumstancia que indica o fio da 
tradi^ào franceza tambem seguida por Gii Vicente : 

ViLLAO : Deixa-rae que csvaliarei 

Oi, oi, oi. 
Satanaz: Jàme palraesfrangoi, 

Nào o sabeis mastigar 

Assim haveis de falar : 

Qup vol-o direi de moi, 

typo do Villdo^ perfeitamonte nacional, està se- 
gando o eterno modelo conservado nos fabliaux, rude, 
sensato, cortando as mais difficeis situagOes com um 
bom ditado ou anexim ; elle comprehende perfeitamon- 
te a origem da sua indépendencia burgueza: 



Todos Iho chamam vill^lo, 
E presumem de Senhores, 
Se nSo fossem os lavradores 
Elles nSo comeram pào. 



Afibnso de Burriào, tal se cbama o lavrador, nao 
^uer senào entrar para o céo, e trata de mostrar a Sata- 
naz que sabe rezas, e que pagou tudo quanto \\v^ ^^^^ 

20 



t'^ 



306 HISTORIA DO THEATRO PORTUGTJEZ 

o abbade; o villào era um grandedemaudista, e perde- 
rà todos OS seus haveres com os letrados. E emineute- 
mente comico o seu eiicontro com o Letrado, que de- 
pois de Ihe corner tudo Ihe assobiou da botas. typo 
do Letrado é tambem completo, reflexo do genio de Pa- 
thelin, tirado da observa^ào e dos nossos costumes. 
jurista que sairà da plebe, e com o pezo do Direi to e de 
todas as leis romanas matara o feudalismo, restringindo 
a ambi^ào senhorial, para fortalecer os reis, atacou tam- 
bem a burguezia depois de constituido o poder monar- 
chico; é por isso que nas fargas populares o Letrado é 
sacrificado aos lògros do villào, comò vingan^a das suas 
argucias. No Auto do Dia de Juizo os typos apparecem jà 
perfeitamente tra9ados, ba o que se chama caracter ; Gii 
Vicente nos Autoa da Barca do Inferno j do Purgatorio e 
do Parawo, appresentà um onzeneiro,um fidalgo, parvo, 
sapateiro, alcoviteira, frade, judeu, corregedor, procu- 
rador, lavrador, regateira, taful e pastora, Abel^ Da^ 
vid^ S. Jodo^ Jesus Christo, Lueifer e S'atanaz, quasi 
todos reproduzidos no Auto anonymo, visivelmente imi- 
tado; porém o espirito ecclesiastico nào deixa por em 
scena o typo do frade, do Papa, dos Cardeaes, o que 
nos leva a vèr que jà nào havia a liberdade, que Gii 
Vicente gosara atc 1536, e que o Auto do Dia de Juizo 
foi escripto depois d'està data, vigorando jà a Inquisi- 
9ào. Aqui, comò no Auto de Gii Vicente, Lueifer, 
ainda é o Maioral do Liferno; a disposi^ào da scena, 
representa ao mesmo tempo a gloria e o inferno, comò 
nos Autos das Barcas, o que se conliece da rubrica : 



NO SECULO XVI 307 

Ludfer corno que vae ao inferno dar tormentoa aos qtte 
la jazem, ouvindo-se falar os personagens que jà ha- 
viam recebido a sua sentenza. 

Como Gii Vicente, o poeta anonymo adopta a poe- 
sia /am^ dos velhos mysterios francezes e canto» popu- 
lares da edade media. Àpezar de pouco desenvolvido, e 
fazendo consistir o jnizo final so na condemnaQd.o de 
Caim, de Dalila, de um villào. de um tabelliào, de um 
Carniceiro, de urna regateira, e de nm moleiro, tudo 
figuras do baixo povo, o Auto do Dia de JuizOy é impo- 
nente na sua linguagem convicta. Sam Joslo entra em 
scena denunciando temeroaamente, corno diz a rubrica, o 
firn do mundo, faz uma comò especie de prologo do 
grande cataclysmo. 

Entra Christo, e manda ao Seraphim tocar a trom- 
beta. Ao primeiro toque vem el-rei David, logo em 
seguida seu filho Àbsaiào, que o povo bem conhecia pelo 
velho romance: Con rabia est a el rei David, etc. 

Este romance andou na tradi^ào orai portugueza, e 
no Index Espurgatorio ^ de 1624, por Dom Jorge de 
Mascnrenhas, se prohibe o cantal-o. (1) Appareceu no 
Cancionero de Romances, impresso em Lisboa em 1581, 
e talvez o gosto que entào reinava dos romances tira- 
dos da letra da Biblia. e a sua grande vulgarisa^ào, 
fizessem coni que o poeta anonymo mètesse em scena 
Absaiào, que principia com o verso : 

Que é da minbn formusura, 
(1) IndeXy pag. 174. 



^ 



308 HISTORIA DO THBATRO PORTUGUBZ 

o qual se encontra no Pianto do liei David, do ve- 
Iho romanceiro. A fala quo o joven principe declama, 
lembra pelo seu lyrisrao o romance trovado. 

Depois de David, é que a outro toque entra Abel cm 
eeìi irmdo Cairn; Abel vem cantando um mimosissìmo 
villancico, (1) de arte menor, corno aquelles com que 68 
Yicente rematava os seus Autos do Natal, circumstaor 
eia que prova nào estar o auctor longe da tradi^ào Av^ 
matica do velho mostre. toque da trombeta do Se- 
raphim acompanha a mudan9a de cada scena, e devìi 
produzir urna impressào.assustadora. Sào estes recxa^ 
SOS jà inventados que acanham o genio nas creagOesda 
theatro hieratico. Como os diabos de Gii Vicente, o 
Lucifer do Auto do Dia de Juizo, diz: 

Oh que gostoso anexim, 
Eu sei vasconso e latim. 

A Regateira do Auto allude a Lisboa nos versos: 

Olhae d'elle as rasòes, 
Tambem vendo cà ca90es 
Como 11 ÓH là na Ribeira. 



Carnieeiro tambem diz, quando ve que lem de 
ser sentenciado para o inferno: 

Oli pezar de Santarem. 



(1) Vid. Fioretta de Eomances, 



NO SBCULO XVI 809 

Estas fracas ìudica^Oes ajudam a localisar o Auio 
talvez composto em Santarem ou Lisboa, aoude Gii Vi- 
cente residia, e aonde Antonio Prestes, corno enquere- 
dor do civel, continuou a sua tradigào. Auto termi- 
na com a sentenza de Christo condemnando os precitos, 
yindo à bócca da scena dois Anjos, cantando, fazer o epi- 
logo moral. Auto do Dia de Juizo è indubita velmen- 
te do seculo xvi; quando em 1609 o imprimiu em Lis- 
boa Pedro Craesbeek, jà andaria por muito tempo em 
copias manuscriptas, e appareceu nào amputado pelo 
Santo Officio na edi^ào de Evora* Hoje ainda anda 
nas màos do povo, mas jà restituido à sua integridade* 

A grande quantidade de Autos anonymos que ap- 
pareceram por este tempo, dà a conhecer nma certa vi- 
da intellectual e gosto pela creagào dramatica; até ao 
anno de 1624 durou està brilhante efflorescencia, defi- 
nhadapelo Santo Officio. Index àQ 1624, condemna 
o Auto do Braz Quadrado, jà conhecido e vulgarissimo 
no tempo da Camòes, comò o typo de um desperdi^ado 
de amores, citado no Auto do Filodemo, de 1555 ; é 
provavel que a edigào de 1613, fosse reproducQào de 
alguma nà o datada do seculo xvi. 

Tambem nào se sabe quem é auctor do Avio de 
D. -4wdr^^hojeperdido, conhecendo-se apenas a sua exis- 
tencia pelo Index, Pertencem ao seculo xvi, e nào mui- 
to posteriores à morte de Gii Vicente, o AìUo do Ju- 
bileu de Amores, o Auto da adherencia do Pafo, o Auto 
da vida do Pago, o Auto dos Phydcos, Gamaliel, e A 
Eevelafdo de S. Paulo, jà prohibidos no i^t\mfò\t^ loRr 



310 HISTQRIA, DO THEATRO PORTUGUEZ 

dex Expurgaiorio da Inquisitalo de Hespanha, publi- 
cado em 1559. 

Auto do8 doÌ8 Compadrea^ o Auto da Far fa Pem 
da, o Auto dos Captivos, Custodia, far^a, Dos Enarw 
rados, comedia ou far^a assim iutitulada, Jacintha, Jo- 
sephina. Auto de corno o éstudante Christoval de Bivar 
livrou a seu pae cativo. Auto do Duqu£ de Florenfa, Aido 
de Dios Padre, Justifa e Misericordia, Auto do Prind- 
pe Claudiano, Orphea, comedia assi intituluda, Ramm' 
sia, impressa em Yeneza em 1550^^ e Trinutia, que an* 
da junta à antecedente, todos estes Autos e comedias 
vem prohibidos no Index de Ì6Ì4; entro elles vem 
muitos pertencentes ao seculo xvi, e é de crér que a 
maior parte, sondo todos, ainda pertencem ao theatto 
quinhentista. Desde os ensaios de Jorge Ferreira e 
Sa de Miranda, a comedia italiana come^ara a sor in 
troduzida em Portugal, e foi tambem uma das causas 
que mais contribuiram para o acanhamento do theairo 
nacional ; n^este mesmo Index vem citadas muitas o(h 
medias italianas. 

Ao passo que se nos revela a grande riqueza dal 
nesso repertorio do seculo xvi, crQ3ce a magoa e a in- 
dignagào ao lembrarmo-nos de que nenhuma d'estas co- 
medias hoje se conserva, e que apenas se sabe da sui 
existencia pela sentenza que determinou a sua extiii- 
C9&0. Yicente Alvares em Lisboa, Francisco SimOei 
em Evora, Fructuoso de Basto em Braga, Joào Ba^ 
reira em Coimbra, e muitos outroseditorestinham da- 
do até 1612 uni grande desenvolvimento a uossalitte* 



t 



NO SEOULO XVI 811 

tatara de oordel pnblicando o que andava manuscrìpto 
e reproduzindo o que estava exhausto. Quando com o 
terror das ideias da Reforma se estabeleceu a censura 
dos livros, extinguiu-se a riqueza do theatro nacional, 
genio acanhon-se e perdeu a faculdade creadora com 
afalta de liberdade; a curiosidade popular desvairada 
com a pressào castelhana, com as pestes e fomes inter- 
nas, com o terror do Queimadeiro e dos espectaculos 
dos Autos de fé, esqueceu-se do seu theatro, que havia 
pouco saira formado do pa^o dos reis, onde fora até 
Dom Sebasti&o o primeiro mestre dos nossos princi- 
pes. Foi brilhante o desenvolvimento dado à Eschola 
de Gii Yicente até ao meado do seculo xvi, mas cau- 
sas complexissimas a fizeram definhar, sendo a princi- 
pale a modifica^&o profunda que a Inquisigào e o catho- 
Hcismo intolerante exerceram sobre o caracter do nesso 
poTO. 

Quebra-se aqui o fio da tradi^ào da escola nacio- 
nai, para estudarmos a influencia do theatro classico 
da renascen^a italiana, que ainda no seculo xvi o com- 
bateu e corno em parte o dèsnaturou. A Inquisi^ào, mais 
implacavel, extinguiu o que se valia da rudeza popular, 
do que se firmava na perfeigào classica; fez a hecatombe 
las ideias, com a censura dos livros, e da na9ào com 
» suspeitos e relapsos. 

A imita^ào dos Franciscanos, tambem os Jesuitas 
IO ultimo quartel do seculo xvi se apoderaram do 
theatro. Elles conheciam a grande influencia da fas- 
ina^ao dos olhos sobre o espirito, e nào contentes com 



31« HISTORIA DO THEATRO PORTUGU^Z 

explorarem a catechése oom as gravuras e estampas 
devotas, apropriaram-se da fórma dos Autos livres e 
revolucionarios de Gii Vicente, para converterem os 
iiidigenas da Brazil. mesmo fìzerain coin o PilgrinCs 
Progress de Bunyan, ideiado por um anabatista, para 
apregoarem o baptismo, convertendo a novella ingleza 
no Predestinado Peregrino. Em Arte os Jesuitas ti- 
nham a mesma cousciencia que em moraL Jesuita 
Simào de Vaseoncellos conia, que o Padre José An- 
chietaescreveu um Auto, intitulado Prega^ao Universqly 
em portuguez misturado com lingua indigena, para 
ser representado nas egrejas da America durante o of- 
ficio divino, por devotos que falavam em seu nome 
confessando publicaineute os seus peccados. Os Autos 
da eschola de Gii Vicente eram entremeados dos ro- 
mances populares em voga no seculo xvi; o Auto da 
Pregagào Universal foi escripto para banir as cantìgas 
dos neophytos brazileiros. 

Os Jesuitas tambem representaram em 1575 em 
Fernambuco o Auto do Rico Avarento e Lazaro pobre; 
conta-se, que foi tal a commo^ào causada pelo Auto, 
que muitos homens abastados se despojaram dos seus 
bens. Depois de 1580 a lingua castelhana invadia e 
bomava a prefcrencia do portuguez ; os Jesuitas tendo 
trabalhado para o captiveiro de Portugal, acceitaram 
a lingua castelhana para os seus Autos; em 1583 re- 
presentaram na Bahia um Dialogo Pastoril^ escripto 
em verso castelhano, portuguez e dialecto dos itidige- 
nas. No lìvro de Fernào Cardim^ intitulado Narrati- 



NO SEOULO XVI 818 

mpistolar de urna viagem e mUsào jesuitica pela Bahia 

iesde i683 até i590y vem oitado o Auto do Mysterio 

ioB Onze mU Vtryens, represeutado em urna procissào, 

aaqnal era levado um navìo coni as virgens dentro, e 

depoia de festejado o martyrio eram arrebatadas entro 

ìiiyos para o céo. Os recursos para estes efFeitos dra- 

[ Huticos nào deviam de sor ignorados por urna corpo- 

^sufio que possuia todos os segredos milagreiros. Fer- 

ìifto Gardim tambem fala de um poeta dramatico cha- 

inado Alvaro Lobo, a que attribue um Dialogo da Ave 

Maria, que se representou, tornando o thema de cada 

palavra da oraQao angelica. (1) Até aqui os Jesuitas 

desnaturayam com o seu instincto refaisndo a eschola 

de Gii Vicente; em breve se voltaram para o theatro 

mussico e inventaram as allegorias dramaticas e as 

■agioomedias usadas nas Ruas canonisa^Oes e festas es- 

diolares. Com a invasào jesuitica acaba tristemente a 

iradi^ào do theatro nacional fundado por Gii Vicente 

isustentado pela sua eschola. 



(1) Fernando Wolf, Le Brésil Litterair^. 



314 HISTORIA DO THBATRO PORTUQUBZ 



Os Pateos das Comedias (1588-1595) 

Influencia heepanhola no thoalro depois da iuvasfto dos Phi' 
lippes. — As Companhias ambulantes da Mogiganga e Comi- 
baleo, — Al vara de 20 de Agoi^o de 1588 dà ao Hospital 
de Todos os Santos o Privilegio das represeuta9Ces, à ma- 
neira de Hespauha. — A censura dramatica. — Origem hea- 
panhola da designa9fto Pateo dds comedias, — O Paleo dai 
. Fangaa da Farinha. — Pateo da Biteega ou Pateo da Moih 
varia. — Pateo das Arcas ou Pateo da rua da Praca da 
Palha, — Couclusfto moral da historìa do Theatro nacional 
— Repertorio geral do Theatro portuguez no seculo xvi. 

Reparando para as rubricas iniciaes dos Autos de 
Gii Vicente, vè-se que elles foram na maior parte re- 
presentados na córte de Dom Manoel e Dom Joào m, 
nos Pagos da Ribeira, em Almeirim, Evora, Coimbn^ 
e Tbomar ; algumas vezes representou o insigne co- 
mico a pedido da Abbade9a de Odivellas, e da Viuv» 
de Dom Joào il, ou na procissào de Corpus. Por estaa 
indicagOes, nào se póde deduzir que o povo assistisse 
a taes espectaculos ; apenas na far^a de Quem temfa- 
rellos? se diz, que o povo Ihe déra este titulo. No Auto 
de EURei SeleucOj de CamOes, vè-se pelo prologo, qua 
a representagào era feita em um Pateo ou corroy pan 
divertimento de um particular que assim regalava sena 
amigos. E de suppòr, que as comedias representadaa 
diante do povo fossem introduzidas pelas Companbiai 
ambulantes bespanholas, que percorriam a Peninsuk; 
na linguagem popular ainda se encontra a palavra ifo* 



NO SECULO XVI 316 

giganga, que descobre este uso. Segundo Rojas, a Mo- 
gigaìtga era urna Companhìa formada de duas mulhe- 
res, cineo ou seis coinediantes, com um repertorio de 
seis pegas, tendo quatro cavalgaduras, duas para leva- 
rem OS caixOes do vestuario, e as outras duas para irem 
monfcados, revezando-se. Na lingua portugueza existe 
a palavra Cambaleo, que accusa a vinda a Portugal de 
Companhias hespanholas, formadas de urna mulher 
que canta, e de quatro homens que berram, tendo no 
repertorio urna comedia, dois autos, e trez ou quatro 
intermedios. Camlaleo^ demorava-se de ordinario 
seis dias em cada terra. È a contar da influencia e 
governo dos Philippes, que a imita^ào directa do 
theatro hespanhol se manifesta em Portugal ; Fran- 
cisco Bodrigues Lobo, que tambem cultivou a fórma 
dramaiica, diz que dos hespanhoes nos veiu a desig- 
na^ào de jomadas ; foi tambem de Hespanha que to- 
màmos o theatro corno um divertimento popular. No 
meado do seculo xvi o theatro recebeu em Hespanha 
urna forte persegui^ào da auctoridade ecclesiastica; 
era costume là, fazer-se às representa^Oes em pateosy 
ou pequenos largos, servindo as janellas das casas vi- 
sinhas de camarotes para os espectadores. Para ven- 
cer OS escrupulos da auctoridade ecclesiastica, ou comò 
condemnaeào do divertimento profano, as Companhias 
dramaticas foram formadas a darem. parte do rendi- 
mento das suas recitas para os hospitaes e institui^Oes 
de caridade. Isto se deu egualmente em Portugal, du- 
rante o reinado dos Philippes. Deve attribuir-se està 



S16 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

transforma^ào & infiuencia da Italia, aonde o improvì- 
sador Sam Philippe Neri organisou Companhias dra- 
niaticas, para com o producto das suas representa^òed 
acudirem aos hospitaes. A ordem religiosa de Sam 
Philippe Neri entrou tambem em Portugal mnito 
cedo. 

Jà no principio do secalo XYI, éabemos de varias 
representagOes de Gii Vicente no Hospital de Todos os 
Santos; mas estas representa^Oes hieraticas formavam 
parte da liturgia, e o povo assistiria a ellas gratuita- 
mente. Porém desde 1588 até 1792, vèmos o Hospital 
de Todos os Santos com o privilegio de nào deixar re- 
presentar comedias sem sua licenza prèvia, e com dì- 
reito de receber parte dos proventos que d'ellas resul- 
tassem. (1) Um Alvarà de Philippe ii, de 20 de Agosto 
de 1588, estabelece : « que n'esta cidade de Lisboa, se 
nao possam representar comedias em goral, nem em 
particular, senào nos logares que o dito Preveder e 
officiaes do Hospital assignalarem, e iste por tempo de 
dois annos sómente, que come^arào a correr da data 
d'este alvarà em diante, com declara^ào que nào con- 
cederào representarem-se as ditas comedias senào mos- 
trando-lhes, os que as houverem de fazer, licenza e 
approvagào dos ministros por quem iste correr, para 

(1) snr. J. M. A. Nogueira, enfermeiro do Hospital de 
Sam José em Lisboa, no archivo d'està casa achou grande 
parte dos documentos que apresentamos, que f oram jà publt- 
cadoB no Jomal do Commercio^ n.°' 3736, 3737, etc, sob o 
titulo Archeologia do Theairo portuguez, Servimo-nos de todos 
€B factos que apresenta, dando-Ihes urna ordem mais bistorìca. 



NO SECULO XVI 317 

que nào sejam indecentes, nem prejudiciaes aos bons 
costumes da republica ; e o proveito que d'isso resul- 
tar se dispenderà em beuefi^^io dos doentes que se cu- 
ram no dito Hospital.» Este documento é de alta im- 
portancia ; em primeiro legar, mostra-nos a reforma 
feita por Philippe il no theatro portuguez, impondo-lhe 
o mesmo onus philantropieo que em Hespanha havia, 
pois no registo do Hospital de Madrid de 11 de Ja- 
neiro de 1583 se ve, que Ibe pertencia a quota das 
representagOes dos saltimbancos inglezes; revela-nos 
a existencia de tbeatros publicos, e representa^Oes 
particulares ; dà-nos a conhecer a existencia de locaes 
fixos para essas representaQOes ; confere ao Hospital 
de Todos os Santos o direito de permittir as recitas 
e a censura litteraria das comedias; e, finalmente, por 
està ultima cautella nos faz suppòr que a comedia 
vulgar descèra a uma grande desenvoltura desde que 
se desprendèra das func90es liturgicas. No Alvarà de 
7 de Outubro de 1595, vè-se renovado este privilegio 
ao Hospital de Todos os Santos, por mais dois annos, 
que coni certeza teriam side concedidos desde 1588. 
Em 1603, Philippe iii, por Carta de 9 de Abril, fez 
mercè ao dito Hospital, de se representarem Comedias 
lego depois da quaresma, em Lisboa; a censura dra- 
matica foi delegada a dois Desembargadores do Pa^o; 
por està mesma lei se ve que até entào os actores 
representavam com mascara, e que jà era permittido 
às mulheres entrarem em scena, corno se deduz das 
palavras : a que os homens que n'ellas entrassem^ re- 



318 HISTORIA bO THEATRO POKTUGUEZ 

presentassem a sua propria figura, e as mulheres do 
mesmo modo. » Isto é, que nào invertessem os sexos, 
corno quando nào era permittido às mulheres repre- 
sentarem. Em 1612, por Alvarà de 10 de Novembre, 
foi concedido ao Hospital de Todos os Santos oste 
mesmo privilegio, nào por tempo de dois annos, 'mas 
indefinidamente. 

Por todas estas disposi^Oes legaes tao frequeiites, 
que se continuaram com rela^ào ao Hospital de Todos 
08 Santos em 1613, 1638, 1743, 1759 e 1762, se ve 
que a vida da arte dramatica continuou em Portu- 
gal, depois da morte de Gii Vicente, quando jà faltava 
a protecQào real de Dom Joào iii, do principe Dora 
Joào e do joven monarcha Dom Sebastiào. Faltando- 
Ihe o favor da córte, o theatro foi procurar a curiosi - 
dade do povo. Nào tendo escriptores que Ihe escreves- 
sem em portuguez, e sobre costumes nacionaes, o povo 
come^ou a acceitar as representagOes hespanholas ; Lo- 
pe de Vega, Calderon, Diamante e muitos outros, fo- 
ram cà* recebidos com direi to quasi exclusivo. Pero 
Salgado, Jacintho Cordeiro, e Dom Francisco Manoel 
de Mello tambem escreviam em hespanhol ; o proprio 
monarcha Philippe v, assignava-se nas comedias que 
éscrevia: um ingenio d'està córte. A imita^ào da fórma 
litteraria accusa a imita^ào da scenographia. Os pa- 
teos hespanhoes foram tambem adoptados em Portu- 
gal ; ao theatro exclusivamente popular chamava-se 
Pateo das comedias. mais antigo de todos os Pateos 
conhecidos, é o Pateo das Fangas da Farinhay no locai 



NO 8ECUL0 XVI 3Ì9 

hoje denominado da Boa Hora, em Lisboa. Este Pa^ 
teo jà nào existìa em 1588, por isso que pertencendo 
ao Hospital de Todos os Santos fiscalisar os varios 
theatros para cobrar a quota parte dos seus rendimen- 
tos, nào apparece nota d'este, que de eerto uenhnm 
motivo tinha para escapar a um privilegio tao exciu* 
bìvo. Està é a opiniào de J. M. A. Nogueira, a qnem 
seguimos, postoque se aiBrma, ter o PaUo das Fangas 
da Farinha existido até 1633. Como o mais antigo, 
n'este Paleo seriam representadas as comedias de An- 
tonio Prestes, e dos outros auctores que entraram na 
collec^ào de 1587, especie de repertorio theatral esti- 
mado, de que so appareceu a primeira parte, publica- 
da por Afibnso Lopes, mo^o da Capella real de Phi- 
lippe li. A antiguidade do Paleo das Fangas da Fari- 
nhay leva-nos a crér, que seria n'este, aonde se repre- 
sentaram as verdadeiras comedias nacionaes da eschola 
de Gii Yicente, iniquamente condemnadas pelos Index 
Expurgatorios do Santo Officio. A sua quéda coincide 
com o desapparecimento da autonomia nacional. 

Com a invasào dos Philippes, o theatro portuguez 
sofireu uma alterarlo profunda ; ao passo que a Hes- 
panha renova va inteiramente a nossa lei civil, procu- 
rava assimilar a si o nosso theatro ! Signal de qne era 
uma conquista sem calculo. A està phase nova do 
theatro portuguez corresponde o apparecimento de um 
novo paleOj chamado Pateo da Bilesga, constrnido por 
Fernào Dias Latorre, comò se ve pela escriptura de 
contraete feita com o Hospital de Todos os SantA^^^ 



820 HISTORIA DO THBATBO POllTUGUEZ 

9 de Maio de 1591. N'essa escriptura se obrigava La- 
torre a edificar doìs Pateosy dentro de um anno ; nas 
clausulas se descobre a fórma e economia interna do 
theatro ; impunha-se corno obriga^ao, que os Pateos 
fossem cobertosy o que nos dà a entender que os mais 
antigos eram ao ar livre, corno tambem se usàra em 
Hespanha, cobertos apenas por urna Iona; que as suas 
paredes fossem de alvenaria e pedratia, d'onde se de- 
duz, que anteriormente eram feitas com madeiramen- 
tos e vigas, comò casa provisoria; com suas varaiidas 
cobertas de ieUia e madeira. As representagOes nos Pa- 
teos das coinedias eram de dia ; o que nào acontecia com 
a maior parte dos Autos de Gii Vicente, representados 
nos serOes do pago. A solidez que os pateos come9a- 
vam a exigir revelam està tetidencia para mudar a 
bora do espectaculo. Na escriptura exigia-se mais o 
apresentarem com o edificio as mais achegas necessa- 
9'iaSy iste é, os bastidores e roupagens, o que tambem 
denota certa variedade na mise en scene, 

Sabe-se que o Paleo da Bitesga jà funccionava a 
11 de Julbo de 1594, por isso que pelo registo do 
Hospital se ve n'esta data o seguinte recibo : a da 
caixa de Manoel Podrigues, das comedias da Bitesga, 
2$320.^ Como competia ao Hospital de Todos os San- 
tos, pela escriptura da fundagào do PateOy as duas 
quintas partes do que rendesse, vè-se por este recibo, 
que a recita produzira liquidos 5$800 reis ; o que era 
um boni resultado, se attendermos ao valor da moeda 
no secnlo xvi. Se a este producto do mez de Julho de 



NO SECULO XVI 321 

1594, ajnntarmos as duas quintas partes dos lucros 
produzidos em Novembro e Dezembro d'este mesmo 
anoo, € em Janeiro e Fevereiro de 1595, que foram 
85<5ll30, temos 87ji450 reis, vèmos que o producto 
total foi de 394^800 reis. Està simples indica^ào da 
eoonomia do nosso theatro no firn do secalo xvi, quan- 
do a na^ào ostava eniutada e pobre, basta para reve- 
Jar quanto o Pateo da Bitesga era frequentado, tal- 
vez pela novidade dos seus espectaoulos, que entào se- 
riam o ecco da córte de Madrid, e ao mesmo tempo, 
descobre-nos a sua grandeza. A oste Pateo tambem se 
julga ter sido dada a denominagào de Pateo da Moti" 
raria, Qual o segundo pateo, depois do da Bitesga, 
contraotado por escriptura de 9 de Maio de 1591, nào 
é bem averiguado ; julgamos ser o Pateo das Arcas, 
por isso que o seu primeiro emprezario foi Fernào 
Dias de Latorre; era situado na rua das Arcas, que 
antes do terremoto de 1765 ficava no segundo quar- 
teirào da rua Augusta. Os visinhos da rua das Arcas 
nào gostavam da visinhan^a do theatro, sobre o qual 
davam as suas janellas, e lan^aram-Ihe fogo por 1697 
a 1698. D'aqui se ve a grande existencia que teve o 
Pateo dxiB Arcas apesar da amalevolencia dos visinhos que 
tinham janellas para o Pateo. i» A sorte d'este theatro 
tinha de ser gloriosa ; e quando estudarmos o theatro 
no seculo xvii, verèmos que elle leva a palma a todos 
OS demais. snr. J. M. A. Nogueira, nos seus valio- 
sos apontamentos, julga ser este Pateo o mesmo que 
tambem apparece com o nome de Pateo da Rua da. 

31 



322 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUBZ 

' Praga da Palha, situado na freguezia de Santa Justa, 
e de que existem documentos de 1593. Se assim é, 
mais se justìfica o ser a sua construcQào devìda a es* 
criptura de Latorre com o Hospital de To^os os San- 
tos, em 1591. Do firn do secalo xvi por diante até 
1640, o theatro portuguez passou pelas mesmas vicis- 
situdes do theatro hespanhol: prospero no reinado de 
Philippe V, e aniquilado no tempo de Carlos li. Até ao 
anno de 1836 continuou a abrigar-se o theatro portu- 
guez por. pateos e barracOes do Bairo Altoy Becco da 
Comedia^ Pateo do Patriarchay e Salitre, a contar do 
qual se deu o seu renascimento tentado por Garrett. 

A mais nacional de todas as fórmas da Litteratura 
portugueza, o theatro, confirma a grande verdade, que 
um povo, a primeira oousa que perde com a indepen- 
dencia e liberdade é a sua historia. Portngal ainda 
nào achou quem Ihe escrevesse uma historia completa 
e philosophica, aonde se mostrasse a consciencia da 
sua vida politica, porque ninguem até hoje sentiu, que 
& pressào do cesarismo monarchico e à intolerancia ca- 
tholica devemos o longo paroxismo da nossa naciona- 
lidade. Theatro portuguez luctou contra estas duas 
forgas, foi vencido, mas na queda delatou o crime da 
morte de um povo. Ainda ninguem tinha descoberto 
no Theatro este heroismo, por isso ninguem procurou 
estudal-o, nem tam pouco foram capazes de pressentir 
a sua historia. 



NO SECULO XVI 323 



Repertorio goral do Theatro portuguez 

no seculo XVI 



1602 — A VÌ8Ìta9fto ou Monologo do Vaqueiro, por Gii Vicente. 

1502 — Auto Pastori! castelhano, idem. 

1503 — Auto dos Reis Magos, idem. 

1503 — Auto da Sybilla Cassandra, idem. 

1504 — Auto da Fé, idem. 

1504 — Auto de Sam Martinho, idem. 

1505 — Far9a de Quem tem farellos? idem. 

1505— Auto dos Quatro Tempos, idem. 

1506— Sermfto em verso, idem. 

1508 — Auto da Alma, idem. 

1510 — Auto da Fama, idem. 

1512—0 Velho da Horta, idem. 

1513 — ^Exhorta^So da Guerra, idem. 

1513 e 15. . — Auto do Dia do Juizo, anonymo. 

1514 — Comedia do Viuvo, por Gii Vicente. 

1516 — Auto das Fadas, idem. 

1516 al523^Auto de Rodrigo e Mende, por Jorge Finto. 

1517 — Auto da Barca do Inferno, por Gii Vicente. 

1518 — Auto da Barca do Purgatorio, idem. 

1519 — Far9a dos Physicos, idem. 

1519 — Auto da India, idem. 

1519 — Auto da Barca da Gloria, idem. 

1521 — Far9a dos Ciganos, idem. 

1521 — Cortes de Jupiter, idem. 

1521 — Comedia de Rubena, idem. 

1522 a 1580 — Auto de Santa Barbara, por Affonso Alvares. 

1522 a 1580 — Auto de Sam Thiago Apostolo, idem. 

1522 a 1580 — Auto de Sam Vicente Martyr, idem. 

1522 a 1580 — Auto de Santo Antonio, idem. 

1523 — Auto Pastori! portuguez, por Gii Vicente. 



324 HISTOBIA DO THBATBO POBTUGUEZ 

1523 — Far9a de Inez Pereira, idem. 

1525— Far9a do Juiz da Beira, idem. 

1525 — Fragoa de Amor, idem. 

1526 — ^Tempio de Apollo, idem. 

1526— Far9a dos Almocreves, idem. 

1526 — Clerìgo da Beira, idem. 

1527 — Eufrosina, por Jorge Ferreira de Vasconcelloa, 

1527 — Auto da Historìa de Deos, por Gii Vicente. 

1527 — Dialogo sobre a BeB8urreÌ9flo, idem. 

1527 — Comedia sobre a Divisa de Coimbra, idem* 

1527 — Tragicomedia pastodl da Serra da Estrella, idem. 

1527 — Nau de Amores, idem. 

1527 — Auto da Feira, idem, 

1529 a 1587 — Auto da Ave Maria, por Antonio Prestes. 

1530 — Triumpho do Inverno, por Gii Vicente, 

1532 — Auto da Luzitania, idem. 

1533 — Bomagem de Aggravados, idem. 

153? — Dom Duardos, idem. 

1533 — Amadis de Gaula, idem. 

1534 — Auto da Mofina Mendes, idem. 

1534 — Auto da Cananea, idem. 

1535 a 1556— Auto dos Oaptivos ou os Tarcos, do Inf . D. LuL 
1536 — Floresta de Enganos, por Gii Vioente. 

1536 — Vilhalpandos, por 84 de Miranda. 

1536 a 1555 — Auto de Braz Quadrado, anonynio. 

1536 a 1556 — Auto da Naturai Inven9aQ, por A. B. Ghiado. 

1536 a 1591 — Pratica de outo figura^, idem. 

1536 a 1591 — Auto de Gonzalo OhambAo, idem. 

1536 a 1591 — Auto das Bogatoìras, idem. 

1536 a 1587 — Auto do Desembargador, por Antouio Prestes. 

1539 — Cena Puliciana, por Anrique Lopes. 

1542 — Auto doH Ainpliytrióe», por Lui» do Caiiióf^H. 

1543 a 1587 — Auto dos doÌH Iriiiaoa, por Autotiio VrcnUm. 

1543 a 1587 -Auto do Mouro Bncantado, idem. 

1543 a 1587 — Auto da Oìohu, idem. 



NO BBCULO XVI 326 

1543 a 1587 — Auto dos Cantarinhos, idem. 

1544 a 1587 — Auto do Physico, por Jeronymo Ribeiro. 

1545 a 1591^— Pratica de Compadres, por A. Ribeiro Ghiado. 
1545 — Os Estrangeiros, por 8à de Miranda. 

1546 — Auto de £1-Rei Seleuco, por Luiz do Camòes. 
1547 — Ulyssipo, por Jorge Ferreira de Vaeconcellos. 
1554 — Aulegraphia, idem. 

1654 a 1597 — Auto da Prega9ao Universal, pelo P.* Anchieta, 
1554 — Comedia de Bristo, pelo Dr. Antonio Ferreira. 
1654 a 15. . — Comedia do Cioso, idem. 
* 1555 — Auto do Filodemo, por Luiz de Camóes. 
1555 — Traduc9ao de Agamemnon, por Ayree Victoria. 
1556 a 1587 — Auto do Procurador, por Antonio Presteg. 
1568 — Castro, pelo Dr. Antonio Ferreira. 
16. . a 1559 — Auto de Dom André, anonymo. 
15. . a 1559 — Auto do Jubileu de Amores, idem. 
15 . . a 1559 — Auto da Adheren9a do Pa9o, idem. 
15. . a 1559 — Auto da Vida do Pa9o, idem. 
15. . a 1559 — Auto da Far9a Penada, idem. 
15. . a 1559 — Auto dos Dous Compadres, idem. 
1575 — Auto do Rico Avarento e Lazaro pobre, idem. 
1578 a 1612 — Auto de Santo Aleixo, por Balthazar Dias. 
1678 a 1612 — Auto de Santa Catherina, idem. 
1678 a 1612 — Auto do Nascimento de Christo, idem. 
1578 a 1612— Auto de El-Rei Salomao, idem. 
1578 a 1612 — Auto breve da Paixao, idem. 
1578 a 1612 — Tragedia do Marquez de Man tua, idem. 
1578 a 1630 — Comedia de Diu, por Simao Machado. 

1578 a 1630 — Os Encantos de Alphea, idem. 

1581 a 1624 — Auto dos Dois LadrOes, por Fr. Antonio de Lx.* 

1581 a 1624 — Auto de Santo Antonio de Lisboa, idem. 

1581 a 1624 — Auto da Paixao, do P.« Francisco Vaz de Guim.®* 

1581 a 1624 — Custodia, anonymo. 

1581 a 1624 — Doè Enamorados, idem. 

1581 a 1624 — Jacintha, idem. 



326 HISTORIA DO THBATBO PORTUGUEZ 

1581 a 1624 — Josephina, idem. 

1581 a 1624 — Auto do Estudante Crìstobal de Bivar, idem. 

1581 a 1624 — Auto do Duque de Floren9a, idem. 

1581 a 1624 — Auto de Deos Padre, Justi^a e Misericordia, idem 

1581 a 1624 — Auto do Prìncipe Glaudìano, idem. 

1581 a 1624 — Orphea, idem. 

1581 a 1624— Ramnusia, idem. 

1581 a 1624— Sergio, idem. 

1581 a 1624— Trìnutia, idem. 

1581 a 1624-.Tidea, idem. 

1583 — Dialogo Pastoni, idem. 

1590 — ^Mysterìo das Outù Mil Virgens, idem. 

1590— Dialogo da Ave Maria, por Alvaro Lobo. 



ERRATAS 



lilK. 

4 

2 

25 

1 

nlt. 

5 

5 

2 

16 

24 

10 



EBBOB 



EMENDAS 



(nota) 



pastai 


pastor 


crente o 


crente e 


calumnias 


calumnias. 


da 


de 


da 


na 


seculo XI 


seculo XVI 


D. Isabel 


D. Leonor 


D. Isabel 


D. Leonor 


D. Isabel 


D. Leonor 


D. Isabel 


D. Leonor 


1512 e 1516 


1612 e 16}6. 



HISTORIA 



I>A 



LITTERATURA PORTUGUEZA 



THEATRO GUSSICO KO SECULO XVI E XVII 



HISTORIA 



DO 



THEATRO. PORTUGUEZ 



4 volumes 



Seculo zyz — Vida de Gii Vicenie e 6ua Eschola 

(vili, 326 pag.) 1870 1 volume. 

Seculo xvii — A Comedia classica e cis 'TragiCóme' 

dias (vili, 364 pag.) 1870 ... 1 volume. 

Seculo xvni — A haixa Comedia portugueza (no 

prélo) 1 volume. 

Seculo xix — Os Dramas romanticos (no prélo) , 1 volume. 



HISTORIA 



DO THEATRO 

PORTUGUEZ 



POH 



THEOPHILO BRAGA 



A COMEDIA CLASSICA e AS TRAGICOMEDIAS 



BECULOS XVX E XVH 



■000(^^)00«- 



PORTO 

11IPBEN8A POBTUOUEZA — EDITOBA 
1870 



V 



n 



t 



va 



INDEX 



TOEIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



NO SECULO XVI {Continuagào) 



FAG. 

6BTBNCIA. . TU 



UXVTRO III 



Theatro Classico 



ruLO I — Theatro na Universidade e Col- 

legios 4 

ruLO II — Jorge Ferreira de V^asconcellos. 18 
ruLO III — Dr. Francisco Sa de Miranda. 53 

ruLO IV — Dr. Antonio Ferreira 73 

ruiiO V — Influencia de Santo Officio no 

Theatro portuguez (1564, 1581, 
1597) 115 



VI INDBX 



Theatro no Seculo XVII 

PAO. 

Capitulo I —0 Pateo das Arcas (1613-1755) 136 
Capitulo n — As Tragicomedias nos CoUegios 

dos Jesuitas. • • 151 

Capitulo ih — Index Expurgatorio de 1624. 185 
Capititlo IV — Eschola de Gii Vicente no se- 
culo XVII 211 

Capitulo v — Drama hieratìco da Prooissfto 

de Corpus Christi (1621). . • 242 
Capitulo vi — D. Francisco Manoel de Mello. 253 
Capitvlo vii — Padre Joào Ayresde Moraes 274 
Capitulo viii — Comedias hespanholas de Capa 

e Espada 287 

Capitulo ix — Introduc9ào da Opera em Por- 

tugal (1570-1686) .330 

— Repertorio geral do Theatro por» 

tuffuez no seculo XVII 359 



Este volume encerra a historia das caasas da de- 
cadencia do elemento nacional do theatro portugaez; 
Bfto ellas : 

1.* A Comedia classica da Benascen^a, imitada pe- 
ios adeptos da eschola italiana, que substituiram o ver- 
so popular da redondilha pela linguagem em proaa. 

A inflaencia do Santo Officio e dos Jesaitas, qae in- 
vadiram o theatro ; 

2.* Banindo os Autos populares com os Indices Eob* 
purgatarios; 

3.* E com as Tragìcomedias escholares, exclusiva- 
mente em latim, combatendo a Comedia classica ; 

4.^ A admissào das comedias hespanholas de Capa 
e Espada da eschola de Lope de Yega e Calderon ; 

5.^ A degeneragào da linguagem franca e ingenua 
dos Autos, pela expressào conceituosa e arrebicada dos 
Seiscentistas; 



vili 



6.* A introducgào da Opera em Portugal, cujo 
desenvolvimento se retardou até ao seciilo xvii, pelo 
predominio das Tragicomedias dos Jesuitas, prevale- . 
cendo mais tarde na córte com exclusào absoluta dft 
comedia nacional. 

Da pequéna manifesta^ào dos Autos no secalo xvn, 
abafados por todas estas causas de degenerafào cu de 
extinc^ào, se ve, que o theatro popular, quando a na- 
cionalidade estava a desapparecer sob a usurpa^ào cas- 
telhana, contribuiu para a revolu^ào da nóssft inde- 
pendencia, fazendo com que se nào esquecesse total- 
mente a lingua portugueza. 

Pobre e constantemente combatido, em tudo se co- 
nhece que o theatro portuguez foì sempre a fórma vi- 
tal da nossa litteratura. 



HI STO RIA 



DO THEATRO 



PORTUGUEZ 



THEATRO CLASSICO 

À renascenea do theatro grego e romano encetacTa 
no sedilo XV, fui um phenonieno moral analogo ao da 
crea^ào da cofnedia nacionnl pelo genio Hvre da bur- 
gnezia. theatro classico tem sido julgado corno urna 
renova^ao eradita; foi mais do que isso, foi uma reac- 
&o do espirito aristocratico coadjuvado pelos latinis- 
ta ecclesiasticos, que condemnavam a gargalhada 
^nca do povo emancipado pela industria. Benasceu 
^ Italia a comedia antiga, por circurastancias fataes 
privativas do genio italiano; o genio etrusco^ ou o 
^gmatismo auctoritario da religiào, e o genio lombar- 
> ou a independeucia pessoal, repugnavam-se, e em- 

i 



2 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

barafaram sempre a formatilo da riacionalidade da Ita- 
lia. Como auctoritario, o italiano nao reeonhecia a so- 
berania sem tradigào, a nào ser comò um legado trans- 
loittddo por algam podor anterior; d'aquì procurou fa- 
aer rena^er p antigo direito itàlico, em vdz de crear 
uni a legisla^do tirada das necessidades da sociedade 
moderna. 

Por oste motivo se deu na Italia a renascenoa do 
direito romano. Querendo urna soberania transmitti- 
da, acceitou sem opprobrio a tyrannia dos imperado- 
res da AUemanha, e quando um impulso naturai a fez 
repellir, entregou-se nos bracjos da theocraòia papal. 
N'este estado o genio estrusco desenvolveu a supersti- 
gào do passado, e aspirando a universalidade religiosa, 
imprimiu ao caracter italiano uina indole vagabunda 
e cosmopolita. "genio lombardo, pela sua parte, le- 
gava o instincto da independencia pessoal a sacrificar 
as institui^Oes aos individuos; d^aqui a infinidade de 
republicas, e de trai^Oes, em que essas novas socieda- 
des eram sacrificadas a invasào estrangeira. Tal é a 
formula da historia politica, artistica e litteraria da 
Italia. 

No seculo xv, o italiano conheceu que nào podia 
ter patria, e fez-se cidadào do universo, e à maneira 
de Campanella, quo formou a Cidade do JSol^ formou 
tambem urna cidade da Arte. Foi està tendencia que 
deu origem & ÌElenascen9a classica na Italia; as pai- 
xOes politicas substituirs^m-se pelas paixOes eruditas, a 
vida real foi substituida pela imita^ào do viver da Gre- 



NO 8ECUL0 XVI 3 

óa e de Bonia, recomposto pelos manuscriptos do thea- 
tro clissico. 

Adoptàmos no seciilo xvi està renasceii^a eulta da 

Italia, Sem Ihe comprehendermos a causa. Originada 

peloinstinctode urna eniancipaeào inorai, adoptamol-a 

oomo urna rcaci^ào cputra as crea^òes provocadas pela 

flOFa vida da sociedade burgueza. E por isso que em 

JPprtugal, OS que guerrearam Gii Vicente com a imi- 

taffto dos gregos e romanos, foram homens nobres, 

Como Sa de Miranda oii Jorge Ferreira, jurisconsul- 

*08 cesaristas, corno o Doutor Antonio Ferreira, e os 

catholicos intolerantes, nos divertimentos escholares 

doB coUegios dos Jesuitas. 

Como na renascen^a do theatro na Italia o ideal 
^ego fora conhecido através das imita<;;Oes romanas, 
Qm Portugal os antagonistas de Gii Vicente viram o 
ideal romano através das representa^Oes conie^adas na 
Italia* 

Trabalho mesquinho, e pronuncio da nossa deca- 
dencia. 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



O^A.I>ITXJX.O I 



Theatro na Universidade e CoUegios 



As tragedias de Seneca cxistiam iialivraria de D. Alfonso v. — 
André de Resende cita na Universidade as tragedias de So- 
phoclcs e Euripedes. -^ Jorge Ferreira de Vasconcellos es- 
creve a nianeira italiana a comedia classica eni prosa. — Iii- 
fluencia de Sa de Miranda sobre a iinita95o classica. — Rcla- 
^Oes entre Jorge Ferreira e Sa de Miranda cm 1527. — Sa de 
Miranda ataca a fórma da còmedia em verso, e condemna os 
Autos. — Os cnsaios dramaticos nos divertimentos escholares 
das Universidades da Europa. — Os estudantes poftuguezes 
quo vieram de Paris, e as tragedias de Buchanan na Univer- 
sidade de Coimbra. — Ferreira na Comedia Ertalo, allude às 
comedias que se reprcsentaram antes do 1554 na Universi» 
dade de Coimbra. — partido clerical approva a comedia 
classica. 



Antes da arte dos Aldos e da erudi^ao de Lascaris 
ter feito renascer na Italia no seciilo xv o venerando 
theatro classico, antes da riqueza dos Medicis ter sal- 
vado OS manuscriptos achados cm Constantinopla, ja 
em Portugal, na livraria de Doni AfFonso v existiam 
algumas das mais celebivos tragedias da antiguidade. 
Nào sendo extranha a Portugal a tradicuo litteraria 
da edade media, tambem foram cà recebidas as obra.s 
dos poetas que a edade media mais soube amar; Sene- 
ca, protegido pelas lendas piedosas das suas rcla^Oes 
de amisade com Sam Paulo, respeitado pela santidade 
da sua moral, foi abrigado nos claustros antigos, es- 
tndado e imitado. Na renascen^a do theatro moderno 
éa elle que compete a primasia sobre os tragicos gre- 



NO SECULO XVI 5 

gos; anies de 1453^ jà Eanes Àzurara citava aa trage- 
dias de Seueca, lidas na sumptuosa livraria de Dom 
Affonso V. Falando do Labyrinto de Creta, diz: aD'es- 
te labarinto falla Seneca na tragedia aonde pOe a cau- 
sa de Ipollito com Fedra.» (1) Azurara conhecia a ter- 
ceira tragedia de Seneca intitulada Hi/polito; em on- 
tro logar cita corno lida a tragedia de Hercules fiunoso: 
«Oo quam poucos som, segundo diz Seneca na pri' 
meira tragedia^ os que liusem bem do tempo da sua vi- 
cla, nem que pensem a sua brevidade \t> (2) Mas pelo 
espirito d'estas cita^Ges se ve que Azurara lia Seneca 
come moralista e nào corno tragico ; a forma drama- 
tica nào estava ainda em harmonia com os costumes 
ila sociedade portugueza. Dom Affonso v mandava os 
artistas portuguezes estudar a Italia, corno sanctuario 
da verdadeira sciencia, e por està via ou pelas nossaa 
Feitorias, enriqueceu a sua Bibliotheca no palacio de 
E vera; por sua iuterven^ào vieram tambem a Portu- 
gpX os sabios italianos. Por este tempo representava-se 
ein Roma a tragedia HypolUoj de Seneca, em quo o sa* 
bio Inghirami fazia o papel de Phedra. (3) Foi justa- 
mente està tragedia a primeìra que se leu em PortugaL 
Ab representaedes do theatro classico estavam entfio 
BO dominio completo dos grandes eruditos do seculo XT, 
e n'este tempo a córte |x>rtugueza segnin o costume 

(1) Chromca deGuiné, p. 12, not. 

(2) Ihid, p. 44. 

(3J Goincuené, HUt. LiiL d'Italie. P. ir, p. 29; Patin, 
Eschyie, p. 161. 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



das cortes iialianas, divertindo-ge com od mómo» e inr 
termézes, dos quaes nos resta o Entremez do Anjoyio 
Coude de Vimioso, anterior a 1471. (1) entranei 
constava de urna parte declamada, e de urna parie da 
canto. monarcha portuguez, admittindo este div6^ 
timento italiano, tornon a musica uma moda da boi 
córte ; elle teve por mestre n'està arte a Trist&o di 
Silva. Seu filho Dom Joàon tornon mais directa ais*: 
fluencia italiana, porqae elle proprio procnrava imitai 
o typo e caracter de Louren^o de Medicis. A idèa de-j 
mocratica do Cadastro, que deu a popnlaridade 
Medicis, reflecte-se na reac^&o antifendal de 
Joào II. 

theatro classico foi conhecido completamentei 
Portngal, depois que a eschola italiana inaugurada 
poesia lyrica se consolidou. André de Besende, na* 
^ào recitada na abertura da Universidade em 15ì 
cita jà as tragedias de Sophocles e Euripedes na 
gua originai: este facto explica-se, se nos lembrai 
que tambem na Italia a renascen^ado theatro eh 
foi devida a dupla influencia dos tragicos gregos e 
Seneca. (2) Assim d'este modo se ia despertandonai 
cidade academica o gesto pelos monumentos do 
tre antigo, que vieram mais tarde a ser repi 
dos comò ensaios litterarios nos seus divertimentosi 
cholares. mesmo respeito auctoritorio que envoh 
lego na Benascen^a o theatro classico, impedin-Iki^ 

(1) Hiètoria do Theatro poriuguez no secuh xvi, liv. I,p.l 

(2) Patin, Esckyle, p. 162. 



NO SECULO XVI 7 

8on desenvolvi mento naturai; os cultistas quo rogei- 
tavain o theatro nacional, erigiram a poetica de Aris- 
toteles corno ó codigo, a formula suprema por on- 
de deviam ser pautadas as suas creacOes dramaticas. 
A Poetica de Aristoteles era cheia de observagOes pro- 
fandaSy mas a casuistica acanhada dos commentado- 
res falseou-lhe a analyse, e exigiram a immobilidade 
stricta do texto. E por isso que o nossò tbeatro classi- 
co no seculo xvi é pobre. 

Theatro classico manifestou-se em Portuffal co- 
me urna reac^àp centra a comedia uacional; primeira- 
mente proscreveu o uso do verso de redondilha, prefe- 
rindo a linguagem da prosa. Jorge Ferreira de Vas- 
concellos encetou à nova escfaola com a comedia Eu- 
frosina^ justamente quando Sa de Miranda regressara 
da sua viagem da Italia. No prologo d'està comedia, 
escreve: «Eu sou dos que requerem ArQtusa, e Co- 
media no mais magoi^al estylo, Ei-vos fallar meì*a lin- 
guagem; nao cuideis que é iste tam pouco, que eu 
tenho em muito a Portugueza, cuja gravidade, gra^a 
laconica e authorisada pronunciatilo nada deve a La- 
tina, que vol-o exal^a mais, que seu imperio.» N'esta 
passagem, Jorge Ferreira protesta usar sómente da. 
linguagem da prosa, dando a primasia a linguagem 
vernacula, abandonada pelos que nos divertìmentos 
escbolares escreviam as comedias em latini. Egual- 
mente no Prologo da comedia Vlyssipo^ mostra o seu 
conhecimento historico da origem da comedia grega; 
ali nos descreve a lucta que se deu na nos&a. l\itfò\^\^\r 



8 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

ra com a ìntroducgào da comcdia nacional : cComo pò* 
rem n'esta vossa terra os gostos sào mny delicados e 
osestomagos da ma digestào; o author nfto se atre- 
vendo alcan^ar por si a authoridade de o admittirdes 
e soffrerdes, soccorreu-se a mim...» (1) A audacia 
qae Jorge Ferreira receia, e que procura abonar com 
àlguma authoridade era o compòr e reduzir & lingua 
portugueza os moldes classicos. A comedia Eujrmm 
foi escripta em 1527, em Coimbra, e n'este anno jà Si 
de Miranda se achava n'aquella cidade; é naturai 
que conversassem da brilhante Renascen<^a que se es- 
tava dando na Italia, e que a Sa de Miranda devesse 
o primeiro impulso para Cultivar a scena. Na come- 
dia Aulegraphia, Jorge Ferreira fala de Sa de Mi- 
randa com grande louvor: <i Gentil poeta é Boscfto. — 
Garcilasèo leva-lhe a boia. — Ambos me satisfazem: 
cada um por sua via. Mas se me desseis licenza, nfio 
Ihe dou a foga^a do nesso Francisco de Sa de Miran- 
da, de seu estylo mui limado e novo.ì> (2) Este dialogo 
confirma a induc^ào das rela^òes litterarias dos dois 
illustres poctas. Porém Jorge Ferreira imitando a co- 
media classica, inspirou-se directamente dos monnrnen- 
tos originaes enao dos primeiros ensaiosdospoetasda 
Italia ; tendo seguido por influencia do tempo a poesia 
da eschola hespanhola^ fundin com a imita9ao do tbea- 
irò latino a gra^a nacional da comedia castelhana; 
Plauto e Terencio dominavam o seu espirito pela ati- 

(1) Ulyssipo^ fi. 3. 

(2) Actò IT, se. 2. p. 128. 



NO SECULO XVI 9 

thoridade das escholas, mas Eojas coni a sua Celestina 
impressionava-o profundamente. No seculo xvi, a no- 
breza portiigueza, seguia por distinc^fio os cstudos re- 
gularos ; ibi por isso que o tbeatro classico occupou 
sempre a predi lec^slo da nossa nobreza. 

No prologo da coinedia dos Estrangeiros tambem 
Sa de Miranda faz a bistoria da decadencia da Come- 
dia classica, e nào se esquece de censurar Gii Vicente 
por ter inlitulado as suas composi^Oes dramaticas com 
o nome de Auto: «Venbo fugindo, aqui n'esté cabodo 
mundo acbo paz, nào sei se acharei socego. Jà sois no 
cabo e dizeis ora nào mais, isto é AutOy e desfazem as 
carrancas, mas eu o que nào fiz aie agora, nào queria 
fazer no cabo de meus dias, que é mudar o nome. Este 
me deixae, por amor de minha natureza, e eu dos vos- 
SOS veraos tambem vos faoo gra^a, que sào for^ados 
d'aquelles seus consoantes.» 

Quando Sa de Miranda escreveu este ataque vio- 
lento, centra o tbeatro nacional escri]>to unicamente 
em verso de redondiiha e com rimas, jà era morto Gii 
Vicente, bavia nove annos, mas ainda florescia a pleia- 
da brilbante que o imitava. Podemos dizer que é a 
contar d'estes ensaios, que a comedia nacional foi ba- 
nida da corte portugueza; os principes educados por 
sabios e eruditos, abra^avam a doutrina que Ihes incu- 
tiam ; é por isso quo vemos a comedia Eufrosina dedi- 
cada ao principe Dom Joào, fillio e lierdeiro de Dom 
Joào III; tambem o cardeal Dom Henrique, o maisin- 
tolerante catholico quecontribuiu para a mina de Poit- 



10 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tngal, mandou pedir a Sa de Miranda as snas daas co- 
medias, para serem representadas no pàQo por altos 
dignatarios; aessas representaeOes assistiam entrè ou- 
tros eruditos ecclesiasticos, Doni Jorge de Athayde, 
abbade de Alcobat^a e CàpellAo-mór do Rei. É tam- 
bem por està alian^a cntre a authoridade classica e a 
iutolerancia catholica, que em muitos livròs asceticos 
portnguezes, Sa de Miranda apparece citado com o 
respeito de uni padre da egreja. Aonde foi o Doutor 
Antonio Ferreira procurar favor para a dedicatoria do 
seu primeiro ensaio de comedia classica, senào no prin- 
cipe Dom Joào, que liavia acolhido Jorge Ferreira! 

theatro de Gii Vicente, composto dos seus Au- 
tos e tragicomedias, nào foi conhecido do poTO, se at- 
t»M'lermos, que essas* peeAs se represcntavam nos se- 
róes da córte de Dom Manoel e de Dom Joào in; mas 
nào obstante faltar um locai em que fossem represen- 
tadas de modo qne o povo assistisse a ellas, é nataral 
que fossem publicas quando se celebravam pela vigilia 
do Natal e dos Reis nas egrejas e conventos; de mais, 
na rubrica posta pelo filho de Gii Vicente a primeira 
das suas far^as vem: «Este nome da Far^a seguiate — 
Quem tem farellos? — póz-lKoo vulgo, t* D'aqui se con- 
cine, e da sua primitiva impressào em follia vohnle, quo 
a melhor parte dos Autos de Gii Vicente foram efFocti- 
ramente populares. 

Porém entro a velli a fiir^a da edado media e a co- 
media classica imitada dos exemplares romanos, ha nm 
ahysmo; aquella é metrificada, na redondilha fiicil, re- 



NO SECULO XVI 11 

presenta os costames do tempo, os anexins, as Buper- 
sti^Oes^ a maledieencia, a desenvoltura; a comedia 
imìtada de Plauto e Terencio, recorta os sena per- 
sonagensy segondo Geta ou Davo, e eru prosa alatina* 
da, eomo uina reconstrucQào archeologica, em que nos 
desapparecem desenterradas figuras obrando com os 
oostumes e interesses da extincta sociedade romana. 
Estas comedias tiveram urna origem artificial; nas- 
ceram nos Collcgios e Univcrsidades da Europa para 
passatempo dos cstudantes, rcpresentadas sob a ferula 
dos mestres, corno ensaio da lingua latina ou gregn. 
Assim a vida, a paixào, as emoQOcs da alma, que cou- 
atituem absolut amente a crea^ào dramatica, cediam o 
campo diante das reflexOes grammaticaes; sacrificava- 
se tudp a coneordancia, a boa prosodia, ao dactylo e 
apondeu. Sobretudo nos CoUegios francezes era este 
costume inveteradissimo, e de là se derivou no tèmpo 
da reforma da Uuiversidade, para Coimbra, aonde Bu- 
chanan (1547), o Doutor Antonio Ferreira, Sa de Mi- 
randa e Camòes sustentaran» este velho uso escholas- 
tico, que mais tarde veiu a cahir completamente eni 
poder dos jesuitas. 

Na reforma da Uuiversidade, trasladada para 
Coimbra em 1537, foram chamados os alnmnos por- 
tnguezes que estavam em Paris no Collegio de Santa 
Barbara. No Elogio de Dom Jodo III, diz Antonio de 
Castiiho: «escolheu alguns mo90s de boa esperanga, 
para fazerem alicece d'està obra, os quaes mandou 
crear em Paris no Collegio de Santa Barbara^ oivdfò ^^ 



lì HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

assinalaram algans na eloqnencia e doctrìna, de sórte 
qne pode dopoìs reformar a Universidade de Lisboa, 
e leval-a à eidade de Coimbra, convidando Theologos, 
Jnrìstas, Medicos de todas as partes da Europa que 
floreceram n'esta Universidade, e ganharam honra 
com o favor e partido qne Ine faziam.» (1) O Dontor 
Djogo de Paiva de Andrade, no Sermdojprégtido iMt 
traslada^ào dos ossos de Dom Joào iii, em 1572, re* 
fere-se tambem aos mancebos qoe mandava estndar 
fora do Beino : e e ainda antes qne fnndasse a Univer* 
sidade de Coimbra, snsteutava cincoenta mancebos de 
todo o estado e GondÌ9ào de gente e de todas as partes 
de seus estados e senhorios em Paris patxi apprenderem 
OB boas letrasy qne ai floresciam entào mais qne em as 
outras partes.» (2) Foram estes professores e està-* 
dantes vindos de Paris e de outras partes da Europa 
que introduziram em Portugal o theatro classico. Se 
a renascen^a do theatro se operon em Fran9a por meio 
dos CollegioS; (3) entro nós foi tambem devida aos 
mesmos costuraes escliolasticos. 

No Collegio de Boncourt em 1552, representon 
Jodelle a sua tragedia de Cleopatra^ e a sua comedia 
intitulada Eugenia; a tragedia, corno descreve Etienne 
Pasquier, foi representada diante de Henrique u, no 
pateo do palacio de Beims, atacadissimo de estudantes 
assistindo tambem o grande grammatico Tumebns e 

(1) Citado Elogio, p. 293. 

(2) Sermfto ni, fl. 276. v. 

(3) Victor Fouriiel, Cariosités theatrales, p. 74. 



NO SECULO XVI 13 

o proprio Pasquier; Jodelle tinha entào vinte annos, 
e fazia a parte de Cleopatra. Como estes divertimeu* 
tos forinavàm o espirito de classe, e corno os estudan- 
tea portuguezes teriam empenho de renovar em Por* 
tugal esse uso academico! No Collegio de Beauvaia 
foi representada em 1558 a Tresoiière de Jacques Gre- 
TÌn, e em 1560 a tragedia de Cesar ou a liberdade vin^ 
goda* No Collegio de Harcourt em 1563 recitou-se 
publicamento o Achilles de Nicolau Filleul. Em 1597 
no Collegio des Bons-Enfants, o reitor Jeau de Be« 
hourt, maudou representar pelos seus estudantes a 
Pclixencu Guy de Saint Paul, Beitor da Universidade 
de Paris, em 1574 deixava os estudantes ropresenta* 
.rem pelas ruas, e elle proprio escreveu a tragedia de 
NerOy representada no Collegio de Plessis. ( 1 ) Estes 
factos prò va vani abundan temente as origens do nosso 
theatro classico, se o mesmo Buchanan, chamado para 
a Universidade no tempo da reforma de 1538, nào dei- 
xàsse apontado o catalogo das pe^as dramaticas que 
escreveu para os diverti mentos escholasticos. No pro- 
logo das Comedias de Ferreira, o poeta refere-se a ou- 
tras representa^Oes do mesmo genero anteriores a sua* 
£stes passatempos tinham em mira a cultura do latim 
e do grego, entào no seculo xvi considerados conio as 
chaves da sciencia universa!. 

. Foi André de Gouvéa, que chamou o celebre es- 
Gocez Jorge Bucbanam, quando refugiado em Paris, 

(1) Factos tirados de Victor Fournel, Curioaités, p. 75, 



14 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

para professor do novo ColliBgio de Bordeaux. Du- 
rante està occupa^ào litteraria, levado pelo costu- 
me da renascen^a, Buchauam compoz as tragedias 
de Jephté e de Joanes Baptista, traduzindo ao mes- 
mo tempo do grego de Euripedes a Medea e Alcestes. 
Tres annos depois, Jorge Bacbanam foi convidado pe- 
lo governo portuguez para vir ser lente da Universi- 
dade do Coimbra, qiie entào se organisava novamente. 
Tendo cscri|)to urna virulenta satyra latina centra os 
frades franciscanos por mandado de James V, e son- 
do depois perseguido pelo mesmo monarclia , ao rece- 
ber o convite para entrar na Universidade de Coimbra, 
propoz corno condi^ào a el-rei Doni Joào ili o nunca 
ser mais perseguido por causa da poesia porque fora, 
preso. Dom Joao in offereceu-lbe a sua protec- 
qkOy fraea e avassalada pelos escrupulos dos fradea. 
Apenas chegado a Coimbra, come^nram lego os frades 
a accusal-o de heresia ; qnoimal-o-hiarn se Dora Joào iii 
OS nao soffreasse, permittindo-lhes apenas que o clau- 
surassem. Preso esteve ali aquelle sabio estrangeiro, 
cumprindo a penitencia de traduzir para verso latino 
08 Psalmos de David, levantando-os assim da prosa 
barbara da Vulgata. 

Durante a sua permanencia na Universidade, aqui 
poz em vigor os antigos costumes academicos da Eu- 
ropa, fazendo representar pelos estudantes as trage- 
dias antigas de Seneca ou de Euripedes. De facto Se- 
neca foi mais conhecido de que os tragicos gregos, e 
segundo Fatin, por elle veiu a renascen^a da tragedia 



NO SECULO XVI 16 

moderna. E naturai que Buchanan! em 1542, fìzcsse 
representar as suas duas tragecHas de Jephté e de «/oa- 
nes Bapiista. Seriam talvez estes os primeìros ensaios 
que iucitarani o Doutor Antonio Ferreira a escrever a 
celebre tragedia de Ignez de Castro ^ o assumpto queri- 
do de Coimbra e sempre vivo na tradi<;*,ao orai e locai. 
No prologo da sua comedia do Cioso^ Ferreira allude 
a trabalhos de mais valia que o precederam; eram coni 
certeza esses tentames dramaticos, feitos corno exerci- 
cio litterario na Universidade, em £erias ou nas gran- 
des festas escholares. Àssim Camòes foi tambem le* 
vado a escrever o auto dos Amphì/lrióesj e a comedia 
de JSl'Rei SeleucOj ineitado pelos mesmos usos acade- 
mioos. Buchanan!, depois de libertar-se da clausura a 
que o forgaram os monges, entendeu que estava mais 
seguro em Inglaterra d'onde fugira, do que em Por- 
tngal, para onde fora convidado ; e assim para là 
voltou, tendo insensivelmente contribuido para o dos- 
envolvimento do theatro classico em Portu^al . 

Os divertimentos dramaticos na Universidade de 
Coimbra seguiram os costumes das Universidades da 
Europa; Bonsard inaugurou em Franca o theatro clas- 
sico, e ainda no Collegio de Coqueret, em 1549, tra- 
duzìu o Plutus de Aristophanes, que foi representado 
pelos seus condiscipulos. Este exemplo de Eousard nào 
podia deixar de produzir em Portugal urna certa in- 
fluencia, por isso que Gonsard foi condecorado pelo 
nosso Cardeal Dom Henrique, o mesmo que mandava 
representar as comcdias de Sa de Miranda* As rela- 



16 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

^Oes de Dom Joào iii com a corte franceza foram.ìnii-* 
mas, corno se ve das negocia90es de sua madrasta Dfj 
Leonor e Francisco i, àcerca da infanta D. Maria. 

Nas Universidades de luglaterra tambem se 
vam as representa^òes classìcas; a ellas allude Sbi 
speare, no Hamlet, na celebre scena de Polonius : tM] 
lord, reprasentastes oiitr'ora na Universidade, dij 
vós? — Sini, Mylord, là representei, e passava por 
actor. — E quai o papel quedesempenhavas? — A 
te de Julio. Cesar; fui morto no Capitolio, etc.» 
allusào rapida descreve os costumes intimos do lem] 
Egualmente nas Universidades da Allemanba se 
presentavam as comedias latinas de Beuchlin e 
Conrad Celter. 

Eni HespanLa encontramos està mesma tendei 
da epoca; foi o reitor da Universidade de SalamaiK 
Fernan Perez d'Oliva, quo fez a traducano da EUdm\ 
de Sophocles e da Hecuha de Euripedes. (1) 

A vista d'este synchronismo dos factos, compreheihJ 
de-se em toda a sua luz a dedicatoria de Bristo do^ 
Dr. Antonio Ferreira, ao principe Dom Joào: ccNj 
està Comedia para servilo de V, A. foi para mira tt- 
manho milagre que depois de visto aiuda o nào acabo 
de crér. Porque sendo a priraeira co usa de homem tao 
man cebo, feita por so seu desenfadamento em certot 
diaa deferias, e ainda esses furtados ao estudoy quem ore- 
rà, que corno cousa para isso do dias ordenada, e de 

(1) Ticknor, Bist. de la Liti. esp. Epoca ii, eap. vii, p. 132. 



NO SECULO XVI 17 

^Uthor grave composta, fosse por seu servÌ90 rCesta 
Universidade receMda e piiblicada (representada) onde 
pouco antes se viram outrasy qne a todas as dos antigos oa 
levam cu nfto dào vantagem. Salvo-me na for^a (em- 
penho) que me foi feìta nos bons juizos de homens de 
maitas letras (professores) qne consentiam niella, a 
que o meu foi necessario obedecer, que tambem escu- 
sam està ontra onsadia de a offerecer a Y. A. a que 
pe^ a receba por sua, pois por està Universidade, com 
ignal consentimento de todos Ibe foi offerecida, e por 
ser em seu servilo mereceu ser bem julgada.» A occa- 
siào qne motivaria a composi^ào da comedia de Bris" 
iOy seria o casamento do principe Dom Joào com a in- 
fanta D. Joanna de Castella; a dedicatoria de Ferreira 
é urna pagina bastante curiosa da bistoria do tlieatro 
classico. 

O tbeatro classico tambem foi admittido nos con* 
ventos; em Hespanha o bispo Gaspar de Villalva, 
escreveu a provar, qne um snperior podia authorisar as 
representa^Oes no seu mosteiro. Està doutrina reflec- 
tiu-se immediatamente em Portugal, e foram os jesui- 
tas OS primeiros que tiraram partido d'ella. 



18 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



Jorge Ferreira de Vasconcellos 

A córte poetica de Dom Jo5o ii e Dora Manoel. — Jorge Fer- 
reira frequenta muito cedo os seròes do pa90 aonde se dia- 
tinguiu corno poeta. — Rela9de8 de amisade com Garcia de 
Resende, que Ihe pediu trovas para o 'seu Cancioneiro gè- 
ral, — Conheceu Gii Vicente, que o citou na tragicoraedia 
das Cortes de Jupiter. — Jorge Ferreira seguiu a eschola hes- 
panhola em poesia lyrica. — Influencia da Celestina sobre o 
seu talento dramatico. — Tempo ero que escreveu a comedia 
Eufrosina, — Rela^òes coro Sa de Miranda, antes de 1516. — 
Quando escreveu a comedia Ulyssipo.-r-ArmsB.dQ cora o prin- 
cipe Doro JoSo. — Influencia da morte de D, JoSo, sobre o 
genio de Jorge Ferreira ; a comedisi Aulegraphia, — As obras 
de Jorge Ferreira foram sempre anonymas, — seu theatro 
era mais para ser lido uos serOes do pa90. 

Nào se sàbe quando uasceu Jorge Ferreira do Vas- 
concellos, e apenas se conservou a data da sua morte; 
nasceu em Coimbra ou Monte-Mor-o-velho, e moprea 
em 1585. (1) Em um exemplar da prìmeira edi^ào da 
Eufrosina de 1561, leu Jorge Bertrand, ser Jorge Fer- 
reira naturai de Lisboa, o que é mais adfnissivel. Fo- 
demos consideral-o comò centenario, se é qne està data 
determinada por Barbosa Macbado tem algum funda- 
mento; e Fedro José da Fonseca, no Catalogo dos Au- 
ctores do Diccionario da Academia, (2) conclue: «O 
que, se assim for, visto decorrerem desde entào até 
a sua morte sessenta e nove annos.» E jnsta està ob- 
8erva9ào, mas surprebende-nos mais ainda o acbar 

(1) Bibliotheca Luzitana, t. il, p. 805« col.. 2. 

(2) Dice, da Acad,, p. cix. 



NO SECULO XVI 19 

o sen nome entre os ficlalgos da corte de Dom Joào il, 
qne tomavam parte nos serOes poeticos; em varioa oer- 
tames de 1498 figura Jgrge de Vasconcellos, e n'este 
tempo nào poderia ter menos de desasseis aunos. Gar- 
da de Besende tambeni entrou muito novo para o ser- 
vilo de Dom Joao ii, o que justifica a nossa hypothe- 
86. D'estèmodo, devia Jorge Ferreira ter raorrido com 
103 annos de edade! primeiro limite, deduzìdo dos 
monamentos conservados no Cancioneiro geral^ é ina- 
balavel; o segnndo limite, apresentado por Barbosa 
Machado é que carece de fundamento. Como teda a fi- 
dalgnia portugueza do seculo xv, Jorge Ferreira eul- 
tivou muito cedo a poesia, comò um recurso de galan- 
teria para parecer bem na corte; influenciado pelo tem- 
po em que viveu, seguiu a ultima degenera^ao da poesia 
proven9al da Peninsula, a que se chamava eschola hes- 
panhola, on eschola veUia, 

Jorge Ferreira conhecia a veiha poesia hespanhola 
do seculo xv, colligida no Cancionero de Hernan de 
Gastilho; em uma passagem da Aulegraphia^ cita os 
nomes dos principaes poetas conhccidcs na córte por- 
tngueza: c[ = £sto està claro que la lenguage Castella- 
na es una laguna, e una mar Oceana que vence a la 
insona copia, pues en la poesia es cosa espantosa: y 
qnereyslo ver, mi rad quien trovo comò Juan Royz del 
Ptdnm^ el Bachiler de la Toi^re^ Cartageìia^ Garei SaH- 
chez o mil cnentos d'otros : sefior, nadie ouite el loor 
a nadie. — He verdade, mas sabeys quem me aborrece 
muyto no vesso Cancioneiro geral^ as gra<jas de i2ou- 



20 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

peiro. — pesia tal, esso fue estremado dìzidor. Pues 
Joanpoetay no lo va ea gagà. — E o Judeu que fez à 
raynha Dona Isabel a cantiga : 

Alta Reyna soberana 

que rassào hon ve para nào ser queimado por tao diabòlioo 
atrevimento, e clara hercsia?i> (1) Estes poetasaqid* 
louvados estào frequentemente citados no Cafwiùneiro 
portnguez, e tambem na coUec^ào de Besende seacham ' 
trovas contra o poeta judeu que querendo exaltar a rai*' 
nha Isabel, a eleva acima de Nossa Senhora. Fot* todot 
estes factos, vé-se que Jorge Ferreira recebera a^tra-' 
diQào pura do seculo XY. Antes de termos descoberto 
OS seus versos no Canciotieiro de Kesende, haviamof 
jà chegado a està eonelusào por algumas coplas intro« 
duzidas nas suas comedias, escriptas em tempo qoe 
remava a cscbola italiana. Urna prova^da sua pre- 
dilec^ào pela velha poesia da Péninsula sào os roman- 
ces imitados do povo, que elle, a maueira de Dom Joio 
Manoel e de Sopulveda, compoz sobre o cyclo greco- 
romano. (2) À vida de Jorge Ferreira de Yasconoelloi 
abrange o periodo mais completo da decadencia de Po^ 
tngal; comò moralista elle verbera os costumes do 
tempo, a edade torna-o sentencioso, a sua memoria é 
um tbesouro inexgotavel dos adagios vulgares e das 
locneOes mais genuinas e intraduziveis da lingua po^ 

(1) AulegrapMa, act. ii, eec. 9, fi. 66, v. 

(2) Fhresta c/e Eotnances, p. 36 a 53. 



NO SECULO XVI 21 

^eza. As suas obras revelam-nos oste caracter^ que 

* si explica o motivo da sua longevidade. 

Como Sa de Miranda, Jorge Ferrei ra viria de Mon- 
&f ór, on de Coimbra para Lisboa a firn de cursar 
estuclos da Universìdade; corno de familia illustre 
.barn entrada no pa^o os nobres escholares, e so- 
lute assim 80 pode explicar a precocidado com que 
Lea doÌ8 poetas fìguram no Cancioneiro de Kesen- 

• S& de Miranda gabava-se de ter ouvido ainda 
uliimos eccos das trovas de Dom Joao de Mene- 
fi;, porém Jorge Ferreira chegou a tornar parte nos 
rriames poeticos encetados por aquelle venerando 
"OTador. 

Na Aulegrapliia cita o seu nome com respeito, ap- 
resentando-o corno o primeiro chefe da escliola velha : 
^ trova portnguesa^ sem fezes^ he muito para agra- 
lecer: e senào tomao-me o nesso Dom Joào de Mene- 
«B, vereys se falou ninguem melhor que elle, e mays 
fido he seu proprio, sem se ajudar do alheyo.» (1) 
orge Ferreira mostra urna admira^ao, comò quem poe- 
>u em certames junto com elle, e o ouvira de porto. 
im oatro legar da Aulegvaphia^ chama-lhe grande^ 
piniào que coincide com a de Sa de Miranda: «Haveys 
ae Boubera aquelle grande Dom Joào de Menezes, 
atar assi uma dama?j^ (2) 

Em 1498 j& frequentava a corte de Doni Manoel 
wrge Ferreira de Vasconcellos, e ai se distinguia co- 

(1) Aulegraphia, act. iv, sec. ii, fi. 129, ed. 1619. 

(2) Idem, fl. 123, v. 



22 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

mo poeta nos scrOes afamados do pago ; determìnamot 
està data, pelo facto de ter elle tornado parie em in 
certame poetico, etn que era priaoipal Dom Jo&o de| 
Menezes : ^kDe Dom Joào de Menezes em noìne dai 
mas ao Conde de Villa Nova e Anrique Correa, que 
zeram carapugas de Ssoli/a,ì> N'este certame taml 
tomou parte o veiho e celebre Camareiro Mór. Bùi 
outava improvisada por Jorge de Vasco Gon^los: 

Eu nSo Ihe dou multa culpa, 
qu'alvoro^o Ih'a fez fazer; 
mas o lido reconhecer 
aquysto nSo tem desculpa. 
Conhe^a, eramaa coDhe9a 
que fez urna galantarya ! 
e quem Ih'as fez merecya 
muitos couces na cabe9a. (1) 

nome de Vasco Gongelosy assim corrompido no 
seculo XV continuou a ser usado no seculo xvi. 

Na tragicomedia das Cortes d^ JupUerj Gii Vicen* 
te cita Jorge Ferreira, corno elle era conhecido nos 
rOes do pa^o : 

Jorge de Vasco Gon9elos 

N'um csquifo de cortÌ9a 

Irà alfenaudo os cabellos, 

Por divisa dois novellos; 1 

A letra dirà : Ou Ì9a ! (2) 

A tragicomedia foi representada em 1519, nospa« 
90S da Kibeira^ e a este tempo jà o poeta merecia urna 

(1) Cane. Geral, fl. 159, col. 2 

(2) Gii Vicente, Ohras, t. ir, p. 404. 



NO SECULO XVI 2a 

alhisfto na pe^a de Gii Yicente pela ìnflaencia qne 
éxercia nos divertimentos poeticos da córte. 

Pela sua parte, Jorge Ferreira tambem mostra ter 
oonhecido Gii Vicente, corno se deprehende da allnsao 
às coplas da Franto de Maria Parda : ((Vó«^ em pes- 
sòa nobro agraduado a obreiro, sabe que jà cotnpetem 
psideiras, lee pelo Conde Partinoples, sabe de cor as tr^ 
vas de Maria Parda, e entra por fegura no auto do Mar- 
qnez de Mantua.» (1) Este conhecimento proveiu das 
snas rela^Oes na corte de Doni Manoel, aonde tambem 
conheceu e tratoii coni Berriardim Hibeiro, amigo de 
Sa de Miranda; na Aulegraphia, allude ao solào da 
Ama na Menina e Magai «Cautarey em voz alta: 

Pensando-vos estoii filha 
afod me està lembrando, etc. 

e por desfeita tango-vos yo mi pandero que vem a pro- 
posito: vereys que bravas saudades fa^o.» (2) Foi Ber- 
nardim Ribeiro o ultimo que usou dos solàos, e Jorge 
Ferreira, que pertence inteiramente a este periodo, diz : 
cQue OS mo^os de esperas, que sohiam cantar de soldo 
a vezes: 



>•••*•• 



Quebra coragao... 

Quebra que ti&o es do pedra, etc. 

e outras do teor em quanto os amos estavam no serào, 
sem cuydado de sua ventura, agora fazem consulta an- 

(1) Aukgraphia, act. i, se. 4, il. 12. 

(2) Id. fi. 163, Vi • 



24 



HI8T0BIA DO TUE ATRO POBTUGUEZ 



tre mò de cavalos sobre prematica do Beyno, e des- 
aprovam tolher-se a ceda, porque se perdcram os cha- 
peoB de feltro. » (1) 

Em outro certame poetico, sascitado por Dom Joio, 
Manoel, tambem Jorge Ferreira tomoa parte. Pela al- 
los&o ao Duque vé-se que sondo o dnque Dom Jaime, 
foi o certame autes de 1513. certame satyrìco ver- 
sava sobre o ter vindo de Castella Lopo de Scusa, ayo 
do Duque, com urna grande carapuga de velludo^ que 
coételhanos cliamam gangoi^^. » Jorge de Vasoonoel 
escreveu a este proi>osito : 



Porque caa nam se pasasse, 

serya miiyta rrezìlo 

queni de Castella cbegasse, 

que na corte nam entrasse, 

seni trazcr rrecada^am ; 

e d'ysto loguo farya 

ordcna^fto 

de fydalguo atee pyaflo. (2) 



Coubc a Jorgo Ferreira o terminar o certame, co- 
rno se ve por està rubrica: uPergunta de Jorge de Yqà* 
confelos a Lopo de Sousa, e firn:» 



Dizci-me corno trouxestcs 
tao longe de Portugal 
bum peso tam desygual, 

goys quo por maar nao viestes! 
\u nam sci còrno se meta 



(1) Aulegraphia, Prologo, fl. 4, v. 

(2) Caìic. geral, fl. 159, col. 3. v. 




HO SBCULO Xn 88 



na cAbe^ Q9*a ifiarii, 
senhores, tal enven^am ; 
c*aft meèter utaa cartata 
para a trazer nuta scran. 
E povs por maar nfio vieatcs 
tain longe de Portugal 
corno tfto deBCommunal 
gangorra trazer podestes? (1) 



Pela indole (Veste divertimento so v6, corno por oa- 
iras coplas analogas oantadas no CatìcioneirOy e quo al- 
ludem a factos de 1498, que ainda no seculo xv Jorge 
Ferreira frequentou a corto de Dom Manoel. Nas tro- 
vas que se fizeram a Francisco de Auhaya, aque veo a 
JPortìiffal com grande doo ^ e trazia umjaez dourado e eri" 
vemizdido, posto aobre pano de doo^ e muito larguo eom 
ffrandes enxai^i'afaa pretas,i> tambem Jorge Ferreira io- 
mon parteé Este do que trazia a Portugal Francisoe 
cl'Anhaya era o luto pela morte da rainha D. Zsabel^ 
primeira mulher de Dom Manoel, em 1498. Eis a ru- 
brica das trovas : ftDe Joige de Vascongelos^ e firn ;» 



No estremo com carneiros 

nam cuideys que se passou, 

mas diz que niims semidcyros, 

tornado dos portageyros 

por atafal o ssalvou. 

£ pois que perdeo o sspno 

por mcter hum atafal 

por jaez em Portugal, 

he para rryr de sseu dono. (2) 



(1) Fol. 161, col. 1. 

(2) Id. fl. 171, col 3, V. 



26 HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ . 

■ 

Em mnitas trovas Ab Pero de Sottsa Bibeiro c< 
casadas que andavam de amaresj quando el-rei e ar 
nha partiram para Almeirim^^ tambem vem nm ren 
que a Jorge Ferreira de Yasconcellos: 



Doni Martini de Castel-branco 
tem tanto para f alar 
que creo que aa d*agaar 
on ficar jà sempre manco. 
£ jaro por deos dos ^elos 
qne estaa bem cspyado, 
e visto, que è conselhwlo 
pelo de Vasco Gongelos, (1) 



Todos OS poetas protestaram perseguir com tf 
dos a Pero de Sousa Kibeiro, desde Setembro, em q 
foi a partida do lei e da rainba para Almeirim, aie il 
neiro do anno seguinte. Pela outava a Dom Martim 
Castel-branco, se ve que Jorge Ferreira aìnda n'e 
tempo nào era casado. Jor^e de Vasca Gongelos^ gì 
sou o mote commum, n'esta decima: 

Vy-lhe Ulna manhà fazer, 
que nam fizera uni Mouro, 
do estribo, polo ver, 
tyrar o pee e meter 
em corro hyndo com touro. 
E nào ficou no terreiro 
Portuguez, nem estrangeiro, 
que uSlo fìzesse apupar, 
quando vyram remirar 
Pero de Souza Ribeiro. (2) 

(1) Cane, geral, fl. 172, col. 1, v. 

(2) Idem fl. 172, col. 2, v. . 




NO SECULO XVI ' 27 

Este certame seria ainda em vida de Dom Jofto ii^ 
antes de 1495, por isso que ai apparecem com nma de- 
cima €08 dnmas da rrainha dona Lt/ano7\T^? Jorge Fer- 
reira frequenton a corte seudo muito mo^o; com bas- 
tante talento poetico, occupa no Cancioneiiv geral nm 
legar muito secundario, devido talvez a sua edade e 
principalmente ao sentimento de modestia que fez com 
que elle nunca assignasse obra sua. Quando antes de 
1514, Garcia de Resende come9ou a pedir aos fidalgos 
do pa^o as suas poesias para enriquecer o Cancioneiro 
fferaly tambem as pediu a Jorge Ferreira, que nào quiz 
acceitar essa prova de considera^ao. No Cancioneiro gè- 
ral, està o pedido que Ibe fez Garcia de Rezende, com 
a segùinte rubrica: €De Garcia de Rezende a Jorge de 
Vascoh^eloSy porque nam querya escrever liximaa trovas 
suae:9 

Ncsle mundo a moor vytoria, 

que see daa nem podo ter 

qiialquer pessoa, 

ho ficar d'eia memoria : 

bora deyxay d'escrever 

couea boa I 

E olhay, que 08 antiguos 

davam ho decmo as vydas, 

800 porque falassom n'elles. 

E nós, por sennos ymygos 

do nós tcmos csque9Ìdas 

myl cousas mòores c'as d'eles. (1) 

Jorge Ferreira nao quiz attender ao pedido de Re- 
zende com aquelle desamor da sua gloria que fez com 

(1) Fol. 223, col. 3. 



28 HIStORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

.que todos os sens escriptos fos8em anonymos. Vergo- 
nhoso esquecimento pesarla hoje sobre os poetas da 
corte de el-rei Dora Diiarte, AfFonso v e Dom Jofto il, 
se o chronista Garcia de Hesende se nfio lembrasse de 
colligir ciiidadosainente as poesias, qne, elle tnesmo o 
confessa, estavam em grande parte qnasì perdidas. 
Eram imitaoi^es das eoplas de Jorge Manriqne, de 
Joào de Mena, amìgo do Infante Doin Fedro, de Stu* 
uiga, e de Juan Bodrigues del Padron, as qnaes nos 
revelani o estado da letteratura do seculo xv, anterì(M> 
mente a inflnencìa da Eschóla italiana^ inaugurada en* 
tre nós por Sa de Miranda. A parte lyrica do Cancio» 
neiro geral é diminuta ; celebram-se as gra^s, os 
chistes, OS donaires das damas, as aventnras galanteB 
dos cavalleiros; trocam-se os motes, escolhem-se di^ 
visas para os torneios ; fingem-se processos ao gesto 
das velhas COrtes de Amor^ segundo o estylo da Pro- 
ven9a, e ai se debatem todas as subtilezas do Guidar 
e Sìispirar; seguem-se as despedidas para a guerra, os 
serOes e momos do pa^o. As aneedotas detraz dos pan- 
nos de raz, as quadras anonymas e mordentes perdi- 
das ao acaso, os preceitos para parecer bem entro os 
cortezàos, as queixas namoradas, as novidades manda- 
das para os que estuo fora da córte, e tudo iste em te- 
da a qu alidade de verso desde a redondilha menor até 
ao alexandrino, em acrosticos, coni alitera^fto^ enea* 
deando-se ao estylo do Uxapren y inansobre^ alternan- 
do-se e emparelhando-se a rima, eis o que é o Cancia- 
neiro geral de Garcia de Resende, formado quasi com- 



NO SECULO XVI 20 

pletamente daa coinpasi^Oes de duzentos e oitenta e 
aeis fidalgosy que introduziram em Portugal no secii- 
lo XY II Eschola hespanhola, Dos poetas do Cancioneiro 
mnitos formaram volumes maniiscriptos, hoje total- 
mente perdidos; outros, so fizeram endechas capri- 
chosaSy qne pouco revelam da feigao individuai, mas 
quo agrnpadas em collec9ào determinam perfeitamente 
o earacter de urna època. 

Como fidalgo e ednoado com os estudos classicos, 
Jorge Ferreira tambem eultivou a scena, abandonando 
a direct dada ao theatro nacional por Gii Yicente, 
para eneetar a imita^ào do theatro de Plauto e Teren- 
eio, reflexo palido do theatro grego. Até 1519 podemos 
avanzar que elle assistira às representa90es dos Autos 
do Gii Yicente, que em um d'elles o apoda; antes de 
1527 esteve fora .de Lisboa, compondo no remanso da 
sua vida em Coimbra a comedia Eufrosina. Està co* 
media foi o primeiro ensaio, em que se abandonou a 
redondilha popular, usada nos Autos, para usar da 
proaa vernacula; està revolu^ào devia influir bastante 
para tornar mais completos e perfeitos os caracteres* 
Sectario da esclwla hespanhola em poesia Ijrica, Jorge 
Ferreira deixou-se impressionar pela jnais assombrosa 
comedia do theatro europeu, fonte d'onde se derivou 
lodo o genio dramatico em Portugal e Hespanha, a 
(klestifèo. Diz Moratin, nas Origens do theatro he»* 
pasbol, que ella «foi o ol;;gecto dos estiidos de tedos 
aqueUeft, que no seeulo xvi escreveram para o ihea* 
irob» Baww sto as comedias portugnezas que n&o allu- 




30 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

dem a està comedia, que se tomou proverbiai na lin- 
gaagem do nosso povo. Ainda nos A^òres, se fala nai 
Artea da Madre Celestina encantadcra, sem saberem 
que grande phenomeno litterario se referem. 

A primeira edÌ9ào da Celestina é de 150D, em Sa- 
lamanca; mas j& desde 1492 que giravam em Hespa- 
nha copias manuscriptas do primeiro acto. E naturai, 
com as intimas rela^Oes da córto portugueza e bea- <^S' 
panhola depois do casamento do principe Dom Affonsc^* -e 
com a infanta D. Isabel, que os fidalgos que andavanr^^cn 
em embaixadas trouxessem a Portugal esse assombro- 
so monumento. Até ao tempo em que Jorge Ferrei] 
escreveu a Eufrosina, jà se contavam seis edi^Oes: a ài 
1500, de Salamanca, de 1501 em Sevilha, de 1514 
Milào, e do mesmo anno em Valenza, de 1515 em Ye-- 
neza, de 1523 em Sevilha, e de 1525 em Yeneza. 
facto de nao apparecerem edi^Oes portuguezas prova 
grande abundancia que os livreiros hespankoes susten-^ 
tavam d'ellas em Portugal. A maneira da CelesHna^^ 
adoptou Jorge Ferreira a linguagem em prosa para 
sua comedia; dirigido talvez por Sa de Miranda, ci 
comò respeitador do theatro classico, tomou as liberda- 
des do Rojas dentro do limite dos ciuco actos das uni- 
dades antigas. Como a Celestina, a Eufrosina de Fa> 
reira é urna li^ao de moral, entremeada de bons ditos, 
de adagios do povo, de observa^òes profundas, para 
afastar a mocidade dos perigos das paisOes: cA porta*., 
gueza Eufrosina, que se interpreta Alegria, em qne se- 
ella teda funda sem algum mau zelo, antes para se evi-- 






NO SECULO XVI 31 

ttremmnitos caminhos d'elle, henmabaliza para pas- 
ngeiroft ignorantes, vendo aqui corno ioda a occupagào 
' iamtfres he sojeiia a grandes cajòes; porque ca^a, guer- 
1» e amores, por ani prazor cem dores.» (1) N'este pe- 
riodo resamiu Jorge Ferreira o espirito da Celestina 
(leBojas, imitou-a, dando-lhe mais um poucochinho 
de decoro* 

Em tnaitos logares das snas comedias Jorge Fer- 
rara cita a Celestina: €porém é matinado da Celestina 
dam&y, que sempre anda zangando essa rabugem, e é 
tio desaforada, qne despira os altares.» (2) ji Celesti- 
«afoi conhecida por quasi todos os escriptores portu- 
gnezes do seculo xvi; na Aulegrapìna, refere-se Jorge 
Ferreira a està comedia, conhecida tambem pelo titil- 
lo de Tragicomedia de Calisto e Melibea: «Eii senhor, 
qnerìa a entrada franca, e sahir pela porta, por nao 
fflorrer comò Calisto; etc.» (3) Joào de Barros, na 
Grammatica da lingua portugueza^ escripta em 1538 
fiila na Celestina de um modo que b<*.m revela conhecer 
e sen contliendo: t A linguagcm portugueza, que te- 
film està gravidade, nào perde a for^a para declarar, 
mover, deleitar e exhortar a parte a que se inclina;- 
«ga em qnalquer genero de escriptura. Verdade he 
ter em si tfto honesta e casta, que pareco nSlo consentir 
em 8] ama tal obra comò Celestina. E Gii Vicente, co- 

(1) Eufrosina, Prologo. 

(2) UlyssipOf act, x, se. 4, fl. 41, v. — Vid. op. cit. fl. 168 e 
97. 

(3) AulsgrapKia^ act. rr, bc. 1. fl. 119. 



32 HISTORIA DO THEATBO PORTUQUEZ 

mico, qne a mais tratou em coropostaras, quo algom 
pessoa d'estes reinos, nunca se atreveu a inirodiuir 
um Centurio portuguez; porque, corno o nào oonsenie 
a na^lo, assi o nào sofire a linguagem.» (1) Deidft 
que Jorge Ferreira escreveu a Ev/rasindy até Jo&o h 
BarroB escrever a sua Grammatica, fizeram-se em Hot» 
panha mais cinco edÌ9òes da Celestina; Joào de Barroi 
nfto conhecia a imita^ào portngueza, porque ella andoa 
mannscripta até ao anno de 1561. 

Quando Jorge Ferreira escreveu a JSti/roniiay ji 
n&o frequentava a corte ; no remando de Coimbra, » 
talvez refugiado ali da peste^ para onde fugira Dota 
Jo&o III, é que ella foi composta: «Na antiga Coimbc% 
coròa d'estes Beynos, a sombra dos verdes sinceiraei 
do Mondego, naceo a portugueza Eu/rosùia...i^ {^ 
N'este tempo representou Gii Vicente a Comedia «o* 
bre a Divisa da Cidade de Coimhray no firn da qual dU 
todos OS fidalgos de Coimbra; o appellido de Yasoon* 
oellos niio e la nomeado, signal de que nào era d'ali 
naturai, e que entào nào frequentava a córte. N'estei 
serOes dramaticos do pa^o é que o principe Dom Joli^ 
adquiriu o gesto que o tornou protector do theatr» 
portuguez. A comedia Eufrosina foi dedicada ao Priii' 
cìpe Dom Joào, a quem o Dr. Antonio Ferreira oSer 
recéra tambem a sua comedia de Bristo. A Eufromm 
foi o primeiro ensaio de Jorge Ferreira; elle mesroo 



fi) Chammatica portugueza, ed. 1785, p. 73. 
[2) Prologo, p. 12, ed. de 1786. 



NO 8ECUL0 XVI 33 

o confessft : t sabendo qne nào é menos realeza receber 
pequeno servilo, qne fazer grandes mercés, venho ante . 
Tossa Alteza com as primidas do ineu rustico engenho, 
que é a Comedìa Eufrosina j e foi o primeifH) ftmctOj 
que d'elle eolhi inda bem tenro . . . » O periodo da sua 
Vida à que Jorge Ferreira cbama ainda bem tenrOy é 
nada menos de quareuta e ciuco annos, se nos lem- 
brarmos que no Cancioneiro de Resende se encontram 
poesias suas, escriptas em 1498, e que elle a este tem- 
po devia contar pelo menos dezesseis annos de edade» 
O anno em que foi escripta a Eufrosina é facil de des- 
fx>brir, porque ai se le em scena urna carta datada de 
Ooa, de 28 de Dezembro de 1526 ; n'esta carta se al- 
lade aos seguintes factos bistoricos contemporaneos : 
«Novas d'està terra, sào ter-se receio que virào os 
Barnes a ella,, e ao presente està o Governador por 
concerto em Dio, onde dizem que se acbou um homem 
dos annos de Nestor, que tem um filho de noventa an- 
nos, e outro de seis, eu nào no vi, porque fiquey nesta 
Goa para me embarcar, comò digo, para Cofala.» E 
mais abaixo: €0 Governador tem em seu poder o 
thesouro do Grào Bey de Cambaya, e espera-se muita 
guerra.» (1) Em vista d'estes dados nào custa a crèr 
qne a Eufrosina fosse composta em 1527, e nào muito 
mais tarde. Jorge Ferreira considerava o seu ensaio 
dramatico comò inteiramente novo em Portugal, ser- 
vindo-se, ao contrario de Gii Vicente, da linguagem 

(1) Acto li, se. 6. 



34 HISTORIA DO THEATRO PORTDGUEZ 

prosaica para o theatro; elle o dà a entendor no firn 
do Prologo: «agora dae-ine ouvidos promptos para o 
que se segue, favorecendo o novo Autor em nova mj- 
vengdOj ut pernoscatis quod^spei sit reliquum.» D*aqui 
se deprehende tambeni, que a Eufrosina fora represeu- 
tada, o que nao é niuito crivel, por falta de condi^Oes 
scenicas, devidas em parte à iinita^ao do modèlo de 
Bojas. E na Dedicatoria allude a estas duas illa^Oes : 
€ recolho (a comedia) sob scu real amparo, que Ihe seja 
]uz, qual o sol dà à lua, que a nao tem propria, e para 
impeto de represores anciosos e de mao zelo^ outro 
Ajax Telamonio centra Hector ayrado, que por ser in^ 
vengào nova iHesta terra, e em linguagem portugueza 
tao invejada e reprehendida, por certo tenho ser sal- 
teada de mnitos censores, aos quaes vessa Alteza ouga, 
segundo Alexandre dava de sy audioncia, pois so es- 
crevi no alvo, porque Mercurio uào se faz de todo o 
pao.» 

A Comedia Eufrosina appareceu sem nome de au- 
ctor, e foi e3sa tambem nma das primeiras causas da 
sua c«Jebridade ; muitas copias manuscriptas correram 
d'ella, e Jorge Ferreira dedicou-a ao Principe para ter 
occasiilo de a imprimir e restituir a sua fórma origi- 
nai : ce por andar por muitas mìlos devassa e falsa, & 
recolho sob seu real amparo, que Ihe seja luz, etc.» 
Póde ser que existisse alguma edi^fio anterior à de 
1561, comò se deprehende d'essas palavras de Jorge 
Ferreira, e de Brunet, que no Manual do Livreiro cita 
luna edi^ào de Coimbra de 1560. titulo da edi^ào 



NO SaCOLO XVI 36 

oSèrecidÀ aò prìncipe Dom Jofto é o seguinte, qne 
iimbem se refete a nriia edi^ào anterior: ^Ccmedia 
Svfroma. De novo revista e em partes .aereèerUada. 
éjora novamente imprésm. Dirigida ao mui alto epo^ 
imso principe Dom Jodo de PortngaLi^ Hvro fecha 
cdm colophSo : t i'bi impressa em Evora^ em casa de 
'André de BnrgoSy impressor e cavalleiro, da casa do Car- 
imi Infante. No fim d\ibril de /5^/.» Exisiia um 
esemplar na Livraria do Hospicio da Terra Santa, que 
pi88ou para a Torre do Tombo. Ainda em 1788 Jorge 
Bertrand viii um exemplar em Lisboa, com a pre- 
dosa nota mannscripta aonde se declara a verdadeira 
ttataralidade de Jorge Ferreira. Està obra é conside- 
mda por Nicolau Antonio comò a mais perfeita do 
theatro de Jorge Ferreira; appareceu seni nome de 
»uctor, circnmstancia que levou Barbosa Machado a 
»ttribnil-a a Francisco Bodrigues Lobo, que fez d'ella 
*»ma edÌ9ilo em 1616: «Comedia Eufrosina nào é obra 
3e Jorge Ferreira de Vasconcellos, mas de Francisco 
Bodrigues Lobo.» (1) erro do Barbosa propagou-se 
B ainda modernamente Germond de Lavigne o repete 
no sen Ensaio historico sobre a Celestina. (2) Pondo 
le parte todos os argumentos com que se mostra a 
indente falsidade d'este asserto, na mesma Eufrosina 



Ìli Bihliotheca Lusitana, t. iv, p. 196, col. 2. 
2) Falando das imita$0c8 da Celestina, diz : «un portu- 
aig, Francifico Rodrigues Lobo, cachant son noin sous le 
leudoijyme de Juan Esperà eh Dios, chercha à la copier dans 
le comedie intitnlée Eufrosine,)) Op. cit., p. x, 1841. 



ifi HI8T0BIA DO TBSATBO PORTUGUEZ 

vem mn facto que mostra ter jido ella Meriptft ailii 
de nascer Francisco Bodrigaes Lobo; fatando dass» 
pedi^Oes d'Africa com o firn de estender a fé de Gtót 
iOf dix no prologo : e E para verdes se traz camiiiM^ 
olhae 08 descendentes dos quinze reis de beni em xbh^ 
Ihor.» Ora Dom Joào iii ibi o decimo quinto reiib 
Portngaly e o principe Dom Jo&o, a quem a comedii 
era dedicada, figurava corno o ultimo e melhor desoeQ- 
dente. 

No seeulo passado, quando os livreiros ainda eoa* 

servam um resto da tradigào eulta dos Etiennes^ DÌ9 

dot e Manucioy publicando Jorge Bertrand a tradih 

c^o de Terencio de Leonel da Costa, cita em.om 

nota da sua prefa9Jlo os argumentos que provam • 

autbenticidade do escripto de Jorge Ferreira : < Yimoi 

ha pouco (e viram uns certos amigos uossos) em cari* 

cter gothico um exemplur d*esta Comedia, o qnal nio 

tendo jà o rosto, tinha no firn estas palavras ao antigo: 

Fd impressa em Evora em casa d^ Andre de Burgos^ifSr 

pressar e cavalleiro da Casa do Cardeal Iffante. Aojim 

d^abril de i56i. N'este anno nem podia ser compostSi 

nem impressa pelo Lobo, que foi muito mais modems 

que Jorge Ferreira de Vasconcellos, o qual morreu em 

1585, e jaz sepultado com Buia consorte no Cruzeiio 

da Egreja da Santissima Trindade d'està córte. Àlém 

do que fica dito, advertimos, que o exemplar de 1561, 

que vimos ha pouco, tinha no reverso do pergaminbo 

em que foi encademado, do letra de mào, qne mostrava 

multa antiguidade, as seguintes palavras, qne transcre- 



NO 8KCUL0 XVI $7 

vemos aqui eom a mesma orthograpfaia: A, éCeHt 
liwro foi Jwgt Ftrreira dt Vasconcellosy naturai de 
Lisboa, tambem Auihor da Tabola Redonda e d^outra» 
ùhroM.i^ (1) A comedia Evfromia exerceimma grande 
iafluenoia, devendo cotn certeza attribuir-se a ella os 
ensaiofl de Sa de Miranda e de Ferreira na comedia 
em prosa ; foi tradazida em hespanliol pelo capitan 
D. Fernando de Ballesteros y Saavedra; Iia*a a prin- 
oipal fidalguia portugueza, apozar das prohibi^oes ca* 
nonicas do Index Eapurgatorio de 1581; e ainda no 
seculo XVII Doni Gastào Coutinho a versava na sua 
qninta do Carvalhal, induzindo pelo scu entliusiasmo 
a que Francisco Eodrignes Lobo procurasse salval-a 
de novo pela impressào. 

Jorge Ferreira leve do seu casamento com Dona 
Anna da Silva urna filba que casou com Dom Antonio 
de Noronba, e a este se deve o ter-se sai vado a Uli/asi* 
pò e R Aulegraphia; tambem pelos prologos de Dom 
Antonio de Noronha se sabe mais alguma pariiculari- 
dade da vida de Jorge Ferreira. Na advertencia da 
Uly89Ìpo o editor attribne a Evfrosina a Jorge Ferreira; 
diz tambem que a Comedia Uìyssipo fora a segunda que 
esoreveu seu sogro, estando jà ao servilo d'el-rei. ser- 
YÌ90 que occupava na corte era o de Escrivào do The- 
sonro real e da Casa da India. Portante, determinando 
a data em que està segunda comedia foi escripta, pò- 
demos aproximar-nos da època em que Jorge Ferrei- 

(1) Op. dt., 1. 1, p. XXI, not. 9. 



88 



HISTORIA PO THEATRO PORTUGUEZ 



Iti fixon a sua resiclencia em Lisboa oa entron pan o 
servilo do rei. Sendo Jor^ Ferreira do Yasèònodloi §« 
natnral de Lisboa, corno se ve pela antiga nota mànf 
scrìpta da edi(;>ào vista por Bertrand, é natnral queiè* 
sidisse em Coimbra aonde, corno elle confessa, escrefA' 
a Ev/rosina, pelo facto de ai ter casado com Doot 
Anna da Silva. Quo està senhora da prìmeira nobron^ 
fosse naturai de Coimbra, nfto o sabemos ; mas Gii ^j 
conte, qne era amigo de Jorgo Ferreira e se achou omii 
elle em Coimbra em 1527, elogia o ap|>cllido dos Si^\ 
vaSj na Comedia sobre a Divisa de Coimbra : 



Fax cdifìquei a villa de Arrayolos 

Ha dois inii nnno8. diz a minha lenda. 

D^aqui prccedcram Silvas e Silveiras. . . 

S5o para coiisellio (vos créde-ine a mi) 
Que 8fio d'cftta casta graiidos cabcceiras. 
Porcm sAo zelosos de iiio9ns de geito 
Porque alguns dos Silvas snhcin là ós Foga^as, 
E sAo dezedores de supitas gra9a8, 
E peza-lhe milito coni pouco proveito. 
Porém as mulheres Silvas e Silveiras 
Silo asselladas com sello dos Céos ; 
Mui castaS) discretas, amigas de Deos, 
E todus nierecem/awo^a* cimciras. 

N'estes versos de Gii Vicente conhece-se urna io* 
ten9ao de elogio; e o panegyrico às mullieres Silvni 
està de accordo com o quo Barbosa e Innocencio con- 
servaram da tradÌ9ào das virtudcs de Dona Anna da 
Silva. 

Podemos crfir que Jorge Ferreira tendo acompa- 
nhado a córte quando fugiu de Lisboa para Coimbra 



Na SECULO XVI 39 

por causa da peste, em 1527, ou por causa do terre- 
moto eni 1526, ai casou na casa dos Silvas, permane- 
cendo em Coinibra atépouco antes de 1547, tempo em 
que escreveu a Ulyssipo^ entào jà ao servilo de el-rei 
comò Escrivilo do Roal Thesouro. 

tempo em que foi escripta a comedia Ulyssipo 
determina-se por uma allusào a um gentil fidalgo que 
se achava na campanha de Mazagào: — «quero-vos 
mostrar uma carta que fiz em resposta d'outra, que me 
escreveu nm gentil fidalgo dos da minha cevadeira, 
que é em Mazagào rCestas campanhas que làforam.T^ (1) 
Foi no anno de 1547 que os Mouros tentaram arrasar 
Azamor, e atàcar Mazagào; portanto póde-se concluir 
que so depois d'este anno foi escripta a comedia Ult/s- 
sipo. Outra cita9ào confirma està mesma data : < A me* 
dalha farei partido com uma rodela que tenho bonis- 
sima, que mandei/arer n^esta viagem de Mazagào. ..i^ (2) 
«E inda mal, que nào imos a Marrocos derrocar n'es- 
ses perros comò em nabos. Ali que nào ha outra vida 
senào a dos soldados. Farece-me que nunca vivi se- 
nào esses deus dias que estive em Mazagào; e cada 
hora me vem engulhos de tornar là, antes que se ve- 
nbam lis companhias. E confesso-vos, que saudades 
de Lisboa me desatinava là, e me fez vir ante tem- 
po.» (3) «Antre os valos de Mazagào vos quizesseis 



(1) Act. II, 8c. 7, fi. 117. 

(2) Id. foi. 200, V. 

(3) Id. foi. 201, V. 



40 HISTORIA DO THBATRO PORTUGUEZ 

vèr para isso. Hnma noite de miuha vela, fiz eu oa- 
tras a entro quasi do teof, quo dizemos cà : 

Lcixar quero el amor vosso 
Ay rida, nSO posso. 

A noite era fria, a mim lembrava-me a minha gaita, 
etc.» (1) «Esse rapaz promette- vos que eu o contra- 
mine, e mando fCestas campanhas que vdo de Sdldadm 
a MazagàO) pelo tirar d'essa milgueira, età» (2) e E 
porque nos nào fique cà quem nos ladre, o bom sera 
mandal-o tambem a Mazagào na volta de vosso filho, 
pera que vào esparecer por ess^ muros.» (3) «O pao^ 
por Ihe fazer a vontade, e j untamente vèr se o p6de 
tirar do seu cativeiro, determina sobre consulta que 
tiveram ambos, mandal-o a Mazagdo.it (4) A continua 
referencia a oste facto historioo, torna indnbitavel s 
epoca que assignàmos. 

A Comedia Ulyssipo é um quadro dos costnines 
portuguezes no seculo xvi; locu^Oes familiares, ane- 
xins, (5) juras, jogos, divertimentos, tudo ali se acha^ 
reproduzido. E um thesouro de linguagem. A ac^to 
nào tem as condi^Oes da scena, pelas grandes e infindas 
muta^òes ; dialogos nào travados com a rapidez do suo- 
cesso, mas estendidos em considera^Oes moraes adnba* 

(1) Id., fol. 204, V. 
(2l Id., fol. 220. 

(3) Id., fol. 221, V. 

(4) Id., fol. 274. 

(5) N^esta comedia contam-se para cima de 386 anexins 
portuguezes, que aiuda hoje andam na tradi^So orai. 



NO SECULO XVI 4i 

das de proverbiosa actos exiensos qne levariam dois dias 
a representar, fraca intriga sob grandes e pouco inte* 
resaantes accessorios, fazem da Ulyssipo urna obra se* 
cundaria. Cresce de merecimento se nos lembrarmos 
qne é urna comedia d'estas que se escrevem sómente 
para sereni lidas. Nos serdes do pa9o a leria Jorga 
Ferreira de Yasconcellos dìante de Dom Joào iii, ao 
60pera]i9O8o principe Dom Joào seu filho e herdeiro 
tambem apaixonado pela arte dramatica^ corno to- 
doa OS seus tios e avo* Ha ali a realidade da vida ; 
OS caracteres accentuadamente delineados^ situa^des 
bastante comicas^ e a philosophia do senso commum, 
8&0 qualidades que revelam um grande artista, que se 
fex urna comedia defeituosa, ibi por a nao ter escrìpto 
intencionalmente para a scena. Nas imita^Oes do thea'- 
tro classico é frequente este defeito, tanto em S& do 
Miranda comò em Ferreira; gastavam mais tempo a 
estodar es modélos do que a vida real. 

. A Censura alterou a comedia Ulyssipo^ mudando o 
typo da alcoviteira Constan^a D'Ornellas de beata 
€im viuva. Isto confessa o genro e editor de Jorge 
Ferreira, na advertencia ao leitor : « Vae a deaejada 
DlysnpOj emendada e inteira, e pode isto assi ser fa- 
cilmente, no mais que Constan<^a Dornelas mudar de 
trajoy pondo-se no seu proprio de viuva, renunciando 
o de Beata, que profanado com seus fingimentos e 
man trato usava indevidamente, que em todo o al é a 
que sempre fbi.» 
.• A terceira e ultima comedia escripta por Jorge 



42 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Ferreira de Vasconcellos foi a Aulegraphia^ que deixou 
inedita; entre os seus papeis a encontrou seu genro 
Dom Antonio de Noronha, e a sua casta a imprìmiu. 
Besta-nos fixar o tempo em que a Aulegraphia podia 
ter sido escripta; na propria comedia encontramos al- 
losòes a factos que ajudam a determinal-o. Ai fala na 
lei sumptuaria que prohibia o usar roupas de seda: 
«Que OS mo^os de espora, que soiam cantar de solao a 
vezes etc, einquanto os amos estavam no serio, sem 
cuydado de mi ventura, agora fazem consulta antre 
mó de cavallos sobre os prematicas do Reyno, e des- 
approvam tolhev'se-lhe a 'seda, porque se perderà m os 
chapéos de feltro.» (1) Jorge Ferreira refere-se a^ui a 
urna ordenagào de Dom Joio m, que se intitola- da 
Defeza das sédasj prata^ ouro e esmalte em vestidoa e ou' 
traa coueas: «Mandou Dom Joào iir, que. . . nenhnma 
pessoa de qualquer estado, em seus regnos e senhorios, 
se servisse nem usasse em sua casa nem fóra dTella, 
nem vestisse, nem trouxesse cousa alguma de brocado, 
tela de ouro oii de prata, ou qualquer outro panno de 
ouro ou de prata, nem de iféda vérdadeira^ nem falèa^ 
nem broslado, nem pespontado, nem lavrado em panò 
de làa, nem de seda, nem franjas, nem tor^es, nem cai- 
reis de ouro ou prata, seda ou retroz, nem fitasy 
etc.» (2) Està lei é do anno de 1539, e apparece ac* 
crescentada e limitada por outra lei de Dom SeTiastifto 

(1) Aulegraphia, Prologo, fl. 4, v. ed. 1619. 

(2) Nunes de Lefto, Extravagantes^ Part. i, tit. 1, lei 1, 
prol. 



NO SECULO XVI 43 

de 1560. Portanto entre e&tes dois periodos foi es- 
crìpta a Auleffraphia ; partimos do primeiro para che- 
gar & verdade. Jorge Ferreira refere -se a um facto 
posterìor a 1547: cConsas trazemos na forja algans 
dias, exemplo, as campanhas do anno passado sabre 
edificar a fortaUza de MazagdOy dando-lhe mil voltas 
a outras tantas cores de diversos juizos, passa nào pas- 
sa, barn feito mal feito, segundo chega a lan^a do pro- 
prio ou alheyojuizo.» (1) 

Depois de 1547 é que voltou de Boma a Por- 
tngal o celebre Francisco de Hollanda, arcfaitecto da 
Fortaleza de Mazagào, e pouco depois foi encarregado 
d'essa obra por el-rei Dom Joào iii e o Infante Dom 
Luiz* No seu mànuscripto intitulado : Dos Monumentos 
quefaUam a cidade de Lisboa^ falou Francisco de Hol- 
landa de nào ter feito a fortaleza de Mazagào de tijolo 
èva vez depedra; parece que é a està qnestào suscitada 
pelos architectos militares de Italia, que se refere Jor- 
ge Ferreira em tantas cores de diversos juizos. Pela sua 
parte, escreve Francisco de Hollanda: «Tal é a Forta- 
leza de Mazagao, da qual o rei e o infante me encom- 
mendaram os desenhos e os modélos; ella é a primei- 
va pra^a bem fortificada que se construiu em Africa. 
É para lamentar que ella nào fosse constrnida de tijolo 
oomoeu havia indicado ao rei e ao infante. Fiz o 
plano d'ella Ina minha volta da Italia e de Franca. 
(1547)» (2) Por està importante réferencia- se ve o 

. (1) Idem^ ib., fl. 3, v, 
(2) Apud Baczynski, Les Aris en Portugaly 1. 1^ ^. ^T, 



44 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tempo a coutar do qual Jorge Ferreìra cometaria a es* 
crever e^\4ulegrapkia ; n'ella se fala tambeoa do Infan- 
te Dom Lnizy distinoto poeta dramatico^ lyrico, e pro- 
moter da architectura militar em Portugal, corno ain- 
da vivo. Pertanto podemos avanzar que a Auleffraphia 
£oi escrìpta antes de 1556. Eis a curiosa allusao: — * 
^ois que determi naes fazer aquì? — Querria assentar 
con el Iffante Don Luyz, cuja fama de magnanima 
Principe, favorecedor de teda abilidad, buela por el 
mnndo, = Sabey que em partes de sua real pesBoa, 
condi^ào real, animoso espirito e peito ereador da vir^ 
tude, que nada deve aos presentes: e eu fiador, qne sa 
vantaje aos passados, ofierecendo-se tempo de se mos- 
trar. — - Por alla nombrada tiene. — Com justa raBfio. 
— Yo le tengo heelio una obra en poesia, de quanto 
arteficio pudo imaginar-se. = Estes corno sào de se 
apegar ao melhor: em pondo olhos em Portugal, Ioga 
amarram suas esperangas no If£ante, que he a gema; 
d'elle.» (1) Este dialogo passa-se entro um hespanli<d 
aventureiro chamado Agrimonte, e um portuguez Ger- 
minio Soares; a allusao ao Infante Dom Luiz era. da; 
parte de Jorge Ferreini urna prova de respeitosa ad* 
mira^ào; se o Infante Dom Luiz nao osti vesso vivo, o- 
louvor nào seria tao commedido e reservado. Ka ^ti- 
legraphia tambem se louva Sa de Miranda comò imida 
estando vivo; e comò a data da sua morte é 1558, nuM 
sa ibf talece o periodo além do qua! nto aran^oMs. 

(1) AulegraphiOy oct. u, tic. 9, fi. 72. 



NO SECULO XVI 46 

Em vista de todos estes factos podemos agora inter* 
pretar a allusào de Dom Antonio de Noronha, quo fi- 
xa o ultimo limite da composÌ9ìlo da Aulegraplda. Na 
Advertencia da Comedia Ult/ssipoj diz D* Antonio de 
Koronha, que Jorge Ferreira nao chegou a imprimir 
a Aulégraphia por causa de um desgosto geral que 
houve n'este reino. Qual foi èsse desgosto? Tem-se 
por ai asseverado que isto se refere a peste de 1569. 

Em vista das datas que acima apresentàmos, tor- 
na-se està asser<^&o inadmissivel. Eis as palavras de 
D. Antonio de Noronha : e A derradeira comedia que 
e Auetor compoz, foi a sua Aulégraphia cortezà, em 
qoe, cantando cygnea voce, comò dizem, melfaor que 
nunca, a ndo imprimtu por um desgosto geral cTeste 
reinoy que rCeUa se contard.it Este desgosto geral do 
reino foi a morte prematura do principe Dom Joào, 
unico herdeiro de el-rei Dom Joào iii, que segundo a 
tradi^ào, morreu de atnores^ depois de um anno de ca- 
sado com a princeza Dona Joanna de Castelln. Basta 
lembrarmo-nos que foi ao Principe Dom Jofto, que 
Jorge Ferreira dedicou a primeira comedia que esere- 
Teu, e que a elle tambem oifereceu a comedia de Stnsto 
o Dr. Antonio Ferreira. Por este tempo tambem Jorge 
Ferreira trabalhava nò Memorial dos Cavalleiros da 
Segunda Tavola Redonda^ aonde traz um romance com 
fórma eulta à morte do Infante. (1) Mezes depois a 
princeza Dona Joanna deu à luz Dom Sebastiào ; é por 
isso que Jorge Ferreira escreve : 

(1) Gap. TLYJL 



46 HISTORIA DO .THEATRO PORTUGUEZ 



Oh animosa princeza, 
Quanto vos fica obrigado 
Um reino que destruido 
Por vós fìcou restaurado. (l) 



Nào admira vèr Jorge Ferreira lamentar o reino 
conio destruido pelo facto da morte do unico principe 
herdeiro; era està a ideia geral do povo portugnez no 
secnlo xvi; o monarchismo tinha desnaturado a ver- 
dadeira ideia da soberania nacional* principe Dom 
Joào morreu a 2 de Janeiro de 1554, causando a sua 
morte urna sensa^ao immensa; uns culpavam o rei por 
ter consentido no casamento precoce do principe, on- 
tros assustavam-se com a interrup^ào da dynastia, vìn- 
do o throno portuguez a ficar em poder de Castella. 
Todos OS poetas lamentaram o tremendo desastre; do 
seu retiro no Minho, escreveu Sa de Miranda uma sen* 
tidissima elegia; (2) da sua solidào na India escreveu 
tambem o desgra^ado Luiz de CamOes ; (3) pulsou o 
plectro .ainda frequentando os estudos de Coimbra o 
Dr. Antonio Ferreira, (4) e Bernardes tambem che* 
rou. (5) Apezar de tudo, a sua morte nào foi tfto sen* 
tida pelo povo corno a do Principe Dom Affonso, fillio 
de Dom Joào li, cuja desgra^a ainda se repete nos ro* 
mances populares dos A^ores. A morte do prìncipe 
Dom Joào merece-nos està mengào especial, corno nm 



(1) Cancionciro e Romanceiro geral portuguez, t. v, p. 52. 

(2) Ohras de Sa de Miranda, p. 272. Edi^. de 1677. 

(3) Ecloga I, Ohras, t. v, p. 1. EdÌ9..de Paris, 1815. 

(4) Elegia i, Ohras, t. i, p. 122. Edi^. de 1771. 

(5) Varia» Èimas ao Bom Jesus, ^,t^. EdÌQ. de 1770. 



NO SEGULO XVI 47 

dos protectores do theatro portuguez ; podomos asse* 
verar, que desde a sua morte nunca mais se renovaram 
OS div«riimentos tlieatracs no pa^o, a nào ser uà me* 
noridade de Dom Sebastiào, que se alegrava, mau gra- 
do dos jesuitas, com a represcnta^ào de alguné Antos 
do velho e esquecido Gii Vicente. 

Como acima vimos, Jorge Ferreira de Vasconcel- 
los conhoceu pessoalmeute Gii Yiceute e o seu thea- 
tro; é de notar qu© ò typo do fidalgo pobre, que nfto 
escapou ao velho Flauto e ao erudito Nicolau Clenar- 
do, tambem foi esbo9ado por Jorge Ferreii-a. Seria 
por ventura o theatro o que contribuirla para a pro- 
ni ulga^.ào das leis sumptuarias de 1539 e 1560? Na 
AulegìHiphia confessa Jorge Ferreira ter-se servido de 
uni modélo castelhano, sem duvida a eterna Celestina: 
€ De modo, fei^ào, guisa, arte e maneira, porque aba- 
femos a copia casieUiana, que està foi a fonte dos en- 
ganos do mundo, a mina de seus resabios, e oy^entro 
de seus escarceos. . .» (1) £ adiante: «N'esta selada 
portugueza vereis varias dif{eren9as, e certoza que pas- 
samem uso e costume por estes bairos.» (2) Confessa 
tambem que segue o estylo comico moderno: cCà de 
particular nada se trata, porquanto seria odioso e alheyo 
do estillo comico moderno.'» Tal era a indole da comedia 
Italiana, baseada em typos abstractos. Como todos os 
poetas e fidalgos do seculo xvi, Jorge Ferreira de Vas- 



(1) Aulegropkia, Prologo, fi. 2. 

(2) Id.,fl.6, V. 



48 HI8T0RIA DO THEATRO POBTUGUBZ 

eonoellos tambem era versado na mosica ; die fila no 
alaude, qne primeiro usou em Portugal Maooel ìbr 
chado de Azevedo, e na pavana^ dansa importada da 
córte franceza: «ComponedorpuedetambienlIamaMi 
el mtisMo, qne haze una union de bozes jf>erf6ta8 e im- 
perfectas, sonantes y dissonanies, corno dezimas, tff^ 
cera, quarta, quinta, etc, que son buenas, y aonantei. 
Segundas, setimas, etc, que son dissonantes, y nolii 
BufFre la oreja, sino que mescladas ks dissonanciMy 
oonsonancins, hazen la corapostnra de gentil melodia, 
y. desto tnmbien algu se me entiende, quando ae offa- 
etesse, y de un laud passar una pavana^ y lodo lo da* 
mas.» (1) So nos lembrarmos, que Dom Joao deHat^ 
nezes. Gii Vicente, Sa de Miranda, Manoel Machada^ 
de Azevedo, Jeronymo de Sa, Garoia de Resendoia. 
Infante Dom Luiz e Jorge de Monte-Mór foram €(x» 
celientes musicos, vé-se que era essa a educaci di 
tempO|^a que Jorge Ferrei ra tambem obedeceu, eqoi 
tanto influin sobre o theatro nacional na forma dosT^ 
laneetMf JSnseladasj C/iacotas e Romances* 

No seeulo xvi a actividade musical do Hespanla 
foi quasi teda sustentada por artista» partugneaui) 
comò reac^ào, as trovas e cantai*es castelhanos eni 
recebidos na córte com uma predilec<^ào exclusiva. Ti 
Jorge Ferreira o que protestou centra esse deapotii* 
mo; o que é para admirar, tendo seguido em poaiìa 



(1) Aulegraphia, act. ii, se. 8, fl. 66. Tambem cita afH 
Ibarda, a fl. 163, v. 



. VIDA DB SA DE MIRANDA 49 

« 

Ycm um dando à cabe^a e canta ufano 

CoiisBs do seu bom tempo ardendo em chammas, 

Um villcmcete brando cu scja um chiste 

Letras és inven^oes, motes às damas. 
Haa pergunta escara, bua Espar$a triste, 

Tudo Dem, qucm Ih'o nega? mas porque 

Se alffuem a descobre mais se Ihe resiste f 
£ eomo? està era ajuda? està a merecé 

Q)eixcmos as mercés) este o bom rosto? 

Qac ihenos casta emnm qnc este tal be? 
£ lego aqui tao perto com quo gosto 

De todos Boscao, Lasso, ergueram bando 

Fìzeram dia. jà quasi sol posto. ^ 

Ah qae nSo tornam mais, vam-se cantando 

De valle cm valle, em ar mais luminoso, 

E por outras ribeiras passeando. (p. 268, ed. 1677.) 



ISTestes tercetos se ve a lucta que custou a introdu- 
zìi* em Portugal o gosto italiano ; nas poesias de Ber- 
nardes/ por vezes e frequentes, se citam os auctorès 
ìtalianos, descrevendo o deleite que dà o versal-os, e 
iato em Cartas intimas, aospoucos que proseguiam n'es- 
ta revolujSo Htteraria. Come9aràm ent3o pela primeira 
*" Tez 1^ appai'ecer os sonetos petrarchistas, eulUvados 
por Sa de Miranda, Ferreira, Diogo Bernardes, por 
Frei Agostinbo da Cruz, que Ihe deu o sentimento mys - 
tico, e por Camoes, que os levou ao mais alto espiri- 
tualismo e pureza. As Eclogas do gostò siciliano fo- 
ràm tambem imitadas^ e Jorge de Monte-Mor, operou 
a transforma9So do romance de cavalleria em roman- 
ce partorii na Diana, séguindo o trilho de Sanazarro 
na Arcadia, e o Admet de Boccacio, e as Eclogas do 
Cardeal Bembo. 

3 



60 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

Livro das SaUdades de Bernardini Ribeiro ctrr^mo 
cavalheiresco é tardio ; deixa nos primeiros capit^calos 
mais a impressao de urna pastorale do que urna fic:^9ao 
aventurosa. Iheatro portuguez que até entSo ^Ecìra 
um producto dos usos da edade media, imitarlo ^os 
velhos mysterios francezes que chegaram cà directanr»- en- 
te de Fran9a, vindo através da Hespanha por JoSo d^e la 
Encina, volta-se de novo para a renaseenja ola- ^si- 
ca da Italia, para imitar as composigSes de Ariosto, A^Ia- 
chiavelli e de Trissino. Os Vilhalpandos eEstrange^^^o^ 
de Sa de Miranda, e as comedias de Bristo e Ciosc^ do 
Dr. Antonio Ferreira, sao imitajoes latinas de Teir^^^^' 
ciò e Plauto, segundo o que se fazia entSo na Italia^ 1^ 
08 escriptores nao as accomodavam completamente -^^® 
costumes do tempo, de modo que apparecem *^ 
scena libertos e gladiadores ; nas comedias de Ferr^^^^ 
e Sa de ^Miranda os moldes latinos estSo encobec ""^^ 
pelos italianos, mas pertencem nos costumes d socio* ^*' 
de moderna. 

Diz Antonio Ferreira no prologo da sua Come^^^"* 
d.e Bristo: a E pola qual aquelle Livio Andronico EI^-^^' 
man antiquissimo, alcan90u famoso nome para semp^*^^5 
nSo falò nos que o seguiram desde entào até agora ^- ^^ 
Italia, pois em nossos dias vemos n'este Reyno a hor-^* 
e louvor de quem novamente a trouve a elle, (1) 
tanta differenga de todos os antigos, quanta he a ^-*^^ 
mesmos tempos. Porque quem negarà, que na pure^ -^* 
de sua arte da composÌ9§lo, n'aquelle estyllo tSo comii^''^/ 

(1) Eefere-se ao Dr. ^éi de ^Vc^nda^ 



VIDA DE SA DE MIRANDA 51 

no decoro das pessoas, na ìnven9ao, na gravidade, na 
grsi^Sk, no artificio, nSo possa triumphar de todos. 
Ora sendo a cousa em si tao boa, seguida de varSes 
pnidentes, auctorisada pela antiguidade dos tempos e 
finalmente vista e aprovada com igual consentimento, 
e espanto n'esta terra, nUo sei com que boa rasao terà 
a mal quem a quizer seguir, e mais com tao boa guia.» 

Ferreira n'esta sua Comedia de Bristo, que cara- 
cterisa de mixta, segue por modelo as comedias de Sa 
de Miranda. CamSes continuou a eschola de Gii Vicente 
com o seu Filodemo e Amphitriào, transigindo tambem 
com gosto italiano. 

Sabemos, pelo que escreveu Dom Gon9alo Coutinho, 
que a viagem de Sa de Miranda pela Italia foi demo- 
rada; acceitada comò verosimil a saida de Portugal 
durante as dissengoes entre el-rei Dom Manoel e seu filho 
o principe Dom JoSo, isto édel518al521, resta-nos 
determinar a epoca em que Sa de Miranda regressou 
a Portugal. A data historica, que sem risco de hypo- 
these se póde assignar, n^o excede a 1526; nas suas 
obras o poeta nos offerece a prova d'este asserto. Na 
Egloga intitulada /Salicio, feita à morte de Garcilasso 
de la Vega (1536) quando Sa de Miranda o celebra por 
por ter introduzìdo o gosto italiano em Hespanha, allu- 
de saudosamente à sua viagem, e cita o nome de um 
poeta e de um alto personagem que tratara pessoalmen- 
te em Italia. Pela data da morte de um d'elles se con- 
firma que depois de 1526 jà se encontrava Sa de Miran- 
da em Portugal. 

1^ 



52 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

Eis a notavel passagem : 

Quanto pastor Toscano 

Que Arno en la dcleitosa 

Ribera suja, oyó corno han cantado, 

Vendran aquella mano 

Tocar aventurosa, 

Que honrava ora la ospada, óra el cajado, 

Sena y Florencia tanto 

Por nobre sangue y lengua, 

Daiio tan grande y mengua, 

Que nunca pudo ìguallala el llanto, 

Aunque fuera de ley, 

Juan Huscula y Lactancio Tolomey, (p. 315, ed. 1804.) 

As edÌ9Òes das obras de Sa de Miranda silo abun- 
dantemente erradas; este Juan Eìiscida de j^ue fala 
a ecloga Salicio, é o celebre auctor do poema buccolico 
Le Aj)i Tiraboschi o dà nascido em Floren9a em 
1475 7 e mostra a sua nobreza dizendo, que era pri- 
mo germano do papa Leao z. Portanto é a elle que 
se refere Sd de Miranda^ por isso que exalta a sua 
nóbreza de sangue, e Unghia, Joào Rucellai aspirou 
à dignidade cardinalicia durante o pontificado de 
seu primo; o pontificado do papa Adriano vi correU-lhe 
menos favoravel ; Clemente vii nomeou-o castellSo de 
Santo Angelo corno degrau para Cardeal, porém qSo 
se realisaram as suas esperangas, por isso que morreu 
de urna febre em 1526, corno se sabe pela noticia que 
deixou Pierio Valeriane. (1) Portanto Sa de Miranda so 
poderia ter tratado antes de 1526. 



(ì) Tiraboschi, Storia della Litteratura italiana, t. tu, parte 
Hi. p. 1214. § 32. 



VIDA DE SA DE MIRANDA 53 

O outro personagem citado na Ecloga Salicio é La- 
ctancio Tolomei; d'elle fala largamente Francisco de 
HoIIanda na reIa9ào da sua yiagem à Italia em 1538 ; fa- 
landò de Roma: «Durante os dias quepassei n'esta ca- 
pital, houve um, que foi n'um domingo, que eu fui ver 
segundo o meu costume mecer Lactancio Tolomei, que 
me procurara a ami^ade de Miguel Angelo por inter- 
vengSo de mecer Blosio, secretano do Papa. Este em- 
cer Lectancio Tolomei era um grave personagem, res- 
peitavel tanto pela sua nobreza de sentimentos e de ge- 
ra9lto (porque era sobrinho do Cardeal de Senna) comò 
pela sua edade e costumes. Em casa d'elle me disseram 
iqtte me deixara recado de que estava em Monte Cavallo, 
na Egreja de S. Silvestre com a senliora marqueza de 
Fascaire para ouvir uma leitura das Epistolas de S. 

Paido Eu era tambem devedor do conhecimento 

d'està senhora à amisade de Mecer Lactancio, o mais 
intimo dos seus amigos.» (1) 

Por este retrato de Francisco de Hollanda, se co- 
nhece o personagem de quem Sa de Miranda falava; 
este Lactancio Tolomei era sobrinho do Cardeal de 
Senna. A gravidade que Francisco de Hollanda Ihe en- 
contrava em 1538, prova que no tempo em que o tra- 
tara Si de Miranda jà nao era novo. Ignoramos as 
datas da sua vida. 

No principio do nesso traballio de recomposiQSo jul- 
gavamos que o nome de Lactancio Tolomei estava er- 

(1) Raczynski, Les Aris en Portugal, 1. 1., p. 8. 



54 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

rado, que se deveria lér Claudio Tolomei, por i 
que este litterato era naturai de Senna ; o facto d'elli 
ter sido desterrado de Senna em 1526. harmonisava-s 
com o anno da morte de Joao Rucellai, e coincidia »e 
allusSo do verso de Sa de Miranda: por nobre sangue^^ 
y lengua^it com o facto de ter elle sempre propugnadod^-I^ 
pelo desenvolvimento da lingua italiana. (1) Tinha esta^s. ci 
hypothese todos os visos de verdade, se a relaQao de^^ J< 
Francisco de Hollanda nio cortasse todas as incertezas ^ ^ 
apresentamol-a simplesmente para indicar os processoi 
que seguimos no nesso trabalho de induc9ào. 

. Durante a permanencia de Sa de Miranda em Italia^, 
decorreram os grandes successos da Beforma; com' 
catholico profundo, e relacionado com a aristocracia ita- 
liana, é provavel que Ihe nao fosse favoravel ao princi- 
pio; mais tarde encontramos o espirito d'esse grand^^J^ 
movimento da venascenga catholica a transparecer nai^ 
suas obras. No anno de 1526 a causa prégada por Lu — 
thero caminhava para o triumpho definitivo ; na 
de Spira era proclamada a liberdade de conscieDcia 

centra o dogmatismo romano. Nao bastariam estes fa 

ctos para determinar a vinda de Sa de Miranda 
Portuga!, se nao conhecessemos um documento casual- 
mente conservado, que prova a sua estada em Coimbra 
em 1527, e que analysaremos no seguinte capitulo. Difi- 
se Dom Gon9aloCoutinho, que quando o poeta regressou 
ao reino, jà havia alguns annos que D. JoSo ili reinava; 

fi) Tiraboschi, Op, cit p. 1335. § 76. 




i 



VIDA DE SA DE MIRANDA 55 

ora tendo sido acclama do em 1522, a phrasc algiins 
€inno'8 comprehende pelo menos tres ou quatro, que vem 
B. confirmar mais oiitra vez a data de 1526. 

Tendo naturalmente deìxado a patria em tempo quo 
a nobreza ostava dividida, tomando parte nos odios en- 
tre Dom Manoel e seu filho D. Joao iii, por causa do ter- 
ceiro casamento do monarcha, nao regressou Sii de Mi- 
Tanda em tempo mais feliz, porque logo no principio do 
Teinado de Dom Joao iii se deu um facto desastroao, 
que nSlo pouco contribuiu para desgostos futuros. An- 
tes de morrer, deixara el-rei D. Manoel no seu testa- 
xnente encarregado a seu sucessor, que tratasse do casa- 
mento do principe Dom Fernando com Dona Guiomar, 
£lha do conde de Marialva, o mais rico fidalgo de Por- 
tugal ; ao come9ar o cumpriraento da ultima vontade do 
monarcba, apresentou-se a Dom Joao iii o velho Conde 
de Marialvà pedindo licenza para se bater com o llar- 
quez de Torres Novas, porque se declarava casado clan- 
destinamente com sua fillia, cnjo casamento com o prin- 
cipe contractara com el-rei Dom Manoel. Foi grande 
o escandalo que d'aqui resultou; dcbateram-se allega- 
^Ses dos mais afamados canonistas, agitaram-se as De- 
cretaes, renovaram-se impedimentos, mas o Marquez de 
Torres Novas insistia na sua declara9ao. Durou an- 
nos a pendencia, que occupou os primeiros tempos do 
reinado de D. Joiio iii; a nobreza dividia-se nas opi- 
aiòes, e era difficil pisar terreno neutral som incorrer 
»,m grandes odios. Sa de Miranda voltava para Portu- 
•al no meio d'està tonnentosa crisc t^ a\afò\«iv^» ^q^<^- 



56 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

cemol-o corno amigo d'el-rei D. JoSo iii, pelas poesia 
que Ihe dedicou; era tambem affeÌ9oado ao Infante Don 
Luiz, bem corno ao principe Dom JoSto, que morreu d 
amores. E facil de prevér qual o partido que havia i 
abra9ar, se é que o sentimento da justÌ9a o nSofezpr 
meiro propender para o lado aonde eslava a verdade. 



VIDA DE si DE MIRANDA 57 

O-AJPlTXJXiO III 

(1626-1531) 

es da edade media. — Sa de Miranda em Coimbra. — Fu- 
i corte portugueza para Coimbra. — A Graffio de Fran- 
de Sa. — Comedia da Divisa de Coimbra por Gii Vi- 
. — Sa de Miranda conhece o grande apre90 em que 
tidas na corte as composi^oes dramaticas. — A Carta a 
de Carvalho, contra os que diziam mal de Coimbra. -^ 
ite de 1531 ; o successo do Marquez de Torres Novas 
lùa. — Sa de Miranda é contra o partido do Marquez de 
js Noyas. — A Cangào a Nossa Senhora. 

seculo XVI a realeza da Europa depois de fixar- 

ssou-se da vertìgem da soberania; os thiDnos es- 

occupados por doudos, bobos de purpura; cujas 

s caprichosas produziram rios de sangue e a 

lo da grande ra9a latina. Carlos v no throno da 

inha e de Hespanha, Francisco i em Fran9a^ o 

jcSLo X em Roma, Henrique vili em Inglaterra, 

Manoel em Portugal, compunham o grande di- 

bo da insensatez poderosa sacrificando a digni- 

iimana e a justÌ9a aos desvarios da auctoridade. 

das grandes pestes da edade media, caia so- 

povos da Europa està nova calamidade. Quan- 

de Miranda voltou para Portugal, jà estava no 

el-rei Dom JoSto ili, mais fanatico do que seu 

abalhando para introduzir no seu reino o tribù- 

paendo da InquisÌ9So, que enlutou para sempre 

portugueza. 



58 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

Apenas a voz atrevida mas sincera de Gii Vicente 
denunciava os tramas ardilosos ; quem fazia caso da 
philosophia de um far§ante dos seroes do pa90 ? Os Ira- 
des iam cada dia absorvendo e dominando a conscien- 
cìa do monarclia. Quando Sd de Miranda entrou de no- 
vo em Portugal achou grandes symptomas de decaden- 
cia ; a nobreza perderà o cavalheirismo e atirava-se a 
mercancia para obter dinheiro ; Jorge Ferreira de Vas- 
concellos verbera este estado moral na comedia Ulyssi- 
2)0. Sa de Miranda aturdido com a dissolu9Eo dos cos 
tumes que vira na Italia, assustado coni a Bxóbì^io 
mon^-stica e com o mercantilismo da corte, retirou-: 
para Coimbra lego depois de 1526. 

A corte portugueza costumava passar o inverno 
Almeirim; no anno de 1527 manifestou-se a peste em 
Lisboa e Alemtejo. Dom Joao in retirou-se com sua 
mulher a rainha Dona Catherina para Coimbra n'esse 
mesmo anno, mais a corte que o acompanhava. Em 1527 
podemos asseverar que Sd de Miranda jd se encontrava 
em Coimbra; a prova d'este facto nSo tcm side bem 
comprchendida. Diego Barbosa Machado, na Bibliothe- 
ca Lusitana, fala de um certo Francisco de Sa que re- 
citou uma Oragào na entrada de el-rei Dom Joào III e 
a Rainha D, Catherina na cidade de Coimbra, e die 
d'este auctor que a sua patria ó tao incognita corno co- 
iibecida a sua erudÌ9ao poetica e oratoria. 

Este citado Francisco de Sa é o proprio Sa de Mi- 
randa, conhecido geralraentc no seculo xvi pelos sena 
dois primeiros nomes, comò se ve pela assignatura das 




VliDA DE Bi DE MIRANDA 59 

duas glosas que vém no Cancioneiro de Resendc : « J5o 

Domr Francisco de Sa, grosando està cantiga de Jor- 

ge Manpìque. (1) Mais do que urna vez se encontva 

•**inesma rubrica; o que evidenceia a paridade entre 

^"Oisnomes. Barbosa Machado^ quercndo augraentar 

^ numero dos escriptores portuguezes, fez de Francisco 

«e Sa urna outra entidade ; ai accrescenta que o manu- 

*tópto da Oragao se guardava na livraria dos Marque- 

^ de Abrantes, o que ajuda a comprovar a nossa 

•^«serpSo, por sor a varonia d'està casa Si, e descendc- 

J^em do poeta pelos Mens de SA. Està Oragàp julgava- 

Je perdida; mas foi encontrada no Museu Britanico 

)eIo snr. Figaniere. (2) 

Eia importantissimo e ignorado monumento, que 
qui pela primeìra vez se publica: 



ORA^AO AOS REIS DOM JOAO O III E RAYNHA 

dona catherina na cidade de coimbra, que fez 
Francisco de Saa, no anno de 1527 

«Muytas vezes nos mostrou nosso Senhor manifes- 
Unente, que tinha cuydado e lembran9a particular 
*^9/te& Vossos Reynos de que parece que nos tinha da- 
Oi «amo em arrefem as Vossas armas reaes : que certo 

(t) Cane, fferal, fol. 109. 

X^ No CtUàlogo do9 Momuscriptos portuguezes do Museu 
rUanico: Ma. Add. no t. i do n.» 15118, fol. 1 ; «Ora^So aos 
isb D. Jofto ni,- é ikaynba D. Catharina, na cidade de Coim* 
«; que fez Francisco de Saa, no anno de 1527.» Figaniere, 
289. 



60 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

nSo bSo Aguias, nem LeSes nem On9as, mas bSìo Sisco 
Chagas de Jesu Christo, Verdadeyro Deos, e Verfa- 
deyro homem, sSlo a sua Santa Cruz, s&o aquellestrinia 
dinheyros porque elle quiz ser apressado e vendido: 
sSo finalmente as principaes memorias de sua sacrar 
tissima PayxSo pelle qual por vezes que estes BejiMM 
estiverai .para se perder por guerras, ou para se me» 
turar com outros Reynos comarcaSs per casamentofl 
sempre vimos que Deos ahy metteo sua mSo e se qui) 
lembrar dos Portuguezes, comò de gente que traz M 
bre sy e debaixo de sua bandeira: istoqùe digo sevi» 
muytas vezes nos tempos passados e quem algumahon 
e ainda nas obras de Deos, he couza certa e darà. 

Mas quem poderia Senhor ser em Vossos feitos tal 
descuydado e tam dormente que nao visse que nos fo 
tes dado polla mSo de Deos que o Vesso saber e a voss 
mansid^ a vessa temperanza e o vesso Regimento tu 
do n'esta vessa idade por milagres os tenho eu, xpi 
nSLo vos bey senhor por tam grande que tenhaes tanti 
parte na Europa, e tanta na Africa e tanta na Asia 
nem por terdes tantos Reyes vossos subditos e tributa 
rioB nem porque as vossas naos tenhaS dado volta ift 
teyra quasi a teda a terra e navegado quasi todo e 
marnem porque tenhaes descuberto os Antipodas, coiui 
que aos mais dos antigos pareceo patranha oucioaa e 
vistella vos senhor &zer tamanha verdade nem porqw 
ensinaes aos Vossos Pillotos a navegar sèm norte e m 



HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 61 

Ì68cobris8e8 nSo tam eoraentc mares e homens novos 
uu Ceo novo a nós e estrellas novas. 

Espantemse disto os Estrangeyros e aquelles quc 
lo sabem quantas mores couzas temos descubertas em 
h que vós no Mundo, e a vossa grandeza Senhor e o 
M80 espantO; dentro em vo« estS e vossa propria he. * 

Por muy dif&cil cousa houverao todos os que escri- 
!ra5 que se pudesse achar lium Rey aque devessem 
ledecer as terras e os mares e per eujo pareccr se hou- 
issem de fazer as guerras e assentar as eondÌ9oe8 das 
aes, e a quem se ouvesse neste mundo de entregar 
der enteyro sobre os homens igual quasi ao de Deos, 
homens pera quem elle tudo creara e por quem des- 
is tudo fez. 

Iato que assim (comò jd disse) pàreceo deficultozo 
{aelles grandes sabedores e a experiencia dos tempos 
igos noi faz parecer ainda despois muy to mais athe 
e Vos Senhor fostes dado por Deos que assim o tor- 
a dìcer e vos mostrastes em Vos, o que outros sem- 
\ dezejaraS e outros Reynos dezejaS ainda agora, que 
spois qùe fostes posto nesta altura donde podeis ver 
n quaS longe vosso poder se extende, jamais olhas- 
salvo athe onde se elle devia extender, quanto mais 
tes que poderieis tudo o que dezejasseis tanto menos 
BejasteSy quanto mais vos vistes posto sobre os ho- 
DB tanto mais vos lembrastes sempre que toda via 



62 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

ereis homem, as leys que vos podieis fazer comò 
V08 aprouvesse destcs por vossa vontade inteyro j 
sobre vos. 

Aos Senhores vossos L^maSs, a que toda vh 
. grande loiivor sor boni irmao quisestes vos ser seD 
nao nienos que bom pay. 

Donde Senhor vos vcyo que os mores Princej 
mundo, com os quaes tinheis tum estreytas obrigj 
de sangue, todos as quiserao acrescentar comvosc 
novo per casamentos, taes que nao tam somer 
vossos reynos dao eerta confian9a de repouzo, n 
toda a Christandade a socegasses os corajSes deza 
gados de tanto tempo. 

Donde Senhor vos veyo darvos Deos tal molhe 
molher se pode chamar) que assim vos ama e a( 
vos assim amais e que assim merece ser amada t 
nha parte da Bemaventuran9a deste mundo espei 
tam eerta para o outro. 

Donde Senhor vos veys que este vesso Povo ti 
todo amor de sy mesmo e de seus proprios fili 
casas e fazendas e ainda das proprias vidas eoa 
tasse todos em vos. 

E assim comò vos Senhor quisestes seguir con 
aquelle exemplo novo da natureza das abelhas, ( 



VIDA DE si DE MIRANDA 63 

quer todo elle seguir comvosco que todo anda apoz 
«corno vedes vivendo de'vossa vista, e os que vos 
i8 podem seguir com os corpos segucm vos com as 
mtades. 

Donde finalmente veyo que està muy antigua e muy 
»bre sempre leal cidade de Coimbra nunca he alegre 
rdadeyramente sinSo com vossas alegrias.» 

Dixi. (1) 

Sobre as grandes causas de decadencia qué actua- 
m sobre Portugal durante o seculo xvi, as frequentes 
»tes que nos invadiam quasi periodicamente ajuda- 
m & ruina d'este pobre povo. No Regimento a lem da 
ude publica, dado por D. JoSo ili, a 27 de Septem- 
•0 de 1526, se fala do decrescimento da peste. (2) Da 
«tede 1526 fala o Livro daa Vereagdes de Coimbra; (3) 
I peste dos annos de 1527, 1528 e 1529 devastando 
isboa e Santarem fala o celebre Amato Lusitano ; (4) 
sua grandeza conhece-se pela fuga do monarcha pa- 



(1) Pela obsequiosa intervenQao do meii patricio e amigo 
ipitSo Jacìntbo Ignacio de Brìto Eebello, obtìvemos do Museii 
itanieo copia d'este importantissimo e dcsconbecido documen- 

Aqui Ibe prestamos um publico testemunbo da nossa gra- 
iOf apresentando-o comò crédor de reconhccimento dos que 
izain a boa litteratura. 

(2) Collecg. dò Regim, p. 53. 

(3) FoL 17 e 22 

(4) CiircUionum Medicinaliumy p. 719 ; apud Vieira de Mei- 
QBy- JSjfidemologia portugueza, p. 238. 



64 HISTORIA DOS QUINHENTIì?i/xk, 

ra Coimbra ; a esse tempo .ai se eneontrava 'Si de 1M 
randa/ por ventura occupando o logar principal na "«a 
rea$2io da cidade, por isso que a elle coube o fistzec: 
dìscurso da recep9So. Se estas provas niU) bastam, n^ 
proprias obras do poeta eneontramos allasSesàpes 
de 1527, quando a corte fugiu acompanhando o 2 
de Almeirim para Coimbra. 

A nobreza queixava-se da tristeza da vida em Coin 
bra, aonde ainda entSLo nUo havia a Universidade^ e sua 
pirava com saudade pelas ca9adas na villa de Almei- 
rim. Na Carta v, a Pero de Carvalho, Sa de Miranda 
verbera esses fidalgos ìngratos: 



No logar onde me vistes 
D'agua e de montes i^ercado 
£ d'outros males que ouvistes, 
Tenho mais dias contados 
De ledos, que n^ de trìstes. 

Iste que ora ouvis de mi 
Nào ouvireis là de ale^iem, 
Buscae, pergantae sem &m 
No duejado Almeirim 
No farto de Santarem, 

Que guerra que Ihefizestes 
il* terra que me cWou. 
De que tanto d lingua déstea 
Porquc? que vos aeautou 
Da peate com (jue hi viestes, 

Fostes mal agasalhados? 
Certo, nao que té as fazendas 
Yog davam parvos honrados. 



VIDA DE SA DE MIRANDA 65 



» • j 



08 porqùc? porque os privados 
nheislonge vossas rendas? 

(••••••• 

que ea|>or parcialidadej 

sm ontro respeìto digo: 

X antigua e nobre Cidade 

u naturai, sau amigo 

u porem maSlìa verdade. (p. 66. Ed. 1804.) 

sta Carta de Sa de Miranda se conhece a ma- 
k da fidalguia centra a cidade de Coimbra. Do 
10 dos fidalgos tambem fala. Gii Vicente na 
AlmocreveSj representàda em Coimbra. Sa de 
fala nào movido pelo amor da sua patria, mas 
mento de justi^a centra os cortezàos ingratos, 
envergonhar, diz que a ennobrece o tumulo 
Affonso Henriques, lembra-lhe a sublime len- 
Lelidade de Martim de Freitas, e assim mos- 
3za da vida palaciana na dcsejada Almeirimy 
ia Sàntarem. 

icente moirava em Sàntarem, e vinha a Coim- 
isentar as' suas iar9as para distrahir a corte, 
leduz d%'petijSo centra os Almocreves casto- 
le no seu regl^esso para casa, Ihe levaram tu- 
ì ganhavà'. ^ 

30 passatempo da corte eram as divers5es sco- 
sse anno representou Gii Vicente seis fargas. 
>m JoSo III, o Infante Dom Luiz, o infante 
rique e o principe Dom JoSo gostavam d'es- 
mpo, comò temos provado. 



66 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

Como na peste de Florenga alguns curiosos pr^ '^ 
ravam distrair-se do contagio ouvindo os engraii^s^^doi 
contos dos jardins de Pampinea, D. JoSo ili fez-se ac^«%- 
panhar do seu poeta Gii Vicente, que no anno de lS2d 
e 27 representou diante d'elle a Farga dos AhwcreveSj 
a Comedia sohre a Divisa da Cidade de Coimhra, e a 
Tragicomedia pastoril da Serra da Estrella. Na farja 
parece que Gii Vicente allude a Sa de Miranda, o qual 
jà n'este tempo tinha viajado por Veneza, Roma, Milào, 
Sicilia e Hespanha, comò diz na Carta vi, aD. Fernan- 
do de Menezes. Diz Gii Vicente: 



Qu*em Frandes e Alemanha, 
Em toda Franca e Veneza, 
Que vivem por siso e manha, 
Por nao viver em trìsteza, 
Nào he corno n'esta terra; 
Porque o fillio do lavrador 
Casa là coin lavradora, 



£ OS fidalgos de casta 

Servem os reis e altos senliores. 

De tudo sem presump^ao, 

Tao chaos, que pouco Ihes basta (1) 

Porventura Gii Vicente estari a fazendo o elogio 
do poeta, que procurava evitar as grandezas da corte, 
contentando-se com servir o rei, sem querer comparti- 
ILar as grandezas e honras de seu irmào Mem de Sa, 
que veiu a ser governador geral do Brazil. O quadro 
que Gii Vicente descreve da vida de suo e manha^ que 

(1) Ohras de Gii Vicente, t. m,^. ^*W- 



VIDA DE SA DE MIRANDA 67 

Be levava em Veneza e Franga para nSo viverem em 
tristeza, està em completo accordo com o que diz Sa de 
liliranda na citada Carta: 

Vi Roma, vi Veneza e vi Milao 



Onde a vìda em prazer desapparcce. 
Quem se ali chega aos lan^os, desatina, 
A primeira aventura, é a do sìso, 
Que logo perde; tudo à banda inclina, 
Ali o saber, ali o brando aviso, 
As boas partcs, todas quantas sSo 
Nobreza e parecer é tudo riso. 

Vendo a estimagSo que se dava na corte aos diver- 
tìmentos dramatìcos, seria talvez d'aqui que Sa de Mi- 
randa teve a primeira ideia de seguir a renascenga ita- 
liana na renovagào do theatro. Jorge Ferreira de Vas- 
concellos, que tambem frequentava a corte, jà n'este an- 
no tentara a sua comedia Eufrosina em prosa ; porém, 
conhecedor dos exemplares do theatro latino, incHnou-se 
mais para o genio hespanhol representado surprehen- 
dentemente na Celestina de Rojas, que imitava. Embo- 
ra viesse a escrever muitos annos depois de 1527, é cer- 
to que Sa de Miranda, admirador de Plauto e de Te- 
rencio, nao gostava da comedia no verso de redondilha, 
corno francamente declara no Prologo da comedia dos 
JSstrangeiros. (1) 

Na Comedia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, 
representada por Gii Vicente em 1527, em Coimbra 

(1) Bistorta do Theatro portugutz^ liv. m, ew[j. ^. 



eS HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

ir 

diante de D. JoSo iii, refere- se elle, quando ennumera 
as prlncipaes familias da Beira, os Castros, Silvas, SS- 
veiras, Sousas, PereiraS; Mellos, tambem aos Metmm 



OS Menezes 
Que foram e sSo mui claros varoes: 
Na guerra sào d'a^o os seus cora^oes 
£ em tudo se mostram frol dos Portugueises. (1) 



Sa de Miranda era descendente dos ilfeneze< {(ffi| 
parte de sua mae D. Philippa de Sa, neta de JoSo Bo-. 
drigues de Sà.de Menezes, de quem diz Sa de Miranda] 
na Carta iv: 

Dos nossoa Sàs Coloneses 
Gram tronco, nobre columna. 
Grosso ramo do9 Menezes, 
Em sangue e bens de fortuna, 
Que é tudo entre os portuguezes 

As letras que nào achastes 
Vós as metestes na terra, 
A* nobreza as ajuutastes 
Com que d'antes tinham guerra. 

A este mesmo Joao Rodrigues de Sa de Menezes dia 
Antonio Fen'eira, na Carta VI, do livro i : 



Antigo pae das Musas d'està terra, 

Illustre gera^So forte e prudente, 

Igaal sempre na paz, sempre na guerra. 

Viste-te jd lemhrar da tua genie 

Viste-te dos cxtranhos invejado 

E vis-te ora viver tao longamente. (2) \ 

(1) Gii Vicente. Obxas, t. ir, p. 136. 

(2) Ferreira, Poemas Lusitanòs, t ir, p. 20. 



VIDA DE SA DE MIRANDA 69 

Gii Vicente remata a Comedia pelo elogio dos Me- 
nezes, corno por um golpe dramatico, talvez por estar 
presente Sa de Miranda. 

Pelo seu lado, o poeta moralista condemnava a li- 
berdade com que Gii Vicente tirava das sagradas le- 
tras o elemento de todos os seus Autos hieraticos. O 
grande movimento da Reforma manifestava-se na Eu- 
ropa pela necessidade de traduzir os livi'os santos em 
lingua vulgar, e sobretudo pelas interpreta95es livres 
e francas a que o genio critico as submettia. Em Gii 
Vicente encontravam-se as ideias fundamentaes dapo« 
lamica religiosa na Reforma^ as indulgencias^ o su- 
£ragio do Purgatorio, o uso da lingua vulgar nas cou- 
sas divinas. De que outro modo se poderà entender es- 
tes versos de Si de Miranda: 



O que se nSo deve ousar 
A lér, se em giolhos nao, 
(Que gra9as para chorar) 
Torcem fazendo falar 
Ao som de sua paixSo. 

Esquecidos do conselho, 

Fodera dìzer mandado, 

Sendo-o, porque foi vedado 

No santissimo Evangelho 

Aos caos nao dcs o sagrado. (p. 208, ed. 1677.) 



Logo no principio do reinado de Dom JoSo iii suc- 
cederà a queixa do Conde de Marialva centra o Mar- 
quez de Torres Novas, que declarava que estava casa* 
do clandestinamente com sua filha D. Guiomar^ dea^ 



70 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

Bada do principe D. Fernando. Dera-se o caso j 
anno de 1522; decorreram 'nove annos, até que p< 
decis5es dos canonistas e pela constante iiega9^ de 
Gruiomar, se decidiu o casamento do principe com < 
eni 1531. 

Sa de Miranda estava inteirado do successo, e i 
suppor que alludisse nos seus versos a està intriga 
laciana. 

Dom GongaloCoutinhojfalandodas suas poesias < 
que versam a a maior parte d'ellas sobre casos parti 
lares que succederam na corte em seu tempo, ìntro 
zindo pessoas conhecidas d'aquelles que entao vivi 
de que ainda temos algumas tradÌ95es e vestigios d< 
vados a nós dos contemporaneos que o venceram 
diag, e se houvera algum que fizera urna annota 
d'isto, por ventura que fora bem agradavel historia. 
Sondo OS versos de Sa de Miranda cheios de allegor 
aos acontecimentos do seu tempo, comò Ihe escapa 
este escandalo, que se terminou em urna sombria cati 
trophe? Dom Gon9alo Coutinho fala de uma Eolo 
de Sd de Miranda, que Ihe provocou as iras de uma p 
soa muito poderosa, por causa da interpreta9So que 
Ihe ligava; e que nao querendo explicar-se melhor, 
poeta resolvera abandonar a corte. A Ecloga qi 
aponta dd-lhe o nome de Aleixo ; mas corno adiante mo 
traremos é na Ecloga Andrea, que se encontram clan 
allusSes ao casamento do principe Dom Fernando. 

Aqui se pode collocar logicamente aperseguigSoc 
Sa de Miranda, de outra forma incomprehensivel, qi 



VIDA DE SA DE MIRANDA ìi 

relata na Cangào a nossa Senhora, aonde o poeta 
iala da sua prisao rigorosa : 



Virgem, nossa esperaii^a, um alto po^o 

De vivas aguas que continuo corre, 

Em que se matam para sempre as sedes, 

Nao de Nembrot, mas de David a torre, 

D'onde soccorro espero a men destrogo 

Assi tao perse ffìu'do comò vedes 

De ferros carregado, 

Um coragào coitado 

Chama por vós envolto em hastas redcs 

Umas sobre ouiras, porém siffnacs tenho 

De ser do vesso bando, 

Que a vós bradando por piedado venbo. (p. 9. Ed. 1804.) 



Està Can9So é imitada de Petrarcha, e por isso des- 
cobre-nos que so teria sido escripta depois do regresso 
de Italia. Se a primeira colIe9So dos versos de Sa de 
Miranda nao fosse authentica, julgariamos està Cangao 
apocrypha, e talvez escripta pelo seu amigo Antonio 
Pereira Marraraaque, Senhor de Basto, auctor de um 
Hvro contra os padres e de outro sobre a leitura da Biblia 
em vulgar, livros que sómente andaram manuscriptos, 
que mais tarde vieram* a entrar no Lidex de 1624, e 
que foram eausa da sua prisao nos earceres do Santo 
Officio. Na Ecloga Aìidrés, vè-se que Sa de Miranda 
se refere ao projectado casamento do Duque de Aveiro. 
N'esta Ecloga approxima o poeta a dÌ8solu9So dos costu- 
mes da Italia com os da corte portugueza. 




72 HISTORIA DOS QUINHENTISTAS 

• ... : - • 



Junto del ttirbio Tibre, que rebanos 

Ay de Zagalas, mas que biven sueltas, 

Que biven de doblczas e de enganos, 

Palabras dulccs eii pen^oiia en vuelta s, 

Con que a los moQos, con que a viejos amos 

Hazen que ciegos van dando mil bueltas (p. 65. Ed. 1677. 

Logo na sexta outava da Ecloga Andrés, parece qa« 
Si de Miranda retrata o Infante Dom Fernando^ qu» 
pela descrip^ de Damiao de Goes se salie que er. 
multo dado ^s letras e ao desenho. Approximando es 
duas passagens se conhecera melhor a intengSodo poe 



Pudierades passar la juventudc 

Como otros grandes Principes, andando 

A passaticmpos, y a la multitud 

De sus plazeres, onde, comò y quando ; 

Hizesseos mas erniosa la virtud. 

Ansi qual ella va de flaco blando 

Tan presto conocistes los affeytos 

Y el falso resplendor de los deleytos. (Pag. 63.) 



D'este mesmo principe diz Damiao de Goes, na 
nica de D, Manoel : « assi na mocidade, corno depois d< 
ser homem feito, foi de bom parecer e bem disposto ^ 
muito inclinado às letras e dado ao estudo das Historia^^^ 
verdadeiras e ìnimìgo das fabulosas, e por baver 
verdadeìras trabalhava muito, de que eu sou testimti- 
nha, porque estando em Flandres, em servilo d'el-i^èiC 
Dom JoSo III, seu irmlo me mandou pedir todalas ai^ 
cbronicas que se podessem achar escriptas de mSo, óxM- 
imprimi das, em qualquer linguagem que fosse, as quae^ 



NO SECULO XVI 73 



OAJPX^TTXiO ■ i:V 



I % 

\ 



Dr. Antonio Ferreira 



88ica de Ferreira. — Imita as coraedias italianas^ 
directamcnte das tragedias gregas. — Cotihece 
mo se ve pelo uso que fez do verso sòlto. — A 
ìristo, rcpresentada iia Universidade erti 1558. — <- 
eatro classico e da eschola nacional. — MagaUio 
o de CamOes. — Theatro dos Jesuitas. — Fréi 
to Mayor cstuda Gii Vicente. — Oaracter da co* 
;a na Rena8cen9a. — Rela9(')e8 entro a coniedia 
ncdia italiana. — As heiairas e as cortezàs. — 
é« e fanfarrfto. — Imitando da coniedia enj pro- 
se tentou reprodnzir o iainbo latino. — Exposi- 
edias do Cioso e Brislo. — A coincdia motoria. — 
de Terencio iniitados por Sa do Miranda e Fer- 
leatro tragico : tradiic^flo do Agamemnon de So- 
.555. — Traduc90es poilnguezas de Seneca, — ' 
los amorcs do Inez de Castro em Coimbra. •. — 
ève a tragedia de Inez de Castro. —7 Plagiàrio 
limosa de Bermndez. — Opinifio de Martinez la 
ilysc da tragedia de Ferreira. 



linda o theatro classico nào estava admit- 
ngal, escreveu Sa de Miranda, no seu pri- 
: «Estranhaes-me, quo beni o véjo, que 
sera? que entremez é este? foy grande 
apodaes jà, mas nào hade falecer quem me 
) Competia ao Dr. Antonio Ferreira tot^ 
ro este presentimento, pela sua completa 
ssica e pelo respeito por Sa de Miranda, 
eira conhecia perfeitamente a lingua gre- 

igeiroSj Prologo. 



74 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

ga, corno se ve pela tradac9So da elegia do Amor 
dido de Anacreonte, por outra de Moscho, e por algufl 
epigramiiias da Anthologia. Os divertimcntos eschola^ 
ticos renovados na Universidade com a vinda de Bi 
chanan para Coimbra, e o costume de éscrever e fai 
em latini^ abriram-lhe urna communica9tlo directa co 
OS monutnentos do theatro classico. Ferreira ensaio 
se na Comedia e na Tragedia; a perfeicjao que attingi 
n'esta fórma heroica da arte dramatica, prova que n 
se inspirou so da leitura de Seneca, corno fizerain 
tragicos do secolo xvi; foi a fonte genuina, estudo 
em Sophocles e Euripedes; porém na comedia nào 
ve a mesma liberdade de espirito. A Comedia foi a su 
priraeira tentati va; contava apenas vinte quatro anno 
quando escreveu a comedia de Bruto. Conbece-^se qu»- 
elle admirava todas as representa^Oes que se havia 
feito na Universidade antes da sua tentativa: «nest 
Universidade . . . onde pouco antes se viram outras, qu 
a todas as dos antiofos ou levam ou nào dào vanta 
gem.D Qual a natiireza d'estas comedias que Fer 
reira tanto preconisa? Pela influencia que exerceram 
na comedia de Bristo se conbece, que eram imita^Oes 
directas do tbeatro italiano; e que entro essas imita- 
^Oes se devem contar os Estrangeiroa e ViUuxlpandos de 
Sa de Miranda, comò se deprebende d*esta passagem: 
«nào falò nos que o seguiram até agora em Italia, pois 
em no8808 dias vemos n'eate Reynù a bonra e o louvor 
àe quem novamente a trouve a elle, com tanta differen- 
za dos Antigos, quanta é a dos mesmos tempos.)) Os 





NO SECULO XVI 75 

iTTies e interesses das Comedias de Ferrei ra sào os 
nos da comedia erudita italiana; sempre o medo- 
pezadello da invasao dos Turcos, sempre o galante 
.8SO, o fanfarrùo, as aleayotas, e coni urna accea- 
;fio aioda mais italiana, o que faz erér qae Ferreira 
ez as traduzisse do algiim d'esses escriptores da 
tascen^a. Se nos lembrarmos de que elio proprio 
fessa, quo escreveu a comedia de B insto em ferias 
tadas ao estudo, o coìno coiisa de poucoa diaa orde" 
la, vè-se que aos vinte quatro aunos o mais que po- 
ia fazer em tao curto periodo seria urna traduc^ào; 
mais, ai se fala constantemente dos Ca valici ros de 
lodes, e da Uba antes de ser tomada, o que accusa 
la comedia antiga, mais proxima d'esse facto passa- 

em 1523, do que urna comedia originai composta 
1 1553, quando jà a opiniào se agitava com outros 
teresscs. 

que levaria Antonio Ferreira a oncetar avereda 
*amatica seriam as festas que na Universidade de 
oimbra se fizeram pela occasiào do casamento do 
ÌQcipe herdeiro Dom Joào com a infanta Dona Joan- 
i, filba de Carlos v. A preferencia pela fórma dra- 
atica, abstraindo da influencia exercida pelos passa- 
mpos academicos, seria devida ao saber-se que o Prin- 
pe Dom Joào era grande protector do tbeatrOy e que 
icolhera a Eufrosina de Jorge Ferreira de Vascon- 
llos. Antonio Ferreira celebra ra o casamento do 
rincipe Dom Joào com Dona Joana na Ode li, a sua 
imeira composi^ào em verso solto. Este facto, que nos 



76 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

mostra a parte quo tomara no regosijo publico, revela 
ao mesmo tempo quanto estava sabedor da litteraton 
italiana, e que teve conbecimento do celebre Trissino, 
quo foi o primeiro que na Italia innovou o verso scicU», 
Tem-se attribuido a innova^fio do verso solto a Bucet 
lai, eom quem Sa de Miranda tratou no tempo da su 
viagem a Italia; mas o proprio Rucellai na dedicato- 
ria do poema didactico UApi a Trissino, Ihe diz: «Yi 
fostes o primeiro que vulgarisou està maneira de e»« 
crever em versos de lincrua materna aera rima.ì> Sabe-M 
que a comedia de Bristo foi escripta por occasiào dit 
festas do casamento do Principe, porque Antonio F«P» 
reira Ih'a dedica comò composta em seu servilo. 

Pelo Prologo de Bristo conhecc-se que existia nn» 
grande lucta entre a eschola nacional e a escluda d(xt 
sica, sondo o primeiro campp de batalba o theatro. A 
tradÌ9rio nacional nào acabara em 1536 com a morto 
de Gii Vicente; outros adeptos o seguiram e propagi" 
ram a fórma popular do Auto; AfFonso Alvares, An- 
tonio Prestes, Ghiado e muitos anonymos explora\*am 
a veia comica servindo-se unicamente da redondilfct* 
Os poetas sectarios da eschola italiana queriam a lin* 
gnagem da prosa. Este combate comeoou antes de 
1523; n'este anno escreveu Gii Vicente a farcade/a» 
Pereira para pro\'ar a acei^tos liomens de bom saberi^ qn9 
tambem sabia inventar. No Prologo da Comedia dd 
Estrangeiros^ que allude a successos de 1523, (toroadi 
de Rhodes) condemna-se a fórma do AiUo, e ftla-** 
com uma compaixào despresivel da linguagem em 



NO SECULO XVI 77 

verso. Jorge Ferreira, procura abrigar a sua primeira 
composi^ao dos censores malevolentos offerecendo-a ao 
principe Doni Joào, e pela sua parte Antonio Prestes 
susienta a eschola uacional apostrophando no Auto da 
Ave Maria contra o granrle interesse que seligava aos 
livros e cousas de Italia. Quando Antonio Ferreira es- 
oreveu a sua primeira comedia, ainda a lucta entro o 
theatro classico e nacional estava accesa; no Prologo 
diz: ({nào extranharei o rir d'este, o murmurar d'aquel- 
le, o praguejar d'aquelle outro. Corn estes ainda se pò- 
dia passar; mas ha ahi uns colericos tao arrebatados^ 
quo, corno acham urna cousa fora do seu gosto^ noto 
guerem soffrer as outras^ tao cegos na rasào, que Ihes 
nào lembra, que sào os gostos diversos, e o que a elles 
nào apraz, ]>óde aprazer a outros. Com estes taes me 
n&o ponho em juizo, semente sou aqui vindo pera ou- 
tros a que a natureza deu as condi^Oes mansas, os jui- 
zos livres, as teuQOes bem inclinadas. Estes julguenL 
sé é vicio querer cada uni seguir com suas for^as as 
cousas que bem parecèm, principalmente està que an- 
tigamente foi tidii em tanta conta. ^ E prosegue fa-; 
laudo d^aquelle que primeiro introduziu em Portugal 
a Comedia que renascera na Italia, trecho importante^ 
que transcrevémos e a que por vezes nos temos referi- 
do. Até que conclue: (rOra sendo a cousa em si tao 
boa, seguida de varOes prudentes, authorisada pela an- 
tìguidade dos tempos, e agora finalmente vista e apro- 
vada com egual consentimento e espanto n'esta terra^ nào 
sei quem em boa rasào torà a mal qnem a quizer s^- 



78 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

guir e mais com tao boa guia.D Por estas palav 
conhece até aonde se prolongoa a Incta que esta^ 
vada entro a comedia classica, introdazida por 
Miranda, e o theatro popular dos continuadores < 
Vicente. Como Sa de Miranda, tambem consic 
OS Autos populares informes e grosseiros; poi 
.diz, no citado Prologo de Bristo: «0 Author U 
por grande honra satisfazer a poucos.» Ironia 
gente, centra os quo lisongeavam os ouvidos de 
com a redondilba salgada e facil, e às vezes obs 
PoutM) tempo antes, havia Oamóes escripto tambe 
rante a frequenta da Universidade o seu Aut 
Ampkt/trioeSj e talvez representado egaalmente n 
rias escholares; a tradi^ào classica achava-se tratac 
elle com urna falta do respeito qiie se impnnha a 
quanto era antigo, e ao mesmo tempo na fórma i 
da redondilba de Gii Vicente. E naturai que Fei 
Be referisse no principio do seu Prologo a CamOes 
ent&o estava em carainbo da India. Visconded 
romenha, (1) acha na Ecloga ili de Ferreira uini 
lusòes que comparadas com a Carta -ly de Berna 
levam a crér, que fosse CamOes o poeta ali deprin 
EÌ8 OS cìtados versos : 



Pastores, corony, que vae cresceDdo 
Este novo poeta, de hera e flores ; 
E Magallio de inveja esté inorrendo 
Que a todos para si rouba os louvores. 



(1) Ohra» de Camóes, U i, p. 515. 



NO SECOLO XVI 79 



A quem. Sa. te ama, iiiinca Apollo iicgue 
Seu divino furor, coni quo te caute, 
E ronipa-se MagalUo^ rompa e cegue 
E de meus versoe là entre si bO espante. 
— rustico Magallio sem braudura, 
Nunca som doce em teus versos sóe, 
Magallio peito de cortÌ9a dura, 
Todo o bom ajpriio atraz te deixe e vòe. (1) 



Camòes quiz-se deixar ficar atraz, e nas suas co-- 
inediad contiimou a seguir a eschola uacional com 
nma especie de acinte calciilado, corno qucm tinba em 
pouco esses hons spritos que abragaram cegamentc a 
coniedia italiana. N'esta lucta, o theatro nacional ti- 
nha de ficar vencido, porque a coiiiedia classica achou 
logo urna grande sympathia entre os eruditos, os dig- 
uatarios e o partido clerica]. 

A Comedia classica era urna corno composi^ào aris- 
tocratica; assistiani a elias, quando se representavam 
pelos escholares, os principes e altos personagens, que 
às vezes desempenhavam alguma parte. Jodelle repre- 
sentou diante de Henrique li no palacio de Reims; o 
Gardeal Dom Henrique, successor de seu sobrinho Dom 
Sebastiào, quando era ainda unicamente a suprema/ 
atithorìdade ecclesiastica de Portugal, maudou pedir a 
Sa de Miranda as suas Comedias para serem represen- 
tadas na sua presenta. 

O Cardeal Infante seguia n este gosto a educa- 
^.So jesuitica; de fiicto nos seculosxvii e xviii, quan^ 

(1) PoemaB LusitanoSj t. i, p. 168. 



80 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

do as fogueiras da Inquisigao tinham completamente 
abafado o gonio nacioual, a alegria, a expaDSào e por 
conscguintc a creagào dramatica, foram os jesuitaaos 
Tinicos qnp Piitre nós se ontretinham a fazer represen- 
tar pelos ^^f ns escholares as tragedias de Seneca, Plau- 
to e Tercuoio, bem corno a vida dos Santos dialogadft 
em latini, nas grandes festas da Companhia. Abundam 
em toda.v a» bibliothecas os exemplares d^este genero. 
As ve/^- OS personagens eram allegorias e abstrac^Oes, 
conio o Supino^ o Gerundio^ os Preteritoa, os NomxMr 
tivos, dedamando em rotuudos endecasyllabos verso» 
Bjntaxicos, em que se debatiam as polemicas alvaristi- 
cas. «No secalo xvii e xviii, diz Victor Foumel, fo- 
ram principalmente os Jesuitas que recolheram esteas- 
tigo uso, para o continuar, apropriando-o ao seu mo* 
do de educaoào. Tinham por costume, em certos dias, 
fazer representar a comedia aos seus discipulos sobro 
nm theatro interior. A Ratio Studiorum auctorisav» 
taes diyertimoiiios coni certas condi^Oes que nào eram 
sempre striòtamente observadas. Finalmente, outm 
congrega(jOes religiosas seguiam tambem o mesmo 
exemplo. . .» (1) 

Francisco Soares Toscano, no ParaUello de Priuir 
pes e Varóea illustres, traz urna anecdota do celebi^ 
tbeologo dominicano Frei Luiz de Sonto Mayor, ^ 
que mostra quanto o frade se entregava à leitura di 
Autos e Comedias: «Frei Luiz de Souto Mayor,di 

(1) Curiosités théatraleSj p, 77, 



NO SFCULO XVI 81 

Ordem dos Pregadores, Lente de Escripiuiu eiii Coim- 
bra, e grande letrado e mui douto, e mio lìunos nobre 
por geragào. . . Ha ds vezes Aufo^ porfvvrpzt'R^ e que 
em particular uin dia que tinha uin de Gii \ icente n& 
màO} (queem seus tumpos Ibi uuii&o clìl-ì.*! >,) Ihe 
perguntaram que fazia? e para que Ha semsaborias de 
Gii Vicente? Respondera a senten9a do Poeta: Aurum 
colliffo ex stercore. Dando a entender que n'aquelles 
Antos havia tambem sentengas e dittos de considera- 
980 que tirar e apprender.» (1) Està predilecQào de 
Frei Lniz de Souto Mayor^ era uni resto de amisade 
pela yida escholastiea, que a austeridade canonica ndo 
tinha obliterado. Mas d'estes ensaios academicos que 
tanto contribuiram para a implanta9ào do tbeatro da 
RennfscenQa em Portugal, mais contribuiram para a 
sua decadencia quando de allegoria em allegoria vie- 
ram a descambar n'essa fórma insipida e eateril do 
Elogio dramaiico» 

O caracter da comedia classica da Xienascen^a mo- 
derna conforma-se de tal modo com as creaQOes gre- 
gas e Tomanas, que se nào deve considerar a sua mu- 
tua homogeneidade sómente comò urna reconstruc^&o 
erndita, mas com um resultado de um estado social da 
Enropa do seculo xvi, analogo ao da sociedade grega 
no tempo dos soberanos macedonios, depois da perda 
da sua liberdade politica pela batalba de Choronéa. 
Como Atbenas, a Italia tambem estava florescente e 

(1) Poroifei., p. 141. 



82 



HISTORIA DO THEATRO PORTDGUEZ 



rica, mas a vida burgneza jà se mìo embara^ava com 
as invasOes imperiaes e com as traigOes do papado; o 
sen cosmopolitismo, a descren^a, e o egoismo de urna- 
existencia sensual, consti tiiiram uni melo adequado 
para so traiisplantarem os tvpos da comedia grega 
e romana, comò o parasita, o fanfarrào, o alcoviteiro 
o escravo. Menandro secularisàra a poesia grega, se- 
parando-a dos vellios symbolos theogonicos, e substì- 
tuindo OS dogmas por uma moral facil e de bom senso; 
na Europa moderna foi tambem està tendencia secoli' 
risadora que fez lavrar repentinamente e por lodai 
parte a Reforma. Até em Portugal foi o theatroi 
unica fórma do arte que propagou as idéas de seculari* 
sa^ulo. Mas entro a comedia classica e a comedia di 
Ronascencìa existe uma rela^ào tradicional conservadl 
pelos oruditos; é essa que procuramos fazer sentir. Q 
r(?sto do es})irito beroico da Grecia, depois da batalhi 
de Cheronea nao dcsappareceu totalmente; reconcea- 
trou-se comò uni ultimo lampejo nos guerreiros vagì* 
buudos, que so tornaram, comò os beroes depois di 
morto politica de Italia, simples condottieri; o ben 
senso e subtileza atbeniense ficou nos burguezesar 
dentarios, que se riam das argumentagOes das eseliota 
dos plìilosoplios e rlietoricos, e procuravam tomarl 
vida uma eommodidade agradavel. Os pequenosaecì 
dente» da vida social come^aram a occupar mais 
atten(;Oes; em vcz da gloria calculava-se o ÌDteres% 
em vez do assembro queria-se o riso. amor jienleo 
a sombra de fatalidade e de contagio que atacaraai 



NO SECULO XVI 83 

Saphos^ as Pasiphes e Biblis, toruou-ise um seotimen- 
to de egualclacle huinana^ urna coinmunica^ào, um mo- 
Uvo de soeiabilidade; a Europa do secalo xvi depois 
de ter assistido às cortes de amor dos Provencaetì e 
àos devaneios do inysticismo religioso, chegou a este 
nièsmo estado sentinieutal na Reuasceii^a. A vida re- 
catada da mnlher atbeniense era adoptada tambein pela 
burguezia; recolbida na obscuridade domestica, com 
«ina educa^ào bastante para dirigir o arranjo da casa, 
alheia às preoccupa^Oes dos uegocios publicos, a mu- 
Iher mais perfeita era, segundo Pericles, a que menòs 
desse que fiilar de si em bem ou em mal. (1) 

E por isso que nem nos fragmentos das comedias 
de Menandro, nem nas comedias dos seus imitadores 
«pparecem intrigas de amor com as donzellas athe- 
nienses; se essas situa<^.Oes se dào, nunca é por um 
meio normal, é sempre por uma perturba^ào das con- 
Teniencias sociaes em alguma pervigilia^ ou porque a 
donzella so acobertou com a mascara de escrava ou de 
hetaira* Na comedia da Renascen9a, o typo da hefaira^ 
rebaixou-se um pouco mais e tornou-se a cortegglana^ 
typo que se encontra em todas as comedias do Sa de 
Miranda e Antonio Ferreira. Pela organisa^ào da so- 
eiedade burgueza de Athenas que acabamos de ver, é 
que se explica comò a comedia grega se occupa sempre 
de rela^Oes entro mancebos e hetairas ; as donzellas 
atticas continuavam a viver recatadas em uma respei- 

(1) Ottfried MuUer, Hist. de la L\tt. grecq^ue.l- \,^**'^- 



U HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tosa domestìcidade; as hetairaa, ger^lmenìe estrangei- 
ras on libertas, tinfaam maneiras elegantes e urna certa 
educa^Slo para seduzir a mocidade; era a mulher pn- 
blica sem a degradag^o e infamia da sociedade moder- 
na, Os paes de familia nào approva vam estes concubi- 
natos; é entao que os escravos se tomam confidentes, 
quo enfcretém as relagOes mal vistas, em que reyelam 
a sua argucia, a indole interesseira, o seu genio ni- 
velador e democratico. Ha urna hetaira que resiste; o 
escravo compadecido do mancebo pOe-se em campo, e 
descobre a tra^a de a trazer aos bra^os do seu joven 
senhor. parasita é outro typo originai da comedia 
atheniense; na comedia da Renascen^a é o bobo feito 
cidadào depois da ruina da sociedade feudal, que se 
sente sem actividade industriai, e transporta à ociosi- 
dade da córte para o seio da familia; expòe-se a todos 
OS lances, à irrisào, a maus tratamentos, comtanto que 
o deixem corner sem trabalhar. Os poetas comicos ti- 
raram immenso partido d'este typo, susceptivel de re- 
presentar todos os interesses pela sua egualdade civil e 
ao mesmo tempo capaz de por em ac9ao todos os recur- 
sos, de se prestar a todas as degradaQOes pela escravi- 
dào da barriga. A este mesmo typo andava tambem 
junto o fanfarrào, o miles gloriostis da comedia roma- 
na, o cavalleiro da triste-fìgura, o JSspadaehim e Mata- 
moros da comedia da Renascen^a, que se gaba das suas 
fa^anhas em Rhodes, e de centos de batalhas centra 
OS Turcos ; comò o fanfarrào da comedia grega, é tam- 
bem enganado pelo parasita, comò sé ve na comedia de 



NO SECULO XVI 85 

Ferreira, em que Bi'isto^ logra o soldaclo Montai vao e 
o Cavalleiro Anibal. 

A comedia romana é fundada sobre estes inoldes, 
nào corno urna imita^ào cnlta, feita segando os princi- 
pios littcrarios, mas conio urna cousa que se repete por 
moda, corno qualquér monomania da actualidade. No 
principio d'este secalo, deu-se um phenomeno eguài 
com o theatro francez do ultra-romantismo. Compa- 
nhias de actores gregos andavam pelas cidades da Ita- 
lia representando as comedias do Menandro, de Dipbi- 
los, de Philemon, na mesma lingua em que as repre- 
Bentavam em Athenas e nas cidades gregas da Asia, 
liivio Andronico fez o mesmo que os escriptores da 
Benascen^a italiana: teve coragem para representar a 
comedia grega na lin^a latina, do mesmo modo que 
OS italianos na lingua vulgar. N'este phenomeno litte- 
rario nào se deu nem a traduc^ào das comedias gregas, 
nom a imitagào; foram escriptas sob a influencia di- 
rcela da civilisa^ào grega, comò hoje se acceita um 
4Ìivertimento parasiense. (1) A comoedia palliata é 
loda fundada nos pequenos iuteresses, na sociabilidade 
faci], nas relaQòes politicas da sociedade atbeniense no 
tempo dos dominadores macedonios. Plauto traduz e 
imita OS comicos gregos, temperando a gra^a ao gesto 
romano, a desenvoltura substituindo a ironia attica; 
Terencio pOe em pratica o costume dos comicos roma- 



(1) Opiniao de Ottfried Muller, HUt. de la Liti, grecque, 
t. 11, p. 45è. 8eguimol-o n'esta interpreta9fto. 



86 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

nos, a contaminatio, fundindo em urna so daas come- 
dias, corno nò Eunucho e uos Adelphos. 

Quando corae^ou a Ben ascenda do tbeatro, rcpre* 
sentava-se na Italia as comedias de Tcrencio e de 
Pianto na lingna latina ; foi preciso um esfor^o quo li 
tem OS periodos de innovacflo, pàr«a dar a comcdiat 
linguagem vulgar. A Academia dos Bozzi de Senni 
escrevia as suas coraedias nos dialectos populares. £i- 
tava dado o passo mais difficii; o espirito creava asm 
vontade fazendo falar aos typos comicos greco-romana 
a bella e pittoresca expressào da plebe, chela de pnh 
gas, de ancxins, de metaphoras caprichosas e de loco- 
^Oes iutraduziveis. Com os olhos no theatro de Plauto 
e Terencio, nào se atreviam os eruditos italianos i 
abandonar o verso iisado pelos classicos; no servilis- 
mo da imita^'uo debalde procuravam na poetica da« 
linguas neo-latinas um verso quo reproduzisse o iam- 
bico, que iisaram os comicos latinos para a linguagem 
familiar. Boiardo experimentou a tei^za rima; Ariosto 
julgou approximai'-se mais, em pregando o cndecos- 
^ syllabo sdrucciolo; Alamani ^^wm-^e Ao sdrucciolo ìa 
dezeseis syllabas; Trissino inventou para resolver o 
problema o verso sciolto , até que a final desesperaraffl i 
da imita^ào e abra9aram a linguagem da prosa. k\ 
tradirà© antiga ficou quebrada; assim a comediai 
Bcnascen^a tornou-se pouco a pouco popular. Machii-; 
velli, Ariosto, o Cardeal Bibbiena fazem acceitar i 
prosa corno a verdadeira linguagem do theatro classi- 
co. A Calandria é em prosa e imitada dos Meneéhma 



NO SECULO XVI 87 

de Plauto; os eruditos no melo da sociedade burgueza 
do sedilo XVI, reproduziain iiisensivelmonte a coniedia 
'grega, do mesmo modo que os jurisconsultos italianos 
de seciilo xiii fizeram reuascer o direito romano, pela 
homogeneidade da vida social, que ajndava a compre- 
hender a reconstrucgao scientifica e artistica. Na co- 
inedia italiana o Parasita e o padre, o ambicioso que 
se mette em um banlio para vir a ser cardea). Nas 
cortes desenvoltas de Leào x, de Urbino, de Carlos v, 
de Francisco i, de Henrique vili, os escriptores dra- 
niaticos obedeciam a mesma exigencia que levava os 
co)nieos romanos a reproduzirem diante dos senadores 
a sociedade atheniense. gesto pela antiguidade tor- 
nàra-se urna moda, um fanatismo; o theatro era urna 
das fórmas da opulencìa. Foram estas circumstancias 
que embara^aram a manifestacào do theatro nacional. 
A Hespanha libertou-se do theatro classico pelo seu 
catholicismo e pelas tradÌ90es cavalheirescas ; a Ingla- 
terra pelo seu genio saxonio exagerado e violento. 
Portugal nào póde mais libertar-se. 

Pela exposi^ào do enredo das Comedias de Ferrei- 
ra, se conhece que ellas sào traducoOes das primeiras 
comedias da Renascen^a italiana. Eis o entrecho da 
Comedia de Bristo: Leonardo e Alexandre sào dois 
mancebos galanteadores que tem amisade, e que estào 
destinados por seus paes para easarem com as irmfls 
um do outro. Leonardo nào quer obedecer a vontade 
de seu pae, e nao estando disposto a casar com a Irma 
de Alexandre, apaixona-so por urna rapariga pobre, 



38 HISTORIA DO THEATRO POkXUGUEZ 



chamada Catnilia, qiie vive cm coinpanhia de sua mSe 
Cornelia. A primeira scena de Bristo comeQa pela coih 
fidencia de Leonardo a Alexandre, dizendo que TkÙ\ 
póde casar-lho com a irmà, porque ama Camilia. 
berto, pae de Leonardo afflige-se immensamente ao 
ber està resolugào de seu filho. Alexandre, qne a prii 
cipio procurava dissuadir o amigo dos seus amoi 
para nào desobedecer ao pae, logo qne viu Camil 
apaixona-se tambem por ella. N'isto apparece Anil 
Cavalleiro de Rhodes, typo completo de espadacliii 
qne apesar de volho j^rocnra galantear tambem a 
milia. No meio d'estas perten90es dos dois namorad( 
Leonardo e b Cavalleiro de Bhodes, anda Brutto, 
masculino da Celestina hespanhola. Anibal é acom] 
nbado sempre por Montalvào, soldado, typo de maf 
mouros, é sempre enganado por Bristo. Este al( 
to promette ao cavalleiro levar-lhe a encantadora 
milia, e em vez d'ella, leva-lhe de noite urna mnlhi 
solteira chamada Licisca para enganal-o; sào en( 
trados no caminho por Alexandre, que os poléa 
pancadas. namorado Leonardo casa com a recai 
e pobre Camilia; o pae fina-se de tristeza por nào o 
casado com a irmà de Alexandre, filha de CaIidonÌA| 
N'isto volta da India Pindaro, muito rico, com seu 
Iho Arnolfo; reconhece que sua mulher Cornelia 
comportou sempre honestamente, e approva o casamen-] 
to de sua filha com Leonardo. De pobre que era até 
Camilia, encontrou-se immediatamente rica, e paraqi 
a filha de Calidonio nào ficasse sem noivo, casa oom 



NO SECULO XVI 89 

Arnolfo, casando tambem Alexandre com a irmà de 
Leonardo. — Até aqui o enredo simples da comedìa, 
difficit de comprehender entre tantos dialogos derra- 
mados e monologos discursìvos. A come<lia é visivel- 
mente traduzida; ali se ve o anexim italiano: <i:Quan- 
ias niai»leis, mais buiras,*mais roubos, mais malicias. 
AsH diz o rifào italiano, y> typo do Cavalleiro de Rho- 
des, tambem nào podia ser inventado por Antonio Fer- 
reira; no seu tempo jà nào existiam esses Cavalleiros, 
quo se chamavam de Malta. Os nomes dos persona- 
gens tambem nao sào eommuns em Portugal: Bristo, 
Pinerfo, Caiidonio, Licisca, Cornelia, Arnolfo sào no- 
mes privati vos do theatro italiano. Apesar da difficul- 
dade da leitura da Comedia de Bristo, ella é muito su- 
perior ds for^as de iim rapaz de vinte quatro annos, e 
pela sua extensào se ve que nào podia ser ideada e es- 
eripta em poucos dias, comò o confessa Ferreira. A 
segunda Comedia que escreveu, intitula-se Cioso; a 
scena passa-se em Yeneza ; os nomes dos personagens 
accusam positivamente um originai italiano. Forcia, 
Octavio, Livia, Clareta, Ardelio, Janoto, Valerio re- 
petem-se constan temente nas comedias italianas. Eis 
o entrecho do Cioso: Jnlio é um velbo casado com urna 
menina chamada Livia; mas apesar de sua honestida- 
de, tral-a sempre fechada, dizendo que a luz do sol se 
fez para os homens, e a da candela para as mulheres; 
Livia tinha amado um manoebo portuguez chamado 
Bernardo, que viera viajar a Italia e se namorara d'el- 
la em Veneza, Apesar d'este extremo rigor o cioso 



90 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

Julio passava as noites na crapula ; para Bernardo 
poder entrar em casa do cioso, arranjou-se-lhe a elle 
iicar fora de casa urna noite com a cortezà Faustina. 
A scena de Julio recommendando a Bromia, cuvilhei- 
ra, que nào abra a porta a ninguera, nem mesmo a elle, 
é bastante engra^ada. Julio partiu para casa da disso- 
luta Faustina, e Bernardo ponce depois veiu conver- 
sar àcerca dos seus antiofos amores coni Livia. Por nmiK 
desordeni levantada em casa de Faustina, J ulio voltoli, 
para traz ; bateu a sua porta e Bromia vem a janells 
saber quem bate. Està scena é engragadissima, e ninda 
hoje de iim grande efFeito -comico. (1) Emquauto Julio 
vae d'ali queixar-se a casa do sogro, Bernardo tem en- 
sejo de sair dos bragos de Livia, e ao outro dia Julio 
regressa ao seu lar, completamente mudado de genio, 
e d'ali por diante dà a sua mullier urna liberdade ex- 
cessiva, nào menos perigosa do que a antiga aperrea- 
9ào. A comedia acaba com este desfecho alegre, e com 
o reconhecimento de Bernardo, que um velhò Aio 
Ignacio andava procurando, com seu irmao Octavio, 
que em pequeno fora roubado pelos piratas, e vendido 
em Veneza por uns francezes. typo d'este genero de 
Comedias partiu da Calandrici de Bibbiena e da Man- 
dragora de Machiavelli; Sa de Miranda mostra ter co* 
nhecido as comedias de Ariosto, quo sào a Cassaria, 
08 Supponiti escriptas na sua primeira mocidade, a Le^ 
na, o Nigromante e a Scholastiea; o typo do Dontor 

(1) Acto IV, 8c. 6. 



NO SECULO XVI 91 

Petronio, quo Sa de Miranda accusa ser de Terencio, 
jà imitado por Ariosto, e roubado por muitos autho- 
res, encontra-se na Trinuzia de Fierenzuola, o dou- 
tor Rovina, tambem imitado da Calandria de Bibbie- 
na. Na Comedia de Ciosoj a maneira das comedias ita- 
lianas, Ferreira fala nos Turcos, nos reconhecimentos 
de crian^as roubadas pelos piratas, qiie se encontraram 
homens; e na palavra cortezà, com qiie define o typo 
de Faustina, accusa um originai italiano, porque na 
nossa lingua nào tem o niesmo sentido que no francez 
courtisane ou corteggiarla, Na Comedia de Sristo fala 
nos cavalleiros de Khodes, no cérco, na tomada da ilha, 
nas fa^anhas militares, logares communs da comedia 
italiana; os typos de parasita, de valentào, de alcovitei- 
ro, de velho aio, de galanteador, nào sào da sociedade 
portugueza, monotona e taciturna, nem tambem tira- 
dos da comedia classica. Nas comedias de Ferreira nfio 
se allude a classe sacerdotal, com a graga mordente 
dos exemplares italianos, que Sa de Miranda seguia. 
N'este tempo jà a censura trabalhava, e estava em ela- 
bora^fto o tremendo Index Expurgatorio de 1559, cora 
piena ac^ào sobre Portugal e Hespanba. Ferreira te ve 
menos liberdade. As suas comedias nào exerceram in- 
flaencia directa no theatro portuguez, porqne ficararn 
nianuscriptas até ao anno de 1622, em que o impres- 
sor e livreiro Antonio Alvares as imprimiu em Lisboa. 
Ab duas comedias estavam perdidas, e longos annos 
as procurou debalde o citado livreiro. Ao cabo de mui- 
tas invest]ga90es appareceram na Livraria de Gassar 



92 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Severim de Farìa, que as prestou para se reprodnz: 
rem, sendo por este motivo a elle dedicadas. Apesn 
de seguir o gosto italiano, Ferreira procarava ciac 
sificar n sua imitagìio ou melhor traduc^do segundo a 
regrns do theatro classico. De BristOj diz elle: olA. oo* 
media é mixta, a mór parte d'ella motoria^ fandada noi 
acontecimentos do mundo, que commumente correnu 
Fara definirnios estas variedades da comedia antig% 
em cujos moldes Ferreira fundin a sua compositi 
servir-nos-hemos das palavras de um oscrìptor que yen 
sou o theatro de Terencio. 

Leonel da Costa, descreveu-nos assim a oomedii 
antiga: ccaqualidade da comedia era de tres maneirats 
Stataria^ Motoria^ e Mixta; na stataria se tratava ai 
cousas quietas e graves; na motoria de cousas turbiH 
lentas e de zombarla; e na mixta, porque participaia 
de urna e de outra, se tratava de cousas graves e juv 
tamente de zombaria; e para declaraqào da qualidadi 
da comedia se tocavam estas frautas : quando se toeaif 
va a dextra ou di reità sómente, denotava que a oomM 
dia era stataria^ iste é, grave e repousada, e quaiKloil| 
sinistra ou csquerda, mostrava que era motona^ istoi 
turbulenta e de zombaria; e quando ambas junti 
te se tocavam, mostrava que a comedia era miata^ 

Pelo oaracter que Ferreira assignou à sda 
dia, iodos os criticos se fìaram e tomarani estas 
posi^Oes corno dignas de emparelhar com as de Fiat' 
tò e de Terencio; porém a fórma mototna cu «ni^to uia 
encobre para nós a servidào em que no seculo xvi€t« 




NO SECULO XVI 93 

tavamos para com o theatro ituliano, soLrj ludo uà 
coineclia em prosa. A grande analogia qnf^ s»^ l/i «^lìtre 
enredo das Comedias do Cioso e Brinto^ oom os Fi- 
Ihalpandos e Estrangeiros^ de Sa de Miranda. •\\u) em 
1553 ainda nào estavani publicados, basta ])ai.» :r •^- 
lar a existencìa de um modèlo comnmm, que ambos 
segniram. 

A tragedia classica fez-se conhecida em Portugal, 
nmito antes do apparecimento da Castro de Ferrei ra 
poder exercer alguma influencia ; a tragedia de Aga^ 
memnon foi traduzida em portuguez no meado do se- 
culo xvr, por Anriques Ayres Victoria, com o titulo: 
Tragedia da Vinganga que foi feita sàbre a morte de EU 
Rei Agamemnon, tirada do grego em linguagem troada ; 
impressa em Lisboa em 1555, por Germào Galhard. To- 
do8 OS criticos concordam em que a tragedia classica 
renasceu por infiueucia das tragedias de Seneca, que 
se representavam nas academias litterarias e Univer- 
sidades da Europa; em Coimbra, onde Buchanan in- 
troduzira este divertimento eschoIastico,imprimiu Joào 
Barreira em 1560 a tradiicgào do Hercules Furens^ e 
ào Medea Aq Seneca. (1) Doutor Antonio Ferreira, 
l)ela sua bella traduc9ào da ode o Amor perdido de 
Anecreonte, deu prova que se inspirou directamente da 
fonte pura dos iragicos gregos. Vimos que as trage- 
dias de Seneca existiam na Livraria de D. AfFonso y; 



(1) Estas tres versOes portugiiezas do secalo xvf nnoon- 
tram-se na Bibliotheca Nacional, de Lisboa. 



94 HISTORIA DO THEATRO P0RTUGUE5 

em 1531 citava Joào de Barros a primeira e 5 
tragedia de Seneca : ' «Seneca na Tragedia qu 
nome a este logar, dizendo: Niinca mais torr 
mundo aquelle que entrou nos infernos. E por 
quem sani estes que là entram, na primeira 
disse: Certo logar tein os condemnados.)) (1' 
gedia primeira intitnla-se Hercules f arioso ^ e a 
Hypolyto^ j ustamente aquellas que Azurara cii 
nio lidas na livraria de D. AfFonso v. (2) A t 
antiga encontrava eerta sympathia entra .os ( 
catholicos, por causa da piedosa fraude dos jud 
lenistas que entre os versos de Eschylo e de So 
intercalavam hemistichios com ideias da revel; 
Jehovah e da theologia cliristà. Tertuliano ir 
lava o Prometheu de Eschylo corno urna repres 
vaga da RedempQào, em que o còro dos Oceani 
as Filhas de Jerusalem. Na sociedade seria e ] 
da dosprimeiros seculos dos tempos modernos, 
tro come^ou pela fórma tragica; a mais antiga 
xào de Christo^ attribuida a S. Gregorio Nazi; 
é formada de hemistichios da Ilecuha^ da Ai 
cha e da Medea. A Siizana e a Saìiida do Egypi 
bém antiquissimas, tém a fórma tragica. Esta^ 
nio em eh\bora9ào ; faltava o concilio da arte f 
Brunelleschi para decretare triumphodas forn 
sicas; quando se proclamou a Renascenoa, a t 



(1) Ropica, p. 177, ed. 1870. 

(2) Vici. Snpra, cap. i, p. 5. 



NO SECULO XVI 95 

grega achon eni toclos o desejo de realisar o ideal an- 
tigo. Cedo cliegou a Portugal està infliiencia. 

Vimos corno Forreira iiao leve oriijinalidade nas 
comedias quo escrcveu ; aondo a sua cultura classica se 
mostra e no genero tragicrj, em quo, prinieiro do que 
ninguem, se servi u das fórmas da poetica grega para 
celebrar os successos da socicdade moderna. E verda- 
deque Trissino, antes de Forreira, escrcvera a Sopito^ 
nisba j mas que importa, se a verdadeira invenofio da 
tragedia da llenascen^a estava em comprehender o que 
havia ainda de lieroico na vida social do mundo mo- 
derno. E a Forreira a quem compete està gloria, mui- 
to mais do que a de ter appresentado a primeira tra- 
gedia regular, no theatro europeu. (1) Causas com- 
plcxas despertaram em Ferreira a comprehensào do 
ideal antigo; primeiramente, o grande conhecimento 
da lingua grega, que fez com que nào seguisse a irai- 
tagao de Seneca, comò os outros tragicos do seculo xvi, 
ficando por esse facto muito superior a elles todos; se- 
gundo, a pratica da scena nos diverti mentos eschola- 
res, aondo se representava em latira e grego no pro- 
prio originai antigo, e em que elle talvez tomou parte 
corno actor ; por ultimo a existencia de uma lenda na- 
cional encantadora e triste, pela qual todos se apaixo- 
nam, a morte de Inez de Castro, que elle ouvia cantar 



(1) RaynouaiH, Journal dee Savanis, julho de 1824, p. 
424 ; Patiti, Eschile^ p. 161 ; Ferdinand Denis, Theatre euro- 
jpéen, 1835 ; Sismondi, Sane, etc. elogiam-no por C8te motivo. 



96 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

nos romances populares das margens de Mondegc (1) 
e que jà Garcia de Besende versificdra em mimosissi* 
mas redondilhas, bastante vulgares depois de 1516. (2) 
Quando Camòes, celebrando essa tradÌQào nas suas 
mais bellas estrophes da epopèa naeional dizia: 

Aafilhasdo Mondego^ a morte escura 
Longo tempo chorando raemoraram, etc. 

o Padre Dom Marcos do Sam Lourengo, em 1633, en- 
tendia pelas filhas do Mondego as mo^as de cantaro e as 
lavandeiras da borda do rio que choravam a morte de 
Inez de Castro, nos seus romances, do mesmo modo 
qtie se cantava em Castella quando se deu a morto de 
Alvaro de Luna. 

Este facto é iii)portantissimo, e mostra-nos corno a 
tradi(^ào é o elemento originai e fecundo do theatro* 
O assumpto de Inez de Castro^ corno a tradita© mais 
})opular da uagào portugueza, é aqnelle qae tem aldo 
mais vezes tratado pelos nossos escriptores dramaticos, 
nào por falta de outros successos, mas comò orienta- 
càoj todas as vez(3s que tentaram dar ao theatro porta- 
guez um caracter naeional. Tanto Ferreira comò Ca- 
mOes inspiraram-se directamente dos cantos populares, 
e quando em 1572 appareceram os LusiadaSy aìnda a 
tragedia Castro estava inedita, e so em 1577 é que ap- 
parecia no theatro hespanbol o roubo de Bermudez. 

(1) Juromonha, Obras de CamóeSj t. i, p. 323 a 328. — 
Vid. Canios populares do Archipelago agoriano, tì.® 69. 

(2) Cancioneiro geral^ fl. 221. — Fbresta de RomàBCet, p. 3. 



NO SECULO XVI 97 

Nào podemos entrar desassombradamente no es- 
tndo da Castro de Ferrcira, sem deixarmos por urna 
vez dìscutida a questuo da sua originalidade e priori- 
dade. 

' Tendo sido publicadas em 1598 as poesias de An- 
tonio Ferreira, e apparecendo no theatro hespanhol 
urna tragedia publicada em 1577, sobre o mesmo as- 
suinpto da morte de Inez de Castro, os espiritos sem 
crìtica proclamaram logo a celebre trage<Iia portuguo- 
za corno um plagiato da hespanhola. Assim estava 
derrocuda a prioridade do appareci mento da verdadei- 
ra tragedia classica em Portugal. Passado este pri- 
meiro assalto da novidade, os factos restabeleceram a 
verdade, restituìndo a Castro de Ferreira a sua inteira 
e verdadeira gloria. Doutor Antonio Ferreira, mor- 
reu em 1569, oito annos antes da publica^ào da trager 
dia hespanhola NUe lastimosa^ de Antonio da Silva^ 
pseudonymo de Frei Jeronymo Bermudez; seu filho 
o editor das suas obras, diz: «Estove este livro por 
espa^ do quarenta annos, assi em vida de meu paj, 
corno depois do seu faleci mento, ofTerecido por vezes a 
se imprimir, e sem se entender a causa que o impedÌ9^ 
se nUo houve effeito.x» (1) D'onde se conhece que em 
1558 jd o livro das poesias de Ferreira estava prompto 
para a impressilo, iste é, que a tragedia Castro estava 
j&, pelo menos havia 19 annos escripta antes da NUi 
de Bermudez, Este religioso, naturai da Galliza, resir 

(1) Edi9. do 1598, Dedicat. ao Principe Doni Philippe. 



98 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

diu por algum tempo em Portugal; é provavel ter aqni 
commanicado coni Ferreira, ou por entra qualquerm 
obtido o manuscripto da Castro ^ quo inodificoa e iii 
maior parte traduzia.' 'Pelo confronto das dnas trage- 
dias, a do Ferreira appresenta todas as qnalidades (h 
urna concepoào originai, e a de Bermndez resente-iB 
de urna in^ita^ào reflectìda, de uma perfei^o snsiiih 
tada emquanto tem modélo a que se encoste, corno N 
confirma na continua^.ào intitnlada i^Tt^^ laureada^x» 
diocre e imperfeitamente concebida. Para este^prooe^ 
SO: da restitui^ào da prioridade da CastrOj de Fcncaiy 
transcreveremos para aqni as palavras do sabio hesft 
nhol Martinez la Rosa, comò juiz insnspeito de patrio- 
tismo: 

«A primeira tragedia de Bermndez, ìntituIadaJKii: 
Icutimosaj versa sobre o interessante argumento deDoM 
Inez de Castro; tam bello e proprio para a scena, fiB 
em todos os tempos e na90es tem logrado merecidtf 
applausos. Dìsputa-se porém se foi o citado ancitf 
liespanhol ou o portuguez Antonio Ferreira, oqne* 
reduziu à primeira fórma dramatica; pois as trageditf 
de nm e outro se assemelham tanto, qne parece indo- 
bitavel que um d'elles se aproveitou de alheio traballio 
Mas de ambos qual seria? Direi o que me parece ioe^ 
oa d^esta questào sem engolfar-me n'ella, sempre ooia 
Ihaneza e lisnra: a Nise lastimosa impriroiu-i|oem M** 
drid em 1577, e tambem se sabe que jà estava eacrfptt 
de dois annos antes ; e a tragedia portugaeza, inti^' 
lada CastrOy nào se imprimiu senào mais de vinte id- 



NO SECULO XVI 99 

nos depoìs, em 1598; porém conio o auctor d'està ul- * 
tima tìvesse morrido multo tempo antes (em 1569) é 
evidente que autes d'essa epoca estava escripta a sua 
obra, postoque tardasse a publicar-se. Consta além 
d'isso, que o monge Bermudez, gallego de nagào, esti- 
verà aignm tempo em Portugal ; poderìa naturalmente 
ter tratado ai coni um Lumanista de tanto nome comò 
Ferreira; e ainda que pudesse disputar-se qual d'elles 
mostroa ao outro a sua composÌ9ào manuscripta, ale- 
gàndo-se em favor do hespanhol a antecipa9ào em pu* 
blical-a, devo manifestar de boa fé, que cotejando-as 
entre si, me parece se descobre na portugueza o ver- 
dadeiro originai. 

«Mas nem por isso deixa de merecer a obra de 
Bermudez que se examine com particular atteugào, jà 
pelo merito que em si encerra, jà pela epoca em que 
appareceu; indicando rapidamente, ao analjsal-a, as 
differen9as de alguma monta que so acham entre a 
tragedia hespanhola e a portugueza, pois na totalidade 
nào é mais do que um^a traducgào da outra, segundo 
me parece, feita quasi sempre com rigorosa sujei^ào^ 
e as mais das vezes com singular acerto. 

«A exposifdo (que enche a metade do acto primei- 
ro) é o que mais distingue uma da outra tragedia; na 
portugueza, expOe-se o argumento por meio de um dia- 
logo entre D. Inez e sua Ama, um tanto largo e pro- 
lixo a principio, mas cheio depois de mil bellezas, 
de affecto e de temura ; a infeliz amante mostra-se 



100 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

n^aquello dia mais alegre, e esperan^ada do que nun- 
ca; apezar dMsso doscobre-se no scn cora^ào um fundo 
de melancholia, e tambcm se desprendem involunta* 
riamente algumas lagrimas dos sens olhos. O poeta 
aproveita-se d'està situn9ào para inteirar indirectar 
mente os espectadores do amor do principe, da nnifto 
quo estrcita os dois amantes, e dòs obstacnlos que se 
oppOcm a ella. 

(lA exposifdo da tragedia de Bermndez é menos sa- 
gaz e artificiosa; verifica-se por meio de um monolo- 
go, cansado e largo em demasia, no qual o Infante se 
qneixa de sua ausencia, e dà parte aos espectadores da 
sua paixào, dos seus inconvenientes e perigos; adver- 
tìndo, que està scena com que principia o drama hes- 
pauhol & cabalmento a mesma que se acha identica no 
quinto acto da tragedia portugueza. Porque se resol- 
veria Bermudez a tao grave mudan^a? Nào ha que 
duvidar que com isso peorou a exposi^ào do drama, 
iazendo-a menos naturai e interessante; teve prova- 
velmeute'em vista um intuito louvavel, e. que multo 
abona o seu talento dramatico. Àpresentando Ferrei- 
ra o Infante em Coimbra, e trazendoo à scena no mo- 
mento em que sae Dona Inez, parece e.vtranho nunoa 
se encontraremjuntos os dois amanteSy (1) e so no acto 
terceiro teve o poeta o cuidado de alludir a ausencia 
do prìncipe (ao lamentar-se a sua amada da soledade 

(1) No Bosqu^o da Historia da Poesia e lingua porlugue'' 
za, Garrett repetiu està mesma censura: anftobaver urna scooa 
em quo so cncontrem Pcdro e Inez. .» p. 188, ed. 1867. 



NO SECULO XVI 101 

em que a dcixou) para conseguir qne (Ireste modo pa- 
reva verosirail qne se trame e se execnte a morte do 
Dona Inéz, sem que possa o seu Principe acudir-lhe. 
Forém na tragedia hespanhola o curso da ac^ào mos- 
tra-se mais naturai e facil, logo desde o principio se 
sabe que està ausente o Infante; até ao acto terceiro 
n&o apparece em scéna Dona Inez de Castro; e assim 
fie appresenta comò mais naturai que ambos se vejam, 
e que Dom Fedro nada possa fazer em seu favor; por 
isso so depois de effectuada a morte da amante é que 
regressa a Coimbra e sabe da sua desgra^a. 

«Tanto em uma comò em outra tragedia acaba o 
primeiro acto com um dialogo entro o Principe e o seu 
Secretario que irata de dissuadil-o da sua paixao, mos- 
trando-ILe todos os inconvenientes e perigos, que tor- 
nam cada vez o amante mais obstinadamente apaixo- 
nado. Yé-se pois, que desde o principio fica à ac^ào 
tramada, e come^am os espectadores a temer os resul- 
tados de uma paixdo fogosa, e rodeada de tamanhos 
riscos« 

«No còro do primeiro acto dà-se uma difierenc^a 
multo notavel entro uma e outra tragedia : na de Fer- 
reira, ha córos bellissimos, especialmente o primeiro, 
em que se celebram os bens e do9uras do amor, sa- 
guindo-se depoìs outro em quo se lamentam os seus 
males, se relatam as ruinas de imperios que ha causa- 
do, e se termina alludindo destramente a paixào do 
principe. Bermudez elliminou a primeira d'estas com- 



102 HISTORIA DO THEATRO PORTUQUEZ 

posi^des, irao sei coni quo niotivo, a nào sor porque 
julgasse que convinha meiho): a urna tragedia d'està 
elasse, reduzir-se a appresentar o Amor corno causa- 
dor de males e estragos; fosse pelo que fosse, conten- 
tou-se em tornar do seu modélo alguns pensa mentos 
ficando muito longe de egualal-o, e o que peor é, qne 
nào reparou em um escòlho que tinha diante. Na tra- 
gedia de Ferreira a ac^ào do primeiro acto passa-se 
em Coimbra; por isso parece naturai que se mostrem 
as filhas d'aquella cidade, que sào as que formam o 
còro; nào póde dtzer-se o mesmo da tragedia de Ber- 
mudez, porque n'olia nào póde admittir-se que cante 
o mesmo còro em Coimbra, onde està desde lego 
D. Tnez, e na paragoni onde no principio se apresenta 
o Infante, quo se suppOe.ausente.. 

a. . .0 primeiro còro da tragedia de Ferreira mos- 
tra mais gala poetica, mais alento e lou9ania. 

<icNo acto segiindo da I^ise lastimosa de Bermudez, 
o que ha de mais notavel, talvez em teda ella, é o cò- 
ro com que termina o segundo acto ; còro em que al- 
gumas estrophes sào inferiores &s do poeta portu- 
guez . . . 2> 

a:No acto terceiro traz Betmudez tambem o sonho 
fatai de Inez : A narra^^àp do sonho, da tragedia por- 
tugueza é tambem muito formosa, e offerece duas cir- 
cumstancias que talvez nào deverà ommittir ou variar 
o poeta castelhano. Parece-me mais poetico que D« 
Inez sonhe ter visto aquellas feras^ 



NO SECULO XVr 103 



estando so n\im bosque 
Eecuro e triste, de urna sonibra negra 
Coberto todo. . . (1) 



do qne em urna sala; e tanibem creio mui bello o ima- 
ginar qne vinha coutra ella um Icào, o qual logo se 
amansava e retrocedia (alludindo ao quo aconteceu le- 
go com o Rei,) e qiie foram depois uns lobos queades- 
peda^aram com as snas garras.» Aqni dà Martinez la 
Rosa a superioridade ao originai de Ferreira. 

cNa tragedia portugueza està manejado coni mais 
arte o final do qnarto a'cto; os conselheiros partem a 
dar a morte a D. Inez, e o Rei fica alguns momentos 
em scena, em que o còro o faz arrepender da sua re- 
solu^ào, e se lamenta dos males qne jà prevé, dizendo 
ao monarcha porque nào ouve as queixas da innocente 
e 08 choros dos seus filhinhos. Àssim, parece melhor 
preparado e mais verosimil que depois d'aquelle breve 
espa^ se supponila succedida a morte de D. Inez e se 
ou(^m as lamenta^Oes do còro. 

Do acto quinto diz : cfcNao sei porque n'este logar 
omittiu Bermudez urna circumstancia intoressante e 
poetica, que se acha no fim da relagào, na tragedia por- 
tugueza: 

Abra^ada c'os filhos a matarani, 

Quo inda ficararo tintos do scu sangue. 

(1) Ferreira, Castro, act. ni. 



104 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

«Sabida jà a morte de Dona Inez, lodo o restante 
do drama se reduz (em Bermudez) a lamenta^òes do 
Principe, as qnaes, corno era de temer, sòem cambar 
para afFectadas e declamatorias, diminaìndo a ìmpres* 
sao dolorosa causàda pelo triste successo ; porém às ?e- 
zes o poeta hespanhol ìmitou com muito acerlo a n* 
pidez e vehemencia com que Ferreira pintou formosa- 
mente em algnmas passagens o furor e desordem oom 
que se exprimem as paixOes em seu deUrio.D 

Frei Jeronymo Bermudez escreveu urna seguodi 
tragedia sobre Inez de Castro, em que trata da smot* 
roa^ào depois de morta, e da vinganga de Dom Ttàt$, 
Màrtinez la Rosa tira do modo comò a If^ise Laureak. 
està escripta, argumento para provar a originalidtdi 
de Ferreira, do mesmo modo que as Sergas de Espbt 
dian de Garci Ordonho de Montalbo, mostram que db 
era incapaz de ter escripto o Amadiz de Gcmla: 

«A segunda tragedia de Bermudez é tao inferiori 
primeira, que até'tem augmentado os motivos desuf 
peitar que realmente o poeta castelhano teve alguffl 
exemplar diante dos olhofv para urna d'ellas, e se ex* 
traviou quando para a outra Ihe faltou modelo. 

«Para cumulo de desacerto, mostron na NUe L^t 
reada um immoderado uso de galas poeticas, e até qtv 
aprimorar-se na versifica^ào variando-a sem tom nem 
som ... E corno se nho bastasse tao importuna osten* 
ta^do, ^uiz tambem agu^ar a subtileza do seu enge- 
nho, apresentando varios adornos e arrebiques frivo- 
los e pueris, conhecidos em Hespanha no secolo XT) 



NO SECULO XVI 105 

ubandonados a primeira no reinado do boui gosto, e 
entra vez restabelecidos depois quando se exageroa a 
corrnpQào e estrago : falò dos encadeados e eccos^ multo 
mais improprios e absnrdos nas composi^Oes dramati- 
cas, do quo em nenhuma outra.» (1) 

Extraetamos està sentenza imparcial de Martiuez 
la Rosa, corno decisiva e cortando para sempre a ques- 
tuo da originalidade da Castro de Ferreira, inconcus- 
sa, diante dos argumentos da chronologia. Da imita- 
lo, ou melhor, traducgào de Bermudez, se deduz a 
^ande infiuencia do theatro portuguez em Hespanha, 
aonde os Autos de Gii Yicente chegaram a ser imita- 
dos por Lope de Vega, e aonde correram ainda manu- 
scriptos, corno se deprehende da prohibigào da Tragico- 
media Amadis de .Gaula^ no Index de 1559, tendo ella 
apparecido semente muitos annos mui tarde. as- 
sumpto tragico de Inez de Castro era sympathico ao 
genio hespanhol, e outra vez o vemos tratado por Luiz 
ITellez de Quevara no seculo xvii. 

A JS^ise Lastimosaj de Jeronymo Bermudez, é a 
Castro de Ferreira, alterada levemente na disposi^ào 
dramatica, e na maior parte traduzida do verso por- 
tuguez para hespanhol. Tomemos ao acaso a abertura 
do terceiro acto, do sentidissimo monologo de Inez, e 
vejamos as liberdades que Bermudez soube tomar: 



(1) Ohrcu poeticas y litterariaa de D. Francisco Martinez 
la Bosa, t. i, p. 45 a 56, da collec. Baudry. 



106 HISTORIA DO TDEATRO PORTUGUEZ 

NuDca mas tarde para mi que agora 

£1 sol hi rio mis ojos con bus rayos : 

I sol claro y hennoso, corno alegras 

La vista que està uoche yo pcrdia ! 

I Doche escura, cuanto me duraste ! 

En miedos y en assombros me trajiste, 

Tan trìstes y cspaiitosos que creta 

Qne alli se me acababnn los amorcs, 

Alli de osta aluia triste los afectos, 

Acà emplcados. ^Y vosotros, hijos, 

Mis hijos tan henuosos, en quien veo 

Aquel divino rostro, aquelles ojos 

De vuestro caro padre, aquella boca 

Tesoro peregrino, mis amores, 

Quedabades sin mi ?.. . 

ì suofio triste, cuanto me assembraste ! 

Tiemblo aun agora, tiemblo (j Dios nos libre !) 

De tam mal suefio y de tan triste ag&ero : 

En mas dichosos hados Dios lo mude. 

Primero crecereis, amores mios, 

Que de me vèr qiie lloro estais Uorando, 

Mis hijos tan queridos, tan hermosos ; 

En vida quien os ama y teme tanto, 

l Ep muerte que hard?. . . Mas vivereis 

Y crecereis primero, y estos ojos, 

Que agora os son de lagrimas arroyos, 

Dos soles OS seran cuando con ellcs 

Os vea rutilantesy gallardos 

Correr por esscs campos dò nacisteis. 

Del ante vuestro padre, en muy lozanos 

Caballos, a porfia cual primero 

El rio passara a ver vuestra madre : 

Dos soles OS seran cuando con elles 

Os vea rutilantes e gallardos 

Causar las fieras, y mostrar tal brio 

Que amigos os adorcn, y encmigos 

De vuestro padre tìomblen. Esto vcan 

Mis ojos; vean esto, y liiego vcngan 

Por mi mis hados : aquel dia venga 

Que ya me està esperando ; en vucstros ójoe 

Hincaréyo mis ojos, hijos mios, 

Mis hijos tan queridos ; vuestra vida 

Por mia la teudré. cuando està acabe. 



\ 



NO SECULO XVI 107 

E bella està situa^ào, mas que distancia e pureza 
sentinionto separa o originai da tragedia de Fer- 
ra, escripta sob a iuspiraQào immediata. Nos versos 
panhoes eonheee-se o esfor^o da tradnc^ào; na fór- 
portugueza aeha-so a espontaneidade e liberdade 
)rimeira coneep^ào : 

NuQca mais tarde para mim, qué agora 
Ainanheceii. Oh Sol darò, e f ernioso 
Como tklegras os olhos. quc esiti noìto 
Cuidaram nSo te ver! oh iioitc triste! 
Oh noite escura, quain comprida foste ! 
Como causaste està ahna eiu sombras vSs! 
Em medos me trouxestes tacs, que cria 
Que alH se me acabava o meu amor,, 
AHi a saudade da minha alma, 
Que me ficava cà : e vós meus fìlhos, 
Meus fìlhos tam fennosos, em que cu vejo 
Aquellc rosto, e olhos do pay vosso, 
De mim fìcaveis cà desamparados. 
Oh sotiho triste que assi me assombrastc ! 
Tremo, ind^agora tremo. Deos afaste 
Do vós tam triste agouro. Deus o mude 
Em mais ditoso fado, em melhor dia. 
Crescereis vós primeiro, fillios meus, 
Que choracs de me vèr estar-vos chorando ; 
Meus fìlhos tam pequenos! ay meus fìlhos, 
Quem em rida vos ama, e temo tanto, 
Na morte que farà ? mas vivireis, 
Crescereis vós primeiro, que veja eu 
Que pisaes este campo em que nasqestes, 
Em fermosos ginetes arrayados, 
Quaes vosso pay vos guarda, com que o rio 
Passeis a nado a vèr està mAy vessa: 
Com que canseis as ieras: e os imigos 
Vos temam de tam longe, que nSo ousem 
Komear-vos semente. Entam me venham 
Buscar meus fados: venha aquelle dia 
Que me està esperando: em vossos olhos 
Ficarei eu meus fìlhos: vessa vida 
Tomarei eu por vida em minha morte. 



10« HISTORIA DO TIIEATRO PORTUGUEZ 

Este Bimples paradigma basta para se vèr por aqui 
A (lifFeren^a do originai portuguez para a tradac^o de 
Bennndez; (1) as difFeren^as do enredo, ja ficaram 
apontadoB por Marlinez la Rosa, e embora a versifica- 
Qfto de Ferreira seja menos esmerada, é mais ingenna 
e pittoresca, fala niella mais a linguagem da naturesa; 
emfim tudo accusa na Castro uma concep9ilo primor- 
dial. Muitas sfto as tragedias portuguezas sobre este 
mesmo assumpto, bem corno francezas, inglezas e al* 
lemfts ; em todas ellas falta o genio shakespeariano para 
deixar falar a natureza livre, e n&o amaneìrada pelas 
influencias academicas. 

Antonio Ferreira escreveu a sua CastrOj qnando 
muito, em 1558, corno se deprehende do Prologo da 
ediffto dos seus versos, feito por Miguel Leite Ferrei- 
ra, seu fìlho, em 1598, vivendo Ferreira aiuda onze an* 
nos depois de ter escripto a Castro. Durante os onze 
annos que Ferreira conservou na sua milo osta trage* , 
dia inedita, foi ella lida por muitos poetas, que fala- 
ram na desditosa Inez, antes de ser publicada. Be^ 
nardos, na Carta ii, ao Doutor Antonio Ferreira, iste 
iy depois de 1555, tempo em que safu da Universida- 
de, fala na tragedia Castro^ alludindo aos oórasy que 
desde lego se tornaram afamados pelos seus conceitos 
moraes : 



(1) As tragedias Nise Lastimosa e Nise Liaureada podem 
v^r^o no Tesoro del Theatro espaiiol, desde eu wrigen Aoste 
Huestros dias, por D. Egenio Ochoa, 1. 1. Baudry. Livrarìa eu- 
ropea. 



NO SECULO XVI lOU 

Ontros consellios dus na triste historia 
Da triste Dona Inez, 011 1 ras Ienibran9a8 
Di^as de fama cu, no céo de gloria. 

A impressào qne Beruardes recebcu da leitura da 
Castro foi profnnda, porque em outra occasiào louva 
Antonio Ferreira por tél-a escripto : 

Se Dona Incas do Castro presumira 
Que tinha o largo céo detenninado 
Ser o seii triste fìin tfio celebrado, 
raro «ugcnlio da tua doco lyra ; 

Inda que do mais duros golpcs vira 
C*o 8CU tdo brando peito traspassado, 
Do corpo o triste sprito dcsatado 
Ledo, d*esta baixeza se partirà. 

Alegrc-so no céo, pois qne na terra 

9eu nome por ti sera famoso, 

O qualjd lido lembrava em PortugaL 

teu cstylo fez a morte guerra, 
Oh Dona Inez ditosa : 6\^ tu ditoso, 
Que dando vida, fìcas iminortal. (1) 

Por esie soneto conhece-se que a tradi^ào dos amo- 
res de Inez de Castro estava completamente esquecida 
«ntre os poetas coltos, que nào davam ouridos aos 
caatos populares. N&o reproduzimos ociosamente o 
soneto de Bernardecr; temos em vista por meio d'elle 
provar que Ferreira vulgarisou pela leitura a sua Cas* 

(1) Soneto zciv; Flora do Lima, p. 63. 



110 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

trOj e qne por oste facto positivo se expliea o modo 
comò o moDge Frei Jeronymo Berraudez love conhe- 
cimento da tragedia, e obteve, talvez por conscnti* 
mento expresso, o traduzil-a para hespanliol. Em 1558 
morrérà Sd de Miranda, cbefe da cschola italiana om 
Portngal, e lego nos versos de Bernardes se acha a 
tendeucia do arvorar Ferreira em mestre de todos ci 
adeptos da escbola. Yindo Bermudez, tanibem poeta 
e erudito, a Portugal, nada mais coherente do que e 
querer tratar de porto o homem que occupava ent&o a 
priineira posi^ào litteraria. Ferreira respondeu a B«^ 
nardcs, com outro soneto, cheio de modestia, dignadt 
sua bella alma: 

Bernaldes, cujo sprito Apollo spira, 
Volvo teu duce verso, a mini mal dado 
Ao grondo objeito teu, etc. ' 

Inda ondo qucr quo està, cliora e suspira 
triste Infante, ao ver tao mal chorado 
Seu doce amor, etc. \l) 

Por este mesmo tempo (1558) acbava-se CatnOei 
desterrado em Mncau, escre vendo o eterno poema èa 
Luziadaa^ e rceompondo pela saudade dos seus amorei 
e pelas recorda^Oes da vida da Universidade, a \eoik 
de Inez de Castro com que formou o trecho mais aen* 
tido da poesia dos povos modernos. Ambos estes g6* 



»tr 



(1) Eflto soneto, que vem nas Flores do Lima, p. 6i,edtf 
de 1770, differo do soneto xxiy da u parte, qne vem bosPm- 
moè Luzitanos de Ferreira. 






NO SECULO XVI 111 

nios foram levados ao mesmo àssumpto por divcrsos 
meios ; um pela intai^do do sentimento nacional, o 
oQtro pela educa^fto classica quo o fez ensaiar as fór- 
mas da tragedia grega. A obra de Ferreira pertence 
k historia ; a de Camdes a humanidado. 

O Padre Antonio dos Beis considera Antonio da 
Silva, cujo pseudonjmo é Frei Jeronymo Bermudez^ 
oomo portnguez. Diz no Enihusiasmus poeticusy n.^ 37: 
cNioolaus Antonius, nescio qua ratione ductus, Aucto- 
rem huno Gallaecam facit, cum Lusitanus sit.x> Se o 
plagiario da tragedia de Ferreira era portuguez mais 
facilmente se explica o roubo. A tragedia de Ferreira 
fot representada em Coimbra^ corno se conhece pela 
edi<;&o feita em Coimbra em 1588, aonde o declara no 
frontispicio. Està edÌQào existia na Livraria de An» 
ionio Hibeiro dos Santos, passon depois para a de Mon- 
' senlior Gordo, e hoje julga-se perdida. 

Pela leitura da Castro de Ferreira conhece-se quan- 
to elle procurava imitar a tragedia grega; o caracter 
divinOj que é a essencia da tragedia antiga, ainda trans- 
fvrece nos interesses do mundo moderno. Ferreira 
frocnra fazel-o sentir na lucta entro o amor e a obe- 
diencia filial. A sombra da fatalidade empana imme- 
Rumente ocóro de alegria com que a aerilo cometa; 
elemento fundamental e originario da tragedia gre- 
^ ga 4 o dithyrambo, vehemente e lyrico, animado pelo 
r ^thusiasmo religioso; na Castro de Ferreira, os mo- 
S' ^ologoa e OS dialogos sào todos de amor, com uma ex- 
f t^ressfto ardente, apaixonada,'de um lyrismo que a so* 



112 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

para completamente da fórma que a Italia e a Fraiift 
criaram no secalo xyiii. Ferreira bem comprehendit 
que a ac^ào dramatica é simplesmcnte episodica^ 
volta d'essa expansilo hymnica do dithyrambo; épor 
isso que conta pouco, o bastante para encaminhar Io* 
gicamente a catastrophe. Para imitar o iambo trìme* 
tro com que os poetas gregos reproduziam a liDgai- 
gem simplesy Ferreira adoptou o systhema de Trissino^ 
reproduzindo a inten^ào no endecassyllabo solto, que* 
brando-o nos seus hemistychios, para imitar o vem 
trochaico tetramero usado nos grandes lances em que 
a ac9ào se precipita. Basta percorrer com os oIIk» i 
Castro j para conhecer comò Ferreira comprehendeai 
ìmportancia do Còro da tragedia grega. Sabendo-10 
que o dithyrarnbo é o elemento fundamental da fóriBi 
tragica, em volta do qual se compOe lentamente e por 
episodios a acgào, comprehende-se que o Córo^ tamben 
lyrico, se torna um elemento predominante e indispeih 
savel. Na Castro o Còro das mofas de Coimhra appan- 
ce em todos os actos, e se està tragedia tivesse de ser 
representada, era indispensavel fazer com que o C6i9 
estivcsse presente durante toda a representa^ào; li 
primeiras palavras com que abre a tragedia perteneem 
ao C&rOj mas sào ditas por Inez; é tambem assim qM 
principiam todas astragedias gregad. Como o Carcn' 
presenta a multidào que se impressiona, a opiniioge- 
ral que toma parte na coUisao de interesses egaalmeB- 
te justos que tendem a anullar-se mutuamente, é & 
for9a que esteja sempre presente; so quando precisa 



NO SECULO XVI 113 

ignorar certas situa^Oes para nào presentir ou nào se 
oppòr ao desenlace, ou quando a scena se passa em um 
legar recondito é entao que se afasta, mas de fórma 
qne possa tudo vèr e ouvir, se a logica da ac^ào o exi- 
gir. Quando no segundo acto da Castro o Kei discu- 
te corno livrar o Infante d'aquelles amores, e os Con- 
selheiros Ihe lembram que a mande matar, o Céro 
nfto intervem para solver a preplexidade; o seu espiri- 
to on sjmbolo do sentimento da multidào tinha for^a 
para impedir a catastrophe ; mas corno ella prosegue 
fatalmente, é depois de se ter decidido a morte de Inez, 
qne o Còro apparece, e no que declama, na melan- 
oholia eom que fala das cousas da vida, dà a entender 
qne pressente a desgra^a, ou soube duella j& quando 
nào era possi vel evitar-se. Todos os actos da Castro 
aeabam sempre còm um Caro. Ferreira adopta corno 
OS tragicos gregos um segundo CórOy quando a forma 
ódica é extensa e poderia tirar a ac^ào a mobilidade 
dramatica ; depois de ter declamado, (deveria ser can- 
tando) o primeiro Coro sae, sendo substituido pelo 
epiparode ou metaparode. Considerarla Ferreira està 
«egundo Córo^ corno accessorio, a que os gregos cha- 
mavam paracoregema? A maneira dos poetas gregos 
que nào tiuham metro fixo, e apenas conservavam o 
rythmo na Hnguagém que o Còro accentuava pela mu- 
sica, Ferreira tambem adopta diversos metros; elle 
comprehendeu a grande verdade, de que o Còro é uma 
Ode, e no primeiro Coro do segundo acto apresenta 
uma Ode sapbica; em outros logares, comò no primei- 



114 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

ro acto, o Còro dialoga com os personagcns no ^^^^erso 
solto, nào se prendendo a nenhuma fórma deterirs ioa- 
da da estrophe. Como no periodo primeiro da tira^ 
dia grega, os Córos da Castro tomam parto activsi' no 
decorrer das scenas, e muitas vezes sào provocado3 pe- 
la propria situa^ào ; mas Ferreira lan^a poucas vezes 
mào d'este recurso; ainda assim este dialogo do Céro 
com OS personagens póde justifìcar-se pela liberdado 
privativa do corypheu. A parade ou entrada do C6ro, 
a metastase ou saida temporaria por exigencia da acfào, 
o epirapodey ou o regresso do CórOj a aphode ou a saida 
definitiva, com o exodo^ ou o canto da retirada, sào se* 
guidos por Ferreira, no uso calcnlado qne fez d'este 
elemento essencial da tragedia classica. 

De todo este rigor seguido por Ferreira, se con- 
clue, que a Castro difficilmente poderia sor represen' 
tada, por falta de musica, por falta de um arranjo sce- 
nico comò o que se usava na Grecia, e que està mesma 
supersti^ào das fórmas classicas embara^u o dèsenvd- 
vimento do genero tragico entro nós, que nào mais se 
.nianifestou, até a infiuencia do theatro francez e das 
tragedias de Alfieri e Metastasio em Portugal no se- 

culo XVIII. 



NO SECULO XVI 115 

OAJPXOTCTZjO V 

Inflaencia do Santo-Officio no Theatro portuguez 

censura dos Hvfos no seculo xv. — Barrìeutos queima grande 
parte dos livrea do Marquez de Vilhena. — Crea9Ao do Santo 
Officio em Portugal em 1536. — Infante Doni Hcnrique 
nomeado Inquisidor-Mór. — Pe9a8 de Gii Vicente que des- 
appareceram de 1536 a 1562. — Gii Vicente condemuado no 
pnmeiro Index de Hespanha. — Em 1541 prohibe-se eni Por- 
taffal urna obra de Damilo de Goes. — Ab Constituigóes dos 
JBufpadoi, de 1536 a 1591 prohibem os Autos da Paixfio. 
Kesaarreicfio e Nascimento, ou das vigilias dos Santos. — 
A Carta Kegia de 8 de Junho de 1538 e os costumes popula- 
rea. — Influencìa do Concilio de Trento no theatro portuguez. 
— Autos populares, Comedias e Tragedias latinas prohibidas 
peloe Indices Expurgaiorios, de 1564, 1581 e 1597. — Plano 
politico do estabelecimcnto da InquÌ8Ì9fto na Peninsula. 

A censura dos livros come^ou muito cedo ein Por- 

i^ngal; el-rei Dom Dnarte, no capitulo do Leal Conse^ 

\riro: «Da guisa^ por que se deve leer per os liuros 

ijì/m evangelhos, e outros senielhautes,x> fala dos livros 

[Mpnvados. (1) No seculo xiv qnaudo a rasào humana 

e emancipava da tutella religiosa pelo grande desen- 

^^VAlvimento das Uuiversidades, a Egreja contìnuou a 

[' -ttaldii^ar o pensamento; as obras de Scoi Erigenes, 

de Abailardy de Rajraundo Lullo, de Guilherme de 

Biint Amour foram excommungadas. Na Livraria de 

d-rei Dom Duartè nào se encontra nenhum d^estes 

lUctores. N'este mesmo seculo vémos em Hespanha 

Qm facto que annunciava a sorte futura dos livros : a 

(1) Op. cit., p. 446, edif. de Paris. 



116 HISTOlllA DO THEATRO PORTUGUEZ 

rica bibliotlieca do Mnrqnez de Vilhcna, fallecido en 
1434, fui levada era dois carros para casa de Frei Lo* 
pe de Barrientos confessor de el-rei Dom Joào ir, it 
Hespaiiha, scado grande parte d'ella condemnadaàft- 
gaeirn. Barrientos era frade domiaicano, e um veréà* 
deiro preauncio do obscurantismo da sua ordem. (I) 
Nos pai/.es aonde predominava o catholicismo, ciuioo 
muito a introduzir a Imprensa. Qnando come^aramii 
controversias da Reforma, muitos livreiros foram qw 
mados vi vos ; Francisco i entendeu que o melhor modi 
de impedir a vulgarisa^ào das novas ideias, era decn* 
tar a extìncgfto da typographia. 

Em 1535 assignou Francisco i Cartas patentesoi 
que decretava a aboIÌ9ào da Imprensa, corno maio di 
' reprimir as heresias, e prohibigào completa deimpri* 
mir qualquor livro que fosse sob pena da corda. En 
impossivcl voltar às trevas, depois de feita a luz; alok 
prensa subsistin. masdominada pela censura ecclesiii' 
tica. A 23 de Maio de 1536 foi cxpedida para Porti* 
gal a bulla que creava entre nós o Santo Officio; o pn* 
zer que Dom Joìlo ni sentiu com està conoessào papil 
està nas palavras que disse ao seu embaixador em B^ 
ma, acerca do cargo do Inquisidor-mór: «Se e8teca^ 
go fora de principe secular, com mui grande gesto IM 
empregara n'elle.D (2) £m 1539, nào podendo o mo» 
narcha arvorar-sc em Inquisidor, nomeoa oneste CKtp 

(1^ Ticknor, Hìsi. de la liiier. «p., t. i, p. 380, d.»26. 
(2) Na Torre do Torabo ; citado por Herculano, uu On- 
gtnsda Inquisirlo. 



NO SECULO XVI 117 

y&a irmfto o infante Dom Hcnriqae. Estnva ftindado 
reinado das trevas; a reforma da Unìversidade, co* 
leij&da em 1537 ficou esterii, mas sobretudo o que 
HOB Boffren foi o theatro portiiguez. Em 1541 probi- 
tà o Cardeal-Inqnisidor a venda de um livro publica- 
k em Paris por Damiào de Goes. Jà n'este anno era: 
ìpM ordenado que os livros novos qne vìerem de fora 
dmeiro que se vendam sejam vistos por um officiai da 
mia inquisi^ào, eie.» (1) Depois da morte de Gii Vi- 
rate em 1536^ come9aram tambem as suas obras a ser 
ènegaidas; perden-se o Auto que em 1527 trazia en- 
re mftOB, intitulado A Caga doa Segredos^ As suas obras 
le&das, que constavam de trovas de Cancioneiro, apo- 
00 e romances populares, e que andavam em foiba vo* 
iute, tambem foram silenclosamente extinctas. Diz 
i^ìz VicentOy no ultimo livro dos Autos de seu pae: 
ìRun do quinto livro, o qual vae tao carecido d'estas 
t^ras meùdas, porque as mais das que o Autor fez 
l*4Bta calidade se perderam.]^ Carlos y inaugurou em 
L546 o Index Expurgatorijo em Hespanba; por este 
Émpo corriam manuscriptas as obras de Gii Yicente 
pv aquelle reino, porque no Index de 1559 se probi- 
Un ali o representar-se a sua tragicomedia de Amadis 
^ Gavlttj que so se imprimiu em 1562, e em foiba vo- 
^te em 1586. 

Por este excesso de ferver religioso em que cabi- 
^Ui OS doidos Carlos v, Francisco i e* Dom JoSo iir, 

(1) Carta do Cardeal a Damilo de Goes. (Ann. das Scien* 
ts e das leiras, p. 330 J 



118 HISTORIA DO THE ATRO POUTUGUEZ 

suBpenderam-se nas cortes 03 divertimentos dram a^j 
COS. Tendo Dom Joào iii mandado a Gii Vicente ^u£ 
recolhesse os seus Autos, so se explica o terem fic^^ofo 
ineditos até ao reinado de Dom Sebastiào, por est^ ac- 
cesso de fanatismo com que impianterà a Inquisi^jo, 
Gii Vicente pugnàra pelas ideias da Reforma, e en 
por isso que n'esta primcira phase do terror do Santo 
Officio nào tornou a ser lido. 

Antes de se organisarem em Portugal os Inde» 
Ea^urgatorioSj o theatro popular que come^avaa desen- 
volver-sc foi logo invadido e aniquilado pela authori- 
dade ecclesiastica. Se virmos os Begimentos da prò- 
cissào de Corpus Chnstiy conhece-se a parte especta- 
culosa de que ella constava, que eram verdadeiraà 
comedias informes; Gii Yicente representou nas Cal- 
das em 1504 o Auto de Sam Martinìio na procissào de 
Corpus. gesto d'estas representa^Oes scenioas estava 
tao arraigado nos usos papulares, que em 1538^, o Bis* 
pò do Porto nào teve remedio senào vir a um accordo 
com a Camara Municipale para consentir, que ao pa»* 
sar a procissào pela rua nova se fizesse um Auto de ci- 
ffuma historia devota^ estando todos em pé e sem bar* 
retes, diante do sacramento. Dom Joào ili tambem se 
viu for^ado a confìrmar este accòrdo por Carta regia, 
ao concelho do Porto, datada de Lisboa a 8 de Jnnhode 
1538. (1) Além das comedias privativas da procissio 

(1) Cartono da Camara de Porto, liv. i das Prov. da Gani.| 
p. 330. Apud Aragfio Morato, Memoria sobre o Theatro porhh 
guez, p. 69. 



NO SECULO XVI 119 

de Corpus Christiy existiatn outras, chamadas Autos, 
que o povo representava pelo Natal, Reis e Paschoa, e 
nas vigilas de alguns santos; sabemos da sua existen- 
cia pela sentenza ecclesiastica, que decretou a sua ex- 
tinc^Ao. O pouco que se conhece d!es8es Autos do 
Corpus Chrisii póde elucidar-se pelo que ainda resta 
dos nsos popnlares hespanhoes; n^estas festas de Toledo 
em 1551, é que o genio dramatico de Lope de Rueda 
86 manifestou. A Mogiganga tainbem acompanhava es» 
tas procissOes em Portugal, e a tarasca hespanhola, pode 
considerar-se corno equivalente da Serpe^ que pelos 
nossos Regimentos se ve quo acompanhava o Drago; a 
Dama^ representava a prostituta do Apocalypse. Ain- 
da nas Ilhas dos Agores se usam estes Autos nas po<- 
Toa^Oes ruraes, e a designando de Looj ainda tem o 
mesmo sentido de introito e a palavra passo^ signifi- 
cando scena, comò a usàra Lope de Rueda. Depoìs do 
secalo XVI estes Autos Sacramentaes receberam urna 
fórma eulta, combinaram-se com as composi^Oes inu- 
sicaes, tornaram-se aristocratas e chamaram-se Vilhatf 
dcos* Os dramas hieraticos, estavam na indole do ge- 
nio mosarabe, que nos primeiros seculos da sua exis- 
teneia tornava parte na liturgia com os coraes impo- 
nentes; d^este uso da egreja mosarabe ainda habem 
poucos annos se conservavam restos pelas aldeias do 
Minho, aonde o povo cantava nos intervallos da missa. 
Em todas as Constitui^Oes Synodaes de Portugal 
do sedilo XVI se prohibem as representagòes nas Egre- 
las, «ainda que seja em vigilia de Santos, Paixào, Res- 



120 IIISTORIA DO THBATRO POUTUGUEZ 

surrei^o oii Natal.i> Às Constituifùes do Bispado i 
LishoQy do Carcleal Infante Dom Affouso, eui 1536,* , 
Consiiluifdo de Braga^ do Infante Dom Henrique^ eq 
1537; as de Angra, de Doni Jorge de Sain Thiago (Ij 
terceiro Bispo ,d'aquoIla diocese, em synodo de i 4b 
Maio de 1559; as Comtituigdes de Lamego^ do Bisp 
Dom Manoel do Néronha em 1561; as de Mirandi^ 
de Dom Juliào d'AIva, em 1563; do Funchal, do Biir 
pò Dom Jeronymo Barreto, em 1578; do Porto^di. 
Dom Freì Marcos de Lisboa, em 1585; do Concilii 
provincial d'Evora, em 1567, titulo 4; de CoimlN% 
pelo Bispo Dom Afibnso de Castelbranco, em 159]^ 
em todas ellas se acham prohibidas as represeutjt^ 
dos Autos populares. (2) Tal era a primeira influenejl. 
do Concilio de Trento, em Portugal; quando a creap 
cbristà estava extincta, o Concilio dispensou o sentir 
mento e quiz sustentar a egreja pelo mais intoUeranlI 
dogmatismo I A definitilo dos mysterios da fé era <hr 
cidida entre gargalhadas provocadas pelas syllabadil 
dos bispos estrangeiros ; entre polemieas suscitadai 
por questOes de etiqueta e rivalidades de priinaiili 
vencia-se uni artigo da fé, pelo qual haviam deMT 
queimadas mais tardo milhares de pessoas, sé porgli 
um catarro impediu casualmente qne certos preladv 
assistissem n'esse dia & sessào do Concilio I NàolMvil 

(1) Estcve no Concilio de Trento,, por i^so pfio admirater 
trabalhado para a arÌ8tocratÌ6a9Ao da Egreja, banindo ob Autoi 
populares ; de mais era doniinicano. 

(2) Citadas na importante Memoria, de^Aragfto Monto. 



NO SECOLO XVI 121 

reiii9ft) corno poderia cleixaCr-se subsktir no christia- 
amo algnns restos de poesia? theatro popukr, qu« 
iDto propagare o sentimento religioso foi anatliema- 
Indo; à maneira qme o espirito do Concilio de Treu^ 
b h sondo oomprehendidoy as nossas Constiiuififeé don 
èkpadas feram-se tornando mais cruas; na ukima, 
k 1691, consti tue*8e a prohibi^ao absoluta dos A«to8 
topnlares, ainda que sefam hieraticos, sem restrienj^fto 
la lieenfa especiai do Ordinmio, que as outras Consti*' 
iSfóes admittiam, e que era um meio de abrandar a 
•flexibilidade canonica. A final oste espirito pharisai*- 
m de Concilio de Trento penetrou na legislag&o civil. 
B-rei Dom Sebastiào, que se divertia na sua menini» 
» eom OS Autos de Gii Yicente, apparece por m&o dea 
bniitas qne o goveroavam com urna Carta Ragia de 
Uè de Maio do 1560, mandando ao Conceiho do Porto, 
{Wb prohiba o costume popular da procissào de Corpus 
0M9ft, de se apre&eutarem as cinco ou seis mo^s da« 
klaii formosas. fiihas de ofBciaes meelianicos, que fa-f 
Ém de Santa Maria, de Santa Catheriua, de Santa 
Bhra, de Dama do Drago, e de Magdalena, bem co^ 
ÌM as dnas freiras e a ronda dos mouros que iam dia*? 
h^ndo pelo eamiulio. (1) Nao bastando estas prohi^ 
l;Oea intemas, pablìcava-se urna Carta Regia a 20 db 
^ho de 1570, para que os Bispos coadjuYassemo 
tato-Officio nas providencias quo se tinham tornado 



(1) Cartono daCamara do Porto, Liv. ii, dosPropr. Prov. 
187. Apud* Aragao Morato, Mcm., p. 70. 



122 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

para qne no reiìio nào entrassem livros de Allemanha 
-e de Franca ; revela-nos està lei nm facto bem triste, 
prohibindo a entrada de livros escriptos em portognez 
impressos fora de Portngal, prova evidente da falta de 
liberdade que pezava sobre a imprensa do seculo xvi. 
A Junta de Tbeologos, formada pelo governo heà- 
^nbol em 1586, para decidir se eram licitas as r^re- 
senta^Oes theatraes, inflnia profundainente em Portar 
gal, pelo qne se deduz dos nossos Index Expurgatorioè^ 
que atacaram de preferencia as pegas dràmaticas. No 
primeiro Index Expurgatoìio de Hespanhà, de 1559, se 
prohibem o Auto d^ Dom Duardos^ o Auto dojubiUo 
ffamaresj Auto da adbef*etifa do pdgOy Auto da vida dù 
pafOj Auio dos Phi/sicoSy. Auto de Amadia de Gaula^ ^ 
Auto de Braz Quadrddo por Vicente Alvares, Auto dir 
Dom Andrej Anto do Dia de Juizo^ Auto dos Dcnur 
CompadveSj Auto da Farga Penada, Auio dos Coftìr- 
vosy (1) o que deixa em evidencia até qne ponto o ihett- 
tro portuguez era admirado em Hespanha. D'entro ot 
nossos poetas comicos do seculo xvi, que desapparecé- 
ram por causa da terrivel censura do Santo-Offieio, 
resta o nome de Francisco Luiz, auctor do Auto de Gii 
MtpadOy ou de Dom Bernardini, do qual viu Barbosi 
Màchado nma edi^ào de Lisboa, por Antonio Alvares^ 
de 1631; os numerosos Autos que escreveu, ficanun 
perdidos. 



(1) Ferreira Gordo, Memorias de LitUratUra da Acmie^ 
mia, t. Ili, p. 23, not. 



NO SECULO XVI 123 

Na ultima metade do seciilo xvi tivemos tambem 
tres Indices Ea^urgatoinoa^ para completar a obra de 
morte come^ada em Hespanha; foram publicados em 
1564, em 1581 e em 1597. No primeiro vémos con- 
demnadas as comedias italianas da Benascen^a, as tra- 
gedias latinas tiradas da letra da Escriptura, que pre- 
oederam o apparecimento da tragedia classica, e tam- 
bem ali vem prohibida a leitnra da Ulyssipo de Jorgo 
Fèrreira de Vasconcellos. segnudo Index recrudes- 
ce, jà se nào contenta com enumerar os titulos das co* 
medias, lan^a uma proscrip^ào absoluta sobre todas as 
comedias, tragedias, far^as e Autos, em que entrem 
por fignras pessoas ecclesiasticas^ prohibe-se tambem 
a celebro tragedia latina intitulada Suzana^ composta 
no tempo de Augusto por Nicolau de Damasco; (1) 
tambem dà a entender que as comedias latinas de Bcu- 
cUin, representadas nas Universidades da AUemanha, 
foram conhecidas em Fortugal. (2) Nào se abrevendo 
a atacar ainda as Obras de Gii Yicente, impressas em 
1562, contenta-se no emtanto com mandar riscar o 
prologo, escripto por Luiz Vicente, filho do venerando 
poeta. Porque motivo cometaria a censura jesuitica pe- 
la condemna^ào do breve e inoffensivo prologo? Por- 
que ai se dizia, que aos cito annos de edade, el-rei Dom 
Sebastiào gostava de ouvir representados os Autos do 
velho Gii Vicente. Os Jesuitas, ao cargo de quem es- 

(1) Patiti, Hiètoire generale de la tragedie grecque, p. 169 ; 
Cf. Nic. Damasc, De Vita sua^ e nos seus excerptos. 

(2) Vid. supra, p. 16. 



124 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

lava a educatilo do monarchn, nào qnizeram que sedi- 
vulgasse este facto. Na dedicatoria, Liiiz Vìcente di- 
zia que, para comprazer coin aquelle gosto do monar- 
cba, tomara às suas costas o apurar e impriinir as Ohm 
de seu pae. Em 1581 decretaram os Jesuìtas: «Dti 
obras de Gii Yiccnte, quo andam juntas em um corpo, 
se hade inscar o prologo, a té que se provoja na emenda 
dos seus Autos, etc» 

Mais atroz se mostrou este Index contra os vende* 
dores: de Autos^ que entào se imprimiam usualmente ea 
foiba volante, mandando que os soUicitadores de Santi* j 
Officio andassem ao varejo dos livros pelas feiras. IVt 
bibia*se tambem o ter livros manuscriptos, o obri/jaTa 
com grandes penas aos possuidores de qnaesquer livmì 
a il*os apresentar à censura, a firn de Ihes cortar aqnel* 
las partes suspeitas ou que podiam induzir em heresii. 
Vimos as ricas bibliotbecas portuguezas do secolo UT 
e XV, quando o pre^o dos livros so podia ser pago por 
potentados e monarebas; (1) no seculo xvi o vandalis- 
mo do dominicano Barrientos commumcou-se a Por- 
tugal. Dos setecentos e tantos volumes a que aimpren* 
sa portugueza d'cste seculo deu publicidade, uns seift* 
centos sao unicamente detbeologia; dos restautes, irci 
partes sào de litteratura e urna de sciencia. 

No Tndex de 1597 jà pouco bavia que condcmntr 
na litteratura portugueza; probibiu-se algumas come- 



(1) Introduccao à Hiatoria da Litteratura portuguexa,^ 
203a2G2. /- y , r- 



NO SECULO XVI 125 

dias e tragedias latinas, porque os jesuitas queriam fa- 
zer monopolio d'este seu divertimento escholar, i>er- 
mittido pela Ratio Studiorum. Nào falamos da poesia 
firanceza tambem condemnada pelos tres Ihdices^ por* 
que nào importa a nosso questào; de passagem lem- 
bramos a Gesta Romanarum^ Ogicr le Danois, os Lol- 
laird8y as Epistolae OOseurorum virorinrij os Livros do 
Cavalleiro de Hutten, os Colloqmos de Erasmo, Marot, 
o Cymbalum Mondi, de Bonaventure des Perriers, e ou- 
tros que traziam para Portugal a selva da edade me- 
dia e da Benascen^a, que ai se achani auathematisa- 
dos. (1) 

1.^ Éis OS Autos e Comedias prohibidas pelo Rol dos 
livros que n^este Reyno se prohibem per o Serenissimo 
Cardeal Iffante, Inquisidor geral n^estes Reynos e se- 
nliorios de Portugal, Impresso em Lixboa, per Fran' 
cisco Correa. Anno de i564, no mez de Outubro: 

Comedia chamada Orfea^ 

Os doze ajuntamentos dos Apostolos. 

Comedia chamada Tesorina. 

D » Tidea. 

Comedice et Tragedim ex Viteri Testamento. 
Comedia chamada Jacinta, 

D » Aguillena. 



(1) Index de 1597, fl. 29, 49, 58, Index de 1664, fl. 20, 
^3, 17. 



126 HISTORIA DO THBATRO PORTUGUKZ 

Ecloga trovada, na qnal se introdozein dois namo- 
rados Placido e Victoria. 

Far^a chamada Custodia Josephina. 

Far^a dos Namorados. 

JPropaladiaj feita por Bertholameu Torres Naharro. j 

Resurreigào da Celestina* 

Thesouro de Aiitos Esjìanhoes. 

UlyssipOj nam se lerà sem licen^ de quem tiver o 
carrego dos livros. 



2.^ No Catalogo dos livros qtie seprohibém n^esies Iter/' 
nos e Senliorios de Portugal^ por mandado do lUut' 
Unssimo e Reverendissimo Senhor D. Jorge d*Almei' 
daj Impresso em Lisboa, por Antonio lUbeirOy em 
1581, tambem se acham: 



Afuntamentos dos ApostoloSj fl. 17. 
CateHna de Genua, 

Celestinasy assi a de Calisto e Malibea, oomo a Ri- 
surf*eifdOj ou segunda Comedia, etc. 
Comedia la Sancta. 
Colloquio de damas. 
Comedia da TliesoHna^^. 18. 

3> Tidea. 

D Jacinta. 

l> Aquilana. 

ì> Josephina. 

J> Orphea. 



NO SECULO XVI 127 

^ComediaSj Tragedias, Far^aj», Auiosj onde entram 
poi- figuras pessoits Ecclesiasticns, e se representa al- 
cuni sacrauiento, ,ou acto sacramentaly ou se reprende 
e prngueja das pessoas que frequentam os sacramentos 
e OS templos. ou se faz ìnjaria a algunia ordem ou es- 
tado aprovado pela egreja.D 

Dialogo onde fala Lactancio e bum Arcediago^ so- 
bre o que aconteceu em Boma no anno do 1527. 

Dialogos da tinido da alma com Deos^ em qualquer 
lingua, fol. 18, v. 

Eufronna^ fl, 18. 

cDas Obraz de Gii Vicente, que andam juntas em 
mn corpo, se bade riscar o prologo, aie que so proveja 
aa emenda dos seus Autos, que tem necessidade de 
muita censura e reforma^ào.D fl. 21. 

Propaladiay de Bartholomeu Torres Naharro, fl. 22. 

Thesouro de Actos Hespanhoes, fl. 22, v, 

UlyssipOy fl. 23. 

Nas Lembran9as para a reforma^ào dos Livros^ 

§ Yllly se le: «Os vendedores de Autos e Cartilhas 

n&Q vendaui, nem comprem para vender outros livros, 

Sem primeiro os mostrarem ao Bevedor: porque algu- 

mas pessoas Ihes vendem escondidamente alguns li- 

vrosfy que elles compram e vendem, sem saber o que 

lia nos iaes livros, e se seguem dMsso alguns incon- ; 

venientes. E ha enforma^ào, que nas taes tendas se. 

acham livros sospectos e prejudiciaes. E os soUicita- 

dores do Santo Oflicio visitarào algumas vezes os ditos 

lu^res e far^o saber ao Bevedor os livros que ali se 



128 HISTORIA DQ THEATRO PORTUGUEZ 

rendem. mesmo se fari nos livros qne se venden 
nas feira8.3f> Id., fi. 41, v. 

Comoedia Tragica StisanncBj vel cum nomine an- 
thoris, ve] sine nomine, fol. 12, v. 

Comcedia Joanis Benchlin Phorcensis. 

3.® ^o Index Librorum prohibitorum^ Olyasipone Ì597j 
prohibem-se: 

Comcedice et Tragedice aliquot ex Veteri Testametdo, 
coUectore Joane Operino, fl. 13. 

Traffosdiaj de libero arbitrio ^ fl. 70, (Edi^. de 1564, 
fol. 42, V.) 

Comcedice super qnestionem : Qnse est maior con* 
solatio morienti, eie. {Ind. de 1634, fol. 19.) 

Por urna pia fraude a Inquisi^ào lavrava em Por- 
tugal. A jurisdi^ao dos Bispos estava completamente 
annnllada; o arcebispo de Toledo, Carranza, vergava 
diante da prepotencia do inqnisidor goral Valdes; Pau- 
lo rv, em urna bulla de fevereiro de 1558, antborisava 
a Inquisi<^ào a citar para diante do seu tribunal toda 6 
qualquer pessoa suspeita de heresia, fosse bispo, arce- 
bispo, principe, rei on imperador. Foi facil ao dero 
apossar-se do espirito credulo e supersticioso de Don 
Jofto III; a sua grande incapacidade e ignorancia fise* 
ram-no cabir mais promptamente na réde quo Ihe a^ 
maram à consciencia. Tornoti->se um instrumento na 
mfto do clero; era d'està classe que Luiz Yives dizìa: 



NO SECULO xVl 129 

<Nào faltam no nosso tempo vis parasitas e insignes 
mexerìqueiros, cujas assucaradas lisonjas fomentam 
enormidades.D Isto que &e applicava a corte de Hes- 
panlia com mais extensào exprimia o estado de ÌPortu* 
gal. A reac^ao centra as idéias da Keforma tornara-se 
plano polìtico de Carlos v e de Philippe il; foi està 
mesma direc<^ào que tpmou em Fortugal. cenobita 
de Sani Justo e o Demonio do Meio Dia annuUaram 
para sempre a Hespanha, comò o clero portugnez, ser- 
vindo-se de Dom Joào iii, Dom Henrique e Dom Se- 
bastiào, assignaram a decadencia de PortugaL Por 
firn a immensidade das confiscagOes ia comprometten- 
do o ferver religioso dos AtUos de fé; convinha porém 
Bào parar, nào dar tempo a reflectir. Era preciso no 
meii» da grande reforma social que se passava na Euro- 
pa, aproveitar este movimento religioso para center o 
povo no velho dominio. Fra Paolo Sarpi, na Historia 
do Concilio de Trento j revela està idea terrivel : <ique 
as ésecussOes successivas que se praticaram eiii Hes- 
pahha tiveram por firn manter no reino a tranquillida- 
de que entào por teda a parte era perturbada.:!> Em 
Portugal, aonde nunca existiu plano politico, o genio 
aventureiro do povo jd nào tinha as expedi^Oes mari- 
timas das descobertas e conquistas; era preciso gastar 
està immensa selva de vida que trasbordava, para ella 
creou o Santo-Officio a fogueira e a censura, e para 
as riqnezas que tinbamos trazido do Oriente a pena 
attenuada na confisca^ào de bens. Foi urna sàngria 
que tornou este povo recente e robusto em um valetu- 



\ 



130 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



dinafio, Inctando vagarosamente coin a anemia que o 
extìngiiira. 

À Reforma religiosa fora um resultado das mesmas 
cansas qne motivaram a Renascen^Iitteraria; osem- 
ditos e artistas tentaram coni a tcnacrdade do trabalho 
e com a altivez do genio retemperar a alma humana 
nas fontcs da natureza ; a religìAo tinha tambeni de ser 
aimplifieada segando a norma do Evangelho,despindo-à 
de todas as praticas supersticiosas e eerimoliias com 
qne o papado a corromperà para melhor servir a in- 
tent^ào dos seus interesses. À Beforma nxmca teve di- 
rec^ào politica; e era o quo mais Ihe imputavam. Nfto 
era difiicil combatel-a e tornal-a odiosa entro povos 
em quem prevalecia a imagina^àp, que nào podiam 
compréhender a verdade do Evangelho sem a mages- 
tade das Catliedraes, seni a ix>mpa sumptuosa do cui* 
to, sem o deslumbramento dos brocados e pedrarias, 
sem as cohortes de nionges e tonsurados que entào co- 
rno soldados da fé sustcntavam a ferro a sua immobili- 
dade, corno os exercitos permane ntes, creados pelas 
monarchias coustituidas juravam a iutegridade do ter- 
ritorio. Em Portu orai as ideias da Reforma nào se tor- 
nàram populares; eriim abstraetas do mais, ])ara tim 
povo de poetas; os que as abra^aram erain pobres ho- 
mens de genio, para quem o dom da intui^ao da ver- 
dade foi uma desgra^a. 

Gii Vicente calou-se quando as BuUas do estabe- 
lecimento da Inquisitalo c]iegai*am a Portugal ; o nome 
do Auio^ que elle dava as suas comedias democraticas 



NO SECULO XVI 131 

em qne proclamara a liberdade da rasào, iìcoa perten- 

cendo às fogueiras do Santo-Officio, as scenas de Wal- 

pnrgis do catholicismo, aos Autos de Fé. Apesar d'es- 

tes tres Index de 1564, 1581 e 1597, o Beportorìo do 

theatro portngucz no seculo xvi e immenso; havia 

urna vida que Gustava a extingnir. Em breve se levan- 

tara o Tolumoso e tremendo Index de 1624 forjado pe- 

kw Jesnitas no Collegio de Santo Antao, «m Lisboa. 

Bem ras&o tinha o Doutor Antonio Ferreira quando 

escrevia : 



Escuro e triste foi aquelle dia 

Que ao saber e engenho uiu juiz foi dado, 

Que Dunca ao claro sol olhos abria. (1) 



(1) Potmas luiitanoSj t. ii, p. 112. 



V 



TBKATBtf ^0 SEOILO XVII 



O tbeatro portugucz no seculo xvii e xviii, apre* 
ffkU^ itixìda urna fei^io originai, encoberta pela efflo* 
IHioeiicia parasita do theatro cIcls^ìco^ ndoptado e dos^ 
nvolvido pelas ordens religiosas, principalaienie os 
udres da Companbia de Jesus, e pelo theatro italiatìo 
/rancez introdazido na córte musical de D. Joào IV, 
r)« José. 

]B[.Ì8toriar o theatro dos Jesuitas, é vestir com phra- 
ìf^ 9tfl fnaa allegorias, que elles usavam na canonisa^&o 
W. aeiis Santo», corno na de Sam Francisco Xavier, 

• ♦ • » ■ ■ 

^ na entrada dos reis invasores, corno nà tragicome^ 
ila repi'eaentada na, entrhda de Philippe ii, ounas fes^ 
(9 lUurgioaSi corno a Angola triumphantej e o Sed&^ 
(!«• Falsoe no seu principio religioso^ os Jesuitas nào 



134 niSTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

conheceram que ao tocar na Arca santa da Arte se Hh 
secavam as màos. seu theatro està mnito abaixo à$ 
sua Arebitectura ; està tem a grandeza inerte, aqaetie 
tem a pequeneza eniphatica, que em vào tenta co* 
brir a falta de ideal. De passagcm trntaremos d'esii 
causa de decacleneia, nào por que ai se descnbra algn- 
ma fei^ào do theatro nacional, mas simplesmente peh 
sua influencia deleteria. 

A introduc<jào da Opera-ballet no tempo de 
Joào IV, e a protec^o de Pombftl ao theatro Iyrì( 
nada mais nos mostra do que um dispendio e esbanji 
mento fabuloso das rendas extorquidas às colonias 
aos pobres mosarabes^ as intrigas òbscenas d|[i. fidai; 
em volta das actrizes estrangeiras, comò a Gami 
e a Zamperini, o espectaculo nojoso dos castrati e 
padres portuguezes secuudando a aristocraciil eoi 
ta, e um ministro argucioso governando a sen talai 
em quanto distrahia com estas pompas mentidas o 
pirite publico, e mais ainda a atten^ào do moni 
que abdicara n^ellc a sua personalidade. N'esta phi 
nada tambem se en centra de nacional no theatro, ei 
póde ser tratada accidentalmente. 

Porém no meio d^estas duas correntes estei 
doras, era tao forte a seiva do theatro portuguez, 
apesar do privilegio exclusivo do Hospital de TodoB d 
Santos, ainda elle apresentou uma fei^ào verdadeiia* 
mente nacional. Sobem a centenas as comedias aa^ 
nymas de cordel, qùe se represeotaram no theatro por* 
tuguez do seculo xviii; em todas. ha typos nossos,! 



NO SECULO XVII 135 

;ra9a inteiramente popular, por ellas se explica a for- 
Da9fto do genio comico de Antonio José. Em todas 
Mas oomedias ba urna pincelada portugueza, era que 
espirito popular condemna a causa da nossa deca- 
^BQcia; é essa qneixa o centro n roda do qual se agru- 
^m todas as peripecias, o motivo que accra todos os 
^steSy a unidade completa da nossa inven^ào drama- 
Qual é pois essa caracteristica, esse typo t&o pro- 
iciado^ que ainda até hoje nào foi descoberto pelos 
tasoB homens de letras? A traditilo do theatro por- 
llgaez iral-o dosde Gii Yicente, esbo9ado jà na Far9a 
PDS Almocreves e na Far^a de Quem tem farellosì do 
^Ualgo apprendiz de Dom Francisco Manoel de Mei* 
ky até ds facecias de José Daniel, e dos auctores ano- 
^inos do corpo da baixa comedia portugueza. Desde 
wdeoadenda de Portugal^comegada no reinado de Dom 
Ivioelf fòmos ficando uma na<^(io estacionaria, viven* 
■I unicamente das tradÌ90es de um passado glorioso ; 
H^TÌda particular foi a conformar-se insensivelmente 
pn òste achaque nacional, e o portuguéz ficou sendo 
|aiioarna9ftò mais completa do fidalgo pobre* E oste o 
^po das nóssas oomedias, é està a feÌ9ào nacional que 
L^ea'tro descobriu e tentou corrigir; a nossa historia 
mik Ha biographia dramatica d'esto grande typo. 



136 HISTORIA DO THEATRO PORTUQUEZ 



Paleo das Arcas (1613-1755) 

incendio do Pateo das Arcas, em 1697. — A conopaiihia b( 
panhola de fiscainilha, contratada pelo Hospital deTodoa o^^ 
Santos. — Os Frades do Carmo sustentam a pósae abusivf d-^B 
quatorze camarotes no Pateo das Arcas, — Descrip^fto conv — 
pietà d'estc Pateo, tirada d% urna escrìptura de 1707, pox" 
onde se Té o qua era eni 1672. — A Companhia de CoioediauBr 
de José Ferreira. — Excursus no seculo xviu para acoropa- 
nhar a historia do Pateo das Arcas. — A Provisfio de 15 de 
Setembro, de 1738. — Carta Regia de 28 de Janeiro de 1743. 
— Carta Regia de 20 de Novembro de 1759. — ^No seculo r?n 
a censura dramatica passa da Rela^So para as Camaras muni- 
oipacs, por Portaria de 25 de Janeiro de 1626. — O theatio 
popular dos Bonifrates. — Causas de decadencia do tbeatio 
nacional, pela infiucncia exclusiva do tbeatro bespanbol, e 
da Opera italiana. 

A Historia do theatro portuguez no seculo xvil està 
occupada quasi totalmente pelo Pateo das Arcoé. (1) 
Depois do incendio de 1697 ou 1698, t^ido j& passa- 
do a administra^ào d'este Pateo das màos de Latorre 
para as de Antonio da Silva e Scusa, e depois de t^ 
experimentado certa decadencia na affluencia dos espe- 
ctadores, ou por falta de companliia dramatica, on por 
falta de reportorio, ou melhor pela malevolencia dos 
visinhos, declarada no fogo posto, o Pateo das Ar- 
cas foi comprado e restaurado pelo Hospital de Todos 
OS Santos. No seculo xvii, passara o theatro, antes de 



(1) Continua o cnp. xin do liv. li, do t. i da Historia do 
Theatro j)ortnguez. 



NO SECULO XVII 137 

nrtenoer ao Hospital-, para a administra^do de Dona 
aiharìna do CarvajaI; n&o pagava ao Hospital duas 
«rtes das oinoo do prodacto, corno se estabelecera na 
■erìptura de 9 de Maio de 1591; agora paga das cin- 
^ tres partes, ficando apenas duas para o emprezario, 
seoonfirmàra por Àlvarà de 24 de Abril de 1613. 
OS oitenta e cince annos, o Fateo das Arcas caia 
ridiias por causa do incendio que Ihe puzeram 
Tisinhos indignados centra os espectacnlos profa- 
A profiss&o dramatica era aiuda julgada urna das 
infamantes e despresiveis; apesar do theatro es- 
a m&o de emprezarios, parece que o Hospital de 
OS Santos tinha ingerencia directa na sua admi- 
ittnuflOy por isso, que em 1672, vinte seis antes de 
omprar o locai do theatro e de reediiìcal-o, com o firn 
\tt' a/reffuesar o paleo e dispor melhor as vontades dos 
fimntesj tentou a todo o custo trazer a Lisboa a com- 
de Eécamilha, que, segundo a linguagem tex« 
do tempo era €a tneUior das que asSisteìn na córte de 
hfiairiili^D^aqai se ve que nào se procurava acreditar 
^PaUo das Arcoij com qualqiier companhia ambulan* 
^ e que se pretendia chamar a Portugal a prìmeira 
IMpanbia de Madrid, aonde floresciam os grandes poe- 
Ili dramatieos do seculo xvii; além d'isso infere-so 
lliqui oatro corollario: que nào tinhamos actores na- 
Amaes, ou que se os tinhamos eram t&o rudes e sem 
■eliola, de modo que ndo agradavam ao publico. Està 
diiiDa hjpothese é a que prevalece, por isso que a 
diamos jnstifioada n&o so pelo stigma de infamia qua» 



r 



\ 



138 HISTORIA DO TUEATSO POBTUGUEZ 

pesava sobre està classe, corno tambem pelo misero es- 
tado eoi que se acliavam os nossos actores até i io- 
stitai^ào do Conservatorio dramatico. O Hospital de 
Todos OS Santos mandoa contractar a companfaia de 
Escamillia por tres mil cruzados de avan^ ; d'onde 
infere que talvez Ihe daria algoma parte no prodooto.»' 
das represenia^Oes. A companhia de EèCcamUia aio 
entrou em accordo, porqne exigia urna maior qnanik^ 
Este contracto com Escamiìhaj prova-nos qae o 
pital tentava um ultimo esfort^ para obter rem 
tos on evitar as perdas que Ihe resnltavam do 
das Arcas. Quatro annos antes, em 1668, jà o H< 
tal recorrera pela primeira vez ao merito das coni|i^ 
nliias hespanholas, por isso quenos documentosdo 
chivo do Hospital de Sam José, consta €que a 
companhia hespanhola riera a Lisboa no armo de i6$S} 
Além de todos estcs embara^os em que se vii ej 
Hospital de Todos os Santos com a administraQào <b 
Paleo das Arcai , accresceram tambem os pleitogouaì 
OS Frades do Carme, que, durante treze annosdÌ8fine*| 
tavam gratuita e abusivamente quatorze camsfotoi|l 
sem que depois ailegassem fundamento algum. 8efli^| 
talvez a pretexto de velar pela moral publica! Mì^\ 
todas taes desgra9a8, veiu o incendio de 1697. Fir 
este facto se ve que o Hospital nào era proprietario do 
Paleo das Arcas j por isso que depois do incendo 
compràra e o reedifìcara, comò se ve por este treeho: 
ce vindo a queimar-se no incendio que kouve n'aqad* 
le sitio, compràra o Hospital o chào e direito do mei- 



NO SECUIiO XVII 139 

ìo Pateo^ e o reedifìcdra de novo, com grande dispen- 
iio e desembolso, e n'elle se representaram depoig co- 
nedias por autboridade do mesmo Hospital.]) (1) Ao 
terreno primitivo, jiintou o Hospital o de varios pre- 
iioa contiguos, talvez os dos visiuhos malévolos, para 
% nova edificalo. grande dispendio e descembolso jus' 
iifica-se com a 'descrip9ào que d'elle nos resta em um 
.documento de 24 de Maio de 1707: ocEstà este Pateo 
'jh$ eomedÌQ9 entro a rua das Arcas, que é a que vae 

40 Bòcio pela rua da Praga, da Falba para Sam Nico- 
kn, fica na entrada d'ella & parte esquerda, e entro o 
Imco das Comedia e o de Lopo Infante, o qual fica in- 
ksrior ao dito beoco das Còmedias, som embargo de 
tVie para abi tem porta, corno tambem no de Lopo In- 
bntO) e a dita rua das Arcas vem fazer fronte, tudo 
n Fregùezia do Santa Justa, o qual antigamente ti- 
Oha óntra fórma antes do incendio. . . 

^ cE dentro d'està medigào, confrontagOes e declara- 
$068, no interior d'ella està o pateo em que se repre- 
90ntam as comedias, o qual està em fórma de urna moia 
ilaranja, com tablado a parte do norte encostado à ca- 
rila da dita Dona Juliaua, fazendo fronte ao Sul, d'òn- 

41 tem porta por onde se entra para elle, corno tam- 
ìIMPi tem porta à face do dito becco das comedias, por. 
inde entram tpdas as pessoas que as vào ver, cnjo ar 
diceste entrada. . . està fundado sobre vinte varòes de 
tevOy 08 qoaes armam em cima de ura parapeito, que 

É 
■ f 

(1) Fioviiao de 15 de Setembro de 1738. 



140 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

corre todo em roda do pateo^ lageado por cima o dit4 
parapeito de pedra, onde estào assentados ob ditos va* 
rOeS} o qual parapeito serve as for^uras (fVisas) de an« 
teparo, que sào dezoito^ e estas todasem roda temser 
ventia pelas costas coni portas para um corredor por 
onde entrain para ellas^ o qual fica ao nivel do dito pa- 
teo por baixo do sobrado, que serve de assentos. 

<iE sobre estes ditos van>es vào ontros' vìnte tam* 
bem em roda e na mesma direitura dos outros, de em* 
te que ficam uns sobre outros no primeiro andar de m* 
brados^ que serve de assentos às pessoas que v&o vk 
as comedias, os quaes varOes sustentam o primeiro ao* 
dar dos camarotes que ficam sobre os ditos assento»,» 
n^este sobredito primeiro andar em cada urna das ilhu^ 
gas no fim dos ditos assentos ha alguns camarotes, % 
saber : da parte do nascente a mìlo direita quando e>* 
tram no dito pateOj quatro camarotes para borbeni) 
que ficam sobre o tablado, e sobre o mesrao tablado,da 
outra parte do poente a mào esqueida, tambem no fin 
do andar dos ditos assentos, estào tres camarotes qoe 
sorvem para senhoras. 

«E sobre este dito andar de assentos, ha o 1.^ an* 
dar de camarotes, que cérca todo o pateo eoi rodi, 
onde ha vinte e um camarotes, com declara^fto qw 
dois d'estes que ficam a parte do nascente quando O* 
tram no patéo^ a muo direita, um em cima do tabhd» 
e entro fora d'elle, ambos juntos sfto do Marqnei <k 
Cascaes, por contracto que fez com a Misericordia; ^ 
n'este primeiro andar de camarotes corre urna varaiida 



NO 8ECUL0 XVII 141 

ao nivel d^elles, sobre o tablado, fazeiulo fronte a rlita 
porta por onde se entra para opateoj que fica ao sul. • • 
para ctijo andar de camarotes se servem por as costas 
dTelles, por nm oorredor que o cérca em roda^ para 
onde tem trez portas. 

cEm cima d'este 1.^ andar de camarotes ha outro, 
qua tambem tem vinte e um, onde entra um que fica 
4 parte do poente, quando entram a mao esquerda, o 
^I se nfto aluga por ser do Hospital e servir para os 
fidalgos da caza da fazenda d'elle, e n'este andar ha 
altra varanda em cima d'outra, que està no 1.^ andar 
• na mesma fórma . • • 

cE n'esta parede em roda, que corre pelas costas 
Ani ditoB camarotes, ao nivel do chilo para a parte do 
ani esti a porta por onde se entra para o dito pateo^ 
^■e faz frente ao dito tablado, e outra por onde entram 
ftra OS assentos, e outra que entra para as for^uras, 
^pe fica ao poente da parte esquerda. 

cTem o sobredito pateo as suas entradas, a saber: 
ima porta està para o becco das Comedias a parte do 
ad; fazendo frente ao mesmo becco; e duas portas 
pira a rua das Arcas, urna que serve de entrada para 
^ camarotes dns forguras e tablado, e camarotes das 
^horas, e outra que tambem serve do entrada dos ca- 
^rotes e commuuica9&o do pateo, a qual porta faz um 
^^^redor na entrada, que sào a um patim descoberto, 
^ qnal se sobe por uma escada de pedra. • . 

«Tem do norte para sul, principiando da parede 
^^^e està nas costas da vistoria até à porta por onde 



142 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

se entra para os assentos e for9uras, pelo meio S4 ?&• 
ras e meia; e de nascente parapoente, pelo meio^ 
ernz, tem 15 varas e quarta. Està é a medialo do 
comprimento e largura do Paleo, em que se represen* 
tam as Comedìas, entrando niella as confronta^òeejj 
declaradas do pateo, o qual é pìntado, com sens ca{H" 
teis de madeira sobre os ditos pìlares e varOes deferro, 
mostrando serem de pedra fingida.» O snr. Nogo^ 
extraetou de escripturas conservadas no Arehivo do 
Hospital de Sam José, estes preoiosos documeatoiy 
que nos mostram inteiro o admiravel theatrodoA* 
tea das Arcas, que jà existia no secalo xvi, que se dii' 
tinguiu no seculo xvii, e que no secnlo xviil, até io 
torri vel terremòto de 1755, foi o primeiro, o maior,<^ 
mais elegante e rendoso theatro de Lisboa. (1) 

Nào termina aiuda a historia do theatro do Pai» 
das Arcas. Deixamos transcripta a minuciosa e su- 
thentica descripQào de 24 de Maio de 1707; o seu reo* 
dimento era considera vel, por isso que desde 25 de 
Agosto de 1711 até 9 de Fevereiro de 1712, rendeu: 
4:284$090 reis, parece, que està fórma esplendida in- 
fluiria algum tanto sobre a imagina9ào do povo; em 
1716, a 17 de Maio, achamos contractado José Fff' 
reira e mais companhia das comediasy para darem tf 
suas representa^Oes no dito Paleo. E a contar d*e«te 
periodo que apparece essa riquissima e incalcnl»v«I 

(1) Estas notas foram cxtrahidas das escripturas gaardi- 
das no Hospital de Sam José, sendo o respeìtavel archeologo 
coadjuvftdo pelo paleographo e cartorarìo d*aqudla casa. 



NO SECULO XVII 143 

■produc^àó (le comedia's de cordel, onde o genio portu- 
gneZy suffocado pelo despotismo e depravando da Casa 
de Bragan9.a, se mostra originai, ou melhor nacional 
oias baixas atellanas, que ainda boje se couservam na 
maior parte em folliaa volantea* A està mesma fórma 
da arte, soscitada pela falta do liberdade, abafaram ò 
desenvol vi mento os nossos monarchas, que no meio do 
seu fansto canceroso quizeram imitar as cortes dos out 
tros reis, introduzindo a similhau9a d'elles a Opera 
iiaUana em Portugal. No anno de 1720 cantaram-se 
vafias Operas italianas em Fortngal, das quaes no0 
resta o titulo de uma II triumfo delle Virtù. 

O privilegio exclusivo sobre os theatros, que per- 
tencia ao Hospital de Todos os Santos, e a prepotenr 
eia exercida pelo theatro do Pateo das Arcasj cometa- 
ram a ser illudidos por meios capciosps, nào exarados 
oa previstos nos privilegios, e por continuas reclama- 
90es. Na Provisào de 15 de Setembro de 1738, yemos 
€qae em. Junho de 1727, havendo-se representado ser 
indecente a ama Mesa tao pia, instituida para minisr 
terios tam santos corno exercitar a misericordia, oc^ 
cupar-so em ajnstes com comedianies e em exibi^ào 
de comedias, fòra eu servido (El-rei Dom Joào v) 
mandar escrever ao Provedor, que entào era da Mise- 
ricordia,, ser do meu real agrad.o que insinuasse ao 
Tbeaoureiro do Hospital e aòs mais Irmàos da dita 
Mesa 86 àbstivessem totalmente d'esie emprego; e em 
reverenda d'està resolu^ào, cessara a representagào 
das oómedias e o uso dos priviU^os concedidos ao 



,144 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Hospital, e ficara esto perdendo o rendimento e util 
do Paleo que havia recdificado com tanto dispendio^ e 
qne Ihe tinha feito grande falta para a cura dos enfer* 
mos qne a elle iam;» etc. Por cste notavel trccho aa ci- 
tada Pvovisao gè v^ que durante onze annos (de 1727 a 
1738) perdeu o Hospital de Todos os Santos o privi* 
legio dos tre» quintos do rendimento das coraedias, e 
o dominio ntil do Pa/é^o das Arcas; parece pela leitora 
d^esta disposi^do que cessava a representa^ das cams^ 
diasj mas é de snppòr, qne se subentenda aqoi ama 
restric9ào com intervengo ou por conia do Hospikdm 
K'esta mesma Provisào, se eneentra a prova da «ossa 
hypothese: «havendo-se introdnzido n'csta cQrte em 
o anno de 1735 urna Opera representada e eantada 
por musicos italianos em casas qne para isso alugarftm 
de fronte do convento da Trindade, a qnal se represen^ 
tava publicamente, admittindo-se a ella todos os qoe 
pagavam a entrada ta^^ada peles mesmos reppeseatan- 
tes, e no anno passado de 173:6 se introduzia maÌH 
nma comedìa italiana, que tambem se representara 
com a mesma pnblicidade em easas para isso alugadas 
pelos mesmos represéntantes, sem que para nada d'isso 
pedissem os authores de taes representacOes licenza ao 
Hospital, neni com elle fizessem concerto a}gnm pm 
Ihe assignalar o logar em que representassem, maa aà* 
tes privando o Hospital da posso de se fazerem sófaenta 
no seu PdUeo as representa^òes de comedias, de que nto 
tinham diiFeren^a essencial as qne modernameato aa 
introdnziram ; y> etc. Por està especie de velaiorio qaa 



NO SECULO XVII 146 

recede a renova^ao do antigo privilegio suspense de!9- 
k 1727, se ve que sómente o theatro do Pateo das Ar- 
ÓM estiverà fechado. 

'"■ Bm 1737 apresentaram-se ao Hospital, Luiz Tri- 
iste, Jofto de Villa Nova, e Autonio Fustier, propon- 
èbrìhe a arremata9fto ou arrendameuto do theatro do 
ftileo das Areas por GOOfjOOO réis annuaes* Foi en- 
Àki qne o Hospital pedin remedió centra as perdas que 
Mffiria desde a saspeusRo dos seiis privilegios em 1727. 
$ rei attendeu a esse pcdido, corno se ve por este tfe- 
tÉodacitada Provis&o de 1738: precorrendo os suppli- 
^tetes (Provedor, Thesoureiro e Mesarios) a mim, por 
tt Ifaes offerecer quem qnizesse alugar-Ihes o seu Pateo 
Am uso do sen privilegio, para que fosse servido ha* 
%^)he por bem qné os snpplicantes se podessem ajuè- 
% sobre o alugiier do seu paleo e uso do refendo pri- 
lUegio, e prohibir em virtude d'elle qunesquer repl^e- 
WDia<;^8 que n'esta córte se fizessem sem liòeta^a do 
Kiospital e em legar qne por este Ihe n&o fosse assigna- 
Ikido, usando para esse efFeito de todos os meios qtle 
^direito Ihe fossem pern)ittidos,fòra eu servido (Dom 
rM» y) resolver que os. supplicantes podessem usat de 
Mm privilegios nos termos em que era codcedido de se 
lAtmittirem rep^esenta9òes de comedias ou operas, sem 
flub Ito intromettessem no ajnste d'ellas.D Aissim o Hos- 
iltil pdde feadquirir os seos antigos privilegios, ainda 
|pi6 A&o tio eKtensivos e absolntos tomo de antes* Em 
Muiequetioia d'està Pfovis&o de 15 de Setembro de 
1788, ft>ninti tambem jnlgados sujeitos ao privilegio as 



jJ46 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

•companliias de Manonettes ou honifrates^ que por ^l'^^^w 

• 

tc^mpo se exibiam em Lisboa; a Opera, que estasi ^^ 
tuada defronte do convento da Trindade, desde VT^ ^5 
.xequereu tambem licenca do Hospital para contin ^aj 
as suas representacòes; e o Pateò dos Condea «em ^^He 
autigamente se representavam em hespanliol porCf^^^ 
. jéisjj) e onde representavam os actores de comedias i "ft- 
. lianas que se introduziram em Lisboa em 1736, foi dd^o 
a, urna compauhia franceza, que pagava duzentos niil 
. reis annuaes, representando entremezes^ hallets^ e eri- 
..bii^^yes de presepios. Apesar d'eatas tres licen^as con- 
.cedidas pelo Hospital, o seu Theatro do PaUo da$ Ar- 
^cas foisendo successivamente arrcndado pelos tres em- 
-prezarios jà citados, até ao tempo em que a Opera ita- 
liana^ tornando-se em Portugal urna diversào regia^ 
iufiuenciou de tal fórma no animo do monarcha on dos 
seus ministros, que o privilegio foi extincto por Carta 
>Begia de 28 de Janeiro de 1743, sendo compensado o 
Hospital com a esmola anhual de .1:300$000 reis, pa- 
gos ,pela Casa da Moeda. arrendamento do Theatro 
do Pateo das Arcaa acabou em 1742, em conseqaeiicia 
.da inexplicavel Carta Regia. Que està Carta foi mo- 
.tivada.pelo immenso dominio da Opera italiana sobre 
,.ò espirito do monarcha, basta citarmos as seguintes 
datas:. que em 1739 occupava o Theatro da Bua dos 
^Condes lima companhia italiana, ot^e cantàra Dev/ké^ 
. irioj II Y,doge^Oj e Merope^ e que essa mesma oompa* 
nhia i^inda ai ostava em 1740 no mesmo theatro aonde 
•cautoui o\CirQ,ricKiììUmuLih Cbnfirma-se de mais a xxoìb 



NO SECULO XVII 147 

a Bossa hypothese, porqiio no anno de 1753 foi con- 
stmido o somptnosissimo thentro regio dos Pa^os da 
|^.Bibeira, qne, corno o Theatro do Paleo das Arcaa ces- 
imi de existir em 1755, arrasados p(>Io terremoto. 
\% Carta Ilegia de 28 de Janeiro do 1743, se estabe- 
»«, qua se snstaria a esmola de um conto e trezentos 
reis ao Hospital, ^se continuarem nesta corte as di- 
representafòea de comedias ou operas, ou qualquer 
\0itira simiihantey etc.J> Por està conditilo se ve que j& 
[•Bio bastava para ajuda do Hospital o rendimento dos 
is privilegios, ou porque appareciam poucas compa- 
dM a reqnerer-lhe licenza, ou porque o publico nào 
Lcorria aos espectaculos em rasào do alto pre^o que 
oompanliias, oneradas com o privilegio, exigiam dos 
stadores. De facto, assim aconteceu depois da ca- 
>phe do terremoto, tendo o governo de mandar 
itinuar a esmola por Carta Regia de 20 de Novem- 
de 1759, durando pelo menos atc ao anno de 1762. 
Fimo^nos for^ados a safr do seculo xvii, para acompa- 
a 6Volu9ào bistorica do Pateo das Arcas^ unico 
ifcro de vida do theatro portuguez. 
-': Ko seculo XYii, no reinado de Philippe ili sabe-so 
existenoia do theatro portuguez nao so pelas pe^s 
las no Index Expurgatorio, mas tambem pelos cui- 
iqne o theatro mereceu aos logisladores. Nenhu- 
^IHI comedia podia ser representada sem licenza reqne- 
^ìisi k Belalo de Lisboa ou Porto, conforme a cidade 
"^m que se havia de dar o espectaculo. Em uma Porta- 
la de 25 de Janeiro de 1626, é que ficou estabelecidD 

r * 



H8 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

qae a Cam ara Mimici pai do Porto e nào a Relagao, 
competia o dar licon^a para representa^fto de qualqner 
coinedia* Urna outra lei dà tambom a Camara Munì* 
cipal attribiii^Oes de censura, To<las estas disposi^Oes 
provam que existia um theatro portiiguez; quaos as 
pe^s que se representavam, se eram da velha eschola 
de Gii Yiceute, ou imitadas da eschola hespanhola de 
Lopo de Voga e Calderon, nos Archi vos das Caniaras 
de Lisboa e Porto devem existir as licen^as, com os 
titulos das pe^as, legar da representa^ào, epoca e au- 
ctor indicados, Podemos com certejsa dizer que no ae- 
culo XVII o theatro era mais civil do que hieratico, e 
pelo prologo de EURei Seleuco, de CamOes, se depre- 
hende pela desorip^flo da scena, que jà havia logar 
proprio^ um amphitheatro de uiadeira, armado de pro« 
posito para as representagOes. Com a morte do priu- 
cipe Dom Joao, em 1543, nào se represeutara mab. 
auto ou comedia na corte. Os Jesnitas conheceram 
immediatamente a importancia do theatro, do mesmo 
modo. que adivinharam as estampas allegorias paraior- 
nareni communicaveis as suas maximas frias. Logo. 
nos primeiros tempos da colon isagào, o apostolo, da 
America, o Padre José Anchieta para combater of 
Autos populares dos continuadores de Gii Yicente, e 
antes que os Index Eocpurgatorio9 tratassem de aniqui- 
lal-os, compoz urna pegadramatica, intitulada Autoda 
Pregagdo Univet^saL (1) Os Autos espalharara-se logo 

(1) Pereira da Silva, Varóes illusires, 1. 1, p. 15 e 16. 



NO SECULO XVII 149 

xio secalo xvi para fora do Beino, por isso que vémos 
</amOes citar em 1555 em Gòa o Auto anonymo de 
^raz Quadrado. Os Jesuitas lan^avam os fundamen- 
"tos de urna moral nova, privativamente sua; servi- 
^rara-BO de todos os ineios para a incutirem; a archi^ 
"Cectura e poesia foram tambem afogadas por esses si- 
<3arios da consciencia, corno meio de universalisar as 
saas theorias. Para exprimir urna nioral falsa, que 
fórmas ternaria a arte que nào fossem urna mentirà ? 
Como aconteceu em teda a Europa, os Jesuitas apode- 
Taram-se do theatro; inventaram um genero hjbrìdo, 
~ì9em paixào, allegorico, metaphorico, encomiastico, ver- 
dadeiro germen d'onde safu o elogio dramatico. 

theatro de niarionettea, a que em Hespanha se 
ohamava Titeres, recebeu em Portugal urna designa- 
ndo propria, que bem mostra que està ordem de espe- 
d;aculos foi talvez a unica de que goson o nosso povo. 
Os ÌHmifrates erant essas figuras movidas por cordeis, 
que representavam nas tabernas e ponsadas de Hespa- 
nha as scenas de Gaifeiros e os mysterios da Paixào ; 
em Portagal a propria designa<^ào mostra o seu intui- 
to satyrico. Encontramos a palavra honifraU no thea- 
tro de Jorge Ferreira, na cómedia Vlysaipoy escripta 
em 1547: «a mulhor nào bade ser boni/rate. (1) No 
secalo XYii, estavam elles mais em voga; a medida 
que o theatro de Inglaterra e de Hespanha se levan- 
tavam a ama altura surprehendente de crea^ào e fé- 

(1) Act. 1, se. 3. 



150 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

cnndidade originai, em Portugal o theatro tornava. — »« 
uni motivo de caridade, urna especula^ào fìnaDce: 
dos hospitaes, corno hoje em dia as loterias. Na Cai 
de Guia de CasadoSj D. Francisco Manoel de MeL 
fala d'esse uso dos bonifrates: <iMulheres ha d'estas 
petitosas, que por nm boni/rate venderào um padrào d 
juro da camara.» (1) Francisco Kodrigues Lobo, qui 
tambem conheceu o theatro popular, emprega nas sm 
compara^Oes moraes està mesma designa^ao: «Oho-*^ ^ 
mem no falar nào hade parecer estatua, nem boni" 
JìxOe.ì^ (2) 

grande uso das comedias hespanholas represen- 
tadas em Portugal, contribuiu muito para o despreso 
que OS nossos votaram à sua lingua no secnlo xvii. Ja- 
cintho Cordeiro escreveu as suas comedias em Heapa- 
nhol. No Diccionario de Bacellar, de 1783, se allude 
a este facto importante, citando comò causa: ca leitu- 
ra de Yeiga del Carpio, e Comedias Castelhanas.D (3) 

Se este quadro que ai fica, é desolador, maia triste 
ainda sera o estudo, parcial de cada um d'estes elemen- 
tos de corrup9ào, que trabalharam para extingoir a 
tradÌ9ào nacional do nosso theatro. 



1) Ibid.,fl. 27, V. 
'2) Corte na Al' 
(3) Ibid.,p. 4. 



(2Ì Corte na Aldeia^ Dial. vili, p. 163. 



NO SECULO XVII 151 



o^AjpjrrrjXaO ii 



As Tragicomedias nos CòUegios dos Jesuitas 



1 Jefiuìtas corronipom em Portugal os estudo» classicos. — 
As saas Seleclas. — Extingiieni a Coniedia da Renaeccn^a 
com as suas Tragicomedias latinas. — A Tragicomedia Sede- 
eiaa, represeDtaaa Da visita de Dom Sebastifto à Univcrsìda- 
de de Coimbra em 1570. — Tragedias latinas do Diogo de 
Paiva de Andrade e Frei Thomé de Jesus. — Collegio das 
Artes, de Coimbra, fioresce com as Tragicomedias do padre 
Liuiz da Cruz, padre Simao Vieira, padre Antonio do Sousa. 
— Divertimentos theatraes na Universidade e Collegio do 
Cspirìto Santo, de Evora. — A Tragicomedia do padre An- 
dré Fernandes na visita do Duqnc de I^ragan9a a Evora. — 
Divertimentos escholares no Collegio de Santo Antfio, em 
Xiisboa. — Festejos pelavinda de Philippe in a Portugal; a 
Tragicomedia do padre Antonio de Sousa Do Descohrimmto 
e conquista do Oriente por Dom Manoel. — Descrip^fio do 
theatro em que foi representada. — Biquezas do scenario e 
caracterÌ8a90es. — Resto da tradÌ9ao escholar dos Jesuitas no 
Belo xvm. — Tendo os Jesuitas extinguido o theatro classico 
• com as suas Tragicomedias eruditas, matam o theatro na- 
donai com o Index Expurgatvrio, 



Na segunda metade do seculo xvi, o theatro nacio' 
nd^ o theatro classico soffrersun a invasào do genio ex- 
poliador dos Jesuitas; as suasescholns derramaram-se 
^Portugal no anno de 1555^ e n'ellas, & similhan9a 
^as Universidades, admittiram immediatamente os di- 
vertimentos dramaticos. Nào contentes com conspur- 
%r os ricos monnmentos da litteratura antiga reta-* 
Jhando*o8 nas suas Seleclas^ guerrearam o theajbro clas- 
sico oppbndo-Ihe as suas Tragicomedias em verso heroi- 
^ para ensaio dos estudantes do methodo alvaristico, 



162 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

e dos que frequentavam as escholas de Rhetorica. (1) 
Depois qua se Ihe augmentou o poder e a opnlencia, 
o theatro foi para elles ò meio de festejarem os reise 
OS grandes senhores, quando fam a qualquer terra em 
que dominavani. Quando el-rei Dom Sebastìàcviii- 
tou a Universidade de Coìmbra, os Jesuitas, que j&se 
havìam apoderado da instrucQào publica de Portngal, 
inimosearam-no com urna Tragicomedia. Era entSo 
Beitor da Universidade Dom Jerohjmo de Menezes, 
quinquagesimo quinto Bispo dò Porto. AchamoB este 
facto memorado em Dom Bodrigo da Cunha: aSendo 
ainda Beitor da Universidade, veiu a ella el-rei Dom 
Sebastiào, e o Cardeal Dom Henrique, oom a niuor 
parte da córte e nobreza do reino, em cuja vinda Dom 
Jeronymo de Menezes Ihe mandou fazer grandes spa- 
ratosi e festas; entro ellas se representou a Tragico* 
media famosa, intitulada JSedeciaa, da destrui^ào de Je- 
rnsalem por Nabuch do Nosor, composta pelo padre 
Luiz da Cruz, religioso da Companbia de Jesus.]» (2) 



(1) A prìmeira Seleeta^ que os Jesuìtas inventaram, poUi* 
cou-se em 1587. Em 1594 refundiram-na em urna nova, ioti- 
tulada Silvae illuslrium auctorum^ qui ad U8um Società^ Jtf* 
SelecH sunt, Reconhecendo ainda os grandes defeitos d'estai 
duas, empregaram todos os seus meios para tiral-as da ciico* 
la^fio e publicaram urna terceira Selecta^ da qual baniram 08 
escrìptores da baiza latinidade, e os latinistaa modernoflf ^ 
estavam ibtercaladoa entre Tito Livio, Sallustio e Cicero, defflO» 
do qae era impossivel desenvolver o gosto da raocidade pais 
OB aaber dìstinguir. A eonsequencia foi a decadencia do8 ó^' 
do» clàaaioofl. 

(2) Catalogo dos Bispot do Porto, Parte II, cap. 40;p.2Ì9) 
ed. 1742. 



NO SECULO XVII 153 

PoQcos annoB antes havia professado no instituto je- 
soitico o padre Luiz da Cruz, a 1 de Janeiro de 1558; 
era filho de Leonardo da Cruz e de Leonor Lopes, e 
morreu a 18 de Jnlho de 1604, corno se sabe pelo qua 
diz d'elle Barbosa Machado. A visita de Dom Sebas- 
tifto à Universidade de Coimbra foi em 1570; a sua 
actividade dramatica foi aproveitada pelos Jesuitas le- 
go depois que vestiu a roupeta; além da Tragicomedia 
SedeciaSy escreveu outras tres, mas nào se sabe se elles 
foram representadas em alguma solemnidade publica ; 
comtudo temos a certeza que o seriam nos divertimen* 
tos escholares, corno se deprehende do titulo com que 
foram publicadas em Lefio em 1605: IragiccB comicce" 
que actiones a Regio Artium Societaiis Jesu Conimr 
hricce in publicum theatrum. (1) Logo pouco depois da 
pnblica^uo da Tragicomedia Sededas, no Collegio dos 
Jesnitas de Evora se representou outra sobre o mes- 
me assumptOy escripta pelo mestre de Ithetorica, o pa- 
dre Joào da'Bocha; era filho de Gaspar da Rocha e de 
Isabel Fernandes; entrou para o Collegio de Santo 
Àntao, de Lisboa, a 25 de Janeiro de 1603, e foi mos- 
tre de humanidadés em Lisboa, Evora e Coimbra. 
D'elle resta a Tragicomedia Nabuco de Nosor^ da qual 
diz Barbosa Machado: ocmereceu a acclama^ào de to- 
dos OS es^pectadores.}» (2) Padre Joào da Bocha par- 
tiu para a India em 1623, e morreu depois de 1633* A 



(1) Barbosa Machado, Biblioiheca Lusitana, t. ni. p. 9 

(2) Id. ib., t. Il, p. 737. 



154 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

parte espectaculosa-d'esta tragedia da destrni<^ào de Jc- 
msalém pódo ser eomprehendida pelosque viram a re- 
pre8enta9ào da moderua PropJiecia. Collegio das 
Artes, de Coimbra, era o que mais primava na frequen- 
cia dos divertimeli tos theatraes; fora em Coimbra que 
appareceu a tragedia classica, e os jesuitas queriam 
apagar essa tradicào pura com o explendor das suas 
crea^Oes. Ali se representou a Tragicomedta Paitlintta 
Noloe EpùcopuSy em verso heroico: «a qual se conser- 
va uo Archivo do Collegio de Coimbra, da qual faz 
men^ao o Padre^ Franco, etc.» (1) Era o auctor d'està 
Tragicomedia, Dom Affonso Mendes, nascido emEvo- 
ra a 20 de Agosto de 1579, de Louren^o Alvares e 
Branca Mendes; Vestiu a roupeta a 2 de Fevereiro de 
1593, e foi mestre de Khetorica no Collegio das Artes 
até 1600; morreu a 29 de Junho de 1656. Tambem 
era naturai de Coimbra o padre Simào Vieira, que pro- 
fessou na Companhia de Jesus, em Roma, a 9 de Abril 
de 1556; segundo o eèpirito do seu institiito, escreveu 
a Tragedia de Casu Hell, e a Tragedia de Obitu Sau- 
l%8 et Jonathce. (2) Ainda ao mesmo Collegio das Ar- 
tes, de Coimbra, pertenceu o padre Antonio de Abreu, 
e comò mestre de Bhetorica, ai fez representar pdbs 
seus discipulos a Tragedia Sancii Joannis Baptisté; 
era este jesuita naturai xle Lisboa, fillio de Antonio de 
Abreu e de Anna Barradas; vestiu a roupeta no Col- 

(1) Id, il)., t. I, p. 44. Cf. Padre Franco, Imag. do Nov, 
de Coimbra, t. i, liv. 2, cnp. 21, ri.*» 4. 

(2) Barbosa, Bibl. LusiL, t. m, p. 724. 



NO SECULO XVII 155 

legiode Coimbra a 17 de Maio de 1577, e morreu a 
10 de Junho de 1629. (1) Foi tambem no Collegio de 
Coiiobra, que se educou o padre Antonio de Soiisa an- 
ctor da apparatosa Tragicomedia representada na en- 
trada de PliilipjK) iii em Lisboa, ein 1619; abaìxo a 
tnaljsaremos detidainente para que se forme urna ideia 
d'estes espectaciilos dos jesuitas. 

Iste que so passava e estava cm moda nos CoUe- 
gios dos Jesuitas, come^ou a exerccr certa iuflueuGia 
aobre o gesto litterario do tempo; e so assim se ex- 
plica o facto de vermos Antonio de Azevedo <r comico 
dos mais insigncs que floresceram no reinado do Dom 
Jo&o uiì> (2) abandonar a comedia nagional, cuja es- 
chola estava ainda no seu esplendor, para escrever em 
latim, sondo d'entre as comcdias que escreveu a mais 
^mavel a que versa sobrc o tbcma do Evangelho: 
Venite post me, faciam vos piscatores hominum. 

Yimos comò o tbeatro classico era adnltera^o pe- 
los professores de Bbetorica do Collegio das Artes om 
Coimbra; os Jesuitas do Collegio de Evora, da cidade 
■Onde a tradigao dramatica de Gii Vicente ainda es- 
bva viva, nào quizeram fìcar atraz n'este symptoma 
te boto gòsto. Quando a Universidade de Evora, fun- 
Inda pelos Jesuitas, quiz festejar a chegada do Duque 
le Bragan^a, que ainda entào nào era rei de Fortugal, 
6presentaram-lhe urna Tragicomedia intitulada Smic^ 



(1) Id. ib., t. I, p. 195. 

(2) Barbosa Machado, BibL LuziL, t. i, p. 213. 



156 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUBZ 

tus Eustachtus Marlyr^ dccom pomposa magnificencia,» 
corno diz Barbosa Machado. (1) Foi o anctor d'està 
fragicomedia o Padre André Femandes, naturai da 
Villa de Yianna, no Alcmtejo^ qne era mostre de Hhe- 
torica na Universidade, n'esse anno de 1635. O padre 
André Fernandès, era fìlho de Domingos Coelho e de 
Maria das Neves, e entrerà para a Companhia de Je- 
sus a 2 de AbriI de 1622. No Collegio eborense tam- 
bem se representou a Tragicomedia Agitdphus^ por 
pccasilio de um regosijo pnblico; a edi^fto é de 1669, 
oom o titnlo Agiulphus SerenissinuB et Augustimma 
Magnas Britanice extractus dramatis Tragicomicis, ab 
Academia Eborensi in Collegio Soc. Jes. Em quasi 
todos OS Gollegios de Jesnitas, em Portugal, achamos 
vestigios d'estes divertimentos escholasticos; até no 
Cdlegio da Uba de S. Miguel se representou tambem 
urna tragicomedia ! Versava de um certame de figa* 
ras alIegòricaS| que representavam as nove ilhas dos 
A9orea disputando entro si a primasia. Em todas as 
oomposifòes dramaticas dos Jesuitas predomina a fór- 
ma da saibatina escbolar; elles tem a audacia de dar 
corpo às mais vagas abstrac^òes, e n&o possnindoo 
genio creador que inventa os symbolos, privativo dos 
primeiros periodos da vida da humanidade e das ra^as 
mais fecundas, atrevem-se a servir-se do symbolismo 
mas càem na mais chata e amaneirada allegoria. A 
Tragicomedia representada no Collegio jesuitioo de 

(1) Id., t^., 1. 1, p. 148. 



NO SECULO XVII 157 

Ponta Delgada foi escripta pelo mcstre de Rhetori- 
tky padre Jofto Moraes de Madureira Feijó; era o 
iBa titulo Dissidium de primatu Inter InsulaSj vulgo 
àjoreè, Diz Barbosa Machado, qne foi representada 
ewn grande applanso. (1) Padre Jofto Moraes de 
Madureira Feijó nasceii a 21 do Mar^o de 1688; ves- 
tia durante treze annos a roiipeta ; e quando esteve 
professando na cidadc de Bnaga a cadeira de Blietori- 
^, ni compoz e fez representar a tragedia Verior Ga- 
ìnmedis raptus^ em louvor de Santo EstanislauKoscka. 

extasis do um Santo comparado por um Jesuita ao 
Iftpto licencfoso de Ganimedes para os prazeres de Ju- 
piter! Por mais quo faziam os Jesuitas nfto podiam 
tneobrir debaixo da chamarra a pata bifurcada de sa- 
koas. 

seculo XVII està quasi todo occupado pelas Tra- 
gieomedias dos Jesuitas; muitas d'ellas ficaram ma- 
buseriptas, comò o Sacer Hercules do Padre Pedro 
Péisoto, lisbonense, que vestiu a ronpeta a 18 de 
Margo de 1619, e morreu a 8 de Outubro de 1686. (2) 
Outro frade portuguez, nascido em Anvers, escreveu 
Bsrodes SevienSy Drama Tragicum de Infanticidio, 
Mi 1628; era angustiniano, a cuja ordem se pegou o 
xmtagio dos divertimentos eschola^es dos Jesuitas, 
tomo se nos revela pelo facto de Frei Thomé de Jesus, 

1 Kempìs portuguez, escrever a Comedia do grande 



S! 



Bihl. Luzit., Supplemento, p. 187. 
Barbosa, Bihl, Luzit., t, n, p. 609. 



158 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Padre Santo Agostinlio ccropresentada em Manocoe, 
coni facuklade do Xarife. Affirma Jorge Cardoso, no 
Agioìogio Luzìtano, t. ir, p. 620, quo a vira em poder 
d'està Provincia de Sauto Agostinlio.» (2) Taraboa 
o celebre Diego do Paiva de Andrade, nascido eni Lift- 
boa em 1576, escreveu duas tragedias latinas Jban«« 
Baptista, e Eduardus; e para completar o quadro em 
que o theatro naciunal apparece esmagado por est» 
forma^Oes hybridas do tragicomico, citamos o nome 
do portentoso Frei Francisco de Santo Agosti nho Mi- 
cedo, quo em 1614 fez representar diante de LuizXlT 
a sua Tragicomedia Orpheus^ a qual dedicou depois i» 
Cardeal Mazarino;. o titulo com que foi publicadaà 
Orpheus, TragicoToedia in Aula Regia Palatii Pan- 
siensis^ coram rege Christianissimo Ludovico XIV, 

Collegio das Artes, de Coimbra, e o CoUegifi 
jesuitico de Evora até aqui parecem levar a palma ni 
grandeza e apparato- corn que representavam as sna» 
tragicomedias. Parecc que o Collegio de Santo Anta»] 
de Lisboa, està eclipsado; mas vamos vèr corno elle 
se desassombra e desempenha. Falta-lbc so urna oo- 
casiao em que mostre o seu enorme poderio, capazfc 
abaiar o mundo; é a elle que compete representar^l 
dithyrambo, cantado e dansado sobre a ruiua deP** 
tugal, usurpado por uma invasào hespanhola. 

Para a chegada de Filippo III a Portugal, os Je^ 



(2) Id., ibid., t. in, p, 757. 



NO SECULO XVII 159 

snitas prepararam-lhe urna festa dramatica, desempe- 
nfaada pelos seus escliolarcs, no Collegio de Santo An- 
tào em Lisboa. theatro nacional estava quasi com- 
pletamente morto ; semente os Jesuitas, que tanto ha- 
vtam eontribuido para a sua extinc^ào com os Irulices 
Eapurgatorios, se reservavam o divertimento exclusi- 
vo das suas comedias em latim para ensaio dos estu- 
dantes de Selecta, A pega engenhada pelos Jesuitas 
intitniava-se : Beai Tragicomedia del descubrimiento 
y conquista del Oriente por el felicissimo Bey, decimo 
quarto de Portugal Dora Manoel de gloriosa memo- 
ria, . . Compuesta y representada en el Beai Collegio 
de 8. Antào de la Compania de Jesus a la Magestad 
Catolica de Felipe segundo de Portugal , y tercero Mo' 
narca de la^ Espanas, miercoles y juevenes, en 21 y 22 
de Agosto de 1619, assistiendo a ella, con su Magestad 
Catolica de Felipe tercero, y D. Isàbel dichosos Prin- 
cipes de Espana, la serenissima Seriora Infanta D, Ma- 
ria, con toda la corte de Espana y Portugal, 

Eni uma nota manuscripta, em letra do seculo xvil 
se eneontra està interessante nota: «0 autor d'està 
Tragicomedia foi o muito reverendo P.® Antonio de 
Sousa, religioso da Companhia de Jesu ; primo do 
muito erudito e douto Antonio do Sousa de Macedo, 
bem conhecido por seus escriptos; e na 1.* parte que 
irata Eva no Gap. 26, tratando do principio e conti- 
nua9ào da poesia, ahi nomea por seu primo ao Auctor 
d'està obra; e devia de ser grande poeta, porque den- 



3 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

co de vinte e seis dias fez està Tragicomedia, corno elle 
108 diz 110 prologo ao leitor.» (1) 

Joào Sardinha Mimoso fez a de8crip9do d^este es- 
tnpendo espectaculo em um grosso Tolume de 125 fo- 
Ihas; na sua advertencia ao leitor traz noticins impor- 
tantes, que convém recolher na propria fórma em que 
as escreveu. Tradnzimol-as para facilitar a lettura: 
<Foi o commum juizo de todos os que se acharam 
n'esta eidade, que a maior consa que niella se fez, fin 
a Beai tragioomedia que os Padres da Companhia de 
Jesus ordenaram no seu Collegio de santo Ant^, no 
qual OS Padres venceram a si mesmos, porque seado 
tfto perfeitps e apontados em tudo o que emprehen- 
dem, que ninguem se espanta com a perfeÌ9fto das snai 
obras, corno cousa ordinaria n^ellas, em està foi o es- 
panto universa!, nfio so pela obra, mas pela brevidade 
com que a apresentaram . . . Os vestidos, trajes, joias 
e mais riquezas vào fidelissimamente retratados, taes 
corno OS personagens que os vesti ram e levaram em 
seu adorno, posto e tira do de cada um por conta, corno 
OS mesmos que os vestiam deram por lista. Em a qual 
é mais de espanto, que cousa que servirà a urna nio 
aproveitava a outra figura. que assim mesmo ies a 
obra mais real, foi conhecer-se as figuras em tanto 
numero, que passaram de 300, todas das £scholaS| 
tanto, que apenas veiu um artilheiro para dar fogo ìb 
pe^as, por causa do perigo que podia haver se isto ar 

(1) Exemplar da Bibliotheca publica do Porto, L. 2-72 



NO SECULO XVII 161 

metesse em maos de gente sem experiencia. elenco 
e disposii^ào se tirou, parte de um libreto qae antes da 
representa^ào saio, o restante do que appareceu no 
tablado, e mnito das pessoas que n'esta disposi^ào da 
dbra entenderam. Os córos de musica foram dos me- 
Ihores Maestros de profissào que existem em Lisboa. E 
para que tudo fosse pela ordem qne convinha, eu fui 
ccnsultar o auctor da obraj o padre Mestre de Rheto* 
rica das ditas Escholas, que é o Padre Antonio de 
Scusa, de quem soube todo o enredo, postoque centra 
sua vontade, por nào dar-«e por satisfeito da sua poe- 
sìa, dizendo ser composta com a brevidade que todos 
sabem; nem elle soubd qnal era a minha inten^ao 
quando Ih'o perguntei. Nào fizeram os Padres està 
obra em vulgar, por nào ser do seu instituto, que é 
ensiuar letras humanas em lingua latina, e fora bas- 
tante mais facil ao autor escrevel-a em hespanhol.]> 
Jofto Mimose Sardiuha conservou a Dedicatoria dos 
Padres da Companbia a Philippe iii, aonde se encon- 
tra està curiosa noticia : «Na representa^fto, (que toda 
8er& pela juventud que nas Escholas d'este Collegio se 
cria,) v^à duella V. Magestade parte do fruito que es- 
tà Cidade e Beyno colhe do trabalho que a Companhia 
amprega na cultura e ednca9fto dos. sujeitos que as ire- 
qiieiitam«i( 

A descrip9&o do theatro e do scenario, armado pe- 
loa Jesuitas, tambem merece conhecer-se: <iPara està 
xeal represeikta^ se preparou um theatro e taUado 
na fiìnna aegaiote* No paieo das Bsebolas, par* a 



162 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

parte do Oriente, se levantou o tablado sobre g 
e largos madeiros, em altura de 60 palmos, e 
por o sitio ser muito estreito. Escolheu-se este, 
de haver outro mais capaz da parte do Occiden 
ser selli sol e caler, e de mais alegre vista, ficai 
bre OS jardins, chamados de S. Lazaro, e ser o i 
mais formoso e espagoso horisonte. Tinha o ti 
145 palmos de largo, e 89 de comprido. Peli 
anterior do Collegio, se alevantou em altura 
palmos sobre os 60 de tablado, um proscenio, 
nha de comprimento 25 palmos e de largo -60 
trez corpos de architectura de meio perfil : o pi 
de 20 palmos de alto, e o segundo de 15 ; sol 
havia outro de 12 palmos de alto, em que esta\ 
presentaQào da gloria. Constava teda està faci 
trez corpos eguaes, de 30 palmos de altura cada 
Todos OS trez pilares, cornijas, frisas e arci 
eram revestidos de damasco de còres, perfik 
membros de architectura, recortados e argenti 
euro. Bematava o frontispicio d'està fachada ce 
pyràmide de 8 palmos de alto, que pelo meio o 
carregando a peanha que o sustentava sobre a 
do torceiro corpo, e sobre os quatro angulos hav 
tro grandes pyramides, com que se remata va t 
da. Tinha este proscenio duas portas de doze 
de tamanho cada urna; pela parte direita saia o 
Manoel e todo o tocante às cousas de Portugal 
lado esquerdo tòiam os Mouros e cousas toci 
gentilidadd; eobrìam-nas pannos de tela doura< 



NO SECULO XVII 163 

corpo do melo estavam dois uichos, de cito palmos ca- 
da um, e entre elles uni pilastrào de tres palmos, qiie 
desde baixo do tablado aie a altura em que estava a 
representagào da gloria, dividia todo o corpo da facha- 
da, por onde baixou em urna nuvem formosa, da ge- 
rarchia da gloria, o Anjo Custodie do Oriente no pri- 
meiro acto. nicbo da mào direita continba o throno 
e casa de Apollo deos dos ventos, d'onde sairam os qua- 
tro; e no da mào esquerda mestava uma bocca do infer- 
no, que se abrìa e fecbava, vomitando demonios de vez 
em quando; o restante do nicbo era uma penba negra 
cheia de infernaes cbammas. No ultimo corpo da facha- 
da, que era de uns vinte palmos de comprido e doze de 
alto, estava a representagào da gloria, e em meio d'el- 
la uma peanba de quatro palmos de largo, e tres de 
comprido formada de nuvens volantes de prata sobre 
campo azul, semeada de Serapbins de relévo e estrel- 
las de curo; a peanba movia-se em meio das demais 
nuvens que estavam em meio da quadra, até chegar ao 
nivel dafachada; sustentava uma cruzde ciuco palmos 
de largo, enriquecida das ciuco chagas de Christo, que 
resplandeciam com formosos raios; e do meio da cruz 
saia um grande resplendor, e raio de seis palmos de 
diametro, 

«Toda a quadra estava forrada de azul e vistosas 
nuvens de prateados volantes, e em meio um comò res- 
plendor de ouro, grande, que com arreboes amarellos e 
ooloridos, fingiam uma formosa abertura do céo. Os 
pilarea e parte da architrave do firoatispioio e oom\ja 



IVJ^ 






--« ^t^tt vesùdo de -^ ,,^Uei-^5, ^u *«- 
«vo Uttdfttoe^ e lotti» qtt ^^^^r 

tt»^^*^ ""1^^ ^^^-^f ^ pro»ce«^° «« f^r^ de * 
i ¥«^*'*^' V» *tide se fcrt*^ 



NO SECULO XVII 165 

por cima refendiam os membros de arcbitectura recor- 
tada e argentada de euro. 

<Da parte do Collegio e Escholas se fez em toda a 
largura do tablado outro de doze pnlmos de alto, e no 
melo de um tbrono de vinte palmos, em quadrado, em 
quo esteve sua Beai Mngestade e suas Altezas; e da 
parte direita sessenta palmos de largo e dez de ancho, 
em que estivcram os Grandes senhores de Hespanba 
e Portugal; e da parte osquerda, em outro sitio esti^ 
veram as damas e outras donas de honor, com suas 
aias, e outros ministros do palaeio. Forrou se o legar 
em que sua Magestade esteve, de brocado de euro de 
tres palmos, com um rico docel e cortiuas por todos os 
lados, que o gosto com que sua Magestade assistiu & 
tragedia nos dois dias, fez levantar do lado por onde 
entravam e saiam os personagens, para com mais faci- 
Udade os poder gosar, e vèr mais tempo e distancia do 
legar. Os lados, em que estava m os Grandes e damas, 
se adornaram de cortinas de raso verde e colorido, com 
firanjas de curo, e ganefas de brocado, franjoes de o^ro 
e seda. Todo este sitio se cobriu de ricos tapetes orien- 
taes; o tablado em que representaram todos os perso-» 
nagens da tragicomedia ficou sem elles, para n&o im- 
pedir a yoz dos representantcs e nào estorvar as ma- 
oliinaa e dan^as de que se compunba a obra. 

«No sitio que fìcava por detraz do real tablado, di- 
Yidido por nm bom espac^o se levantaram umas grades 
de vinte palmos de alto e dezeseis de tamanho e oiten* 
ta de largo para os cavalleiros e religiosos. Havia do 



166 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

lo<Tar onde estavam suas Ma^estades e Altezas serven- 
tia para urna geral, que estava colgada de seda de va- 
rias còres da China, fresea e olorosa, para estancia de 
suas Magestades e Altezas. Havia outra para os gran- 
des e senhores em seu destricto, e otitra para as damas 
6 senhoras, de honor, eom as cousas tpcantes a simi- 
Ihante acto. Sobre a porta das Escholas se fez outro 
tablado, para os paes dos representantes poderem go- 
sar da ale^re vista de seus fìlhos. 

«Por baixo do tablado d'onde estiveram os gran- 
des, se fez um recolhi mento para as figuras poderem 
vèr a obra em quanto nào safam ao tablado, e estar 
com resguardo a muita pedraria e riqueza que sobre si 
todos leva vara, o qual estava guardado de galerias pa- 
ra poderem vèr sem serem vistasnem tocadas. . . Che- 
gado pois o primeiro dia, que foi em urna quarta-feira 
a vinte e um de Agosto, chegou sua Magestade eom 
o Principe e Princesa e serenissima Infanta, pou- 
00 depois das tres horas da tarde, e entrando em sem 
real posto, houve nm alegre applauso entre todos o» 
eircnmstantes, com salva de musica de charamellas, e 
atabales, e socegado o auditòrio, come90u a olnra, 
etc.» (1) 

A Tragicomedia é em versos latinos; nem o rei 
nem as damas, nem os grandes de Portugal e Hespa- 
nha comprehendiam esses exercicios de rhetorica dos 
escholares de Santo Antào; os jesuitas que nào podiam 

(1) Fi. 1, v., a 4. 



NO SECULO XVir 167 

deslurabrar pelo genio, procuraram espantar pela ri- 
queza. A Relapao de Joao Mimose Sardinha versa 
• principalmente da descrip^ào mimiciosa corno vinham. 
Testidos OS personagens allegoricos, Lisboa, Cintra, o 
Tejo, a Idolatria, o Culto divino, etc. E importante 
para a historia da caracterisa9ào no theatro portuguez 
do seculo xvii^ ainda que nunca os comicos nacionaes 
poderam servir-se d'esses recursos. Os Jesuitas tinham 
um geito espeeial para a allegoria. El-rei Dom Ma- 
lìoel vinha com a : «Espada e petrina de euro puro de 
martello, que pertenceu ao Mestre, de Santiago, fillio 
cVel-rei Dom Joao ir, fundador da illustre e real casa 
de Aveiro; custou a sua feitura dois mil ducados, e de 

^ premio ao ourives que a fez, se deram de renda 30 ha- 
tiegas de trito em cada anno para sempre.» (1) Pores- 

, te importante facto se descobre que os Jesuitas se ser- 
viram da sua poderosa iufluencia para alcanna rem em- 
prestadas as joias com que ataviaram as tresentas e 
tantas figura s que entraram cm scena. Da entrada de 
el-rei Dom Manoel em scena, diz o citado auctor: 
«Foi notavel o applauso que deu a està entrada, que 
certamente foi real e de grande magestade.» 

Vasco da Gama foi representado em scena, com 
um colar de pe^as de ouro e de diamantes, «que valia 
mais de sete mil ducados ]i> com <iuma espada iocla de 
ourOy que foi de el-rei Dom Joao J/.» (2) Tambem ap- 



(1) Reloufio, fl. 18. 

(2) Idem, fl. 22, v. 



168 HISTORIA DO THEATRO P.ORTUGUEZ 

pareceu em scena (ruma galera de mais de trinta palmos 
de pópa à prón, com teda a cordoaiha e enxarcias, qae 
sóe levar um galero da India, perfeita e ncabada, qne 
até a sineta levava; assim levava dez pe^iis de bronze, 
quatro por banda^ e dnas na pròa, que no palco se dis- 
pararam, fazendo salva a sua Magestade e Alteza.:^(l) 
Bompeu-se um penhasco, e a nau come^on a navegar 
acompanhada de TritOes e Sereias; Vasco da Oama eo 
Piloto iam cantando versos latinos;- os marìnbeiros 
cantavam em portnguez as segnintes coplas^ qua trans* 
crevemos, para que se avalie o talento do poeta comi- 
co Padre Antonio de Scusa: 



Mar : Fortes portuguezcs 
Coiiqnistae o mar, 
Que a terra é pcquena, 
Para triuiuphar. 

Os vento» conheccm 

VoBSos cstandartcs 

Riquos de vitorias 

Em diversas partes ; 

Sopram descjosos 

De ver-vos no mar, 

Que a terra é pequena, etc. 

Geo V08 convida 

Co Reyno do mar, 

Dai velas à fama 

Que V08 quer honrar, 

Vede que vos charoa, 

Para navegar, 

Que a terra é pequena, etc. (FI. 28, t.) 



(1) Id., fl. 26, v. 



KO SECULO XVII 169 

Conhe^a Neptuno 

Quem é Portugal, 

Se por bcm nfto queirn 

8inta por seu mal ; 

Qiic à II ossa bandeira 

Obfìdcce o mar, 

E a terra é pequena, ctc. 

NovoB ArgoDautas 

Curo vfio buscar, 

Que em cofres a honra 

Quer enthesourar. 

Buscae portuguezcs 

Estc Olirò no mar, 

Que a terra é pequena, etc. (FI. 29.) 

Os ventos ligciros 

Encheram as velas, 

Voaraiii as Naus, 

E 08 peixes cntre cllap, 

Alegre com dan^as 

Tornaram o mar, 

Quo a terra é pequena, etc. 

Fica-te, Lisboa, 
i^deos patria amada, 
Que a conquistar honra 
Parte nossa Armada : 
Cèdo te veremos 
Seiiliorcs do mar, 
Que a terra é pequena 
Para triumphar. (FI. 30.) 

movimento lyrico d'este còro de Marinheiros é 
adavel; nào se sabe comò seria interpretado pelo 
ipositor da musica d'elle. Se nos lembrarmos de 
) no anno seguinte ao da representagào da Tragico* 
lia da Descóberta e Conquista do Oriente^ em 1620 



170 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

o Padre José Leìte se clistinguia na musica que com- 
póz para a tragiconieclia allegorica de Angola irium" 
phantey é facil de crér, que elle fSra tambem um dog 
maestros que em menos de vinte seis dias escreveram 
a musica da grande e estrepitosa Tragicomedia real. 
Jà em 1560, Frei Luiz da Cruz escrevèra a musica 
para a sua tragedia Sedecias. Em 1619 ainda CamOes 
era lembrado, porque caracterisaram um Tritào : €na 
cabe^a, sobre negra grenha uma casca de lagosta, corno 
o poeta Camòes o pinta: 



mancebo grande y feo 
Trompeta de su padre y su correo.» (1) 



Apparece tambem uma folia de nove galhardos 
mancebos cantando ao som de tambor, sistros e dó-^ 
9ainas : 



No niutido que descobrìstes 
Gama, luz de Portugal, 
Dizei se vistes 
Rey t5o venturoso 
Ou vassalo tfio leal. 



Manoel é sem segundo 
Menos pódc ter egual, 
Como nem Gamas o xnundo 
Tem fora de Portugal, 
Se a vista do sol na terra 
Dà ouro, que tanto vai, 



(1) Fol. 30, V. 



NO SECULO XVII 171 

A vista do DOSSO Rei 
Dea Gamas a Portugal. 
Dizei se vistcs, etc. 

Qual te seja mais rendoso 
Testeniunha Portugal, 
Se tea Rcy criando-Gamas, 
So o sol, tfio rico metal . 
Poréin quanto mais quc o ouro 
A virtude honrosa vai, 
Vence Gain a a todo o prego 
Vosso valor imniortal. 
Dizei se vistes, etc. 

Pois Gania ndo descobristcs 
Outro a Mauoel egual, 
Certo estou, que rei nfio vistes 
, De vassalo tflo leal. 
Que mal nos dera outro reino 
Se nfio fora Portugal 
Cu Senhor a Manoel, 
Ou seu Tassalo outro tal. (Fol. 49.) 

Todas as Provincias descobertas por Vasco da Qa- 
ma vieram ofFerecer a Dom Manoci as 8uas pàreas 
aymbolicas, e danQaram da danga que se chama morte 
recd.i^ (1) Aqui enumera Sardinha Mimose a riqueza 
que traziam; so em algumas d'essas fignras se conta- 
ram 1:090 diamantes, 3:000 perolas grandes^ 248 es- 
meraldas finissimas, e 1:139 rubins. D'este modo te- 
da a fìdalguìa de Portugal se despojou das suas joias 
para as emprestar aos Jesuitas do Collegio de Santo 
Antfto. primeiro dia da representa^ào a Tragico* 
media acabou no firn do terceiro acto, com urna dan(^ 

(1) FI. 51, V. 



172 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

de homens do povo, e de negros, tiido feito pelos es- 
tudantes, que cantavam : 

Sae do8 seus Felippe 
E para os seus vem, 
Louvae^portuguezes, 
2^ Ho percaes tal bem. etc. 

Porquc cà l'os fique 
Fama immortai, 
Deixae-nos Felippe 
Rei de Portugal. etc. 

«Com isto se dava firn a representagao do primei- 
ro dia, ainda que nào pèdo ser tanto a ponto a chega- 
da de sua Magestade, e foi mister come^ar mais de 
traz ; o qual sua Magestade recome9ou no seguinte dia 
antecipando duas horas, e mandou que se continnàsse 
Sem atropellar cousa alguma. E aconteceu, que pas- 
sando-se certo ponto, por parecer conviria, e era mais 
a proposito, por ficar-se o tempo livre para oiitros, 
olhava sua Magestade com atten^ào para o libreto do 
extracto que tinha na mào, conferindo o que via com 
e que Ha escripto, que aehando di versidade mandou 
recolher 9 personagem que havia saido, e que fosse tu- 
do pela ordem que a obra promettia.D (1) 

Os Jesuitas, depois de terminado este assombroso 
espeetaculo, tentaram publicar um livro com estampas 
das scenas, bailados, e machinas que empregaram na 
Beai Tragicomedia ; nào o chegaram a fazer. A sua 

(1) FI. 63. 



NO SECULO XVII 173 

iateD9ào deprehende-se do avìso final de Joao Mimoso 
Sardinha: «E ìsto pois um breve resumo e corollario 
da historia mais extensa^ gite cada dia se espera apparega 
coin aquelle ornato que exige a materia. Servirà© en- 
tro tanto estes epitomes de incentivo e despertador do 
appetite para que com mais ancia se busque a ohra 
toda com as estampas e pinturas das machiìias, que cedo 
sairdOy e eu ficarei desculpado de nào tratar o assumpto 
com aquella copia e largueza que tao gloriosa empreza 
pedia, pois em està brevidade nào professo historia, se 
nao alguma curiosidade com que desejo dar gesto a 
amigos que me constrangem a dar a luz o que por 
particiilar gesto meu havia recolhido.» Ka bibliogra- 
phia portugueza e hespanhola nào se encontra està 
projectada obra acompanhada das estampas do espec- 
taculo ; seria provavelmente pelo gesto dos librettos da 
Clemenza di Tito^ e de Alessandro neWIndiéy que se re- 
presentaram na Opera do Tejo, na primeira metade do 
seculo xviii. Se tivessem apparecido essas estampas 
da Tragicomedia, por certo corrigiriam o que nos pa- 
rece exagero na Eelagdo de Mimoso Sardinha* Temos 
outros factos por onde se póde conbecer o grande as- 
sembro que causou a Tragicomedia dos Jesuitas; Vas- 
co Mousinho de Quevedo, publicou lego em 1619 um 
poema de 70 folhas, intitulado Triumpho del Monareha 
Philippe tercero en la felicisssma entrada de Lisboa^ é 
dividido em seis cantos, aonde miudamente se descre- 
vem OS arcos, as luminarias, as dangas, os foguetes e 
gala que bouve na cidade, que se nào sentia aviltada 



V 



174 HISTORIA DO THBATRO PORTUGUEZ 

ao receber o seu invasor acobertado pelo dìreito divi- 
no. D'està obra dizem os annotadores de Tickaor: 
ۃ obra de bastante engenho, escripta em oitavas fa- 
ceis e barmoniosas, e dedicada ao presidente do sena- 
do e eamara de Lisboa. No segundo canto se introdaz 
nm elogio de Frei Luiz de Aliaga, confessor d'aqnelle 
monarcba, que se suppòe ter tido grande parte na re- 
solu^ào do Bei visitar os seus estados de PortngaL» (1) 
Aonde especialmente se encontra urna descrip^o da 
Tragicomedia dos Jesuitas, é em um poema em sete 
cantos, composto de novecentas e vinte sete oitavas, 
qne se imprimiu em Lisboa em 1624, com o titnlo El 
triumplìo mas famoso que hizo Lisboa d la entrada dd 
Rey Dom Phelippe tei'cero d^ Espana y segundo de Por' 
tuffaly por Gregorio de San Martin. (2) No canto Y 
d'este poema se faz a descrip^ào da Tragicomedia, e na 
opiniào de Gayangos e Vedia, é o que o toma mais 
curioso. Este Gregorio de San Martin dava-se por 
parente afastado de Lope de Vega. 

Gregorio de San Martin, no poema citado descre- 
ve a Tragicomedia dos Jesuitas em noventa e cinoo 
oitavas; pela extrema raridade d'este livro, transcre- 
vemos algumas das suas estrophes, dando a preferen- 
cia àquellas que descrevem o scenario ou as figara8,e 
deixando de parte os monologos e dialogos com qae 
anima a sua descrip^ào : 



(1) Ticknor, IlisL de la liiL espan., t. ni, p. 534. 

(2) Barbosa, BibL LuzU., t. n, p. 416. 



NO SECULO X\il 175 



St. 12 



Luego a la tarde del sigiiicnto dia 
La Tragedia so vió mas celcbrada 
Que ingenio formò, ni mirò gente 
Tan sumptuosa, ni tan bien tra9ada : 
Padre de los estudios eminente ! 
scìencia de sciencias venerada ! 
No Bendo Theatino quien uviera 
Que la mitad que hizo otro liiziera. 



13 



Estando en el theatro eumptuoso, 
Su Magestad, los Principés y Damas, 
Los grandes y los chicos con tal gosc, 
Que el alma frequentan vivas Uamas : 
En el cuerdo silencio virtuoso 
Por ver las levantadas Epigrammas 
Teniendo cada qual prompto el oydo 
A lo que sale poucn el sentido. 



14 



Salió la mas que Athenas grandiosa 
Ciudad en el valor quo el mundo tiene 
En las armas, y Ictras poderosa 
Por los illustres hijos que mantiene : 
De Ulysses fundador patria dichosa, 
Con el Tajo, y peuasco se entretiene 
A do su Magestad reverenciando 
Yvan versos latinos concordando. 



15 

Alli las tres fìguras adomadas 
De brocados y telas difEerentes 
Con labores exquisitos bordados 
Que sin miralo son aqui presentes 



176 HISTOniA DO THEATRO PORTUGUEZ 



De preciosas perlas matizados 
Y d^infinitas piedras reluzientes, 
Los pechos guamecìdos, y turbantes 
De topacios, rubìcs y diamantes. 



21 



. DeepucB que cada qual f uè relatando 
Las sabìas Epigrammas que trahìa 
Al Rey, y a los demas reverenciando 
Mostraran la devida cortesia. 
Y al momento que los numerando 
Con arrogante tallo y bisarrìa 
Quitanse el Theatro, y luego al punto 
Salió el mayor rigor del mundo junto. 



22 



La Idolatria sobre un can severo 
De perfida y cegera acompauhada, 
Quiso qual suele ser al mal primero 
De f alsns varias gentes adorada : 
Muchos leva tras su despefiadero 
Su torpe falsa secta es derribada 
A las profundas salas del olvido 
Qual suele ser y d^ contino ha sido. 



25 



Salió luego una nube muy galana, 
Y viose al comparar muy aparente 
Una grave presencia soberana 
Mas que el claro Sol resplandeoente : 
Corridas las tres diosas, y Diana 
Se vió el Ange] Custodio obediejite, 
Que vino dar las nnevas de alegria 
Al Asia, que en el Tbeatro aparecia. 



NO SECULO XVII 177 



37 



Sobre un Leon la Tierra f uè entrando 
El Agua sobre im Pòs miiy conchado, 
El Ayre en dos Aguilas mostrando 
Un trepido sembiante un tanto ayrado : 
El Fu ego en su carro dcmonstrando 
Un furor muy niayor que imagìnado 
Con el rayo, corisco y la cometa 
Que a las Naves de Portugal inquieta. 



38 



De Yris la embaxnda llega a Eolo 
El qual con su baston rompio la pefia, 
Y el peiiasco deshizo al punto solo 
Mostrando albereto y gran reseiia : 
Los vientos principales de un polo 
Al otro, cada qual furor ensefia 
Con la Idolatrìa embaidora 
De infinitos males causadora. 



39 



Dan9aran al momento todos juntos 
Haziendo alborotos desconciertos, 
Y horricndos temores por menutos 
Alborotando el mar los mancos pucrtos : 
Conformes los pcrversos resolutos 
En sus vanos assombros inquietos, 
Mas sale en vano su rigor presente 
Que el Dios sobre las dioses no consìeute. 



107 

Despues de la Tragedia al tardo diA 
Un ingenìoso barco opulento 
De buTquìnoso fu ego al punto ardia 
Que dava a trinta mil almas contento 




178 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

En tres leguas el son claro se oliia, 
Por los ayres cohetes cu angmento, 
En tierra buscapiès, riiedas de fuego 
Que davan alcgria, y insossìego. (1) 

No prologo d'este scu poema, Gregorio de San 
Martin fala contra o uso popular de cantar romances, 
reprehcnde os paes do farailìa por nào castigarem 
seus filhos por esse crime, causa da mina dos estados! 
recommenda que se fuja da leitura de Orlando e de 
Amadia^ mas que se repitam os romances sacros de 
Lope de Vega, e as Coplas de Manrique, Recuerde A 
Alma dormida, nào esquecendo tambem o seu poema 
JEl Triwnpho mas famoso. Por està revela^ào se co- 
nbece que os romances populares so nào mostravam 
afFectos à usurpa^ào liespanhola. Por esto tempo, é 
verdade, cantava-se em Portugal o romance da Bota- 
Iha de Lepanto, ganhada por Dom Joào de Austria, de 
quem Philippe ir fora inimigo (2); cantava-se tam- 
bem contra o Cardeal-rei, por ter deixado em testa- 
mento Portugal aos castelhanos. (3) Estes factos ex- 
plieam a condemnac^ào dos romances populares. 

No firn da Relagào de Sardi nha, a consciencia nS^ 
póde deixar de confessar, que ao representar-se em 
scena os vultos de Vasco da Gama, Affonso de Albfl* 
quer, D. Francisco de Almeida, Noronlia, e oafciw, 
se conheceu a pequenez e aviltamento do caracterpo^ 

(Ì| FI. 112 V. a 128. 

(2) Cani OS do Archipelago, n."" 44, 45, 46. 

(3) Cancioneiro populor , p. 40. 



NO SECULO XVII 179 

tuguez n'aqiiclle momento, e para correctivo, remata 
o Hvrò" contando nma fa9anha de um portuguez pra- 
ticada em 1619, que em urna carta das uiissOes do 
Oriente Ihe mandou um Jésnìta. 

Pela Relagao de Mimoso Sardinha se conhece a 
grande modestia do Padre Antonio de Sousa, auctor 
da apparatosa Tragicomedia ; Barbosa recolBeu algu- 
mas noticias da sua vida, que bem servem para com- 
pletar este trabalho; era o Padre Antonio de Sousa 
naturai de Amarante, fillio de Manoel Ferreira e Ma- 
ria de Sousa. Entrou para a Gompanhia de Jesus em 
Goimbra, a 1 de Julho de 1606, coni quinze annos de 
edade, pertanto foi o seu nascimento em 1591. Era 
mestre de Rhetorica no Collegio de Santo Antào, em 
Lisboa, e n'esta qualidade Ihe coube o engenhar a Real 
Tragicomedia, da qual escreveu seu primo Antonio de 
Sousa de Macedo, nas Flores de Esparia: ^ aquella fa- 
mosa Tragicomedia, qual nùnca vió el Theatro roma- 
no. . ."p (1) Morreu este erudito padre a 18 de Setem- 
bro de 1625, quando regressava da Bahia na Nau San- 
ta Anna. 

Nào contentes com matar o theatro classico^ os Je- 
suitas introduziram a fórma dramatica no BraziI, em 
um paiz primitivo, que ainda estava n'esse estado ge- 
nial do espirito que leva às grandes crea^Oes epicas. 
Fizeram o contrasenso de impiantar urna fórma pri- 
vativa dos mais altos periodos de civilisa9ào, em um 
paiz que fsl comodar a repetir as suas lendas seculares. 

(1) Op. cii,y Cap. 14, excell. 8, n.» 2. 



fórma ingenua dos Autos; depois conheceram q 
estavam a sua vontade n'essa fórma simples, qu( 
Taler pela clareza e sinceridade jovial, e deixa 
pela Tragicomedia erudita. Um dos primeiros qi 
tou a fórma do Auto, foi o padre Alvaro Lobo, 
Dialogo da Ave-Maria; nascido em 1551 em Vili 
reiu a tempo de eucontrar ainda florescente a t: 
do theatro nacional; professou em 1566 na Cora 
de Jesus, e na missào do Brazil, quiz comò o 
Anchieta, ensaiar a fórma do Auto. Morreu era 
bra a 23 de Abril de 1608; o seu caracter d( 
bem revela que foi professor nas escholas jesuitic 
geu 08 estudos dos CoIIegios de Braga e Lisbo 
reitor do Collegio do Porto. Substituida a fói 
Auto pela Tragicomedia insulsa, encontramos 
diatamente o nome de Frei Francisco Xavier d 
ta Thereza, naturai da Bahia, comò auctor da 
comedia De Santa Felicidade e seus jilhos; est( 



NO SECULO XVII 181 

ineditas. (1) Para qualquer lado que se olhc, a litte- 
ntnra theatral do scculo xvii estava oceupada exclusi- 
Timenie pelos Jcsuitas; os mesmos assuraptos, irata- 
do8 por diversos padres, nos revelam a frcquencia que 
bavia n'estes dìvertimentos por occasiUo das festas da 
Oompanhia; o padre Luiz da Cruz e o padre Joào da 
Bocha traiaram cada uni por sua vez Kabuoo do No- 
ior; tambem o padre Luiz Ribeiro, naturai de Coimi^ 
bra, escreveu em varios metros a Famosa Tragicome" 
^da conversào penitente e morte de Santa Maria Egy-- 
pdacaj impressa em Lisboa, em 1619, que Frei Isi- 
doro Barreira, naturai de Lisboa e professo na Ordem 
militar de. Christo, tratàra com o titulo Comedia fa- 
%»a de Santa Maria Egypciaca^ a qual ficon manu^ 
tforipta; Barreir.a professara em Thomar a 7 de Mar99 
de 1606, e ai morreu em 1634. Frei Manoel Rodri- 
gnes, angustiniano imprime em 1628 o ^qvl Herodes 
9tmenSj e em 1631 a sua tragedia Evdericus fatalis. 

Parece que em consequencia do deslumbramento 
9^ OS padres da Companhia exerceram sobre a ima* 
gina^&o do publico com a sua Tragicomedia, se enfu- 
fceoeram desde entào centra o pobre theatro nacionah 
S podemos avanzar, que desde 1619 até 1624 é que 
^ esteve elaborando o yolumoso, tremendo e sangui- 
'Utio Itìdea Expurgatorio^ falsamente asaignado por 
^m Fernando de Mascarenhas, aonde se violou a na- 

(1) Femand Wolf, Le Brésil LiUeraire^ p. 22 ; Barbosa, 
^Jhl, Ìm«., t. II, p. 803, e t. IV, p. 147. Este padre era fran- 
^«Gaoo. 



182 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

tiireza condemnando irremissivelmente o theatro po- 
pular, fecondo e vivo até entao, corno se ve pelas re- 
petidas edigOes de Lisboa, Evora e Braga, feitas por 
Antonio e Vicente Ahrares, Francisco SimOes, Fedro 
Craesbeeck, e Fnictuoso de Basto. 

Ao sair d'està atmosphera de bypocrisia e falsida- 
de, encoberta coni pomposas galas,- sirva-nos ella de 
preludio para o espectaculo infernal da extinc^ào dò ge- 
nio de uni povo. 

divertimento cscholar das Tragicomedi as ainda 
se repetiu no secnlo xviii; no Collegio das Artes re- 
presentou-se a Concors discordia sive amicum de già- 
TÌ<R primatu dissidium Castilionem^ etc, pouco antes 
de 1727. No Collegio de Lisboa, celebrou-se o casa- 
mento de Dom Joào v coni Dona Marianna de Aus- 
tria, com a tragicomedia Tergemiìia Atistricce Aquila 
Corona! Como o genio satanico dos Jesuitas estava 
accommodado para celebrar a allian9a da imbecilidade 
brigantina com a scnsualidade suina da Casa.de Aus- 
tria ! No meio d'estes festejos rhetoricos nao se conhe- 
eia o paroxismo de uma nacionalidade. mesmo Col- 
legio de Lisboa tambem celebrou o casamento de el-rei 
Dom José com Dona Maria Anna Victoria, com a 
tragicomedia Lusitanice augmentum, Victoria coronar 
tum, Com estes augmentos de cornip9ào e despotismo 
tornava-se maior a cretinisa9ào do pobre mosarahe. 

Os divertimentos theatraes dos Collegios pouco 
mais floresceram além do primeiro quartel do secnlo 
XVIII; nas festas da Com^aubia de Jesus, quo se cele- 



NO SECULO XVII 183 

braram a 21 de Maio de 1712 na canonisagào de um 
santo do seu insti tu to, se representou a tragicomedia 
Ludavicus Stanislaus; foi o seu auctor o padre Pedro 
Serra, nascido a 11 de Abril de 1695. Este padre ain- 
da representa a tradigào collegial do seculo xvii. Tam- 
bem por occasiào da canonisa^ào de S. JoSo Francis- 
co de Regis, se representou no Collegio do Para a 
tragicomedia Hercvles Gallicus vindex; a maneira do 
secnlo xvir, foi escripto pelo professor da aula de Ehe- 
torica o Padre Aleixo de Santo Antonio, nascido em 
Agueda a 22 de Janeiro de 1712; a representa^ào foi 
pelos seus discipulos em 1739. 

No seculo XVII os jesuitas davam corno divertimen- 
tos escholares, entro comedias de Plauto e Terencio 
representadas pelos seus discipulos, na lingua latina, 
oomposi^^s hieraticas de frias allegorias, quando nao 
tocavam a allusào politica e a satjra pessoal. Na Re- 
lagào das festas que a Companhia de Jesus fez em 
Lisboa na canonisa^ào de Sam Francisco Xavier em 
1620, o padre Diego Marques Salgado, diz que: «Se 
come90U a tragicomedia intitulada Santo Ignacio, re- 
partida em cince actos.D (1) Na Bibliotheca da Uni- 
versidade se conservam algumas tragedias em latim 
representadas nos collegios jesuiticos. Quando o pa- 
dre Antonio Vieira esteve prezo no Santo-Officio, os 
Jesuitas apodaram a tremenda corporagào sua rivai 
com urna Opera em que era protogonista a figura de 

(1) Op. cit., foi. 16. 



184 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Yieìra: ^Estiveram sempre os Jesuitas de ma fé cotn 
a InquisicHo, depois da prisào de Vieira, e resolveram 
fazer urna Opera oii dialogo, em que Vieira apparecia 
no theatro preso com cadeias, e um Adjo inspirando-* 
]he as respostas e razOes. Fez-se isto n'aqnelle deserto 
de Coimbra. Nàò assistiram Inqiiisidores. Desaforo. 
Contou-m'o Pedro de Villas-Boas, entào lente e mem- 
bro do Santo Officio.!) (1) N'este pequeno tra90 noi 
deixou o BiBpo de Grào-Parà, Frei Joao de Sam 
Qneiroz, esbo^ados os nsos e divertimentos theai 
dos claustros portugnezes no secalo XYii. 

De todo este quadro, conclae-se, qne tendo os Je^ 
snitas a combater o theatro, que desde o seculo xvi fio— 
rescia nas suas dnas fórmas nacional (2) e classica (3)^ 
para està segunda entenderam que o melhor mo4o do 
a extinguir seria com as suas proprias armas, oom a 
erudi^Slo. Para isto inventaram a Tragicomedia la- 
tina. 

Mas corno no theatro nacional hieratioo-popular 
havia ainda alguma cousa de genio, de cren9a, d# 
inspira^ào, de boa-fé e ingennidade que se nfto podia 
fingir, centra esse langaram a execragào e o anathe- 
ma, inventaram o Index Expurgatorio. 



(1) Memorias do Bispo de Grào-Para, p. 160. 

(2) Vid. Historia do Theatro Portuguez, liv. i e u. 

(3) Idem, liv. ni. 



NO SECULO XVII 185 

GJi^JPZTXJX^O III 

Index Expurgatorio de 1624 

&labora9So do Index no Collegio de Santo Antao, de Lisboa. 
— Padre Balthazar Alves seu auctor. — Como o Relatorio 
de Lei de 12 de Agosto de 1712 considera oste Index, — Au- 
toB de Gii Vicente que foram deturpados pela censura jesui- 
tica. — Motivo porque os jesuitas mandaram supprimir al- 
guns Autos, — prologo da Mofina Meìides; a Romagem de 
Aggravados, a Fragoa de Amor. — Condemna9ao da eschola 
nacìonal de Gii Vicente. — Copia o Rol de 1564, o Catalogo 
de 1581, e o Index de 1591. — Condemna9fio do theatro clas- 
sico. — Extractos de todas as prohibi90es relativas ao thea- 
tro portuguez. — Marquez de Pombal prohibe o Index de 
1624, mas cria a Real Mesa Censoria, para que nfio entrasse 
em Portugal ideia alguina centra o principio divino da so- 
berania. 

Depois da representa^ào da Eeal Tragicomedia em 
1619j^ OS Jesuitas captaram a confìanca de Philippe ili; 
as saas escholas.estavam exteriormente florescentes, e 
a na^ào entregou-Ihes a educagao moral e litteraria dos 
sens filhos ; compria-Ihes usar da for^a que insensivel- 
mente adquiriram. Ao passo que o poder se accumu- 
lava na Companbia, sentiam para si, corno Hercules, 
que se iam tornando deoses. E niuguem foi ainda mais 
incredulo do que elles. Era chegado o tempo em que 
deviam tornar o mundo a sua imagem. Come^aram por 
apagar os restos da civilisa^ào da Benascenga, que 
ainda se cpnservavam nos livros, e por inocular novas 
ideias sobre a origem da auctoridade civil. Para iste 
comegaram a por em vigor a Bulla In Co&na Domini^ 
e. OS Indice» ExpurgatorioSy que a sustentavam. Foi 



186 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

em 1624 que se publicou o Index Expurgatorioy so 
auctoridade do Bispo D. Ferdando Martins Mascare 



nhas. Antes de por em relèvo o golpe mortai que es 
te Index descarregou sobre o theatro nacional^ veja — 
mos a historia da sua forma^ào; ella està feita no pro- 
logo ou relatori© da Lei de 5 de Abril de 1768: e Suc- 
cederà que o governo dos denominados Jesuitas 
todos 08 sobreditos dolos, coUugOes, abusos, e erìgi- 
narias e insanaveis nuUidades^ maquinaram um volu- 
moso Index Expurgatorio ^ dentro do Collegio de San 
to Antào, da cidade de Lisboa, debaixo da ins 
do seu Provincial Balthazar Alves, e ofizeram pubK- 
car em nome do Bispo Inquisidor Geral Dom Fernan. — 
do Martins Mascarenlias, com elles associado para c^ 
maquinaeao e publicaijào do refendo Index; estabele^ 
cendo por bazes docile as BuUas dos Indices romanos^ 
que as cortes mais exemplares na religì&o e no respeito 
à Sède Apostolica, tinham universal e inflexivelmente | { 
reclamado e repellido, comò contrarias às patemaes in- 
tengOes dos summos pontifices em cujos nomes foram 
lavradas, comò enormissimamente lesivas de todas as 
soberanias temporaes, e comò diametralmente inoom- 
pativeis com o socego publico dos reinos e estades ; 8iio- 
cedera, que fazendo a prepotencia dos mesmes Jesui- 
tas o mais malicioso uso das miritas revola^Oes que 
n'esta córte e monarchia concitaram depois do anno de 
mil seiscentos e vinte e quatro, conseguiram oom as 
suas costumadas intrigas confundirem a inspeo^ dos 
Jirros e papeis entre o Ordinario, entre o Santo-Offi* 

\ 



NO SECULO XVII 187 

e entro a Meza do Desembargo do Pa9o; em tal 
la, quo descangando uns dos ditos tribunaes no cui- 
) dos outros^ e nào cabendo, alias, na possibilida- 
[os seus respectivos ministros, fazerem compativeis 
a coneurrencia do despacbo dos seus expedientes, 
amo de todos e cada um dos innumeraveis livros e 
ns que se deviam permittir ou defender; vieram a 
ir todas aquellas vigilantes e vigorosas providen- 
, qué fazia indispensaveis um negocio de tanta im- 
ancia. E succederà, que os mesmos Jesuitas, ser- 
io-se dos sobreditos meios, extinguindo n'estes rei- 
e seus dominios todos os livros dos famosos, illu- 
ftdos, e pios auctores, que n'elles tinbam formado 
^egios professores, os apostolicos varOes e 03 as- 
alados capitàes, que nos seculos de mil e quatro- 
os, e de mil e quinhentos, encheram de edifica^ào 
ì assembro as quatro partes do mundo; e substi- 
do no legar d'aquelles uteis livros outros livros 
uciosos das suas composi^des, ordenados a estabe- 
rem o seu despotismo sobre a ignorancia; conse- 
am logo precisamente desterrar d'està monarchia 
. a bòa e sa litteratura ; precipitarem todos os vas- 
m de Portugal no inculpavel e necessario idiotis- 
em que formosamente vieram a cahir; e fecharem 
n 08 olhos e atarem as màos a todos os estados da 
na monarchia, para nào acharem n'elles a menor 
itencia nas funestas occasiOes em que os precipita- 
nas repetidas revolu90es e insultos que os mesmos 
itas concitaram n'estes Beinos e seus dominios 



188 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

depois d'aquelle infaustissimo tempo com goral e pu- 
blico escandalo. D N'esta accusa^ào vaga mas cheia de 
verdade, sen te-se a esquadria do Marquez de Pombal^ e 
a demonstra^ào secca e fria dnDeducgao Chronologica. 
Bispo do Algarve Dom Fernando Martins Mas- 
carenhas assistira antes de publicar o fatai Index a re- 
presenta^ào da tragedia Daniel^ de Antonio Gomes, 
mestre de grammatica em Faro ; (1) mas os escrupu- 
los do padre Balthasar Alves poderam mais do qua o 
seu gesto artistico. £ no Index de 1624^ qae se leva a 
effeito a mùita reforma^ào de que precisavam os Autos 
de Gii Vicente, indicada pelo Index de 1581. Pela na- 
tureza das passagens riscadas podemos saber aonde é 
que OS Jesuitas mais se feriam. Come9a o Index de 
1624 por condemnar o sermào em verso j que prega um 
Frade, comò prologo do Auto da Mofina Mendes; e 
n'esse sermào dizia Gii Vicente, que urna das cousas: 

Que endoudece em gram maneira 
He o favor (livre-nos Deos) 
Quefaz do vento cimeira 
E do toutigo moleira, 
E das oudas faz ilheos. 

Ai ridicularisa as distincgoes escholasticas, e a au- 

ctoridade que se tirava de tudo quanto era trecho em 

latim : 

NUo me lenibra em que esoriptura, 
Nem sei em quaes disiincgóes, 
Nem a copia das razOes, 

(i) Barbosa, Bibl LusU.. 1. 1, p. 288. (Entre 1595 e 1617.) 



. NO SECULO XVII 189 

Mas o latim, 

Creìo que dizia assim : eie. 



Pelo que diz Quinius Cariius, 
Beda — De Religione, 
Thomas — Super Trinitas alternati» 
Augustinus — De Angelorum choris, 
Hieronimus — De alphabetu hebraice, 
Bernardiis — De virgo ascencionis» 
Bemigius — De dignitate sacerdotum : 
Estcs dizem justameiite 
Nos livros aquì allegados : 
Se fìlhos haver u&o podes, 
Nem fìlhas por teus peccados, 
Cria d'esses engeitados 
Filhos de clerigos pobres. 



L golpe profimdo este que feria ao mesmo tempo 
sia e a moralidade do clero. Os Jesuitas man- 
qne se riscasse o petulante sermào, e em mui- 
^Oes avulsas o Auto da Mofina Mendes cometa 
idrologo, entrando logo Nossa Senhora em sce- 
yomedia de Ruberia nào pòde ter correc^ào e to- 
condemnada; a rasao é facil de descobrir; por- 
à cheia de ora^Oes e escojuros das tradi^Oes po- 
portuguezas. N'esta comediase encontra: 

Ler-vos-hci Carcel d'amor 
y Peregrino Amador, 

Index Eospurgatorio de 1624 se prohibe a no- 
arcelde Amor: «Anda seni nome de Autor (pos- 
do Cancioneiro Castelhano impresso em Toledo 
B 1526, fl. 158, consta que de bum Carcel de 
bi Autor Diego de Sam Fedro) anda junto ao 



190 HISTORIA DO THEATRO POUTUGUEZ 

livro intitulado Questipn de Amor^ impresso em Ànvers 
por Martin Niicio, anno 1598.» (1) Segando Ticknor, 
Carcel de Amcyi' foi a primeira tentativa de novella sen- 
timental; (2) erajà muito conhecido em Portugalem 
1521, e jà andava junto com a Questào d*Amor, que 
Ihe deu a celebridade. Seria tambem a reeommenda— 
9ào da sua leitara^o que eontribuiu para a condemna^ao 
da Rubena. Para ser coherente com o Index hespanhol^ 
se condemnou tambem cà as traglcomedias Dom Duar- 
dos, e de Amadis de Gaula; na primeira falava-se com 
respeito da soberania dos reìs, chamando-lhes sacra 
magestade: 



Pues sobre los terrenales 
Soie el mas alto y facundo 
D'este suelo. 



Fara os Jesuitas que extinguiram subrepticiam^i* 
te o beneplacito regio, nào soavam bem estes versoB. 
Na tragicomedia Nao de Amores, encommodavam-s6 
OS Jesuitas por se nomear entro as figuras da pe<^ tun 
Frade doudo; tambem ordenaram que se cortasse a ex- 
tensa scena em que Frei Martinbo disparata, descre* 
vendo os costumes dos conventos. Na Fragoa de Amor^ 
repassada das ideias da Reforma, mandaram os Jesui- 
tas riscar o dito do Frade : 



(1) Index de 1624, p. 945. 

(2) Hist de la Liti, Espah,, epoc. i, cap. xxil. 



NO SECULO XVII 191 

Senliores, fui cnrpintoiro 

Da Ribcira de Lisboa, 

E milito boa pcssoa, 

E de mero malliadciro 

Me fui fazer de coroa. 
CUPIDO: Porqué nò quereìs ser f raile ? 
fbade: Porque raeu saber nao erra : 

Sòmos mais frades que a terra 

Sem conto na christandade, 

Sem servirmos nnnca em guerra 

E haviam mister refundidos 

Ao menos tres partes d'elles 

Em Icigos, e arnezes n^elles, 

E assi bem apercebidos, 

E cntùo a Mouros com elles. 

Condemna-se tambem a ultima scena da Fragoa de 
AmoreSj que come<^a Toddlas coiisas do miindo, aonde 
se prega a doutrina da secularisa^ào sustentada por 
Luthero em 1525. (1) A Tragicomedia Exìiortagào de 
guerra^ foi completamente prohibida, por incapaz de 
correc9ào; cometa pelo monologo de um Clerigo nigro- 
mante, que dizia : 

Venho da cova da sibyla 
Onde se esmera e estilla 
A Bubtilesa infernal. 

Hepresentada està Tragicomedia na partida da ex- 
pediQào para Azamor, Gii Vicente dizia ao partido cle- 
rica], que repartisse os priorados aos soldados e suissos 
para conquistarem a Africa, visto que a renda que pi- 



(1) Està scena vem analysada na Historia do Theatropor- 
tuguez, tri, p. 189. 



1« JI-STOIllA. aO TTTKATHn POEmaiIEZ 



'trf»f^ Vi Awmm i-anrorejaemìe-ìae pcMrqiie a» les 
pFQ«xiruniiu extin^nir eaisL eompcMRMy porqnee Q 
rtsi^ a^tenroonitiiìaàe, o iotezesae^ o sete fmTrinin « i 

pgfihìhuHm cu reia^óo <:le senho»^ e- tbi por iasa ({ 
omiAemaon tamhgim a-TfatgiconiBdia. Tenvplo de Jk^ 
^la- Ti^frgietmugdia^ pagtoril dcL Serra da EatreilcLj, p 
be>'90' a dcena^iio Ermitao, nne' comecac 

.\^ni iinero ea Jócr 
•) «me vpnho aqni hnacar: 
£u (ieae^ «ie liabitar 
^'uma ermida. a laeci ^TVJoar, 
Onde podeflse folspir. 

Por imo cansar em fazcl-€^ 
Qne fr)88e a minha cella 
Antea hem lan^ qne estreita, 
R pufiesse eii (ian^ar nella. 
E. que fosse n'iim deserto 
D'intìndo vinho e pào, 
E a fonte milito perto 
E longe a contemplacao. 

fte^e a deaeri poao da vida ermidcs com toda 
(56mTnodidade» e senaualidadea dos e^roiatas soIiUr 
<r /«muta : 

lrm5o«, poi» deveia saber 
I>a «erra toda a gn arida, 
Praxa'Vos de me dizer 
Onde poderei fazer 
Kftta minha santa vida. 

(1) /</#m, 1. 1, p. 9G. 



NO SECULO XVII 193 

èdi^ào (le Hamburgo das Obras de Gii Vicente, 
>bre a do 1562, ainda se encoutra està scena, que 
>areceu da edi^ào de 1585 (cemeiidada pelo SantO' 

corno se manda no Cathalogo aveste Reino. 3> (1) 
Tragieomedia Romagem de Aggravadosj em que 
Frei Pago, symbolo da influencia que o partido 
d exercia uà corte e principalmente no animo de 
Joào III, em 1533, dois annos antes de se esta- 
r em Portugal o Santo-Officio, segundo a letra 
dex de 1624, «teda se prohibe». Para que ba- 
de estar com meios subrepticios? aqui nào se 
. corrigir urna expressào menos respeitosa àcerca 
i sacramento ou dogma com o simples córte de 
jrso, corno no TAumpho do Inverno; era preciso 

o poder, a influencia, que podia perigar. Frei 
dizia com bem acerto: 

IrmAos, haveis de notar 
Que o pa^o é flor das flores, 
Pasto de grandes senhorcs, 
E é mais uni grande mar 
Com somma de pescadores. 

Far^a do Velho da Horta^ que comega : aPater 
creador)) tambem foi completamente elliminada, 
por causa da Ladainha da Àlcoviteira Branca 
; fidalgas e damas da córte de Dom Manoel, cn- 
rigas amorosas vém no Cancioneiro de Resende. 
luitas quereriam por este lado captar a gratidào 

Citado Catalogo de 1581, fl. 21. Vid. Supra, p. 127. 

9 



i 



194 



HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



das senhoras da aristocracia. Tambem a Fargà dos Al 
mocreves^ quo coineea : aPois qite nào posso rézar,ì> s» 
acha completamente prohibida. Se nos lembrarmo 
que é n'esta farca qae Gii Vicente desenha o typo d« 
fidalgo pobre tal corno mais tarde o esbocou Nicolai 
Clenardo, representando n'elle a aristocracia portiLst^Bu* 
gueza, comprebende-se a inten^ào dos Jesuitas. Coi 
demnando estas duas engragadas fargas captavam 
sympatbia dos fidalgos e das damas, que tambem ei 
seu tempo sofFreram a mordacidade justa de Gii V" 
cente. typo do Capei lào representa todas as baixi 
zas a que os tonsurados se sujeitavam para consegiK , if 
os'seus fins; para servir na Capella real, a quanto eM Ja 
se nào submette : 






CAPELLÀo : E por vos cahir cm gra^a 
Servia-vos tambem de fora, 
Té comprar sibas na pra9a. 

E outros carregosinhos 
Deslìoiiestos para mi. 
Isto, senhor, é assi, 
E azemel nVsses caminhos, 
Arre aqui e arre ali 
E ter carrego dos gatos 
E dos negros da cosinha, 
E alimparvolos sapatos, 
E outras cousas que eu fazia, ctc. 

FIDALGO : Padre, mui bem vos entendo 
Foi sempre a vontade minha 
Dar- vos a El-rei ou à Rainha, 



Padre, eu heide ter fadiga, 
Mas d^EI-rei haveis de ser; 
Escusada he mais briga. 



e 

l 
1 
e 
fi 
t 

( 
( 



\ 



NO SECULO XVII 195 

^s Jesaitas que sabiam todos os recursos quo se 
n tirar de urna humilha9ao beni soffrida, prohi- 
1 a Farfa dos Almocreves, talvez por Ihes descobrir 
redo. 

>epoi3 do Gii Vicente, o Index condemnoii tam- 
a sua eschola; no Auto de Santa Barbara^ manda 
: a rubrica: ncantarào era louvor de Deus um 
D N'este mesmo Index se encontram imathematì- 

varios romances populares; no seculo xvi era o 
) de Leiria que mandava publiCar a paixao de 
to metrificada, por amor das pessoas devotas. Co- 
l'estas pequenas cousas se v6 o antagonismo dos 
tas e da Inquisigào centra o poder episcopal. 
I AfFonso Alvares apezar de ter escripto apadri- 
> pelos conegos de Sam Vicente, foi achado em 
do pelos Jesuitas. Até centra um rude trocadilho 
gundo sentido de palavra, se erigou a moralida- 
luitica; o Index manda que no Auto do Dora An- 
monymo, se risque Indulgencia pernaina. Cen- 
ando o Auto do Nascimento de Balthazar Dias, 
perdido, manda escrever a rubrica: aO parto da 
m ndo se represente no theatro mas suponha^sey e 
fa urna cortina^ aparega a Senlwra e o menino Jesus 
esepio: o qual aviso se en tenda em qualquer ou- 
spresentagào do Nacimento.» Teda essa grande 
idade de Autos do Nascimento sofFreu com oste 

e é naturai que o mesmo se entendesse para com 
da Mofina Mendesy aonde pela primeira vez se 
3gou este recurso scenico. A Comedia Celestina^ 



196 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

origem de todo o theatro hespanhol e portnguez tam- 
bem ali se acha eondemnada; apezar da prohibi^ao eram 
OS frades os quo mais a liam, a pretexto do expositor 
de casos de consciencia. (1) As comedias classicas de 
Sa de Miranda, de Jorge Ferreira de Vasconcellos,do 
Doutor Antonio Ferreira, erafim a nielhor parte da lit- 
teratnra italiana do secalo xvi, ali se acha condeninada. 

Para que se forme nma ideia clara do immenso de- 
sastre e da mina do theatro portuguez, aqui transcre- 
vemos as proprfas palarras do Indeof^ que ficarào corno 
paginas negras na historia das tioIa^Oes da intelligeiir 
eia e da consciencia. 

No Index Expurgatorio de 1624, pag. 625 se le: 

«Gii Vicente. — Por quanto ha variedade na ordoni 
das obras de Gii Vicente, em di versas edi^òes que te?e: 
aponta-se sómente o titulo, ou principio da obra, eo 
legar que se emenda, deixando commumente o tempo 
da impressam, e numero das folhas; principalmeni» 
porque tambem alguas das ditas obras andam fon è> 
corpo grande, das quaes assi mesmo procede a proii* 
bi^am, ou emenda que aqui se faz. 

«Do Auto intitulado Mofina Mendes^ ou obra rade- 
regada às Matinas do Natal, logo no principio se Hi" 
que o dito do Frade, comeca: Tres cousas acho qmffr 
2€m; acaba e hua gorra d^orelhado. Em alguuiasi»' 



(1) Vimos urna edÌ9ao franceza da Celestina, de 1598, qa« 
pertenceu ao Convento de Santa Cruz de Coimbra. 



NO SECULO XVII 197 

pressòes ancia jà tirado, e nellas comega o auto pello 
dito da Virgem: Que ledes minlias criadas, etc. 

«No Auto da Barca^ na primeira scena, que comeea 
a ÌMirca d barca oulà, no dito da Alcoueteyra Brisida 
Vaz, se tire o verso que cometa Seis centosj etc. E no 
Auto da barca 3. que cometa, Patude ve muy saltando^ 
66 risque no cabo de todo o Auto, e veyo Christo da res- 
mrreigam etc^ até Lana Deo^ exclus. 

«A Comedia de Ruberia repartida em tres Scenas, e 
coine9a, JEn tierra de Campos allaen Castilla etc, aca- 
ba, ventura bem empregada, teda se prohibe. 

«Na Comedia Floresta de Enganos, perto do firn, o 
que da ventura se diz, lease cautamente. 

«A Tragicomedia de Dora Duardos da impressam 
màis antigua se proliibe, por andar outra jà correcta 
da impressam de 1586 pera cà, cometa, Famosissimo 
seflor etc. E tambem se entende ser prohibida a que 
andar fora do corpo de todas as obras se for impressa 
conforme aquellas antiguas, comò acima fica geral- 
mente advertido. A do anno dje 1613 em Lisboa por 
Vicente Alvares he das correctas. 

oJS^a Tragicomedia Amadis, impressa separada era 
Lisboa por Domingos da Fonseca anno 1612, pag. 5^ 
cola. I, lin. 3. risquese: Sehor no os atengais a esso. 
E logo abaixOy no cureis de oraeiones. mesmo se 
emenda na impressam por Antonio Alvares sem anno : 
mas nas obras juntas do anno de 1586, està feita a 
emenda. 

cA Tragicomedia intitulada Nao de Amores^ qùe co- 



198 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

me^a. Oh Alto e poderoso etc, em que andar o dito do 
Frade, logo no principio da mesma Tragicomedia onde 
se nomeam as figuras, se tirem aqnellas palavras, Aum 
Frade doudo. E no corpo da obra se risque o titulo, 
Entra o Frade doudoj com todos os mais até o titillo, 
Entram dous jidalgos portuguezes^ exclus. E mais 
adiante a trova, olhai ed Simào Gallego^ até o titolo, 
Chegào os jidalgos^ exclus. E mais abaixo risque-se o 
titulo, Entra Frade doudo, cOos versos seguintes até 
pues que dize la marea ^ exclus. 

«Na Tragicomedia intitulada, Fragpa de Amor^ co- 
meta, Uh castillo me han loadoy se risque desda trova, 
Senores fuy carpintero, com os quatro seguintes até 
mandais algo hermano aca^ exclus. E mais adiante se 
risque a trova que cometa, toda las cosas do mundo^ 
com as tres seguintes até, vamanos no erihademos^ 
exclus. 

«As duas Tragicomedias intituladas, £a?^or^a(aiit 
de gtierra^ cometa famosos e esclaridos, E Tempio de 
Apollo j cometa, Temendo febre continua, se prohibem 
de todo. 

«Na Tragicomenia pastoril feita ao parto da Rai- 
nha, comeca, Prazer que fez abaiar y ao ditto do Ermi- 
tao, se risque desde o ultimo verso da trova Agora 
quero eu dizer^ até està minha sancta vida^ inclusive* 

«A Tragicomedia intitulada TWttmpho do inverno^ 
foL 2. pag. 2. na trova bemdito seas veranOy se risque 
mas invieimo yo jurara^ até cantandOy exclus. E mais 
adiante na trova no cures de masrezones^ risqnesejpfe- 



NO SECULO XVII 199 

ga al martyr San Antào. E pouco além do meyo da 
obra na trova o Senhora da hatalha^ se risque o Senho- 
ra do Loreto até vos piloto esmoreceis, exclus. Anda 
tambem està obra separada imprèssa em Lisboa por 
Manoel Carvalho anno 1613. 

• «A Tragicomedia intitulada Roiiuigem de Aggrava- 
do8y cometa, quem me vir assi entrar ^ toda se probibe. 

«A far^a que cometa Pater noster criador^ e a qiie 
cometa pois que nào posso rézar^ de todo se probibem. 

iicDas obras meùdas se bade tirar o Miserere mei 
Detta j cometa Que farei angustiado. 

«Do Franto de Maria Par da ^ que cometa Eu so 
quero prantear^ na trova rua de Sam Gyam^ se tire 
o verso corno altares de Coresma. E na trova rua da 
ferraria, se risque na manhàa que Deus naceo e o se- 
guiute* Na trova ó triste rua dos fornos, se risque o 
verso, agora rua da amargura, Na trova, ó nut da 
mouraria^ se risque o verso, qus nos presta ser Ckris- 
tàoSy ou Choray jd que sois Christàos. 

«0 Testamento da mesma Maria Paiola, eome9a 
A minha alma encomendoy todo se probibe. 

(Index, cit. p. 225-6.) 

Por este. mesmo Index Expurgatorio podemos fa- 
zer urna ideia do Repertorio do theatro portuguez no 
Beculo XVI e do grau de popularidade que os Autos 
gosavam no seculo xvii: 

«Affonso Alvares. — ^No sea Auto de Santo Antonio^ 
impresso em Lisboa^ anno 161S,'^otNvì«o^*^ fe^crt%^« 



200 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

ou em Evora em casa de Francisco Sìmòes, anno 1615. 
fol. 5, pag. 2. col. 2. se risquem as palavras Pezarà 
Sào Sardonino no dito de Satanaz. E na ultima follii 
do mesmo Auto se risque, Alevante-se o menino mortOj 
até as palavras Nào me heide apartar^ inclus. 

«No Auto de S. Barbara^ impresso em Lisboa por 
Viconte Alvres anno 1613. ou em Evora na officina 
de Francisco SimOes, anno 1615^ se advirta, que se 
nS,o hade representar o baptismo da Santa, e se li§o 
de risquar na fol. 3. pag. 1. coL 1. as palavras se- 
guintes Baptisarseha S. Barbara e cantaram em Job* 
vor de Deos um mote. 

«No Auto de Sam Vicente no titulo se risqae Bdjl 
do8 GentioSy e diga Presidente Romano» E na volta 
lin. 3. se risque tambem Bey dos Qentios. E na Iin.& 
onde diz Daciano i?ey, se risque Bey e ponha-se Pfi- 
zidente do Emperador Diocleciano. 

«Na fol. 6. pag. 1. em o fim da columna 2. no dito 
de Narquinto se risque, a hum rey tam soberano^ até^ 
eagrado Romano^ inclus. 

«Na pag. 2 da mesma fol. 6. em o dito de Bravis- 
co, se risque de nuestros Dioses até de mui alto mert' 
cer. 

«0 dito de Narquinto que immediatamente se se* 
gue, se risque tudo das palavras porque ellos até Jf <* 
esto V08 condenaia^ inclus. . 

«Na foiba 7. pag. se risquem aquellas palavras, 
com que a morte padegeOy que estam no dito do Bispo* 

«Na mesma foiba 7. pag. 2, onde diz vaise o Biifo, 



NO SECULO XVII 201 

^ vem o Pontifice Daciario^ se risqiie a palavra Ponti- 
^^y e ponhase, Presidente, 

«Na^folha 9. pag. 1. colum. 2. onde diz, Al grande 
Set/ Daciano^ <^'g^> -^^ Presidente Daciano. 

«E mais abaixo na dita column. em o pregam se 
risquem as palavras, Eey dos Gentios^ e diga Presi- 
dente do Emperador Diocleciano. 

(Idem, pag. 207.) 

dPrei Antonio de Lisboa.— No seu Auto dos doua 
Ladròes^ impresso emXisboa por Antonio Alvarez anno 
1603. p. 3. col. 1. se risque Que por viverdes Iwnrado 
até Minha opinido inclusive. Na pag. 8. colum. 2. no 
meyo, se risque Logo nego comecei, até Samica sempre 
eie. inclusive, que estào na pag. 9. col. 1. no meyo. 

(Id. pag. 246.) 

No mesmo Index se le o titulo: «Autos, ou repre- 
senta^Oes de varios argumentos, que andam sem nome 
de Autor:» 

€Auto do dia do Juizo^ impresso em Lisboa por Fe- 
dro Craesbeeck anno 1609, no principro em o dito de 
S. Joam onde diz desesperai todos^ etc. bade dizer dea- 
pertay todosj comò jà se emendou na irapressam de 
1616 em Evora por Francisco SimOes. 

«Em o dito de Nossa Senhora, a priraeira vez que 
fala, se risque, Filho meu glóri/icado, até às palavras 
do dito de Cbristo, querovolo outorgar^ inclus. 

€Auto de Dom Andrej pag. 4 : lin. 10, se risque, fiat 



202 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

voluntas ttias. Pag. 9. col. 2, perto do firn, se risque, 
vosfallais até Jeremias^ incliis. Pag. 13, col. 2. peri 
o fìm se risqiie Indulgencia plenaria^ ou ridiculaniente 
a diliffencia peimaria» 

€Auto dos dous Compadres impresso em Lisboa anno 
1605. fol. 6. pag. 1. col. 1. so risque, por poiico gnu 
vos me deis, tiié faloeis andar diretto^ inclus. 

«Anto iatitulado Braz Quadrado^ impresso em Lis- 
boa por Vicente Alvarés, e em Evora em casa de Fran- 
cisco SimOes anno 1613. fol. 6. pag. 2. ateo firn di 
obra, se tire o dito da feiticeira, ou velha, todas as ve- 
zes que fala. E tambem o do diabo. 

(Id. p. 268.) 

«Frei Francisco Vaz de Guimaràes. — Do seu AiA 
da Paixdo impresso em Lisboa por Vicente Alvaro^ 
ou em Braga por Fructuoso de Basto, ambos no ann© 
de 1613, ou em Evora por Francisco Simòes sem anno, 
fol. 6. pag. 1. colu. 2. risque-se do principio, Afa 
consagra Christo o pam, até Ihdos vos alevantai^ e^idn^ 

«Na pag. 5, come^ando no firn de teda a obra, po'» 
1. no Titulo, Tanfo que Ihe mostra o panOy risqofl» 
Caird nossa Senhora. 

«Na terceira pagina comodando tambem do firn, col 
1. em o § Aqui se vai o Centinno, no verso, Que osfft^ 
samos flagellar y diga Quebrantar. E no § seguiate, ca- 
de diz, Aqui vào flagellar ^ etc. escrevera-se QnebrarM^ 
pernas aos Ladróes. 

«0 m§smo Auto impresso em Lisboa por Antonio 



NO SECULO XVII 203 

Alvarez, anno 1617. està correcto, salvo o qiie acima 
fica notado da pag. 5. (Id.-pag. 590.) ' 

No Expurgatoìio vcin citado o pobre cego Baltha- 
zar DiaSj cam algiins Antos que se mìo encontram no- 
meados nos livros de bibliographia: 

Baltesar Dias. — «No Auto de Santo AleUo^ Autor 
Bai tesar Dias, cm Lisboa por Viceiìte Alvres, anno 
1613. fol. 5. pag. 2. col. 2. junto do firn no dito do 
diabo em legar do verso, Coni sua filha Sabina, diga 
Cam Ima nobre Sabina, e d'ai por diante risqueso até 
ficaie muyto embora, inclns. Fol. 7. pagin. 1. col. 1. 
risquese liJ ella pelle deshonrar, até Disse Deos exclus. 
As mesinas emendas se fa^am na inipressam de 1616, 
ein E vera por Francisco SimOes: a primeira na fol. 
6. pagin, 1. a segunda na fol. 7. pag. 1. 

«No Auto de S. Caterina, ào mesmo Autor, em Lis- 
boa por Manoel Carvalho, ou em Evora por Francisco 
SìmOes, anno 1613, risquese o titulo, Aqui haiUiza até 
Diz o Ermitam. exclus. Nem se represente o bautismo 
corno no Auto de S. Barbora fica notado na palavra 
Affonso Alvres. E pouco adiante risque-se o verso, E 
pevdoaste o peccado, coni o seguinte, os quaes estani na 
ora^m de S. Caterina, eterno e soberano, etc. E 
adiante no dito do pagem risque-se o jnimeiro verso, 
Ningem se pode apartar, com o seguinte. E lego adian- 
te o verso, Porque assi o quiz a tristeza. 
' «Fol. 10. pag. 1. no dito de S. Caterina, Quando da 



2Ò4 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

terra sagrada eie. risqnese o verso 7. da terra virgem 
tambem. Fol. peniilt. pag. 2. o errò da impressam de 
Lisboa, minila sacra humanidadey emendese, minha/ra" 
ca etc. 

«No Auto do Nascimento de Christo do mesmo Au- 
tor de qualquer impressam, se emende o seguinte: 

«No principio do dito de Benito, risquese o 
11. Jwì/ al no, hié peccar quiso^ indù». E no dito se 



guinte de Bartolo risquese o verso 6. por San Jun 
verdaderOy etc. adìante tambem no segando dito de Ba 
tolo, desxadme dormir etc. e risquese o Verso, juro 
cuerpo de S. Fico. E no dito do Emperador, 
omnipotente^ em lugar do verso 21. JE pois que caino di 
vinOf diga, JE pois que sem ser divino* Em o dito de Sa< 
muel, risquese o verso 8. juro al cuerpo de AbraJiam 
Em o dito 2. de Samuel Zau, risquese o verso 4. 
Vida de Don Mouse. E muito adiante ne 4. dito de Jo- 
seph. Quem se apercébe etc^ risque-se o verso %• E €^ 
cabaga com vinho. Em o mesmo Auto antes do titolo, 
Aqui chora o menino etc. ponham-se estas palavras: O 
parto da Virgem nào se represente no tJieatro mct9 topo- 
nhasey e corrida Ima cortina aparega a Senhora e o meni- 
no Jesu no presepio: o qual aviso se entenda em qnal- 
quer outra representagam do Nacimento. Abaixodo 
titulo. Aqui veti Joseph eic^ no verso 5. nosso fiUiopiar 
doso; diga etc meu filho etc. Adiante no dito de Benito 
risquese, no dormia por San PuelOy até baiando corno 
amaron inclus. E muyto adiante no dito de Gaspar a 



Alv 
titc 
do 



segundsL vez que falla com Herodes, risquese o verso >Io 



NO SECULO XVn 205 

10. Depois de se f alecer, E no mesmo dito, o verso ul- 
timo, jà tres dias averci, E adiante onde falla Gaspar 
por todos, o verso 6. segundo na divindade, No dito ul- 
timo de Belcbior por receo a vossa bondadcj diga rece- 
bOy etc. 

«No Auto del Eey Salaniam do mesmo Autor, im- 
presso em' Lisboa por Antonio Alvrés, ou em Evora 
por Francisco SimOes anno 1612. se advirta que polla 
figura del Rey Salamam, se doveentender bum pecca- 
dor do tempo da ley da Gra^a, por fallar da confissào J 
sacramentai e morte de Christo, e outra.s cousas que 
se nào accomodam ao tempo, nem pessoa do ditto Rey, 
posto que tambem alguas a elle semente quadroni, co- 
mò ser filbo de Bersabe, etc. 

«No Auto breve da Paixào metrificado por Baltesar 
Dias, comò se diz no principio do titulo : impresso em 
Lisboa por Vicente Alvres anno 1613 no dito de S. 
Joam, Eli, venhopara contar etc bem alem do meyo da 
obra, em legar do verso, Hum malvado Phariseu^ diga 
Bum cruel ministro seu. E na foL penultima debaixo 
do titulo Mulier ecce filius tuus^ risquese o verso etc 
nam de minhas entranhas, Na ultima pagina de teda 
a obra risquese o titulo, Aqui esmorece Nossa Senhora 
ao pé da Ciuiz. 

«No mesmo Auto impresso em Lisboa por Antonio 
Alvres anno 1617. fol. 2. pag. 2. col. 1. risque-se o 
titulo Agili esmorece etc. E outra vez na fol 2. Antes 
do firn pag. 1. no titulo, Amostralhe a veronica eie. 
No demais jà estava correcto. 

(^Index. ^. YlQ-\>^ 



206 HISTOEIA DO THEATRO POETUGUEZ 



1- 



ciCelestina de Calisto e Malibea^ impressa em Sevi 
Iha aìio 1531). e 1599, ou em Alcala 1569, on em Sa- 
lamanca 1570, ou em Madrid 1601. cujo Autliorfoi 
Fernado de Rojas, corno consta do principio das letras 
do cada verso das coplas, Escucha el silencio etc. qne 
estao antes do Prologo. (p. 108.) 

c(Gil Vicente. — Varias impressOes das obras d'este 
Author, ou nào estao correctas, ou nào bastamente, 
pelo que nilo poderào correr seni as emendas, qiie es- 
tao no Expurgatorio^ de algumas obras em particular. 

(p. 126.) 

c:Fraiicisco de Sa de Miranda. — Quanto as.suas co- 
medias. Veja-se o Expurgatorio. (p. 122.) 

«Antonio Ferreira. — Veja-se no Expurgatorio em 
Francisco de Sa de Miranda. (p. 93.) 

a:Jorge Ferreira. — Euphrosina e Ulyssipo. 

(p. 148.) 
icEuphrosma^ impressa antes do anno de 1616. Au- 
thor Jorge Ferreira de Vasconcellos. (p. 117.) 
aCustodia far^a. (p. 109.) 

iiCoplas da Surra, (p, 109.) 

^Ecloga novamente trovada por Juan del Enzint, 
en la cnal se introducea dos enamorados, Placido y 
Victoriano. , (p. 116.) 

<iDo8 Enamorados. Comedia ou far9a assi intitu- 
lada. (p. 117.) 



NO SECULO XVn 207 

"rancisco Vàz de Guimaràes. — seu Auto da 
lào se emendando. que depois se imprimili 
Et anno de 1617. està correcto. 

(p. 122.) 
ita. Comedia assi intitulada. (p. 150.) 
yhina» (p. 150.) 

qìo Ribeiro Ghiado. — A Petigam^ que fez ao 
issarlo, e a resposta d'ella se prohibe. Am- 
Qam Ne recorderis peccata, Item a sua Se- 
de Sam Francisco, que tambem anda no firn 
ros das sepulturas, era trova. Do seu Auto 
ral invengcto, quando falam os dous villóes 
Bras e Pero Gii. Risque-se Se outro boy la- 
go até : com huns pósinhos de avache^ exclu- 

(pag. 93.) 

so Alvares. — seu Auto de Santo Antonio. 
Sam Vicente. Item o de Santa Barhora^ nào 
indo comò se faz no Expurgatorio. 

(p. 92.) 

Ilntonio de Lisboa. — ^ewAuto dos dois la- 
\ se emendando o que no Expurgatorio so 

(p. 93.) 
da Adherencia do Pago, Item da yida do 

(p. 95.) 
de Bras Quadrado, nào se emendando comò 
\ Expurgatorio. (p. 95.) 



208 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

(lAuìo do8 Cativos chamado Z^om Luize dos Turcos, 

(a. 3. class, p* 95.) 

(cAiUo de corno o Estudante Christoval de Bivar li- 
vrou a seu pay cativOy se permite tirando-se a ultima 
pagina, que teiii por titulo, Letrilla en endechas mui 
graciosas, (p. 26.) 

nAuto de Doni Andrej nào se riscando o que se man- 
da no Expurgatorio. 

nAuto do Duque de Florenqa. 

nAuto de Deos Padre, Justiga e Misericordia. 

aAuto do Dia do Juizo nào se emendando o que se 
aponta no Expurgatorio, (p^g- 96. todos.) 

iuiuto dos dous CompadreSy nào se emendando corno 
se diz no Expurgatorio. 

^Auto dos Fisicos. 

<iAuto de juhileo de Amores, 

(cAuto da Lusitania com os diahos. 

(nAuto da Far^a Penada^ impresso por Antonio Al- 
vares, anno de 1605, sera nome de legar ou de qual- 
qùer outra impressào que seja. 

nAuto do Principe Claudiano. 

(nAutOj ou historia de Theodora donzella. E geral- 
mente quaesquer Autos, Comedias, Tragedias, Farsas 
deshonestas, ou onde entram pessoas Ecclesiasticas in- 
decentemente, ou se represenia algum sacramento, ou 
Acto Sacramentai, ou se reprehendem e vituperam as 
pessoas que frequentam os Sacramentos, e as Egrejafl 
ou se faz injuria a algua Ordem ou Estado apro vado 
pela Igreja. (Idem p. 96.) 



NO SECULO XVn 209 

«Barthazar Dias. -^ A sua Olosa^ corno Bomaiice, 
1^6 come9a: Betrahida està a Infante. Ite o seu Auto 
*e J^nio Aletxo. Item o de Sancta Catherina. Item 
^ do Nascimento de ChristOj e outro nào se emendan- 
do, corno se faz no Expurgatorio na palavra Baltha- 
ar Dias. (p. 98.) 

dPropaladia de Bartholome de Torres de Naharro, 
:fto sendo das emendadas, e impressas do anno de 
573 a està parte. (p. 169.) 

nOrphea^ Comedia assi intitulado. (p. 165.) 
aPicara Justina. (p. 170.) 

aPlacido e Vitoria. (Idem.) 

uRammusia. Comedia assi intitulada sem nome de 
ntor, em Yeneza, anno 1550, conio consta do firn, 
i anda separada, ou com outra chamado Trinutia. 

(P.174.) 
^Sergio. Comedia assi intitulada em italiano. 

(p. 178.) 
^Trinutia. Comedia. (p. 182.) 

€Tesorina. Comedia. (p. 183.) 

€Tidea. Comedia. (p. 183.) (1) 

- Por este inventario de morte se ve, que o Indea de 
ft%4f diotado pelo padre Balthasar Alves, de todos os 



(1) Idex Auctorum Damnaias memorice, editus auctoritc^te 
K iWnando Martina Masoarenhas, B. do Algarve, luquisidor 
vani. Lisboa, por Fedro Cracsbeck, 1624, pars secuoda : In* 
Usem probibitorum Lusitanias, compietene a pag. 77 usque a 



210 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

livros que prohibia, os que temiti mais erarn as com- 
posiQóes dramaticas, As datas das edi^Oes probibidas 
revelara-nos urna certa actividade de produc^ào e con- 
summa^ào na litteratura do theatro: 1603, 1605,1601, 
1612, 1613, 1615, 1616, 1617, foram anrfos fecandos 
nào jà para a publica^ào de Autos originaes, mas para 
a reproduc^ào dos Autos do seculo xvi, que os tres 
Indices de 1564, 1581, e 1597 quasi que haviamfeito 
desappa'reeer. Na condemna9ào dos Autos, muitas ve- 
zes a censura jesuitica se contentava com mandar ris- 
car uma palavra por menos respeitosa da materia dos 
sacramentos; mas se no Auto apparecia ridicularìsado 
algum tonsurado, ou se ventilara questào que de fa- 
turo perturbasse os fins da Companhia, era immedia-, 
tamente condemnado in totum^ e lan^ado a fogueirs* 
Os livreiros eram obrigados a possuir està Index^ pan 
nào incorrerem em grandes muitas ou em confisca^Otf. 
Foi preciso que um cesarista, querendo libertar a so» 
berania que estava invadida pelo poder jesuitico, fr 
vesso coragem para derrocar este antro do obscuran- 
tismo; o povo por si nada podia. Pombal libertoihO 
da pressào theocratica, para o entregar à explors^ 
da monarchia. Marquez de Pombal aboliu esteiìi' 
dex de 1624 pela Carta de Lei de 12 de Agosto à 
1772, mas creou em seu logar a Redi Mesa Cetiiority 
para impedir a entrada dos livros de philosophialii» 
principalmente atacavam o direito divino da soberanii* 
Ficamos, é verdade, livres do terror da Companhi»da 
Jesus, mas caimos no sorvedouro da Casa de BragH: 
gay e do seu patema! governo. 



NO SICULO XVn 211 



C-A.I>IT"aXiO IV" 



Eschola de Gii Vicente no seculo XVII 

Autos populares do seculo xvi, que totalmente se perderam. — 
Braz de Reseiide, Joào de Escobar, Gaspar Gii Severim e Se- 
bastiao Pires. — A tradÌ9ao dramatica de Gii Vicente em San- 
tarem. — Antonio Pires Gonge e os seus Autos.-:- Francis- 
co Rodrigues Lobo deturpa a comedia Eufrosina, — A sua 
morte desastrada. — Os Autos nos conventos de mulheres. — 
A imita9SL0 das comedias hespanholas coadjuvam o Index 
Expurgatorio. — Autos hieraticos representados antes de 
1626, recolbidos por Miguel Leitao. — Dansa das Nove Mu- 
sa^, Colloquio ao divino sobre a restauragào do mundo, e o 
Passo da Assumpgào de Nossa Senhora. — Se o theatro na- 
cional do seculo xvi trabalhou pela liberdade da consciencia, 
no seculo xvn é a unica fórma de arte em que se escreve a 
lìngua piortugueza. 

A desastrada influencia dos Index Expurgatorios 
fez definhar a fórma vital e verdadeiramente rica da 
litteratnra portugueza — o theatro; para qualquer lado 
qne nos voltemos se descobrem as suas consequencias 
funestas. Em primeiro legar contribuiu para que to- 
talmente desappareeesse uma grande parte dos poetas 
do seculo XYi, que tanto abrilhantaram a eschola na- 
donal de Gii Vicente. Conhecem-se ainda os nomes 
d'esses escriptores dramaticos, muitas vezes os titulos 
dos seus Àutos, mas sente-se um irrepressivel deses- 
péro ao convencermo-nos da impossibilidade de os en- 
conlrar; em um ou outro chronista descobre-se uma 
allusào vaga, corno pequenos vestigios que annunciam 
um mundo. No Clatistro dominicano de Fréi Fedro 
Monteiro, fala-se em Braz de Resende, naturai d^ 



212 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Evora, aonde a eschola de Gii Vicente mais floresceu, 
corno aiictor de dois Autos, o do Franto da Maddalena j 
e o Auto do pranto de Sam Fedro* Braz de Kesende 
pertenceu ainda a brilhante pleiada dos dramaturgos 
hieraticos contemporaneos de Gii Vicente ; era irmào 
de André Falcào de Resende, sobrinho do chronista e 
poeta Garcia de Resende que tratou de perto com Gii 
Vicente na córte de Dom Manoel e de Dom Joào m. 
(1) Tambein ao seculo xvi pertenceu o poeta comico 
e musico Joào de Escobar, que floresceu no tempo de 
Dom Sebastiào, entro 1558 e 1578, comò se sabe pela 
dedicatoria ao joven monarcha do seu Auto do Fidalgo 
de Florenga^ que, segundo Barbosa, se imprimiu mui- 
tas vezes. (2) No Index Expurgatorio de 1624 vem 
prohibido um Auto do Duque de Florenga^ anonymo, 
que por ventura seria o de Joào de Escobar, o que as- 
sim explica o motivo do seu total desapparecimento. 
Joào de Escobar era exceliente musico, comò se depre- 
hende do facto das suas obras terem sido recolhidas na 
riquissima Bibliotheca Musical de Dom Joào iv. (3) 
Das comedias de Gaspar Gii Se verini, apenas se sabe 
o nome da intitulada Discurso Naturai^ escripta em 
prosa; a data da sua morte, conservada por Barbosa, 
que foi a 16 de Dezembro de 1598, revela-nos que pro- 



Jl) Barbosa, Blhl, Lu$,, t. i, p. 248. Cf. Claustro Domin.^ 
p. 177. 

(2) /€?. ib.,t. II, p.651. 

(3) Joaquim de Vascoiicellos, Oa Musicos Portuguézéè^ t.i, 



NO SECULO XVn .• 213 

penderla para a fórma classica introduzida no theatro 
por Sa de Miranda. A eschola nacional de Gii Vicente 
tambem foi seguida no Porto por Sebastiào Pires, na- 
turai dWa cidade; era Feitor da Alfandcga da Ilha 
do Fayal, em 1556, e o facto de se imprimirem em 
Coimbra em 1557 dois dos seiis Autos, leva-nos a crèr 
que existiriam edi^Oes mais antigas; os seus titulos 
sao: Eepresenta^ào dos gloriosos feitos, tirada do sa- 
ffrado texto, e A Nau do Filho de Deos. (1) Em um 
romance popular da Ilha de Sam Jorge, a Virgem Ma- 
ria é comparada a urna nau, o que vagamente nos ex- 
plica a indole allegorica d'este ultimo Auto : 

Urna fr agata divina 
Nove mezes iiavegou, 
• Achou o mar em bonan9a 

Em Belem descarregou. (2) 

Barbosa fala de outro poeta comico, auctor do Au- 
to Pé de Praia, Simào Garcia, naturai de Lisboa; a 
circumstancia de nào precisar data alguma da sua vi- 
da é urna forte induc^ào para o considerar corno, pelo 
menos, dos iìns do seculo xvi. 

Ainda no seculo xvii a tradi^ào do theatro nacio- 
nal se conservava n'aquellas terras que viram mais de 
porto o explendor do genio de Gii Vicente ; em Evora 
OS Autos populares tiveram de ceder o campo às tra- 

(1) Barbosa, Bibl, Lut.^ t. ni, p. 699. Fala n'este poeta, o 
collector do Theatro comico portuguez, t. i. p. 9. 

(2) Cantos populares do Archipelago agoriano^ p. 350. 



214 fflSTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

gicomedias latinas do Collegio do Espirito Santo e da 
Universidade jesuitica; em Santarem foi aonde o ve- 
Iho e quasi despresado Auto continuou a ser cttltìTt* 
do. primeiro e o mais celebrado escriptor dramafr 
co que transportou a eschola nacìonal para o secalo 
xvn foi Antonio Pires Gonge, diacono, e mulato co- 
rno o pobre Affonso Alvares; no secalo xvil appareeo" 
ram mnitos d'estes resultados dos amores das esen- 
vas, de que tanto se queixa Nicolau Clenardo e o pro- 
prio Gii Vicente. Antonio Pires Gonge frequentont 
Universidade de Coimbra, aonde cursou humanidados; 
era versadissimo na poesia latina, e talvez por urna 
desgraca da sua vida é que por necessidade cultivoBOiI 
Autos hieratico-populares. Quando jà estava ordenaè 
em diacono, por urna fatalidade praticou um homiiJ- 
dio, d'onde veiu irregularidade para nào progredir noi 
graus ecclesiasticos. Se Antonio Pires Gonge se iw 
nasse um dignatario da egreja, o seu talento parti 
poesia latina seria com certeza aproveitado para tf 
Tragicomedias escholares, que entao estavam mnito 
em uso. Im possibili tado de seguir carreira alguma,6^ 
crevia para os theatros ambulantes, para o gesto dfli 
humildes, do pobre povo que se deliciava com os veDM» 
Autos hieraticos. Gito sào os Autos de que resta nò- 
moria, OS quaes pela sua natureza religiosa indicami 
educa9ào do auctor; Barbosa traz os titulos: Autodait 
fame cidade de PeìitapoUsy Auto do Nadmento de CW*; 
tOj Auto da Epipliania^ Auto da Ressurreigào de Chrìt 
tOy Auto de Santa MaHa Magdalena^ Auto da Rainhaii 



XO SECULO XVII ' 215 

JSabd, Auto de Babilonia ^ Auto sabre aquellas paìavras 
do Evangelho: Vigilate mecum. j(1) Ainda no seculo 
XVIII o nome de Antonio Pires Gonge era citado no 
theatro portuguez: «Muitos outros se deram a este 
genero de. composi^ào e éscreveram Aiitos em verso e 
no estylo comico; assim corno Antonio Pires Gonge, 
naturai de Santarem, etc. » (2) Da mesma cidade de 
Santarem era naturai Manoel Nogueira de Sousa, ai 
baptisado a 23 de Abril de 1G40; seguili a mesma es- 
chola creada por Gii Vicente, e sustentada por Antonio 
Prestes. N'este espirito escreven o Auto do Nacimen^ 
to de Christo Senhor nesso, que intitulou tambem El 
Sol a media nache. Im primi u-se o seu Auto Comico da 
adoragdo dos Santos Reis Magos, (3) 

Entro OS dramaturgos nacionaes do seculo xvii ca- 
be um logar distincto a Francisco Rodrigues Lobo; 
foi elle o que salvou do perigo da sua quasi completa 
extincQào a Eufrosina de Jorge Ferreira de Vasconcel- 
los. Em premio d^este bom officio prestado a arte dra- 
matica, a tradicào litteraria ia-lbe attribnindo as bon- 
ras de auctor d'essa protentosa imita^ào da Celesti' 
na. (4) Por ventura, influirla està falsa attribuÌ9ào pa- 
ra tambem lan^ar a conta de Francisco Rodrigues Lo- 
bo o roubo da parte do Pamasso de CamOes, que se 



(1) Bibliotheca Lusitana^ t. i, p. 359. 
^2) AdverUncia ao8 Autosde Camóes, EdÌ9. do Padre Tho- 
maz de Aquino. 1779, 1780. 

(3) Barbosa, ibid., t. iv, p. 324. 

(4) A dìscussfio d'este asserto vein a pag. 35^ su^ra.* 



216 HISTOKIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

tem pretendido encontrar na Primavera e Pastor pere- 
ffrino* No principio do secalo xvii a Comedia Eh- 
Jroaina ainda era bastante lida pela fidalguia porta- 
gueza. Alguns trechos da Dedicatoria da edi^ào qoe 
Bodrigues Lobo fez em 1616, importam bastante pa- 
ra a Ustoria do theatro; dedicando-a a Dom Gasino 
Coutinho, diz: a: Ainda que todas as cousas prohibidas 
obrigam a vontade a procnral-as mais que outrasi 
que nao pOe pre^o a difficuldade, e sempre o nesso de- 
sejo se esfor^a ao que Iho defendem,^o que V. M. mo»- 
trou de lèr està Comedia Eufrosina (quando nasst 
quinta do Carvalhal me tratou d'ella) nào tinha porfl 
sómente està rasao, porque mais que todas o obrì^fi 
a excellencià da sualinguagem, a[propriedade dassoil^ 
palavras, a galanteria de seus conceitos, a verdade à\ 
suas senten^as, a agudeza e sai de suas gra^as: es^ 
bre tudo ser livro tanto em favor da lingua pertugili' * 
za, que todos os affeigoados o eram a elle; e tinluui| 
inagoa de ndo poderem usar com liberdade da sua li* 
9ào por alguns descuidos e erros que n'alia liavia.1 
D'aqui se deprehende que Francisco Rodrigues Lota 
ao reimprimir a Eufrosina de Jorge Ferrcira a emeo- 
dou, cortando-a segundo as disposi^Oes do Santo-Ofr 
ciò. Iste se coaduna com o seu caracter subservioi^ 
sendo um dos primeiros poetas que cantou em roma»' 
ces a chegada de Philippe iii a Lisboa. Os seus amo- 
res tambem nao destoaram d'estes sentimeutos. Palan- 
do da sua morte afogado no Tejo, diz o Bispo de 6rl» 
Para: «Queira Deos que ti vesso n'aquellas corrente! 



NO SECULO XVII 217 

a de lagrinias para cborar quanto tinha cantado nas 
ribeiras do Liz e Lena nos loucos amores da aia ou 
dama do palaeio do Dnqne de Caminlia, em Leiria,-^ 
se n&o foram mais altos seus pensamentos, quo se nfio 
foram de Icaro, pareceram de Phaetonte no sitio da se- 
pnltara.:» (1) gesto idylico e pastoril de Francisco 
fiodrignes Lobo é que o levou a ensaiar-se na eschola 
nacional do theatro, escrevendo o Auto do Naeimento 
de Christo e Edito do Tmperador Augusto Cesar. (2) 

E em Lisboa aonde vémos,no seculo XYir, mais sns- 
tentada a eschola de Gii Yicente ; a sua existencia reve- 
la um facto patriotico, porque enttlo todos os poetas e 
escriptores abandonavam a lingua portugueza para es- 
crever em hespanhol ; no prologo do Tempio da Memo^ 
ria de Galhegos, achamos essa amarga queixa centra ob 
que diziam que a lingua portugueza so era usada pela 
gente do povo. Eis o importante documento tirado 
do citado Tempio da Memoria^ poema epithalamico 
de Manoel de Galhegos: «A lingua portugueza, cò- 
rno nào be hoje a que domina, esqueceram-se d'ella 
OS engenhos, que com seus escriptos a podiam enrique^ 
oer e autorisar : e quem agora se atreve a sahir ao mun^ 
do com bum livro de versos em portuguez arrisca-se a 
parecer bumilde; pois escreve n'uma lingua cujas ira- 
ses e cujas vozes se usam nas pra9as; o que nào deixa 
de ser embarago para a altiveza; que as palavras, de 



(1) Memorias, de Frei Joflo de S. José Queiroz, p. 124. 

(2) Vendeu-se um exemplar, do Porto, por 2§650 rs. 

VA 



218 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

que menofi usamos soam bem e agradam em ras&o da 
novidade e por isso os rheioricos Ihe chamain peregri- 
nas.» (1) Este prologo foi escrìpto em 1634, quando 
ainda dominava a usurpai^ào hespanhola; e o facto de 
Tèrmos n^este tempo a lingua portugueza falada nas 
pra^as e pelas pessoas humildes^ explica o pensaménto 
nacional da eschola de Gii Yioente no seculo xvn. (2) 
• Sé no seculo xvi o theatro nacional luctoa pe- 
la liberdade de consciencia, no seculo xvii nào foi 
menos nobre a sua missào, fazendo com que nào des- 
apparecesse completamente a lingua nacional. D. Fran- 
cisco Manoel escreveu todas as suas comedias em 
Bespanhol, à excep^ilo do Fidalgo Aprendiz, composta 
quasi por curiosidade; adiante a analysaremos em nm 
capitulo especiaL Livreiro Francisco Lopes, que 
tanto trabalhou com as suas Sylvas e rela^Oes de mila- 
gres para popularisar Dom Joào iv, e animar a multi- 
dfto nas luctas da indépendencia, tambem escreveu o 
Auto e Colloquio do Nadmento de Christo; viveu entre 
1610 e 1680, (3) e muitos dos seus versos chegarama 
entrar nas versòes oraes do romanceiro do povo. (4) 
Chronista Frei Lucas de Santa Catherina, nascido em 

(1) Tempio da Memoria, poema epithalamico nas felicis- 
simas bodas do Excellentissimo Senhor Duque de Bragan^ 
etc. . . por Manoel de Galhegos. Lisboa, por Louren^o Craés- 
beeck, 1635. 

(2) Vid. Historia do Theatro portugtiez no seculo XVI^ 
liv. II, p. 295. 

(3) Barbosa, Bihliotheca Lusitana, t. ii, p. 175. 

(4) Floresta de Eomances, p. 160 ; Eomanceiro de Aretviatf 
n.® 72. 



NO SECULO XVII 219 

Lisboa em 1660, escreveu o Oriente illustradoy Primi" 
das ffentilicaSf que Barbosa classifica de «Auto muito 
largo da Adora^ào dos Reis Magos, em verso,» (1) 
Professou a 11 de AbriI de 1680^ no convento de 
Bemfica, aonde morreu a 6 de Outubro de 1740. 
Nos Conventos portuguezes eram permittida« as re- 
presenta9òes hieraticas ; iste contribuiu para conservar 
una restos de vida no theatro popular do secalo xvil; 
nos mosteiros de mulheres, aonde nào reinava a eru- 
digào pezada, mas as santas almas se alimentavam com 
as lendas agiologicas, ai achava o Auto um elemento pa- 
ra se desenvolver. Soror Maria do Céo, foi urna d'es- 
tas creaturas que alegrou a solidào das suas compa- 
nhéirns; nascida em Lisboa a 11 de Setembro de 1658, 
de Antonio De^a e D. Catherina de Tavora, entrou pa- 
ra o convento da Esperàn^a, da ordem iranciscana, a 
27 de Junho de 1676. Escreveu tres Autos de Santo 
Aleixo, intitulados Maior Fineza de amory Amor e Fé, 
e Aa lagrimas de Roma. Escreveu mais o THumpho do 
JRosario repartido em cinco Autos; a influencia hespa- 
xibola, que por este tempo ia extinguindo os Autos na- 
cionaes, tambem a levou a compór tres comedias hes- 
panholas Fn la cura va laflechay Perguntarlo à laa Fa' 
trellasj e Fn la mas escura noche* A influencia hespa- 
nbola ia dominando os espiritos mais affeigoados & es- 
chola nacional ; por isso vemos um mesmo auctor es- 
crever Autos portuguezes ao antigo, e comedias comò 

(1) Id. ib., t. Ili, p. 42. 



220 HISTOBIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

e 

se usavam na córte de Madrid. Manoel Coelho Bebel- 
lo, naturai de Pinhel, publiea a Musa EntreieiAk de 
vario8 Entremezes em 1658, com vinte e cinco entro- 
mezes portugue^es e castelhanos. D'este li\TO diài 
Garrett no prologo do Jornal do Conservatorio: «Os 
nossos portuguezes esere veram hespanhol; e ainda de- 
pois de restaurados, ainda em todo o seculo xvil, umi 
so produe^ào, a Musa Entretenida^ so essa produc9io 
appareceli) Em rigor nào é assim; està produca tor- 
nou-se a mais popiilar. Muitas comedias de Bebello 
ficaram manuseriptas, apesar de terem sido freqaea- 
tes vezes representadas. (1) Os espiritos mais empe- 
nhados nas tradigOes nacionaes, cultivaram irresisti* 
velmente o tbeatro de Gii Vicente; o genealogista An* 
tonio de Sampaio Yillas Boas, ixascido em Guimarla 
na quinta de Fareja, a 27 de Agosto de 1629, tainI)eoi 
escreveu uni Auto popular. Querendo celebrar o mon- 
te de Ayró, proximo de seu solar, escreveu o AtUoà 
Lavradsira de Ayró^ publicado em Coimbra em 1678. 
D'este Auto diz Barbosa Macbado: ^Imprìmiu corno 
nome supposto de Joào Martins. — No qual (Auto) 
com engenbosa fabula era verso portuguez refere « 
amores de certo pastor e sua transforma^ào em o moB* 
te Ayró, e a conversào da amada Nympha em a fonte 
da Virtude, da qual elle se lembra em a NobUiaràk 
portuff.y cap. 9, p. 93.» (2) Foi nomeado Desembtf- 



(1) Barbosa, Bill. Lus., t. ni, p. 222. 

(2) /(/.,ib., t. i,p. 428. 



. NO SECULO XVII 221 

gador da Rela^ào do Porto em 1689. Outrò honiem 
respeitavel pelo seu saber e altos cargos que occnpon, 
José da Cunha Brochado, cultiva a fórma do Auto po- 
pular, quando jà se debatia com outro terrivel concur- 
rente — a Opera italiana. José da Cunha Brochado nas- 
oeu em Cascaes, a 2 de AbriI de 1651; d'elle existe o 
Auto da Vida de Adào pae de genero humano, primei- 
ro monarcha do Universo^ publieado coni o pseudony- 
mo de Felix José da Soledade. As CommissOes politi- 
cas em que andou nos annos de 1669, 1704, 1710, 
1705, e 1725, levam a crér que o seu Auto seria es- 
cripto ainda no seculo xvii. (1) Nascimento de Chris- 
to e Santo Antonio eram os assumptos privativos do 
tlieatro portuguez quando obedecia ao gesto popular. 
De Clemente Lopes, naturai de Torres Novas, se pu- 
blicaram dois Autos anonymos, o Auto do Naecimento, 
e a Comedia de Santo Antonio, Barbosa contenta-se 
eom dizer que era presbytero, e nao Ihe assigna èpo- 
ca, d'onde se induz, que sera pelo menos do seculo xvii, 
Gregorio Ayres da Motta e Leite, naturai da Gallega, 
aonde nasceu a 9 de Maio de 1658, escreveu o Entre- 
mez das Donzellas^ e ao mesmo tempo obedece d in- 
fluencia hespanhola na Comedia Duelos y zelos hazen 
lo8 hombres necios. (2) Egual phenomeno se dà 6om 
José Correa de Brito, naturai de Lisboa, auctor de El 
Mercurio divino^ Auto Sacramentai y allegorico^ pu- 
blieado em 1678. 



(1) Id,, ib., t. II, p. 843, 

(2) Id., ib., t. n, p. 410. 




222 HISTORIA DO THEATRO PORTDGUEZ 

Aos mnitos poetas da eschola-dramatica nacionil 
temos a accrescentar o epico Manoel Thomaz, natonl 
de GuimaràeSy terra aonde muito cèdo a fórma deAor 
to foi usada pelo Padre Francisco Vaz; o auctorda 
Inmlana era filho do Doutor Luiz Goines de Medei- 
ros e de Dona Garcia Yaz Barbosa; as saas composi- 
9òes dramaticas ficaram manuscriptas, e por assim £- 
zer, perdidas. Eram Quatro Autos Sacramentaes, CtA- 
co ComediaSj Varias Loaa e Vilhancicos. (1) Em Bio- 
mar representou Gii Yicente a far9a de Inez Pereira^ 
e mais tarde foi continaada a tradi^ào da sua eschoh 
no Auto de SansàOj no AtUo de JS. Braz e no Avio ìa 
Nascimento de Chriato Senhor fiosso j por Fedro Vii 
de Qaintanilha. (2) Barbosa Machado n&o determitt 
època algama da sua vida, nem diz se algom d'eriai 
Autos foram impressos; por isso crémos, por estaim- 
possibilidade de Barbosa em obter noticias, que Tu 
de Qaintanilha pertence tambem ao principio do se- 
culo XYII. 

Està rica efflorescencia da litteratora dràmatica 
no secalo xvii era ama consequencia do que havi» 
maita vida no theatro portaguez ; escasseam-nososdo- 
camentos para provarem està verdade, mas do poaco 
que alguns cariosos conservaram se dedoz até qne 
ponto as representa^Oes hieraticas se haviam incama- 
do nos costames do povo portaguez, Na Miscdhnea 



Ìl) Barbosa, Bibl, Lus,^ t. m, p. 396. 
2) Id., ibid.» t. lu, p. 624. 



NO SECULO XVII 223 

de Miguel Lei tao cVAndrada, na descrip9ào das lestas- 
que se fizeram a Senhora da Luz, na Villa de Pedro- 
gam grande, antes de 1629, se conserva urna Bepre- 
sentagào das Nove Musas, um Colloquio ao divino 
sabre a restauragào do mundoj entre tres Pastores em 
nome das Tres pessoas da Santissima Trindade^ e o 
Passo da Assumpgào de Nossa Senhora ao céo. Essas 
paginas sào de um alto valor historico, e sem ellas 
pouco se conheceria do theatro popular n^esse secalo. 
Falando da chegada da imagem da Senhora da Luz, 
descreve Miguel Lei tao: 

«E logo ao entrar na Egreja, se Ihe representou 
urna Danga das nove MusaSy que sairam a festejal-a, 
offerecendo-lhe cada qual d'ellas a arte de que foi in- 
ventora. Comodando Clio com um livro na mao, a qual 
era a guia da dan^a: 



Eu que fiz a historia 
Que ledes o Irataes curiosa gente, 
Venho f azer notoria 
Nas partes do Occidente, 
Quem no ber9o do sol jà fìz patente. 



«E com outro livro na mao, disse Caliope: 



Eu Caliope Musa 
Inventora do verso arrogante, 
De meu sabor confusa. 
Me venho aos pés dianto 
D^outra Musa mais nobre e elegante. 



i 



224 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



«E oom urna comedia na ra&o, disse Thalia: 



Thalia, eu que vantagem 
Nfio dava em meus discursos a Minerva, 
Jà pago vassalagem, 
A quem o céo reserva 
Por quem sendo Seuhora jà sou serva. 



«E Melpomene, com urna tragedia na mào: 



Melpomene, eu, que d'antes 
Cantei tragedias tristes e chorosas, 
Com alegres discantes 
Direi divinas prosas, 

Que logo, Virgem, o sfio quando sfio yossas. 
Urania : Eu a Musa Urania 

Que eniendendo dos céos o movimento, 

Ensino Astrologia 

Por saber outro céo, outro elemento. 



«E com um livro de Rhetorica, disse Polimnia: 

Polimnia eu, que ensino 
modo de dizer mais eloquente, 
Jà do que fui declino. 
Que o vosso excellcnte 
Faz que pareva rudo o mais sciente. 

« Com um papel de solfa na mào, disse Eaterpe: 



Eu Euterpe, quo o ponto 
Da musica inventei, e o doce canto, 
Jà de mi me affronto, 
Porque nfio chego a tanto 
Que diga um novo solfa de um sol tanto. 



NO SECULO XVII 226 

rato com nm compasso na mào, disse : 

Nao póde em louvor vosso 
Fallar Erato, ó Virgem Maria, 
Qae n^este intento nosso 
Alem da Poesia 
Mais importa saber, que a geometria. 

Tpsìchore com urna cithara na mào, disse : 

Se eu cantei té agora 

Terpsichore ao som d'este instrumento, 

Meu canto se melhora 

Depois que em doce accento 

A Assump9&o canto vessa o o subimento. 

acabando de dizer as Musas, come^aram logo 
ma dan9a muito airosa, porque eram todoa mo- 
rea e estvdantes. Porém descan^ando no meio 
lanQa, offereceram logo à Senhora suas scien- 
ndo-lhe no andor a seus pés cada qual seu in- 
ito que as representava com muitos louvores 
ìa e verso elegantissimos. 
»go vieram dois bellos meninos^ e ricamente 
} corno pagens e embaixadores das Nymphas, 
nalhetes, que da parte d'ellas davam às Musas, 
01 paga de quào bem souberam empregar e ren- 
s sciencias. E ficando-lhe na mào a cada uma 
dinas sua capella, e fallando com ellas um pon- 
te da Senhora. E com os ramillietes antes de 
m, e apoz isso se vieram com ellas e as entre- 
&s Musas, dizendo primeiro um d'elles d^esta 
a: 



226 HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ 



As Nymphas mui prìmorosas 
£m quem tenlio meus nmores, 
Por mini vos mandam cstas flores, 
Estes cravos e cstas rosas. 

Mas lido sei se em taes primorcs, 
Se lììostrani inni orgulhosas, 
Pois mandam rosas a rosas, 
E Àorcs ^s mesmas flores. 

Porém é juizo meu 
Que n'estas màos que bSode tel-as, 
As rosas fìcam cetrellas, 
As flores, flores do céo. 

E porque taes flores possam 
Ser flores que f ructifiquem, 
Quando em m(los tdo bellos fìquem, 
De f ruoto e belleza gozara. 



C[E logo entregarain às Musas os ramilhetes, 
qiiaes dannando com elles, se foram pondo de duas 
diias de giollios diante da Senhora, e Ihos deram poni 
Ihos no andar por ordem, que n'ello ficaram fermos 
E dizendo primeiro: 



cuo:' As flores que nos mandaram 

Nymplias, quo os prados correram, 
So para vós as colheram, 
So para vós si criaram. 



CALiopE e THALiA : mcnos que eu imagìno 

De ser tosso Soberano, 
E, o que cm nós é profano, 
Em vossas màos é divino. 



e THALiA : Estas flores naturaes 

Que sAo terrenas por nossas, 
Logo comò forem vossas, 
Hdo de ser celestiaes. 



NO SECULO XVII 



227 



XELPOHENE 6 URANIA: 



Fodera, Prìncesa, tornar. 
Flores que em vossas mAos vein, 
Quo se aqui ndo estAo bem 
Ai esUo DO seu logar. 



usanla: 



POLIMINLA e EUTERPE : 



EUTERPE : 



ERATO e TERPSICHORE : 



TERPSICHORE : 



VÓ8 Ihes daes valores taes 
Junto a v6s. que pelo menos 
Se ellas por nossas s3o menos, 
Por vossas sAo sempre mais. 

A vós com mais egualdade 
Se dfio flores de belleza, 
Que sois rosa de pureza 
E lirio de castidade. 

Sois rosa que a terra deu, 
Que em si tal cheiro encerra. 
Que encbendo de ebeiro a terra 
Rescendeste là no céo. 

Entre tanto vosso esposo 
De boninas se contenta, 
Que entre ellas se apacenta 
£ seu ebeiro gracioso. 

Vós Virgem, que por ser fior 
Deu por fruito todo o bem, 
Tomae estas, pois tambem 
Flores buscam a mesma iior. 



« E apoz as Nymphas, offereceram tambem os doiis 
meninos as duas capellas, que Ihe ficaram & Senhora^ 
e postos de giolhos depois de bailarem, disse em alta 
Yoz o prìmeiro: 



oravo, a rosa e a fior 
Bem parecem na cabe^a ; 
Mas aos vossos pés, Princeza« 
Parecem eatai me\\ioi. 



228 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

<kE com isto pdz logo a capella no andor aos pés da 
Senhora, dizendo o segando menino o seguinte: 

Por fa^anhas glorìosas 
Tendes, Virgem, por thesouro 
Na cabota mitra de ouro, 
ós pés capella de rosas. 

«Qae a elles no andor Ihe pdz^ e logo elle e as Ma- 
sas foram andando por diante dannando, indo tambem 
a Senhora qìie a tudo isto esteve a entrada da egreja, 
em hombros dos cavalleiros que a levavam em seus 
pontaletes.D 

Aqni temos um Auto bieratico representado antes 
de 1626, conservado na sua inteireza e descripto com 
a veracidade de quem estere a elle presente. Apesar de 
todas as Constituigòes dos Bispados^ o tbeatro popular 
queria viver, gastar a seiva immensa que adquirira. 
Agora segue-se o Colloquio ao divino; assim que a ima- 
gem da Senbora da Luz entrou na egreja, foi pósta no 
cruzeiro : « Onde logo se come^u outra representa^lU), 
que foi um Colloquio ao divino sobre a restaurando do 
mundoj entre tres pastores em nome das tres pessoas da 
Santissima Trindade. E Nossa Senbora feita tambem 
pastora, oom um propheta, que foi o primeiro que 
falou d'està maneira: 



No sé que me bade hacer 
Qae de veras me he metido 
Em theatro tan sabido. 
D*onde por f aer^a hede ser 
Jasgado por atrevido. 

PoTqwQ do «l «aber se esmalta 
En YiCTmo6u.t«ii \a». à\aw 



NO SECULO XVII 229 



Glaramente todos ven, 

Que aunquo el hombro liablo bien 

El atrevìmento es falta. 

Pero al fin ya es cada dia 
T de ordinario in tal fìesta, 
l^cmpre el horabre manifiesta 
Parte de 6U grosseria, 
Con poesia mal corapuesta, 

Ann que si en el algun lugar 
Tuve oocasiou de hablar 
Y de salir sin verguen9a 
Es en lo que oy se comien9a, 
A quererse os dcclarar. 

Porquc veran contender 
Tres divinos amadores, 
Los mas altos, y mejores, 
Por la mas linda muger 
Que ja mas supo de amores. 

Y sobre està pretencion, 
Se funda la redempcion, 
Del mundo : y corno esto sea 
Si es la Virgcn la presea, 
Ya vereis ellos quien soo. 

Las tres divinas personas, 
SoD que vienen a altercar, 
Sobre qual ha de encarnar 
En Maria, y quales dones 
Cada uno le ha de dar. 

Y han do mostrarle en figura 
De pastoril vestidura, 

Que si no es en n nostro trage, 
No ^tendemos el lengoager, 
De la divina acri tura. 

La del Autor lengua morta 
Es para tan alto ofiicio. 
Mas vemos que Diós despierta. 
Al grosero con que acierta 
Quando es en su servicio. 

Cali ad todos si os parece 
Pues la invencion lo raerece, 
Que si en representacion 
Fue necesario atencion, 
Es en està que se ofrece. 



230 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

^"Eà após isto se come^ou a dita representa^ào, que 
foi sutilissima, e de excellentes coaceitos; e pontos tilo 
Bubidos de ponto, quanto vos nào sei encarecer. Apa- 
reoendo o Padre E(emo, dizendo & Yirgem Nossa Se- 
nhora estes louvores: 



Es de tanta gracia llena 
Mi pastora y mi Zagala, 
Que no tiene cosa mala 
Ni le falta cosa buena. 

Ella no tiene maldad 

Y tiene gracia divina, 
Ella bade ser medicina, 

Y no tiene enfermedad. 

Y es del mundo tan agena, 
Que en ci Cielo se regala, 

Y no tiene cosa mala 
Ni le falta cosa buena. 



«E despois Deos Filho, e Deos Espirito Santo, e 
de dizerem da Yirgem outros gabos, vierào a condair 
por muitas rasOes que se derào altissimas. E por con- 
sentimento da mesma Yirgem, que o Filho encamas- 
se, e se fizesse homem em seu preciosissimo ventre, e 
remisse a gera^ào humana, ficando sempre entro ho- 
mens no Santissimo Sacramento do Aitar, e se acabou 
a representa^ào nesta cantilena, que se cantou excel- 
lentissimamente, s. huma vóz a som de instrumentos 
que disse: 

Diós que tiene quanto quiere 
Despues que se dà en manjar 
No le queda mas que dar. 



NO SECULO XVII 231 

«E logo a tres vozes; e instrumento maito deva- 
gar e snavissimamente: 

No puede un enamorado 
Dar mas, ni dar mas ha, 
Quando a si inìsmo se dà, 

Y la vi da por lo amado 

Ya el hijo de Dios se ha dado, 

Y haziendose manjar, 

No le queda mas que dar. (1) 

Miguel Leitào continua descrevendo està curiosa 
festa no Dialogo xii dvL*Miscellanea, e ai nos apresenta 
o Auto que se representou no Domingo, dia àa pro- 
cissào: 

«Em tres lugares acommodados, houve represen- 
ta95es de erdremezea rauito aprasi veis sobre argumen- 
tos e senten9as que vos nào digo por acodir ao mais. 

«E acabada a procissào se come^ou bum passo da 
Assumpgào da Senhora aos Céos d'està maneira : 

c:Estayào pera bum pedestal do arco cruzeiro da 
banda da espistola feitos nove degraus largos, e espa- 
QOSOSy que cbegavam ao alto do cruzeiro cobertos de 
alcatifas, e outras sedas muito bem concertados, e no 
cimo delles bum eco que por maravilboso artificio fei- 
to de bum pavelb^o de damasco azul que se abria por 
si, e cerrava, e nelle pegadas muitas estrellas. E ao pé 
desta escada bavia um cubiculo que sabia de debaixo 
della, donde sabio Nossa Senbora, que era bum menino 

(1) Miscellanea^ Dialogo xr, p. 223, cdi^. de 1867. 



232 HISTORIA DQ THEATRO PORTUGUBZ 

lindissimo com as maos levantadas, acompanhada de 
dons ÀDJoSy e em cada degrau estavào odtrosdousÀn- 
jos defronte bum do entro. E pósta a Senhora ao pé 
da escada, e querendo poer o pé, fallarlo logo duas fi- 
gnraSy huma emnome do Céo qne estava no primeiro 
degrau, e entra afastada em nome da Terra, ambas 
vestidas em modo que bem o assemelhavào ; e a Terra 
disse: 

TERRA 

Alto céo, por bem vos seja 
Este bem qae me levais : 
Quam bem hoje vos vingais 
De vessa passada inveja 
Nesta que me ora deixais. 

Ninguem mereceres nega 
Thesouro tSo rico e bello ; 
Mas a magoa de perdel-o 
(Se a confessar iste chega) 
Chegar nfio pode a so£Erel-o. 

Que farci à saudade 
Vessa, divina Maria? 
Com quanta rasSo temia 
Faltar-me tal claridade 
Quando mais nella me via. 

Is-vos de mim meu fiel 
Eraparo, podeis deixar-me? 
^ De vós nSo posso queixar-me, 
Do Geo si: pois tao cruel 
Me vos deu pera roubar-me. 

summo bem que em mi tinba 
Tudo brando me fazia, 
E se a ddr me combatia 
Tinba mais perto a mesinha 
No amparo de Maria. 

Agora tAo desditosa 
Que fa^a ndo sei por certo: 
He meu nojo descuberto 
Pois me leva o Geo tal rosa 
fera eu ficar bum deserto. 



NO SECULO XVII 283 



C^O 



Terra, em qae tua inveja 
He tAo iusta corno a inìnha, 
Eu porem mais rasfio tinha 
Na falta qua em ti sobeja 
Com me reter tal Bainha. 

Honra-te do benefìcio 
De a teres tfio barata ; 
No passado a inveja mata, 
Pois vés ser minha ab iniHo 
Ante secula creata. 

Ante aecula creata 
Sem mais temporalidade 
Principio f oi a vontade 
De Deos pera ser gerada 
Sem idade a saa idade. 

Pelo que, Terra excluida 
Da queixa toma-te atraz, 
Com eu guerra me f aràs 
Terra basta estar subida 
Por ella onde hoje estàs. 

N*esta joia que me deste 
Tambem a ti sobreveio 
Novo gabo, e sem meio 
Pois diràs que em ti tiveste 
Os bens de que eu estou cheio. 

TEBBA 

Céo, tamanha saudade 
Nao se acabe onde sobeja ; 
Pois he for9ado que veja 
Que nfio póde essa vontade 
Fazor amor que o nfio seja. 

Minha gloria, mtnlia gloria, 
De mi ao Geo traspassada 
Bem estais n'elle empregada 
Mas magda-me a memoria 
De YÓs vendo- me apertada. 

Embora ^adee Senhora 
Que tanta deaeja o Céo, 



\ 



234 HISTORIA DO THBATRO PORTUGUBZ 

E em qae o modo se excedeo 
Dando Deos mais a penhora 
Do que em Eva se perdeo. 
Becebei Céo, tende claro 
O bem que mea ser sohia: 
Fazei-lhe tal companhia 
Que se entenda e veja claro 
Quanto ganhais com Maria. 

«E logo o Céo disse pera a Senhora, estando { 
dos Anjos, d'està maneira: 

C]ÉO 

Enlrai nas posses divinas 
Que convém a honra minha 
Terem Anjos tal Rainha, 
£ ter en alm'&s tfto dìnas 
Em corpos que antes nfto tinha. 

Estas chaves vos entrego 
Pelo que a homens importa, 
Que Deos tudo em vós reporta 
Pera que me abrais nSo nego, 
Pois sois f eliz caeli porta. 

a: E fallando com os Anjos: 

Anjos pois come9ai jà 
Louvar vessa Emperadora. 

GABRIEL 

Ave Maria Senhora 
Quero-vos saudar qua, 
Como na terra fiz outr^ora. 

NlU) foi a troca pequena 
Deixar vida transitoria. 
Por està que com Victoria 
Vos recebe grada piena 
Para ser cheia de gloria. 



NO SECULO XVn 235 

De gra^a cheia comnosco 
Vos teremoB por coróa, 
N*esta entrada tAo boa, 
Dominus tecum comvosco 
Tereis a Deos em pessda. 

Vede pelo que jà vistes, 
Se ficou de effeito nu 
Em conceber a Jesa, 
Là Virgeiii quando o paristes 
E qua benedicia tu, 

dando-lhe ama palma: 

Està palma por ser forte 
Senhora vos he devida ; 
Vessa he, pois nfio vencida 
Jà triumphastes da morte 
Que venceo a mesma Tida. 

Beuta Joia hi por diapte, 
Nfto se impida vossa via. 

pera osThronos: 

Thronos, recebei Maria, 
Recebei-a triumphante, 
Com prazer, e alegrìa. 



THRONOS 

Com que sinaes de prazer 
Senhora vos mostraremos 
bem que comvosco temos. 
Se nSo com nos parecer 
Que he pouco f azer estremos. 

Virgera cheia de pureza 
Livre de todo o peccado, 
Pois de vóe foi sopeado 
Entrai em titulo de Alteza 
Que vos dà o vesso amado. 



236 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



Tomai pois, Sonhora minha, 
Aquesta offerta de mim, 
A vós vem corno a seu fini, 
E he bem que a tal Rainha 
Thronos Ihe dem o coxini. 



«E subindo outro degrau, Ihe ofFerecerào hum co- 
xim de veludo, guarnecido de ouro, e pósta a Senho- 
ra n'elle, disse hum Throno pera as Domina^Oes o se- 
guinte: 

DominagOes, a vós passa 
O prazer de m^ em mS.o : 
Quem prenderà està rasSo, 
Que TìSiO fora t((o escassa, 
Do que seu0 gostos nos dfio. 

Passai Senhoramui clara, 
De rever-me em vós nSo acabo. 

<rE lego as Domina^Oes: 

Chegai Virgem que a vós gabo 
Que vosso chegar n&o para 
Se odo ii'um cabo sem cabo. 

Salve Regina, Senhora 
Termo da velha discordia 
E priucipio da concordia, 
Que a justi^a vingadora 
Tomastes misericordia. 

Por vÓ6 e a vós suspirando 
Mil annos ha temos posto 
Mil espias a este gosto. 
Té assomar este quando 
Com a manhfi d'esse rosto 

Pois tendes lugar segundo 
Deos consente ser assim 
Que vos cordem aquì, 
Pois sois Senhora do mundo 
Ex hoc nunc até o firn. 



NO SECULO XVII 237 

S pondo-lhe logo huma coròa na cabe9a, disserào 
OS Frincìpados: 

Princìpados, porta aberta 
Becebei hospeda tal. 

PRINCIPADOS 

mais pura que crìstal, 
Vessa yinda he descuberta 
Na luz que em vós deu sioal. 

Nflo passeis, alta princeza, 
Sem honrar o dosso choro ; 
E pera isso vos penhoro, 
Gom ter vossa humilde alteza 
Em principados seu fòro. 

Ditosa foi a tardan9a 
De tal bonina no matto, 
Entre espinhos e mau trato, 
Porque ora nossa e8peran9a 
Mais ei^ima o nfto barato. 

Encheis o céo de alegria 
.Gloria d*elle, lionra da terra ; 
O sol seus raios encerra, 
Vendo em Tossa luz Maria, 
Luz que sua luz desterra. 

E pois ter-Yos mais nfto impetro 
No caminho que a Deos segue, 
Tal Magestade nfio negue 
A m fio a est e bom sceptro 
D'isso que niella se erapregue. 

E dando-lhe na mao o sceptro, disse virando-se 
as Virtudes : 

Virtudes, lograi-vos ja 
D'este bem que a nós f ugio 
Quem na terra vos Servio 
Senhora no Geo sera, 
Do que'por nós adquirio. . 



238 HISTOEIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

«E logo um Anjo das Yirtudes disse este 8onei< 

VIRTUDES 

Tres nomee nos trazeis por novidade 
Senhora entre as mulhercs so ditosa ; 
Tres nomes que nSo podcro achar grosa, 
No Ceo pera vos dar mor di^nidadc. 

Sois mai do Verbo, esposa da Trindade, 
Ser mfti nfto vos tirou ser venturosa, 
Parindo Virgem, virgem sendo esposa^ 
Pera ser virgem e mfti em egualdade. 

Nós Virtudes que em vossa alta morada 
Là vivemos, na terra e od estamos, 
Mui honradas por vós com mil f avores : 

Que vos daremos, Virgem, n^esta entrada 
Com que a vossas gra9a8 respondamos. 
Senfio estas em vós divinas nores? 

ce E dando-Ihe logo bum lindissimo ramalhete^ d 
serao: • 

Ditosa vinda que encerra 
Em vós, Virgem, tal tropheo, 
Que na pureza e no veo 
Os Céos levaste à terra 
E trazeis a terra ao Céo. 

Passai Senhora adian te 
A mores prosperidndes. 

«E virando-se para as Potestades: 

Angelicas Potestades 
Fazei festa que discanto 
Sobre estranhas novidades. 



POTESTADES 

Vinde, thesouro de vida 
Bainha mui poderosa, 



NO SECULO XVII 239 

Tfio bello quanto f erniosa, 
Fermosa quanto querida, 
Tao querìda e gloriosa. 
,. Tal sois, Virgem, por nobrezia, 
N'este vosso subimento 
Alta em tanto comprimente 
Que sois cedro na grandeza, 
Cji>re6te em merecìmento. 

Sois o cume da prudencia, 
Castello forte em bondade 
Murado de castidade 
Fundado uà paciencia 
Com as cavas de humildade* 

Sois a vara de Jessé, 
Em a mfio de Deos fiorente 
Sois em charidade ardente 
Viva tocha em mdos da Fé, 
Que ve passado e presente. 

Pois tal sois, està cadeira 
As Potestades vos dflo, 
Dada conforme a rasSo ; 
Que quem na terra foi inteira 
Merece tal galardfio. 



tt S logo bum Cherubiin e Seraphim Ihe apresen- 
blo huma cadeira rica, e a elles disse hum Anjo das 
bestades: 

POTESTADES 

Cherubim, Seraphim, de novo 
Mostrai vessa melodia, 
E ambos em companhia 
Conforme cortezfto povo 
Rea]9ai nossa alegria. 

a E assentada a Senhora na cadeira, olhando o 
lerubim e Seraphim hum pera o outro, cantarlo 
e: 



240 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



SONETO 

CHBB. Quem he està que coni snave cheiro 

De virtades subindo pOe espanto? 

He Eva? skraph. NSo. mas quem scu pranto 

Acaba : e Hvra Adam do cativeiro. 
CHEB. Quem tinba a terra d'um scr tfto inteiro? 
SBRAPH. Està a quem o Céo hoje deu tanto : 
CHEB. 6eu nome? sbraph. Maria, o mais santo : 

CHBB. Qùe lugar? sbrafh. Despois de Deos heoprìmeiro. 

CHEB. Està he Maria, sobi'e os córos subida, 

Inda quasi o duvido porque engana, 

Vel-a da terra vir e ser tfto dina. 
8EBAPH. He dina, pois de Dcos foi escolhida. 
CHEB. Porqnc da terra vem? sbbaph. Porque he humana. 

CHEB. E porque sóbe ao Cco ? sebaph. Porque he divina. 



cEstando assi a Senhora no alto asseutada na ca- 
deira rodeada de Anjos, se tocarào os instramentos e 
OS musicos cantando suavissimamente se foi abrindo o 
Céo muito devagar, que quasi se nào via, e foi ponco 
a pouco cubrindo a Senhora, que ficando dentro com 
OS Anjos se oerrou por maravilhoso artifioio.B (1) 

Bem haja o curioso Miguel Leitlio de Andrada, 
que nos conservou estes tres curiosos Autos hieràticos, 
corno verdadeiros symptomas de vida do theatro na- 
cional no primeiro quartel do seculo xvii. theatro 
portuguez, no tempo em que Gii Vicente o creou, e 
quando a sua eschola Ihe dava depois da sua morte um 
prodigioso desenvolvimento, representava em Portu- 
gal o espirito secular da Reforma, proclamava a liber- 
dade da consoiencia e da rasào, e a egnaldade civil. 

(1) Miscellanea, Dialogo xii, p. 227 a 236. Ed. 1867. 



NO SECULO XVII 241 

No sedilo XVII, o que poderia elle fazer quando a li- 
berdade da coDsciencia estava violada e extineta pelas 
fogueiras do Santo-Officio, pelos hidex Expurgatorios 
dos Jesuitas, e pela pressào do despotismo da usurpa- 
9ào hespanbola? Pobre e despresado, o theatro nacio- 
nal teve ainda urna missào sublime a cumprir; foi in- 
sensivelmente revolucionario, porque ao passo que os 
escrìptores cultos escreviam em latini ou em hespanhol, 
e se esqueciam da lingua materna, o principal elemen- 
to de urna naeioualidade, o theatro popular conser- 
vou-a, fez com que a lingua portugueza se nao tor- 
siasse morta entre a mnltidào. 



il 



242 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

O-AJPITXTIjO V 

Drama hieratico da ProcissSo de Corpus Christt 

Os dramas liturgicos no seculo xvu. — Pela prociseao de Cor- 
pu8 Christi se descobre o espirito da unidade das Jurandaa. 
— Analogias com as f estas dramaticas do Meio Dia da Fran- 
9a. — Drama hieratico de Coimbra em 1617. — Regimento 
que fìzeram os Officiaes do Porto em 1621. — A festa do Es- 
pirito Santo era o drama hieratico dos nobres. — Como o ca- 
nonismo catholico extinguiu o genio dramatico dos Mosa- 
rabes. 

Das festas religiosas e ci vis da edade inedia con- 
servadas em Portugal, urna -so resìstiu por mais tem- 
po a rigìdez canonica do Concilio de Trento : foi o sym- 
bolismo liturgico da procissào de Corpv^ Christt ^ que 
chegou aie ao seculo xvii. Qual a rasao da sua iena- 
cidade? A confraternidade dos mesteiraes e dos o£B- 
cios, que n^ aquelle dia eram levados pela solemnidade 
religiosa a dcsfraldarem as suas bandeiras e a consti- 
tuirem-se em Juranda. E curioso esse immenso dra- 
ma, parecido com as pantomimas indiaticas, com que os 
bons homens de trabalho saiam representando allego- 
ricamente todas as figuras do Velho e Novo Testamen- 
to. A mesma festa que se fazia em Portugal, estava 
tambem nos costumes do meio dia da Fran9a: «Na 
Provenza, por occasiào do Corpo de Deos, a cidade de 
Aix fazia uma procissào, que confundia em urna pom- 
pa ridicula scenas tiradas da Mythologia, do Antigo e 
do Novo Testamento. Em Beziers, era levado pelas 
ruas um camello. Ao norte, em Dueai, Cambrai, Va- 



NO SECULO XVII 243 

lenciennes e Lille, mauequins gigantes corriam as ruas, 
baptisados comnomes extravagantes.» (1) Pelo Regi- 
mento da festa do Corpo de Deos^ de Coimbra, feito 
em 1517, os forneiros da cidade davam urna judenga 
com sua toura^ e o juiz do officio era obrigado a apre- 
sentar seis homens acque andem nà dita* Judenga com 
boas canas e vestidos, segando se reqner pera o tal au- 
to, etc.3> Os ferreiros apresenta vam o Segitorio; os car- 
pinteiros davam «a Serpe, com uma silvagem grande» ; 
OS barqueiros traziam cihum S. Christovào muito gran- 
de com um Menino Jesus ao pescoso, todo bem corre- 
gido;» OS pedreiros eram obrigados a «levarem todos 
Castellos nas màos bem obrados, asi corno se costuma 
na Cidnde de Lisboa»; os alfaiates eram obrigados «de 
jBazer bum Emperador com huma Emperatriz, com ci- 
to Damas»; os correeiros eram «obrigados de fazerem 
Santa Maria da asninha e jochym, tndo bem feito e 
oorregido»; os ataqueiros «obrigados de fazerem S. 
Miguel e dous diabos grandes, todo bem feito, e comò 
oumpre para tal auto;'» os barbeiros «bande levar S. 
Jorge pintado;» (2) Alvaràs de 30 de Maio de 1560, 
e de 13 de Maio de 1561 comecaram a prohibir estas 
pantomimas bieraticas; apesar dos regulamentos ci vis 
e administrativos o costume prevaleceu até ao fim do 
seculo XVII, comò se ve pelo seguinte documento, de 
15de Julhodel621: 



(1) Martoune, Lapieté au moyen age, p. 47. 

(2) Recolhido por Joao Fedro Ribeiro, nas Dissertagóea 
Chronologicaa^ tomo iv, parte ii, doc. xxix, p. 226^ extc«Jk\d5^ 
do Livro da Correa, da Camara de Coivnbxoi^^.^^. 



244 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Accordo e Regimento^ qae fizerào os Officiaes da Ca- 
mara da Cidade do Porto, para a Procimo à 
Corpus Chris ti, corti parecer do Doutor Antonio (k- 
bral, Chancdler da Rela^ào, e do Bispo da dita Ci- 
dade^ conforme as Provisoes de Sita Màgestade, 

■ w 

(sJtem. Prìmeiramente os Horteloes e moradoresdì 
fregnezia de Santo Illeafonso, coni seu Bey, Empera* 
dor, Usso, carro, e montaria, o acompanharào o Usso 
pello mehos outo Iiomes coni suas Lan^as e Cbafas^ 
quatro de cada consa. 

altem. Ira a Mourisca, qu'e a Cidade daà, e seria 
carreira de quarenta homens, com seu Bey moaro,e 
Alfaqui, e irà no firn della o canto, que dào os Confei- 
teiros, o qual sera de seis vozes, que cantem tuadas ao 
antiguo, com seus alaudes e pandeiros. 

altera. Irao as duas folias, hua do Concelho de 
Gondomar, e a outra do Concelho de ^Guaia, que » 
Cidade pagua, e serào de outo homens cada hum»,« 
virao acompanhadas do Meirinho, e Ouvidor de cad» 
Julgado, corno sempre se costumou. 

dltem. Irào os Tauerneiros, com sua bandeira, Dra- 
go, e Dama, e pessoa que com ella dance, e o Drago 
sera bem ornado, e pintado de novo em cada hum anno. 

altem. Irà o Officio dos Carpinteiros, com.sen Rev, 
Imperador, e Serpe diante, com sua bandeira, e em 
lugar da dan^a despadas, que costumavào dar,.darao 
hua danga de Siganas bem ornadas, em que pelo ine- 
nos irao dezasseis pessoas, e serào tanibem nestas ban- 



NO SECULO XVII 245 

deiras e obriga^ào os Callafates, Torneiros, Canastreì- 
ro8, Cerradores, e Caixeiros. 

iditem. Irà o Officio dos Tanoeiros, coni sua ban- 
deira, e Rej, qne farào antro si com buina dan^a de 
doze figuras bem trajadas, de quo se comporào huma 
Chacota de toadas ao moderno, para o que escolberào 
pessoas destras na muzica, e de boas vozes. 

€Jtem, Irà a figura de Sào Jorge de vulto, arma- 
do, e em cavallo bem ajaezado, e adiante quoatro ca- 
TaUos, que levarao quoatro Lacaios e junto ao Santo 
irào mais dous Lacaios tudo muito bem ornado, que 
darào os Douradores, Apavonadores, Conteiros/ e Ci- 
rìeiros. 

cftew. Irào os Barbeiros, com seu Bey, e bandei- 
m, e homens armados, que serfio dezasseis, e com seu 
atambor, e acudirào a està obriga^ào prò rata os San- 
gradores, e Ferradores. 

€ltem. Irà a pella dos Padeiros, que acompanharào 
doze mo^as, cantando a dous coros, com seus pandei- 
ros, e adufes, assi na vespora comò no dia. 

ultem. Irà o officio dos Capateiros, com seu Bey, 
e Emperador, e figura de Sao Joào Baptista, e ban- 
deira, e em lugar da dan^a despadas, que costumavào 
dar, darfto bua dan^a de Sutyros e Nimphas, muito 
bem trajadas, em que serào pello menor dezoito pes- 
soas. 

€ltem. Irà o Officio dos Fereiros com seu Bei, Em** 
perador, e bandeira, com a dan^a deispadas, na forma 

• • • « ' 

em que acoBtttmavào dar* 



246 HISTORIA DO THEATRO POHTUGUEZ 

aJtem. Irào os Pedreiros, Caboqueiros, e trabalha- 
dores do mesmo officio, com seu Bei, e bandeira, e da- 
rào huma danga de quìnze pessoas, bem trajadas, em 
forma de bogìos, e com os Instromentos de musica^ 
que ora se costuma nesta dan^a. 

altera. Irào os Alfayates, com seu Bei, e Empera- 
dor, e bandeira, e dan^a da Retorta, e seràx) com elles 
nesta obriga9ào os Calceteiros, Tecedeiras, e TecelCes. 

idtem. Irao os Merceiros, e Tendeìros, com sua 
bandeira, e mordomo que farào cada anno entre sai, e 
darào a dan^a dos instromentos, em que serào dezonto 
pessoas, com snas cabe^as de Yolantes, e ricamente 
vestidos. 

iiltem. Irào os Pastores, que serào doze os quais 
darào os mercadores de pannos, bem trajados, com boa 
musica. 

ultem. Irà o Officio de Sombreiros, e Tozadores, 
com sua bandeira, e mordomo, e darào uma dan(^ de 
doze figuras, que representarào molheres de idade, 
bem trajadas a esse respeito, e com seus arcos de cera, 
ou a falta della cubertos de flores, ou boninas. 

^Item, Irà huma follia muito boa de doze vozes, 
em canto d'orgaào, que darào os mercadores, e tra- 
tantes de vinho, com a figura de Bacho, que costuma* 
vào dar. 

<Jtem. Irà a polla das Begateiras, conforme eatà 
dito na das Padeiras. 

^tem. Irào os Celleiros, e Cutilleiros, Bainheiroa, 
Espadeiros, Caheiros, e Asteireiros, e Correeiros, oom 



NO SECULO XVII 247 

sua bandeira e caste] los bem ornados de bandeirinhas, 
boninas, e flores, e sua cera com os cavalinhos, e Anjo 
armado no meio, e os mordomos darào eni Camara rol 
asinado, em que declarem os nomes de todos os ditos 
officiaes, pera se tornar conta dos Castellos, e se saber 
se cumprem todos com sua obriga^ao. 

m Itera. Irào os Pechèleiros Latueiros, Caldeireiros, 
Agulheiros, Ansoleiros, Ataqueiros, com suas tochas, 
e irào os Orifices, e Pintores com suas tochas. 

altera. Irà a Naó de Sào Fedro, com a bandeira 
da Confraria, que acompanharào os Mestres Pilotos, e 
Mariantes de Miragaya, com suas tochas, a Naó, se 
pintarà, e reformarà cada anno. 

altera. Irà a Judich, que darào os Sergueiros, com 
sua Aya ricamente vestidas. 

altera. Irà o Sacrificio de Abrahào, que dào os 
Torcedores de sedas e Retros. 

altera. Irà a figura de Nossa Senhora, do modo 
que se costuma pintar fugindo i)era o Egipto, com o 
Santo Joseph, e dous Anjos, que acompanhem tudo, 
com o ornato, e decencia possi vel, que darào os Olei- 
ros, e pessoas que aluguào cavalgaduras. 

altera. Irà o Menino Jesu, em Charola boa e bem 
ornada, com quoatro tochas, que darào os Violeiros e 
Enxambradores. 

altera. Irà Sào Christovào, irà Sào Sebastiào. 

altera. Irào os doze ApostoUos, irà Christo com os 

AdJ€M9« 

altera. Irào as Trombetas da Cidade em Corpo,;. 



248 fflSTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

com 08 vestidos que a Camera Ihe daa, e logo os Gba- 
ramelas, tambem em Corpo. 

altera. Irào os Tabaliais, e Esorivais e Enqnere- 
dores, com suas tochas diante dos Cidadàos, que levio 
as tochas da Cidade. 

€ Itera. Irà o Guyào da Cidade, que levara o Pro» 
carador do Concelho, que servio o anno passado. 

altera. Irà a bandeira da Cidade, que. levario oi 
Vereadores do anno passado, a acompanhalaào ob Ci- 
dadflos e Letrados. 

altera. Irà David dan9ando, com seus pagens, que 
serào doze, ricamente vestidos, e os darào os merci!* 
dores do Brazil, e de outras partes. 

altera. Vào na Procissào os Beligiosos deS&oDo- 
mingos, Sào Francisco, Santo Eloy a rogne da Cidt- 
de, que costuma pera isso mandar-lhes recado, qae 
tambem se mandarà aos de Nossa Senhora da Gra^ 
e Carmelitas, e aos mais que de novo entrarào na Ci- 
dade; por ser costume neste Heine irem nestasFro- 
cissòes. 

altera. Irào outo CidadOes, ou os que mais pare* 
cerem necessarios para o governo da Procissao, co» 
snas varas, que a Camera Ihe mandarà dar, e nào po- 
derào ser chamados pera isso os que nào tev«relllM^ 
vide algum cargo da Governan^a. 

altera. Corregedor da Comarca, na formaci* 
Provisào de Sua Magestade, perà a Prociss&o em of 
dem, antes de se por em seu Inguar, aonde costuistif 
com o Jniz e Yreadores. 



NO SECULO XVII 249 

idtem. Que todo o Officiai e pessoa, que viver dos 
officios e Mestres atras declarados, e faltar no luguar 
de sua obrigacào, e nao acudir a elle na forma, que se 
declara, ou se sair da Frocìssào antes de fiualmente se 
recolher na See, sem legitima causa, encorra em pena 
de dous mil reis, e os Mordomos dos ditos officios, que 
faltarem com as dan^as, e mais cousas a que ficào obri- 
gados por este Eegimento, encorrào cada bum em 
pena de quoatro mil reis, e nenbuma Fessoa das so- 
breditas se podera escusar por rezào de qualquer pre- 
vilegio que tenba, comò està previde pellos Reis pas- 
sados, e o mesmo se entenderà na Frocissào do Mar- 
tire Sào Fantaleào Fadroeiro da Cidade. 

€ltem. Qualquer Cidadào e pessoa nobre, que nào 
acudir uesta Frocissào ao Lugar que por este Regi- 
mento Ihe fica ordenado, ou sondo chamado de parte 
do Jui2 e Vereadores, para governo da Frocissào, pera 
levar tochas, ou para as varas do FuIIio, faltar sem 
causa legitima, e representada em tempo que se possa 
prover o luguar pera que for eleito, incorra em pena 
de vinte cruzados, e bumas penas e outras serào apli- 
oadas pera a cera da Confraria do Santissimo Sacra- 
mento, e sera Executor dellas o Corregedor da Comar- 
ca, e sondo ausente, o Juiz de Fora. 

ultem. Os Forteiros da Cidade estarào juntos na 
Casa da Camera na vespera de Corpus Christij e no 
dia polla manbaà, para fazerem o que Ibe mandarem, 
delles que faltar, e nào vier na vespera do dia de Cor- 
pus Christiy incorrerlo em pena de duzentos reis. 



250 fflSTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

cdtem. Os Molleiros de Campanhaam, Crestnma, 
Fevoros, Quebrantoens, Santo Antào, Gondomar,Ma8- 
sarellos, Ribeira de Villar, e Lordello, serào obrigados 
trazer a Camera cada bum seu feixe de jiincòa, Espa- 
dauas, e Canas verdes, grandes, e bons, que os Ouvi- 
doros farào vir, para se lan^arem pela Gaza da Came- 
ra, e pellas mas por onde vai a Procissào, e qualquet 
e o que faltar incorrerà em pena de quaotro centos 
reis. 

icltem, A pessoa que tever a sua conta o cuidai^ 
do Eellogio que està na See desta Cidade, e a quem ^ 
Cidade pagua os dous termos do Sellano, sera obrig»-' 
do a repicar o sino do dito Rellogio na Vespora e di^ 
de Corpus Christiy amìudando os repiques, em qnani:>^ 
a Procissào andar polla Cidade, e fallando o mandar^< 
repicar à sua custa. 

altem, Os Mordomos dos OfScios, Officiais,e maÌ5 
pessoas atras declaradas, serào juntoscom as daD^as, 
e mais cousas de sua obriga^ào, a as sete oras da ma* 
nbàa na See desta Cidade, sob as mesmas penas atnw 
declaradas, para que a Procissào possa sair e recolher- 
ase cedo, per rezào das Calmas. Eu Manoel Ferraz, 
Escrivào da Camara o fiz e crever, e sobescrevy=Jor- 
gè da Silva Marques = Cosmo Aranha da Rocha* 
Paulo Borges Pinto = Diogo Homem Carneiro Ac 

((Eu ElRey fa^o saber aos que oste Alvara virem 
que OS Officiae.s da Camara da Cidade do Porto, qne 
nella servirào os aunos passados me emvyarào dizer 






NO SECULO XVII 251 

por sua Carta, que por alguns inconvenientes Ihes pa- 
receo, que convinha ao servilo de Nosso Senhor, e meu, 
tratar de poer em melhor ordem a Procissao de Co7*- 
pus Ch'iati da dita Cidade, por nella irem alguns jo- 
gos e daneas nao decentes ao tempo, por a muyta an- 
tìguidade coni que se ordenarào, e irern oje os officios 
eni tao grande crecimento, que he necessario applicai* 
as cousas ao modo pera que se insti tuirào, corno he fes- 
tejarem o Santissimo Sacramento, coni a venera9ào de- 
vida, e que as festas sejao taes, que nào aja n'ellas no- 
ta; fizerào assento, que me enviarào, pera eu o aver de 
confirmar, o qual mandei communicar com o Doctor 
Antonio Cabrai do meu Conselho, que entào servia de 
Chanceler da Rellagao, e com o Bispo da dita Cidade, 
o que com seu parecer se fizesse acordo do que se de- 
via reformar, deminnir, ou acrecentar na dita Proci- 
Bào, comò se fez, o qual assi me enviai*ào escripto nas 
tres meas folhas atras, que vilo assynadas ao pe de ca* 
da huma por Joào Pereira de Castel branco, meu Es- 
crivào da Camara. Ey por bem, e me praz de confir- 
mar o dito Acordo, comò se nelle conthem, e que na 
forma delle se cumpra, e ordene a dita Procissào, vis- 
to ser assy mais decente, e convir ao servÌ9o de Nosso 
Senhor e meu ; E mando às JustÌ9as e Officiaes, a que 
o conhecimento disto pertencer, que cumprào este Ai- 
vara, comò se nelle conthem, o qual se porà no Carto- 
no da Camara da dita Cidade em boa guarda, e me 
praz que valha tenha for^a e vigor, corno se fosse Car- 
ta feita em meu nome, e por mim assinada^ seni euir 



252 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

bargo da Ordena^ao en contrario. Miguel de Azevedo 
o fez em Lisboa a quinze de Julbo de mil e seis cenios 
e vinte e bum = Jodo Pereira de Castel branco o bcAs- 
crevy •= Eey = Alvaro Lopez Moniz = Inacio Ferrei- 
ra=^Nuno da Fonsequa Cabrai. » (1) 

Por este Al vara de 1621 se descobre qua os dm- 
mas da procissào de Corpus Christi jà nào estavam em 
harmonia com os costumes do tempo, e que o immeneo 
sjmbolismo conservado no Begimento accusa a impos- 
sibilidade que entào bavia de probibil-o totalmente. A 
festa do Espirito Santo nào era menos dramatica; per- 
tencia a nobreza, corno a procissào de Corpus ao povo; 
porém OS nobres esqueceram*se d'ella« e actualinente 
8Ó se conserva nas margens do Zezere e nas ilhas dos 
A9oreSy aonde caiu no dominio dos pobres. motoNr 
he seguiu o cbristianismo de Ario, queria a humani" 
dado de Jesus; é por isso que ainda no seculo xvii ra- 
presentava a divindade nas multiplas formas das mais 
extravagantes allcgorias. Està tendencia para a figo* 
ra^ào symbolica corno Ihe nào teria desenvolvido o ge- 
nio dramatico, se um esterii e prosaico canonismo o 
nào atrophiasse! 



(1) Liv. 4. de Propr. Provisóes da Cctmara do Porio^ fl.3S7. 
Apud. JoSo Pedro Ribeiro, Dlsseriagóes Chronologicat^ t. i^i 
parte ii, doc. xvin, p. 201. 



NO SECULO XVn 253 

Som Francisco Hanoél de Hello 

Educa9fio de D. Francisco Manoel de Mollo no Collegio dos 
Jesuitas. — Segue a carreira das arinas. — Toma parte nos 
folguedos da córte de Dom Joào iv. — Representa-se em Al- 
meirim o s^u Auto do Fidalgo Aprendiz, — Detemiina^fio 
do tempo em que foi escripto o Auto. — typo nacional do 
fidalgo pohre esbo^ado em Dom Gii Cogominho. — Luiz xiii 
de Fran9a intercede para o livramento de D. Francisco Ma- 
noel de Mcllo. — Sua inteireza moral . — Descrip9fio da sua 
Vida na prisflo da Torre Velha. — Os amores com a Condessa 
de Villa Nova e Figueiró causa das suas desgra^as. — Ana- 
lyso do Auto do Fidalgo Aprendiz, ultimo vestigio do thea- 
tro nacional do seculo xvu. 

Era este o poeta mais apio para sustentar e desen- 
voi ver o theatro nacional do seculo xvii; comprehen- 
dea profondamente o caracter portuguez^ conbeceu io- 
das as locu^^Ves mais peculiares da lingua, viajou no 
estrangeiro aonde adquiriu nm grande senso crìtico, 
era dotado de nm eminente lyrismo, tudo qualidades 
que depois de Gii Vicente nunca mais se tornaram a 
ajuntar em um escriptor dramatico. Mas a vida de ae- 
9ào tornou Dom Francisco Manoel de Mollo historìa- 
dor e moralista; a grande influencia do theatro hespa* 
nhol, unicamente admittido na corte, fel-o considerar 
a comedia portugueza comò um producto accidentale e 
o apparecimento da Opera franceza nos serOes de Dom 
Joào IV, desviou-Ihe a attengào para este genero novo. 
Kasceu Dom Francisco Manoel de Mello em Lisboa, a 
23 de Novembre de 1611, de uma familia nobre, du- 
rante a domina^ào dos Philippes; ibram sena ^ae& B. 



254 H ISTORI A DO THE ATRO PORTUGUEZ 

Luiz de Mello e D. Maria de Toledo Ma9uello8. A fina 
primeira educagào Htteraria fez-seno Collegio de San- 
to Antào, aoode os Jesuitas attrahiam toda a inocida- 
de portugueza; ai a par do rigor dàs classes haviadi- 
vertimentos dramaticos, eusaiados pelos mestres de 
Bhetorica e representados pelos eollegiaes, com obriga- 
^ao restrieta de serem em latim. Pelos trabalhos sce- 
nieos de D. Francisco Manoel deMelloseconlieceque 
as tragicomedias dos jesuitas pouco influiram sobre o 
seu genio. Ciirsou letras humanas com o Padre Bai- 
thazar Telles, Chronista da Companbia e mostre de rie- 
torica do Collegio, em 1621. Depois da morte de seo 
pae seguili a parreira das armas, e em 1627 escapon 
do naufragio da Armada Beai na Corunba ; em 1638 
foi a Castella, por causa dos tumultos de Evora, eeo 
1639 occupava o legar de Mestre de Campo deumter- 
qo de mil cento e setenta pra^as no conflicto da arma- 
da castelhana centra Inglaterra. (1) Subindo aotbro* 
no portuguez o Duque de Bragan^a em 1640, acto* 
va-se D. Francisco Maiioel militando na Catalunba, 
aonde foi mandado prender, sendo pouco depois resti- 
tuido a liberdade, indo em seguida para a HoUanda. 
D'estas suas viagens fala o poeta: 

Andei d^aquem para aleni 

Vi o Thamesis (Tamisa)»e o rio 

Reno, qiie ao mar rijo vem ; 

Vi muito do mar de quem ^ 

Tanto custa o senhorio. (2) 

(1) Todas estas datas pertencem a Barbosa Macbado. 

(2) (^anfonha, d'Euimx^e^ p. 88. 



1 



NO SECULO XVn 255 

Durante o pouco tempo que Doni Francisco Ma- 
noel de Mello assistili na corte de Doni Joào iv, tomou 
parte .nos diverti mentosdramaticos e musicaes d'aquel- 
le monarcha; escreveii n'este ciirto periodo o Auto 
do Fidalgo aprendiz^ qne se julgaria talvez imita^ào de 
Molière, do Bourgeois gentilhome^ se està comedia nào 
houvesse sido representada quatro annos depois da sua 
morte. Conhece-se que o Fidalgo aprendiz foi repre- 
sentado, por està rubrica : € Farga que se presentou a 
suas Altezas,x> que acompanha o titulo. E escripta em 
verso de redondilha, com urna facilidade, chiste e mo- 
vimento bastante raros. Dom Francisco Manoel estu- 
dava Lope de Vega e o theatro hespanhol, e d'elles 
tirou para està comedia a logica das scenas, a divisào 
em jomadaSj a mobilidade do dialogo, e a harmonia 
goral, conservando acima de tudo o caracter nacional. 
Dom Gii Cogominho é o fidalgo de fresca data, que se 
expòe a todos os ridiculos para figurar na corte, que 
passa fome para apresentar grandeza exterior, que nào 
tera aonde càia morto e fala constantemente no solar 
dos seus antepassados. Que era Portugal noseculo xvii, 
esgotado de recursos pela invasào hespanhola, atraza- 
do em civilisagào pela intollerancia da InquisÌ9ào e dos 
Jesuitas, sem industria, pela ma organisa9ào da prò- 
priedade, com a mendicidade convertida em institui- 
9ào, comò se ve pela infinidade de ordens religiosas quo 
sugavam a terra, que era Portugal, esquecendo-se do 
futuro e fazendo-se valer pelas tradi^óes heroicas das 
suas descobertas niaritimas, das suas conquistas de 



256 HISTORIA DO THEATRO PORTUQUEZ 

àquem e de alem mar, senào am Fidalgo pobre? Ées- 
te o tjpo nacional comprehendido por Dom Francisco 
Manoel de Hello, e representado a Dom Joào iv. Du- 
rante a carta permanencia na corte e nas boas grai^as 
do monarcha, Dom Francisco Manoel escrevia a letra 
para os tonas e operetasj que o' rei, eminente mnsico, 
mandava desenvolver pelos maestros de que se cercata. 

Nao chegou a tros annos o tempo que Dom FraS' 
cisco gosou o Deus nobu liaec otta fecit; de repente fti 
mandado encarcerar pelo seu amigo Dom Joào iv ot 
Torre Yelha, aonde jazeu nove annos, sempre em ria* 
co de pena capital. motivo do desagrado real e da 
sua prìsao tem sido interpretado diversamente; attri* 
bue*se a intrigas dos inimigos do Ministro FranciseD 
de Lucena, por elle nSo ter querido acreditar na uà 
criminalidade; aproveìtaram-se da occasiàode ter sido 
assassinado um tal Francisco Cardoso, combinando 
com OS criminosos para que declarassem que Dom Frao* 
cisco Manoel os aliciara para essa morte. Na Allega- 
tilo dos seus servi^os, a Dom Joào iv, Dom FrancÌBC» 
Manoel de Mollo confirma està opiniao: <rNo mesiso 
dia em que eu estava diante de um esquadrào, goTe^ 
nando-o, centra os inimigos de V. M., estava algm* 
pessoa (que jà d'està pratica bavera dado a Deos con- 
ta) n'esse Pa^o persuadindo V. M., me mandasse pren- 
der; porque eu sem duvida (a juizo de sua bondade) 
ia com animo de me passar a Castella.» 

« Fundava bem està suspeita em me haver eu esco» 
sado de testemunbar con tra Francisco de Lucena aqnil- 



NO SECULO XVII 2OT 

Io que eu nào sabia, e este tal queria por for^a que eu 
soubesse, com pena de me ter a mim, e querer que me 
tivesse y. M., e o mundo n'aquella conta em que elle 
tinha aquelle Ministro, d (1) 

Modernamente descobriu-se outro fundamento pa- 
ra asdesgragas de D. Francisco Manoel de Mollo, mas 
que nào cxclue o primeiro, ou antes o coadjuva. Eis o 
que se le nas Memorias do Bispo de Grào Para, aonde 
foi recolhido: «A Condessa de Villa Nova e Figueiró 
foi o objecto das afFei^Oes de Dom Frapcisco Manoel 
de Mollo. Allude a ella, quando diz Nuevo la vi. Dom 
Joào lY, querendo provar a fidelidade de Dom Fran- 
cisco, persuadiu a Condessa que o tentasse. D. Fran* 
oisco Manoel para lisongeal-a, disse que seguirla o par- 
tido de Castella. Foi preso. Assim m'o revelou o Con- 
de de Sam Louren^x).2> (2) Este facto inteiramentedes- 
oonhecido, explica o ter o poeta vivido sempre celiba- 
tarìo. Em um mimose soneto descreveu Dom Francis- 
co Manoel de Mollo a sua vida na prisào da Torre 
Yelha: 

Responde a um amigoj que manda perguntar a vida 
que /ozia em etta prieam. 

Casinha deeprezivel mal forrada, 
Fuma là dentro, mais que inferno escura, 
Fresia peqnena, grado bem segura, 
Porta aò para entrar, lego fechada. 

(1) Documento publicado pelo snr. Herculano, no PanorO' 
ma, t. iT^ p. 279, e 294. 

(2) Memoriae de Frei Jofio de &. 3oi^^ (4\irà^^^ ^«\^^. 



258 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Cama que é potrò, meza destroncada, 
Pulga que por picar faz matadura, 
Cfio 8Ó para agourar, rato que fura, 
Candéia uem c'os dedos ati9ada : 

Grilhao, que vos assusta eternamente, 

Negro bo9al, e mais bo9al ratinho 

Que mais vos leva, que vos traz da pra9a : 

Seni amor, sem amigo, sem parente, 
Quem mais se dóe de vós diz : Coitadinho ! 
Tal Vida levo, santo prol me fa9a. (1) 

Durou nove annos o seu cativeiro; por urna Carta 
de Liiiz XIII, escripta de Paris a 6 de Novembre de 
1648, se pedia a Dom Joào iv a liberdade do illustre 
escriptor. A Carta nào foi logo apresentada ao moniuf 
cha, por se oppòr a isso o proprio preso. Na Allegatilo 
dos seus servi^os, confessa : oc Fui tao attentado ao gran- 
de decoro quo devia à justiga de V. M., que havenJo 
recebido urna carta de el-rei christianissìmo para Y. H. 
em recommenda9ào da minha causa, desviei que elit 
se apresentasse a V. M. pelas màos do secretano do 
expediente, so a firn de nào ob rigar a y. M. centra MB 
dictame a alguma correspondencia com aquella coite 
ainda a troco da minha utilidade. — Presentemenii 
deixei de valer-me da intercessào dos principes pai»* 
tinos, com quem tinha algum conhecimento de Inglf 
terra, e da rainha sua màe e irmàos, quando me achò 
em Hollanda, sondo de alguma maneira invitado, con 

(1) Obras metricas, Tuba de Caliope, p. 21, ed. del66$< 



NO SECULO XVII 259 

sua auctoridade para esse efFeito ; so por me nào pare- 
cer justo ópprimir as resolugOes de V. M. com extraor- 
dinarias diligencias. » No melo d'està sua resigna9ào, 
o seu immenso sofFrimento mqral e physico arrancava- 
Ihe às vezes gritos de desespero : 

La Patria, dicen, que ade scr.araada : 
Amola bien ; mas pues me niega de hijo, 
Yo no quiero tener madre for9ada. (1) 

Os brios mais ardentes vereis f rios 
Em Ihes tocando a sombra do dcsprezo, 
Consummidora dos mais altos brios. 

Logo que D. Francisco Manoel de Mello recupe- 
rou a liberdade continuou as suas viagens pelas cortes 
aonde fòra sempre bem recebido e admirado. 

Em Julho de 1663 estava Dom Francisco Manoel 
de Mello em Paris; a este tempo representava Molière 
na corte de Luiz xiv; éprovavel que o refugiado por- 
tuguez ali assistisse. P.® Manoel Godinho, nas suas 
Relafòes^ fala do encontro com o poeta n'este tempo, 
n'aquella córte: <eFuì logo visitado do Senhor Dom 
Francisco Manoel : o qual com o nome supposto de 
Monsieur Chivallier de S. Clemente passava a Roma' 
recommendado a todos os Principes e Bepublicas ami- 
gas por cartas patentes dos Senhores Beis de Ingla- 
terra e Franca.» (2) Por està cita^ào do P.® Godinho 

1) Obra$ metrica»^ p. 163. 

[2) Rtktgào do novo caminho que fez por terra e mar, vindo 
da India para Poriugal no anno de 1663, cap. 16, p. 9L 



260 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

se ve corno era estìmado na córte franceza; é naturai 
que ali assistisse a representa9ào da CritiquideHÈcoli 
des/emmesy e de L^Imp^'omptu de Veraailles, represen- 
tados por Molière em 1663; n'este mesino anno ìmpri- 
miu Molière o Dépit amoureua;, e as oiitras comeditó 
jà citadas, que o fidalgo portuguez conheceriaporcer- 
to. A perfei^ào do seu Auto o Fidalgo Aprendiz re- 
vela a observa9ào dos bons modelos hespanhoes; qofi 
nào faria o poèta se existisse theatro nacional no se- 
culo xvii, e inaugurasse entro nós a comedia decsr 
racter^ combatendo os grandes preconceitos de qae até 
hoje temos side victimas! 

Morreu em Lisboa a 13 de Oatnbro de 1666; dei- 
xoa um filho naturai, chamado Dom Jorge Manod k 
Mollo/ que morreu em 1674 na batalha de Senef. (1) 
' Depois de conheoermos a vida de tao illustre poly- 
grapho^ analysemos a comedia que Ihe alcan^on ntf 
legar distincto na historia do nesso theatro. 

O formoso Auto do Fidalgo Aprendizj corno * 
ve pelo titulo que traz nas Segundoa ires Miuas deMtm 
lodino f foi representado na córte de D. Joào lY. Vf0m 
jnlgar-se que està comedia foi escripta poueo U0f^ w 
depoii» da sua volta a Portugal em 1641, e dorante* |b 
pouco tempo que esteve nas boas grai^as do monaréfc 
Ha na comedia um facto que nos leva a està indnc^ 
o velHo escudeiro do Fidalgo^ diz : l<e 

} 
(1) A Vida de Dom Francisoo Mancai de Mello haieip m 

pareoer em todo o seu deseuTolvimento- na Historia da Set I 

centistoi, W 



NO SECULO XVn 261 



Sou velho, ja fui man cebo, 
Colisa que, mal qiie Ihespez, 
Vira por vossas mercés ; 
Nasci DO Lagar do cebo, 
Faz hoje ectenia e irez. 



Vi el-rei Dom Sebctsiido. 



Ora Dom Sebastiào comegou a reinar era 1568; 
accrescentando a està data a edade do velho escudei- 
ro, que sào setenta e trez annos, dà o anno de 1641; 
modificando està conclusào, conciliada com os factos 
da Vida de Dom Francisco Manoel de Mello^ se ve, 
que tendo voltado para Portugal e sondo logo preso, 
nào poderia n'esse anno fazer representar no pago a 
sua comedia. Està prisao foi de pouco tempo ; no Me' 
morial que escreveu a Dom Joào iv dofendendo-se, dìz 
que nos nove annos de Portugal, trez foram de liber- 
dade, que vào de 1641 a 1644, e seis foram de prisao, 
que sào os de 1644 a 1650. D'aqui se ve que a repre- 
sentagào do Fidalgo Aprendiz foi entro 1641 e 1644; 
ora o velho escudeiro, para vèr el-rei Dom SebastidOj 
devia ter pelo menos sete annos de edade, por isso que 
Dom Sebastiào morreu em 1578, o que fortaleoe a liy- 
pothese de ter sido representada a comedia no mesmo 
anno da prisao de Dom Francisco ; porque diminuindo 
a 1578 $ete annos, dà 1571; sommando a està data os 
setenta e trez annos que faz o Escudeiro, dà 1644. 
Durante os outros annos que Dom Francisco Manoel 
de Mello esteve em Portugal, de 1644 a 1650, esteve 
ell^ prezo, e nem os seus- inimigos deixariam repre- 



262 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

sentar na corte a sua comedia, e na prisào entreteve-se 
corapondo obras de piedade e dehistoria. Demais ten- 
do Dom Francisco estado preso em 1641, na sua volta 
a Portngal, por se suspeitar que era afei^oado a Cas- 
tella, suspeita que se desvaneceu em pouco tempo, elle 
se refere aos interesses do tempo, motejando duella: 

Oh pezar de ineu pae torto, 
Descreio dos Castelhanos. 

Isto diz o poeta pela bocca do velho escudeiro do 
Fidalgo Aprendizy corno repellindo a suspeita recente. 
Na primeira jornada da Comedia, quando entra o mes- 
tre de dan^a, e diz ao Fidalgo: 

Estive jà cm Madrid 

Gii Cogominho, responde-lhe: 

Oh se fostes a Castella 
Sabereis cem mil mudaD9as. 

mostre ainda responde motejando: 

Para mudan9a8 e daii9a8 
Todos sabemos mais que ella. 

Todos estes trez personagens se mostram aggressi- 
vos a Hespanha. Dom Francisco Manoel, escrevenio 
a sua comedia em tempo de urna reac9ào nacional, mo- 
tejava os que sabiam sómente manifestar o seu senti- 
mento patriotico renovando -os velhos trajes portogue- 



NO SECULO XVII 263 

zes anterlores a Dom Mnnoel, quando apresenta o ve- 
Iho escudeiro Affonso Mendes vestido d portuffueza aw 
tiga^ barha^ hotasj festo^ peliate^ gcn^ra^ espada em iala^ 
harte. Em Soropita tambeni se encontram acerados 
motejos aos que andavam com chapeo desabado do 
tempo de Dom Diiarte; està approximagào fàz com- 
prehender a intendilo do poeta dramatico na sua ca- 
racterisa<jrio de Affonso Mendes. 

A Comedia foi representada fora de Lisboa, por 
isso que o escudeiro no prologo em que expOe a ac^ào, 
fala de certos sitips corno quem està longe e jà là es- 
teve: 

Sei o a^oiigue no Rocio, 
Os Estaus da InquÌ8Ì9€lo. 

Affonso Mendes é um typo de creado do genero de 
Esganarello e de Scapìn, nào do theatro de Molière, 
porque ainda nào existia, mas da comedia sustenuta 
italiana, introduzida em Franca por Molière vinte au- 
nos depois. Com o tempo o escudeiro veiu ti tornar-se 
o gallego lorpa da baixa comedia do nesso seculo xviii. 

A època da composi^ào do Fidalgo Aprendiz acha- 
se confirmada pela Carta iv, escripta a Joào de Salda- 
nha da prisào, onde Ihe diz: 

Eu ed mcttido na toca 
Deste Castello anciSo 
Falò segundo jne toca. . . 

N'esta carta em que fala segundo o estylo e ijhi- 
losophia de Sa de Miranda, de &\3l«l% àfò^gtv?^»»^ ^^^ ^ 



264 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ , 

tjpo de Dom Gii Cogominho, corno conliecido, alla- 
dindo jocosameute a elle : 

Tenho um tribunal de pinho, 
E nm tlirono tenho de tanho, 
diamo Tasso e o Marioho, 
E assento a Gii Cogominho 
Ao longo de Carlos Manlio. (1) 

Tendo sido a prisco de Dom Francisco Manoel de 
Mallo em 1644, antes d'este anno jà estava escripto e 
representado o Fidalgo Aprendiz na córte de Almei* 
rim, onde estava entào, corno se ve pela Carta citada, 
escrìpta para Sautarem: 

Tudo tendes bom por là, 
Até a corte em Almeirim, 
Que dizem faz falta cà. 

Muitas sào as referencias do poeta a sua desgra^ 
e à dnreza da sua prisào; pouco havia, a sua comedia 
fazia a alegria da córte, e em um instante se toldon 
para sempre o horisonte da sua vida. A lembran^a de 
Gii Cogominho^ heroe da far^a representada no pa^o, 
citado ao pé de Carlos Manlio, ou representa o con- 
traste do seu acolhimento na córte tornar-se em urna 
phantasmagoria, ou, o que peor é, a approxima9fio 
d'esse typo epico da cavalleria representado cobarde e 
traidor nos romances corolinos de Italia e de Hespa- 
nha, corno symbolisando a sua approxima9ào ao pé do 

(l) Obras tnetriGat, t. n^ ^anfonha dò Euterpe, p. 97. • 



NO ^cuLo xyn m 

ftàoo Dom Joàk> IT« Fatando n'esta Oarta ao Ben ah^ 
go Joào de Saldanha, doe&te eiti Bantareni) difr>Ule: 

Arrenegfte do deMJò 
Dos homens de8graci«do8. 

Pobre de iiiim qtic cativo 
Terra nem ar de meu tenho 
Onde espalhe o mal esquivo ; 
È aesim vìvo, se é que vivo, 
Como feito por engenho. 

• Palando da ca^a na córte em Almeiriin, fìus o 
poèta um equivoco, nào desen^a^ado, mostrando qne 
sabia: 

Ser sempre o mais acossado 
Javali ojé valido. 

Todo o meu viver passado 
Vem à pragà cada dia, 
Vivo olhado s pergnntado ; 
Sou mais olhado qne am dado 
Ou tambor db infanteria. 

Comtudo nfio f alta a fé 
^ Còntfa de8gra9atAo folte.. . 

4 

Oli asaasiinado oa i mitfgua morreria^ este verda*-* 
déìra icrniem de talento, se n magnanimidade de nm 
rei de Franca nào intercedesse por elle^ qtoie era acUni*' 
rado coma militar e corno ciiltor das ktras- em todas 
as edrlea da Enropar O sen caracter littenwiò fói in^ 
flaemado pelea longos annoa 'd» prisAo \ se tlv«««^ 

VI 



*266 ttlSTORlA DO THBATRO PORTUQUEZ 

urna corte menoe fanatiòa e aombrìa, era o «nieo 
destiliado a continuar a tradii dramatica de 63 
Vicente,. tanto na gra^a corno no Ijrismo, e a empan- 
Ihar com Molière. Foi um genio anóllado pelo meio 
em quo viven; ninguem comò elle falon tfto bem a 
lingna nacional com todas as suas locu90es mais pe- 
culiaresy ninguem perdeu tanto comò elle em nascer 
portuguez. 

Eis o entrecho do lìdalgo Aprendiz: Affonso Men- 
des serve um provinciano enfronhado em cavalleiro, 
cliamado Dom Gii Cogominho, que procura aperfei- 
Qoar-se em todas as prendas que forma vam um fidalgo 
no seculo xvii. 

Presume do homem sisudo, 
De Dada sabe mi^lha, 
E anda enxovalhando ludo. 
Morto por ser naniorado 
Contrabaixo e trovador, 
Cavalleiro, dan^ador 
Em firn, Fidalgo aca)>ado, 
Valeutdo e ca9ador. 

De todos estes defeitos tomou Dom Francisco Ma* 
noel as engra9adas scenas da comedia. AfFonso Men- 
des apesar de servir Dom Gii Cogominho por dois mil 
e cento a secco, nào ve crusses ao dinheiro ; Gii Vicen- 
te tambem verberou està qualidade da nossa fidalgaia 
na Farfa dos Almocrevés. 

Para vingar-se, AiFonso Mendes arma a sen ima 
uma esparrelk propondo*lhe uns amores de urna equi- 
Toca Isabel, cnja màe Britiz mais parece tia ; pair» es* 



NO 8B0UL0 XVII 267 

- te ló^ro o aio metteu no segredo um cbapado velhaco 
a quem dà o nome de Dom Beltrào. Àté aqni a propo« 
sÌ9fto da ae9&o feita no prologo. 

Appareoe entào Dom Gii corno por de cotèa^ gualiei' 

' ra^ bcdandrao e chindloM e um apUo aopeseofo; vem api- 
tando com frenesim, a chamar pelos sena ctiados, mas 
Àffonso Mendes Ihe dis qne os creados ainda esUloem 
casa do inculcador. Batem à porta; é o mostre de JJs* 
grìma que vem dar li^Oes de valeutào a Dom Gii Co- 
gominLo; entra o Mestre de Esgrima com grandes gue- 
delhaSj coUete diante, eepada muito comprida, e embufa^ 
do corno vedente* Quando vae para dar li^fto pede aa ar- 
mas, mas nada enoontra; espadas, adaga^ montante, 
mangoal, indo falta* Pede entào nm espeto; mas o lì* 
dalgo diz-Ihe que o nào tem porque n&o gesta de as- 
sado de forno; pede nma cana de esfolinhos, mas nào 
ha cana nem fuso. Diz entào para o aio Dom Gii Co* 
gominho, quelfae busque pela casa aigntn objecto que 
.sirva^ e passado pouco tempo entra Aifonso Mend^ 
com dois pantufos velhos. Dom Gii e o Mestre de es* 
grima batem*se com os dois pantufos e passada a pri- 
meira posi^ào, diz este: 

DepoÌH d'essa entendei logo, 
Que ^ììì vos legando a puxar 
A poDto hayeis de tornar. . 
DOM QiL : Jà sei, as de Villa-Diogo. 

.^ A, 3cena è intenrompida por trets que batem & porta ; 
yfoì pjpestre ^f^ splfa, o da d^o^a, e oidus troyas. £n* 



268 HISTOBIA IK) T^BATBO f ORTUGUEZ 

tvìL pi;iiQeirQ o Mestre da Ditola, o rei David naia at- 
tico d^s procÌ880ei da cidadei, muito putida /nzemU me- 
suras; pede algum ii^strnmeiiiQ .musico paca «eoaipa- 
jtihar a dan^a, em vez de alabiide ha am birimban; via* 
ìas, &ó HA Botica, arpa, aó de pooro, ^ettro^ 90 «m aet- 
tro a^Quro; por mìlagre ha urna panella .em..ea«ay e è 
ao tom d'^a qoe Dojq Gii reoebe.uma li<flo sem tom 
p^^om dag dajQ9a8 do seoulo xvci^ AU^^f Pavatm Rir 
eOf jPji de ^Ufctu, GMharda, Qapateado^ o TerMerOy .0 
VilldOy e o Mochaehim. 

]Bntra por aeu turno o me^e da» trovas, ea^udan- 
tdo.pmUo $v^ e mufio malvestidOf 900 easina a £uMr 
mota^f ìftonetos, rooiances, deciiaaa « teraetoa. Beeefai- 
das aa devidas lìi^^y Dom GU é avisadopor Dom Sal- 
irlo, qne o y^ffa prooiirar para irem & tal menina Bri* 
tiz. A JorMda termiiia p^vì9 os velhos Jbttos da fv» 
.ciiHO do aeciilo yvi, w isom de violaa* 

A afypfunda Jornada pasaarsa em easa da vafta ai* 
caiota I^abel, especie de Celeatioa qoe asta falanda a 
JBriti? de Dom Gii, que è fidalgo abaatado e novizi e 
aquem importa ej^plorar^ porìém amo^a goatanaisda: 

Um f alar com tanto geito, 
Um ditinko derepeote 

Um ter eiii tndo reaptàio, 
Ail mate-me Dksos eom a genie 
De LiebcNi. 

É «ntfto qoe entra Dom Gii veetido de eeiranka fi- 
^fùàùj mtf Aò ea/èieadO) e Dom Beltrao Testidò de còjrla- 



NO S«Ciri.O iVII 269 

u BttiqttìMito eontersam, Dom Gii fkt exibi^fto das 
18 preudMi toci; violli •corno qnem qudr" cantai'^ oo- 
9a o romance da Silvana, o da Itì/antina, na bella 
na em que Dom Fmticigco Manoel allùde às phases 
■quo paasott a poesia pigolar portogaeza. (1) No 
io d'està distrae^ musical Dom Gii segireda para 
itiZ| e é entfto que a velba Isabel combina com Dom 
Narfo Bo logro em q«e o bitode fazer eafr^ e arìsam 
ficbJgapara qne volte mais tarde, so depois dasno- 
horas d* noite^ por causa da mi visinhanQa. 
A teroeira Jornada i depois do sino corrìdo ; ap- 
nee AffiMiBO Mendes eam utn panò aiùdo nà eahefaj 
^tfpwptfy baéib€u mUéhtdas, Mliimharm e aJiufa de Béte^ 
bfi; qifer metter tim susto li seu Amfo que ji Ihede- 
tret tììeees da soldada; xem aeompanbado de Doiù 
lbfft# 0cHn van^ de Alcaydej carapupz de rehufO^ èspa* 
nua^ rodella e latUema de/urta/offOi Batem à portai' 
lÌMtbel, que rem djanella com, urna eoifa hranea'j em' 
Moda em um cobertorcom urna eandeia na mào; com- 
MtMltti tòdos tres o logro que armam ao Fidalgo, e 
lOiìdem^HBe. E entfto que entra Dom Gii com urna rO'^ 
a mui grande j eetoque minto comprido, huma eaura e 
ito mal embufodo. N'este typo descreve Dom FrUn- 
eo Manoel os costumes da sodedadé portugueza; 
l CTogominbo iem medo de andar de noite, e mais 
idados defunctos'^ lembra*^RLeao ouvir arrastar'uihas 

^l):SttàHM)eDfli irclift-eo eatodadcno CanèUneife e Rumkm* 
o geraf portuguez^ t v, nas Trantforwiagòee do R<manù^p^ 
\àr ào tecìOó XVI a XVIII. 



\ 



270 HI8T0RIA DO THBATRO PORTUGUEZ 

correntesi se sera o phantasma do Coode Àndeiro. Ao 
estado do tempo allude o poeta n'esta quadra: 

As Cortes sAo arrìscadasy 
E vivera n'ellas as genies, 
N&o tendo as eomas ptétentes 
Boa$^ e mas as passadas. 

Quando Dom Gii jà se apegava a Santo Antonio 
com medo do arrastar de correntes e do latido dos eies, 
scie correndo um mofo em corpo com um matidil em urna 
mdOj e um cabresto na outra; o fidalgo pensa j& que é 
a negra abujào, mas é um pobre oreado que Ihe p«- 
gunta se viu por ali passar a mula do Prior de Sam 
Gifto. A covardia de Dom Gii converte-se em audacia 
e espanca o rapaz; porém Acautella encaminha-se pa« 
ra a banda do Ghiado, comò bairro mais concorrido. 
K'isto apparecem-lhe dois vultos, um embruUiodo m 
urna mantilha branca^ e o outro em uma capa negrct, mm- 
to cobertOj com um pedafo de morrdo acceso na mào* 
Dom Gii faz das tripas coragào para resistir a tama- 
nho medO| interroga as duas sombras, julgA pelas res- 
postas que sfto almas do outro mundo, e quando està 
mais atrapalhado, um dos vultos diz-lhe que nào é cou- 
sa ma, que é Guiomar Lopez parteira, que vae a casa 
de uma padeira, que a mandou chamar pelo marido. 
Dom Gii com ar verdadeirameute quixotesco ameaga 
o pobre marido para que nunca mais consinta que sua 
mulher tenha filhos fora de horas. Nto «oàbava està 
difficuldade, e jà o Fidalgo se lembra de qoe tem ^ 



NO SECOLO XVII 271 

passar pelo Posiigo da Trìndade; n'isto ouve longe 
urna campainha a compasso corno dos Iiomens que eneoni' 
mendam as almas; o fidalgo estremece quando ouve 
bradar: « Lembrae-vos das almas que estào no fogo do 
Purgatorio e em peccado mortai, d Fidalgojulga vèr 
jà um rancho de defunctos, e eis que Ihe sae Imm vul- 
to negro da moda dos que costumam encommendar as al-- 
mas locando a campainha. Este costume funereo da so- 
ciedade portugueza do seculo xvii ainda estava em uso 
antes da reyolu^ao liberal de 1832. Dom Francisco 
Mattoel de Hello tendo vivido a maior parte da vida 
fora de Portugal^ extranhava o costume que ridicula- 
risou na scena da far^a. Fidalgo depois de atravessar 
estas aventuras a maneira de Dom Quixote, chega a 
final a reconhecer a rua e a casa onde mora Britiz, e 
annunciasse com o costume popular atiraudo-lhe uma 
pedrinha & janella. A màe Isabel apparece*Ihe, Dom 
Gii enl^ra &s esonras, para fazer a mudan^a combinada 
na Jornada segunda; pde-lbe a velha uma troxa às eos- 
tas, e elle sae dizendo: 



Oca tudo f az amor, 
Até carratfio aerei. 



_. Hai que o pobre Fidalgo di fis primeiras passadas 
na^ roa, a velha cprre à jatiella e grita: Aqoi dei-Bei, 
que um Ifidrào Ib^; couba o fato; aeodo kgo Dom Béir 
tr4o vea^iido -de Alcalde, e o creado AffoaiK) Heudea de 
bekgiiiinj.e jHreiidfim o nimomdo'provi^^ ASsior 



27t mSTORIA DO THEATRO PO&TUGUEZ 

sa Mendel revista«-Ihe «s algibeirai, e extrte-lhe qot» 
Ivo tosiOes» Fidalgo ao vèr a velha, exdamft oom 
rancor: 

Oh miilher do inferao loda 

Kacida para pdr noda 

No aangii^ dos Cògominbot t 

« 

Osdois rasoOesnocturiKMifingeinqiieolerami pre- 
san^ do Dcmtoir Franciico Brabo, por ter arremMo 
com gazAa em terra de Christftos, dizen^-Uie qne ha* 
de Ber enforcado por ladrfto. Dom Gii CogoBsiDho Hat 
corno epibgo da. far^ : 

Homens qne vot eiUNréi 
Na Corte, come em bigoma, 
Vede bem no que se toma 
Qiiftlquer Fidalgo aprendìs. 

A gra^a yerdadeiramente portogueza, a Kngnagem 
reeheada de loca^Oes e de anexins populares, oe oo§* 
tames nacionaes postos em relevo, a vermfica^ào facil, 
mostram quanto Dom Francisco Manoel de Mello se 
podia elevar corno poeta comico» O typo de Dom Gii 
Cogominho, com solar na Lousà, é uma imagem de 
Dom QuixùUj arreliado pelo sen pagem Sancho, qne 
nacè«Dag||sw 4ibinia Affonso Méndes. Dom Vrandi- 
cpfJbÉÉiliofiAedÉxiip grandeabeHésasdo^theatfobef- 
piÉAÌ9<Mfa8q[«^ttÌ0)agji0rfeÌ9io sem^ perder a tnrigiiif 
lidhAi^ dM61MhiftAt*faiyoi^iH> Ica passar o RUf 
ofmékMz 4Mi » «Mf toa^^tttOTMPMgeraa èàt eftrte, tona- 



NO SfiCULO aCTU 273 

Tam*se urna pn^phtcut; porqne o bravo militar, qae 
tanto trabalhara para a independencia portugueza, foi 
poQco tempo depois preso na Torre Velhay durante seis 
annos, segando uns, victima de uma trai^ào de Dom 
Jo&o iv, em qne a Britiz da far9a foi a Condessa de 
Villa Nova e Figueiró, segundo outros por fidsas con- 
fidencias dos assassinos de Francisco Cardoso, que n^es- 
ìm intriga, de qne so tarde foi salvo por Loia xiu de 
Franga, fizeram o papel de Affonso Mendes e de Bom 
Béltrfto. 



'sophia da litteratura. — Parallelo do Traiado da Paixù 
o Auto do Padre Francisco Vaz de GnimarSes. — ^ 
Paìxflò traduzido pelos jesuitas em lingua concani, 
Traiado do Padfc Jomo Ayrcs, Jesus Chrìstofala em e 
e requiutes de lingungem. — Fini da eschola nacional 
culo xvu. — Cometa a influencia absoluta do theatr 
panhol. 



Na historia do theatro portuguez, ròpresent 
padre a influencia da poesia seisceniista e agong 
invadindo o lyrismo dos Autos nacionaes. A Hit 
ra do secalo xvi foi essencialmente latina ; acomp 
va a transformn^ào social. Em Portiigal yèmos < 
digos romanos com audtoridade de lei, servine 
direito snbsidiario; vémos em religiao a intollei 
do catholicismo romano; vémos era philosopfaia < 
legio das Artes de Coimbra fechando as portas < 
seus Commentarios de Aristoteles & nova philoc 
que se propagava na Europa; vémos o gotbicò e 
legar as ordens gregas ; vémos a educa^ào bas< 

1iri1l>a. A A'vrkliiaivrumonf A no /«i-ilfi-iv**! rio linrvnA V 



NO SECULO XVII 275 

Gontra està córrente classica que assaltava todos oses- 
piritos e mesmo às in8tiUii<;Ge8, deu-se «ma reac^fto 
forte no secnlo xvii, ama tendeocia para abandonaros 
canones rhetoricos, um ìnttinoto quo i&zia procurar o 
demento nacional nas créa^Oes àrtisticas, nm senti- 
mento de liberdade e de revolta centra os modèlos con* 
vencionaès* Cfaamou-se a este periodo e, aós éseripto- 
rés que procuraram fugir da.iinita9ào latina — os Seii^ 
eentistas. Este movimento é analogo ao romantismò do 
seìculo XIX, mas faltava-lbeo criterio philóaopbico, qtie 
dea teda a profundidade à Arte moderna. èeisòéni- 
tismo tem side considerado corno urna phase oorrapta 
butteratura; pelo contrario, é um resultado da eman- 
dpa^fto da intelligencia. Sem urna ideia philosophic^i 
qoe alimentasse o genio creador, mas apenas eom a 
nò^o da independeneia da natureza noe seus ^lodoé 
de sentii* e de se expressar, os seiicentistas eome^a- 
ram a sua revoln^ào pela linguagem ; deixaram M 
c(mstruc^0e8 latinas, e as imagens sancionadas por 
Quintiliano, sentiram quem inetaphora é da vida e nftò 
das escfaolas, usaram d'elU com audacia, abusaram pe^ 
l0 deslumbramento, cariram no absurdo. Na» litteratu^' 
PM nào ba contagios de m^u gosto, corno usoalinento 
se acredita; a litteratura é uiìi resultado das transfer*^ 
ma^des do meio social ; a manifesta^fto do genio dosr 
Setecentittas deu-^se ao mesmo tempo na Italia, im In^ 
glaterra, em Franca, e em Hespanba. Marini ou Li- 
ly^ Gongora oa os cnltistas pgrtuguezes^ representam 
està revolu9àOy que teve a infelióidade de anteceder a 



J76 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

rwova^o politica do sedilo xvm, ficaDdo por isso es- 
teriliiutda» Entra nós.o snn Hercniaiio é o.imico es^ 
oriptior qna fare barn asta ideia: cO saiscttiitisino fai 
urna Tavolila qne falhoo, nma.iantaiiva de resiaiinr 
9fto da; nacHmalidade anì>.ltUeratuni, qua n|u> aaoda 
acompauhada pela rastaHra^&o social complèta do nor 
do de exisiir portngaaai anterior is inflaeuoiaà roma* 
aaa, ficou alauda a radbyi.ica^0 Mibstitoia ik^jt^ anti- 
Baci<mal^ maa judiciosa e brilhaute, entra fiika e além 
d'isso ridioiibu» (1) A grande- floreseeiieia da eadbola 
de Gii Yieente notbeateo do. Beonio xvii^ .esplicare 
am parte pcn: asta reacgio aiactoaal ; mas n'este perio- 
do :da< Viatoria do tbaatro, àrlinguagam coneaiiitosa a 
axcesaivamenta mataphoriea doa miseeiuisias tbììl aer- 
irirpof sea tamo ao modo da diaer cbào a ingeaoo daa 
Autos popnlares. Era umcoiitrasaosoi. urna, ineompati*. 
bilidade* Aeeeitamos o faeto coma um sjinptoma dd 
tempo, ma» nào corno signal de deoadencia* 

O Àuto popular aonde mdbor sa nota a exubaraa- 
eia da lingaagem seiscentista é o Tratado da P^ixd» 
de ChmU> JS*J^^f composto palo Padre Jofto Ayres da 
Mioraes^ impeasso am Zasboa, poir Antonio BodrìgaaS|. 
am 1675» Padre Jo&o Ayres era nataral da . YiUa 
de AbranteSy comò alla. proprio o confessa oo titolo da 
aeu Anto; foi Ci^lldo do Hospital do Todos oa SaatoS|. 
quo u'asta tempo tinba o privilegio exdusivo da iodas 



(1) Elogio historieo de Sebaitiào Xavier Èotetha^ nàs 
do Cbosenr. da Lii^ioa, p« 29. 



NO SECULO XVII 277 

as representaQòes dramaticas e esplorara para ajada 
da $usteata9ào do« ^us doentes o ■Paùeé^dae AreaSf cu* 
ja historia deixamos tratadano capiinlo primeiro d*oi« 
te quarto livro. É naturai qtta iO Padre Jodo Ajrres, 
oom A sua indole caritativa esorevesse o Tratado da 
JPme&o para, coadjuyar o HospitaU É porém eerto qua 
OtAuto nào chegott a aer representado, porque no firn 
d'elle Tom a seguinte declara<^: «0» Senhores inquì^ 
ftidorea Apostolicoa ordeoam que oste papel sé nfto re^ 
pteaentew» (1) Nas Licenza para a iinpresaào do po«* 
I>r« Auto^ apparece orna datada de 31 de Janeiro de 
1673| em que se repete a mesma odiosa* prohibi9&o^ 
«yistas^aifr'iAforina^^Oes que se honveram^ pód»*se im^ 
p»miv o ^«tode quo 8efaz'meB9aa, nias neh se tépri^ 
§mktrdf e: no firn u deolarard.asHf e impresso tpnum 
péva se conferir e se dar lieeii^ para correr, e aam Mm 
«ftOi.carrcHu» .0 polire Auto foi taxado età meio to»^ 
iàOy tàlvez por ser o lucro da renda parao refiorido 
Haapital de Todps os Santoe. O Padre Jo&o AjTree de 
Moraes vireu o resto de 6eus dia» inteiramente e^o> 
fin para, distrahir^se da sua esooridade, qtie diton est# 
Auto* No prologo ao leitor assim o di aentendert 
<£!onìoa ooiosidade (curioso Leitov) seja fonte de mtti- 
tot peQèados, bem quo um. a mirnhavista mal pódem 
agraiaiir^ cu minhas obrcUy por minhaa e por mai poli* 
das, .ainda assim qnia dar que fazer ao entendimeuto^ 
por livrar^menaaimagina^Oee qoe traz^oomsigo a ocio* 

• - ■ 

.. (!) Psgr. Ul, Ed. 1676. ' 



278 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

8idàde^6 assilli me resolvi, empre^ndo melhor o tem- 
fOj a fazer este Tratado: quo (snpposlo em prosa pò- 
dia ser alivio de ina alma,) qaìt qne fosse em verso, 
para ser tambem consola^fto do tea ouvido, pdapena 
que me mièta o mandar e^rever e o ndo poder limar j oo» 
BK> mais krgamente, ir^lato no prologo de am livrò^ 
qne broTemente sairà i \xìz\ qne supposto seja hama** 
no^ eom essa galanterìa qniz dis&r^r o espirìto qae 
^ivolve. Croio en, qne desculparàs seus erros^ qnando 
eonhe^fts a Tontàde com que desejo saborear-te o gos^ 
tò» Oontétn este Tratado a Pavx&o de Ohristo S. Ni,' 
e oomò em liuma Edoga^ qne anda impressa, fiz o sen 
£faici$nentOj resolvi-me n'este livrinho escrever a sna* 
Morie: Tu p^A o leres abre osolhos da alma, e des*. 
deodo por elies as lagrìmas qne te merecem.suas fine* 
aaèy por ventura qne te sirvam de estadas pera por ét^, 
las subir. & sua gra^a. Yale.^^ Trknscrevemosrtodo o 
prologo^: por ser. a unica pagina que esiste do infelia 
poeta «ego, euja sorte nos explioa era parte a manifes- 
tando do genio draniatioo de Balthasar Dias. Na fidi 
do Traùkdoda PàÙMo^ explicaro-se^as erratas, alindiii'» 
do òttfoa veis a cegueira do Padre Jofto Ajres: «cComd 
pìda incapacidadey qua o Auotcr aléga no PróUgo d*este 
livro, nào póde mais reparar os de8eitidG»vda.impres« 
sfto, pedo ao leitor, qne prìmeirò que o léa, ponh» ea» 
oUkw li'estas erratasi e quando ehoontre mais algnm» 
erroy supra sua emaida as/aftojf ib mu ocìo^m»» Os 
perisonagens do AutOj sào: Christo, Doze Disdpnlos, 
N. iSenhora, S. Jcào, a Magdalena, Maria; Jacob,. Ma- 



NO .SECULO XVII «79 

ria Saloméy S. Marcella, Um Atrjo, Nioodemus, Joseph 
ab Arimathia, Mullier de Zebedei^, Longuinhos, Sire* 
neOy Simào Lepresò, Um Cego, Anas, Caiphàs, Cria- 
da, Pilatos, Criado ^de Pilatos, Criado de Herodes, 
Priiidpe dog Saoerdotes, Turbas, Phariseos, Povo He- 
breu, Povo Gfóntio, o Diabo, Quatro Soldadòa. Per 
6st(a Usta da» pessoas se desoobre o motivo pòr^e os 
set^ores Inquisidores nào deram licenza para qiie se 
representasse o Tratado da PaÙBào; tinham de mitrar 
em scena seis mulheres* A scena cometa lego coiia urna 
piacelada 9eiscentista : 

CHBiSTO : Jà de camiuhar é tempo, 

Qae ausente a Aurora rosada 
Dà tinal quo sol brìlhante 
Aos orbes de luzes banha. 
A Hìenisalem pois vainos 
. Passar a festa da Pasclioa 
Toda para mìm dejlares 
Pois ires Cfnvos me prepara. 

JDe todos OS personagens, Jdsus é o que £ala eom 
mais frequencia no estylo alambicado dos canceUi; de- 
pois que, eUe desfiobre a cidade de Jernsalem, diz: 






Ami^os, jà diylsamos 

A Hierusalem, adoude 

Seu Povo ingrato esconde 

aspid da morte entre os Bamoa, 



Na entrada de Jerusalem, quando o povo o saiida, 
tambem Ihe nao esquece este trocadiIhO| sobre ps ra- 
mòs e à cruz: 



•80 HISTORIA DO THBAiraO POBTUGUEZ 

Becoaliepo povo bronco 

Qae % ìey de mea P«y infamai» 1^ 

Se agora me dak a rama Ir 

Depoia me darela o inmé^ 1 

In 

Que differenza d'este Auto gcmgonco para a inge* 
vnidjkde e redeza orenie do Awto da JPaixSo do Fière 
Fraoeiaco Vaa, escrìpto ainda sa expatia&o lyrica do 
aeoido xti, e daco i^eaes reimpreaao no secnto xVn, 
apeaar do todaa as prohibÌ90es dos Index ExpHrg^iO' 
riasj Com o dominio doa jeauitae^ a eren^a tomoii-ie 
nma abstrac^ào em qne se acreditata à for^a, e qneie 
prestava às allegorias imaginosas e oucas dos sermo* 
narios; na eschola de Oli Vicente afe era nm elemen- 
to vital, nm sentimento inalteravel qae snstentava a 
verdade do lyrismo. Imp<nrta &zermo8 aqui o paralle- 
Io do Tratado da Pavxào^ do Padre Jofto Ayres oom o 
Auto do Padre Franci^oo Yaz, reimpresso em Evon 
em 16. • • por Francisco SimOeS| em Braga, em 1613 
por Fmctnoso de Basto, em Lisboa por Antonio Alva- 
T«s em 1617 e 1639, e por Bomingos Cameiroem 
1659; este Anto, escripto mnito antes de 1559, (l)nf 
titula-se : « Obra novamente/eita da muUo ddarosa Mor- 
te e Paiaào de N. Senhor Jeeu ChrietOf conforme a et 
creveram os quatro Santos EvangelUtaSm Feita por um 
devoto Padre chamado Francisco Yaz, do Guimaràeft*) 
No Tratado do Padre Joào Ayres de Moraes enoon* 



(1) Sir John Adamaon poasuia uma edicAo d*eate aniM^ 
Vid. Inn. Dice. Bihl. 



NO SECULO XVII 2gl 

tramTge diversas quftlidades de retso^ no Auto d» Pii- 
dre Fr»nciaoo Yaz^ empréga-se sempre o Terso de re* 
dondilhe, na estr^he em quiniilhasi e no prologe usu 
do versa endecasyHabe em endeixas, qoe Gii Vieenie 
inbrodaEiràdos velfaos Mysteriog franceKes: 



Depok eie oreados os Oeos e a temr 
o poYO deyóto e mai reverendo, 
segando mcu fraco saber que entendo 
com ludo andamos em mai grande guerra:. 
Da qnal a victoiifr em. vale e em serra, 
e nam se descobre aie descender 
o Fllho- de Deos per nds padecer 
segando na Sacm Escrìtura se encetna^ 



: Sofke» versofi tem urna m^péa popolar nttracEazi** 
vel; o Padre Fraaoisoo Yaas, n'este prologo faz a ex^ 
poss^jfte éks figtiraa qoe hik> de enintno Auto. €bm 
qm séBtraienta fata do beijo de J^das^I 

Oh betjo malvado de tanto amargor, 
contemplem criados que sam desieae% 
que com este crime nem menos nem mais- 
seram reputados no mesmo error. 
Alli 8er4 preso com grande arruido 
aquelle €k)rdeiro manso innocente, 
atado d*aquella sac^lega gente 
com empazdes e panciMas ferido» 

Ne Tratado da Paix&o nfie ba ntn« syilaba, nms 
vibrarle que M' parrei' oom iato! A Kgn^a definiir^ie 
ccM o Cswilio de T«eIlto^'cireaIil8crevel^se ae dogma^ 
tismo esteri!; depms foi4fae itnpossivet toti»!t^^«^ 



282 fflSTORIA DO THEATHO PORTUGUEZ 

rftr obnts de Arte; o Anto do Padre Francisco Vazpi- 
rece ditado por urna alma mosarabe; o do padre Jo2d 
Ayres é escripto sob a iinpressfto do ere 4iu momt! 
Entro OB escrupnlos tenebrosoe dò Sanio*Officio, e u 
argucias dos Jesaitas, o sentimento retràhia-se pm 
àar legar à rhetorica calculada. 

Por estes dotes poeticos do sincero presbytero se- 
cular de Guimaràes é qne o sen Anto merecen sor co- 
nhecido no Oriente* Na reimpress&o da Grammatiea 
da litiffim Coneanij do Jesnita Tfaomaz Estevam, Jot- 
qnim Heliodoro da Cunha Rivara diz, que o Auto da 
Paixào fora tradnzido n'essa lingua. Acerca da exÌ8- 
tencia d'està versào, escreve o snr. Innocencio: cO 
que porém resta ainda a advertir, é qne a tal vbìUo 
ou Dedarafào comò n'olia se intitnla, nfio foi feiit 
simplesmente sobre o escripto do Padre Francisco Yaz, 
tal corno este se imprimin em portuguez ; mas sim se 
renniu a d'este a traduc^o de obras de diversos posto 
que analogo assumpto. Assim dos extractos citados e 
da Tahoa dos Capitulos reprodnzida pelo snr. Rivan, 
vé-se evidentemente que a versào concani cometa ni 
conceÌ9ào da sanctissima virgem e prossegue com % 
vida d'està e com o nascimento e infancia de Christo, 
até chegar ao capitnlo xiij, que se intitula: €De emo 
N. S. Jesus Christo seis dias antes da sua morte tfei» 
para tnorrer pslos peccadares na cidade de Jerusalm^ e 
o que fnais acanieceu.i^ Aqui é qne cometa o orìgiail 
portuguez impresso, e n'este nfto ba coosa algoma qua 
corresponda ao que antecede na versfto. 



NO SBCULO XVII 283 

^Ainda mais, o (nriginal fenece oom a deposi^ de 
Ghristo no sepalchro e o pranto de sua santisaima mte; 
correspondendo ao cap. xxiv da tradac9ào. Està à sua 
parte continua com mais doze capitulos, tambem no- 
voSy comprehendendo a ressurrei^ào, e o mais que an- 
tecede à morte e gloriosa assnmp^ào da Yirgem.i» (1) 

Yazios de cren^a, aonde os Jesuitas suspeitavam 
que existia algum caler d'esse sentimento apodera- 
vam-se logo d'elle para se &zerem acreditar. Foi isto 
o que OS levou a deturparem o. fervoroso Auto da Pai- 
xao, traduzindo-o na lingua concani, para exaltarem 
OS cathecnmenos. Yejamos comò estes dois poetas hie- 
raticos traduziram a mesma situa^ào; quando Nossa 
Senhora vaé ao encòntro de Jesus, diz o velho Auto 
do secalo xvi: 



Ay dolor! 

On yÓB ontrofl que passaes 
por està yia mMqtfinha, 
rogo-vos qae me ^igaeè 
86 vistes penas mortaes 
tamanha corno etta minha. 
Vistes por aqui passar 
a meu Filho tana fermoso? 
aquelle quo Dfto tem par 
em gra^as, fei^Oes e ar, 
aobre as virtades loalroso ? 
Vistes U o mea amado, 
filhas de Jemsalem, 
o men filho tam prezado, * 
mais homilde e bem creado 
do quo nunca via ninguem? 



(1) Dice BibL, t* lU, 1^ 96. 



2$é . HISTORIA DO THEATRO POBTUGUEZ 

TSo TraÌ€ido da PaixSoj a Sésiiont fala com mais 
hjrparbaEtoBi^ oom meiieff alma: 



Para d**ondé em rigor tanto 
Ay de mim, triste me bsids ir, 
Se la heyde ter a propria 
Pena qne padano aqni? 
Que oMfti^ào htvt» podé 
Que Bendo o mais varonil 
1^ nfio reduza a peda^os 
Kòrrendo-DM^ uìn filhéi aelmi- 
ó VÓ0 todoa que paaaaea 
For està estrada, adverti 
Sé iguala ao^ me» «oiEnme«4o 
Qnem melhor soube aentir I , 



do sentimento perde-se nos conceitos e agudesuifi^ en^ 
genhosas: 



Que heide fazer n*<e0t« mago» 
Quando, ay de ml^ consvdertf 
Ante mcuB olhoa q«wbrado* 
meu cryataltiio efipe)b&. 
Liquidarei minha alma* 
Os semivivoa alentoa. 
Se quando nlo^ choro muitid' 
Ao muito que quera offendo. 
Porém nSo^ lagrimas mitthaa, 
Ide um pouco mai0 a tento» 
Que a pena chorada perde 
De seuB quila<ea o ifre^Oi 



E seis estrophes abaìxo, fala a Senhora, mostrando 
gne conhece as figuras de rJbetoriea: 



mO SBCJJLO XVII »5 



Chorao, ano je o pnurt^ BMido 
Hyperbole é manifesto, 
Cfaorando escare^ aa penaa 
Quando asvesea romipuée^o. 



Pelo Traiwh da P<»xào ne fickoheee qae era iaapos- 
sivel reatar a tradÌ9ilo dramatica de Gii Yìceiitey re- 
constituir a sua eschola; o padre Joào Ayres de Mo- 
raes assignala o firn do Auto nacìonal. Combatìdo pela 
Censura do Santo-Officio, pelas Tragicomedias dos Je- 
suitasy ainda nào bastavam estes agentes de destrni^ao 
para extinguil-o; veiu urna nova cauàa ajudar a des- 
natnral-o : as agudezas do seiscentismo. Auto po- 
pular acommodou-se urna vez a esses labyrintosos equi- 
vocos e antes preferiu deixar-se cair no esquecimen- 
to. A època nào Ihe pertencia ; queria dar logar aos 
estranhoA. theatro castelhano, depois da invasào hes- 
panhola ter sido sacudida, dominou absolutamente os 
noasos escriptores draraaticos, impdz-se & admira9ft09 
obrigou-os a escrever na lingua e pelos modélos de 
Lope de Yoga. Havia muito que aproveitar d'està imi- 
taQào, se ella nào fosse tao absorvente* A tradigào do 
theatro portuguez fica d'aqui em diante novamente 
perdida; so no seculo xviii é que se levantarà um An- 
tonio José da Silva, um Antonio Xavier Ferreira de 
Azevedo, um Manoel de Figueiredo, um Sebastiào 
Xavier Botelho, para vèr se descobrem outra vez o ge- 
nio nacional do nesso velho theatro; mas o ramuB ati* 
retiB nào se Ihes soltarà para dar entrada no mundo 
da imagina^ào povoado pelos sentimentos dos nossos 



286 HI8T0BIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

maiores. Emquanto nào historiamos essa rota dos no- 
Tos argonautas, a querp nào foi dado descobrir o vello- 
cino apezar dos eminentes dotes quo tivèram, yejamos 
a influencia da lìtteratara dramatica de Hespanha e o 
desfiotismo que exercen sobre os esorìptores porta- 
gnezes. 



• i' 



NO SECULO XVn 287 

Aa Comedias hespanbolas de Capa e Espada 

O theatro portuguez, iinitado em H^pftoha no secalo zvi, é 
inteiramente dominado pelo ^nio hespaiihol no secalo xvii. 
— Os poetas hcspanhoes ensmara-nos a tratar*Ds assomptòs 
da historia nacional. — ^^Nega9fto da propriedade da Jittèratu* 
ra dramaiica no secalo xvu. — Qaeixas de Lope de Vega e 
de Antotiio Henriques Gòmes. — A Oomedia de Lope de 
Vega La Ocasi&o jperdida, em uni divertimento popular na 
TÌlla de. Pcdrogain grande em 1626. — Lautelde Apollo 
e o conheciniento de Lope de Vega da litteratura portagne- 
Ea. — Influencia da sua Nova Arte défazér come^iifu^ — £s- 
crtptores portu^uezes da eschola dramatica hespanhola. — 
Jacintho Cordeiro, Fedro Salgado e Antonio Henriques Go- 
mes. — Caracter politico da comedia portugueza do secalo 
XTii. — Enumerando dos difPerentes poetas dramaticos da^és- 
chola hespanhola. — Exposi^^^o das Comedias de Calderon, 
Guevara e MontàlvAo tiradas da historia portugueza. 
• 

Por dnàs leves imita^Oes de Gii Yicente feitas por 
Lope de Yegà e Calderon, na Vioffe del Alma e El Li" 
rio y la Azuzena^ temos de supportar o dominio quasi: 
absòluto d'estes dois genios, imitados no theatro por** 
ingues no seciilo xvii e xviii. (1) Foram os dnuna^ 
turgos hespanhoes os primeiros que nos ensinaìram à; 
tòitar no tlieatro assumptos da historia nacioiial ; Oàl«^ 
deron escreveu a Comedia do Principe Constante^ fim^ 
dada aobre a morie dò Infante Santo em Tanger, que 
hojé anda nas èdigòes em foiba volante; Luiz Yellea de 
Guevara, traton egualmente os tràgieos amore» de 

(1) Sieioria do Theairo^pertuguestf t. 1, p. 198. 



288 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Ignez de Castro^ j& cantada na Nis^ Laureada^ origi- 
nai de Frei Jeronymo Berraudes; Juan Perez de Mon- 
talvan esei^ve «ima oomedia fatncxfta sobr» Santo An- 
tonioy iutitulada El divino portuguée. 

Mas a inflnencia dos escripioi^s he8]>anfaoe8 nàòse 
manifesta sómente na.exclusào da lingua portugueza 
do th^tro, mas na fórma da comedia, Hbertada das 
nnidades-aristotelicas pelo genio de LopedeYega. Por 
6flte raesmo tempo àndavam em Portugal contpanlnas 
ambulantes de actores hespanhoes, e a companbia do 
oefefore JEscamilha era contratada para ò Paleo das Ar- 
ca$ pela mesa do Hospital de Todos os Santos*. Urna 
veis postos na vereda nova, os poetas dramatioosde 
Portugal quizeram tambem deslumbrar a córte de Ma- 
drid; as Oomedias de Jachitko Cordeiro andam perdi- 
das nas vastas colIec^Oes hespanholas; era entao moda 
no seonlo xvii nSo reeonheoer a propriedade dinmati- 
ea; 09 livreiros mudaram os tìtulos das oomedias e da* 
Tam-lhes novos anotores, para mais £ieilmente Ée yen-* 
derem» Foi por isso qne Lope de Vega fez o Catalogo 
das soas Comedias na novella do Pellegrino en mu Peh 
trio* A Comedia de Dom Franciseo Maooel de Mollo 
intitulada Domine Luca» anda hojo attribuida « Cam* 
SMkreB,, por està argneia dos livreirod. Tambem aa oo* 
media» do oelebre Antonia Henriquea GU>mes eram re- 
presentadas em Hespanhai i maneira de Lope da Yo- 
ga, diz elle no prologo do sen poema Samdo Naxarem: 
«Las mias Comedias fueron veinte y dos, cujos titu- 
lo8 pondré aqni para que se eonosoan por mias, pues 



NO 8BCUL0 XVII 289 

todas ellas, y las mas que se imprimen en Sevilla, le 
dan los impressores el titulo que quieren, y èl due£iò 
qtie se les antoja.i) Por està grande liberdade de ì'e«- 
pre^ntar e de roubar a proprìedade litteraria tambem 
se explica o grande predominio da comedia hespanho* 
la em Portugal. £m Braga imprimiram os livreiros 
Fràctaoso Louren9o de Basto e Francisco Fernandés 
de Basto, em 1624, um volume de Àutos Sacrameutaes 
de Lope de Vega, attribuindo-os ao Padre Joseph de 
Valdevieso. (1) De todos os poetas dramaticos de Hes- 
panha, o mais representado em Portugal, o mais que- 
rido e o mais justamente admirado foi Lope de Vega; 
todos* OS mosteiros possuiam as suas obras, todas as terr 
ras ouviram as bellas inspira^Oes e improvisos d'aquel- 
le ùnico genio. Citamos em abono d'està asser9ào um 
facto bastante curioso. 

Miguel Leitào de Andrada, descrevendo as festàs 
que se fizeram à Senhora da Luz em Pedrogam Gran- 
de, antes de 1626, recolheu inconscientemente factos 
que nos provam a influencia do theatro hespanhol em 
Portugal no seculo xvii : 

«No adro defronte da Igreja, onde jà a sombfa vi- 
riha cubrindo, se armou huni theatro em cima de qua- 
tro tinas com vigas e taboas, e ao redor delle cadeiras, 
e OS bancos das Igrejas, e as janellas e telhados cuber- 
tos de donzellas, e de mo^as, e outras molheres, que 
todos se tinhào vindo das canas. 

(1) No exemplar quo possuimos declara-se em letra ma- 

Duscrìpta do seculo xvn os que sfto de Lope do Vega. 

13 



290 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

cOnde se representon a comedia de Lope deYegi 
intitulada Dom Joào de Haro^ la occtmon perdida, ei- 
oellentissimamente, porque as figaras erao manceboB 
nobres e estudantes de maita habilidade, e o bobo, e 
ontras figuras forào buscadas de diversas partes, e de 
tal maneira o fizerào, que afirmaran muitos o n&) pa- 
derfto fazer mélhor os mesmos mechanicos do officio. 

«Porque tambem os oruamentos e trajos erio mui- 
to bons, trazidos pera isso de Lisboa, que he o qae da 
muita gra^a e perfei^ào a estas cousas, e se acabon a 
comedia mais de huma bora, où duas da noite, pera o 
que se puzerào quatro tochas nos quatro caotos do 
theatro, e veio iste a cahir muito a pelo, corno dizem, 
e a proposito por quanto o argnmenta da obra se aca- 
ba em Auto de amores que se trata acontecerem de noi- 
tO; entro a Princeza de Bretanba e el-Rei Dom San- 
cho de Liào, que com ella entrou sem nenhum d'elles 
saber quem o outro era, e se vierào acaso a descnbrir 
Beis; perdendo Dom Joào de Haro a occasiào por leal- 
dade, e por isso se chama ^ — Occasido pet^dida.ì> (1) 

Lope de Vega na comedia o Principe Perfecto (2) 
apresenta sob o nome de Dom Joào de Sosa ao afama- 
do poeta portuguez Dom Joào Manoel que tanto figu- 
ra no Cancioneiro de Besende; porém o modo corno ai 
apparece é pouco bonroso. (3) Lope de Vega era ve^ 



(1) Miscellanea, Dial. xir, p. 238, ed. de 1867. 

(2) Comedias, t. xi, p. 121. 
Ticknor, Èist, de la litL esp. Epoca i, cap. iv. 



(2) 
(3) 



NO SECULO XVn 291 

sadissimo naiitteratura portuguezado secalo xviexvii, 
conio se ve pelo Laurei de Apollo^ aonde louva CamOes, 
Sa de Miranda, Dom Bodrigo da Cunha, Francisco de 
Macedo, Jeronymo Corte Beai, Nuno de Mendon9a, 
Diego Bernardes, Antonio das Povas, Francisco Bo- 
drigues Lobo, Jorge de Monte-Mór, Antonio Lopez da 
Veiga, o Doutor Sylveira, Dona Bernarda Ferreira 
de Lacerda, e Manoel de Galhegos. Muitos d'estes es- 
criptores so tem hoje a celebridade de terem side lou- 
vados por Lope de Vega, que esgota todas as fórmas 
dos mais rasgados panegyricos no citado Laurei. Lope 
de Yega era imitado em Portugal em todas as fórmas 
da litteratura. Nunca se via genio mais fecundo e 
brilhante, mais naturai, apaixonado, cavalheiresco e 
gracioso; qualquer verso descuidado é de uma belleza 
inimitavel, qualquer situa^ào dramatica é sempre cheia 
de vida. Como elle influiu sobre o genio portuguez 
deslumbrando-o I 

Diz Manoel de Galhegos no Tempio da Memoria: 
cComtudo traballici muito por nào baixar de estilo, e 
vali-me de alguns vocabulos e termos extranbos, com 
toda a modera^ào e com todo o rigor da rhetorica : . . . 
este he o estilo com que Frei Felix Lope de Vega Car- 
pio ha tantos annos que he suavissimo encanto dos en- 
tendimentos da Europa, d N'este mesmo poema, Lope 
de Yega escreve um soneto laudatorio a Manoel de 
Galhegos. Elle nos descreve Lisboa, no seu Laurei de 
Apollo, com uma pompa e colorido orientai: 



292 fflSTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Tendida cn las riveras 

Del mar de Espafia, dulcemente yaco 

La celebre Lisboa, 

De las tienns Iberas 

La mas illustre, y de mas alta loa, 

Que mira cuando hace 

La luz pitonicida, 

Alma del mundo y de los liombrcs vida. 

Mifio lalisongea, 

El Tajo la enobleee, 

El Duero la divide, 

Mondego la pasea, 

Toda iiacioD la vive, ò la desea, 

La India la enriquece 

Y el mar le trae quanto quiere y pide. (1) ' 

Depois de sacudida a usurpagào hespanhola, a lin- 
gua portuguezia come9ou a ser novamente usada pelos 
escriptores; mas a poesia nào póde resistir a fascina- 
<;ào de urna lingua cavalheiresca e donairosa modala* 
da por Lope de Vega. theatro rcsentiu -se d'aste des- 
lumbraniento; expressào e fórma e tudo hespanhol. A 
transforma^ào do theatro no seculo xvii sob a influen- 
eia de Lope de Vega e da sua eschola, està completa- 
mente explieada na sua ]}fova Arie defazer Comedw 
alguma$ das suas ideias sào documentos para a nossa 
historia dramatica. 

Extractamos alornns tr^mxìQnio^A^i Nova Afte àt 
fazer Comedias para que por si fique defiuida a eschol» 
de Lope de Vega, imitada em Inglaterra, (2) em Fran- 
ca, na Italia e em Portugal. N'este celebre manifesto 
diz Lope de Vega: ce A coraedia verdadeira tem sen 

(1) Silva m, 

(2) Philarete Charles, Etudes sur W, ShaTcnpeare, p. 152. 



NO SECULO XVII 293 

firn, corno qualqner outro genero de 'poema e de poe- 
sia, e este firn é representar as ac^Oes. dos liomens e 
pintar os cosfcumes de urna epoca. Ora, toda a imita- 
^ào poetica d'este genero se compòe de trez cousas : o 
dialogo, a fórma elegante dos versos, e a harmonia oii 
a musica; e estas condi^Oes sào as mesmas para a tra- 
gedia; porque a sua unica differen9a é, que a primei- 
ra trata accOes humildes e plebeias, ao passo que a 
tragedia representa ac^Oes nobres e reaes 

«Escolhamos um assumpto; quer elle tenlia reis, 
quer nao . . . Póde-se misturar o tragico com o comi- 
co. . . o serio pódè estar ao lado do faceto, està varie- 
dade agi'ada mnito. A natureza, por firn, dà-nos o 
exemplo: os contrastes augmentam a belleza. 

(tNào trateis mais do que uma ac^ao, e uào a so- 
brecarregueis de episodios, isto é, de cousas extranbas 
ao vesso primeiro plano. Encadeae tao bem o todo 
conjunctamente, quo nada se possa desligar da vessa 
fabula, Sem o mais cair immediatamente. Nào vos im- 
porei o encerrar a pe^a dentro do periodo de um so 
dia, ainda que Aristoteles o aconselha; mas que im- 
porta? jà Ihe perdemos o respeito quando misturàmos 
o seutiniento tragico e o humilde caracter da comedia. 

<iQue a fabula se passe no menor tempo possi vel, 
e eis aqui tudo, excepto quando o poeta tratar um as- 
sumpto historico, que exigir alguns annos, ao qual 
deve metter os intervallos de tempo nos entre-actos; 
egualmente, se Ihe fór necessario, póde fazer viajar um 
doB seus persoaagens: tudo cousas com que os conhe- 



204 HISTORIA DO THEATBO POBTUGUEZ 

cedores se escandalisam. Mas que estes taes n&o ve- 
nhain ao nossos theatros I 

iKÙma vez escolhido o assumpto, escrevei-o em 
prosa, dividilo em trez actos, tendo o cuidado, se as- 
sim o puderdes, de encerrar cada acto no espa<^ de 
um dia. Capitào Yiruès, espirito distincto, redozia 
a trez actos a comedia, que d'antes andava de quatro 
patas comò uma crian9a que engatinha 

«0 assumpto, que haveis dividido em trez acios, 
deve ser de tal fórma ligado, que do principio aie ao 
fim caminbe com nm interesse crescente. Mas n&o dri- 
xeis adivinhar o desenlace, até que khegue a soena fi- 
nal, porque quando o publico a descobre antecipada- 
mente, vira a cara para a porta e as costas para aquil- 
lo a.que atteudia de frente, durante trez boras; etem 
rasào porque nào ba mais que descobrir. 

«Que o theatro fique o menos tempo possivel sem 
personagem que fale, porque o publico, n'estes inter- 
valos, se indispòe, e a pe9a torna-se mais longa; é am 
grande defeito que se deve evitar, e evitando tanto 
mais gesto e merito mostraes. 

«Come^ae entào a escrever; que a vessa linguagem 
seja casta; nada de prodigalisar grandes pensamentos 
nem agudezas de espirito em scenas de interior, aonde 
nào ba mais do que imitar a simples conversa^ào de 
duas ou trez pessoas; mas quando um dos personagena 
introduzidos aconselba, persuade ou dissuade, o eett 
estylo deve differir do estylo vulgar, e é entào ensejo 
para empregar expressdes selectas mais elevadas e sen- 



NO SECULO XVII 296 

tìmèntos mais uobres. Sereis n'isto conforme 4 verda- 
de, pois quo nm homem que aconselha, persuade ou 
disBuàde, nào fala corno toda a gente. 

«Aristoteles nol-o recommenda; qiier que a lin- 
guagem da comedia seja pura, darà, facii; accrescen- 
ta, que deve ser similhante a de que se servem usual- 
mente, excepto nos assumptos serios e graves da poli- 
tica, porque n'este caso a dic^ào deve ser ornada, es- 
plendida e sonora. Nào citeis as santas Escripturas, e 
nào sobrecarregueis a linguagem de palavras extrava- 
gantos e desusadas, porque tendo de imitar a lingua- 
gem da conversa^ào, nào vereis n'ella empregar estes 
termos barbaros de hippogriphos, de centauros e ou- 
tros. 

€Se é a um rei que fazeis falar, imitae a gravidade 
real; se é a um veiho, que a sua linguagèm seja sim- 
^es e sentenciosa; que os amantes déem a seus senti- 
mentos nma expressào bastante viva para mover os 
que ouvem. Que o actor nos monologos, se reconcen- 
tre em si mesmo e leve o espectador a identificar-se 
com elle ; que a si proprio fac^ perguntas e respostas, 
e se tiver queixas a fazer, guardo sempre o respeito 
que se deve às mulheres. Que as actrizes se lembrem 
do seu sexo ; quando mudarem de vestes seja com bas- 
tante reserva para que se Ihes desculpe. Em geral o 
trajo de homem càe-lhes bem e agrada ao publico. Fi- 
nalmentei em isto corno no demais, guardae-vos de 
querela um impdssivel, porque a maxima mais absoluta 
qoèr que fiqueis sempre na vero8Ìmilhan<;a. 



296 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

«Que OS creados nào tratem assnmptos elevados, e 
nào discorrali), comò vémos nas comedias estràngeiras; 
e que nuuca o caracter esteja em contradic^ào oom o 
personagem . • . Acabae vossas scenas por algutn tra<^o 
gracìoso e com versos elegantes, de maneira que o 
actor ao sair, deixe urna boa impressào no audito- 
rio. 

«A exposÌ9ào occuparà o primeiro acto, o segundo 
servirà para o desenvolvimento e encadeamento da in- 
triga, de modo que até ao meio do terceiro acto nin- 
guem possa prevér o desfecho; enganae o espectador 
curioso deixando-Ihe entrevèr um desenlace possivel, 
e differente portante d'aquelle que prometteis. 

«Que a fórma de vossos versos seja apropriada com 
prndencia ao vesso assumpto ; as dedmas servem para 
exprimir queixas; o soneto coUoca-se bem na bocca 
d'aquelle que espera ; as narra90es pedem a fórma dos 
romancesj ou melhor ainda^ algumas vezes a das onta- 
vas; nào empregueis o terceto a nfto ser em cousas gra- 
ves, e as redondilhas para o amor. 

«Nào desprezéis as fìguras de rbetorica, corno a 
repeti^ào, a reduplica^ào, nào mais do que a anapbora^ 
no comedo dos versos, a ironia, a hesita^ào^ a apostro* 
phe e a exclama^ào. 

«Acobertar a verdade é urna cousa qiie parecen 
bem ; fói o que etn suas cómedias fez Miguel Sancfaez, 
digno de ser lembrado por causa da maneira eomo 
usava este artificio. A linguagem equivoca e a incer- 
tezsL amphibologiea que d'ella resulta, dào nò g6(o dos 



NO SECULO XVII 297 

espeotadores porqne cada um julga qne so elle compre- 
bende o que engaua o personagem da scena. 

<icEscoIhei assumptos que interessem a honrà^ por- 
que commovem vivamente o publico; devem-se prefe- 
rir as acgOes virtuosas, porque a virtude é amada em 
^ loda a parte 

«Que cada um de vossos actos nào tenha mais do 
que quatro folbas; porque quatro folhas juntas sào a 
medida da paciencia dos ouvintes. Se quereis satyrì- 
sar^ evitae a clareza; beni sabeis que na Grecia e na 
Italia se«probibiu a comedia por causa do abuso das 
personalidades. Ficae mas sem rancor; lembrae-vos 
que a diffama^ao nào póde esperar applausos, nem 
contar <ìom nomeada. 

«Taes sào os aphorismos quo eu dou comò regra 
àquelies que se nào prendem aos preceitos da arte anr 
tiga ; é tudo o que póde comportar a epoca em que vi- 
vemos ]f> 

•Este manifesto da nova arte dramatica era conbe- 
cido desde 1606 ; tbeorica e praticamente a escbola de 
liope de Vega dominava em Portugal. A primeira 
Parte das suas Comedias foi impressa em Portugal 
em 1612^ trazendo a approva9ào pelos Jesuitas do 
Collegio de Santo Antào; Manoel de Faria e Scusa, 
em 1630, escreveu a dedicatoria da Parte dezenove 
das Comedias de Lope. Com a Arte nova defazer Co* 
mediaé o genio moderno libertou-se dos intrincados 
oanones de Aristoteles e dos seus commentadores, e 
appareceu immediatamente em Hespanba urna pleiada 




298 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

gigante de poetas dramaticos, taes corno Damiào de 
Vegas, Francisco de Tarrega, Gaspar- de Agoilar, 
Guillen de Castro, Lniz Velez de Guevara, Juan Pe- 
res de Montalban, Valdovieso, Mira de Mescua, Don 
Antonio de Mendoza, Ruiz de Alarcon, Belmonte, 
Diamante, Canizares, Candarao, Barrìos, Zarate, os' 
portaguezes Mattos Fragoso, Manoel Freire de Andra- 
de e outros muitos. 

£m Portugal està manifestalo do genio dramati- 
co nào foi menos fecunda. A eschola de Gii Yicente 
ficou immediatamente abandonada; Lope de Yegan&o 
condemnava os Autos e Entremezes antiofos. Diz elle 
na Arte Xova: «Chamou-se-Ìhe Autos, porque repre- 
scntam as ac^Oes e os interesses vulgares,^ e attribne 
a sua decadeucia a ignorancia do publico. Mas a sol- 
tura da imagina^ao que decretara, e o exemplo snsten- 
tado em centenas de comedias, tentava a seguir a nova 
vereda. Muitos dos escriptores portuguezes cbegaram 
a alcan^ar grande fama em Madrid, nas repre3enta<^òe8 
dramaticas ; as suas obras foram reoolhidas pelos li- 
vreiros nas Collec^Oes das Comedias dos genios d'aquel- 
la corte; os principaes poetas dramaticos da Eschola 
hespaìiholu sfio Antonio Henriques Gomes, Dom Fran- 
cisco Manoel de Mollo, o alferes Jacintbo Cordeiro, e 
Manoel Freire do Andrade. Ticknor, na HÌ9toria da 
Litteratura hespanhola, considera Henriques Gomes, 
comò pertencendo a escbola de Calderon: «Tambem 
foram d'este numero Antonio Enriquez Gomes, filho 
de um judeu portuguez, que em suas Academia» mo- 



NO SECOLO XVII 299 

rales de loè Musas inseria qnatro com^ias, todas de 
escasso inerito, exoepto a que tem por titnlo A lo que 
Miga el honor^h Antonio Henriques Gomes edncoa- 
se em Castella, e em Franca foi cavalleiro de Sam 
Hignel ; i maneira de Lope de Vega, para se precaver 
contra os livreiros de Seviiha que Ihe roubavam as 
snas Comedias, no Prologo do Satuàc Nazareno apre- 
senta o titnlo das segaintes : El Cardenal Alborfwzy 
primeira e segunda parte; Engaiìarpara reynar^ Die- 
go de Camus^ El Capitan Chinchilha, Feman Men- 
dee Finto j primeira e segunda parte; Zeloe no ofenden 
al -Sol; El Rayo de Palestina, Las Soberbras de Nem- 
bi'oty A lo que obligan los zeloSy Lo que passa en media 
fioche^ El Cavallero de Gracia^ La prudente Abigail^ 
A lo que obliga el honor^ Contra el amor no ay enga^os^ 
Amor con vista y cordura^ La fuerza del herderOj La 
Casa de Austria en Espatiaj El Sol parado^ El Trono 
de Salomany primeira e segunda parte. Hcnriqnes Go- 
mes promeCtia em via de publica9&o as seguintes co- 
medias Torre de Babylonia^ segunda parte, Aman y 
Mardocheo^ e El Caballero del Milagre ; escreren mais 
duas comedias publieadas em Pariz em 1641, intitula- 
das No ay contra el honor poder^ e Enganar para rey* 
nar^ citada no seu catalogo. 

poeta Jacintho Cordeiro tambem foi egualmen- 
te fecondo, apesar de ter morrido aos qnarenta annos 
deedade; d'elle existera as seguintes comedias: De la 
entrada del Rei en Portugalj por ventura para celebrar 
a cliegada de Philippe ni; foi impressa em 1621. Pu- 



aOO HISTORIA DO THEATBO POBTUGUEZ 

blicou eni 1638 a Ptimeira e segunda parte de Duofti, 
Pacheeo;em 1667, vinte dois annosdepoià dasuam<Mf- 
te, iinprimiu-se a Vitaria del Amor^ è JTo 'ayplazofie 
no llegìie^ ni deuda que no se pague. D^elle se consein- 
ram Amar porforga, El juramenta ante Dios^ M iijo 
de las batalhaSy El mayor trance de amor^ El sMaiort 
holéoéo^ e El Vàliente negro de Flandres.'Segfinàotìè 
dados conservados por Barbosa Maohado, o alteresJa- 
cintho Cordeiro morreu a 28 de Feverexro de 1645. Em 
urna collec^ào bespanhola, encontramos urna comedU 
avulsa de Jacintbo Cordeiro, ìntitaladaZo que esprimr^ 
qne foi representada em Madrid pelo celebre actor Tho- 
maz Fernandez. entrecho d'ella é pouco maÌ8oa 
menòs o segtiinte: Leonardo e Clarindo sào doispri*' 
moB, o primeiro pobre e o segando rauito rico; esU- 
vam jogando as armas, quando entrou o pae de Cla- 
rindo o velho Tiberio, que vendo recuar seu filho, se 
enyergonha e expulsa de casa o desventurado Leonar- 
do, que vae pelo mundo com o seu creado'Frison. De- 
pois de terem corrido varios desenganos dos amigos 
cbegarani a um bosque e ali se sentaram a queixar-se; 
n'isto apparece urna dama cbamada Finca, que anda a 
ca9a, e ouvindo aquelles queixumes, fingiu que estava 
a dormir com urna cadeia de curo na mào. Logo que 
a viu Frison, quiz roubal-a, mas Leonardo nào con- 
sentiu. Finca desperta' immediatamente, toma um 
grande amor por Leonardo, e dà-lhe uma carta para 
que se apresente ao Rei que a galanteia, para qne o 
proteja. Quando Leonardo ia para a córte, passava-se 



NO SEcuLa XVII aoi 

là o segainte : o Rei de Fran^f^ estava confidenciando 
com o Marquez de Leonelo, contando-Ihe a sua paìxào 
por Finea; na occasiào em que entrava o Conde 60- 
dofre, pae da donzella, caia da niào do rei o retrato da 
amante; o Conde sae desesperado ao descubrìr os amo- 
rea de sua fìlha. N'esta estupefac^ào do Bei, entra 
Leonardo e entrega-Ihe a carta de Finea. Immediata- 
meiite Ihe confia o rei todos os sens negocios e o faz 
secretario e confidente, d'onde resultam duas grandes 
collisdes, a primeira é o odio do Marqnez Leonelo, e a 
segunda o ser màndado pelo rei levar as cartas a Fi- 
nea, amando-a elle com mais fogo, Kei vem a des- 
ciibrir o amor de Leonardo, e por intrigas do Marquez, 
é mettido em lima prisào. N'este ponto, Clarindo al- 
cantara grande nome na guerra, é recebido na cór- 
te do Rei, que o encarrega de ir à prisào matar Leo- 
nardo. ' Logo que o ve, conhecem-se e abra^am-se co-» 
mo antigos amigos. rei reéonhece a infamia do mar* 
quez Leonelo, perdòa ao seu rivai, e consente no casa- 
mento d'elle com Finea celebrando-se as bodas no mes- 
mo dia em que casava com a princeza de Inglaterra» 
N'esta comedia ha uma scena em que se canta um ro- 
mance de Incz de Castro, que come9a : 



Mirando està el Rey B. Fedro 
elitre enojado y cruel 
lafi yervas- tintas de sangue 
que esmaltó su bella Inez : 
— Ay queridas prendas, dize, 
halladas no por mi bien, 
ya por mi mal dezir puedo 
8Ì en tal estado oa YiaWe. 



302 HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ 



No goze yo la corona 
ni do cetro portuguez, 
si en vengan^a do tu maerte 
no fu«ro Fedro crud. 



Este romance portence ao seculo xvii ; foi talrez 
recolhido da tradÌ9ao popular^ por isso qne se cantava 
nas trovas da borda do rio em Coimbra. Nas oomedias 
do theatrò hespanhol fala-se coih freqùencia da paixào 
violenta dos poi^tugnezes. Lope de Vega, na DorotJieay 
diz que tem alma de portuguez. Na Comedia de Jacin- 
tho Cordeiro Le que es prìvar^ quando Finca ouve can- 
tar o romance de Dona Inez de Castro, diz : 

finea: Notablc amante fué Fedro, 
MI bona: Fu e, sefiora, Portuguez, 

mucho quieren quando quieren. 

No theatro bespanlioi o portuguez Jacintho Cor- 
deiro mereceu ura logar distincto entre os discipulos 
de Lope de Vega; de todas as suas oomedias a qae 
mais agradou ao publico madrileno foi a Viteria del 
Amor* A par de Luiz de Belmoute, Ticknor cita: <Ja-. 
cintbo Cordeiro, cuja Viteria por el amor^ disfractoa 
por largo tempo o favor do publico. ]> (1) Antes de se 
distinguir tanto pelo seu auto nacional do Fidaìgo 
Aprendizj Dom Francisco Manoel de Mollo escreveu 
tambem as seguintes comedias em bespanbol: Jjabe' 
rynto de Amor^ Los secrètos bien ffnardadosj De burlas 

(1) Hiatoria de la Litter. ee^^u. E^. Uy cap. xxr, p. 170. 



NO SECULO XVII 303 

Imce amor veras^ e El Domine Lucas* Com este titulo 
existem mais dnas Comedias, urna de Lope de Vega, 
e outra de D. José de Caiiizares. No secolo xvii o 
theatro bespanhol foi invadido pelos escriptores portu- 
gnezes. Na Histona da Litteì*atura hespanlpola^ de Ti- 
cknor, abundam os facies: «0 portuguez D. Jo&o de 
Mattos Fragoso^ que viveu em Madrid, no mesmo tem* 
pò que La' Hoz e Diamante, gosou corno elles de gran* 
de repnta^ào, apesar de que adoece com frequencia do 
man gesto da sua epoca. Nào imprimiu mais do que 
um tomo das suas Comedias, de modo que temos de 
buscal*as, jà soltas, jà em coIIecgOes formadas com en- 
tro objecto, As mais conhecidas sào El yerro del en- 
tendidoy fundada na novella El Curioso impertinente^ 
de Cervantes; Ladichapor eldesprecto^ fabula drama- 
tica bem disposta; e El sabio en su retiro y villano en su, 
rincony que passa pela melhor de quantas escreveu. 

€A sua comedia ElRedentor CautivOj em cuja com« 
posi^ào o ajudou Sebastian de Yillavicioso, poeta mni 
conhecido d' aquelle tempo, é sob entro aspecto mais 
divertida e agradavel.' Diz-se que o argumento é um 
facto authentico, e em verdade o ternissimo incidente 
em que està fundada era um successo mni commum 
durante a larga e sangrenta lucta centra os christàos 
hespanhoes, e os mouros de Africa, tristes reliquias do 
odio encami^ado de dez seculos. Uma partida de Mou« 
ros berberiscos desembarca nas costas de Hespanfaa 
e depois de roubar os logares circumvisinhos, arre- 
bata e leva com pressa uma dama kes^^anhola*^ <^ ^^"^ 



304 HISTORIA DO THE ATRO PORTUGUEZ 

amante clesesperado a segue, e o drama refere as sua» 
aventaras, aie qiie, por ultimo um e outro sào adia- 
dos, e alcan^am sua liberdade. A par d'està fobula 
triste e melaneholica marcba um enredo e intriga sn- 
balterna qu^ dà o titulo ao drama, e caracterisa o es- 
tado do theatro e as exigencìas do publico, ou melbor, 
do clero; descobre-se quo em poder dos infieis ha urna 
grande estatua de bronzo do Salvador; os captivos 
christàos oiferecem immediatamente urna grande quan- 
tidade de dinheiro recebida para seu proprio resgate, 
e por ultimò os mouros consentem em entregal-a com 
a condi^ào quo se Ihes pagarà o seu pezo a ouro; ao 
realisar a opera^ào e posta em uma balanca o equiva- 
lente das trinta pe9as de.prata, pre^o pago pela pessoa 
do Salvador, esta'^pequena quantia pezou mais do qne 
a estatua macissa de bronzo, sobrando portante mais do 
que sufficiente para dar a liberdade a todos os capti- 
vos, quo ao offerecer o pre^o de seus respectivos res- 
gastes, liaviam na realidade ofFerecido suas vidas epe»* 
soas. A Comedia, que acaba com este surprehendente 
prodigio, comò as de Diamante," é em varios metro8,fl 
OS versos tem em goral facilidade e depura. » (1) Eo 
uma nota, Ticknor considera a comedia JSl Berìdentcr 
cautivo, de Mattos Fragoso, corno imitada da comedi» 
de D. Agustin Moreto El azote de su patria. Na ed- 
lec^ao das Comedias escolhidas, existem vinte e cinco 
comedias de Mattos Fragoso; este poeta viajou peb 

(1) Hisioria de la Litier, espanrlola, t. lil, p. 96. 



NO SECULO XVII 805 

Italia, e a sua comedia Pocos bastati si son huenos foi 
representada em Napoles diante do vice-rei. (1) 

Assiin se deprebende dos nitìmos versos, com qtie 
a comedia termina, fazendo nma allocu^ào ao Vice-Rei 
de Napoles: 

La Armada, aviendo tormentas 
90zobrado vieiite dias, 
sin poder hnzer viage, 
de nuestro exercito a vista, 
en mar alta se viò luego 
tan totalmente perdida, 
qae a Talon la mitad d'ella 
llegó con tragicas noticias. 
Con que aqui. Augnato Senado, 
ctquesta Comedia escrita 
por quien presente al successo 
vie obrar tantas bigarriaSy etc. 

nome de Manoel Freire de Andrada tambem fi- 
gura na vasta Collec<^llo do theatrohespanhol; era na- 
turai de Alfaandra, villa do Pàtriarchado de Lisboa; as- 
sista na córte de Madrid e morreu em 1680; Barbosa 
Machado cita comò celebre a comedia Vèrse y tener* 
se por muertosj impressa em 1670. 

entrecho d'està comedia é complicadissimo ; Dom 
Henrique de Moncada ama D, Isabel de Gardena, mas 
é apanhado nos jardins da amante e os crìados espan- 
cam-no e deixam-no por morto. D. Isabel sabe d'està 
desgra^a na occasiào em qiie fa embarcar com seu pae, 
que saia de Barcellona para ser vice-rei de Malhorca. 

(1) Idem, ib. not. 22. — Vid. Barbosa, BiÒl. LusiL, t. il, 
p. 695-^97. 



306 mSTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Dà-se aqui uni nanfragio, do qnal sómente D. Isabel 
escapa vindo ter a praia sobre urna caixa. Logo que 
sé via em terra, abriu a caixa e encontrou dentro d'el- 
la roupas de homem, disfar^a-se e vae dar aò palaeio 
do velho Duqne de Guisa offerecendo-se para criado^ e 
dando-se por Irlasdez. Madama Margarida filha do 
Duque enamora-se do creado irlandez; no entanto 
complicam-se os amores com o apparecimento do Car- 
los Marquez de la Vibera, que se serve do creado para 
levar cartas a Duqueza, que as toma corno escriptas 
pela disfar^ada D. Isabel. Apparece tambem D. Hen- 
rique de Moncada, que nào suspeita da existencia de 
Isabel, e apesar da sua tristeza apaixona-se por Mada- 
ma Margarida, até que a final se desembruiha toda es- 
tà meada; D. Isabel dà-se a conhecer a Henrique de 
Moncada, e assim se justifica a innocencia de Madama 
Margarida. Supprimimos a complicatilo das parodias 
dos creados que dào sempre às comedias d'este periodo 
com uma ac^ào dupla. A comedia Vèrse y tenerle par 
muertos foi representada, comò se deprehende d'este 
final, declamado por todos os actores: 



Y aqui, discreto auditorio 
a vuestras plantas rendido, 
el poeta mas moderno 
de limosna 06 pide un Victor. 



Barbosa Machado quando citou està Comedia, nào 
se referiu a nenhum^L ed^vio avulsa; foi publioada na 



NO SECULO XVn 307 

Parte ireinta y quatro de Comedias^ (1) impressa eni 
1670; n^este volarne vem Manoel Freire de Andrade 
em companhia de D. Gii Enriquez, D. Joseph e D. 
Diego de Figueiroa, D. Agustin Moreto, Jo&o de Mat- 
toB Fragoso, D. Juan de Zavaleta, Doctor Mira de Me- 
Bina, e um Engenho de Madrid ; das doze comedias que 
se contém n'esta Parte treinta y quatro^ diz urna li- 
oen9a: cy aviendolas visto representadas en està Cor- 
te oom aprobacion de sus censores, y leidolas de nuovo 
con toda atencion y cuydado, no hallo mi corto juizio 
inconveniente para que no se insprìman. Salvo mejor 
parecer, Madrid, y Junio, 1 de 1669 aflos. — Don 
Jiian de Zavaleta«i> Pela quadra final da comedia Ver- 
§6 y tenersepor muertos^ se conhece que Manoel Frei- 
re de Andrade ainda nào tinha eseripto mais, porque 
ae dk comò o poeta mais moderno. 

Depois da restaurando de Portngal, a comedia da 
«flchola hespanhola serviu para celebrar a independen- 
eia; Manoel de Araujo de Castro, naturai de Mon9fto, 
Mòreve La mayor hazana de Portugal, impressa em 
1645; Barbosa Machado diz que é: e: Comedia, de 
que é argumento a restauraQào d'està monarchia em 
1640.:^ (2) Muitos dos militares que batalharam nas 
jraerras da independencia cultivaram a litteratnra dra- 
maiica, comò Dom Francisco Manoel de Mollo, Jacin- 
tho Cordeiro e Pero Salgado. 



(1) De pag. 170 a 212. 

(2) Bibl. Lu§.^ t. in, p. 182. 



308 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Como iodos estes poetas dramaticos portnguezes 
«lo secalo xvii^ Fedro Salgado, militou nas guerras da 
fronteira, contra Castella, cujo dominio haria sido ba- 
nido em 1640; Dom Francisco Manoel de Mello e Ja- 
cintho Cordeiro tambem, corno elle, ai militaram, e é 
provavel que se conhecessem. Fedro Salgado era na- 
turai da Villa de Feniche, do Fatriarchado de Lisboa, 
e é de suppór quo terià nascido talvez antes de 1620, 
por isso qne em 1644 e 1645, segaia as armas porta- 
guezas qne combatiam no Alemtejo contra a invasao 
castelhana. Elle se achou em Elvas, na occasiào, em 
que o general hespanhol Marquez de Terracusa tenioa 
entrar na cidade, e tornar o forte de Santa Luzia, son- 
do ai recha^ado, e quasi derrotado, tendo de retirar-se 
vergonhosamente. 

Fedro Salgado ia escrevendo os successos da guer- 
ra em dialogos graciosos, a que dava a forma drama- 
tica, do mesmo modo que Simào Macliado fazia ao Cér- 
co de Din; comò Simào Machado, Fedro Salgado es- 
crevia a maior parte d'estes seus dialogos cu comedias 
politicas em hespanhol ; elle representa aiuda a eschola 
nacional de Gii Vicente, mas quasi inteiramente de»- 
naturada pela influencia absoluia do theatro hes- 
panhol. 

Ainda em 1663, quando veiuo general Schombei];: 
ajudar a defeza de Portugal, Fedro Salgado achon-«e 
tambem na Campanha do Alemtejo, e assistin a res- 
tauratilo da cidade de Evora. Sobre està segundapb- 
se da vida de Fedro Salgado, escreveu urna eomedkf 



NO SECULO XVII 309 

que intitulou politica^ mas aonde nào verbera a ìmpe- 
rìcia e ciunie dos generaes da fidalguia portugueza qae 
procuravam comprometter o destemido Schomberg. 
Em 1663, ainda era conhecido pelo seu primeiro dia- 
logo gracioso de 1645, a que o vulgo ehamava o Dia- 
logo gracioso d& Teì-racuga; o povo estava àvido desa- 
ber noticias da guerra, e seria està principalmente a 
causa da popularidade de Pedro Salgado; corno solda- 
doy e de humilde extracgào, a sua gra^a ou jocosida- 
de era serri violencia^ e bem comprehendida pelo vulgo. 
Tèmpo antes Dom Joào iv mandou proliibir em Evo- 
ra o lér-so as outavas escriptas a proposito da guerra 
por Andro Bodrigues de Mattos. Està circumstancia 
talvez explique a falta de inten^ào politica nos dialo- 
gos e comedias de Pedro Salgado, aonde nbundam as 
referencias historicas. Pedro Salgado é auctor de mui- 
to8 outroB tratados em abonagao do Reyno de PoHugal; 
naturalmente, eram rela90es de milagres e satyras em 
verso, que andavam entào na voga, distinguindo-se sor 
bre todos estes poetas revolucionarios Francisco Lo- 
pes livreiro, que acompanhou as guerras da indepen- 
dencia com as suas Sylvas e Romances. 

Pedro Salgado escreveu uma Comedia moral e jo- 
cosaj fórma hy brida imposta pela censura ecclesiasti- 
ca. Pela data da impressào dos seus escriptos se ve, 
que foram os successos da guerra da fronteira que 
acordaram a sua musa. Eis a ordem das suas compo- 
sì^òes: 

Dialogo gracioso, dividido em tres actos^ que con- 



310 HISTORIÀ DO THEATRO PORTUGUEZ 

tém a entrada que o Marquez de Terracusa, Generai 
de Castella fez na Campanha da Cidade d'Elvas, tra- 
tando de a conquistar e o forte chamado de Santa Im- 
sia, junto a dita cidade^ e a retirada que fez aie Ba- 
dajoz com perda de muita gente stia e de reputalo. 
Composto por Pero Salgado, naturai da Villa de Fe- 
niche, que se achou na occasiào. — Lisboa^ 1645« 

N'este mesmo anno publicou o: 

Theatro do Mando. Comedia mordi ejocosa, Em 
Lisboa. Publicando em 1646, o: 

Hospital do Mundoj segnnda parte do Theatro d'el- 
le. Dialogo moral e jocoso. 

Quando depois de 1663 publicou a sua ultima co- 
media politica, Fedro Salgado abona-se corno auctor de 
muitos outros tratados. Cumpre notar que no seca- 
lo XVII a palavra tratado designa Autoou comedia em 
verso, corno vémos pelo Tratado da Paixào^ do Padre 
Moraes ; por tanto Fedro Salgado referia-se ao Theatro 
do Mando, e ao Hospital do Mundo, que pela inten9Ìo 
moral mereciam o nome de tratados. O seu ultimo 
trabalho foi: 

A mayor gloma de Portugal, e a affronta mayor 
de Castella. Comedia Politica , que conterà a verdade 
de tudo que seccedeu na campanha do Alemtejo ette 
presente anno de 1668, e a gloriqsa Restauraqào da 
Cidade de Evora, com muitas particularidades digwu 
de memoria; composta por Fero Salgado, Autor (fo 
Dialogo de Terracuga e de muitos outros tratados, 
andam impressos em abonagào do Reyno de Portugal 



NO SECULO XVII 311 

O talento de Fedro Salgado nào attingia o seu na- 
turai desenvolvimento pela pressilo da censura, e pela 
exagerada adraira^ào do theatro hespanhol; apesar de 
tudo, a eschola de Gii Yicente tinha urna tendencia 
aaeional tao pronunciada, qiie ainda no secalo Xvil foi 
theatro a principal fórma litteraria que trabalhou pa- 
ra a nossa independencia politica. 

Em Santarem tambein floresceu a eschola hespa- 
nhola; Francisco Ilopes Pestana ai escreveu: Historia 
de Nossa Senhora da Gloria^ Comedia portugueza, e 
Dots dialogos, em qìie sào interlocutores Portuguezes e 
Castélhanos, onde se reprehendem com graciosidade al- 
gumas ac^des executadas por aquelle tempo em a Pro- 
vincia do Alemtejo. Morreu em Santarem era 1672. 
De Christovam Ferreira, ficou manuscripta a come- 
dia intitulada Acclamacion del rei D, Joào IV, 

Em Portugal tambem as damas cultivaram a sce- 
na. Feyjó no Theatro critico,. cita com louvor Dona 
Bemarda Ferreira do Lacerda: «senora portugueza, 
hjja de don Ignacio Ferreyra, Caballero del Abito de 
Santiago, sobre entender e hablar con facilidad varios 
lenguas, supo la Poesia, la Rhetorica, la Philosophia 
e las Mathematicas. 

e Deixó varios escriptos poeticos, y nuestro famoso 
Lope de Yoga hizo tanto aprecio de el extraordinario 
merito de està Sefiora, que le dedicò su Elegia, intitu- 
lada PA^^t^.}» (1) Agostinho. Rebello na i>/«crip55o 



(1) Op. cit., tom. T, dialog. 16, p. 379. 



312 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

do Porto completa està biographia: «"Na arto de de- 
buxo e miniatura^ ningaeìu houve que a ignalasse. Aos 
18 ànno8 de edade compòz o primeirò tomo da Bespa- 
nha Libertada^ e o l^egundo aos vinte e quatro;]» «Eoi 
siugular. . • ate na Musica, toeando com a maior per- 
fei^ào muitos instrumentos * harmonicos. » — « FiHp* 
pe III de Castella, respeitando niella certas raras qiia- 
lidades a preferiu a tantos homens sabios de que abun- 
dava o sea sedilo, elegendo-a mestra do seus filhoB 
Dom Carlos e Dom Fernando. Este alto e honorifico 
emprego, ella (ignora-se a rasào) o regeitou. Nasceu 
em 1595 de paes illustrissimos quaes foram Ignacio 
Ferreim Leitào, cavalleiro professo na ordem de Satn 
Thiago, e Chanoeller mór do Beino e de sna mulher 
Dona Paula de Sa Pereira. Morren no primeirò de 
Outubro de 1644.» Merece tambem urna men<jào espe- 
cial comò esoriptora dramatica; escreveu duas come- 
dias em hespanhol, Casador del Cielo, e Comedia de 
8, Eustachio, das quaes fala o padre Antonio de Reis 
no EnthusiasTiius Poeticus^ n.^ 275. 

Dona Brites de Sousa e Mollo escreve I^a vida de 
Santa Helena y invencion de la Cruz, e Yerros emen^ 
dados y alma arrepentida. Caetano de Sousa Brandào^ 
de Vianna, escreve El Rei Philosopho fingido, Como se 
adquire el honor, Ay amor onde ay agravioy e Amante 
haze amor. (1) 

Dona Angela de Azevedo, naturai de Lisboa, es- 
(1) Id,» ib., t, iv,p.ft5. 



NO SECULO XVn BIS 

crereu ma segainies comedias La Margarita del Ta^ 
uè dio nome a Santaren, El muerto dissimuiado. Di- 
eha ydesdicha deljuego,y devocionde la Vii'gem.Dù' 
im Angela era filha de Joào de Azevedo Pereira e de 
Dona Isabel de Oliveira, sua segnnda mulher; era 
maito estiraada da mnlfaer de Philippe iv, Donalsa*^ 
bel de Bourbon. (1) 

Dona Isabel Senhorinha da Silva escreve as Come» 
dias de Santa Iria, EstreUa errante, Noutee de Solj^ 
e Obr<u de Misericordia. 

Estevain Nunes de Barros, natura) de Santarem^ 
escreve Los Apostolea de Christo, S. Simon y S» Ju» 
da9. La Virtud vence el poder^ e El honot vence el por 
der. Nasceu em Santarem a 1 de Janeiro de 1638^ e 
morreu a 7 de Outubro de 1695. (2) 

Manoel Botelbo de Oliveira, poeta dramatico, nasr 
ceu na Bahia em 1636; estudou leis na Universidade 
de Coimbra; morreu na sua patria em 1711 ; seis anno^ 
antes da sua morte publicou um livrp de poesias em 
Lisboa, Musica de PamassOj aonde se encontram duas 
oomedias, em um supplemento intitnlado Descante co» 
mico. A primeira, Hay amigo para amigo^ foi publi* 
<»da anony ma na vasta CoUeo^ao do theatro hespanhol ; 
a segunda intitula-se Am^r, engatios y zdos; o seu tal- 
lente dramatico, corno diz Wolf, era nullo; o exagera*- 
do lirismo debalde vela a incapacidade de saber con« 



(1) /<f., ib., 1. 1, p, 175. 

(2) Id., ib., t. I, p. 788. 

li 



S14 mSTORIA DO THE A^TBO PORTUGUEZ 

das^r a acuito ^òìnuiio qtie Botelhode Oliveira eonse- 
guiu ooìn faculdades tao negativas é devido a imita- 
Qfto do theatro hési^nhol. 

Da eschola hespanhola da- Lope de Yoga e Calde- 
ron, sàò OS eutréniezes escriptos por Thomé do TaTora 
de Abreiiy que se intitulam : Yo nada^ El su^lio de Me»,' 
gOj La horcdda fingida^ La cena del Huesped^ El «an- 
eristaiio afeitado por la hija del Alcad; escreveu tam- 
bem qnsitro bayles, que pertencem ao novo genero dra- 
matico a Opera. clero hespanhol desenvolveu còm o 
aea dilletantismo o tlieatrò do secalo xvii; os princi- 
paes escriptores dramaticos, corno Lope de Vega, Gal- 
deron on Tirso do Molina, pertenciam a ordom eccle- 
siastica. Etn Portugal segniu-se tainbein està infiuen* 
eia. Padre Antonio de Almeida, naturai do Porto 
escreveu La humana sorga abra^sada, el gran Martyr 
Sam LourengOy que Barbosa diz ser comedia, publi- 
cada em Coiinbra em 1656. (1) Frei Gaetano de San- 
to Antonio, franciscano do Convento de Alemquer, es- 
creveu El Kosicler de la Aurora^ y admiracion de la 
monteSy no dizer de Barbosa: «Comedia representadt 
om Leiria, no anno de 1619 coin grande applauso dos 
expectadores. » (2) Frei Caetano nasceu em Santarem 
a 13 de Junho de 1683, sendo seu pae Vicente Loia 
Cordeiro e Isabel Ribeiro Cardosa. Frei Antonio da 
Santa Escholastica tambem escreveu urna comedia 



(1) BibL Lus,, t. I, p. 197. 

(2) /(/., t. IV, p. 27, t. I, p. 227. 



NO SECDLO XVn 316 

hespanliola Le que pueden las estrellas; era natnral ile 
Lisboa, e fìllio de Joào Pinheiro de Mattos e de Dona 
Escholastìca de Freitas; professouno Mosteiro deBe- 
lém, a 28 de Mar^o de 1684. (1) As Comediàsdo Pa- 
dre Antonio Fernandes de Barros foram representa- 
das no tbeàtro de Lisboa, d'onde era naturai e aonde 
exerceu a profissào de mostre de grammatica. Deixou 
manuscriptas: «Varias ComediàSj que representaram 
no theatro com grande applauso dos espectadores, os 
comediantes castelhanos.i^ (2) Este padre niorreu mul- 
to velho a 15 de Mar^o de 1680. Outro lisbonense, 
Frei Antonio de Sam Guilherme, escreveu a comedia 
La Fineza Coronada^ que ficou manusoripta; profes- 
80U no convento de Santo Agostinho a 10 de Feverei- 
ro^el696. (3) * 

Dom Francisco de Athayde Sotoraayor, natnral de 
Faro, tambem cultivou o tbeatro hespanhol ; Barbosa 
o considera € corno plausi vel pela poesia comica, com- 
pendo diversas comedias, que mereceram goral esti- 
ma^ào de todos os espectadores, sondo a mais discreta 
Desvios no son desprectos. » (4) Antonio de Almeida, 
imprimiu em Lisboa em 1645 as suas comedias La des- 
grada mas felice^ e El hermano fingido. medico 
Braz Luiz de Abreu, naturai de Leiria, aonde nasceu 
a 3 de FcTereiro de 1692, escreveu Agutlas hijas del 



(1) Id., ib., t. I, p. 260. 

(2) Id,, ib., t. I, p. 27Ò. 

(3) Id.y ib., 1. 1, p. 297. 

(4) Id., ib., t. II, p. 113. 



316 HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ 

Sòl, que huelan sabre la Luna, represeDtacion oomi* 
oa, tragica, triumpha], eie. (1) 

Portence a està numerosa pleiada do secolo XYII, 
Antonio Sento Figueira, naturai de Setubal; escreven 
muitas comedias, distinguindo-se entre ellas «Za C(h 
rona por justicta, que se representoii com grande ap- 
plauso em o palacio do Senhor Dom Miguel, filho do 
serenissimo rei Dom Fedro iui> (2) Era filho do Ca- 
pitilo Filippo Figueira, e de Dona Maria Yidal de Ca^ 
valho, tendo nascido em Setubal a 21 de Outubro de 
1681, aonde morreu a 5 de Julho de 1713. 

Em 1658 publicou Manoel Coelho de Carvalho urna 
comedia bespanhola sobre o raartjrio de S. Jo&o Bap- 
tista, intitulada La Veirdad punida y la lùoiya premiar 
da; Carvalho era naturai do Porto, è Executor do Al- 
moxarifado em Viseu. 

Barbosa Machado ennumera muitos outros poetas 
dramaticos que durante o seculo xviiimitaram othea- 
tro hespauhol, segundo os prece! tos da Arte Nova de 
fazer Comedias. Agora resta-nos falar de alguns dra- 
matiirgos hespanhoes que trataram assumptos da his- 
toria de Portugal. Damos o primeiro logar a Mestre 
Gabriel mais conhecido pelo nome de Tirso de Molina; 
escreveu uma comedia sobre a morte de Dom Pedro, 
Duque de Coimbra em Alfarrobeira, intitulada JE/wr- 
gonzoso en palacio, representada desde 1624 nos thea- 



(1) Id,, ib., t. I, p. 547. 

(2) Id., ib., t. IV, p. 26. 



NO SEGULO XVII 317 

tro6 de Italia o de Hespanlia. Eis o sen elenco, que 
extractamos de Ticknor: «Nào é, propriamente falan^ 
do, historica, ainda quo o seu argumento versa em 
parte sobre a vida e feitos de Doni Fedro, Duque de 
Coimbra, que depois de ter side em 1459 régente do 
reino de Portugal, foi por ultimo deposto, convencido 
etc. Tirso representa-o retirado pela aspereza de una 
montes, disfar9ado em pastor e occupando-se da edn* 
ca^ào de um filho que ignora absolutamente sua con- 
di^ào e classe; este fillio, chamado Mireno, é o proto^ 
genista do drama; cheio de sentimentos nobres e do- 
tado de uma intelligencia superior a dos rusticos que 
o rodeam, chega quasi a suspeitar sua illustre stirpe e 
animado d'està ideia foge do retiro e encaminha^se pa- 
ra a córte resolvido a correr fortuna; a casualidade o 
favorece ; entra ao servilo do ministro favorito e ga- 
nha a affei^ào de sua filha, tao resoluta e determinada, 
comò elle e acanhado e vergonhoso pela ignorancia em 
que tem vivido. Ali se descobre sua origem e nasci- 
mento e a comedia tem assim um desfecho feliz.]» (1) 
Lope de Yoga tambera tratou a historia do nesso 
rei Dom Joào ii na comedia intitulada El Principe 
Per/ecto. Nào nos sondo possi vel examinal-a, transcre- 
vemos aqui a analyse de Ticknor: a quando manejava 
argumentos modernos e especialmente nacionaes, sojfa 
ser mais feliz e muitas vezes imponente e robusto. 
N'este genero póde oitar-se corno modélo caracteristi'* 

{1) Historia de la LiU. Upaii, Epoca li, cèp. 21^ |^. 459. 



318 HISTORIA DO THEATEO PORTUGUEZ 

' co, ainda qiie nào das màis afortunadas em seu exito, 
El Principe Per/ectOj em que Lope tratou de repre- 
sentar com as mais bellas qualidades desenfaando o 
earacter de Dom Joào ii, filfao de Affonso v, e con- 
temporaneo dos reis Catholieos. • . Bepresenta na Co- 
media a Dom Joào batendo-se heroicamente na.des- 
gra^ada batalha de Toro, e restituindo voluntariàmen- 
te o throno a seu pae, que havia abdicado em seu fa- 
vor e reclamara depois o poder supremo. Porém, de 
todas as prendas em que Lope fìmda a perfei^o do seu 
lieroe, sào exclusivamente o valor pessoal e o cumpri- 
mento estricto dos seus deveres; demonstra o primeiro, 
matando pela sua mào e em defeza propria a um ho- 
mem, e sahindo a correr touros em circumstancias mui 
perigosas. Da segunda, iste é do seu amor pela justi- 
9a, se alegam na comedia multiplicados exemplos, e 
entro outros, sua decidida protecgào a Colombo, de- 
pois que o illustre navegante voltou da sua primeira 
viagem, apesar de que as suas immortaes descubertas 
redundavam em faonra e beneficio de um paiz rivai, re- 
conhecendo o erro que commetterà em nào acceitar as 
offertas do habil genovez. Porém d'estes exemplos de 
estrìcta justÌ9a, o mais notavel se refere & historia 
pessoal e privada do personagem principal, e fórma o 
argumento do drama. caso é o seguinte : 

«Dom Joào de Sosa, favorito do monarcha, passa 
por vezes a Hespauha, encarregado de negocia^Oes di- 
plomaticas importantes, e en quanto reside n'aquelle 
paiz vive em x^sa de um parente seu, cuja filila, cha- 



NO SECULO XVII 819 

mada Leonor, uamora. Porém cada vez quo Dom Joao 
volta a patria, esquece-se da amada e a abandona na 
sna dér ; por firn chega ella com sen pae a Lisboa, 
acompanhando a princeza Dona Isabel que vem casar 
com o filho do rei, e o man cavalleiro ousa até negar 
a sua obriga^ào em presenta de Leonor. A amante 
desesperada apresenta-se ào rei e Ihe pinta a sua si- 
tna^ào .... desenlace naturai é o casamento dos 
amantes, feito por ordem do rei e corno acto insigne 
jasti^a* 

«Colombo figura, comò vimos, n'esta comedia; 
aìnda que apresentadp com ponca habilidade, a digni- 
dade das suas preten^es apparece no seu vèrdadeiro 
ponto de vista.» (1) Em outro legar da sua Historìa, 
Ticknor considera este typo de Dom Joilo de Sosa comò 
personifica9ào de Dom Joào Manoel afamado poeta da 
córte de Dom Joiio ii, cujas trovas se acham no Can- 
cionéiro geral, de Garcia de Resende. 

Um dos mais possantes discipnios de Lope de Te- 
ga, Luiz Velez de Guevai*a escreveu sobre os tragicos 
amores de Inez de Castro, a sua tragedia Réinar dss^ 
pues de inerir; a grande Calderon de la Barca, csotcvo 
sobre o cativeiro do Infante Santo o seu Principe 
Constante^ e Joào Perez de Mòntalvflo, escreve sòbre 
o assumpto nacional hieratico de Santo Antonio a sua 
comedia El Divino Portuguez. Os creadores da come'- 



(1) Historia de la Liti, espah. Epoca n, cap. xvi, p. 334, 
t. n. 




320 raSTORIA DO THEATRÓ PORTUGUEZ 

dia de Capa e Espada estavam-nos ensinando o cami- 
nho, e ìnsensivelmente dominando. 

Os amores de Inez de Castro occuparam todas as 
litteraturas da Europa; logp depois da tragedia de Fer- 
reira, o theatro hespanhol apoderou-se d'ella; nothea* 
tro portnguez no secolo xviii foi esse o assnmpto por 
onde OS poetas quizeram restituir & scena o primitivo 
caracter nacional. Temos a Castro de Nicolau Laiz, 
de Manoel de Figueiredo, de Silvestre Silverio da ^- 
veira e Silva, de Domingos dos Beis Quita, de Joito 
Baptista GomeSy de Joaquim José Sabino, e de Sebas- 
ti2U> Xavier Botelho. Nenhum d*estes ^scriptores foi 
mais longe do qne Ferreira. Falando das crea^s lit- 
terarias da Europa no seculo xiv, Victor Le Clerc pOe* 
nos a par de todos os povos com a lenda de Inez de 
Castro. No seculo xvil o theatro hespanhol tambem 
veiu enriqnecer com a sua immensa seiva de vida este 
assumpto quasi esgotado. A comedia famosa de Dom 
Luiz Yelez de Guevara é de todas as que se tem es- 
cripto o qne ha de melhor; elle comprehendeu perfei- 
tamente o espirito legendar da catastrophe, e mais do 
que ninguem coloriu a paixào com uma pronunciada 
gra^a cavaiheiresca, e com uma intui^do da historia, 
que o faz achar recursos e situa^Oes novas. A historia 
pinta-nos Dom Fedro amigo de musica; abre a primei- 
ma scena com o namorado vestindo-se para uma Jor- 
nada, e OS musicos cantando, dizem està cantiga, qne 
anda hoje nas collec^Oes hespanholas: 



NO SECULO XVH 321 



Pastores de MaD9anare8 
yo me muero por Ines, 
cortesana en el asseo, 
Labradora en guardar fé. 



N'isto chega Brito, creado do principe qne Ihe traz 
novas de Inez de Castro; Dom Fedro perganta-Ihe 
por seus filhos Dom AfFonso e Dom Diniz; Inez està* 
va com receio da chegada da Infanta de Navara Dona 
Branca, chamada a Portugal para desposar o prin* 
cipe. Ohega immediatamente seu pae Dom AfFonso iv, 
quo Ihe vem dar parte da chegada da noiva com quem 
tratara o casamento do principe. Dom Fedro pede pa- 
ra falar a sós com D. Branca, e confessa-Ihe que està 
casado com Inez de Castro. A Infanta de Navarra la- 
menta este desaire, reconcentra o odio pela sua rivai 
e procura vingar-se. No entanto Inez de Castro entro- 
tinha-se com a sua aia Violante cacando em volta do 
parque, à espera de Dom Fedro. Em quanto a namo- 
rada esperà, a aia càuta- Ihe um velho solaò: 

Minha sandade 
Caro aenhor meu, 
A quem direi eu 
Tamanha verdade. 
De noite e de dia 
Saudade inìnha 
Quando vos vena. 

Inez adormece,-e sonha que um le&o coroado Ihe ar» 
rebatava os filhos e a matava. Accorda; D. Fedro es- 
tava ao pé d'ella, e a consolai fortalecenda*lk<^ «& %9afta^ 



322 HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ 

esperan9a8; vèm os filhinhos. Apparece a aia a avisar 
que via de longe assomar el-rei D. AfFonso, D. Bran- 
ca de Na varrà, Alvaro Qon^alo e Egas Coelho. rei 
fica maravilhado com a formosura do Incz, e perde te- 
da a malevole&cia que sentia para ella. Dona Bran^ 
ca combina com 09 ministros a morte da sua rivai. 
Aqui termina a primeira jornada. Na segunda appa- 
rece a Infanta de Navatra falando com a sua criada 
Elvira do» ciumes por Inez ; Dom AfFonso vem ao en- 
contro d'ella, e a Infanta accusa-Ihe Dom Fedro corno 
casado; o rei chama Alvaro Gonzalo e Egas Coelho, 
manda chamar o filho e da ordem para que o levem 
pteso para Santarem. principe manda urna carta a 
D. Inez pelo seu criado Brito. Em volta do parque 
de Inez, anda a ca^ar a Infanta D. Branca com os 
dois ministros traidores; encontra a rivai e diz-lhe 
qu^ anda a ca9a de uma gar^a, alludindo a Inez, que 
se chiamava Collo de Garga; Inez responde-lhe que a 
ffarga é branca. Apparece tambem o rei inconsolavel 
com a paixào do principe, os ministros irritam-no cen- 
tra Inez a quem ordena que deixe seu filho; ella de- 
clara-lhe que é casada. Affonso respondo-lhe — agora 
te condemnaste. principe solto da prisfio de Santa- 
rem vem matar saudades dos sous amores, e ^o sa- 
ber da ordem de seu pae, jura a Inez uma constancia 
inabalavel. — A terceira Jornada cometa com o arrui- 
do de uma ca9ada; eram o Principe e Brito que che- 
gavam aos arreilores de Coimbra; Inez e sua aia V^io- 
lanta. estavÀtu toiitav\as txob^lo^o lavrando; a ama can-* 



NO SECOtO XVII • : : 823 

lava, mas Ines^ assiistada eom o àleli', interrompeva» 
N'este ponto Guevaradà a conhecer que Ihó nàoeraiA 
extranhas as trovàs de Oarcia de Resende à motte d^a 
Inez de Castro (1) porque as imita e faz oentfio de al^ 
giins versos: 

iNEZ : Por los campos de Mondego 
CavalleroB vi assomar, 
y segun he reparadp 
se van acercando a cà. 
Armada gente 1<ì8 sigue 
valgaine Dios, quo sera ? 
à guien irah a prènder etc. 

Era o Rei que chegava, j untamente eom Alvaro 
Gonidio e EgasGoelho; Dom AfFonsoordena que Inez 
desila o balcào e Ihe venha falar. Inez respondé que 
descer para falar ao rei nào é baixar é subir. mo- 
nareba està resolvido a matal-a; apparecem os fìlhos 
do principe; o rei vacila entre a piedade e a politica. 
Depois entrega-a aos dois ministros e leva-lhe os fì- 
lhos. A morte nào so passa em scena. No entanto 
chega Dom Fedro a Coimbra; entra na quinta aonde 
vivia Inez; chama, e nao Ihe respondem; a final sàem 
o Condestavel e Nuno de Almeida, vestidos de luto, e 
dào parte ao principe da morte de seu pae, el-rei Af- 
fonso iv. principe chama Inez, manda Nuno dar- 
Ihe parte da sua chegada, e este Ihe declara que Alva- 
ro Gonzalo e Egas Goelho fugiram para Castella de- 

(1) Floresta de Bonumce$f p. 3. 



9M HISTORIA DO THEATBO PORTUGUEZ 

pois de a kevem aésassinaclo. liste golpe é-lhe descar* 
regado quando o Principe dizìa sor. chegado o dia em 
que poderi publicar o seu casamento. Com um raro 
senso artìstico, Guevarfli prepara os presentimentos dp 
principe, com este fragmento de nm romance popnUr, 
qtte se canta vagamente: 

• 

Dondo vas el CaballerOi 
donde vàs triste de ti, 
que la tu querida esposa 
inucrta es, que yo la vi I 
Las senas que ella tenia 
bien te laa «entbre dezir, 
su garganta es de alabastro 
y sus manos de marfil. 

Este romance encontra-se na versào portngaeza 
da Fos do Bernal francezy aonde se encontram estes 
Tersos : 

A tua amada, senlior 
E^ morta, que cu bem a vi ; 
Os sinaes que ella levava 
£u te los direi aqui : 
Levava saia de gala, 
Boupinha de cramesi, 
Gargantilha colorada, 
Pois o ella o quiz assim. (1) 

O romance hespanhol, intitula-se El Palmero. (2) 
A versaó insulana, màis antiga, resa assim: 



(1) Cancianeiro e Romanctiro geral portuguexj t. ili, p. 34, 
notp. 184. 

(2) Duran, Somancero ^eMml^TL^ *2^« 



NOSEOULOXVII dS6 



— Onde te vaea, cavalleiro? 
Vaes tSo furioso em ti. 
«Vòu a ver a minha amada 
Que ha inuito que a nfio vi. 
-^Tua dama jA é morta^ 
E* inolia, qoe eu bem a vi, 
Sete frades a levavain 
N^uraa tuinba de marfim. (1) 



Voltando & exposÌ9ào da comedia de Guevara^ 
Dom Fedro desfallece quando sabe da morte de Ine^ 
de Castro; chegam presoa Alvaro Gonzalo e CoèUio; 
Dona Inez apparece morta sobre urna almofada; Dom 
Fedro corda a sua amante. 

A Comedia famosa El Principe Constante j do gran- 
de Calderon de La Barca, versa sobre a morte do In^ 
fante Santo em Tanger, no cativeiro; està comedi^ 
foi representada em Portugal nos fins do seculo xvui^ 
mas nunca a aproveitaram. A scena abre com Um còro 
de cativos chrìstàos que est&o ado^ndò o trabaiho com 
cantigas; vem Fenix, princeza, filha do rei de Marro* 
cos, acompanhada. das suas aias Bósae Zara; conta» 
,^hes OS seus amores pelo general Muley, mas n'isto 
^em o rei de Marrocos e entrega a sua filha o retrato de 
Tarudante, dizendo que a pretendia casar com aqueU« 
principe. De repente acode Muley, que vem dar parte 
ao monarcha, de que chega urna grande armada da 
Fortnguezes que Ihe vém conquistar Tanger. rei 
sàe a ordenar o seu exercito, e n'este ensejo Fenix de*- 

(1) Cantp$ do Archipeìago, p. 203. 



S26 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

darà a Muley qae seti pae a quer dés^osar com Tarn- 
dante. Muley enfurece-se ao vèr o retrato, e diz-lhe 
quo ella antes devia morrer dq qne acceitar esse re- 
irato. Ouvém-se clarins; desémbarcam os porttigtie- 
zes, trazendo & frente o Infante D. Fernando e sea 
irmào Dom Henrique, seguidos de Doni Jofio Couti- 
nho, Conde de Marialva. Da-se o primeiro recontro, 
e apparece o Infante Dom Fernando trazendo cativo o 
general Muley, a qnem dà a liberdade depois^ que sabe 
a triste historia de seas amores, e a inten<^àp qne tinha 
de deixar-se matar. Tarudante acode ao Bei de Mar- 
rocQS coni o^en exercito, cérca os portngiiezes e dà-se 
a derrot!^ completa dos cbristàos. Dom Fernando é 
feito prisioneiro, mas n&p se dà a conbecer; infeliz- 
tnente Dom Joào Continho vae para defendel-o, e cha- 
ina-lbe sen Infante. rei de Marrocos, diz entdo qne 
esse prisionciro Ihe basta, deixa partir o exereito por- 
tugiiez, e que so soltarà o Infante quando Ibe restitai- 
rem Conta. — Na segunda Jornada apparec^Dom Fer- 
nando cativo; Muley protege-o, grato à liberdade que 
|he dera, e promette deixal-o fugir, mas o rei vendo-os 
tao intimos, entrega a Muley a guarda de Dom Fer- 
nando. D^este modo tornou-se impossivel a Muley 
salvar Dom Fernando, que é o primeiro a nào querer 
que elle falte às ordens do rei. Dom Fernando é bem 
tratadoem quanto està em refens; mas chega sen ir- 
rogo Dom Henrique, trazendo a noticia que morreu 
Dom Duarte rei de Portugal, e deixàra em seu tes- 
tamento quo Ceuta (o&^e ^x^iT^gue ]^lo resgate de 



NO SECULO XVII 327 

Dom Fernando. cativo oppóe-se^ e é desde esie ìq« 
stante qae come^am todos os seus sofFrimentos. Mulej 
tenta por ultimo fazer evadir-se o Infante, mas Dom 
Fernando nào quer matar a honra d^aquelle que tem 
sido para elle tao piedoso. — Na terceìra jornada, Mu- 
ley intercede por Dom Fernando perante o rei, mas 
nada consegue; vem o Embaixador Affonso, propór o 
resgate do Infante por todo o dinheiro que pedir, ou 
entào que declara guerra. rei de Marocos so quer 
Ceuta; parte o Embaixador. Em quanto nào chega a 
armada, os soffrimentos do Infante aggravam-se, de 
modo que ao chegarem os gnerreiros para libertal-o, 
Dom Fernando està a expirar. Desembarcam os sol- 
dados, commandados por Dom Henrique, e a sombra 
de seu irmào cativo vem annunciar-lhe a Victoria. 
Encarni^a-se a lucta; a sombra de Dom Fernando 
apparoce outra vez, allumiando a Dom Henrique e a 
Dom Affonso, que trazem oativos a Fenix, a Tarudan- 
te e Muley. Logo que o rei de Marrocos sabe do 
aprisionamento de sua filha perde teda a fòrga moral, 
e propòe o resgate do Fenix. Dom Henrique pensa 
que o irmào ainda està vivo, e exige a troca duello, 
por todos OS seus prisioneiros. Mas Dom Fernando 
estava morto, e o rei temè que nào queiram o cadaver 
por tao alto pre^o. Dom Fernando quando estava 
cheio de feridas foi repellido por Fenix ;• rogoa-lhe 
urna praga, dizendo que ella valla menos do que um 
cativo assim maltratado. Quando Fenix é eutregue a ' 
seu pae, e o ataùde do Infante sé baixava pelos maros 



328 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

da fortaleza, entào a princeza agarena se lembra da 
praga do cativo. Està tragedia de Oalderon, escripta 
no verso facil da redondilha, entremeado de verso lie- 
roioo quando os grandes lanees o exigein^ e de sone* 
tos nos monologos, està repassada de urna cor sombria 
do mais exaltado catholieismo, e inspirada pelos prin- 
cipios mais absolutos do direito divino. Calderon^ na 
intensidade da cren<^a, tem a for^a de conservar o in- 
teresse e amor pelo cadaver do Infante, corno se elle 
estivesse realmente vivo, porqne toda a sna express&p 
tende a fazer sentir o nada da vida real, e a buscar 
toda a segnran9a na eternidade. 

Em uma foiba volante do theatro do secalo xvnii 
impressa em 1794, achnmos nma imita9ào livre da 
comedia de CalderoD, que se intitula ò Heroe LtisitanQ 
OH Principe constante e martyr^ seguindo o mesmo sys- 
tema de metrifiea9ào, e o mesmo numero de actos. Na 
vasta oollec^ao das comedias de cordel existem muitas 
outras pe^as traduzidas de Calderon e de varios poe« 
tas da escbola de Lope de Yega. 

A este genero que imitamos de Hespanha no se- 
calo xvii, cbamava-se Comedias de Capa e Espada j por* 
que era este o trajo da classe mais do que media, que 
figurava de preferencia nos interesses dramaticos. A 
vinda de Companbias bespanbolas a Portugal, ainda 
no fim dò seculo xvi, acba-se noticiada pelo Padre 
Luiz da Cruz, no prologo das Tragicce ComiecBque Aer 
tiones; o esquecimento da lingua portngueza depois 
du nsarpa9ào hespanboU, e o grande acolbim^ito qne 



NO SECULO XVn 829 

OS noBSos homens deletras encontravam em Madrid, ior- 
naram a cpmedia hespanhola de Capa e Espada a fór- 
ma TÌtal do nosso theatro do seculo xvit. (1) Fomos 
dominados e inflaenciados por Hespanha, mas as suas 
vastaa CoUec^s dramaticas honram-se com as Come- 
dias de Antonio Henriqaes Gromes, Jo&o de Mattos 
Fragoso, Manoel Freire de Andrade, Jacintho Cor- 
detro, e Dom Francisco Manoel de Mello. 

A influencia do theatro hespanhol nào se deve con- 
siderar corno urna causa de decadeneia, mas sim de 
degenera^fto do nesso theatro nacional ; a introdao^fto 
da Opera italiana e franceza, é que fez com que o thea- 
tro caisse em abandono, e està fórma viesse a parar 
outra vez nas m&os do povo. 



»^ (1) Em 1606 escrevia o Padre Luiz da Cruz: «Et quidem 

^ kUes temporibus^ quoddìid genus hominum, moribtiB sane pìnr* 
?^ Hiciosum: Comodi ipsi appellantur.v N^este tempo, na realida- 
^ de, appareceu um genero de homens bastante perìg^soa pelos 
-^' ^eu8 costomes: ellea mesmos se chamavam Gomediantes. Esté 
^. mnctor accrescenta, que depois do desastre de Africa, em 1578, 

^tiham estes comeaiantes com frequencìa da Italia e da Hes- 

panha. 



830 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



O JkJPX'X* \J J^O 



Introducgào da Opera em Portugal (1570-1686) 

Influencia da Reforma sobre a Musica moderna. — AlliaD^a da 
Musica e do Drama. — As Pastoraes na Italia. — Em Portu- 
gal representa-se urna Ecloga de Sa de Miranda. — A musi- 
ca nos Autos de Gii Vicente. — Iniiuencia da musica fran- 
ceza em Portugal no seculo xvi. — Os poetas portuguezes 
eram geralmente musicos. — Francisco Mendes, Rodrigo Ve- 
Iho e Luiz Victoria amigos do Pedro de Andrade Caminha. 
— Vinda de Actores hespanhoes e italianos a Portugal depois 
de 1578. — Naufragio de uma Gompanhia de actores italia- 
nos à salda do Tejo. — A Opera italiana, inventada por Peri 
e Caccini, é imitada em Franca e na Hespanha. — Causas 
porqne a Opera so entrou em Portugal no seculo xvn. — As 
Tragicomedi as dos Jesuitas eram acompanhadas por flautas, 
e terminavam sempre por grandes Córos. — - Descrip^So da 
Tragicomedia Sedecias, — O Padre Frei Luiz da Cruz foi um 
dos principaes librettistas do seculo xvi. — A córte musical 
de Dom Joào ly. — Doni Francisco Manoel de Mello, antes 
de 1644, escreve a opera Juicio de Paris. — Influencia da 
Opera-ballet imitada da córte f ranceza. — A opera Ullyssea, 
no firn do seculo xvii. — Os Vilhancicos. — Repertorio geral 
do Theatro portuguez no seculo xvii. 

Depois da Reforma a sociedade moderDa despia a 
cugula monacai de que estava envolvida; a intelligen- 
cia e a consciencia secularisaram-se, tirando o mono- 
polio da sciencia a classe sacerdotal, libertando-a da 
entrìsteza dos clanstros, abrindo-lhe as Universidades; 
a Arte desprendeu-se da for9ada inspira^ào religiosa e 
fornou-se profana. A Renascen^a das litteraturas elas- 
sicas da. antignidade imprimiu no genio creador està 
tendencia, que se manifesta na mais absolnta esponta* 
neidade de crea^ao na Musica; os poetas e os eruditos 



NO SECULO xvn dsi 

imitavam os exemplares gregos e romanos, os compo- 
sitores inventaramy nào tinham a quem seguir. Quan- 
do a theocracia conseguiu pela prepotencia augurai 
imprimir urna unidade de cren^a nos povos da Euro- 
pa, criou-se urna express&o universa! — o canto grego- 
riano. Depois de formada a burguezia, immediatamente 
as litteraturas modernas se enriqueceram com a renas- 
ceni^a das fórmas dramaticas: a Musica, para sair da 
egreja e tornar-se tambem burgueza e social, ligou-se 
instinctivamente ao tbeatro. Foi no seculo xvi quo se 
deu a alian^a da Musica e do Drama, d'onde saia a 
Opera moderna; està revolu^ào da arte reflectiu-se em 
Portugal, qne n'este tempo caminhava na vanguarda 
da civilisa9ào« Em Italia come^ou-se a introduzir a mu- 
sica theatral nas Pastoraes de Beccari, de Lollio, de 
Argenti e de Emilio Cavalliere. Os Autos de Gii Vi- 
cente terminavam sempre com córos e bailados, imita- 
dos dos Mì/8terio8 francezes. 

No Auto do8 Reis MagoSj apparecem os tres reis 
cantando nravilancele: <cE cantonc/o assi todos j unta- 
mente, ofierecem os Beis seus presentes: e assi mui 
àUgremente cantando se vào. » No Auto da Sibilla Cai* 
Sandra representa-se no meio do espectaculo uma dan- 
qa de lavradoras, ou Chacata^ apoz uma aria ou me** 
lopéa popular; n'este mesmo Auto, Salomfto, Isaias, 
Moysés e Abrahào apparecem em scena: ^eantandoto* 
doi quativ de folta.'» Depois que se abrem as cortinas 
e apparece o menino Jesus, canto^'se um còro de qua- 
tro vozes de Anjos. Estes varios cantos eram goral- 



3S2 HISTORIA DO THBATBO POBTUGUEZ 

mente compostos por Gii Vicente, qae assim o dà a 
eniender n'esta rubrica: <cAcabada assi saa adora^ào 
vantam a cantiga Begmuiej /cita e ensoada pelo auctor.i^ 
Auto termina com um «bailado de terreiro de tres 
por tres]> e por despedida canta-se um vilancete. Ape- 
sar da pequeneza d'este Auto, seis vezes é intermeado 
de musica. No Aulo da Fé^ vera a rubrica final: «Can- 
tam a quatro vozes hum^ enselada^ que veiu de Frati- 
fa,^ eie. No Auto doa. Quatro Tempos^ desoobro GilVi- 
centè a origem da sua imitai^ào musical; ai diz: cAté 
chegaremao presepio vào cantando urna cantiga franee" 
zoy que diz : 

Ay de la nobre 
ViHa de Paris,)) etc. 

J& no anno de 1530 a musica franceza era ninito 
oonhecida em Portbgal; n'este tempo o celebre Jofto 
de Barros citava os varios sjstemasde composi^ào en- 
sàiados por Josquin Despres, e Beguen. Isto nos ex- 
plica o pensamento das rubricas de Gii Vicente. Co- 
mo este documento é de urna alta importancia artisti* 
ca, aqui o transcrevemos. 

Joào de Barros. um dos espiritos mais cultivados 
do seculo XVI em Portugal, considerava a Musica, co- 
rno a consideraram na edade media, formando urna 
parte do Quadrivium. No seu livro dsiliopica pneumaj 
fala nos dois celebres compositores Beguen e Josquin: 
^Yi as outras partes que fazem o numero quadrivialj 
e eata primeira da arismetica, q^ue trata do numero dis** 



NO SECULO XVII 318 

crepto, com as especias de tnayor e menor desi^ualda- 
de: etn qne entrain Arismetica, Geometrica, Harma* 
nica^ com seus termos e diifereni^as. • • Em a theorica 
da musica qne trata do numero oomparado, passei as 
bres consouancias simples: Diapassam^ que entra em 
propor9ào dupla; Diapente em sesquialtera ; Diatepa' 
ram em sesquitercia com todalas suas vozes e interval- 
los, tons e semitons, mayores e nìenores, com que fa90 
obras e composturas mais excellentes que as de Reguem 
e Josquim: porque elles eompòem sómente ao modo 
francez, e eu francez, italiano, e espanhol, que é mais 
saudoso.}» (1) 

No Auto da Mofirui MendeSy apparecem os anjos 
cantando e tocando instrumentos quando se corra a 
cortina para se efFectuar o parto da Yirgem; grande 
parte das pe^as hieratieas de Gii Yicente terminam 
com canto de org&o. Tambem nas^Far^as e Tragico* 
medias segniu o venerando poeta o mesmo systema de 
ìntermedios e finaes seguidos de còros e dan^as. Imi« 
tando as emeladas e cantigas que viuham de Franca, 
Gii Yioente seguiu o espirìto gaulez de Olivier Basse^ 
lin, de Adam de la Hale, de Beaujojeulx, Arcadelt e 
Orlando Lassus, que inveintaram a Opera comica^ que 
se deseuvolveu do antigo vau de vire. A Bazoche re* 
presentava as suas far9as e soties com acompanhamen* 
tò de trompas, hautbois, baixOes e timbales. Em Por- 

* 

(t) Op. cit., p. 78, edi^. do Porto, de 1859. D'està edi^Aa 
tiraràm-se 104 ezemplares. 



334 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

# 

tugal existiam bastantes elementos para qae se creasse 
a musica dramatica: os poetasda corte eram essencial- 
meiite xhusioos. Sa de Miranda e seu cunhado Manoel 
Machado de Azevedo, Dom Joàò de Menezes, Jorge 
de^Monte-Mór, Gregorio Silvestre, o Infante D. Lniz, 
o Infante Dom Dnarte, Garcia de Resende, André de 
Besende eram todos excellentes poetas e principalmen- 
te musicos distinctos. (1) Estes poetas viviam e fre- 
quentavam a córte de reis faùstosos, que estimavam 
a musica. Damiào de Goes caracterisa Dora Manoel 
de mui musicò de vontade^ e de Dom Joào ili achamos 
em urna cartt^ do Conde de Castanheira a oste monar- 
cha, sobre as necessidades do Beino, as seguintes pa- 
lavras: ^E as despezas de Vessa Alteza sào as da In- 
dia, e cà no Beyno, ten^as e moradias, oompras e tbo- 
souro, Capelhy giiardas, relai^òes, ca9a e monte, musi- 
ca e ministrisj e deispezas extraordinarias, etc.» (2) 
Accresce a este fausto palaciano, que grande parte dos 
nossos aulicos e trovadòres viajaram na Italia, aonde 
deviam de tomar conbecimento da nova alian9a da 
musica e do drama; em Sa de Miranda aobamos con- 
firmàda està infiuencia, por isso que a sua Ecloga vn 
foi representada no solar dos Perei ras, quando uni pa- 



(1) Vejn-se a biographìa musical de cada um d^estcs poe- 
tas no livro de Joaquiin de Vasconcellos Os Musicos PortugtLS' 
zes, o inaior monumento levantado, depois de Raczinsky àarte 
naciona), recompeusado com a indifEercD9a da imprensa e com 
as meias palavras dos criticos, 

(2) Frei Luiz de Sousa, Annaes de D. Joào Illy p, 457. 



NO SECULÒ XVII »5 

rénte d'essa caìsa voliòu de Tanis. (1) Sa de Miraii^^ 
relalsionado coni a aristocracia italiana, com o& Colo* 
nnsy com Tolomey, com Racellai, devia ter ouvido fa- 
lar nas celebres Pastoraes.de Beccari, de Lpllio da de 
Argenti; a representa<;ào da sua Ecloga foi por assim 
dizer a introduc^ào da mnsica dramatica das Pasio^ 
raee. Temos urna prova do apparecimento d'este gene- 
ro na Peninsiila, por este trecho de urna Carta do Ab^ 
bade Grillo: e: In summa questa nuova Musica oggidì 
viene abbraciata universalmente delle buone orecchie, 
e dalle Corti de Princìpi Italiani è passata a quelle di 
Spagna e de Francia e d'altre parti d'Europa; etc.» 
£ste documento tambeni se entcnde com Portugal, e 
temos corno fundamento um facto importante conser- 
vado pelo Padre Luiz da Cruz, que floresceu em 1570; 
a època a que este poeta e jesuita se refere, é ò anno 
de 1578, depois do immenso desastre de Alcacer Ki- 
bir. reverendo jesuita lamenta essa vinda dos acto- 
res italianos e IiespanJweSj e escandalisa-se por niio so 
representarem os homens mas tambem a;S mùlheres. 
Os Jesuitas trabaiharahi para lan<^ar fora de Portugal 
OS pobres actores, attribuiam-Ihes a decadehcia dos 
costumes e a corrnp<^ilo da mocidade; comò castigo 
da Providencia conta a morte de um actor celeberrimo, 
qne se enriqueceu em Portugal, e na oocasiào em que 
se retirava para a Italia^ morrea em um naufragio à 
sfaMa do Tejo. Estes dadoa interessantes aoham-se no 

1. " • • • 

(1) Historia dos QuinbetUistae, p. 98. 



936 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

prefltLcio dò livro intitulado Tragica ComiecBqtie A^ 
danet. (1) 

No secalo xvi niio so os poetas eram mnsicos^ mas 
tambeni os compositores mais notaveis tinham estrei- 
ias rela^òes de amisade com os cuUores das Musaa. 
£stavain reunidos todos os elementos para se crear a 
C^)era« Que caasa superior e latente nào deixou ma«» 
tiifestar-se em Portugal o novo genero da Masica dra- 
matica, encetado tao auspiciosamente por Gii Yicente? 
Cabe oste crraie aos Jesuitas, que baniram de Porta- 
gai OS actores italiahos e hespanhoes que nos traziam 



(1) Da V inda do actores hespanhoes o italianoB a Portugai, 
depois de 1578, diz o Padre Frei Lniz da Crnz : «Et post cla- 
dem Africanam, venere soepius ex Italia et Hispania in Ijusì- 
taniam. Attulere primo fabulas quas agebant, plenas flagitiis. 
Agebant non soluni inarw, sed etiain foeminae. Utrìque actio- 
ne pestilenti. Confluebaat data pecunia ad i^ectauduni adoles- 
centes, allique qui rationem Lusitanicae verecundisB non habe* 
bant. At non def nere, qui rei indignitatc pennoti, egenint cnin 
magistratibus, ut ab urbis et oppidis pellerentur. Quin ipsa di- 
vina vis acerbo supplicio celcberrimuin histrionem occidit. Is 
pecuniarum plenus, cuni navcin conscendissct Ólissipone, et 
liaHam cogltaret, in scopulis ad Tagi ostium, tota cuin his- 
trionica faniilia naufragio est extinctus, At cuin isti Comoedi 
inte]ligerent se pelli, quod mali argumenti dragmata afferrent, 
in quae honorum justissima esset querela ; finxerunt specie qui- 
dem honesta, sed exitu ut appara it,flagitiosa. Nam ostcndebant 
jussi illa bona, rithmis elegantibus concinata, dabatur proptc- 
rea facultas ad agendum. Cseterum per intervclU qua^dam 
quasi ludicra parerga proferebant, in quibus impudenta lasci* 
via et turpitude apparebat. Hinc manavit consuetudo latina, 
quam retiuent Comoedi omoes. Emittunt nos hiitripnes qui 
prbpter metum supplicii alicujus, si non dicunt qun religionem 
offendunt, tainen ridondi gratia: sino pudore personati agunt, 
qn«3 à bone neiniue vidm debéntur.» 



NO SBCULO XVII a87 

Pastoraes, e nos seus Collegios de Lisboa^ Evom, 
ìiiibra, Braga e liba de Sam Miguel ìnipoeeram a 
ma by brida da Tragicomédia. Nos verso» de @amìr 
i encontramos o uome de trez musicos celf^bres^ qne 
i escapado aos mais incansaveis invcstigadores; sto 
s Francisco Mendes, Rodrigo Velbo e Luì» Vieto- 
^ todos mortos antes de 1589. Beproduzimos os s^us 
itapbios, escriptos por Andrade Caminha: 

A Francisco HendeS; insigne na mudca 

Tu que passas detem-te, e le e entende 

Quem aqui dcbaixo é feito terra, 
Inda a lembran9a do seu canto accende 

O frio peito, e abranda a dura sorta. 
Quem jà o ouviu, s'outro mais ouve, offende 

Seus ouvidos, e contra si mesino erra. 
Francisco Mendes se chauiou, mas Lino 

M^s Orfeo julgar era mais dino. (Epìt. xsnìUì) 

A Rodrigo Velbo, musico de grande nome 

Rodrigo Velbo foi ó mundo espanto 

Na musica, e na voz branda e sua ve. 
A Alegria fazia o scu bom canto 

Mais doce e alegre, e a penii menos grave. 
Quem ba que ouvisse e ja nfto ou^a tanto 
. Que Alma de grande ddr nam se lh*aggrave? 
A quem lembrarà sua suavidade, 

Que nam tenha alma chea de saudade? (Epit. zxix.) 

l Luis de Victoria, omayor musico de uu tempo j 

e bom Poeta 

Fov Luis de Victoria, cujo esprito 
Foy uà MuBÌ<:a so, nas Musas raro 



338 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

A qnem seu doce canto e brando esento 
Tem dado immortai fama e nome raro. 

Tado na terra acaba, astro infìnito 
Tempo logra no Céo fermòso e claro, 

Onda mais brandamente Alma levanta 
P's versos que mais doce tange e canta. (1) 

Os Jesuitas impediam em Portugal a manifestalo 
de urna nova fórma dramatica^ que na Italia ia adqui- 
rindo o desenvolvimento com que a recebemos sóinen- 
te no seculo xvii. A primeira tentativa da Opera 
na Italia foi o Anfipamaso de Orazio Vecdii, repre* 
sentado em Veneza em 1597, precedida do outra ten- 
tativa feita em 1596 por Emilio del Cavaliere. Se* 
guindo a auctoridade de Tiraboschi, o verdadeiro fun- 
dador da Opera moderna foi o fiorentino Jacopo Peri, 
qne póz em musica a Dafne de Ottavio Binuecini, re- 
presentada em casa de Jacopo Corsi em 1594; logo na 
segunda tentativa de Peri, intitulada Emndice, appa- 
receram pela primeira vez as Arias ; porém estas duas 
representa^òes foram feitas particularmente, e a gloria 
de ter vnlgarisado diante do publico a fórma da Ope- 
ra, cabe a Caccini, que pòz em musica a letra do II 
Rapimento di Cefalo^ poesia de Chiabrera representa- 
do no casamento de Maria de Medicis, a 9 de Kovem- 



(1) Poesias de Caminha, p. 272. Na De/ensa de la Musi- 
ca^ por Dom Jofio iv, vem ci tado o nome de Luys Vittoria en- 
tro Josquim Deprès, Ghersen, Monteverde e outros. Na mo- 
derna Antkologia univer selle de la Musique sacrée véra com- 
fosi^Oes de Luis Victoria entre as de Palestrìna, Orlando di 
'8660; Arcadelt, Haendci. 



NO SECULO XVII 339 

bro de 1600; (1) n'este mesmo anno se repetiu a Eu- 
ridice do Peri, e em 1608 representou-se a Ariannaj 
tambem de Peri, nas bodas de Francesco Gonzaga, 
era Floren9a e Mantua. Jacopo Peri e Gialio Caccini 
foram amigos, e cada qualcedia ao onirò a prioridade 
da nova fórma d'arte. Os maestros come^aram a en- 
saiar. o brilhante systema em outras Pastoraes, e im- 
mediatamente se admittiu o deslumbrante divertimen- 
to nas cortes de Hespanha e Franga. 

No seculo XVII os poetas portuguezes que se dei- 
xaram influenciar pelo theatro hespanhol abragaram e 
desenvolveram unicamente a Comedia de Capa e Es- 
pada; porém OS que abragaram a nova fórma da Ope- 
ra, seguiram a corte franceza, e introduziram essa 
fórma d'arte segundo as transfórmagOes que recebera 
em Franga. Cabe entro nós està gloria a Dom Fran- 
cisco Manoel de Hello. 

Nào abandonando o facto da alianga do drama e 
da musica no seculo xvi, temos a explorar o modo co* 
mo OS Jesuitas abragaram a tentativa da Italia, estere- 
lisando-a nos seus divertimentos escholares. No capi* 
tulo [I d'este quarto livro tratamos das Tragicomedias 
unicamente pelo lado litterario; ellas foram os rudi- 
mentos da Opera que entro nós se desenvolveu so de- 
pois de 1640, na corto musical de Dom Joào iv. As 
Tragicomedias dós Jesuitas eram sempre acompanha* 
das de musica; esses pedagogos inflexiveis bem conbe- 

(1) Tiraboscbi, he: cii. 



340 HI8T0RIA DO THEATBO PORTUGUEZ 

ciam qne se nào podia recitar impunemente seis on 
sete mil v^rsos latinos, de cor edeclamados com todas 
as intona^Oes da rhetorica, sem recorrer ao lenitivo da 
musica, ao desabafo dos grandes córos. O Padre Laiz 
da Cruz, qne particnlarmente se distingniu na com* 
posic^o das Tragicomedias, diz que os Córos eram in-* 
dispensaveis n'estas representa^Oes, avan^ o princi- 
pio que €sem musica o theatro n(io deleitai» e conféssa 
que nas representa<^es dos Coliegios de Coimbra e Evo* 
ra nunca Tragicomedia alguma foi a scena sem acom- 
panhamento de flautas. Diz mais que o canto ou na sce- 
na ou fora d'dia deleita admiravelmcnte, e prevé qne 
n'este genero os portuguezes se poderiam distinguir 
muito. (1) O Padre Luiz da Cruz accusa-se incon- 
scientemente mostrando a falsidade do genero tragi- 
comico, precisando fazer-^se valer pela musica; mostra 
que por causa d'essas festas escholares foram repelii- 
dos de Portugal os actores italianos; reservavam-se 
esses espectaculos para a occasi ào das grandes festas 
da Companhia. Analjsando as seis composi<^Oes es* 
crìptas pelo Padre Lniz da Cruz, vè-se que todos os 
actos terminam com grandes córos; e que a decora^ào 



(1) Da Musica usada nas Tragtcomedias dos Jesiiitas, dls 
o I^adro Luiz da Cruz: aCbori sunt ìd omnibus istis actionibus. 
Sine harmania iheatrum non delectat. Et prseter tibias, quas non- 
qaam defuerunt. semper apud nos cantus expectatus est. Nam 
cor ille Inter anlea darctur male auditas ? Extra prosceDÌam 
ductus in scenam, mirifìce obdelectat. Ideo prodire fecimus, 
^ui canerent ornati. Et in eo genere notum quid possint Lu- 
sitani.» 



NO SBOULO XVII MI 

da scena era cxtraordioarìa e indescriptivel pelo gran- 
de numero de personagens, pela riqueza das roupa- 
gens, e pelos assumptos biblicos declamados em versos 
terenoianos. 

Para que se imàgine o modo comò eram cantados 
OS oóros transcrevemos parte de nm hymno a Cruz, 
com que termina a Pastoral chamadaPo/yMrontW, re« 
presentada em E vera em louyor de Dom Theodosio 
Duque de Bnigan^a, pela occasiào do Nata!. Os Anjos 
lem a Cruz suspeusa e cantam urna prosa correcta e 
simplesy mas sem o sentimento do StahatMater oa;0 
assombro do Dies Ira. Por està letra é faoil de adivi- 
nhar a musica que Ihe caberia. A falta de. a podermos 
descobrir, eis aqui a primeira estrophe: 

Arbor o coelestis agni 

Purpuranda sanguine, 
Non eburna sic rubescit 

Tincta cocco lamina, etc. 

O Padre Luiz da Cruz dedicou o volume das suas 
Tragicomedias ao Bispo de Yizeu D. Jo&o de Bragan- 
9a. No prologo explica o motivo: cAdfuisti specta- 
tor aliquando. Scio placuisse tibi ; et à patre tuo, ea 
qua erat autoritate laudatam Sedeciam^ quando cum 
Bege Sebastiano Conimbricse fuit. » No Pre&cio ao 
Leitor, o Padre Luiz da Cruz traz bastantes noticias 
sobre o tbeatro jesuitico do seculo xvi; ai diz que as 
suas Tragicomedias, impressas em 1605, estiveram 
mais de trista anuos iaeditas: «ist» Àctiooes, qnacwi 



342 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

aliqn» plus triginta annos latuerant.2> Fala do ontras 
muitas Tragicomedias que se perderam: «Concidere 
malta, qnsd viri prsBstantissimi scripserunt*> 

No Collegio das Artes de Coimbra, o costume da 
representa^ào de tragicomedias era quasi obrigatorio: 
cPrieterea reoepta quasi lege, Couimbric» dabantur 
'Tragiesd ComicaBque actiones. Suum sortiabantur diem 
quo apparatu celebri exhibebantur, sed ncque instau- 
rari iterum nec TypographiaB beneficio lucem adspicere 
«olebant. . . Satis illis fuit aliquando ille plausus, quo 
magna AcademisB, Nobilium, popuHque freqnencia 
èxceptdB, suam laudem habùerunt. 9 Padre Luiz da 
Cruz publicou as suas Tragicomedias contra oste cos- 
tume porque os padres Jesuitas Ih'o ordenaram* 

As primeiras tragedias que se representaram eni 
Coimbra, foram antes de 1550, quando D. Joào ni vi- 
fiitou a Universidade: «Venit ante annos quinquagin- 
ta, Joannes tertius Lusitanise rex, parens patrise longe 
carissimus, Academiseque fundator: Conimbricam, in- 
quam, venit ille rex Jeanne^. Docebant viri doctissi- 
mi ex Gallia, Italiaque magnis stipendiis acciti. Bo- 
nas literas tradebant juventuti Lusitana. UH utbene- 
ficentissimo regi adventum gratularentur, Plautinam 
Comoediam plenam autoris salibus dederunt. Sed qui 
interfuere viri graves, et omnium periti literarum, 
nobis adolescentibus rem infacetam ridieulamque fnis- 
se commemorarunt. Secuti fuerunt e nostris qui thea- 
trum magna expectatione occi^)arunt,Qum veris sacra- 
ram /iterarum argumentla^bomtate carminisi apparata 



NO SECULO XVn 343 

scense, actoram elegantk, capiditatetn audiediti non 
modo excitarunt, sed nobis vestigia reliquerunt, iqni- 
bus insisteudum esset^ si in hoo genere aliquid moitri 
juberemur* i> 

A representagào da tragicomedia Sedecias foi ouvi- 
da por Dora Sebastiào em 1570; «Andivit rex Sebas- 
tianns Sedeciam^ cum patruo Henrico eo tempore Car- 
dinali Eraanuelis fìegis filio. Aderant regni proceres 
amplissimi, Antiàtitesque lectissimi. Erat Regi setas 
florentissima. Ipse sexdecim annoram adolescens, equi- 
tandi venandique et armoram cupidissimus. Is tamen 
compositns tranqaillusque sedendo, biduum actam tra* 
gcediam propter rerum mngnitudinem spectayit, quo 
gestii omnibus qui ab eo occulos non remorebant, 
aperte declaravit, spectaculo se delectari. De patruo 

- sene nihil dico, nii «de nobilitate. Detrabere non de- 
stitisset si molestiam percepisset. Erat jam nox secan- 
do die, et funalibus regris accensis chorus captivarxim 
Ixiguhria canehat. Discedebant à theatro actores^ at se 
segre movebant viri Principes, ut obirent; adéo, utap- 

. paruit, spectandi voluptate tenebantur. i> 

Padre Luiz da Cruz, fatando de outras suas tra- 

- gicomédias Prodigo eJos^p/i, accrescenta: cQuid 
.de Prodigo^ quid de •/o^cp/io recensebo? Virum audivi 

astate grandem: doctrina excellentem, primarium, ex 
iis, qui Pontificium jns interpretantur, sibi non cogi- 

- tanti contigisse, qnod in splendidissimis ludornm spec- 
-taculis non tnlisset^ nempe septem boras immobil(^m 

sedissie^ vultum ab Hìa %use: gerebant non removisBeJi> 



S44 HISTORIA DO THBATRO PORTUQUEZ 

Os maitos personagens e as ricas deoora^Oes è quo 
mais agradavam: <(Ita serviendum fati rerum yaramm 
argamento et spectantium voluptati^ cum copia magia 
actorum, quam inopia delectaret. Fatebor ista pr»ci« 
pù» placuisse propter omatum, ei actomm gestam^ 
ac pronunciationem. > 

O Padre Luiz da Cruz expKca o motivo da aliàm- 
^ da Tragedia com a Comedia, abonando-80 com o di- 
to de Mercurio; no Amphitrido de Pianto: 

Faciam ut commista sit TragicoBiedia. 

Eis aenumera^&o das Tragiooraedias do Padre Lniz 
da Cruz: 

1.* ProdigttSy a regio Artinm Collegio Societatis 
Jesudata Conimbricse in publicnm theatrum— - Spec- 
tavit Joannes Suarius Àntistes longe carisaimus, oom 
Academia, omnibusque Urbis ordinis* 

Personagens: Poenitentia, NcDmachlus, Sosia, Pbi- 
lenuSy Androphilus, Sophjronius, Polymedes, Glera, Li- 
tannsy Dulophobus, PamphoguB, Oastrophilus, Arto- 
trogoSy Archedonus, Cylindrus, Phoedromvs, Melpo- 
diuB, Pyrricns, Anarcus, Cepario, Celerdus, GSnjso- 
nomus, Censcientia, Philemòn. As partes mnsicaes 
d'està Tragioomedia sào as seguintesrUm corono firn 
do primeiro acto ; nm canto de crìan^s na sc^ia ytn 
do segundo acto; cantone banquete, (aec« X doaegim- 
do acto). Segundo còro, feehando o segundo aoto« Oa* 
tto còro no firn do teto^io t^tia* — Canto doa 'Etibnm- 



KG SEOULO XVII 845 

geiros, na scena iii, do 4*^ acio. Canto convivìal do 
Dulophobo na scena ix, do 4.^ acto. Còro final do 4.^ 
acto* — Cantigas de Androphilo no banquete (act. V, 
se* 3») Còro v, cantado por crianQas vestidas do anjos 
(act. Ty sa 6) e còro final. 

2/ Comoedia Vita Humana nuncupata, data a Col- 
legio Conimbricensi Societatis Jesiu 

Personagens: Prologo^ Vita Humana, Philantas, 
CharistuSy Orgestes, Birria, Pamphagus^Clitipho^Cho- 
ras SapbicttSy Puer Philanti, Philotius, Cbornssecun* 
dus, PoIypuSy Dorio, Chorus tertias, Eumenes^ Hors, 
Citharedus, Cantus et Chorea Juventutis^ Puer^ Anti* 
pbo, Cboras funebris, Apparitor, Sopbronius, Irns, 
Legatus regius, Oracnlum ilivinum, Cborus quintus* 

3.* Sededasj Tragoedia de excidio Hierosolym» 
per Nabucdonosoreniiacta coram Sebastiano Lusitani» 
rege, et patruo Henrioo^ ac tota Begni nobilitate. Co- 
nimbric» dante regio Artium Collegio Societatis Jesu* 

Acto 1.^: Angelus, Hieramias, Puer, Oracnlum 
divìnnm, Phassurus, Legatus Amraonìtarum, Legatus 
Edomius,Legatns Moabitarum, Legatus Tyriorum, Se- 
decias, Ananias, Jucalcus, Chorus primus. = 2.® acto: 
Hieremias, Puer Hieremise, Ananias, Oracnlum divi- 
mim, Sedècìas, Godolìas, Saphatias, Phassurus, Jucal- 
cns, GudcJias, Tribunus militum, Exercitus Sedeci», 
Nnntius, Chorus funebris* «: 3.^ acto: HieremiaSi 
Oracolum divnum, Puer Hieremi», Qedelias, Godo- 
lfa«, Sedecias, Phassarus^ Saphatias, Exploratores mili- 
tea, Exercitus Sedecia&, Nabuzardanits, Pr»co Naba- 



346 mSTORIA DO THEATRO POETUGUEZ - 

zardani, Oppidani e Manibus, Nabncdonosor, Exerci-, 
tus Assiriorum, Nuncius, Cboriis tertins. = 4.^ acto: 
Pncr Hieramise, Hieremias, Custos Carceris, Phassu- 
rus, Sedecias, Juealcus, Sepbonias, Oracalum divi- 
nnm, Hierias, Sapbarias, GodoHas> Nuntius, Prsecoz 
Sedecise, Oppidani, Nabncdònosor, Chorus quartiis. 
5.° acto: Puer Hiereinise, Hieremias,. Abdemelech, 
Nuntius Sedeci», Exereitus Assyriorum, Oppidani, 
Nabunazardus, Sedeeias, Filii duo Sedecise, Godolias, 
Noregel, Rabsaces, Nabucdonosor, Chorus quintus. 

4'.* Manasses reatitutus^ appellata Tra^icomedia. Pa- 
rabatur ab Academia Eborensi Societatis Jesu, Prin- 
cipibus Brigantinis, et Patruo Tlieotonio Antistiti Ebo- 
rensi, aliosque LusitanidB Proceribus. Propter tempo- 
rum difficultates data non fuit. 

Eram numerosos os personagens d'està tragicome- 
dia, que tambem ó cheia de còros. 

5.* Josephus, tragicomedia nuncupata a Regio Ar- 
tium Collegio Societatis Jesu data Conimbricae, specta- 
vit Emanuel Menesius, Urbis Antites illustrissimus 
Academia, cum ornatissimo omnium Ordinum conses- 
su. (Tambem em cince actos, coni còros funebrcs e 
triumphaes.) 

6.* Ecloga Polychvonius appellata, acta ab Acade- 
mia Eborensi, in grati ani Theodosi Ducis Brigantini^ 
fratrumque Eduardi et Alexandri. Spectavit patruns 
horum Principum clarissimus Aniistes Theotonins, 
cum nobilitate eborensi, (Bepresentada por occasiào 
ilo Niìtnì ; é urna a\iaii^?i do VUhancico com a erudi^So. 



NO SECULO XYII. 347 

• classica. Acaba cotn um hytnno, queos Aajos cantam, 
tendo a cruz nos bra9os. 

No sedilo XVI as Tragiconiedias dos Jesuitas iam 
tornando a ninsioa menosseoundaria; d. Angola TWum- 
pkxnte, do Padre José Leite, distinguta-se por <{umod- 
ro de vozes e de instrumenios multo ajnstados.:^ A 
Beai Tragicomedia, escrìpta pelo Padre Antonio de 
Sousa, e representada na entrada triumphal de Philip- 
pe III em Lisboa, era na maior parte cantada oom es- 
tupendos Córos em quo entra vam trezcntasiiguras; oo- 
mo jà vimos pela descrip^ào de Mimose Sardinha: «Os 
córos de musica foram dos melhorcs Maestros de proi- 
fissào qne existem em Lisboa .d Assim corno os Jesui- 
tas embara^aram o desenvolvimento da Opera, a usur- 
pa9ào hespanhola nào nos foi mcnos fatai; està co- 
rno nos absorveu politicamente, enriquecen-se d nos- 
sa custa artisticamente. ()s principaes musicos que fi- 
zerani florescer està arte em Hespanha, eram portu- 
guezes; para tornar indubita vel o facto basta ci tarmo s 
o nome de Jorge de Monte- Mór, Gregorio Silvestre, 
Alexandre de Aguiar, Francisco Correa Araujo, Ma- 
noel Leitào de Avilez, Estevam de Brito, Antonio Car- 
reira, Frei Estevam de Christo, Frei Manoel Correa, 
Affonso Vaz da Costa, Frei Philippe da Cruz, e ou- 
tros muitos. (1) A està causa accresce tambem o ex- 
gotar-se a actividade artistica dos nossos composito* 



(1) Joaquim de Vasconcellos, 0$ Musicos Portuguezes, 
pMBaim. 



848 HISTOBIA DO THEATBO PORTUGUBZ 

xes em musica exclusimmente sacra, motètes, Tiihsa* 
cicos, psalraos, missas, officios, tonos^ respoosoriosyla- 
dainhas, li^OeSy em firn urna variedade de fórmas mais 
complicadas do qae todas aqnelias que constitaem urna 
Opera. Haviam os elementos, o qoe faltava para a ela- 
borai^fto organica? Urna córte» 

A restaura^fto de 1640, comec^da em D, Jofto ir, 
rei verdadeiramente artista e um dos grande» nmsicos 
do secalo svii, contribaiu pani o desenvoivimento da 
musica profana* Era viva a tradi^fto de Manod Men- 
des e de Duarte Lobo; florescia Joào Soares Bebello, e 
urna pleiada de fecundos compositores corno Joào Al- 
vares Frove, Christovam da Fonseca, Frei Antonio 
da Madre de Deos, Alnieida, Faria, Foga^a e Antonio 
de Jesus. Frei Miguel Leal, desenvolvia o systema do 
seu mestre Duarte Lobo escrevendo para muitas vo« 
zes; OS recitati vos eram tambem jà conhecidos; a ma* 
sica das escholas italianas era recolhida com grande 
venera9(lo na Bibliotheca de Dom Joào iv, que estava 
relacionado com a córto de Luiz xiil, aonde a Open 
fòra admittida. Os Vilhancicosj usados em todas as Ca* 
pellas, tambem tinham a fórma de dialogo e imitavaxn 
as antigas Pastoraes italianas; assim for^samenteha- 
via de apparecer por todas estas causas a Opera em 
Portugal. No celebre livro escripto por Dom JoaoiT 
ìntitulado Defensa de la Musica moderna^ entro ontros 
compositores cita-se o nome de Monteverde,o descobrì- 
dor do accorde da septima dominante, que revolucio- 
non a musica moderna, anullando o canto-chào, ficsfir 



KO.SECULO XYII M9 

do por assim dizer base da harmonia moderna^ d'onde 
80 derivou a musica dramatica» As dan^s das c&rtes 
italianas tambem eram conhecidas ein Poriugal; Dom 
Francisco Manoel de Mello cita a Galharda e a JPwBm* 
nuj no auto do Fidalgo Aprendiz; (1) estas dan<^ os- 
ta vam ein moda na córte de Franca, e jà no seculo XYI 
as achamos citadas por Jórge Ferreira de Yasconcel* 
los. Os ballets francezes por este tempo foram imita- 
dos em Portugal ; Thomé de Tavora de Abreu escreve 
08 Bayles intitulados: El Marinerò perdido^ L(u queaas 
de Cywthiay La Justicia que hiso Pdrùy e El galan en mi 
retiro. Nào se havia recolhido factos por onde se co- 
nhecesse que a 0[>era existira na córte musical de 
Dom Joào IV, e assignava-se a sua introducgào em Por- 
iugal com datas muito recentes. Nas Obras de Dom 
Francisco Manoel de Mollo temos bastantes elementoa 
para determinar a admissfto da Opera; escreveu a le- 
tra para bastantes Màdrigalcs para Mudeay al modo ita- 
liano^ e Cancionetae BalataSy al modo italiano; os Ma- 
drigaes intitulam-se Atuencia^ La Bienvenida e Huyda; 
as cancionetas sào El Aurora^ Aìnor fingido buelto ver^ 
daderOf e El Alva y FUis. Dom Francisco Manoel d« 
Mello esteve em Boma, e elle proprio conta as suas re- 
la^òes de amisade que ai tomara com os Padres Atha- 
masio Kirker, Lorenzo Brancarro de Lauria, Geroni- 
mo Petrnche, Sebastian Balerche^ Ignacio Bonjàano^ 
Felippe Marino, Doctores Miguel Angelo Lualde, Ja- 

(1) Vid. Bupra, p. 268- 



a50 HISTORIA DO THEATRO P0RTUGUE2 

' 4H>bo Oibessio, Albano Francisco Laverà, -Gottinis, Jo- 
iiaSy Bivera, e outros muitos com queni cliscutiria a 
nova fórma da musica dramatica. Em Boma leve 
ìntimidade com Frei Francisco de Santo Agostinho 
Macedoy auctor da tragedia musical Orfeo, represen- 
tada diante de Luiz xiv. Este illustre poeta tambem 
ireqnentou as cortes de Fran9a e de Inglaterra, aon- 
de havia penetrado a musica dramatica inventada na 
' Italia. Vimos que Rinuccini foi o libretista de Jaco- 
^po Peri quo pòz em musica a Dafne; nas festas pelo 
easamento de Maria de Medicis com Henrique iv de 
-Franca, represeutou-se a Euridice, letra de Rinuccini 
e musica tambem de Peri; deu-se o facto em 1600. 
Rinuccini acompanhou Maria de Medicis para Franca, 
aonde Henrique iv o nomeou Gentilhomme, e por isso 
o librettista dedicou-a Luiz xiii os seus verso» em re- 
oonhecimento dos favores que recebera. (1) Rinuc- 
cini morreu em 1621. 

Na corte franceza usavam-se bailados phantasticos 
e alIegorJcos, comò Le triompfie de Mineì*ve, em 1605, 
Delivrance de Renaud, de 1616, Lea Aventurea de Tati- 
erede, de 1619, Marine, de 1635, Noces de Theiis, de 
1654, a que em Portugal correspondem os Bat/les de 
Tfaomé de Tavora de Abreu. A Opera criada na Italia 
nos fins do seculo xvi, estacionou em Franca. Qual a 
causa d'este phenomeno? A aliau^a da musica e do 



(1) Tiraboschi, Storia della Litteratura italiana, t. vir, 
p. 1321. 



NO SECUIjO XVII 351 

drama pareceu aos contemporaneos um facto extraor- 
dinarioy urna cousa fora do naturai; gostava-se, admi* 
rava-se, mas nào se ostava acostumado a vèr falar e 
exprimir ideias e situa^Oes por musica. Para remediar 
està indisposÌ9ào do espirito, que precisa de logica em 
tudo, OS Hbrettistas adoptaram a mythologia comò o 
elemento fundamental da Opera; nào ficava mal que 
OS Deoses e os heroes se exprimissem e entendessem 
por meio de arias, córos e recitativos. Rousseau no 
Dicdonario de Musica explica o facto d'este modo. A 
Circe representada em Franca, em 1580, era phantas-'' 
tica; todos os assumptos lyricos embarravam no ma- 
ravilhoso. Caida no vago da allegoria, a Opera nào po- 
dia progredir; o elemento secundario, o bailado, to- 
rnava a primasia, embara^ava-lhe o desenvolvimento. 
Com oste espirito entrou a Opera na córte de Dom 
Joào IV; Dom Francisco Manoel de Mollo, com a edu- 
caQào portugueza do seculo xyii, era conjunctamente' 
poeta e musico; em 1641 voltou a Portugal, e esteve 
nas bóas gragas de Dom Joào iv; nos pa^os de Al- 
meirim se representou n'este curto periodo o Fidalgo 
Aprendiz. E tambem entro 1641 e 1644, que se devo 
julgar ter sido representada a Opera Juicio de Paris j 
cnjo libretto escreveu. Nas Obi^as metricas, encontra-se 
ainda o: «Prologo heroyco para urna Comedia em Mu* 
sica ó Drama cantada.'s> (1) Pela rubrica que se segue 
immediatamente, se ve o caracter.phantastico da Ope- 

(1) Tom. II, p. 92. 



dot HISTORIA DO THEATBO POHTUGUEZ 

ra: ^Baaard desde el ayre en utm> nube^ un gallardo 
PastoTy qtie represente la figura de Paria.i^ Como a 
scena ostava arranjada, se póde vèr por estes rersos 
quo Paris declama em recitativo : 

Qao es esto? qae misterio? que harmonia? 
que resplendor, qiie assoinbro? que Deidades? 
pensava que a la tierra baxarfa 
y a un cielo voy subir de raridades? 

Jupiter e as Deosaa do Oljmpo apparecem senta- 
dos a urna opipara mesa banqueteando-se; a Discor- 
dia, nào tendo side convidada, lan^a pela mesma nm 
pomo com a divisa: Para a mais formosa das Deosas; 
Juno, Palas e Yeaas qùerem o pómo; Jnpiter arre- 
bata Paris do monte Ida para julgar n^este conflicto 
das deosas. Logo que Paris apparece canta-se um 
€ Coro de Ninfas, prevenido a la musica del Juicio de 
Parisy's^ depois de cada urna das trez deosas cantar 
diante do seu juiz urna romanza: 



JUNO : Juno soy, Paris attiende 

la gran Deidad de los orbes, 
que a Hevar, no a pedir, vengo 
la corona d*este monte. 



Canta mais seis quadras, e por seu turno vem Pa- 
las, que entro outras canta : 

Competir con los valores 
es lid a ini valor facil, 
pero nada venció en fuer^as 
la que no venció en beldades. 



NO SECULO xvn uz 



Yeous, yem sedu^sir Paris: 



Juzga manoebo adYeritdo 
que no juzgas la corona, 
mas la Belle^a que és mas, 
y mas que en damas, en diosaa. 



P&ris pede às Deosas qu6 Ihe infundam o sen m* 
pìrìto para poder dar segnramente o voto: 

Partid, Deidades, ruego 
con migo de vuestro tuego, 
antes que ciegue el juzgar : 
si no és que en tanta luz pura 
para juzgar la hermosura 
es mcnester el cegar. (1) 

E eiitào que vem o Còro das Nimplias, que preea- 
che a scena 6inqtianto Péris decide; pelo final do 
Odro conhece^e que Yenus levou o premio da belleasa. 
Tal é o libretto da Opera de Dom Francisco Manoel de 
Hello. illustre poeta oontinuou a cultivar oste ge- 
nerOy comò se ve pelo idylio comico real intitulado 
La Impo89Ìblej cuja introdncgào é feita pelas allegorias 
de Lisboa, a Fama e a Ribeira de Alcantara. titulo 
de realy da a entender que foi representado na córte. 
Ha abertnra: «Suenon instrumentos musicos; parece 
un mar y del desembarca Lisboa en figura de muger, 
ocupa el teatro, eie» — ^ Sale de una nube la Fama 
alada cerno AngeLi» — <cSale la Ri vera de Alcantara 

^1} Avena de Terpdchore, Bomance uc, p. 79. 



854 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

de Ninfa.i> À maneìra das Pàstoraes italianas, eséreveu 
tambem Dom Francisco Maiioel de Mello La scena en 
los Montes de la Lima^ que se nào representou, por isso 
que na rubrica final se le : a:No se acabó.» enge- 
phoso librettista da córte de Dom Joào iv, escreveu 
mais um cr Anteloquio ou Lóa a urna Comedia de Job, 
<^lebrada em a profìssào de urna novità illiistre.:^ 
espirito catholico e intollerante que enlutàra a sooie- 
dade portugueza nào deixou proseguir n'esta revolu- 
to da arte, em que a Musica e o Dràma creavam nma 
nova expressào para a alma humana. Da Allemanha 
havia partido ò grito da Beforma, e quando na Euro- 
pa ainda se estava discutindo os Direitos do homem 
dìante da prepotencia do direito divino, a Allemanha 
dava Mozart e Beethoven. Era preciso que -a devassi- 
dào da córte portugueza do secula xviii, quando todos 
OS reis se fizeram perdularios para mostrarem assim a 
auctoridade que Ihes fugia, quizesse tambem gastar, 
pagando a Jomelli por urna Cantata 1:200 dncados 
de euro (1), e a Conti, e CafFarelli, por cantarem trez 
mezes em Portugal vinte seis contos de reis I 

Nas sumptuosas cortes do seculo xviii a Opera ita- 
liana formava o principal divertimento. Os principes, 
na maior parte grandes dovassos, estimavam essas in- 
trigas de bastidoi'es, para se encontrarem de perto com 
aspri ma-donas. Lorenzo d' Aponte, o librettista de Mo- 
zart, nas suas Memorias^ monumento da mais franca e 

(1) Musicos Portuguezes, biogr. de D. José, t. i, p. 180. 



KO «ECULO XVn 365 

engra^ada frivolidade, traz excellentes paglnas qite 
mostram os costnmes palacianos d'esse seculo, qae 
assistia à grande agonìa do despotismo. genio ca- 
tholico de Portugal rejeitava por um lado a Opera ita- 
liana; por outro lado o inveterado absolutismo carecia 
d'essa distrao^ào para deslumbrar a nobreza e o povo. 
Nas Memorias da Princeza Dana Isabely fala-se da nl- 
tima vez que se ouViu mnsica italiana ein Lisboa no 
seculo XVII em 1682: «Chegoa no eatanto a comi- 
tiva do Daqne de Saboia a Lisboa, e foi està occa- 
siào a primeira gite m ouviu em Lisboa musiea Italia' 
noj devendo entào tanto escarneo, comò hoje apro- 
no.» (1) Nao foi preciso qne decorresse muito tempo/ 
para o Bispo do Grào Para se queixar das grandès 
sommas gastadas por Dom Joào v com o theatro italia- 
no. Na Embaiasada (pufez o Cotide de Vilar MaioTy se 

- conta corno em 1686, reinavam estes costnmes na cór- 
te de Filippo Gnilberme, d'onde a rainha, segunda 
mulher de Fedro li, Maria Sophia Isubel, traria para 
Portugal esse dispendioso fausto; o secretario do Con- 
de assiin narra a Opera representada à partida da rai- 

' nha: «A comedia foi cantada ao modo de Italia com 
muitas apparencias, em que se . ostentou tudo o que 
comprebendem os limites do esplendor e da mugnifi- 
cencia. Era o titulo da Comedia Uli/ssea, e o argu men- 
to a funda9&o de Lisboa, em que a formosura da nym- 

(1) Fedro Norberto d'Aucourt e Padilha. — Padre Luiz 
da Cruz conta que depois de 1578 vieràtn actores italianos a 
Portugal. 



S$6 HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

pba Calypso, e os affectos de UIyases davam mnìerìg 
ao poeta para allegorisar a ac^ao presente, concluindo 
sempre oom faustas accIama^Oeis a felicidade d^esie 
real consorció ; e corno a coinedia era grande e a ma- 
Bica com que se represenfcaira a fazìa maior, occnpooa 
<sfia repre8enta9ào duas tardes, rematando-se o ado 
oom um baileie, em qae entraram os princip&efl vardes 
mascarados: "» Dom JoSò v herdiira eates habitos fiuu- 
losos, e dispendeu as grandes rìqaezas da na^ào por- 
tagueza em carrilhòes de sinos, cantores « barreies 
cardinalioios. poder monarchico cifrava-àe entàoem 
gosar e gasiar. Os poemas e versos dos poeias do se- 
oulo xviii abundam em referendas aos nsos cfi/fetoa- 
tè»(>8 introdazidos pela realeza em PortngaL 

Depois de discatidas as òrigens da Opera entro 
nós, resta-^nos falar dos Vilhancicos; està fórma dra- 
matica é esseucialmente musical, e o seu caracter re- 
ligioso contribuiu tambem para nào deixar desenvol- 
ver a Opera. Os Vilhancicos desdè o seculo xv se usa- 
ram immensamente pelo natal e reis, nas festas da Pe- 
ninsula; encoutramol-os em Juan de la Eucina e em 
Gii Vicente. No secnlo xvii a parte litteraria tomoa-ie 
accidéntal e pretexto para a musica. Na Poetica de 
Rengifo encontramos o mechanismo d^esta fórma ob- 
soleta: € Vilhancko es un genero de copia, que solamenn' 
te se compone para ser cantado» Los demas metros air- 
ven para representar y para enseflar, para descrivir, pa- 
ra historia, y para otros propositos; pero este solo para 



NO SBCULO XVir ^7 

Za musica. » (1) Os Vilhandcos do seoulo xvii eram Ht- 
terarios e mnsicaes; os primeiros tem um mecbanismo 
complicadoy constam de cabefa^ ou copia de dois, trea 
Oli quatro versos a imitando da represa das Baladas ita- 
lianas; e de pé^ oa copia de seis versos, que é corno 
urna glosa; os primeiros dois versos do p^ chamam-se 
primeira mudanfa, os segundos dois versos, segunda 
tnudanfay e os nltiinos^voZ^a. Dos Vilhandcos musicaes, 
dÌ2 Bengifo: «Otros vilhandcos ay, que se conformai! 
en la quantidad y nnmero de las syllabas con él punto 
de la musica en que se cantan^ y Ilevan mas ò menos 
largos versos segan Io piden las fugas qtie se hazen en 
las sonadas. Destos no se puede dar regia cierta, por- 
que penden de la musica, de suerte que el que los 
uviere de componer o hade ser musico^ ò, al o menos 
tener buon oydo para que, vyendo la sonada, la sepa 
acomodar el metro. "» Dom Francisco Manoel de Hello 
escreveu bastantes Vilhancicosj que differem dos Tonos 
e Romances tambem cantados, em serem dialogados» 
celebre compositor Joào Alvares Frove, bibliotheca- 
rio da Livraria Musical de Dom Joào iv, escreveu Vi^ 
Ihancicos a quatro e a seis vozes; a musica dos Vilhan^ 
cicos cantados na Capella de Dom Fedro ii era escrip* 
ta pelo nào menos celebre Antonio Marques Lesbio, 
amigo de Dom Francisco Manoel de Mollo. Felippe de 
Magalhàes, cujas obras estavam na Livraria de musi- 
ca de Dom Jo&o iv, tambem escreveu Vilhandcos da 

(1) ArtepotUca e§pafiola, cap. xxix e xxx. 



368 fflSTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

Natividade a sete vozes. Todos os musicos e poetas do 
seculo xvxi cultivaram e coadjuvaram-se na composi- 
9ào d'està fórma. Seria impossivel apresental-os to- 
dos, achando-se recoihidos os seus nomes e o titulo 
das suas obras na Bibliotheca LtisUana de Barbosa 
Macbado, e nos Musicos Portuguezes de Joaquim de 
Yaseoncellos. Assim comò a Opera estacionou em 
Franca com as allegorias mythologicas, em Portugal 
nào conseguiu radicar-se, por causa do seu caracter 
profano e pelo uso esclusivo dos Vilhandcos do Natal 
e Beis, que se tomaram privati vos das festas religio- 
sas de urna na^ào atrophiada pela falta da liberdade 
politica, e da liberdade de consciencia e intelligencia. 
Pela historia do theatro portuguez n'este secalo, 
se ve que nào podia resistir centra tantas causas dis- 
solventes que o destruiam; foram ellas, a comedia 
classica da Renascen9a, os Index Expurgatorios^ as 
Tragicomedìas dos Jesuitas, a influencia das comedias 
hespanholas de Capa e Espada, o mau gosto do Seis- 
centismo, e a introduccjào da Opera italiana. pro- 
cesso longo e incansavel para alevantar o theatro na- 
cional debaixo d'estas ruinas, feito pelos escriptores 
dramaticos do seculo xviii, merece um estudo parti- 
cular. Encetemol-o. 



NO SECULO XVn 369 

Repertorio geral do Theatro Portuguez no seculo XVl 

(Continualo) 

1556 — Comcdia sobre o verso: Venit post me, eto., por Anto- 
nio do Azevedo. 
1556 — Joannes Baptista, tragedia, por Diogo do Paiva de An- 

drade. 
1556 — Eduardus, tragedia, idem. 
1556 — Comedia do grande Padre Santo Agostinho, por Frei 

Thomé de Jesus. 
1556 — De Obitu Saulis et Jonath», tragedia, pelo Padre Simfio 

Vieira. 
1556 — De Casu Heli, tragedia. 

1557 — Represcnta9do dos gloriosos feitos, por Sebastifto Pires. 
1557 — A Nau do filho de Doos, idem. 
1557 — Auto do Pé de Prata, por Simfio Garcia. 
1558-1570 — Prodigus, tragicomedia do Padre Luiz da Cruz. 
1558-1578 — Auto do Fidalgo de Fiorenza, por Jofio de Escobar. 
1558-1578— Auto de Gii Ripado ou de Doni Bemardim, por 

Francisco Luiz. ^ 

1558-1578 — Auto do Franto de Magdalena, por Frei Braz de 

Resende. 
1558-1578 — Auto do Franto de Sam Fedro, idem. 
1558-1578 — Discurso Naturai, comedia em prosa, por Gaspar- 

Gii Severim. 
1558-1578 — Outras coinedias, idem. 

1558-1578 — 100 Comedias mannscrìptas, de Antonio Peres. 
1564-^Tesorina, comedia anonyma. 
1564 — Aguilena, comedia auonyma. 
1564 — Os doze Ajuntamentos dos Apostolos. 
1564 — ComoedisB et Tragedise ex Veteri Testamento. 
1564 — Placido e Victoria, ecloga trovada, anonyma. 
1564 — Re8urreÌ9Ìk> da Celestina, anonyma. 
1564 — Tragedia de Libero Arbitrio, anonyma. 
1570^- Vita Humana, comedia do Padre Luiz da Cruz. 
1570 — Sedecias, tragedia, idem. 
1570— Manasses restitutns, idem. 
1570 — Josepbus, tragioomedia, idem, 
1570 — Polychronius, ecloga, idem. 

1577 — ^Tragedia Sancii Joannis BaptistsB, pelo P. Antonio de 
Abreu. 



«eO HISTOEIA DO THEATRO PORTUGUEZ 

1581 — Caterìoa de Genoa. 

1581 — Cotnedìa la Sancta, anonyma. 

1581 — Colloquio das Damas, aDonyina« 

1581 — Dialogo onde fala Liifctknciò e um Arccdiagò, anonymo. 

1581 — Dialogos da unifto d'alma com Deoa, anonymo. 

1581 — Susanna, coroedia-tragica^ anonyma. 

1581 — Comcdia Joannis Reuchlin Phorcensia. 

1595 — Daniel, tragedia, por Antonio Goiuea. 

1597 — Comcedia et Tragsedia coUectore Joane Operino. 

1597 — Ck>niedia super qusestioncra : Quie est maior consolatio 

morienti. 
159... — ^Tragsedia Sanctse Catharìnse Martyrìa Alexandrinse, 
Ms. por Frei Anselmo Xuquer. 

Seculo XVn 

§ I — Tragicomtdiaa da» JeiuUdu 

1600 — Tragicomedia Paulinus NoIsb, por D. Affònao Mendes. 
1603— Tragicomedia N abuco do Nosor, pelo P«* Jo&o da Rocha. 
1606 — Comedia famosa de Santa Maria Egypcìaca, por Frei 

Isidoro Barreira. 
1614 — OrphduB, tragicomedia por Frei Francisco de S. Agosti- 

nho Macedo. 
1619 — Saccr Hercules, tragicomedia do Padre Pedro Peixoto. 
1619 — Real tragicomedia do Descobrimento e Conquista do 

Oriente, pelo Padre Antonio de Scusa. 
1619 — Famosa tragicomedia da Conversfto penitente,, e morte 

de Santa Maria Egypciaca, pelo Padre Luiz Ribeiro. 
1620 — Angola triumpliante, pelo Padre José Leite. 
1620 — Santo Ignacio, tragicomedia anonyma. 
1628 — Herodes seviens, por Frei Manoel Rodrigaea. 
1631 — Rudericua fatalis, idem. 

1635— Sanctus Eustachius Martyr, pelo P.* André Femaodes. 
1669 — Agiulphus, tragicomedia anonyma. 
1686-1737— De Santa Felicidade e aeus fìlfaos, por Frei Fran- 
cisco Xavier de Santa Thereza. 
1688-17. . — Dissidium de prìmata inter Inaulaa, vulgo AqoxtBf - 

pélo Padre Madnreira Feijé. 
1688-17. . — Verior Ganimcdk raptus, tragieomediai idem. 
169. — Concerà discordia, tragicomedia anonynia. 
16. . — Vieira Inspirado, Opera, ou Dialogo. 



HO 8ECUL0 XVII m 

§ U-^Esohola de Gii Vicenùe ■ 

1600 — Auto do Nnscimento de Christo, por Antonio Plrefe 

Gonge. 
1600 — Auto da Epiphania, idem. . 
1600 — Auto da RessuiTcÌ9ao de Christo, idem. 
1600 — Auto do Santa Maria Magdalena, idem^ 
1600 — Auto da Rainha de Saba, idem. 
1600 — Auto de Babylonia, idem. 
1600 — Auto eobro aquellus palavras do Evangelho: Vigilata 

mecum, idem. 
1600-1700 — Auto do Nascimento, por Clemente Lopes. 
1600-1700 — A Comedia de Santo Antonio, idem. 
1604— -Auto da infame cidade de Penta polis, por Antonio Piree 

Qonge. 
1610-1640 — Auto e Colloquio do Nascimento de Christo, por 

Francisco Lopes Livreiro. 
1616 — Auto do Nascimento de Christo e Edito do Imperador 

Augusto Cesar, por Francisco Rodrigo es Lobo. 
1626 — Representa9Ao das nove Musas, por Miguel Leitfio. 
1626 — Colloquio ao divino sobre a restaura^&o do mundo, idem. 
1626 — Passo da Assump9fio de Nossa Scnhora, idem. 
1640-. . . . — Auto do Nascimento de Christo, por Manoel No- 

gueira de Scusa. 
1640- . . . . — Auto comico da Adora9So dos santos Reis Magos, 

idem. 
1641 — Auto do Fidalgo Aprendiz, por D. Francisco Manoel de 

Mello. 
1658 — Musa Entretenida, contendo 25 Entremezes, por Manoel 

Coelho Rebello. 
1669 — Auto da Vida de Addo, por José da Cunha Brochado. 
1670— Entremez das Donzellas, por Gregorio Ayrea da Motta. 
1675 — ^Tratado da PaixSo, pelo Padre Joao Ayres de Moraes. 
1676 — Maior fineza de Amor, por Soror Maria do Céo. 
1676 — ^Amor e Fé, idem. 
1676 — As lagrimas de Roma, idem. 

1676— Trinmpho do Rosario repartido em cinco Aiitos, idem. 
1678 — Auto da Lavradeira de Ayró, por Sampaio Villas Boas. 
1678 — Mercurio divino, Auto Sacremental, por José Correa de 

Brito. 
1678—4 Autos Sacramentaes, por Manoel Thomaz. 
1678 — 5 Comedìafi, idem. 
ìdVS—VarìaB LÒ&b e Vilhancico», idem. 



ièì HISTORIA DO THEATRO PORTUGUEZ 



1678 — Auto do Sansfto, por Fedro Vaz Quintanilha. 
1678 — Auto de Sam Braz, idem. 

1678 — Auto do Nascimento de Chrìsto Senhor nosao, idem* 
1680 — Oriente illustrado, Primicias gentilicas, por Frei Lucas 
do Santa Catherina. 

§ m — Comedias hespanholas de Capa e Espada 

1619 — El Rosiclcr de la Aurora, y admiracion de los montes, 

por Frei Gaetano de Santo Antonio. 
1621 — De la entrada del Rei en Portugal,poT Jacintho Cordeiro, 
1621 — Duarto Pacheco, 1.* e 2.* Parte, idem. 
1621 — Vitoria del Amor, idem. 
1621 — No ay plazo que no llcgue, ni deuda quo no se pagae, 

idem. 
1621 — Amar por for^a, idem. 
1621 — El .juramento ante Dios, idem. 
1621 — El hijo de las batalhas, idem. 
1621 — El mayor transe de amor, idem. 
1621 — El soldado reboltoso, idem. 
1621 — El Valiento negro de Flandrcs, idem. 
1621 — Lo que es privar, idem. 
1636-1711 — Hay amigo para amigo, por Manoel Botelho de 

Oliveira. 
1636-1711 — Amor, engafios y zelos, idem. 
1636-1711 — Yo nada, entremez de Thomé de Tavora de Abrea. 
1636-1711 — El sueiio do Mengo, idem. 
1686-1711 — La horcada fìngida, idem. 
1636-1711 — La cena del Huesped, idem. 
1636-1711 — El sancristano afeitado por lahijadel Alcad,idem. 
1638-1 695-— Los Apostoles de Christo, por Estevam Nunes de 

Barros. 
1638-1695 — La Virtud vence el poder, idem. 
1638-1695— El honor vence el poder, idem. 
1640 — Laberynto de amor, por D. Francisco Manoel de Mello. 
1640 — Acclama^ao de D. Jofto iv, por Christovam Ferreira. 
1640 — Casador del Cielo, por D. Bemarda Ferreira de Lacerda. 
1640 — Comedia de Santo Eustachio, idem. 
1640— La Vida de Santa Helena, por D. Brites de Sousa e Mello. 
1640 — Yerros emendados y alma arrepentida, idem. 
1640— El Rei Phìlosopho ^ngv^o^yw QwiUuo Souea Brandio. 
1640 — Como se adquite e\\M>iiot,\àBai, 



NO SECULO XVn d6S 



1640 — Ày amor onde ay agravity, por Gaetano Sonsa Brandfio, 

1640 — Amante haze amor, idem. 

1640 — La Margarita del Tajo, que dio nome a Santarem, por 

Dona Angela de Azevedo. 
1640 — El muerto dissimulado, idem. 
1640— Diclia y desdicha del juego, y devocion de la Virgem, 

idem. 
1640 — Comedias de Santa Iria, por Dona Isabel Senhorinha. 
1640 — Estrella errante, idem. 
1640 — Noutes de Sol, idem. 
1640 — Obras de Miaericordia, idem. 
1641 — El Cardenal Albòmoz, !.• e 2.* Parte, por Antonio Hen- 

rìqueB Gomes. 
164 ~ 
164 
164 
164 



— Enganar para reynar, idem. 

— Diego de Cafnus, idem. 

— El Capitan Chtnchilha, idem. 

— Fernan Meudes Pinto, l.*e 2.* Parte, por Antonio Hen- 
riques Gomes. 
1641 — Zelos no ofenden al Sol, idem. 
1641 — El Rayo de Palestina, idem. • 
1641 — Las Soberbias de Nembrot, idem. 
1641 — A lo quo obligan los zelos, idem. 
1641 — Lo que passa en media noche, idem. 
1641 — El Cavallero de Gracia, idem. 
1641 — La prudente Abigail, idem. 
1641 — A lo que obliga el honor, idem. ^ 
1641 — Contra el amor no ay engafios, idem. 
1641 — Amor con vista y cordura, idem. 
1641 — La fuerza del herdero, idem. 
1641 — La Gasa de Austria en Espafia, idem. 
1641 — El Sol parade, idem. 

1641 — El Trono de Saloman, 1.* e^2.* Parte, idem. 
1641 — Torre de Babylonia, idem. 
1641-r— Aman y Mardocheo, idem. 
1641 — El Gaballero del Milagre, idem. 
1641 — No ay contra el honor poder, idem. 
1645 — La mayor hazafia de Portugal, por Manoel de Araujo de 

Gastro. 
1645 — Dialogo gracioso de Terracu9a, por Pedro Salgado. 
1645— Theatro do mundo, idem. 

1645 — La desgracia mas felice, por Antonio de Almeida. 
1645 — El harmano fingido, idem, 
1646 — Hospital do mundo, por Pedro Salgado. 



su HISTORIA DO THEATBO POfituaUEZ 

1656— La humana Bar9a abrasada, el gran Martyr Sam Lon- 
ren^o, pelo Padre Antonio de Aliueida. 

1658 — La Verdad punida y la lisouja premiada, por Manoel 
Coelho de Carvallio. 

1663 — A maior gloria de Portugal e a afEront^ xaaior de Cas- 
tella, idem. • ' 

1670 — Los secrctos bien guardados, por Dom Francisco Manoel 
de Mello. 

1670 — De burlas hace amor veraa, idem. 

1670 — ^El Domine Lucas, idem. 

1670 — El Juicio de Paris, Opera, idem. 

1670 — LOa para a Comedia de Job, idem. 

1670 — La Impossibile, idem. 

1670 — Scena en los Montes de la Luna« idem. 

1670 — El Redentor Cautivo, por Jofio do Mattea Franoso. 

1670 — El yerro del entendido, idem.. 

1670 — La dicha por el desprecio, idem. 

1670 — El sabio cn su retiro y villano eu su riocon, idem. 

1670 — Pocos b-^.8tan si san buenos, idem. 

1670 — Calar sieinpre es mejor, idem. 

1670 — La venganza en el empeiio, idem. 

1670 — Mais 25 Coniedins na Collec9ao escolhida. idem. 

1670 — Verse e tenerso por muertos, por Manoel Freire de An- 
drade. 

1672 — Historia de Nossa Senliora da Gloria, por Francisco Lo- 
pes Pestana. 

1672 — Dialogos entre Portuguezes e Castelhanos, idem. 

1676 — En la cura va la flexa, por Soror Maria do Geo. 

1676 — Perguntarlo a las Estrellas, idem. 

1676 — En la mas escura noclie, idem. 

1676 — Duelos e zelos hazen los horabres necios, por Gregorio 
Ayres da Motta. 

1681-1713 — La Corona por justicia, por Antonio Bento Figueira. 

1684 — Le que pueden las estrellas, por Frei Antonio do Santa 
Escholastica. 

1684 — Comedias Varias, do Padre Antonio Fernandes de Barros. 

1692-17. . — Aguilas hijas del .Sol, por Braz Luiz de Abreu. 

1696 — La Fineza Coronada, por Frei Antonio de S. Quilherme. 

1696 — Desvios no son desprecios, por D. Francisco de Atbayde 
Sotomayor. 



-y